<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
  <article article-type="research-article"
           dtd-version="1.1"
           xml:lang="pt"
           xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"
           xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink"
           specific-use="sps-1.9">
    <front>
      <journal-meta>
        <journal-id journal-id-type="publisher-id">RuMoRes</journal-id>
        <journal-title-group>
          <journal-title>Revista online de comunicação, linguagem e mídias</journal-title>
          <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rumores</abbrev-journal-title>
        </journal-title-group>
        <issn pub-type="epub" publication-format="electronic">1982-677X</issn>
        <publisher>
          <publisher-name>Revista online de comunicação, linguagem e mídias da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
        </publisher>
      </journal-meta>
      <article-meta>
        <article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2022.200387</article-id>
        <article-categories>
          <subj-group subj-group-type="heading">
            <subject>DOSSIÊ</subject>
          </subj-group>
        </article-categories>
        <title-group>
          <article-title>
            Felipe Neto: uma celebridade política?
          </article-title>
          <trans-title-group>
            <trans-title xml:lang="en">
              Felipe Neto: a political celebrity?
            </trans-title>
          </trans-title-group>
        </title-group>
        <contrib-group>
          <contrib contrib-type="author">
            <name>
              <surname>França</surname>
              <given-names>Vera</given-names>
            </name>
            <xref ref-type="aff" rid="aff1">
              <sup>1</sup>
            </xref>
            <xref ref-type="corresp" rid="c1" />
          </contrib>
          <contrib contrib-type="author">
            <name>
              <surname>Leurquin</surname>
              <given-names>Chloé</given-names>
            </name>
            <xref ref-type="aff" rid="aff2">
              <sup>2</sup>
            </xref>
            <xref ref-type="corresp" rid="c2" />
          </contrib>
        </contrib-group>
        <aff id="aff1">
          <institution content-type="original">Vera Veiga França é professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG e pesquisadora do CNPq</institution>
          <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Minas Gerais</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Comunicação</institution>
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
        <aff id="aff2">
          <institution content-type="original">Chloé Leurquin é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG.</institution>
          <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Minas Gerais</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Comunicação</institution>
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
        <author-notes>
          <corresp id="c1">
            <label>E-mail:</label>
            <email>veravfranca@yahoo.com.br</email>
          </corresp>
          <corresp id="c2">
            <label>E-mail:</label>
            <email>chloeleurquin@gmail.com</email>
          </corresp>
        </author-notes>
        <pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
          <day>26</day>
          <month>07</month>
          <year>2022</year>
        </pub-date>
        <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
          <season>Jan-Jun</season>
          <year>2022</year>
        </pub-date>
        <volume>16</volume>
        <issue>31</issue>
        <fpage>15</fpage>
        <lpage>41</lpage>
        <history>
          <date date-type="received">
            <day>14</day>
            <month>04</month>
            <year>2022</year>
          </date>
          <date date-type="accepted">
            <day>05</day>
            <month>05</month>
            <year>2022</year>
          </date>
        </history>
        <permissions>
          <license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/" xml:lang="pt">
            <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença 
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">Creative Commons</ext-link>
            </license-p>
          </license>
        </permissions>
        <abstract>
          <title>RESUMO</title>
          <p>O objetivo deste texto é apresentar resultados de uma leitura exploratória sobre a celebridade Felipe Neto. Analisamos uma entrevista de 2017, início do redirecionamento de sua trajetória e pós-golpe contra Dilma Rousseff; e outra de 2020, quando ele se reconhece como um locutor autorizado para falar da situação brasileira, durante um governo de extrema-direita e da pandemia do coronavírus. Discutimos sobre como Felipe Neto fala de si, como ele se dirige ao outro e como fala do mundo, em uma adaptação própria da Análise do Discurso de Verón. Constatamos que não houve mudanças substantivas, mas um movimento de amadurecimento. Ele repetiu o lugar comum de crítica à política e aos políticos; depois, enfatizou o combate ao autoritarismo, ao negacionismo e ao obscurantismo.</p>
        </abstract>
        <trans-abstract>
          <title>ABSTRACT</title>
          <p>This paper presents the results of an exploratory reading on the celebrity Felipe Neto conducted by means of two interview analyses: one 2017 interview, when he begins redirecting his trajectory and post-coup against Dilma Rousseff; and another from 2020, when he positions himself as an authorized figure to comment on the Brazilian situation, amidst a far-right government and the Coronavirus pandemic. It discusses how Felipe Neto talks about himself, how he addresses the other and talks about the world, based on an adaptation of Verón’s Discourse Analysis. The analysis found no substantive changes, but a maturing process: first, a repetition of commonplace criticisms of politics and politicians; then, an emphatic discourse against authoritarianism, denialism, and obscurantism.</p>
        </trans-abstract>
        <kwd-group xml:lang="pt">
          <title>Palavras-chave:</title>
          <kwd>Celebridades</kwd>
          <kwd>celebridades políticas</kwd>
          <kwd>análise do discurso</kwd>
          <kwd>entrevistas</kwd>
          <kwd>Felipe Neto</kwd>
        </kwd-group>
        <kwd-group xml:lang="en">
          <title>Keywords:</title>
          <kwd>Celebrities</kwd>
          <kwd>political celebrities</kwd>
          <kwd>discourse analysis</kwd>
          <kwd>interviews</kwd>
          <kwd>Felipe Neto</kwd>
        </kwd-group>
        <counts>
          <ref-count count="20"                               />
          <page-count count="27"                               />
        </counts>
      </article-meta>
    </front>
    <body>
      <p>Este artigo mostra o resultado de uma primeira leitura exploratória sobre um estudo realizado a respeito da celebridade Felipe Neto. Foi nosso interesse analisar mudanças no discurso do youtuber, por se tratar de um influenciador digital bastante conhecido, com uma trajetória pública de mais de 10 anos. A celebridade começou seu trabalho na internet, como um “zoador”, dirigindo seu conteúdo a um público adolescente. Depois, foi redirecionando seu posicionamento, assumindo bandeiras sociais e se colocando, hoje, como crítico ferrenho de Bolsonaro e do que ele significa na contemporaneidade.</p>
      <p>Propusemo-nos a analisar duas entrevistas: uma de 2017, no início do redirecionamento de sua trajetória, época pós-golpe contra Dilma Rousseff; e uma de 2020, ano em que se vê reconhecido como um locutor autorizado para falar da situação brasileira, momento em que o presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, já governava o Brasil e o mundo passava pela pandemia do coronavírus. Por ser um corpus restrito, não permite uma leitura mais ampla e aprofundada (é, de fato, uma leitura exploratória).</p>
      <p>Buscando radiografar, com mais cuidado, essa mudança da celebridade em questão, fizemos uma leitura desses dois momentos por meio da análise da enunciação, inspirada na proposta de Eliseo Verón (
        <xref alt="2004" rid="ref-b20" ref-type="bibr">2004</xref>), que conta com três eixos (adaptados por nós): a imagem de si mesmo; a imagem do outro a quem se dirige e a conformação da relação estabelecida com ele; e o tratamento que dá ao conteúdo (imagem do mundo ou daquilo que ele enuncia). O texto está dividido em quatro momentos. Inicialmente, apresentamos brevemente a celebridade Felipe Neto, apontando alguns acontecimentos marcantes em sua trajetória. Em seguida, analisamos a primeira entrevista (que aqui chamaremos de Entrevista 1), de 2017, seguida da segunda (aqui referida como Entrevista 2), de 2020, ambas a partir das três categorias elencadas. Por fim, apresentamos conclusões iniciais acerca do objeto abordado.
      </p>
      <p>Na tentativa de aprofundar os estudos comunicacionais sobre o fenômeno das celebridades na contemporaneidade e o que isso pode dizer sobre a nossa sociedade, diversos estudos já foram realizados. No seio do Grupo de Pesquisa em Imagem e Sociabilidade (GRIS), destacamos os esforços de Simões (
        <xref alt="2012" rid="ref-b17" ref-type="bibr">2012</xref>, 
        <xref alt="2013" rid="ref-b16" ref-type="bibr">2013</xref>, 
        <xref alt="2014" rid="ref-b18" ref-type="bibr">2014</xref>), França e Simões (
        <xref alt="2020" rid="ref-b8" ref-type="bibr">2020</xref>), Medeiros (
        <xref alt="2020" rid="ref-b12" ref-type="bibr">2020</xref>), Lana (
        <xref alt="2012" rid="ref-b10" ref-type="bibr">2012</xref>), Lima (
        <xref alt="2019" rid="ref-b11" ref-type="bibr">2019</xref>), Afonso (
        <xref alt="2019" rid="ref-b1" ref-type="bibr">2019</xref>), dentre outros. Sobre o influenciador digital Felipe Neto, especificamente, destacamos três trabalhos: um reflete sobre a performance da celebridade no Youtube (
        <xref alt="SALGADO, 2013" rid="ref-b15" ref-type="bibr">SALGADO, 2013</xref>); outro, sobre a reorientação de trajetórias de celebridades e a politização do youtuber (
        <xref alt="FRANÇA; LIMA, 2020" rid="ref-b6" ref-type="bibr">FRANÇA; LIMA, 2020</xref>); e o terceiro, sobre as estratégias políticas atuais e o uso de desinformação contra o artista (
        <xref alt="FRANÇA; LEURQUIN, 2020" rid="ref-b5" ref-type="bibr">FRANÇA; LEURQUIN, 2020</xref>).
