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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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        <journal-id journal-id-type="publisher-id">RuMoRes</journal-id>
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          <journal-title>Revista online de comunicação, linguagem e mídias</journal-title>
          <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rumores</abbrev-journal-title>
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        <issn pub-type="epub" publication-format="electronic">1982-677X</issn>
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          <publisher-name>Revista online de comunicação, linguagem e mídias da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
        </publisher>
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        <article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2022.200395</article-id>
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          <subj-group subj-group-type="heading">
            <subject>DOSSIÊ</subject>
          </subj-group>
        </article-categories>
        <title-group>
          <article-title>
            Três ideias sobre a política da morte e uma figura pública
          </article-title>
          <trans-title-group>
            <trans-title xml:lang="en">
              Three thoughts on the politics of death and a public figure
            </trans-title>
          </trans-title-group>
        </title-group>
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              <surname>Oliveira</surname>
              <given-names>Pedro P. de</given-names>
            </name>
            <xref ref-type="aff" rid="aff1">
              <sup>1</sup>
            </xref>
            <xref ref-type="corresp" rid="c1" />
          </contrib>
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              <surname>Portari</surname>
              <given-names>Rodrigo D. L.</given-names>
            </name>
            <xref ref-type="aff" rid="aff2">
              <sup>2</sup>
            </xref>
            <xref ref-type="corresp" rid="c2" />
          </contrib>
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          <institution content-type="original">Jornalista, doutor em Comunicação pela UFMG e pós-doutorado em Comunicação e Artes na UBI/Portugal. Docente e pesquisador associado dos programas de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO), ambos da UFMT</institution>
          <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Mato Grosso</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">programas de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO)</institution>
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        <aff id="aff2">
          <institution content-type="original">Jornalista, doutor em Comunicação pela UFMG. Professor da UEMG-Frutal. Coordenador do curso de Jornalismo e Coordenador do Centro de Pesquisa da UEMG-Frutal</institution>
          <institution content-type="orgname">Universidade do Estado de Minas Gerais</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Centro de Pesquisa da UEMG-Frutal</institution>
          <country country="BR">Brasil</country>
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        <author-notes>
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            <label>E-mail:</label>
            <email>ppo@terra.com.br</email>
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            <label>E-mail:</label>
            <email>rodrigo.portari@uemg.br</email>
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        </author-notes>
        <pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
          <day>26</day>
          <month>07</month>
          <year>2022</year>
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        <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
          <season>Jan-Jun</season>
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        <issue>31</issue>
        <fpage>112</fpage>
        <lpage>132</lpage>
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            <year>2022</year>
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            <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença 
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">Creative Commons</ext-link>
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          </license>
        </permissions>
        <abstract>
          <title>RESUMO</title>
          <p>O estudo parte da realização de uma live acadêmica, na qual se debateu a performance do presidente brasileiro Jair Bolsonaro durante o primeiro semestre do acontecimento da pandemia de covid-19 no país, em 2020. O evento digital, promovido em agosto daquele ano pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Poder (PPGCOM) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), reuniu três intelectuais: a pesquisadora e professora Vera Regina Veiga França, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e os pesquisadores e professores portugueses João Carlos Correia, da Universidade da Beira Interior (UBI), e Vítor de Sousa, da Universidade do Minho (UMinho). À luz de uma ótica humanista, os debatedores analisaram a performance de Bolsonaro, em suas ações e omissões, seu desprezo pela vida do outro e a responsabilidade que lhe cabe pelos brasileiros mortos na pandemia.</p>
        </abstract>
        <trans-abstract>
          <title>ABSTRACT</title>
          <p>The study starts from the realization of an academic live, in which the performance of the Brazilian president Jair Bolsonaro during the first half of the COVID-19 pandemic in the country, in 2020, was debated. The digital event, promoted in August of that year by the Graduate Program of Communication and Power (PPGCOM) of the Federal University of Mato Grosso (UFMT), brought together three intellectuals: the researcher and professor Vera Regina Veiga França, from the Federal University of Minas Gerais (UFMG) and the Portuguese researchers and professors João Carlos Correia, from the University of Beira Interior (UBI), and Vítor de Sousa, from the University of Minho (UMinho). In the light of a humanist view, the debaters analyzed Bolsonaro’s performance, in his actions and omissions, his contempt for the life of the other and his responsibility for the Brazilians who died in the pandemic. We think that this work can contribute to two aspects of relevance: 1) reflection on the situation of the country in the pandemic under the command of the presidency of the Republic by a public figure that despises the life of the other; and 2) to highlight the practical exercise of the passage of the knowledge that was initially built from the image, the live, to the verbal text, the article.</p>
        </trans-abstract>
        <kwd-group xml:lang="pt">
          <title>Palavras-chave:</title>
          <kwd>Comunicação</kwd>
          <kwd>necropolítica</kwd>
          <kwd>acontecimento</kwd>
          <kwd>figura pública</kwd>
          <kwd>performance</kwd>
        </kwd-group>
        <kwd-group xml:lang="en">
          <title>Keywords:</title>
          <kwd>Communication</kwd>
          <kwd>necropolitics</kwd>
          <kwd>happening</kwd>
          <kwd>public figure</kwd>
          <kwd>performance</kwd>
        </kwd-group>
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      </article-meta>
    </front>
    <body>
      <p>A partir do acontecimento da pandemia de covid-19, diversos segmentos da sociedade, entre eles a academia, passaram a produzir uma série de eventos digitais, próprios à condição do necessário isolamento social. De uma das chamadas “lives” promovidas por grupos de pesquisa e programas de pós-graduação, organizamos e analisamos o diálogo entre três pesquisadores sobre a ideia da política da morte e a relação com uma figura pública. Uma radiografia, de base pragmatista, da performance do presidente Jair Bolsonaro no contexto do primeiro semestre de 2020, período marcado pelas primeiras reações do pensamento crítico à postura assumida pelo presidente brasileiro, em diversos momentos trágicos, de escancarado desprezo pelos mortos, vítimas da covid-19.</p>
      <p>O diálogo acadêmico aconteceu na live realizada em agosto de 2020 (
        <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>) pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Poder (PPGCOM) da UFMT, reunindo a professora doutora Vera Regina Veiga França, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e os professores doutores de Portugal, João Carlos Correia, da Universidade da Beira Interior (UBI), e Vítor de Sousa, da Universidade do Minho (UMinho).
