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Ensaio sobre a Tectonica moderna do Brasil

Ruy Ozorio de Freitas

Resumo


No presente trabalho o autor estuda o tipo de tectonismo que afetou o escudo brasileiro após a ultim a revolução orogenetica registrada no dobramento da serie Bambuí (diastrofismo caledonico?) e conclue pela existencia de um so tipo de deformação tectonica no Brasil responsável pela sua historia geologica do devoniano aos tempos atuais, o de caracter epeirogenico. Os fundam entos desta tectonica acham-e em dados estratigraficos, geomorficos, estruturais e fisiograficos, sendo reduzido o numero dos elementos estruturais disponiveis: 1 — As variações do nivel estratigrafico da base do grupo Irati constituem um elemento estrutural valioso indicador do tipo de tectonismo operado no sul do Brasil, após o permiano pelo menos. Esta formação chave acha-se deslocada verticalm ente a varios niveis, sem dobramentos, o que indica fatalm ente a ação de falham entos normais, característicos dos levantam entos epeirogenicos. Mesmo que se adm ita o Iratí como um facies m igrante, as discrepancias da base do grupo não se enquadram nessa variação faciologica. Onde esta formação se m ostra perturbada por eruptivas basicas do diastrofismo retico, nos locais de sondagens e afloramentos desprezou-se a contribuição estrutural dessa formação. O nivel da base do grupo Iratí exibe um a grande charneira em Santa Catarina. Deste estado para o norte, esta formação ocorre com grande desenvolvimento superficial e am parada no levantam ento da Serra Geral e com desenvolvimento vertical. Deste fato resultam duas providencias estratigraficas, reconhecidas ja por PAIVA (132). Na primeira, ao norte de Santa Catarina, as formações sobem na coluna geologica e descem na topografia, enquanto ao sul desse estado, sobem na coluna e na topografia, pois em lugar de aflorarem em um planalto, ocorrem em um a escarpa. Esta perturbação é m oderna ficando entre o carbonifero e o retico. 2 — As formações cretaceas, gerais no Brasil, acham-se hoje sobrelevadas em relação ao nivel em que form a depositadas, pois se m ostram fortem ente dissecadas, reduzidas frequentem ente a ilhas sobre o embasamento variavel de rochas do arqueano ao triassico. Geneticam ente o cretáceo brasileiro decorre de sedimentação m arinha e continental. O cretáceo continental, afossilifero m uitas vezes, ocupa o tecto dos planaltos geográficos do interior, alcançando até 1.200 metros. O cretáceo m arinho e mixto, ao contrario, ocupa as fossas tectonicas ou as faixas junto à orla costeira, apresentando-se frequentem ente com perturbações diastroficas im portantes como am arrotam ento e fraco dobramento. Este fato confere idade post-cretacea ao tectonismo responsável por estas deformações, como acontece em Salvador, Bahia. Assim, as perturbações tectonicas que afetem o cretáceo, tanto m arinho como continental, são de indiscutivel natureza epeirogenica, pois desconhecem-se perturbações orogenicas. 3 — Q uanto aos relevos policiclicos, verifica-se que o estabelecimento de varios niveis de superficies de erosão vem citado como prova geologica de levantam ento epeirogenico. “BUCHER (19, p. 424) endossa esse conceito afirm ando: The chief recorã of upwards movements of the past is found in surfaces of erosion” Foi discutido o testem unho dos relevos policiclicos apenas na area do embasamento cristalino, onde aparecem nitidam ente dois antigos peneplanos marcados na topografia e distribuídos em tres areas distintas: a) nordeste, b) zona chanfrada pela Serra do Mar, M antiqueira e Espinhaço e c) Rio Grande do Sul. a) Na zona do Nordeste existem dois peneplanos e um a recente retom ada de erosão, que rejuvenesce francam ente o peneplano de nivel inferior. O de nivel superior localiza-se de 700 a 1.000 metros pois se acha inclinado, e o de nivel inferior de 100 a 200 metros. O primeiro recebeu a designação de nivel B, estabelecido no cretáceo, o segundo de nivel A term inado no fim do terciário ou começo do quaternário. Esta ultim a superficie constitue talvez um dos raros peneplanos do mundo ainda conservado “sur-place”, e que agora começa a sofrer retom ada de erosão pela recente ascenção epeirogenica responsável. b) Na zona chanfrada pela Serra do Mar, M antiqueira e Espinhaço ha igualm ente, dois niveis