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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">rmr</journal-id>
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				<journal-title>Rumores</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rumores</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">1982-677X</issn>
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				<publisher-name>Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2024.226038</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>DOSSIÊ</subject>
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			<title-group>
				<article-title><bold>O <italic>ser-mulher</italic> na narrativa seriada mexicana <italic>Juana Inés</italic>: entre a lógica do empoderamento individual e a construção de identificações latinas</bold><xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
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					<trans-title>Being a woman in the Mexican serial narrative Juana Inés: between the logic of individual empowerment and the construction of Latin identifications</trans-title>
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						<surname>Scabin</surname>
						<given-names>Nara Lya Cabral</given-names>
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					<bio>
						<p>Docente do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Doutora e mestra em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), tendo realizado estágio pós-doutoral junto ao Programa de Pós-graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM-SP. É editora da revista Anagrama (USP).</p>
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						<surname>Budag</surname>
						<given-names>Fernanda Elouise</given-names>
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					<bio>
						<p>Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), com pós-doutorado em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP. Coordenadora do Grupo de Pesquisa da Intercom Comunicação, Tecnicidades e Culturas Urbanas (2021-2024). Professora da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), para os cursos de graduação em Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. Professora credenciada do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria.</p>
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					<institution content-type="original"> Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)</institution>
					<institution content-type="normalized">Universidade de São Paulo</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">Ciências da Comunicação</institution>
					<institution content-type="orgdiv2">Escola de Comunicações e Artes</institution>
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					<label>E-mail:</label>
					<email>naralyacabral@yahoo.com.br</email>
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					<email>fernanda.budag@gmail.com</email>
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				<year>2025</year>
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			<volume>18</volume>
			<issue>36</issue>
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				<copyright-statement>(Atribuição-NãoComercial-Sem Derivações): Permite que outros façam download de suas obras e as compartilhem com outras pessoas, desde que lhe atribuam crédito, mas não podem alterá-las de forma alguma ou usá-las comercialmente.</copyright-statement>
				<copyright-year>2025</copyright-year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0">Licença Creative Commons CC BY NC ND</ext-link>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Tendo por base o preceito da constituição dialógica do discurso é que nos voltamos à minissérie televisiva <italic>Juana Inés</italic>, a qual retrata a vida da freira e escritora mexicana seiscentista. Isso com o objetivo de compreender quais sentidos de feminismo a produção articula, ou melhor, examinar os diálogos estabelecidos na minissérie em relação a sentidos de feminismo. Ao longo dos sete capítulos que integram a minissérie, observamos que o <italic>ser-mulher</italic> desempenha papel central à construção da narrativa e à representação de sua protagonista. Nessa tessitura, notamos o atravessamento de uma perspectiva afirmativa e a incorporação da lógica do empoderamento individual no contexto dos chamados “feminismos midiáticos”, sem, contudo, esvaziar um potencial político e de identificação latina.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Based on the precept of the dialogical constitution of discourse, we turn to the television miniseries <italic>Juana Inés</italic>, which portrays the life of the 17th-century Mexican nun and writer to understand which meanings of feminism the production articulates or, better yet, examine the dialogues the miniseries established regarding meanings of feminism. Throughout the seven chapters that make up the miniseries, being a woman plays a central role in the construction of the narrative and the representation of its protagonist. In this context, we note the crossing of an affirmative perspective and the incorporation of the logic of individual empowerment in what is known as “media feminisms” without, however, emptying a political potential and another for Latin identification.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Juana Inés</kwd>