      </p>
      <p>Não são poucas as figuras célebres que se interessam por política a ponto de concorrer em eleições e/ou assumir cargos, como Donald Trump, nos EUA (
        <xref alt="STREET, 2019" rid="ref-b19" ref-type="bibr">STREET, 2019</xref>), Volodymyr Zelensky, na Ucrânia, ou Éric Zemmour, na França. No Brasil, temos Jean Wyllys, Tiririca e Alexandre Frota, para citar algumas figuras de grande destaque. Mesmo sem concorrer a cargos da política institucional ou ser filiado a algum partido, Felipe Neto coloca-se, cada vez mais, na cena política, a ponto de se apresentar, atualmente, como uma celebridade política (
        <xref alt="KAMRADT, 2019" rid="ref-b9" ref-type="bibr">KAMRADT, 2019</xref>)
        <sup>
          <xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
        </sup>.
      </p>
      <p>Felipe Neto não apenas se coloca abertamente em questões deste âmbito, como também passou a ser conhecido por cobrar de outras celebridades um posicionamento político explícito. Isso é denominado por Dakhlia (
        <xref alt="2015" rid="ref-b2" ref-type="bibr">2015</xref>) como processo de 
        <italic>peopolisation,</italic> que parte do “espetáculo” e vai em direção à política, em que celebridades usam de seu prestígio para dar visibilidade a questões políticas. Sendo assim, consideramos importante refletir sobre os discursos e posicionamentos políticos de celebridades brasileiras, como Felipe Neto, e, para tanto, faz-se necessário compreender quem é o youtuber e quais os acontecimentos (
        <xref alt="FRANÇA; LOPES, 2017" rid="ref-b7" ref-type="bibr">FRANÇA; LOPES, 2017</xref>; 
        <xref alt="QUÉRÉ, 2012" rid="ref-b13" ref-type="bibr">QUÉRÉ, 2012</xref>) mais marcantes de sua carreira.
      </p>
      <sec id="a-trajetória-de-felipe-neto">
        <title>A trajetória de Felipe Neto</title>
        <p>Felipe Neto Rodrigues Vieira nasceu em 1988, no Rio de Janeiro, capital. É filho de pai brasileiro e mãe portuguesa. Começou a trabalhar como vendedor aos 13 anos. Em 2010, ele iniciou o canal “Não Faz Sentido!”, no YouTube, o que lhe rendeu o título de primeiro perfil brasileiro a atingir a [marca de 1 milhão de inscritos. A partir de seu]s vídeos, ficou caracterizado pelo tom crítico/agressivo que usava para comentar sobre pessoas, acontecimentos cotidianos e gostos dos jovens da época (que ele costumava chamar de “modinhas”).</p>
        <p>Como resultado do seu sucesso na web, f[oi cotado para programas de TV, em canais como Multishow, Globo e Record.] Protagonizou dois especiais para a Netflix, foi garoto-propaganda de diversas marcas e costumava fazer merchandising em seus vídeos. Em 2011, o youtuber criou a empresa “Paramaker Network”, dona do canal “Parafernalha” e de outros sucessos do YouTube, expandindo sua influência na web. Cinco anos depois, reinventou o seu canal, alterando o conteúdo e formato dos vídeos. No ano seguinte, em parceria com seu irmão e também youtuber Luccas, criou o canal “Irmãos Neto” – que chegou à marca de um milhão de inscritos em menos de 24 horas. Juntos, Felipe e Luccas são donos de um dos maiores canais infanto-juvenis do Brasil e exercem muita influência sobre esse público.</p>
        <p>Inicialmente, discutia temáticas cotidianas de forma satirizada. Todavia, a partir de 2016, passou a ser mais politizado e, atualmente, ele se envolve em questões políticas e costuma opinar sobre o comportamento dos governantes do país. Em 2017, fez um vídeo em oposição ao político evangélico Silas Malafaia, que havia promovido um boicote à Disney por exibir um beijo gay em uma de suas produções, o desenho 
          <italic>Star vs. as Forças do Mal</italic>. No ano seguinte, Felipe Neto teve um vídeo íntimo vazado. Em 2019, a celebridade criticou a cantora mirim Melody, denunciando o forte apelo sexual dos seus clipes. A atitude do rapaz trouxe à tona a discussão da hipersexualização infantil e o uso da internet por crianças.
        </p>
        <p>Na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, no mesmo ano, trouxe para a discussão o beijo gay protagonizado em uma edição de Histórias em Quadrinhos, contrapondo-se a uma ação de Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, de mandar recolher do evento a edição da HQ. Em 2020, Felipe Neto foi eleito como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista 
          <italic>Time</italic>. Tal situação destacou o alcance do youtuber e também a mudança de abordagem do empresário, assumindo um tom mais político.
        </p>
        <p>Ainda em 2020, ele teve um vídeo sobre a situação política brasileira publicado no jornal 
          <italic>The New York Times</italic> (
          <xref alt="DONALD…, 2020" rid="ref-b3" ref-type="bibr">DONALD…, 2020</xref>). Nele, destacamos as críticas a Trump e a Bolsonaro. Em março do ano seguinte, ele foi intimado a responder por crime contra segurança nacional por ter chamado Bolsonaro de “genocida”. O pedido foi feito por Carlos Bolsonaro, que também já tinha pedido sua intimação por “corrupção de menores”. A investigação foi suspensa e, em seguida, arquivada. Em maio de 2020, o youtuber gravou um vídeo criticando o cenário político brasileiro e exigindo posicionamento de artistas considerados “isentos” na política. Depois disso, ele deixou de seguir artistas que não se posicionavam politicamente, como Whinderson Nunes e Marina Ruy Barbosa.
        </p>
        <p>É possível destacar pontos altos de sua trajetória, nos últimos anos, que o caracterizam no contexto nacional e internacional como uma celebridade que defende a causa LGBTQIA+, denuncia a exploração infantil na internet e assume um discurso crítico contundente contra o governo Bolsonaro, pelo seu negacionismo no tratamento da pandemia e por suas atitudes autoritárias – fascistas, como ele passou a dizer. No item que segue, passamos a analisar a Entrevista 1, intitulada “Não voto em corrupto. Não voto no Lula”. As apreciações têm como pauta os temas já elencados e estão ancoradas nos conceitos já definidos na introdução deste texto.</p>
      </sec>
      <sec id="entrevista-1-canal-rica-perrone">
        <title>Entrevista 1 – “Canal Rica Perrone”</title>
        <p>A Entrevista 1 foi concedida ao canal do YouTube “Rica Perrone” e publicada no dia 26 de junho de 2017, tendo alcançado 378.484 visualizações. Aconteceu no Programa “Cara a Tapa”, com Rica Perrone e Felipe Neto. A entrevista tem duração de vinte e oito minutos e cinquenta e três segundos. Antes de falar propriamente sobre a entrevista, é preciso ressaltar quem é o entrevistador. Ricardo Perrone, aqui denominado de Rica, é um jornalista esportivo independente. Ele teve rápidas passagens pela mídia (Bandeirantes), mas tornou- se mais conhecido por seu blog. Hoje, possui um canal no Youtube, “Canal do Rica Perrone”, com um programa específico chamado “Cara a tapa”.</p>
        <p>Nesse espaço, entrevista pessoas do meio esportivo, mas também personalidades de sucesso, como Fábio Porchat e Gregório Duvivier, por exemplo. É também importante, para entender o contexto da entrevista, informar que, em 2018 (portanto, após a entrevista), durante a campanha de Jair Bolsonaro à presidência, Ricardo Perrone entrou em choque com Felipe Neto, quando este começou a assumir posições políticas mais consistentes. Em 2020, Rica protagonizou uma polêmica com o entrevistado, conhecido por defender o isolamento social durante a pandemia, a quem chamou de hipócrita. Três pontos serão analisados na entrevista 1, a saber: 1) como fala de si; 2) como se dirige ao outro; e 3) como fala do mundo, tendo como base Verón (
          <xref alt="2004" rid="ref-b20" ref-type="bibr">2004</xref>).
        </p>
        <sec id="como-felipe-neto-fala-de-si">
          <title>Como Felipe Neto fala de si</title>
          <p>Ao analisar uma entrevista, é importante considerar que todo texto é construído em situação de interação, de comunicação. Os envolvidos na interação assumem papéis na sociedade e seus posicionamentos se expressam nos textos enunciados. Assim, é possível dizer que, na entrevista em questão, há uma autoimagem de Felipe Neto em sua fala, e que ele a constrói de forma positiva. Ele reconhece um processo de amadurecimento, quando afirma que “viveu fase moleque, inconsequente” (
            <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>). Essa mudança se manifesta em vários aspectos e, atualmente, ele diz se sentir mais seguro e independente dos comentários alheios. A segurança sobre a qual ele fala é estendida, quando fala sobre posicionamentos políticos tomados.