      </p>
      <p>Cada pesquisador deu forma à ideia da morte e da vida, na tensão entre poder e política, em relação ao contexto da pandemia e em relação à figura pública do presidente brasileiro. Nosso procedimento metodológico foi colocar lado a lado os argumentos apresentados pelos três pesquisadores para a análise proposta, movida pela pergunta condutora: como Bolsonaro trata a morte e os mortos vítimas da covid-19?</p>
      <p>Sousa (
        <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>) deu ênfase ao contexto do acontecimento, que ganhava a força das incertezas futuras, diante da impressão de que muitas coisas nunca mais seriam as mesmas, como é o caso da democracia. Correia (
        <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>) situou a visão bolsonarista, cara aos ditadores, da ideia da morte como uma justificativa, resignada e de inação, de desprezo às conquistas humanas e de proclamação à indiferença ao sofrimento alheio. França (
        <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>), por sua vez, trouxe o conceito de necropolítica para analisar a performance de Bolsonaro. Com um olhar humanista, ela criticou a ideia do “deixar morrer” e a complacência amoral da morte dos que são “os improdutivos ou pobres”, transformados apenas em números de estatísticas e sendo “substituíveis”. As três ideias sobre a política da morte orientaram, assim, a análise da performance de Bolsonaro naquele momento e dos valores que marcam o caráter dessa figura pública à frente da instituição presidência da República.
      </p>
      <p>A reflexão proposta segue um percurso de base pragmatista, a partir da noção do pragmatismo em processo (
        <xref alt="DEBROCK, 2003" rid="ref-b4" ref-type="bibr">DEBROCK, 2003</xref>) e sua relação com a comunicação: o princípio dos eventos (a pandemia e as lives acadêmicas); o princípio da interação (a forma/conteúdo das ideias dos três palestrantes sobre a morte, pandemia e Bolsonaro); e o princípio do processo (o contexto da discussão sobre a figura pública do presidente e a parte da responsabilidade que lhe cabe em relação às mortes dos brasileiros vítimas da covid-19, por conta da necropolítica do político posta em ação).
      </p>
      <p>Abrimos o percurso do artigo com o contexto do acontecimento pandemia. Na sequência, trazemos uma breve apresentação da figura pública em questão, a fundamentação pragmatista que sustenta a operação de análise do pensamento crítico dos pesquisadores e os apontamentos finais das reflexões resultantes deste evento acadêmico.</p>
      <sec id="do-presencial-ao-remoto">
        <title>Do presencial ao remoto</title>
        <p>O acontecimento da pandemia reverberou em todas as instâncias do “Mundo da Vida” ou “Mundo Cotidiano”, noções que aproximam as correntes filosóficas da fenomenologia social e do pragmatismo, como apresenta Oliveira (
          <xref alt="2017" rid="ref-b9" ref-type="bibr">2017</xref>): “Tanto no pragmatismo quanto na fenomenologia social, o objeto do pensamento é o sujeito mundano, a pessoa comum, em sua vida cotidiana. Segundo o autor, essas reflexões filosóficas são importantes contribuições conceituais para o ato concreto de comunicação: interação” (
          <xref alt="OLIVEIRA, 2017, p. 167" rid="ref-b9" ref-type="bibr">OLIVEIRA, 2017, p. 167</xref>, tradução nossa)
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
          </sup>.
        </p>
        <p>Essa concretude do mundo é vista pela comunicação em suas instâncias básicas, a materialidade simbólica, a interlocução entre sujeitos e o contexto sociocultural.</p>
        <disp-quote>
          <p>As noções de comunicação em Schutz e Dewey são complementares no que diz respeito à construção de sentidos postos na relação; na interlocução entre sujeitos; em uma materialidade simbólica estabelecida na e pela interação e em um determinado contexto sociocultural, a ideia de concreção, de mundo da vida para o fenomenólogo, e de ambiente natural para o pragmatista. (
            <xref alt="OLIVEIRA, 2017, p. 170" rid="ref-b9" ref-type="bibr">OLIVEIRA, 2017, p. 170</xref>, tradução nossa)
            <sup>
              <xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
            </sup>
          </p>
        </disp-quote>
        <p>O cotidiano das relações sociais presenciais foi suspenso e transformado pelo isolamento, determinado como medida sanitária para evitar a escalada da contaminação da doença. A alternativa foi construir uma nova forma de viver em comum pelo universo digital, o chamado “modo remoto de ser e estar”. O segmento da música foi um dos primeiros a usar as plataformas digitais como um espaço de rentabilidade para suprir o vazio do lucro ocasionado pela falta de eventos artísticos presenciais. Se o show deve continuar, a saída foi realizar shows digitais “ao vivo”. As lives de cantores sertanejos no Brasil, por exemplo, mobilizaram milhares de pessoas, um público ao alcance do clique da interação digital.</p>
        <p>A ideia, por “contágio”, foi copiada por outros segmentos sociais, entre eles a academia, que começou a usar as lives para seus eventos: seminários, palestras, cursos e até congressos – com a vantagem de potencializar a internacionalização do seu diálogo entre os pares, por conta inclusive da evidente redução de custos. Muitos eventos puderam ser organizados com pesquisadoras e pesquisadores nacionais e seus colegas convidados de outros países.</p>
        <p>É deste contexto que partimos para a apresentação do evento, sua temática e seus participantes, que analisaram a performance do presidente Jair Bolsonaro e do seu governo, depois de seis meses da pandemia. A live em questão fez parte do ciclo de debates do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Poder (PPGCOM), da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT): “Acontecimentos e Figuras Públicas: Bolsonaro e os Mortos”. O evento aconteceu de modo remoto e teve a participação de três debatedores convidados: Vera França, João Carlos Correia e Vítor de Sousa
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>
          </sup>.
        </p>
      </sec>
      <sec id="a-figura-pública">
        <title>A figura pública</title>
        <p>Antes de passarmos para as ideias de Vera França, João Carlos Correia e Vítor de Sousa, destacamos alguns aspectos da figura pública em questão: o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Traçamos um breve panorama, na relação entre contexto, ao modo 
          <italic>deweyano</italic>, da 
          <italic>situação problemática</italic> da pandemia no primeiro semestre de 2020, do recorte temporal do acontecimento, da ideia política que movia seus gestos e de sua estratégia comunicativa, em especial suas declarações marcadas pelo deboche e pelo desprezo pela vida do outro.