de superficies de erosão, tam bém designados — o superior de nivel B e o inferior de nivel A .O primeiro ocorre entre 1.200 e 1.400 metros e o segundo entre 800 e 1.000 metros. Ambas estas superficies possuem monadnocks, topografias residuais, devidos a resistência maior da rocha que retarda o processo na m aturidade enquanto o restante atingiu a senilidade nas demais rochas menos resistentes. Este é o caso do Jaraguá e da Serra da C antareira em São Paulo, que constituem topografias residuais do peneplano de 800-1.000 metros por serem constituidos respectivamente de quartzito e granito. O primeiro peneplano é referido ao cretáceo e o segundo ao fim do terciário ou começo quaternário, pois a sua superfície desenvolve-se em rochas das camadas de São Paulo, consideradas pleistocenicas, e rochas do arqueano, sem solução de continuidade e niveladas no mesmo plano. c) Na zona do Rio Grande do Sul o relevo apresenta os mesmos característicos do nordeste, em niveis equiparaveis, com o mesmo quadro fisiografico. Conclue-se que estes relevos policiclicos indicam tres movimentos pulsatorios de ascenção do escudo brasileiro. Um no cretáceo, um segundo no terciário responsável pela escultu ra do peneplano de nivel A, e um terceiro atual, com etapas menores como testem unham os terraços marinhos. 4 — Os peneplanos de nivel A e B, na zona chanfrada pela Serra do Mar, M antiqueira e Espinhaço, apresentam -se seccionados retilineam ente, de ENE-WSE (as vezes NE-SW) ou de NNE a SSW, por imponentes escarpas cuja natureza tectonica foi debatida. Ao lado desses bordos retilineos encontramos regiões acima do nivel geral de 1.200-1.400 m, o nivel B, colocadas a 1.600, 2.000 e até quase 3.000, às quais devem ser conferidas origem tectonica e não resultantes de um processo mecânico de peneplanização, pois são estritam ente locais e não regionais. Estes peneplanos falhados são do nivel B, pois parecem não atingir o nivel A, fato que indicaria um a m aior ascenção e ru p tu ra do escudo brasileiro, no fim do cretáceo ao cenozoico. Algumas destas regiões identificam-se com tipicas m uralhas tectonicas como Campos do Jordão, Itatiaia e o Caparaó 5 — Q uanto ao terraceam ento m arinho e fluvial, encontram -se no litoral do Brasil Meridional 3 niveis de terraço de abrasão, respectivam ente a) 50-60 m, b) 25-30 m e c) 7-10 m, e terraços de construção m arinha entre 5 e 7 m. Conhecida a vulnerabilidade da conservação destas formas sob o intem - perismo do clima atual, estes niveis só podem representar episodios dentro do quaternário, relativos ao ultim o movim ento ascencional. Na Ribeira de Iguape ha terraços fluviais que coincidem com os m arinhos limitofres, confirmado assim a mesma historia tectonica de levantam entos episodicos modernos na costa. Pelo terraceam ento constata-se um a continua elevação do trato costeiro do Brasil Meridional, conceito que pode ser extendido ao norte e nordeste segundo o testem unho de DERBY, HARTT, etc. Este levantam ento contradiz-se com a topografia costal atu al que exibe nitida submergencia. Trata-se porem, de um fenomeno eustatico, pelo degelo da epoca glacial, mascarando um a costa de emergencia com a topografia característica de rias, e rios afogados. Atribue-se a um fenomeno eustatico tal processo, pela universidade da sua observação nas costas de todo o globo, embora em alguns lugares, a velocidade da elevação epeirogenica tenha se avantajado ao afogam ento do pleistoceno. A prova desta ascenção recente no Brasil Meridional está nas praias suspensas entre 5 e 7 metros, onde existem antigos mangues elevados e que no passado muitissimo proximo ainda eram praia. Conclue-se que a geoxnorfoiogia da costa brasileira é de um a costa composta, pois exibe sim ultaneam ente caracteres de emersão (terraços m arinhos e fluviais, praias suspensas) e de submersão (afogamento fluvial e rias). 