          </p>
          <p>Nesse sentido, faz autocrítica de um momento que ele denomina de “meio esquerdista”, em que avaliou positivamente o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Sobre essa situação, ele afirma: “eu tava numa fase meio… meio… meio esquerda é… é… é… sem cérebro. Sabe aquele cara que não pensa antes de se posicionar politicamente?” Chamamos a atenção para a relação estreita que ele estabelece entre posicionamentos de esquerda e ser portador de anencefalia, ou para a atitude de agir sem tomar consciência dos seus atos. Na construção de sua imagem, feita por ele próprio, o entrevistado situa seu posicionamento como não sendo esquerdista, mas a favor dos Direitos Humanos. Em suas palavras, afirma: “Eu nunca fui socialista, mas eu tava numa vertente muito esquerda. E… e… é… embora hoje eu seja um cara que ainda continuo com pensamentos de Direitos Humanos, continuo com pensamentos de… de ações sociais e, porra, de distribuição de renda […]”.</p>
          <p>Ao avaliar a sua posição anterior, ele mostra insatisfação com o que fazia (“Eu nunca fui socialista, mas eu tava numa vertente muito esquerda”). Segundo ele, antes se sentia infeliz e, por isso, causava polêmicas e entrava em brigas, como forma de compensação. Na sequência de sua fala, demonstra satisfação com o que faz (“continuo com pensamentos de… de ações sociais e, porra, de distribuição de renda”). Agora, melhorou sua relação com os outros – não critica, “não dá patada”. No decorrer da entrevista, ele esclarece seu pensamento e o amplia quando afirma que:</p>
          <disp-quote>
            <p>Olha o quanto, hoje, eu não critico mais ninguém, não dou patada nos outros… eu não tô causando treta, não fico atrás… Por que que eu fazia aquilo naquela época? Porque eu era infeliz. […] Faltava estar num projeto em que eu amasse. O “Não faz sentido!” não me despertava amor. […] Hoje, eu não sinto mais necessidade de treta, de polêmica, de briga. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Felipe Neto se vê como um moleque e mantém esse estilo, porque, segundo ele, com 30 anos, se sente jovem. Vai mais além na construção de sua imagem, ao afirmar: “eu gosto da besteira, eu gosto do bobo, eu me sinto um moleque. Eu tenho a vantagem de parecer mais jovem, principalmente sem barba.” De sua fase anterior, e de certa forma criticamente, ele reconhece que gostava mesmo era de “fazer o personagem”. No entanto, mostrando que ainda investe num personagem, ele fala sobre sua aparência e sobre as estratégias de imagem a partir dela, quando afirma: “eu tirei a barba como estratégia de imagem. Eu tirei a barba, eu fiz o planejamento de pintar o cabelo”.</p>
          <p>Sobre sua posição política atual, ele se coloca como “contra a corrupção”, defendendo uma suposta postura de “isentão” que lhe é atribuída, colocando sinal de igualdade entre Lula e Aécio: “O pessoal fala que eu sou ‘isentão’. Eu falo: ‘caralho, se ser isentão é ser contra corrupção, então eu sou isentão, velho.’ Você quer que eu faça o quê? Você quer que eu escolha entre Lula e Aécio?”</p>
          <p>Respondendo a uma pergunta sobre qual a crítica que faria a si próprio, diz que se acha um alvo fácil para ser acusado de “pseudointelectual querendo aparecer”, motivado pela polêmica. Em suma, a autoimagem de Felipe Neto na entrevista de 2017 para o canal do YouTube de Rica Perrone é positiva. Ela fala de alguém que está evoluindo, que tem espírito jovem e gosta de brincadeira; alguém leve e que está bem com o que faz. O influenciador reconhece que passou por fases mais inconsequentes e, embora ainda se sinta “um moleque”, acredita que deixou para trás um comportamento como tal. Felipe Neto se posiciona como um sujeito correto: a favor dos direitos humanos e contra a corrupção. Em um aspecto negativo, ele se critica como um “pseudointelectual”, o que também traz um indicador de um lugar onde ele se projeta – a pretensão de ser um influenciador mais culto.</p>
        </sec>
        <sec id="como-felipe-neto-se-dirige-ao-outro">
          <title>Como Felipe Neto se dirige ao outro</title>
          <p>Quando observamos a forma com que o sujeito analisado se dirige ao outro, podemos olhar tanto para a maneira como Felipe Neto se coloca na entrevista com Rica, quanto para a maneira como projeta sua interação pública. Na entrevista, ele está descontraído, assume o tipo descolado, e atende ao pedido do entrevistador de fazer inscrição para o seu canal “Rica Perrone” – concordando com seu papel de influenciador forte. A descontração é também o tom que procura estabelecer com seu público. Perguntado se ele faz humor, opinião, arte ou besteirol, ele responde brincando e rindo: “besteirol total”. Mas complementa, falando de um equilíbrio: “Lógico que tem qualidade, mas é o seguinte: eu gosto da besteira, eu gosto do bobo. Isso me faz muito feliz. Então, assim: uma coisa não exclui a outra. Não é porque eu faço besteirol que isso não é arte […]. Eu gosto de fazer as pessoas rirem”.</p>
          <p>Nesse sentido, ele se mostra ressentido com a leitura simplificada que os usuários (ou seus críticos) fazem de seu trabalho, quando afirma que “as pessoas são muito reducionistas. Elas pegam uma coisa que você falou e falam: ‘ah, então ele odeia isso aqui’”. Ainda assim, marca sua independência frente ao olhar do outro e afirma que não se importa mais com as críticas, que se sente mais seguro – dada a solidez de sua posição hoje.</p>
          <disp-quote>
            <p>Eu passei a cagar mais. Eu passei a: “ah, fulano falou mal de mim”, eu: “ah, caguei”. “Ah, fulano disse que você…”, “caguei!”. O “foda-se” se tornou muito mais presente […], aquele “foda-se” de lavar a alma. Isso foi o que me trouxe não só o dinheiro, mas o fato do canal estar como está hoje. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>A entrevista não permite avançar muito na análise da imagem que ele constrói de seu público, ou do público que está assistindo à sua entrevista. Sua proposta é construir uma interação leve, que confirme o tom “moleque” que ele diz caracterizar sua postura e estado de espírito. Dessa maneira, projeta do outro lado um interlocutor também de espírito jovem, mas bem-informado, que aprecia suas investidas críticas.</p>
        </sec>
        <sec id="como-fala-do-mundo-de-aspectos-da-realidade">
          <title>Como fala do mundo (de aspectos da realidade)</title>
          <p>Ao refletir sobre a forma com que a celebridade fala sobre aspectos da realidade, dois temas ganham destaque nesta entrevista: a comunicação e a política, que apresentamos a seguir.</p>
          <p>No primeiro tema, 
            <italic>opinião sobre a comunicação</italic>, como um comunicador de sucesso que é, Felipe Neto se coloca numa posição de conhecedor do cenário comunicativo e crítico do funcionamento das plataformas das redes sociais. Sobre o YouTube, que ele naturalmente aprecia (e do qual depende), sua crítica se dirige a posições unilaterais da plataforma, a decisões que podem afetar seu canal, à falta de valorização dos criadores de conteúdo.
          </p>
          <disp-quote>
            <p>Eu não tenho treta com YouTube, eu amo o YouTube. Eu fico puto com determinadas coisas que eles fazem. Eu fico puto quando eles mudam a plataforma severamente e não comunicam a gente. Eu fico puto quando eles tomam decisões unilaterais sem consultar os criadores da plataforma. Eu fico puto quando eles mudam o algoritmo e prejudicam diversos canais de graça. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Nessa crítica, está embutido o reconhecimento dos direitos e autonomia da empresa privada: “Eu fico puto com decisão arbitrária, embora eles tenham todo o direito de fazer. É uma empresa privada, não deve satisfação a ninguém. Se eles quiserem, apagam meu canal e falam: ‘foda-se’ você, entendeu? Eles não me devem nada”.</p>
          <p>Mas também ressalta a importância do próprio trabalho, quando afirma que acha que “o YouTube não seria o que é se não fosse por nós. Seria um repositório de vídeo de gatinho”. Ainda assim, defende a livre concorrência como forma de equilíbrio, tendo em vista que “a ausência de concorrência faz isso, cara. Quem compete com o YouTube hoje? Ninguém”. Já sobre o Facebook, ele tece críticas sobre a monetização, afirmando que a plataforma ganha dinheiro sozinha, em detrimento de quem produz conteúdo:</p>
          <disp-quote>
            <p>Porque o cara que cria conteúdo profissional, ele não tá no Facebook, porque ele não ganha. Então por que eu vou criar conteúdo exclusivo pro Facebook, se eu vou postar, o Facebook vai lucrar e não me dá nada? Então é como todo mundo pensa: precisa que o Facebook, e já começou, comece a monetizar os vídeos e comece a ter uma estrutura de canal… O Facebook é mestre em sequestrar seus fãs. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Ainda na distinção entre as duas plataformas, fala sobre quem produz conteúdo e afirma que há distinção entre quem posta no YouTube e no Facebook: os que estão no Facebook buscam apenas reconhecimento, “tão querendo ‘like’”. Por outro lado, elogia a qualidade dos meios hegemônicos de comunicação, especificamente o “padrão Globo de qualidade”, que ele atribui ao “trabalho genial do Boni”. Entretanto, sobre isso, indica a supremacia das redes sociais na produção de impacto e eficácia publicitária:</p>
          <disp-quote>
            <p>Mas eu não tenho a menor dúvida, eu falo com 100% de certeza absoluta: pra 90% de todos os segmentos da publicidade, se você tirar o dinheiro que é colocado na mídia off-line e colocar a mesma quantia no digital, você impacta muito mais gente. Se tirar 20 milhões da Globo e colocar 20 milhões no digital, você vai impactar muito mais gente com esses 20 milhões do que você vai impactar na Globo. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Em síntese, Felipe Neto fala com segurança do ambiente das plataformas digitais, destaca seu impacto e poder de influência, valoriza mais o YouTube que o Facebook, pela não monetização desse último. Embora reconheça a autonomia da empresa privada e o valor da livre concorrência, questiona a autonomia dessas plataformas frente não à sociedade, mas aos produtores de conteúdo (como é seu caso). O ponto de vista que ele defende é o do empresário.</p>
          <p>No segundo tema, 
            <italic>opinião sobre a política,</italic> Felipe Neto foi perguntado sobre sua polêmica com Silas Malafaia, com relação a sua opinião sobre o PSOL (que ele havia elogiado em outro momento), e a respeito do seu posicionamento frente a alguns líderes políticos no momento: Bolsonaro, Aécio, Lula.
