<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article
  PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
<?xml-stylesheet type="text/xsl" href="jats-html.xsl"?>
<article article-type="editorial" dtd-version="1.1" specific-use="sps-1.9" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">
	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">rmr</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Rumores</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">RuMoRes - Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="ppub">1982-677X</issn>
			<issn pub-type="epub">1982-677X</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
			</publisher>
		</journal-meta>
		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2025.238167</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>EPÍLOGO</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>Cartas e acolhimentos</article-title>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-1402-7787</contrib-id>
					<name>
						<surname>Coração</surname>
						<given-names>Cláudio</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup></xref>
					<bio>
						<p>Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e do curso de Jornalismo da UFOP. Doutor em Comunicação: meios e processos audiovisuais pela ECA/USP. Coordenador  do grupo de pesquisa Quintais: cultura da mídia, arte e política (CNPq/UFOP). Realizou pesquisas de pós-doutoramento na ECA-USP e na PUC Minas.</p>
					</bio>
						<email>crcorao@gmail.com</email>
				</contrib>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-9277-8757</contrib-id>
					<name>
						<surname>Rodrigues</surname>
						<given-names>Hila</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"><sup>2</sup></xref>
					<bio>
						<p>Jornalista, doutora em Ciências Sociais com estágio pós-doutoral em Ciência Política pela UFMG, professora do Curso de Jornalismo da UFOP e membro do Grupo de Pesquisa Quintais: cultura da mídia, arte e política.</p>
					</bio>
						<email>hila.rodrigues@ufop.edu</email>
				</contrib>
			</contrib-group>
			<aff id="aff1">
				<label>1</label>
				<institution content-type="original"> Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e do curso de Jornalismo da UFOP. Doutor em Comunicação: meios e processos audiovisuais pela ECA/USP. Coordenador do grupo de pesquisa Quin-tais: cultura da mídia, arte e política (CNPq/UFOP). Realizou pesquisas de pós-doutoramento na ECA/USP e na PUC Minas. Brasil. E-mail: crcorao@gmail.com.</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Comunicação</institution>
				<institution content-type="orgname">UFOP</institution>
				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>crcorao@gmail.com</email>
			</aff>
			<aff id="aff2">
				<label>2</label>
				<institution content-type="original"> Jornalista, doutora em Ciências Sociais com estágio pós-doutoral em Ciência Política pela UFMG, professora do Curso de Jornalismo da UFOP e membro do Grupo de Pesquisa Quintais: cultura da mídia, arte e política. Brasil. E-mail: hila.rodrigues@ufop.edu.br.</institution>
				<institution content-type="orgdiv1">Curso de Jornalismo</institution>
				<institution content-type="orgname">UFOP</institution>
				<country country="BR">Brasil</country>
				<email>hila.rodrigues@ufop.edu</email>
			</aff>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>16</day>
				<month>07</month>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2025</year>
			</pub-date>
			<volume>19</volume>
			<issue>37</issue>
			<fpage>179</fpage>
			<lpage>183</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>23</day>
					<month>06</month>
					<year>2025</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>02</day>
					<month>07</month>
					<year>2025</year>
				</date>
			</history>
			<permissions>
				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<counts>
				<page-count count="5"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<p>Hila, minha querida amiga, </p>