				<kwd>melodrama</kwd>
				<kwd>narrativa seriada</kwd>
				<kwd>feminismo</kwd>
				<kwd>empoderamento</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Juana Inés</kwd>
				<kwd>melodrama</kwd>
				<kwd>serial narrative</kwd>
				<kwd>feminism</kwd>
				<kwd>empowerment</kwd>
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	<body>
		<p>Com o objetivo de compreender quais sentidos de feminismo a minissérie televisiva <italic>Juana Inés</italic>, do ano de 2016, articula (e se ela de fato os articula), percorremos um caminho que vai da circulação crítica da obra no espaço midiático, passando pela exploração da figura de Juana Inés na cultura audiovisual latino-americana até alcançar um estudo dos discursos e das representações do <italic>ser-mulher</italic> na narrativa seriada em questão.</p>
		<p>Em 26 de março de 2016, o público mexicano era apresentado ao primeiro capítulo da minissérie televisiva <italic>Juana Inés</italic>, produção original da Bravo Films para o Canal Once. Com roteiro de Monika Revilla, Javier Peñalosa e Patricia Arriaga Jordán - esta última também produtora e uma das responsáveis pela direção, ao lado de Emilio Maillé e Julián de Tavira -, a obra foi ao ar em sete capítulos, no horário das 21h30, aos sábados, contando com Arcelia Ramírez, consagrada atriz de TV, cinema e teatro mexicana, no papel da protagonista<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>. Ainda em 2016, a produção foi indicada a 14 prêmios do Festival de Cinema Pantalla de Cristal, na Cidade do México, tendo vencido em 11 categorias, inclusive a de melhor série, melhor direção, melhor atriz e melhor ator<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>.</p>
		<p>Referida como “ficção biográfica”<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>, segundo o Canal Once, a produção “retrata a vida de Juana Inés de la Cruz, escritora renomada, freira e figura política do México no século XVII”, conforme sinopse disponível na plataforma de streaming Netflix<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>, que adquiriu os direitos da série em 2017. Em janeiro de 2020, <italic>Juana Inés</italic> foi retirada do catálogo da Netflix e, após quase dois anos inacessível ao público, foi integralmente disponibilizada pelo Canal Once, no YouTube<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>, em dezembro de 2021. Nesta última plataforma, os sete capítulos concentravam, no momento de nossa última verificação<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref>, entre 90 mil (primeiro capítulo) e 34 mil visualizações (sexto e sétimo capítulos).</p>
		<p>Mas, se a chegada da minissérie do Canal Once a diferentes partes do mundo via streaming é um fato relativamente recente, a presença da figura de Juana Inés nos imaginários midiáticos mexicano e latino-americano, por outro lado, é bastante conhecida e documentada - aspecto que retomaremos. Destaca-se, em especial, a associação da freira e escritora seiscentista a identidades subalternizadas, sobretudo a partir de sua posição social enquanto mulher, filha bastarda e <italic>criolla</italic>. Conforme Mónica Lavín, autora da biografia <italic>Yo, la peor</italic>, Sor Juana “fazia questão tanto de usar o náhuatl [idioma falado pelas populações originárias da região central do México] quanto de participar da vida na corte, das discussões sobre a ciência, a poesia e as artes de seu tempo. Ela ajudou a produzir uma identidade para essas terras” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Colombo, 2017</xref>). Em <italic>Juana Inés</italic>, a personagem-título tem evidenciadas as implicações de sua origem social e a discriminação sofrida pela proximidade com a cultura indígena - inclusive com diálogos gravados em <italic>náhuatl</italic>.</p>
		<p>Quando olhamos para a circulação midiática da minissérie, destaca-se a recorrência da discussão sobre a condição da mulher no passado e no presente. Um ensaio publicado no jornal <italic>O Estado de S. Paulo</italic>, por exemplo, ao abordar a reedição brasileira do livro <italic>Sor Juana Inés de La Cruz ou As Armadilhas da Fé</italic>, de Octavio Paz, lançada em 2017 pela editora Ubu, destaca a estreia da série na Netflix, afirmando que a produção</p>
		<disp-quote>
			<p>[…] mostra Juana como a primeira feminista da América. De fato, Juana foi uma das autoras mais eruditas e uma das mulheres mais emancipadas de seu tempo. Desde cedo recusou o caminho do casamento e da vida palaciana. Preferiu encontrar na religião a sua liberdade interior e o cultivo das letras e artes. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Petronio, 2017</xref>)</p>
		</disp-quote>