          </p>
          <p>Sua crítica a Malafaia diz respeito aos ataques que o parlamentar-pastor desfere contra a população LGBTQIA+ e, nessa perspectiva, assume a defesa inconteste desse grupo:</p>
          <disp-quote>
            <p>O Malafaia, ele é um cara… que é o seguinte: eu sinto que o que ele faz pra sociedade é tão nocivo, e é como se fosse… é tão perigoso, o que ele faz na sociedade, do ponto de vista de opiniões… Fizeram um estudo do Twitter dele… ele fala, acho, que cinco vezes mais sobre gay do que sobre Deus. Então, eu acho que ele faz um trabalho tão pesado, tão perigoso, que eu não consigo ficar quieto. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Manifesta seu desprezo pelo PSOL (do qual havia se mostrado simpatizante em entrevista três anos antes):</p>
          <disp-quote>
            <p>Porra, eu tenho asco do PSOL, cara. Eu acho que o PSOL virou um… porra… uma representação de muita coisa que eu acho patética, entendeu? E propostas de governo… propostas dentro ali do PSOL e dentro de representantes do PSOL que a gente dá risada, entendeu? Por mais que eu tenha algum carinho por uma figura ou outra que esteja ali dentro, como organização, como partido, o PSOL virou uma piada, na minha opinião. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>E fez questão de falar sobre Jean Wyllys, então político do partido, a quem ele tinha atribuído a nota 9 na entrevista anterior: “Dois! Hoje, [nota] dois. É, o cara achar que pra você combater Bolsonaro, você tem que ser o Bolsonaro do outro lado, entendeu? E eu discordo. Eu não gosto de radicalismo, eu não consigo, cara. Eu nunca vou defender uma cuspida na cara”.</p>
          <p>Perguntado sobre sua preferência entre Bolsonaro, Aécio e Lula, manifesta uma opinião desfavorável aos três – mas a pior é sobre Lula. Não aprecia Bolsonaro – que ele analisa como um fenômeno digital, um político que tem um discurso fácil e vazio, toca em pontos sensíveis (a insegurança) e é acolhido por uma população desesperada e ignorante.</p>
          <disp-quote>
            <p>Existem fenômenos digitais muito fortes, né, cara?! Ele é um cara com um discurso muito fácil de ser entendido […]. Você tem o cara com um discurso fácil para uma população ignorante. Então, é fácil para o Bolsonaro virar um fenômeno, porque ele fala o que o povo quer ouvir. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Destaca o perigo do momento atual – o medo, a insegurança gerando espaço para fanáticos:</p>
          <disp-quote>
            <p>A gente vive um momento hoje, no Brasil, onde a impunidade é absurda e absoluta. Você tem, já, diversos corruptos saindo da cadeia […] soltos, regime[s] semiabertos e o cacete […]. Você tem o sentimento da população de insegurança, você tem o sentimento de falta de representatividade em todos os âmbitos e você tem uma população desesperada. Uma população desesperada, cara, você pode ler qualquer livro de história na sua vida… uma população desesperada é o ponto de partida para que fanáticos assumam o poder. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>E se coloca contra a pena de morte: “Porrada em bandido, vagabundo não sei o quê […], esse discurso é muito fácil. É um discurso que, na prática, não funciona pra porra nenhuma, dez países mais perigosos do planeta terra, os dez tem pena de morte […]”.</p>
          <p>Porém, votaria em Bolsonaro antes de votar nos outros dois, já que afirma que seu ponto de corte é a corrupção:</p>
          <disp-quote>
            <p>Se fosse Bolsonaro e Aécio? Dá nem pra pensar, né?! Bicho […], não, mas, cara, é […], o Bolsonaro representa grande parte das coisas que estão erradas no mundo, tá? Grande parte. Só que, por princípio, eu não voto em corrupto. Então, assim: não existe votar em alguém corrupto. Não existe. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Entre Bolsonaro e Lula, também fica com Bolsonaro, tendo em vista que “embora o Bolsonaro representa muita coisa que eu discordo… que eu acho que tá errado no mundo, se fosse ele contra o Lula, eu acho que eu não teria escolha. Eu teria que votar nele”. Entre Lula e Aécio, embora não veja chance de candidatura do Aécio, ainda fica com este:</p>
          <disp-quote>
            <p>Se fosse contra o Lula ou contra o Aécio? Cara, contra o Aécio é impossível. O Aécio acabou, acabou. Ele não tem mais a mínima […]. Eu vou falar Aécio com o coração sangrando e os olhos chorando, porque embora o Aécio seja um corrupto que tem que tá preso, tem que apodrecer na cadeia por conta do que fez, ficar bastante tempo lá refletindo sobre as merdas que fez, o Aécio não causou ao Brasil tudo que o Lula causou. Ele não aparelhou o Estado, ele não fodeu a economia brasileira […]. Votar no Lula sob qualquer hipótese, contra qualquer candidato, eu não voto. “Ah, o Lula contra o gorila Malaquias”, eu vou votar no gorila. (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Fala sobre a polarização daquele momento, em contraste com 2013, que ainda não era assim:</p>
          <disp-quote>
            <p>Eu acho que 2013, o lado era todo mundo junto. E era tanto “todo mundo junto”, que não se sabia nem o propósito. Não tinha um objetivo […]. “Vamo, foda-se o governo.” E hoje, as manifestações realmente, elas têm cunho político. Não dá pra ficar de nenhum desses dois lados, porque os dois lados pra mim são podres. Os dois são a manifestação de tudo que eu repudio. Então não tem como eu dizer que eu tenho um lado (o “isentão”). (
              <xref alt="FELIPE…, 2017" rid="ref-b4" ref-type="bibr">FELIPE…, 2017</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Nesta entrevista, que, aliás, foi solicitada por ele para “corrigir” algumas coisas que tinha falado em entrevista anterior, ele evidencia os traços centrais de sua posição política: não é de esquerda, é crítico do PSOL e do PT e tem como bandeira central o combate à corrupção. Não vê qualidades em Bolsonaro, que tem um discurso fácil e atrai (convence) um público ignorante, vivendo em condições desesperadoras. Coloca-se como um humanista, defensor dos direitos humanos e tem se posicionado com firmeza contra a homofobia e pelos direitos dos grupos LGBTQIA+.</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="entrevista-2-roda-viva-tv-cultura">
        <title>Entrevista 2 – 
          <italic>Roda Viva</italic>, TV Cultura
        </title>
        <p>A Entrevista 2 foi realizada no tradicional programa de televisão 
          <italic>Roda Viva</italic>, da TV Cultura, no dia 18 de maio de 2020. Com duração de uma hora e trinta e seis minutos, foi compartilhada no canal do YouTube do programa, onde teve mais de 2.809.105 visualizações. No ar desde setembro de 1986, o 
          <italic>Roda Viva</italic> é um dos mais notórios programas de entrevistas brasileiros. Produzido e transmitido pela TV Cultura, ele é exibido pela emissora às segundas-feiras, com transmissão simultânea pela internet. A cada edição, uma bancada de entrevistadores é convidada para entrevistar atores políticos, personalidades artísticas, intelectuais de renome, entre outras figuras do Brasil e do exterior, como Fidel Castro, Darcy Ribeiro, Tom Jobim, Pedro Almodóvar, Conceição Evaristo, Maria da Penha, entre outros.