		<p>O real resiste, é só pesadelo e depois passa! Estive pensando muito nesse trechinho da canção de Arnaldo Antunes. Tenho pensado em muita coisa, na verdade. Nossa amiga Jan Alyne sempre diz que eu sou cabeçudo, não é mesmo? Então, pensar é a lei. Desde 2016, pelo menos, nós temos pensado muita coisa juntos. O real resiste, é só pesadelo e depois passa! Parece uma marcação deste tempo que atravessamos juntos, em etapas oscilantes de angústia (os pesadelos) e felicidade (os deslumbramentos). O verso ecoa, também, tudo o que alimentamos em pensamento como forma de pacto de amizade. Olha só, Hila, o crítico Paulo Roberto Pires, em sua coluna do <italic>Suplemento Pernambuco</italic>, edição de janeiro de 2022, revisita uma manchete de <italic>O Globo</italic>, no contexto da morte de Torquato Neto, em 1972: <italic>Estava tudo bem, mas ele se matou</italic>. curiosa a ambiguidade da frase, né, “estava tudo bem, mas se matou”. Expressa um desencantamento do mundo e resume o artista que partiu jovem. Como se a poesia e a trajetória de Torquato anunciassem um fim, um desenlace, de que o real resiste, é só pesadelo e depois passa! Essas imagens, o verso e a manchete, me lembram o poema <italic>Go Back</italic>, de Torquato, que os Titãs - a banda seminal de Arnaldo Antunes - musicaram na década de 1980. A dúbia expressão do léxico inglês nos diz para caminhar para frente, mas também diz que o passado nos embala na tentativa vã de deter a passagem do tempo, a promulgar um mantra de urgência presente ante o futuro possível. </p>
		<p><italic>SÓ QUERO SABER DO QUE PODE DAR CERTO!</italic></p>
		<p>Tenho pensado em muita coisa: na poesia de Torquato, no Brasil, nos sonhos interditados, na possibilidade de novos sonhos... É difícil alimentá-los sempre, não é mesmo? Tenho pensado em muita coisa, nos versos do Arnaldo, no disco de 2021 do Arnaldo - que tem o mesmo título da canção, <italic>O Real Resiste</italic>. Ele é tão bonito. Tão incisivo e suave ao mesmo tempo. Se eu fosse descrever faixa a faixa o álbum, faria assim, minha amiga: </p>
		<disp-quote>
			<p><italic>João</italic>: uma doce sinfonia em homenagem a João Gilberto; </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>De outra galáxia</italic>: uma canção de amor que se propõe universal e intergaláctica; </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Termo morte</italic>: uma reflexão sobre a (in)finitude; </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Devagarinho</italic>: a pausa, a contemplação refletida numa espécie de elogio da lentidão; </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Na barriga do vento</italic>: o orgânico transmutado num princípio existencial;</p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Luar arder</italic>: a síntese poética neoconcretista do álbum;</p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>O real resiste</italic>: o manifesto acionado como espírito de contestação, a resumir, de forma dolorosa, o eixo e a veia temática do disco, <bold>o real resiste, é só pesadelo e depois passa!</bold>;</p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Língua índia</italic>: a linguagem verificada pelo aporte da ancestralidade; </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Dia de oca</italic>: de novo, a ancestralidade, mas aqui mobilizada no canto celebratório; </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Onde é que foi parar meu coração</italic>: o prosaico a encarar os limites e as potências do real que resiste. </p>
		</disp-quote>
		<p>É um disco que fala de muitas perdas, mas que afirma a vida. Enfim, é um disco, acho, sobre paixões (alegres e tristes): é dessas paixões que se desenha um sentimento (mais) amplo, como se as linhas de Torquato - mas não só - reaparecessem fantasmagoricamente no disco de Arnaldo. Como um doce fantasma a reger luz ante as trevas, diante de tudo que tem nos feito pensar demasiadamente, a “ordem concreta das coisas”: o golpe em 2016, a ofensiva da violência obscurantista, as políticas públicas de retrocesso, a ascensão do fascismo contemporâneo, as novas tentativas de outros golpes etc. Tem imagens lancinantes e etéreas tão bonitas no álbum, que sustentam isso que estou tentando lhe dizer: em <italic>João</italic> (“Quando uma só pessoa / No silêncio aperfeiçoa / Toda multidão / Escuta o coração / E se torna civilização”); em <italic>Termo morte</italic> (“Venha sem aviso, invisível / E me leve o mais subitamente possível”). Na ânsia do poeta de dar caldo a uma insatisfação, a uma pulsão triste, <italic>O Real Resiste</italic> contempla o deserto do real (lembra quando resenhávamos sem parar o Zizek? Hoje falamos menos dele, né?) que reivindica, a contrapelo, <bold>a pulsão alegre</bold>.</p>
		<p>De aspecto crítico e trivial, o disco de Arnaldo nos grita que</p>
		<disp-quote>
			<p><italic>A pesar (isso mesmo, separados a preposição e o verbo) de você, amanhã vai ser outro dia</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p>É uma forma de resistência. Fazemos isso também, estamos resistindo de crítica e prosaicamente no </p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Espírito das roupas coloridas estendidas no QUINTAIS</italic></p>
		</disp-quote>