        </p>
        <p>Jair Bolsonaro encarna um ideal totalitário e o viés autoritário contidos no seu populismo, que se apresenta com algumas características próprias e outras mais gerais: contestação do sistema e anti-ideologia; traços de autoritarismo (militarismo, apelo à cultura da arma e fortalecimento da educação militar); e traços de totalitarismo (nostalgia da ditadura e louvação à tortura).</p>
        <p>Outra característica é a instrumentalização da comunicação feita a partir de uma verdade única, não permitindo que as dimensões plurais possam ser aprofundadas, expressando um verdadeiro pavor ao jogo democrático do debate de ideias. Atua com uma repetida truculência verbal, em especial contra as mulheres – sem que haja nenhuma explicação que justifique esse gesto a não ser pela covardia em si. Essa ojeriza ao contraditório e a predileção pela agressão verbal contra as mulheres são sustentadas, por exemplo, recuperando uma sequência de fatos: agrediu verbalmente mulheres jornalistas, desde o deboche contra elas passando aos xingamentos diretos, quando estas cumpriam seu trabalho profissional de questionar as incoerências de um presidente da República.</p>
        <p>Juntamos a esse histórico o caso mais emblemático de desrespeito às mulheres e da interdição do debate democrático: quando agrediu verbalmente, em dezembro de 2014, uma colega deputada federal, Maria do Rosário, reagindo ao discurso dela no Plenário da Câmara Federal contra a ditadura militar brasileira. Ditadura que Bolsonaro defende e cuja única crítica é a de que os militares mataram poucas pessoas naquele período.</p>
        <p>Oliveira (
          <xref alt="2021" rid="ref-b8" ref-type="bibr">2021</xref>) faz um recorte deste perfil da personalidade pública no contexto da pandemia, destacando que a postura de força foi testada diante da situação limite. Este jogo de forças e fraquezas de Bolsonaro ficou exposto naquele momento. O apelo à violência, ao autoritarismo, não deu conta de sustentar a fraqueza da falta de comando no enfrentamento à pandemia. Os brasileiros mortos pela covid-19 foram reduzidos pelo presidente a um estorvo político. A grave doença foi reduzida às comparações individualistas de um ex-militar com histórico de saúde de atleta. A pandemia fez emergir uma 
          <italic>situação problemática</italic> cujo enfrentamento fugiu ao controle dele:
        </p>
        <disp-quote>
          <p>As fraquezas políticas e de caráter de Bolsonaro emergiram de maneira mais evidente para a sociedade quando nos vimos diante de um acontecimento – enquanto uma ocorrência desencadeadora de sentidos: a pandemia do coronavírus. Tal acontecimento mundial alterou o cotidiano local até então controlado pelo bolsonarismo, obrigando-o a entrar no campo minado para o seu autoritarismo, o conflito de ideias. A consequência de uma performance fora do seu quadro de controle foi a visibilidade ampliada dos traços de caráter: preconceitos, deboches e agressividade. O governante fragilizou-se em um contexto no qual a autoridade passou a ser questionada diariamente. O acontecimento fez revelar, também, a sua inapetência de liderar o país para superar a crise de saúde. (
            <xref alt="OLIVEIRA, 2021, p. 79" rid="ref-b8" ref-type="bibr">OLIVEIRA, 2021, p. 79</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>É importante incorporar neste perfil da figura pública a estratégia comunicativa sustentada desde o início da pandemia para se livrar do peso da responsabilidade, enquanto presidente da República, do enfrentamento da pandemia, já tendo em vista o processo eleitoral de 2022, além de evidenciar a marca do seu caráter:</p>
        <disp-quote>
          <p>Prisioneiro do deboche, marca do seu caráter, Bolsonaro fez seguidas piadas de mau gosto com a dor de familiares e amigos das vítimas da pandemia. Construiu uma narrativa, intencionalmente errática, abrindo espaços para escolher quais os melhores argumentos futuros, focada em viabilizar o discurso eleitoral, visando 2022. E dedicou a maior parte do tempo para criar crises diversionistas, em especial na área da saúde. (
            <xref alt="OLIVEIRA, 2021, p. 80" rid="ref-b8" ref-type="bibr">OLIVEIRA, 2021, p. 80</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Evidenciamos, ainda, um registro mediático que situa a performance de Bolsonaro nestes primeiros seis meses de pandemia (a cobertura da mídia, cujo papel, mais à frente, será objeto também da análise de Vera França). Por analogia, colocando lado a lado, mostramos capas de jornais que relatam o agravamento da pandemia e as falas de Bolsonaro de desprezo e deboche, reduzindo a escalada das mortes dos brasileiros vítimas do vírus a um “problema menor”, uma “gripezinha”. A montagem da série de imagens 
          (<xref alt="1" ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref>) ilustra e alarga o conhecimento daquele momento e da performance da figura pública.
        </p>
        <fig id="f1">
        <label>Figura 1</label>
          <caption><title>  </title> 
          <p> Capas do jornal 
              <italic>Estado de Minas</italic>, dos dias 18/03, 29/04, 09/05, 16/05, 20/05 e 09/08 de 2020</p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-05-200395-fig1.png"/>
          <attrib>Fonte: Jornal 
          <italic>Estado de Minas</italic>.</attrib>
        </fig>
        <p>Selecionadas em datas estratégicas, mais do que uma ideia panorâmica, as imagens das capas, colocadas lado a lado, constroem também o conhecimento daquele período pandêmico de 2020. As capas trazem um retrato do descaso do presidente com a vida ante ao grande número de infectados e mortos, que subiu exponencialmente àquele momento.</p>
      </sec>
      <sec id="pragmatismo-em-processo">
        <title>Pragmatismo em processo</title>
        <p>O pragmatismo em processo, apresentado por Debrock (
          <xref alt="2003" rid="ref-b4" ref-type="bibr">2003</xref>), tem como base a ideia da relação entre os eventos na continuidade da ação e do pensamento em um dado contexto. Desta maneira, contextualizamos a abordagem processual: com o princípio dos eventos, relacionamos a pandemia e as lives acadêmicas com o princípio da interação, do diálogo da forma/conteúdo das ideias dos três palestrantes sobre a morte, a vida, a pandemia e a performance da figura pública. O princípio do processo situa o contexto da situação: a discussão sobre a postura do presidente e a parte da responsabilidade que lhe cabe das mortes dos brasileiros vítimas da covid-19 por conta da sua necropolítica.