        </p>
        <p>Atualmente, o programa é conduzido e apresentado pela jornalista Vera Magalhães. Na entrevista com Felipe Neto, além de Vera Magalhães, participaram da bancada do programa: Rachel Sheherazade, âncora do SBT Brasil; Mariliz Pereira Jorge, colunista da 
          <italic>Folha de S.Paulo</italic> e do canal 
          <italic>MyNews</italic>; Ticá Almeida, que trabalha na comunicação do Twitter Brasil; Carol Pires, colaboradora do 
          <italic>New York Times</italic> no Brasil e colunista da revista 
          <italic>Época</italic>; e Edgar Piccoli, apresentador da revista 
          <italic>Morning Show</italic>, da Jovem Pan. Além deles, a entrevista também contou com a participação do cartunista Paulo Caruso.
        </p>
        <sec id="como-felipe-neto-fala-de-si-1">
          <title>Como Felipe Neto fala de si</title>
          <p>Na entrevista concedida ao 
            <italic>Roda Vida</italic> em 2020, Felipe Neto tem uma autoimagem positiva e fala de amadurecimento. Repete várias vezes que se considera humilde, que não tem problema em mudar de opinião e pede desculpas por seus posicionamentos de antes: “[…] um defeito que eu não tenho é o de teimosia em não pedir desculpas. Eu errei muito no passado e aprendi com esses erros”.
          </p>
          <p>Logo no início da entrevista, reforçando que não tem problema em se desculpar, tenta provar seu suposto amadurecimento e faz o que chama de “mea-culpa” pelo apoio ao golpe contra Dilma Rousseff, em 2015. Ele diz que passou mais de três anos tentando corrigir o erro: “[…] no momento do que nós podemos chamar de golpe, a minha colaboração […] sem dúvida foi utilizada da maneira errada, equivocada, por falta de estudo, por falta de profundidade, por falta de leitura” (
            <xref alt="RODA VIVA..., 2020" rid="ref-b14" ref-type="bibr">RODA VIVA..., 2020</xref>). Apesar disso, afirma que não chega a ser um adorador, participante do projeto petista e repete algumas vezes que não é defensor de nenhum partido político e diz que prefere se identificar com o título de “isentão”.
          </p>
          <p>Entretanto, reitera muitas vezes que reconhece que os influenciadores digitais e os artistas em geral, como ele, têm responsabilidade por influenciar pessoas. Afirma, nesse sentido, que ficar calado é ser conivente: “[…] eu não tenho a menor dúvida de que eu sou um dos vetores de influência de uma pessoa que me acompanha assiduamente”. Nessa perspectiva de se responsabilizar pelo alcance que tem, ele se acha mais maduro que antes, pois hoje, além de buscar aprender sobre causas sociais, prefere se calar diante de pessoas que têm mais conhecimento sobre determinado assunto: “Eu acho que umas coisas que a maturidade me trouxe foi: às vezes é bom calar a boca, às vezes é bom ouvir, apenas, e não falar nada. Às vezes, é bom dar voz a quem tem autoridade para falar sobre determinado assunto”.</p>
          <p>Ainda sobre maturidade, assume que, devido à sua criação conservadora, teve muitos posicionamentos questionáveis, como atitudes homofóbicas e machistas, ao longo da vida. Mas, ainda assim, fala que a repercussão desses posicionamentos, em função de sua visibilidade desde muito jovem, é o mais grave. Diz que hoje percebe que tem muitos privilégios e busca ajudar e entender como se sentem as pessoas menos privilegiadas.</p>
          <p>Na entrevista, ele fala sobre seu diagnóstico de depressão, que ocorreu em 2010, e ressalta a importância de debater o assunto, inclusive com jovens, para que eles se sintam à vontade para falar sobre a doença: “Eu percebi que eu poderia falar com essas pessoas e poderia principalmente falar para elas: falem […]. A gente precisa tirar a depressão do armário, a gente precisa fazer as pessoas pararem de ter medo de falar”.</p>
          <p>Apesar dessa atitude séria e madura que Felipe Neto busca fixar, chama a atenção, quando perguntado sobre o que mais gosta de fazer, o fato de admitir que sente mais prazer em jogar 
            <italic>Minecraft</italic>, jogo pelo qual é muito conhecido entre os jovens, e sobre o qual comenta sempre.
          </p>
          <p>Em suma, a autoimagem de Felipe Neto em 2020 é positiva; é a imagem de alguém que já falou muitas besteiras, mas que é humilde o suficiente para assumir erros, buscar conhecimento e mudar de opinião.</p>
        </sec>
        <sec id="como-felipe-neto-se-dirige-ao-outro-1">
          <title>Como Felipe Neto se dirige ao outro</title>
          <p>Aqui, podemos olhar como Felipe Neto se coloca na entrevista diante da bancada do 
            <italic>Roda Viva</italic> e como ele projeta sua interação pública. Apesar de ser conhecido pela descontração, ele assume um tom sóbrio na entrevista, um tanto quanto sério, citando pesquisas e autores para embasar seus posicionamentos. Reflete sobre a responsabilidade que tem por ser um influenciador digital de grande alcance e ressalta, por diversas vezes, o prazer que sente por estar participando do programa. Ele agradece pelas perguntas feitas e assume uma postura respeitosa, inclusive tecendo elogios e se desculpando com Rachel Sheherazade, de quem era “hater” e a quem tecia duras críticas.
          </p>
          <p>Um ponto que chama atenção é sua definição muito clara dos públicos a quem se dirige em cada plataforma que usa – YouTube, Instagram e Twitter. Segundo Felipe, o seu canal do YouTube funciona como uma empresa que direciona conteúdos para jovens e jovens adultos, enquanto no seu Twitter, sobretudo, ele se coloca como sujeito e compartilha opiniões políticas, por exemplo.</p>
          <disp-quote>
            <p>[…] dentro do Youtube, eu tô criando conteúdo como uma pessoa e também como uma empresa. Há toda uma preparação por trás, há toda uma empresa por trás. Já no Twitter, não, o Twitter é uma rede social de opinião, onde eu simplesmente coloco pra fora o que eu penso, o que eu sinto, o que eu tô naquele dia pensando. (
              <xref alt="RODA VIVA..., 2020" rid="ref-b14" ref-type="bibr">RODA VIVA..., 2020</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Sobre o público do seu canal no YouTube, afirma que mudou a sua forma de produção de conteúdo ao longo dos anos por ter percebido a amplitude de seu alcance. Afirma, por exemplo, que em seus vídeos não faz uso de palavrões ou fala de certos assuntos, como sexo. Pontua que o seu conteúdo pode ser visto por jovens e por crianças acompanhadas de responsáveis. Assim, Felipe indica planejamento e clareza quanto à dinâmica de interação que tem com seus vários públicos. A interação considerada mais leve e planejada em parceria com profissionais fica em determinadas plataformas, direcionada ao público mais jovem, enquanto as críticas sociais e o tom mais engajado politicamente ficam restritos a outros meios digitais.</p>
        </sec>
        <sec id="como-fala-do-mundo-de-aspectos-da-realidade-1">
          <title>Como fala do mundo (de aspectos da realidade)</title>
          <p>Nesta entrevista, novamente, dois pontos se destacaram, a comunicação e a política, como apresentamos a seguir.</p>
          <p>Felipe Neto se coloca como um conhecedor da comunicação, sobretudo no que diz respeito ao marketing digital. Ressalta, entretanto, que apesar de gostar muito do assunto, não é profundo conhecedor de outras áreas, como sociologia, antropologia, ciências políticas, que o ajudariam a ter uma visão mais estruturada de fenômenos comunicacionais. Apesar disso, tem opiniões fortes sobre alguns aspectos importantes.</p>
          <p>Sobre as estratégias de comunicação de partidos de esquerda e da extrema-direita, ele ressalta a importância da comunicação para convencer o público. Atenta para o domínio da linguagem midiática pela extrema-direita (a comunicação é bem-sucedida e consegue garantir uma base de apoio estável) e para a falta de uma boa estratégia de comunicação por parte da esquerda. Afirma que o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro sabe se comunicar com seus apoiadores, seja “essa comunicação feita de uma maneira legal ou questionável”. Ainda sobre o assunto, afirma que é possível atingir essa base sólida do governo por meio de uma boa estratégia de comunicação, mas que essa é uma dificuldade histórica da esquerda: “[…] a oposição está fazendo tudo errado há muito tempo […]. Em termos de comunicação, a oposição está desunida, a oposição tem dificuldade de falar e tá começando a aprender agora a usar as redes sociais”.</p>
          <p>Felipe Neto ressalta ainda a importância de controle das redes sociais no combate às fake news, mas fala do WhatsApp como principal desafio para o combate à desinformação: “Como é que alguém vai monitorar o WhatsApp? É muito complicado, é o embate ético mesmo”. Ainda sobre o processo de desinformação, ele cita o chamado “gabinete do ódio”
            <sup>
              <xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
            </sup> como crime e aponta a imprensa como uma das principais defensoras da democracia.
          </p>
          <p>Apesar de considerar a imprensa como fundamental para a manutenção da democracia e para o combate à desinformação, Felipe acredita que as estratégias utilizadas pelos veículos de comunicação estão erradas. Ele fala que exigir pagamento para acessar o conteúdo (
            <italic>paywall</italic>) afasta as pessoas que não têm condição financeira de obter informação de qualidade.