		<p>Variações acerca da descrição de Sor Juana como a “primeira feminista das Américas” são constantemente retomadas em comentários e reportagens sobre a minissérie na imprensa brasileira. É o caso, por exemplo, do artigo escrito pelo artista plástico Plínio <xref ref-type="bibr" rid="B15">Palhaço para o Diário de Pernambuco, em 3 de agosto de 2017</xref>. No texto - intitulado “Juana Inés de la Cruz, uma feminista das Américas” -, o autor, ao comentar o enredo da série então recém-disponibilizada pela Netflix, refere-se da seguinte forma à trajetória da escritora mexicana: “Com a sua força, desafiou o universo masculino da época, defendendo a igualdade de gênero ante o direito de pensar e de se expressar na escrita” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Palhaço, 2017</xref>). De fato, enquanto figura relativamente pouco conhecida pelos brasileiros até a estreia da produção do Canal Once/Bravo Films no streaming, a trajetória da personagem parece ter sido rapidamente assimilada no país segundo enquadramentos que remetem à crescente visibilidade e popularização de debates sobre desigualdades e opressões de gênero em diferentes espaços midiáticos.</p>
		<p>Ao mesmo tempo, não foram poucos os questionamentos, entre a recepção crítica da minissérie no Brasil, quanto à validade de uma leitura feminista da trajetória de Juana Inés. É o caso do artigo assinado por Sylvia Colombo para a <italic>Folha de S.Paulo</italic>, no qual a produção é descrita como “apelativa”. Isso porque, segundo a autora, haveria “uma tendência, reforçada na série televisiva, de vê-la [a protagonista] como uma heroína feminista antes de o termo existir, como alguém que enfrentou a Igreja e o ‘establishment’ da colônia” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Colombo, 2017</xref>). Citando a historiadora Maria Ligia Coelho Prado, da Universidade de São Paulo, Colombo defende que seria “um ‘anacronismo’ falar em feminismo com relação à trajetória de Sor Juana” (Ibid.)<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>.</p>
		<p>Em textos publicados em veículos mexicanos a respeito da produção e do lançamento de <italic>Juana Inés</italic>, a aproximação da minissérie em relação a discussões sobre gênero e/ou feminismo também está presente, mas parece ser abordada de forma mais matizada e complexificada do que na repercussão da obra no Brasil. Em entrevista ao portal do jornal <italic>Excelsior</italic>, por exemplo, a atriz Arcelia Ramírez ressalta o direito da mulher ao conhecimento e à liberdade de expressão como temática responsável por conectar a história da poetisa barroca no México do século XVII à realidade do século XXI:</p>
		<disp-quote>
			<p>O que esta série propôs foi falar da mulher e por isso o nome dela é Juana Inés e não Sor Juana Inés de la Cruz […] esta mulher que viveu numa época em que o mundo pertencia absolutamente aos homens e as mulheres não tinham o direito de exercer sua liberdade. Ela teve que lutar contra essa estrutura para defender seu direito ao conhecimento, aos livros, a escrever, e inclusive a publicar […] Naquela época era proibido para as mulheres e embora neste momento não esteja tão claro, está implícito: as mulheres estão sujeitas a um sistema que não foi capaz de desenvolver a igualdade de gênero e são frequentemente sujeitas a tarefas domésticas. Por isso esse personagem é inspirador.<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Méndez, 2016</xref>, tradução nossa)</p>
		</disp-quote>
		<p>Segundo relato da roteirista Patricia Arriaga, o desenvolvimento da minissérie foi marcado por relações conflitivas entre as posições da produção televisiva, por um lado, e de acadêmicos especializados na vida e obra de Sor Juana Inés, por outro: “Os historiadores não gostam que se diga isso, nem os sorjuanistas, mas Sor Juana Inés é de todos e esta é uma hipótese do que pode ter acontecido” (Ibid., tradução nossa)<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref>. Arriaga também conta ter sido chamada de “feminazi” por pesquisadores da Universidad Nacional Autónoma de México, “[…] somente por assumir o ponto de vista da mulher, porque não é que havia um grupo de pessoas más que não queriam que uma monja escrevesse, é que essa era a maneira de entender a mulher nesse momento”<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref> (Ibid., tradução nossa). Apesar disso, rejeita a filiação da escritora ao feminismo: “Não diria que Juana Inés foi feminista, porque isso nem era compreendido. Era uma mulher que exigia o direito a pensar e a estudar. Muitas mulheres levaram séculos para alcançá-lo”<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref> (Ibid., tradução nossa).</p>
		<p>Reconhecer a existência de tensões entre obra ficcional e verossimilhança histórica nos interessa não como forma de denunciar sua opacidade em relação ao real histórico - dado incontornável do ponto de vista das representações produzidas no/pelo discurso -, mas, sim, como ponto de partida para pensarmos as escolhas narrativas presentes na minissérie e as negociações discursivas engendradas em sua tessitura. Conforme afirma a roteirista e produtora Patricia Arriaga, “liberdades históricas” foram necessárias para contar uma história do século XVII para um público do século XXI. Estamos diante de uma produção que dialoga com uma referencialidade histórica (re)elaborada e (re)atualizada em face de institucionalidades e tecnicidades constitutivas das mediações entre produção e consumo televisivos (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Martín-Barbero, 2003</xref>). Nas palavras de Arriaga, o que essa obra dá a ver é “uma Juana Inés filtrada pelo século XXI: fazemos dela uma rebelde a partir do que sabemos deste século e não apenas olhando aos olhos de um prelado, porque ninguém entenderia”<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Méndez, 2016</xref>, tradução nossa).</p>