        </p>
        <p>O pragmatismo opera, na nossa análise proposta, os meios e fins que se entrecruzam: a) a reflexão dos intelectuais sobre a performance da figura pública; e b) o contexto da 
          <italic>situação problemática</italic> do processo visto na continuidade dos eventos ligados entre si. Neste sentido, com Bernstein (
          <xref alt="2010, p. 188" rid="ref-b1" ref-type="bibr">2010, p. 188</xref>, tradução nossa), “Dewey nos diz que devemos sempre olhar para o contexto específico em que meios e fins são distinguidos”
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
          </sup>.
        </p>
        <p>Com Thamy Pogrebinschi (
          <xref alt="2005, p. 117" rid="ref-b10" ref-type="bibr">2005, p. 117</xref>), incorporando a noção de Hans Joas, destacamos a importância de que as teorias da ação não podem ignorar o papel do contexto na ação: “o contexto deve ser considerado a partir de um duplo significado: a) toda ação tem lugar em uma certa situação, um dado contexto; b) toda ação pressupõe um ator que realiza não apenas esta única ação, mas que pode, a partir dela, realizar várias outras e diferentes ações”.
        </p>
        <p>Acreditamos que a visão pragmatista em processo permite apreender o objeto em suas relações – acontecimento pandemia/performance da figura pública/live acadêmica de pensamento reflexivo – para além da instrumentalidade da comunicação, na compreensão da transcendência do social em seus fins, estes conduzidos pela comunicação. Dito de outro modo, o que transcende a comunicação é organizado no e pelo próprio processo comunicativo, um dos aspectos do caráter final da comunicação.</p>
        <p>A análise a partir da comunicação permite uma crítica permanente ao grau dos ideais democráticos na política e suas instituições, entre elas a instituição da presidência da República, representada hoje pela figura pública de Bolsonaro. A crítica, noção cara ao pragmatismo dos filósofos Dewey e Mead, é orientada pela melhoria das próprias instituições e uma maior igualdade social, condição concebida como uma necessidade chave para a democracia.</p>
      </sec>
      <sec id="a-organização-do-pensamento-crítico">
        <title>A organização do pensamento crítico</title>
        <p>Destacamos aqui a argumentação de cada palestrante, o olhar para o contexto e para a performance da figura pública em foco. Assim, elucidamos, neste processo, como cada um organizou suas ideias postas no diálogo para a análise da figura pública. Começamos com Vítor de Sousa (
          <xref alt="2020" rid="ref-b11" ref-type="bibr">2020</xref>), que situa o contexto naquele momento do processo das interações, trazendo noções da Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, e do Princípio da Incerteza, de Werner Heisenberg, para sustentar o seu argumento da relação entre tempo, enquanto uma das dimensões do espaço, com sua visão sobre a relação entre o acontecimento da pandemia e as implicações resultantes do que chama de confinamento social
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
          </sup>: “[…] para um corpo que está tendencialmente parado, o tempo corre com velocidade máxima, pelo que é difícil ter certezas sobre as dinâmicas de confinamento ao longo de um determinado tempo e suas repercussões futuras. Sendo certo que o futuro será (ainda mais) incerto do que o costume” (SOUSA, live, agosto de 2020, disponível no canal do PPGCOM/UFMT no Youtube) (
          <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>).
        </p>
        <p>Em suas considerações na live, Sousa nos convida a olhar para o futuro visto em conexão com o presente e as reverberações que se esperava em desdobramento com a ênfase nas consequências sociais e políticas do isolamento forçado pela pandemia.</p>
        <disp-quote>
          <p>Que a quarentena que usamos para nos isolarmos do vírus possa ser o início de um conjunto de novas imitações que façam barreira “não apenas contra o vírus: contra cada elemento de um modo de produção que não queremos que seja retomado” (Latour, 2020). Apelidam-no de nova-normalidade, sendo que esta normalidade pode muito bem ser uma abstração em si própria. O que não impede que se perore sobre o “mundo novo”, o “homem novo” e o “planeta (mais) verde”. São ideias recorrentes na sociedade que já existiam, de resto, mas onde vai assentar a retórica do pós-pandemia, em que nem a globalização escapa. (SOUSA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Vera França, por sua vez, trabalha com a noção da necropolítica, de Achille Mbembe (
          <xref alt="2018" rid="ref-b7" ref-type="bibr">2018</xref>), filósofo, e teórico político de Camarões, para organizar os seus argumentos de análise da performance e das ideias da figura pública Jair Bolsonaro. Mbembe aponta, em um exemplo, para uma existência dos escravizados como uma “morte-em-vida” – o curso violento da vida do escravizado, que se manifesta pela disposição de seu capataz em se comportar de forma cruel e descontrolada, ou no espetáculo de sofrimento imposto ao corpo do escravizado. O filósofo resume, a partir de um termo apreendido da obra de Norbert Elias, “etiqueta”, para designar as ligações entre graça e controles sociais, a submissão pela violência como uma normalidade da morte-em-vida
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>
          </sup>: “Violência, aqui, torna-se um componente de etiqueta como dar chicotadas ou tirar a vida do escravo: um capricho ou um ato de pura destruição, em muitos aspectos” (
          <xref alt="MBEMBE, 2018, p. 29" rid="ref-b7" ref-type="bibr">MBEMBE, 2018, p. 29</xref>).