          </p>
          <disp-quote>
            <p>O grande problema do paywall hoje é que você elitiza a informação de qualidade e a pessoa que não tem condição de assinar não consegue saber a verdade dele sobre determinado assunto e só recebe a informação pelo WhatsApp. […] é preciso que a informação básica sobre a realidade do que a gente está vivendo alcance as camadas mais pobres e você não pode elitizar esse tipo de informação no momento tão delicado de fake news como a gente está vivendo, então essas matérias precisam ser gratuitas, e entender de que maneira usar o algoritmo de robôs para trazer assinantes e não perdermos ao invés de, como está acontecendo agora, com uma tática muito exagerada de pedido de assinatura. (
              <xref alt="RODA VIVA..., 2020" rid="ref-b14" ref-type="bibr">RODA VIVA..., 2020</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Na entrevista ao 
            <italic>Roda Viva</italic>, Felipe Neto apresenta opiniões estruturadas acerca da comunicação, evidenciando inclusive o papel relevante de estudos na área. Evidencia a importância de pensar a influência da comunicação na política e de desenvolver estratégias comunicacionais mais condizentes com as plataformas utilizadas na atualidade, visando combater a desinformação – estratégia que aponta como muito utilizada pela extrema-direita.
          </p>
          <p>Felipe Neto foi um ferrenho antipetista, mas afirma, na entrevista, que sempre foi e sempre será 
            <italic>#elenão</italic>, ou seja, apoiador do movimento que começou em 2018 contra Jair Bolsonaro. Nesse sentido, ele defende uma coalizão não só de esquerda, mas de todos contra a opressão que o político de extrema-direita representa. Apesar disso, indica que seus limites (ou seja, o lugar onde se coloca) estão entre Amoêdo e Ciro Gomes, dois políticos localizados à direita e centro-esquerda no espectro político. Reitera que não tem interesse em entrar para a política institucional, concorrer a cargos eleitorais ou similares.
          </p>
          <p>Felipe critica a meritocracia e, em mais de um momento, afirma que nunca vai saber como as pessoas oprimidas se sentem. Ele também faz críticas à então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Bolsonaro, Damares Alves, conhecida por posicionamentos políticos homofóbicos e sexistas, dentre outros.</p>
          <p>Um ponto que chama atenção na entrevista é que o influenciador demonstra preocupação com a falta de posicionamento político das pessoas, sobretudo de artistas, o que, segundo ele, causaria uma espécie de carência do público: “[…] quando um youtuber que tá no YouTube fazendo vídeos de humor, diversão, Minecraft, se torna uma referência política no Twitter, isso é um sinal claro de carência de posicionamento de pessoas que deveriam se posicionar e muitas vezes não se posicionam”.</p>
          <p>Nesse sentido, ele repete bastante que é muito importante que os artistas se posicionem contra Bolsonaro e ressalta que fazer isso não é um posicionamento político partidário propriamente dito, uma oposição entre direita e esquerda, mas uma negação de ações de opressão e de intolerância extrema.</p>
          <disp-quote>
            <p>[…] minha cobrança, de fato, a outros influenciadores teve como gatilho quando o presidente Jair Bolsonaro começa a não só apenas flertar com uma possível opressão, como ele flertou ao longo de toda a vida, mas ele começa a, de fato, agir em função disso […]; não é para você concordar comigo, é para você ter um mínimo de bom senso a respeito do que é a liberdade, do que é opressão […]; a gente não pode validar opressão, a gente não pode validar o fascismo. (
              <xref alt="RODA VIVA..., 2020" rid="ref-b14" ref-type="bibr">RODA VIVA..., 2020</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Diferentemente do posicionamento de antes, Felipe Neto reforça diversas vezes que não se pode ser tolerante com intolerantes e pontua que votaria em qualquer outro candidato contra Bolsonaro, nas eleições de 2022, pois acredita que Bolsonaro é uma ameaça que flerta com o fascismo. Afirma que não existe na política uma figura de salvador da pátria. Sobre Silas Malafaia, figura política com quem tem desavenças sérias e contra quem moveu processos penais, ele novamente fala sobre o paradoxo da intolerância, sobre a tolerância ilimitada. Citando Popper, afirma que “se não existir intolerância contra os intolerantes, eles dominam”.</p>
          <p>Sobre a influência da religião na política brasileira, em uma espécie de dominância política através da bancada evangélica, ele pontua que a situação seria bem pior se líderes religiosos como Marco Feliciano, Silas Malafaia e Edir Macedo se dessem bem e se unissem em torno de um plano comum: “[…] eu acredito que isso só não foi colocado em prática e levado para frente de uma maneira mais incisiva e efetiva porque eles próprios não se aguentam […]; só Deus sabe, ironicamente, o que poderia ter acontecido se eles fossem unidos”.</p>
          <p>O caso da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, em 2019, em que houve um embate entre Felipe Neto e Marcelo Crivella, então prefeito do Rio de Janeiro, é tratado por Felipe como uma estratégia eleitoral de Crivella, que tem um discurso forte de ódio contra os homossexuais. Para o youtuber, a estratégia visava à repercussão midiática do assunto, para que sua popularidade aumentasse. Felipe Neto fala que o Brasil está passando por um movimento reacionário que apenas uma união geral, e não só das esquerdas, poderá combater.</p>
          <disp-quote>
            <p>Apenas ignorar não é a solução, dar voz às pessoas, como eu acho que a CNN erradamente está fazendo […], negacionismo, obscurantismo e revisionista têm que ser desmascarado, tudo que é anticiência tem que ser desmascarado e não apenas conviver com tolerância e dizer ‘está certo pensar que a terra é plana’. (
              <xref alt="RODA VIVA..., 2020" rid="ref-b14" ref-type="bibr">RODA VIVA..., 2020</xref>)
            </p>
          </disp-quote>
          <p>Felipe diz que não quer assumir o papel de justiceiro, mas faz crítica ao obscurantismo, negacionismo, revisionismo histórico e ressalta que se deve dar a devida importância a sujeitos que pregam esse tipo de comportamento, afirmando que “esse povo não pode ser negligenciado, como foi Olavo de Carvalho”.</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="considerações-finais">
        <title>Considerações finais</title>
        <p>Nos limites desta breve leitura da interlocução de Felipe Neto nos dois momentos analisados, alguns pontos podem ser ressaltados, lembrando, no entanto, que bastante coisa já se passou desde então – no país e na própria trajetória do influenciador. No que tange à maneira como fala de si mesmo, percebemos que não houve uma grande transformação, mas um movimento de amadurecimento, conforme ele faz questão de ressaltar. Felipe registra seus momentos “moleque”, e diz que passou por mudanças, levando em consideração a importância do lugar que ocupa. Ele se mostra bastante aberto a fazer autocrítica, lamenta algumas posições e atitudes tomadas no passado e registra a responsabilidade acarretada por sua visibilidade e poder de influência. Mas gosta de enfatizar seu espírito jovem e seu tom gozador, seu gosto pela brincadeira. Assume, de fato, a consciência de ser uma celebridade, tanto pelo profissionalismo no cuidado de sua carreira como na preservação de sua imagem.</p>
        <p>As duas situações de entrevista foram diferentes, o que justifica posturas diferentes do entrevistado. Mostraram, no entanto, uma relação bastante distinta tanto com os entrevistadores como, por tabela, com o público com os quais interagia através dos programas. Na entrevista com Rica Perrone, ele assumiu uma postura bastante descontraída, usou palavras fortes, como palavrões e xingamentos, e se mostrou sobretudo um jovem rebelde, língua solta, irreverente. Revendo posições do passado, estava bastante à vontade para fazer críticas. Já no 
          <italic>Roda Viva</italic>, vimos um homem jovem, numa postura de adulto, buscando fazer colocações sensatas e bem fundamentadas; a situação interlocutiva foi distinta, e Felipe se adaptou muito bem ao “tom” do programa. O tratamento dos entrevistadores foi marcado por cuidado e respeito, e as respostas construídas de forma articulada, refletida.
        </p>
        <p>Mudanças ao longo de sua carreira e seu “amadurecimento” lhe conferiram um novo lugar, mas em ambas as situações vimos um sujeito com grande domínio da interlocução, adaptando-se e moldando o tratamento do outro e a maneira como estava sendo tratado. Dois tipos de conteúdo se destacaram nas entrevistas: a comunicação e a política brasileira. O primeiro tópico é justificado: Felipe Neto não é um comunicador com seu grau de prestígio sem razão, e nas entrevistas ele se mostrou um expert nas mídias digitais, fazendo críticas às plataformas, a certos tipos de uso, sobretudo por parte da esquerda. Tinha opinião formada sobre o tema, deu sugestões e mostrou profissionalismo.</p>
        <p>Quanto ao segundo ponto, é interessante ver o destaque que ganhou nas entrevistas o tratamento da política brasileira; não por acaso, como destaca Dakhlia (
          <xref alt="2015" rid="ref-b2" ref-type="bibr">2015</xref>), a política entra no campo do divertimento, e ganha ares de espetáculo – com maior ou menor seriedade, conforme o veículo. Na entrevista de Rica Perrone, o influenciador repetiu o lugar comum de crítica à política e aos políticos que são “todos iguais”; identificou uma polarização, em que os dois lados se equivalem, e são podres, e dos quais ele procurou manter distância. Seu objetivo foi sobretudo rever uma posição anterior, em que se mostrara favorável ao PSOL, fazendo agora duras críticas a esse partido e ao então deputado Jean Wyllys. Também retomou uma crítica presente em suas intervenções, contra pastores moralistas, como Silas Malafaia. Destacou sua posição de combate à corrupção, colocando Lula e Aécio como principais corruptos do país.