		<sec>
			<title>Juana Inés na cultura audiovisual latino-americana</title>
			<p>Antes de nos debruçarmos sobre a minissérie em foco no trabalho, convém olhar brevemente para a presença da figura de Juana Inés na cultura audiovisual, não como forma de discutir exaustivamente as representações da escritora seiscentista em filmes e produções televisivas, mas, sim, de levantar elementos discursivos que possam ajudar a iluminar as especificidades do objeto em foco.</p>
			<p>A produção audiovisual mais antiga que pudemos identificar sobre Juana Inés é o longa-metragem <italic>Sor Juana Inés de la Cruz</italic>, de 1935, dirigido pelo cineasta cubano Ramón Peón. Com a atriz mexicana Andrea Palma no papel principal, a obra mostra uma fictícia desilusão amorosa que teria levado Juana Inés a entrar no convento. Poucos anos depois, o diretor mexicano Raphael Sevilla dirigiu <italic>El secreto de la monja</italic> (1940), com Lupita Gallardo, que narra a vida monástica de Sor Juana. Na TV, a Televisa produziu a telenovela <italic>Sor Juana Inés de la Cruz</italic>, exibida pelo Telesistema Mexicano em 1962. Com 50 capítulos, a produção contou com Amparo Rivelle, Guillermo Murray e Júlio Alemán no elenco<xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref>.</p>
			<p>Destoando dessas obras, o filme <italic>Yo, la peor de todas</italic>, de 1990, destaca-se pelo estabelecimento de evidentes relações dialógicas entre a trajetória de Juana Inés de la Cruz e os elementos de discursividades feministas. Dirigido por Maria Luisa Bemberg, cineasta e ativista argentina pelos direitos da mulher, o longa representa os últimos anos de vida da escritora mexicana, recorrendo, para tanto, ao diálogo com fontes e textos prévios. Em especial, pode-se reconhecer a influência do texto autobiográfico <italic>Respuesta a Sor Filotea de la Cruz</italic> (1691), de Sor Juana, e do ensaio <italic>Sor Juana Inés de La Cruz ou As Armadilhas da Fé</italic> (1982), de Octavio Paz (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Forte; Miranda, 2000</xref>). Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B6">Forte e Miranda (2000)</xref>, a obra crítica de Paz funcionaria como uma instância modelizadora entre <italic>Respuesta…</italic> e o filme de Bemberg, que se apoiaria naquele para criar uma narrativa que retoma o esquema autobiográfico presente no texto da própria Sor Juana Inés de La Cruz.</p>
			<p>No filme de Bemberg, a narrativa assume um olhar político para a vida e obra de Juana Inés, representada em conflito com instituições sociais de seu tempo, como a Igreja Católica, a Corte, o Estado e a família<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref>. Nesse registro, a vida da escritora é posta a serviço de sua paixão pela poesia e pelos livros, ao mesmo tempo em que se enfatiza, em diferentes passagens, sua posição corajosa em defesa do direito das mulheres ao acesso às letras e ao saber<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref>.</p>
			<p>Ao mesmo tempo, <italic>Yo, la peor de todas</italic> merece destaque pela própria singularidade da cinematografia de Bemberg, conhecida por voltar-se a questões relacionadas à condição da mulher na sociedade moderna, com alguns de seus filmes sendo considerados expressões verdadeiramente contraculturais e de resistência (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Trebisacce; Veiga, 2017</xref>). Não seria possível, nas dimensões deste artigo, recuperar a vasta fortuna crítica sobre a obra da cineasta e/ou sobre o filme em questão; cabe, porém, ressaltar a recorrência de análises, entre trabalhos acadêmicos, que atribuem a <italic>Yo, la peor de todas</italic> um olhar crítico sobre desigualdades e opressões de gênero.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B19">Rodríguez (2002</xref>), por exemplo, aponta que um elemento central ao filme é a visão de Bemberg acerca da incapacidade da mulher de fazer frente a instrumentos de controle e coerção institucionais. Visão semelhante está presente em <xref ref-type="bibr" rid="B20">Trebisacce e Veiga (2017</xref>, p. 1413), para quem o olhar histórico para a vida de uma “mulher irreverente” permite à cineasta abordar a opressão imposta às mulheres não apenas por parte de seus vínculos interpessoais, mas também pelos poderes assentados em instituições. Com base em tais leituras, parece-nos razoável levantar a hipótese de que <italic>Yo, la peor de todas</italic> possa ter desempenhado papel fundamental na ampliação da visibilidade conferida às relações dialógicas entre a figura de Sor Juana Inés e sentidos de feminismo na cultura audiovisual.</p>