        </p>
        <p>Essa lógica do desprezo pela vida do outro, ideia cruel e fria daqueles que controlam o poder de viés totalitário em relação aos que são considerados sub-humanos e/ou descartáveis, é apontada pela noção da necropolítica. O desprezo pela vida do outro, tomado inclusive como uma espécie de autorização para matar este outro, é também uma lógica que sustenta a argumentação do professor João Carlos Correia.</p>
        <p>João Carlos Correia, por fim, organiza seus argumentos trazendo ideias da literatura. Primeiro com o autor de 
          <italic>A Peste</italic>, Albert Camus, destacando a caracterização do olhar diretamente para a presença da morte, levando os seres humanos a agir de forma mais radical na celebração da vida. Camus, segundo Tony Judt (
          <xref alt="2014" rid="ref-b6" ref-type="bibr">2014</xref>), projeta na obra citada por Correia a imagem duradoura de homens de moderação e comedimento se revoltando não por um ideal, mas contra a intolerância e a intransigência. Era central para a política de Camus sua consciência da absoluta complexidade do mundo, ou, melhor, dos mundos em que os seres humanos devem viver. Ainda, para o autor, vida e pensamento consistem em muitos tipos de verdade e eles podem ser incomensuráveis.
        </p>
        <p>Camus escreveu, em seus últimos textos na imprensa francesa, sobre os propósitos e limites de uma posição moral em situações desesperadas, entre as quais podemos tomar como exemplos a pandemia e a escalada de mortes. A recusa em aceitar um fato consumado, uma vigilância de coração e mente, a negação do espaço público a mentiras e mentirosos, o desejo de não se entregar à inocência mesmo depois de isso ter sido feito de forma exaustiva, essas são as regras de uma possível ação (
          <xref alt="JUDT, 2014, p. 181" rid="ref-b6" ref-type="bibr">JUDT, 2014, p. 181</xref>).
        </p>
        <p>O outro argumento trazido por Correia, na interseção do jornalismo e literatura, é o de um acontecimento que teria ocorrido, um confronto de ideias e palavras, em outubro de 1936, na Universidade de Salamanca, na Espanha. Essa narrativa se tornou emblemática, e incorporada à História, para a idealização dos embates da democracia contra as ditaduras, da inteligência contra a ignorância e do valor pela vida contra a glorificação da morte do outro: o discurso do reitor da Universidade de Salamanca, Miguel Unamuno, em réplica aos gritos dos falangistas, “Viva la Muerte”, durante uma cerimônia naquela universidade.</p>
        <p>Em aproximação com Correia, trazemos Sérgio Del Molino (
          <xref alt="2018" rid="ref-b5" ref-type="bibr">2018</xref>), que destaca o valor moral do fato romanceado que, segundo historiadores, nunca teria acontecido, mas que resiste no tempo como “obra de ficção”, referência simbólica para todos os embates que se colocam entre a democracia e as ditaduras. Um marco simbólico reverberado em diversos textos da academia e da literatura sobre a Guerra Civil da Espanha e a luta contra o fascismo. Um trecho do relato romanceado do contraponto feito pelo reitor Unamuno:
        </p>
        <disp-quote>
          <p>Este é o templo da inteligência e eu sou seu sumo sacerdote. Você está profanando seu recinto sagrado. Você ganhará porque tem força bruta mais do que suficiente, mas não convencerá. Para convencer você deve persuadir, e para persuadir você precisaria de algo que lhe falta: razão e direito na luta. Parece-me inútil pedir-lhe que pense na Espanha. Eu disse: de acordo com a história que várias gerações de espanhóis aprenderam, foi assim que Miguel de Unamuno terminou sua interpelação ao General José Millán Astray no auditório da Universidade de Salamanca, em 12 de outubro de 1936. Assim, o intelectual basco se redimiu de seu apoio aos golpistas, tornando-se assim um símbolo da democracia contra a ditadura, da civilização contra a barbárie e do bem contra o mal. Como não se comover com o velho sábio enfrentando a bestialidade do general mutilado. Suas palavras são parte da mitologia espanhola, um evangelho de coragem cívica que só pode ser aplaudido com reverência. (
            <xref alt="DEL MOLINO, 2018, p. 3" rid="ref-b5" ref-type="bibr">DEL MOLINO, 2018, p. 3</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Neste segmento do texto, apresentamos a organização dos argumentos que alicerça a análise dos três palestrantes, na apreensão do pragmatismo em processo que sustenta a noção de que tudo o que é, deriva de interações. Neste caso em específico, relacionando estas interações, conceituais e práticas dos argumentos, à construção do conhecimento da atividade científica.</p>
      </sec>
      <sec id="humanismo-x-política-da-morte">
        <title>Humanismo x política da morte</title>
        <p>A performance de Jair Bolsonaro naquele momento da pandemia já apontava para desdobramentos nefastos à vida das pessoas e para o modo de vida em sociedade. Sua performance evidenciava também sua repulsa ao modo de ser e estar em relação de sociabilidade, que aceita e respeita o outro, que tem como centro a própria ideia de democracia. É exatamente esta relação, entre os desacertos de tempo e espaço provocados pela pandemia, que Sousa destaca para os riscos postos nas incertezas futuras, diante da impressão de que muitas coisas nunca mais serão as mesmas, como é o caso da democracia.</p>
        <disp-quote>
          <p>O amanhã, o futuro, faz pensar. E, se o pensamento daí decorrente assentar na anomalia – “o que desvia da norma, da generalidade”; “irregularidade”; “deformidade”; “monstruosidade” -, poderá ser aproveitado, mesmo que isso possa não passar de uma utopia. É sabido que, nas relações de poder, quem detém o poder terá sempre mais poder, nomeadamente em tempo de crise, que é aquele em que vivemos. (SOUSA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Se Sousa enfatiza os riscos futuros para a democracia a partir do presente, João Carlos Correia traz do passado, com a literatura, os argumentos para analisar o sujeito que controla o poder no contexto brasileiro em que vivemos no presente: o presidente Jair Bolsonaro.</p>
        <p>Situando a performance de Bolsonaro diante da pandemia, Correia destaca que esta figura pública sustenta a ideia da morte como justificativa, resignada e de inação, de desprezo às conquistas humanas, em analogia a outros líderes autoritários e/ou ditadores de ontem e de hoje. Bolsonaro proclamava em suas falas a sua profunda e sincera indiferença ao sofrimento alheio. O que nos traz aqui é discutir o bolsonarismo. Quando olhamos para o conjunto de situações que está a se vitrificar na vida política, encontramos, com alguma frequência, um conjunto de situações em que forças, que tem certo período geológico, começam a utilizar a morte como um meio, como a evocação do princípio da realidade (CORREIA, 
          <italic>live,</italic> agosto de 2020) (
          <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>).