        </p>
        <p>No 
          <italic>Roda Viva</italic>, e no contexto do governo Bolsonaro, sua ênfase foi o combate ao autoritarismo, ao negacionismo e ao obscurantismo. Denuncia o caráter fascista do governo e de Bolsonaro, fala contra a homofobia e contra a pregação homofóbica de certos pastores. A posição que assume é de um liberal progressista, que defende a democracia e os direitos humanos. De “moleque zoador”, Felipe Neto passa a se posicionar como defensor do politicamente correto.
        </p>
        <p>Como dissemos inicialmente, e nos limites de nossa empiria e recorte temporal, fizemos um pequeno exercício que não pode ser tomado como leitura conclusiva sobre Felipe Neto, mas que já identifica nuances na trajetória do youtuber, e uma transformação no seu status, ou papel. O influenciador digital ganha uma postura mais sólida de “líder de opinião”, que se preocupa com opiniões embasadas, mostra-se capaz de fazer autocrítica no ajustamento de sua trajetória, e destaca a importância do posicionamento político na atual situação brasileira. Se, em 2016, distribuía críticas a uns e outros indistintamente, agitando o tema da corrupção como um resumo dos males do Brasil, em 2020, assume a bandeira da luta contra o fascismo da extrema-direita, contra a homofobia e a favor dos direitos sociais (discussão que, no entanto, não aprofunda). Podemos então identificar quase uma passagem, ou a construção de um lugar novo – o de celebridade política (
          <xref alt="KAMRADT, 2019" rid="ref-b9" ref-type="bibr">KAMRADT, 2019</xref>; 
          <xref alt="STREET, 2019" rid="ref-b19" ref-type="bibr">STREET, 2019</xref>), consciente de seu papel de influência e da responsabilidade acarretada por tal lugar. É possível perceber, no período entre as duas entrevistas, a transição de uma celebridade que fazia comentários sobre política sem grande preocupação, para se distinguir e se afastar desse campo, em direção ao status de celebridade política, falando com mais embasamento, defendendo causas.
        </p>
        <p>Claramente, Felipe Neto substitui o papel de um influenciador que fazia xingamentos a uns e outros e “acontecia” devido à irreverência pelo papel de uma pessoa que entende sua colocação no jogo político, que sabe da influência que exerce e passa a se preocupar com isto – buscando, inclusive, preparar-se, cuidar tanto de sua formação como de suas palavras. A partir dessa “tomada de consciência”, ou desse posicionamento mais responsável, Felipe Neto passa também a ser levado mais a sério, a se tornar um interlocutor em outros espaços, como o 
          <italic>Roda Viva</italic> e o 
          <italic>New York Times</italic>. Houve um amadurecimento e uma mudança positiva na sua postura, defendendo bandeiras democráticas e cidadãs.
        </p>
        <p>É preciso registrar que esse tipo de mudança não foi uma exclusividade sua. Nos últimos anos, várias celebridades começaram a assumir posições críticas na cena pública e a serem cobradas, sobretudo no contexto do “Fora Bolsonaro”. Não é o caso de discutir, nos limites deste artigo, se tais posicionamentos trazem embutida uma estratégia mercadológica, e o quanto fazem parte do fenômeno da 
          <italic>peopolisation</italic> (
          <xref alt="DAKHLIA, 2015" rid="ref-b2" ref-type="bibr">DAKHLIA, 2015</xref>). Importa mais perceber, nesse movimento, como as múltiplas dimensões da vida social se encontram entrelaçadas, e o quanto esse fenômeno é revelador. Os artistas, posicionando-se ou, ao contrário, esquivando-se de se posicionar, evidenciam dois aspectos: primeiramente, a penetração da política em diferentes cenários – aí incluídas a cultura e as artes –, o que se desdobra numa segunda constatação, a de que o lugar e o papel de uma celebridade são relacionais e contextuais. Os rumos da política e a realidade sociopolítica de um país afetam e atravessam até mesmo a relação entre uma celebridade e seus públicos.
        </p>
      </sec>
    </body>
    <back>
      <ref-list>
        <ref id="ref-b1">
          <mixed-citation>AFONSO, M.L. As mulheres que Andressa Urach pode ser: celebridades, valores e gênero no Brasil contemporâneo. 2019. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="thesis">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>AFONSO</surname>
                <given-names>M. L.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>As mulheres que Andressa Urach pode ser: celebridades, valores e gênero no Brasil contemporâneo</source>
            <comment>Dissertação (Mestrado em Comunicação Social)</comment>
            <publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2019">2019</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b2">
          <mixed-citation>DAKHLIA, J. Politique people. Paris: Bréal, 2015.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>DAKHLIA</surname>
                <given-names>J.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>Politique people</source>
            <publisher-name>Bréal</publisher-name>
            <publisher-loc>Paris</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2015">2015</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b3">
          <mixed-citation>DONALD Trump não é o pior presidente na pandemia. É só perguntar aos brasileiros. | NYT Opinion. [S. l.: s. n.], 2020. 1 vídeo (6 min). Publicado pelo canal The New York Times. Disponível em: 
            <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3o0yyDG">https://bit.ly/3o0yyDG</ext-link>. Acesso em: 13 jul. 2022.
          </mixed-citation>
          <element-citation publication-type="webpage">
            <person-group person-group-type="author">
              <collab>DONALD Trump não é o pior presidente na pandemia. É só perguntar aos brasileiros</collab>
            </person-group>
            <source>Publicado pelo canal The New York Times</source>
            <publisher-name>NYT Opinion</publisher-name>
            <publisher-loc>S. l.: s. n.</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2020">2020</year>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3o0yyDG">https://bit.ly/3o0yyDG</ext-link>
            </comment>
            <size units="time">1 vídeo (6 min)</size>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-07-13">Acesso em: 13 jul. 2022</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b4">
          <mixed-citation>FELIPE Neto: “Não voto em corrupto. Não voto no Lula”. [S. l.: s. n.], 2017. 1 vídeo (28 min). Publicado pelo Canal do Rica Perrone. Disponível em: https://bit.ly/3a3clkW. Acesso em: 27 jun. 2022.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="webpage">
            <person-group person-group-type="author">
              <collab>FELIPE Neto: “Não voto em corrupto. Não voto no Lula”</collab>
            </person-group>
            <source>Publicado pelo Canal do Rica Perrone</source>
            <publisher-loc>S. l.: s. n.</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2017">2017</year>
            <size units="time">1 vídeo (28 min)</size>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3a3clkW">https://bit.ly/3a3clkW</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-06-27">Acesso em: 27 jun. 2022.</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b5">
          <mixed-citation>FRANÇA, V. R. V.; LEURQUIN, C. C. F. O que as fake news contra Felipe Neto revelam sobre as estratégias políticas atuais? In: FRANÇA, V. R. V.; SIMÕES, P. G.; SILVA, T.; SOUZA, F.; SILVEIRA, S. (org.). Diário da quarentena: a pandemia de Covid-19 como acontecimento. Belo Horizonte: Selo PPGCOM, 2020. v. 1, p. 225-226.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>LEURQUIN</surname>
                <given-names>C. C. F.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <chapter-title>O que as fake news contra Felipe Neto revelam sobre as estratégias políticas atuais?</chapter-title>
            <source>Diário da quarentena: a pandemia de Covid-19 como acontecimento</source>
            <person-group person-group-type="editor">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SILVA</surname>
                <given-names>T.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SOUZA</surname>
                <given-names>F.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SILVEIRA</surname>
                <given-names>S.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <publisher-name>Selo PPGCOM</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2020">2020</year>
            <volume>1</volume>
            <fpage>225</fpage>
            <lpage>226</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b6">
          <mixed-citation>FRANÇA, V. R. V.; LIMA, B. C. Celebridades reorientam sua trajetória: a politização de Felipe Neto. In: FRANÇA, V. R. V.; SIMÕES, P. G; SILVA, T.; SOUZA, F.; SILVEIRA, S. (org.). Diário da quarentena: a pandemia de Covid-19 como acontecimento. Belo Horizonte: Selo PPGCOM, 2020. v. 1, p. 198-200.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>LIMA</surname>
                <given-names>B. C.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <chapter-title>Celebridades reorientam sua trajetória: a politização de Felipe Neto</chapter-title>
            <source>Diário da quarentena: a pandemia de Covid-19 como acontecimento</source>
            <person-group person-group-type="editor">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SILVA</surname>
                <given-names>T.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SOUZA</surname>
                <given-names>F.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SILVEIRA</surname>
                <given-names>S.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <publisher-name>Selo PPGCOM</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2020">2020</year>
            <volume>1</volume>
            <fpage>198</fpage>
            <lpage>200</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b7">
          <mixed-citation>FRANÇA, V. R. V.; LOPES, S. Análise do acontecimento: possibilidades metodológicas. Matrizes, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 71-87, 2017.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="journal">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>LOPES</surname>
                <given-names>S.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <article-title>Análise do acontecimento: possibilidades metodológicas</article-title>
            <source>Matrizes</source>
            <year iso-8601-date="2017">2017</year>
            <volume>11</volume>
            <fpage>71</fpage>
            <lpage>87</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b8">
          <mixed-citation>FRANÇA, V. R. V.; SIMÕES, P. G. Perfis, atuação e formas de inserção dos famosos. In: FRANÇA, V. R. V.; SIMÕES, P. G.; PRADO, D. (org.). Celebridades no século XXI: volume 2: diversos perfis, diferentes apelos. Belo Horizonte: Selo PPGCOM, 2020. p. 31-57.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <chapter-title>Perfis, atuação e formas de inserção dos famosos</chapter-title>
            <source>Celebridades no século XXI: volume 2: diversos perfis, diferentes apelos</source>