			<p>Ao mesmo tempo, embora acreditemos que a dialogização de sentidos de feminismo constitua um importante ponto de contato entre o filme de Bemberg e a minissérie produzida em 2016 pelo Canal Once/Bravo Films, há elementos nas discursividades refratadas pelo primeiro que parecem distanciar-se significativamente da segunda, contribuindo para a compreensão de particularidades discursivas da obra televisiva. A esse respeito, ressalta-se a maior ênfase conferida pelo longa à historicização das formas de poder representadas, o que se observa em relação tanto à dominação masculina no México do século XVII, por meio da abordagem de distintas dimensões das ritualidades institucionais que caracterizam a opressão exercida por Igreja/Estado, quanto à forma como se caracteriza, em sentido amplo, o contexto colonial.</p>
			<p>Quanto ao último aspecto mencionado, merece destaque a presença de dois diálogos: no primeiro, presente na cena de abertura do filme, o vice-rei e o arcebispo da Nova-Espanha discutem a sobreposição e inseparabilidade das jurisdições da Coroa e da Igreja; no segundo, um pouco adiante na história, a vice-rainha María Luisa Manrique de Lara e o escritor Carlos de Sigüenza y Góngora lamentam a miséria no México e as mortes dos “pobres índios”. Tratam-se de passagens cujas principais funções no roteiro do filme são ancorar a narrativa no contexto histórico em que se inscreve o enredo. Além disso, ilustram uma diferença significativa observada entre o filme e a série televisiva, já que, nesta última, a preocupação com particularidades do momento histórico em que vive Juana Inés - ainda que materializada em cuidadoso trabalho de produção, com destaque para a recriação de cenários e figurinos - parece atenuada na construção do roteiro, que favorece maior aproximação entre as situações e os conflitos narrativos - típicos do melodrama - em relação ao contexto de recepção da obra, como se sublinhasse, a todo momento, que os desafios enfrentados por Juana Inés são semelhantes aos vividos por mulheres de qualquer época e sociedade.</p>
			<p>Assim, ainda em relação a <italic>Yo, la peor de todas</italic>, cabe observar que o <italic>ser-mulher</italic> é enquadrado como categoria social - tanto como categoria <italic>objeto de opressão</italic> quanto como <italic>categoria fonte de ação coletiva</italic>. É o que se observa, por exemplo, em uma cena na qual Juana Inés, em sua última aula para uma turma de meninas no convento, afirma que, de todas as lições ali ensinadas, a mais importante - e que as alunas não devem esquecer - é que a percepção e a curiosidade não são habilidades exclusivas dos homens, que a liberdade de indagar sobre os segredos do universo não é privilégio masculino e que a inteligência não tem sexo.</p>
			<p>Os olhares atentos das jovens alunas, que observam interessadas e fixamente o discurso apaixonado da professora, evidenciam o que há de mais significativo na cena: a perspectiva de coletivização da luta de Juana Inés, que passa a representar a luta de todas as mulheres - de sua geração e das seguintes. Esse parece ser outro ponto de distinção entre o filme e a minissérie televisiva, como vemos a seguir.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>Discursividades feministas e organização narrativa em <italic>Juana Inés</italic>
</bold></title>
			<p>Como forma de sustentar o exame dos diálogos estabelecidos na minissérie <italic>Juana Inés</italic> em relação a sentidos de feminismo, é preciso, inicialmente, observar como se articulam os elementos narrativos presentes na obra - em especial no que diz respeito à construção da personagem-protagonista. Para isso, recuperamos brevemente o arco narrativo de Juana Inés na produção televisiva e, nesse percurso, procuramos evidenciar como o <italic>ser-mulher</italic> é posicionado como fator central à organização dos conflitos que movem a história, bem como à configuração das motivações e dos desafios da heroína; ou, em outros termos, central para as peripécias da história, como situaria <xref ref-type="bibr" rid="B1">Aristóteles (2011</xref>).</p>
			<p>Quase toda a narrativa é apresentada em forma de flashbacks, que introduzem as recordações da protagonista em seu leito de morte, aos 46 anos. A série tem início quando uma jovem Juána de Asbaje y Ramírez de Santilhana (interpretada por Arantza Ruiz) deixa a casa de seu tio, onde vivia, e se dirige para a corte do vice-rei da Nova Espanha. Filha ilegítima e <italic>criolla</italic>, ela busca, inicialmente, tornar-se tutora da filha dos vice-reis. Para tanto, é submetida a uma avaliação pública diante de 40 intelectuais (todos homens), considerados alguns dos mais cultos da Cidade do México. Como resultado, Juana Inés deixa todos os presentes profundamente impressionados com sua erudição e sagacidade.</p>