        </p>
        <p>Correia destaca que tal princípio da realidade confunde-se com “a paz dos cemitérios”, para usar uma expressão, segundo ele, em acordo com a inevitabilidade da morte, que Bolsonaro aciona em suas falas diante da escalada de vítimas da pandemia no Brasil. “Esse princípio da realidade aparece como uma espécie de paraíso, que nos convoca a uma inação, à assistência, à resignação, à tristeza e à resignação do corpo vivo” (CORREIA, live
          <italic>,</italic> agosto de 2020) (
          <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>).
        </p>
        <p>Ele recupera, em retrospecto, alguns acontecimentos trágicos do século XX que estão marcados também por uma figuração implícita da morte, e provoca e convoca nossa reação diante da postura de chefes de governo que tratam a vida do outro com desprezo. A morte das pessoas comuns, para essas figuras do poder, é rebaixada a um detalhe, inevitável enquanto destino da vida miserável que levam. Devemos nos opor, essa é a provocação de Correia, não à morte como algo que assumimos conscientemente acerca de sua inevitabilidade, mas contra a ideia de líderes que tratam a morte como uma impossibilidade de uma vida melhor.</p>
        <disp-quote>
          <p>Porque a morte passa a ser usada por eles como uma justificativa e aceitação de todos os males. É um pretexto para que, desde os primeiros dias, fôssemos condenados a uma vida menor. Provavelmente essa explicação poderá ser desejada e considerada por alguns, mas eu entendo que não é. Quase todos os ditadores e governadores de uma região, ao longo dos últimos anos, têm vindo a proclamar a sua indiferença, onde se nota uma enorme desconsideração pelo espírito humano, pela grandeza do espírito humano, pela ciência, pela capacidade de transformar e mudar. Nesse sentido, a morte é, sobretudo, a invocação de uma república que se esmaga a passos pandêmicos. (CORREIA
            <italic>,</italic> live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)  
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Se Sousa trata das incertezas futuras e os riscos para a democracia, e Correia nos alerta para a glorificação da morte do outro enquanto força de um ideal totalitário e que coloca a vida deste outro como algo menor (a inevitabilidade da existência de uma “vida menor”), França traz o conceito de necropolítica para analisar a performance de Bolsonaro. Com uma reflexão humanista, ela critica a ideia do “deixar morrer” e a complacência amoral da morte dos que são “os improdutivos ou pobres”, transformados apenas em números de estatísticas e sendo “substituíveis”. França começa sua análise, metodologicamente, recortando o contexto da 
          <italic>situação problemática</italic> onde atuava o presidente Bolsonaro:
        </p>
        <disp-quote>
          <p>O cenário é tenebroso. De um lado, uma pandemia que assola o mundo e nosso país. De outro, o desgoverno brasileiro, marcado pela inércia, pela insensibilidade e pelo cinismo. Os números são assustadores; nas estatísticas mundiais, o Brasil ocupa o segundo lugar, vice-campeão de contaminação e de mortes, com riscos de ficar no topo da lista. Na imprensa internacional, somos falados como “desastre mundial”, “perigo para o mundo”. Nesse contexto, e estando o país há mais de dois meses sem ministro da Saúde (assumiu o interino, um militar com experiência em logística), o presidente fala em “gripezinha”; banaliza as mortes (“e daí?”); desrespeita as vítimas (“vamos todos morrer um dia”). (FRANÇA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)  
          </p>
        </disp-quote>
        <p>É fato que Bolsonaro combatia, já naquele momento, não a pandemia, mas as medidas preventivas, colocando-se contra as tentativas de administrar a doença por parte dos governos estaduais, ao mesmo tempo em que se comportava, ele próprio, de maneira totalmente irresponsável, como transmissor da doença, circulando e fazendo contatos sem máscara. Desde o primeiro instante, Bolsonaro olhou para a pandemia apenas como um confronto político e ideológico. Na sua fúnebre contabilidade eleitoral, via os mortos como déficit ou saldo dos embates e as formas administrativas e legais como entraves a serem burlados para jamais assumir a parte que lhe cabia na gestão da pandemia.</p>
        <disp-quote>
          <p>Tem sido chamado de “Bolsonero” e recebeu o qualificativo de genocida. Então, percebemos claramente que estamos frente a um quadro que se enquadra bem na conformação que o filósofo camaronês Achille Mbembe nomeou necropolítica. Trata-se de um conceito derivado do biopoder, de Foucault – o poder desenvolvido pelo estado moderno, que incide sobre a administração e domesticação dos corpos e da vida, através do desenvolvimento de dispositivos disciplinares dos corpos e controle da vida da população. (FRANÇA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)  
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Mbembe (2018), com a necropolítica, mostra que esse poder que administra a vida e a morte atua de forma distintiva, selecionando os que devem viver e os que podem morrer, através de uma divisão das pessoas em subcategorias, dispostas de forma hierárquica. Alguns pertencem a grupos tidos como superiores; outros são relegados a segundo e terceiro planos. O valor da vida obedece a uma escala, e na base da pirâmide estão as vidas que não têm nenhum valor, conforme ela aponta.</p>
        <disp-quote>
          <p>Nesses casos, o poder dominante nomeia claramente o que é tomado como inimigo a combater, e desenvolve uma política de extermínio. A situação vivida no Brasil é mais sutil – essa explicitação não aparece claramente. Há simplesmente uma política de deixar morrer, como estamos assistindo no momento atual, com a pandemia. E neste caso a posição do governante não é isolada mas, infelizmente, reflete o fundo conservador e genocida da elite brasileira. (FRANÇA, live, agosto de 2020)  </p>
        </disp-quote>
        <p>Ou seja: alguns vão morrer. Mas, segue França em sua crítica, são “os improdutivos (os velhinhos), ou os pobres”, que são apenas uma estatística, que “são substituíveis, e cuja vida não tem valor”. Esses não têm um ambiente doméstico adequado para fazer o isolamento (famílias inteiras vivem em casas com um ou dois cômodos, muitas vezes sombrios e sem ventilação, e em locais mal servidos pelos serviços de água e esgoto); esses são obrigados a continuar trabalhando, pois seu sustento depende do que produzem a cada dia; esses já têm doenças crônicas, pelas precárias condições de vida e trabalho. No contexto dessa crise sanitária, são os mais atingidos pela fragilidade da rede de assistência à saúde – hospitais superlotados, insuficiência de leitos de UTI –, destaca França.</p>
        <disp-quote>
          <p>Então, nesse momento da pandemia, o país faz duas descobertas. A primeira delas é que essa doença é mortífera, mas essas milhares de mortes que acontecem diariamente atingem diferentemente as pessoas: alguns são mais suscetíveis e estão diretamente na linha da frente – os pobres. E entre eles, por que exatamente a maioria que mais sofre de precárias condições, a população negra, bem como a população indígena. A divisão entre as pessoas que devem viver e as que podem morrer obedece a outra subdivisão dentro da espécie humana – a uma cesura biológica entre uns e outros, que se chama racismo. Assim, a pandemia vem dizimando milhares – mas ela atua seletivamente. As mortes acontecem pela pandemia e pelo racismo. (FRANÇA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)  
          </p>
        </disp-quote>
        <p>A segunda descoberta, registra
          <italic>,</italic> é – ou deveria ser – mais estarrecedora. Essa morte pela situação de classe e pelo racismo não é novidade; ela era apenas “invisibilizada” pela indiferença e pelo cinismo de nossa sociedade capitalista e de mentalidade escravagista. As precárias condições de moradia, de transporte, de alimentação, de trabalho já estão aí muito antes da pandemia, matando pelo descaso, pela falta de assistência médica, pela violência. Jovens negros sendo assassinados pela polícia e massacre dos povos originários são uma realidade frente à qual a sociedade insiste em fechar os olhos. “Pois são vidas tratadas como se não tivessem nenhum valor”, diz a pesquisadora na live.