		<p>O real resiste, é só pesadelo e depois passa! Esse <italic>bendito real</italic> resiste porque estamos aqui: transformando, passando e pensando, minha amiga. Um pouco na pista da entrevista de Gilberto Gil ao <italic>Roda Viva</italic>, no dia 23 de maio de 2022, ao responder a uma pergunta de Jorge Mautner, lida por sua filha Amora Mautner, quando diz: “A segunda abolição não virá concretamente. Tudo melhora e piora ao mesmo tempo”.</p>
		<disp-quote>
			<p><italic>O real resiste</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>É só pesadelo depois passa</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Com um estrondo de um trovão</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>É só ilusão, não, não</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Deve ser ilusão, não, não</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>É só ilusão, não, não</italic></p>
		</disp-quote>
		<disp-quote>
			<p><italic>Só pode ser ilusão</italic></p>
		</disp-quote>
		<p>O real resiste, é só pesadelo e depois passa! Se mudássemos o disco, talvez escutássemos o eco de Torquato: “Só quero saber do que pode dar certo…”.</p>
		<p>Em todos esses exemplos, parece gritar a voz da canção de Luiz Melodia: “O poeta sempre é malandro”. O desconcerto <bold>o real resiste, é só pesadelo e depois passa!</bold> é, fudidamente, o fio do que <italic>Go Back</italic> anuncia, expressa e revela. E tenho a impressão, Hila, de que trilhamos - e trilharemos - os caminhos do novelo que não cessa, pois a peleja não cessa: em gritos permanentes de amor, coragem, esperança, plenitude e sabedoria.</p>
		<p>É um prazer enorme pensar contigo, um abraço sufocante do Edir, também conhecido como Cláudio Coração…</p>
		<p>Dez anos depois de nos encontrarmos! </p>
		<p>******</p>
		<disp-quote>
			<p>Mariana, algum dia de 2014, ou de 2016, 2020 talvez, mas pode ser 2021, 2022, quem sabe 2023… agora em 2024</p>
		</disp-quote>
		<p>Meu querido Edir (a quem jamais conseguirei chamar de Cláudio Coração, como fiz há dez anos): minha única certeza, hoje, está no efêmero. Esse efêmero que marcou nossos pesadelos diários há tão pouco tempo. Refiro-me, em especial, aos assombros que você aponta a partir das percepções tão fincadas no período de 2018 a 2022, tingidas pelo obscurantismo, pela destruição das políticas sociais, pelo ressurgimento de ideais fascistas ou pelas incansáveis tentativas de golpe. Por isso é que, quando decidimos - eu, você e tantas outras pessoas - desordenar a dureza dos dias com cultura, arte e poesia, ensaiando novos escritos, novos encontros e novas formas de ver, estávamos (e estamos) resistindo.</p>
		<p>Quanto mais reflito, Edir, mais tenho para mim que o “real” do Arnaldo não é o pesadelo, no final das contas. O real, como ele apregoa, é o que resiste - aquilo que fica, que enfrenta os contraditórios e os paradoxos. É o que veio e não vai embora, e independe do tempo ou da vontade do sujeito, dos céus ou dos orixás. O real é implacável. Especialmente com aquilo que, exatamente por ser efêmero (ainda que desapareça e reapareça em ciclos), não existe. Na canção do Arnaldo, “<italic>trabalho escravo não existe, desmatamento não existe, homofobia não existe, extermínio não existe, mula sem cabeça, demônio, dragão</italic>”. Contudo, sabemos bem que, nos ciclos dos elementos efêmeros (de tudo o que vem e vai, que nasce, morre e renasce), tudo isso aparece ali, à mão. O fascismo, por exemplo. Então, talvez seja interessante nos lembrarmos de outros elementos que, da mesma forma, estão aqui, à mão: nossas prosas com tanta gente diferente no jardim de Mariana (que os tempos mais difíceis nunca conseguiram impedir), as playlists que tocamos (aquelas que você criou para os dias nebulosos, mas também para os dias de celebrar), os encontros do Quintais<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>3</sup></xref> (em geral, cheios de gente fina, elegante e sincera, não é isso?). Enfim, coisas legais - embora igualmente efêmeras. Mas aí é que está, Edir: entre o real e o efêmero, estão as escolhas. E, nesse sentido, amigo, existirá o que quisermos que exista, que permaneça, que se solidifique e que faça brotar outros desejos.</p>
		<p>É até por isso, devo dizer, que, na minha concepção, o Torquato morto se deixa ver menos na manchete de <italic>O Globo</italic> e mais na rosa colhida pelo pai dele no jardim de casa, em Teresina - aquela que ele entregou ao Caetano Veloso. O Caetano, que, àquela altura, dentro da casa vazia de Torquato, mirava o dourado da <italic>Cajuína</italic> (também servida pelo pai do jovem poeta) no copo de vidro que descansava ali, sobre a mesa. Na casa do poeta - e com o pai dele -, o Caetano conseguiu, finalmente, chorar (e cantar) aquela morte-vida. Isso é real. Ficará para sempre cravado na alma deles. E na nossa. Não está sujeito a ciclos, entende? E, sim, tudo a ver com o poema musicado pelos Titãs, o <italic>Go Back</italic>: seguindo adiante, afinal, a despeito do medo do tempo que passa. </p>