			<p>Apesar de conquistar a proteção do Marquês de Mancera (Mauricio Isaac), o vice-rei, e a paixão de Leonor Carreto de Toledo (Lisa Owen), a vice-rainha, a trama da protagonista segue com as dificuldades que a jovem enfrentaria na corte, sobretudo diante da inveja e desconfiança do padre jesuíta Antonio Núñez de Miranda (Hernán del Riego), confessor do casal de vice-reis, que se revela, ao longo dos capítulos, principal antagonista de Juana Inés. O desfecho da breve incursão da protagonista pela vida cortesã ocorre quando a jovem, que havia mentido sobre sua origem bastarda, acaba sendo descoberta por Núñez, que a delata aos vice-reis, impedindo-a de permanecer na posição de tutora por suposta má influência que seria à criança, dada sua origem humilde.</p>
			<p>Nesse momento, Núñez, argumentando que a moça não encontraria marido na corte (e a uma mulher, naquela época, essa seria a principal alternativa), convence-a a entregar-se a Deus, pois, segundo ele, a vida no convento permitiria que ela pudesse fazer o que mais apreciava: ler, estudar e escrever - promessa que não necessariamente se concretiza, ou ao menos não com a aparente harmonia e anuência social. Juana Inés, então, praticamente manipulada por Núñez, entra para a ordem das Carmelitas Descalças. Porém, não se conformando com a vida de autopenitência e obediência cega que se lhe impunha, ela ingressa na ordem de São Jerônimo, na qual esperava ter acesso de fato à cultura letrada e poder dedicar-se à escrita.</p>
			<p>A essa altura, Sor Juana já adquiria notoriedade por seu talento como escritora e poetisa e, embora contasse com a proteção da nobreza, despertava o descontentamento da Igreja. Ao ter a ousadia de, sendo mulher, idealizar um arco triunfal<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref> para celebrar a chegada do novo casal de vice-reis à Nova Espanha, atrai os olhares do arcebispo Francisco de Aguiar y Seijas (Carlos Valencia), que decide investigar a protagonista. Conhecemos, então, outro elemento central do <italic>plot</italic> da série: o envolvimento amoroso entre a freira e a vice-rainha María Luisa Manrique de Lara (Yolanda Corrales), registrado nas cartas trocadas entre as duas.</p>
			<p>Padre Núñez intercepta as cartas profanas de Juana Inés à vice-rainha e, tomado por inveja após saber sobre o desejo de María Luisa em publicar a obra de Juana Inés na Espanha, confronta a Madre Priora do convento com a ameaça de que levaria a público as correspondências, com potencial de comprometer gravemente a Ordem de São Jerônimo e a vice-rainha. Em troca da devolução das cartas, Núñez, em uma perversa estratégia para silenciar Juana Inés, ordena que toda a sua produção e sua biblioteca sejam confiscadas.</p>
			<p>Após fechar-se o cerco da Igreja contra Juana Inés - tanto em função de sua paixão proibida quanto de sua crescente proeminência como escritora e seu envolvimento em polêmicas com o padre Antônio Vieira -, ela se vê obrigada a escolher entre assumir-se como figura pública ou manter sua posição na Ordem de São Jerônimo. Ela opta pelo segundo caminho, doa seus livros e pertences à caridade e compromete-se a não escrever mais e a dedicar-se a seu trabalho como religiosa. A narrativa então acompanha a protagonista até seus últimos dias de vida, em 1695, quando, em virtude de uma epidemia no México, falece no dia 15 de abril.</p>
			<p>Ao longo dos sete capítulos que integram a minissérie, observa-se que o <italic>ser-mulher</italic> desempenha papel central à construção de sua protagonista, sobrepondo-se a marcadores que também poderiam ser destacados em relação a ela, tais como a identidade atribuída em função de seu local de nascimento (origem <italic>criolla</italic>) ou elementos de raça e classe. No mesmo sentido, as intrigas que movem a narrativa são sempre apresentadas como conflitos de <italic>homens contra uma mulher</italic> - como fica evidente no caso das relações de Juana Inés com Nuñez e o padre Antônio Vieira, por exemplo. Ao mesmo tempo, o roteiro sublinha a origem <italic>pessoal/privada</italic> - em detrimento da natureza <italic>institucional/social</italic> - dos conflitos que se apresentam à protagonista; em outras palavras, embora Juana Inés enfrente dificuldades por <italic>ser mulher em um mundo de homens</italic>, esses homens atuam motivados por afetos e emoções individuais, como inveja, ganância, ciúmes etc.</p>
			<p>Outro aspecto digno de nota diz respeito à centralidade conferida ao longo da narrativa às relações e aos sentimentos amorosos entre Juana Inés e as vice-rainhas Leonor e, principalmente, María Luisa. Se o tema do amor romântico encontra ressonância na matriz melodramática<xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref> que perpassa a minissérie (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Zanetti, 2009</xref>), é preciso lembrar também que as questões da sexualidade constituem aspecto central dos Estudos de Gênero e são encampadas como ponto fundamental dos feminismos do século XXI, em que se destaca a emergência da luta pela visibilidade lésbica (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Hollanda, 2019</xref>).</p>