        </p>
        <p>França fala do papel do jornalismo e dos jornalistas para o registro e a crítica ao presidente, suas ações e omissões na condução do enfrentamento da pandemia. Se a “mídia brasileira” de uma forma geral abriu o devido espaço para mostrar a performance nefasta de Bolsonaro (acerca disso, podemos destacar as capas de alguns jornais que certamente entrarão para a história do nosso jornalismo), a debatedora cobrava que outros tipos de mortes tivessem a mesma luz midiática.</p>
        <disp-quote>
          <p>A mídia brasileira – a grande mídia (hegemônica), a mídia progressista – tem feito uma boa cobertura do quadro da pandemia no Brasil. Frente ao boicote do Ministério da Saúde, que tentou camuflar e minimizar as mortes, um consórcio de meios de comunicação se organizou para manter a população informada, para chamar a atenção para o descalabro da situação sanitária no país. É preciso, no entanto, que a mídia mantenha também seus holofotes no morticínio cotidiano de negros e negras na periferia das grandes cidades, dos povos originários nos territórios indígenas ou nas franjas de centros urbanos, e chame a atenção para essa necropolítica que mata pela pobreza, pela privação de direitos básicos, por um profundo e arraigado preconceito racial. (FRANÇA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)  
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Por fim, nesta sua abordagem, que também é em si de base pragmatista, Vera França nos convoca a um pensamento solidário: nem tudo está perdido, não é o fim do mundo e, quem sabe, pode ser um princípio de outro processo em movimento, trazendo novas formas de sociabilidade, além de recuperar outras. Um otimismo que nunca é ingênuo, quando apontamos para a ideia de uma possibilidade, do “poder ser”, “poder acontecer”, pensamento que se concretiza na ação.</p>
        <disp-quote>
          <p>Encerrando, quero mudar o tom funesto dessa atmosfera que nos cerca. A pandemia aproximou de todos nós o fantasma da morte precoce – esse fantasma que insiste em perguntar: amanhã estaremos todos aqui? Mas o temor da morte nos faz olhar para a vida de outra maneira. Viver não é sobreviver; uma vida plena, uma vida digna é o fundamento de todos os demais direitos. E nós, seres humanos, somos seres gregários, seres sociais. Não podemos dizer que temos vida plena quando convivemos com a morte do outro ao nosso lado, com a insensibilidade por essa morte e com a desvalorização dessa vida. Pior do que o risco da morte é a desvalorização da vida. Quem sabe essa experiência vai aumentar a sensibilidade, o respeito e o nosso engajamento pela vida de todos? (FRANÇA, live, agosto de 2020) (
            <xref alt="CICLO DE DEBATES PPGCOM, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">CICLO…, 2020</xref>)  
          </p>
        </disp-quote>
      </sec>
      <sec id="apontamentos-finais">
        <title>Apontamentos finais</title>
        <p>As três ideias sobre a política da morte orientaram a análise da performance de Bolsonaro naquele período da pandemia e dos valores que marcam o caráter dessa figura pública. O evento acadêmico, para pavor do pensamento antidemocrático, totalitário, foi ancorado em uma “concepção humanista”, extremamente relevante para compreender e criticar o contexto contemporâneo de ataques à democracia e o desprezo pela vida do outro. Conforme Noam Chomsky (
          <xref alt="1998" rid="ref-b3" ref-type="bibr">1998</xref>), citando os filósofos Bertrand Russel e John Dewey, que discordaram sobre inúmeras coisas, mas que dividiram essa concepção humanista, cujo propósito civilizatório da educação é chave no embate contra a barbárie:
        </p>
        <disp-quote>
          <p>[…] dividiram uma visão humanista – para citar Dewey, a crença de que o “alvo último” da produção não é a produção de bens, mas de “seres humanos livres associados um ao outro em termos de igualdade”. O objetivo da educação, como diz Russel, é “dar um sentido de valor das coisas em vez da dominação”, para ajudar a criar cidadãos sábios de uma comunidade livre e a criatividade individual […]. (
            <xref alt="CHOMSKY, 1998, p. 90" rid="ref-b3" ref-type="bibr">CHOMSKY, 1998, p. 90</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Como um evento de educação, dando um sentido do valor das coisas, os três palestrantes fizeram nesta live acadêmica, em um belo exercício de diálogo crítico, o contraponto à ideia da truculência, do desprezo pela vida do outro, expresso pelo presidente Bolsonaro. É uma memória digital de produção de conhecimento e que pode ser acionada e compartilhada a qualquer tempo e lugar.</p>
        <p>Outros apontamentos que podemos destacar, em desdobramento, como contribuições das reflexões sobre as ideias debatidas pelos professores no evento na forma de live:</p>
        <list list-type="bullet">
          <list-item>
            <p>O egoísmo militante de Bolsonaro, que só pensa em si, em seus interesses pessoais e dos seus filhos. Desde o início da pandemia, é um fato; tinha como a única preocupação o processo eleitoral no futuro próximo, a eleição de 2022, sendo candidato à reeleição. Todas as suas ações e a sua estratégia comunicativa foram pautadas, desde sempre, no que deveria ser feito e no que deveria ser evitado para preservar a sua condição eleitoral. A pandemia e as mortes dos brasileiros foram tratadas apenas como problemas de ordem eleitoral, sinais evidentes do patente desprezo pela vida dos brasileiros e descompromisso de comandar o enfrentamento da grave situação que afetou o país.</p>
          </list-item>
          <list-item>