		<p>Com isso quero dizer que até as perdas, seja lá quais e quantas forem, também possuem, em alguma medida, um caráter efêmero, não? Até porque tudo o que experimentamos ontem já explodiu, já se desfez em algum lugar. O real, contudo, está assentado em nós. Não é imutável, mas está posto. O real é o que somos, Edir. No livro do Arnaldo que você me emprestou - o <italic>Algo Antigo</italic>, de 2021 -, ele diz assim, num dado momento: “Não tenho saudades / do que vivi / porque tudo / está aqui / encorpado / dentro de mim / como um fígado / um pâncreas / um rim”. Então, você tem razão quando constata que, a despeito das dores todas, já nos tornamos o que somos. E agora estamos aqui pensando todo o tempo, tentando transformar gestos, palavras, modos de olhar para o mundo. Labutamos bastante naqueles tempos soturnos - e ainda estamos na lida: amarrando o arado à estrela, só para terminar o argumento ancorada ao Gilberto Gil.</p>
		<p>Também descobri agora, escrevendo esta carta, que o real é o que me arrebata - ainda que o efêmero molde cada dia que vivo. Por exemplo: todas as vezes que o outono se anuncia, acalento a visão daquela jabuticabeira do quintal do campus da UFOP, quase em frente às janelas da sala (gabinete do ócio, “gabinete do ódio”, gabinete do amor) que nós dividimos. Da minha janela, em especial (aquela de que você quer se apossar, mas não vou deixar), vejo o movimento de estudantes e daquele grupo tão bonito de pessoas que, dia após dia, limpa e cuida de todos os espaços da universidade. Uma gente que, todo santo dia, transforma aquele lugar em outro lugar. Pois é, pois é… O real está ali, sabe? Neste ponto, acho que estou me pautando em Milton Santos. Em um dos artigos escritos para a <italic>Folha de S.Paulo</italic>, na década de 1990 - em pleno cenário de “globalização perversa”, como o próprio costumava dizer -, ele afirmou que não cabia, mesmo naquele contexto, “perder a esperança” diante das realidades<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>4</sup></xref>. Argumentava, então, que as pessoas estão sempre construindo e reconstruindo. Que os progressos técnicos que já podiam ser observados no final do século XX garantiriam, sim, a produção de mais alimentos, novos avanços na medicina, novas formas de ocupação territorial, entre outros ganhos. </p>
		<p>Não digo essas coisas por mera gana otimista, juro. É que, no fundo, bem sabemos nós que, apesar de todos os desafios - que nunca cessam, é verdade -, estamos caminhando para um novo tempo, para um redesenho do país, uma reconstrução do real. Falamos disso, lembra? Naquela ocasião, até me veio à mente (mas não me recordo se cheguei a comentar) a fala do jornalista José Castello sobre o papel do real na escrita de João Cabral de Melo Neto. Depois de nove meses de entrevistas semanais com o poeta, Castello registrou que ele (João Cabral) necessitava do real “como um vampiro de sangue”. E emendou: “sua compulsão é inspirar matéria e depois expirá-la em versos, moldando o mundo com seu sopro”<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>5</sup></xref>. E não é exatamente assim que seguimos? Inspirando o efêmero (sobre o qual não temos o menor controle) e expirando o que queremos ver concretado em real?</p>
		<p>É assim, amigo. Há dez anos, você perambulava por Ouro Preto e Mariana, meio desejoso de estar por essas bandas. Agora andamos, ambos, pelas ruas estreitas, ladeadas por casas de até dois, três séculos, evocando coisas inacreditáveis, de tão tolas - como a novela do Gilberto Braga, <italic>Água Viva</italic>, de 1980. Ela é que trazia o ator Cláudio Cavalcanti no papel do professor Edir, o cara para quem a sala de aula representava, efetivamente, a única solução para todos os problemas do mundo (reais e efêmeros). </p>
		<p>Ah, bem… isso não tem fim. Que bom é prosear com você, querido. Receba meu abraço de volta - <italic>de preferência, ao som de Electrolite, do R.E.M</italic>.</p>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>3</label>
				<p>Grupo de Pesquisa “Quintais: cultura da mídia, arte e política” (Curso de Jornalismo - ICSA/UFOP).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>4</label>
				<p>SANTOS, M. <italic>O país distorcido</italic>: o Brasil, a globalização a cidadania. São Paulo: Publifolha, 2002. p. 79-80.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>5</label>
				<p>MELO NETO, J. C. <italic>O homem sem alma</italic>. São Paulo: Rocco, 1996. p. 29-30.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
</article>