6 — A topografia da Serra do Mar indica um levantam ento do escudo brasileiro na form a de um planalto limitado por um a linha de escarpas paralelas de natureza tectonica, por falham ento escalonado. As provas de que este escarpam ento é geneticam ente tectonico fundam-se nos seguintes argum entos: a) Alinhamento da escarpa, b) Bordos retilineos, c) Vales suspensos, d) Assimetria do relevo, e) Contraste entre a drenagem da escarpa e a do planalto, f) Ausência de capturas, g) Patam ares escalonados, h) Coincidência da topografia com a direção da xistosidade, i) Adaptação da drenagem, j) Ausência de correlação entre a morfologia e a resistência da rocha A Serra da M antiqueira representa um segundo degrau tectonico do falham ento escalonado da Serra do Mar, indicando a sua topografia um a segunda ru p tu ra do escpdo brasileiro pelo levantam ento post-cretaceo. Alem dos mesmos caracteres que implicam a Serra do Mar com um a origem tectonica, a Serra da M antiqueira exibe especificamente outros atributos de sua genese tectonica como: a) Topografia do vale do Paraíba, b) Seccionamento de peneplanos antigos por bordos retilineos e deslocamento a varios niveis e c) Maciços epeirogenicos como o do Caparaó. A Serra do Espinhaço representa da mesma form a um acidente tectonico por falham ento escalonado, verdadeiro prolongam ento para NNE do planalto meridional limitado pela serra do Mar. Sua origem tectonica estriba-se nas seguintes evidências: a) Posição topográfica da serie Bambuí, b) Ausência parcial de correlação entre a escarpa do Espinhaço e a natureza da rocha, c) Dobras truncadas da serie Itacolomi, d) Perturbações estratigraficas, e) Fisiografia do Espinhaço e f) Ju n tas e fraturas. 7 — Os maciços de rochas alcalinas do Brasil Meridional ocorrem formando m ontanhas, às vezes elevadas como o Itatiaia e Ilha de São Sebastião, compostas de rochas de textura plutonica. Segue-se que deve ter havido um movim ento epeirogenico post-formacional para guindar a essas altitudes rochas formadas em profundidade. Constata-se igualm ente que os maciços alcalinos ocorrem ao longo das rupturas do escudo brasileiro, seguindo as linhas de fraqueza da estrutura representadas pela direção da xistosidade, que por sua vez, acom panham os antigos eixos das dobras laurencianas. Esta fidelidade estrutural não é um acidente mais indica solidariedade tectonica com os fenomenos que deram origem a tais rupturas representadas pela Serra do Mar, M antiqueira, Espinhaço e Borborema e parte da Serra Geral, na escarpa de Torres. Os estudos de GUIMARÃES (75), provando a natureza geotectonica do magma alcalino corroboram a evidencia de que estes maciços alcalinos testem unham a ação de movim ento de epeirogenese que os descobriram, após a sua “miseen-place” considerada jurassica, ou mesmo cretacea, por todos os autores. Apenas BARBOSA (9) discorda dessa consonância geral no caso especifico de Poços de Caldas, onde adm ite recurrencia de erupções, — um a mais moderna, jurassica superior ou mesmo cretacea, e — outra mais antiga, plutonica, siluriana ou presiluriana. Infelizmente BARBOSA não teve tempo de docum entar o seu trabalho com fotografias e secções localizando o contacto âú frio que afirm a existir entre foiaitos e arenitos Botucatu na Serra do Quartel, pois tanto o quanto se conhece, com unanim idade, até agora se refere a contactos a quente nessa mesma serra, com metamorfismo optalico do arenito Botucatu. A ausência de halos plecroicos na mica dos foiaitos de Poços de Caldas confere um a idade post paleozoica a tais rochas segundo o conceito de STARK (159). 8 — O vasto derram e do Trapp do P araná exibe perturbaços tectonicas, não orogenicas, post-formacionais, como falham ento de tensão, juntas e fraturas, estudados por LEINZ (101). Alem destes fatos, ha epigenia dos rios da Bacia do P araná, que franqueiam o “front” basaltico da Serra Geral (do norte de Santa C atarina a São Paulo), por portais conseqüentes surimpostos, o que indica levantam ento epeirogenico regional das formações concordantes sobrejacentes, de idade postcretacea. A inclinação dos lençóes indica, por outro lado, adernam ento por levantam ento epeirogenico. As escarpas basalticas são de duas naturezas: a) “cuesta s”, onde os rios perfuram, a “front” basaltico por epigencia, denunciando elevação epeirogenica e b) escarpas de falha, onde os rios sofrem “divorcio aquarium ” como na escarpa Torres-Osorio na Serra Geral e no contacto da bacia do Paran á com a do Paraguai. Tais fatos evidenciam epeirogenese do Trapp basaltico acom panhando a elevação do escudo brasileiro

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DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2526-3862.bffcluspgeologia.1951.121701

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