            <p>A recusa ao diálogo e um consequente rebaixamento da democracia. Bolsonaro trabalha com a ideia única, de viés autoritário, que faz da propaganda o seu modo de ser e interagir com os seus seguidores. A sua comunicação política, inclusive durante aquele momento mais grave da pandemia, trabalha apenas para mobilizar suas redes de apoiadores do seu autoritarismo. Bolsonaro comunica o bolsonarismo para os seus seguidores bolsonaristas. A frase é uma provocação e uma constatação: fora dos seus segmentos sociais e eleitorais, a população é ignorada pela instituição da presidência da República, a qual comanda hoje.</p>
          </list-item>
          <list-item>
            <p>As lives acadêmicas são, em nosso entendimento, parte de uma possível transformação da cultura científica, mais aberta à democratização do conhecimento e mais atenta ao papel dos pesquisadores no enfrentamento ao negacionismo e à desinformação. É uma nova forma de comunicar ciência: o conhecimento por imagem tanto potencializa o diálogo entre os pares quanto amplia a possibilidade de apresentar o pensamento crítico e científico para outros públicos.</p>
          </list-item>
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            <size units="time">1 vídeo (154 min)</size>
            <comment>Disponível em:
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            <publisher-name>El País</publisher-name>
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            <comment>Disponível em:
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            <article-title>From Schutz to Dewey: communication and everyday life</article-title>
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            <chapter-title>Tempo, espaço e COVID-19: unidade, fragmentação, dissincronia, velocidade, Einstein, Kafka, nova-normalidade e incerteza no futuro</chapter-title>
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      <fn-group>
        <fn  fn-type="other" id="fn3">
          <label>3</label>
          <p>No original: “In both pragmatism and social phenomenology, the object of thinking is the mundane subject, the ordinary person, in his or her day-to-day life. According to the author, these philosophical reflections are important conceptual contributions to the concrete act of communication: interaction” (
            <xref alt="OLIVEIRA, 2017, p. 167" rid="ref-b9" ref-type="bibr">OLIVEIRA, 2017, p. 167</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn  fn-type="other" id="fn4">
          <label>4</label>
          <p>No original: “The notions of communication in Schutz and Dewey are complementary concerning the construction of opposite senses in the relation; in the interlocution between subjects; in a symbolic materiality established by and through interaction and in a determined sociocultural context, the idea of concretion, of the world of life for the phenomenologist, and of the natural environment for the pragmatist” (
            <xref alt="OLIVEIRA, 2017, p. 170" rid="ref-b9" ref-type="bibr">OLIVEIRA, 2017, p. 170</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn  fn-type="other" id="fn5">
          <label>5</label>
          <p>
            <bold>Vera França:</bold> Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG; fundadora e pesquisadora do Gris (Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade – FAFICH/UFMG). Doutora em Ciências Sociais pela Université René Descartes – Paris V. Vera França foi listada pelo “AD Scientific Index” como uma das docentes mais influentes na América Latina. Ela aparece entre os 100 cientistas de todas as áreas do saber contempladas pelo ranking “Latin America Top 100 Scientists”.
          </p>
          <p>
            <bold>Vítor de Sousa:</bold> Doutor em Ciências da Comunicação (Teoria da Cultura), pela Universidade do Minho, Portugal. É investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho), onde coordena o Grupo de Estudos Culturais e é cocoordenador do Seminário Permanente de Estudos pós-coloniais. Venceu, em 2016, o Prémio Científico Mário Quartim Graça, que distinguiu a melhor tese concluída nos últimos três anos, na área das Ciências Sociais e Humanas, em Portugal e na América Latina.
          </p>
          <p>
            <bold>João Carlos Correia:</bold> Doutor em Comunicação pela Universidade da Beira Interior (UBI), onde é professor associado. Autor de seis livros e de vinte e sete capítulos de livros, dos quais sete são de fora de Portugal; editou e organizou sete livros de antologia de textos, editou dezesseis volumes da 
            <italic>Revista Estudos em Comunicação</italic>, além de ter publicado artigos em revistas científicas nacionais e internacionais.
          </p>
        </fn>
        <fn  fn-type="other" id="fn6">
          <label>6</label>
          <p>No original: “Dewey nos disse que debemos mirar siempre al contexto específico en el que los médios y los fines se distinguen”.</p>
        </fn>
        <fn  fn-type="other" id="fn7">
          <label>7</label>
          <p>Vítor de Sousa (
            <xref alt="2020" rid="ref-b11" ref-type="bibr">2020</xref>) publicou depois um artigo com base na apresentação que fez na live, intitulado “Tempo, Espaço e Covid-19: Unidade, Fragmentação, Dissincronia, Velocidade, Einstein. Kafka, Nova-Normalidade e incerteza no futuro”.
          </p>
        </fn>
        <fn  fn-type="other" id="fn8">
          <label>8</label>
          <p>Achille Mbembe (
            <xref alt="2018" rid="ref-b7" ref-type="bibr">2018</xref>) situa a ideia de uma “morte-em-vida”, relacionada ao trabalho escravo, com o exemplo dos negros escravizados nas Américas para a exploração das plantações de cana-de-açúcar e algodão, entre outras. A condição de escravizado produz o que o autor chama de uma contradição entre a liberdade de propriedade e a liberdade da pessoa. Perde-se o poder do indivíduo sobre a sua própria vida. A existência, nesta condição do escravizado, é uma “morte-em-vida”.
          </p>
        </fn>
      </fn-group>
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