			<p>De fato, como no filme <italic>Yo, la peor de todas</italic> (1990), a refração de elementos de discursividades feministas desempenha papel fundamental à organização narrativa na minissérie <italic>Juana Inés</italic>. Há, no entanto, contrastes fundamentais. No longa de Bemberg, parece decisiva a afirmação de sentidos ligados tanto à emergência dos <italic>estudos feministas</italic> do começo do século XX - por meio da crítica ao caráter androcêntrico da produção do conhecimento científico (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Matos, 2008</xref>) - quanto a elementos das chamadas <italic>primeira</italic> e <italic>segunda ondas feministas</italic> - observados, sobretudo, na presença de uma concepção essencializada sobre os sexos<xref ref-type="fn" rid="fn21"><sup>21</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Hollanda, 2003</xref>).</p>
			<p>Já no caso da produção do Canal Once/Bravo Films, verifica-se o estabelecimento de diálogos com discursos em circulação no momento histórico de produção/consumo da minissérie, sobretudo aqueles constitutivos do que <xref ref-type="bibr" rid="B17">Pinto (2003</xref>) denomina <italic>feminismo difuso</italic>, isto é, um feminismo de caráter fragmentado, que não apresenta um conjunto articulado de demandas e posturas em relação à vida privada ou à vida pública e é defendido por mulheres (e homens) que nem sempre se identificam como feministas e raramente estão ligados a movimentos militantes e/ou organizações políticas. É no bojo dessa discursividade que ganham tração as políticas de representação que emergem como parte de <italic>feminismos midiáticos contemporâneos</italic>, com destaque para a visibilização da diversidade em um ambiente neoliberal e à valorização de narrativas de <italic>empoderamento individual</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Gill, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Prudencio, 2020</xref>).</p>
			<p>Não à toa, emoldurando os elementos que apontamos até aqui, acreditamos que a perspectiva do <italic>empoderamento</italic> desempenhe papel primordial à organização narrativa e à construção das imagens na minissérie<xref ref-type="fn" rid="fn22"><sup>22</sup></xref>. Isso porque, em <italic>Juana Inés</italic>, a protagonista é apresentada, desde o primeiro capítulo, como uma mulher que conquista espaços graças a seus atributos intelectuais, cujo principal objetivo é, no limite, poder definir os rumos de sua própria vida. No caso dos impasses em torno de sua incursão pela escrita teológica, por exemplo, parece estar em jogo mais um desejo de realização pessoal do que a preocupação com uma articulação política na Igreja. Sua grande proeza, nesse sentido, é usar a inteligência para reinventar-se e sobreviver às adversidades que se lhe impõem.</p>
			<p>Em sintonia com esse diálogo com uma discursividade neoliberal do <italic>empreendedorismo de si</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Prudencio, 2020</xref>), o aspecto mais emblemático do papel desempenhado pela perspectiva de empoderamento na minissérie parece estar no desfecho da narrativa. Em seu último capítulo, descobrimos que Juana Inés, apesar de sua promessa de afastar-se das letras, nunca parou de escrever. Por isso, sua trajetória é representada, acima de tudo, como uma trajetória de superação e sucesso individual, configurando um contraste fundamental em relação ao olhar crítico e pessimista que, como vimos, sustenta a refração de posições feministas no filme <italic>Yo, la peor de todas</italic>.</p>
			<p>Se, por um lado, a valorização de uma perspectiva afirmativa e a incorporação da lógica do <italic>empoderamento individual</italic> podem esvaziar dimensões de sentido ligadas a componentes transformativos e coletivos das lutas das mulheres, por outro lado, a abordagem da minissérie <italic>Juana Inés</italic>, em sintonia com mediações próprias à narrativa seriada televisiva latino-americana, mostra-se potente do ponto de vista da construção de vinculações afetivas e identificações com/por suas espectadoras. Talvez haja, do ponto de vista da articulação gênero/formato, na exploração da matriz melodramática, uma potência política da obra também em virtude da proeminência de uma estética latino-americana fazendo frente a uma hegemonia estético-discursiva estadunidense na produção audiovisual em circulação, seja na mídia de massa ou pós-massiva.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Sabendo que os gêneros discursivos constituem modalidades enunciativas relativamente estabilizadas e intrinsecamente ligadas aos campos e práticas sociais (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bakhtin, 2016</xref>), implicações inerentes à dimensão genérica mostram-se decisivas à forma como a minissérie <italic>Juana Inés</italic> dialogiza posições semântico-axiológicas específicas. No caso da narrativa seriada na TV latino-americana, destacam-se, especialmente, a aproximação em relação ao cotidiano e à atualidade e as características do melodrama como matriz cultural (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Martín-Barbero, 2003</xref>).</p>