            <person-group person-group-type="editor">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>PRADO</surname>
                <given-names>D.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <publisher-name>Selo PPGCOM</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2020">2020</year>
            <fpage>31</fpage>
            <lpage>57</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b9">
          <mixed-citation>KAMRADT, J. F. H. Celebridades políticas e políticos celebridades: uma análise teórica do fenômeno. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, São Paulo, n. 88, p. 1-22, 2019.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="journal">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>KAMRADT</surname>
                <given-names>J. F. H.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <article-title>Celebridades políticas e políticos celebridades: uma análise teórica do fenômeno</article-title>
            <source>Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais</source>
            <year iso-8601-date="2019">2019</year>
            <volume>88</volume>
            <fpage>1</fpage>
            <lpage>22</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b10">
          <mixed-citation>LANA, L. Personagens públicas na mídia, personagens públicas em nós: experiências contemporâneas nas trajetórias de Gisele Bündchen e Luciana Gimenez. 2012. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2012.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="thesis">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>LANA</surname>
                <given-names>L.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>Personagens públicas na mídia, personagens públicas em nós: experiências contemporâneas nas trajetórias de Gisele Bündchen e Luciana Gimenez</source>
            <comment>Tese (Doutorado em Comunicação Social)</comment>
            <publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2012">2012</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b11">
          <mixed-citation>LIMA, B. “Eu não vou sucumbir”: estudo sobre como a trajetória da cantora Elza Soares e sua inserção socioeconômica revelam elementos culturais e valores da sociedade brasileira. 2019. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2019.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="thesis">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>LIMA</surname>
                <given-names>B.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>Eu não vou sucumbir”: estudo sobre como a trajetória da cantora Elza Soares e sua inserção socioeconômica revelam elementos culturais e valores da sociedade brasileira</source>
            <publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
            <comment>Dissertação (Mestrado em Comunicação Social)</comment>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2019">2019</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b12">
          <mixed-citation>MEDEIROS, F. Celebridades no Instagram: performance, monetização e relação com o público. 2020. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2020.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="thesis">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>MEDEIROS</surname>
                <given-names>F.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>Celebridades no Instagram: performance, monetização e relação com o público</source>
            <publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
            <comment>Tese (Doutorado em Comunicação Social)</comment>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2020">2020</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b13">
          <mixed-citation>QUÉRÉ, L. A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista. In: FRANÇA, V. R. V.; OLIVEIRA, L. (org.). Acontecimento: reverberações. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. p. 21-38.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>QUÉRÉ</surname>
                <given-names>L.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <chapter-title>A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista</chapter-title>
            <source>Acontecimento: reverberações</source>
            <person-group person-group-type="editor">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V. R. V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>OLIVEIRA</surname>
                <given-names>L.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <publisher-name>Autêntica</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2012">2012</year>
            <fpage>21</fpage>
            <lpage>38</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b14">
          <mixed-citation>RODA Viva | Felipe Neto | 18/05/2020. [S. l.: s. n], 2020. 1 vídeo (96 min). Publicado pelo canal Roda Viva. Disponível em: https://bit.ly/39W3BNM. Acesso em: 28 jun. 2022.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="webpage">
            <person-group person-group-type="author">
              <collab>RODA Viva | Felipe Neto | 18/05/2020</collab>
            </person-group>
            <source>Publicado pelo canal Roda Viva</source>
            <year iso-8601-date="2020-05-18">2020</year>
            <month>05</month>
            <day>18</day>
            <publisher-loc>S. l.: s. n</publisher-loc>
            <size units="time">1 vídeo (96 min)</size>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/39W3BNM">https://bit.ly/39W3BNM</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-06-28">Acesso em: 28 jun. 2022.</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b15">
          <mixed-citation>SALGADO, T. B. P. Experimenta-te a ti mesmo. Felipe Neto em performance no YouTube. 2013. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="thesis">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>SALGADO</surname>
                <given-names>T. B. P.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>Experimenta-te a ti mesmo. Felipe Neto em performance no YouTube</source>
            <publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
            <comment>Dissertação (Mestrado em Comunicação Social)</comment>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2013">2013</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b16">
          <mixed-citation>SIMÕES, P. G. Celebridades na sociedade midiatizada: em busca de uma abordagem relacional. Revista ECO-PÓS, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, 2013.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="journal">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <article-title>Celebridades na sociedade midiatizada: em busca de uma abordagem relacional</article-title>
            <source>Revista ECO-PÓS</source>
            <year iso-8601-date="2013">2013</year>
            <volume>16</volume>
            <issue>1</issue>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b17">
          <mixed-citation>SIMÕES, P. G. O acontecimento Ronaldo: a imagem pública de uma celebridade no contexto social contemporâneo. 2012. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2012.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="thesis">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>O acontecimento Ronaldo: a imagem pública de uma celebridade no contexto social contemporâneo</source>
            <publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
            <comment>Tese (Doutorado em Comunicação)</comment>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2012">2012</year>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b18">
          <mixed-citation>SIMÕES, P. G. O poder de afetação das celebridades. In: FRANÇA, V.; FREIRE FILHO, J.; SIMÕES, P. G.; LANA, L. Celebridades do século XXI. Porto Alegre: Sulina, 2014. p. 209-225.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <chapter-title>O poder de afetação das celebridades</chapter-title>
            <source>Celebridades do século XXI</source>
            <person-group person-group-type="editor">
              <name>
                <surname>FRANÇA</surname>
                <given-names>V.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>FREIRE FILHO</surname>
                <given-names>J.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>SIMÕES</surname>
                <given-names>P. G.</given-names>
              </name>
              <name>
                <surname>LANA</surname>
                <given-names>L.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <publisher-name>Sulina</publisher-name>
            <publisher-loc>Porto Alegre</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2014">2014</year>
            <fpage>209</fpage>
            <lpage>225</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b19">
          <mixed-citation>STREET, J. What is Donald Trump? Forms of ‘celebrity’ in celebrity politics. Political studies review, [s. l.], v. 17, n. 1, p. 3-13, 2019.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="journal">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>STREET</surname>
                <given-names>J.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <article-title>What is Donald Trump? Forms of ‘celebrity’ in celebrity politics</article-title>
            <source>Political studies review</source>
            <publisher-loc>s. l.</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2019">2019</year>
            <volume>17</volume>
            <issue>1</issue>
            <fpage>3</fpage>
            <lpage>13</lpage>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b20">
          <mixed-citation>VERÓN, E. Fragmentos de um tecido. São Leopoldo, Unisinos, 2004.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="book">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>VERÓN</surname>
                <given-names>E.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <source>Fragmentos de um tecido</source>
            <publisher-name>Unisinos</publisher-name>
            <publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2004">2004</year>
          </element-citation>
        </ref>
      </ref-list>
      <fn-group>
        <fn fn-type="other" id="fn3">
          <label>3</label>
          <p>Street (
            <xref alt="2019" rid="ref-b19" ref-type="bibr">2019</xref>) faz uma interessante distinção entre o político celebridade e a celebridade política. Este último não está inserido propriamente no campo da política institucional, como o primeiro, mas usa seu prestígio, adquirido em outro terreno (como as artes, a mídia, o esporte), para apoiar uma candidatura ou reforçar algumas bandeiras políticas.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn4">
          <label>4</label>
          <p>“Gabinete do ódio” é como ficou conhecido o conjunto de milícias digitais utilizadas para promover ataques (muitas vezes utilizando estratégias de desinformação) a adversários do presidente brasileiro de extrema-direita Jair Bolsonaro. Para saber mais, confira: 
            <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3OO24rO">https://bit.ly/3OO24rO</ext-link>.
          </p>
        </fn>
      </fn-group>
    </back>
  </article>