			<p>Elementos melodramáticos - tais como a centralidade do sofrimento amoroso e a dicotomização entre protagonista/heroína e antagonista/vilão - perpassam toda a construção narrativa de <italic>Juana Inés</italic>. Ao mesmo tempo, os diálogos estabelecidos na minissérie em relação a sentidos de feminismo parecem ser decisivamente influenciados por modulações discursivas relacionadas tanto à emergência de um “novo imaginário político” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Fraser, 2006</xref>), articulado em torno da luta por reconhecimento, quanto à visibilidade adquirida por uma perspectiva de valorização do <italic>empoderamento</italic> e da <italic>agência individual</italic> no contexto dos chamados “feminismos midiáticos” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Gill, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B18">Prudencio, 2020</xref>).</p>
			<p>Como procuramos evidenciar ao longo deste artigo, a figura humana de Juana Inés rompe com a maneira de entender a mulher naquele momento histórico de sua existência, e esse dialogismo que ela opera com os sentidos do feminismo, que viriam cronologicamente mais à frente no real histórico, é uma escolha fulcral para a construção do real diegético da personagem na narrativa da minissérie para potencializar a circulação da obra em nossa sociedade <italic>hoje</italic>, inclinada a colocar em pauta questões sobre equidade de gênero.</p>
			<p>Em lugar da luta pela equidade entre homens e mulheres, encontramos a afirmação da singularidade individual da protagonista - singularidade que passa, é certo, por sua condição enquanto mulher. Trata-se de perspectiva fundamentalmente <italic>afirmativa</italic>, que se ocupa não de contestar a origem ou as estruturas da produção das categorias em que são enquadrados os sujeitos, mas, sim, de valorar positivamente categorias representadas historicamente de forma negativa<xref ref-type="fn" rid="fn23"><sup>23</sup></xref>. Mais do que denunciar a opressão - enfoque central do filme <italic>Yo, la peor de todas</italic>, por exemplo -, a série busca afirmar as qualidades da protagonista enquanto mulher, escritora e intelectual. A mensagem parece ser a de que a mulher pode ser o que quiser, inclusive uma aclamada poetisa do século de ouro espanhol.</p>
		</sec>
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					<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,sor-juana-ines-de-la-cruz-e-tema-de-estudo-de-octavio-paz-e-serie-da-netflix,70002104390">https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,sor-juana-ines-de-la-cruz-e-tema-de-estudo-de-octavio-paz-e-serie-da-netflix,70002104390</ext-link>
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					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2023-07-26">26 jul. 2023</date-in-citation>
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			<ref id="B17">
				<mixed-citation>PINTO, C. R. J. <italic>Uma história do feminismo no Brasil</italic>. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>PINTO</surname>
							<given-names>C. R. J</given-names>
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					<source>Uma história do feminismo no Brasil</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Perseu Abramo</publisher-name>
					<year>2003</year>
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			<ref id="B18">
				<mixed-citation>PRUDENCIO, N. E. Empoderamento e biopolítica nos feminismos midiáticos de <italic>Mulher-Maravilha e Capitã Marvel</italic>. <italic>Tropos</italic>, v. 9, n. 2, 2020.</mixed-citation>
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							<surname>PRUDENCIO</surname>
							<given-names>N. E</given-names>
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					<article-title>Empoderamento e biopolítica nos feminismos midiáticos de Mulher-Maravilha e Capitã Marvel</article-title>
					<source>Tropos</source>
					<volume>9</volume>
					<issue>2</issue>
					<year>2020</year>
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			<ref id="B19">
				<mixed-citation>RODRÍGUEZ, O. A. Poder, Institución y Género En <italic>Yo, La Peor de Todas</italic>. <italic>Revista Canadiense de Estudios Hispánicos</italic>, Canadá, v. 27, n. 1, p. 139-156, 2002.</mixed-citation>
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					<article-title>A. Poder, Institución y Género En Yo, La Peor de Todas</article-title>
					<source>Revista Canadiense de Estudios Hispánicos</source>
					<publisher-loc>Canadá</publisher-loc>
					<volume>27</volume>
					<issue>1</issue>
					<fpage>139</fpage>
					<lpage>156</lpage>
					<year>2002</year>
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			<ref id="B20">
				<mixed-citation>TREBISACCE, C.; VEIGA, A. M. Variaciones en la transgresión desde el ojo protésico de María Luisa Bemberg. <italic>Estudos feministas</italic>, Florianópolis, v. 25, n. 3, p. 1405-1417, 2017.</mixed-citation>
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							<surname>TREBISACCE</surname>
							<given-names>C.</given-names>
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					<article-title>Variaciones en la transgresión desde el ojo protésico de María Luisa Bemberg</article-title>
					<source>Estudos feministas</source>
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					<year>2017</year>
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			<ref id="B21">
				<mixed-citation>ZANETTI, D. Repetição, serialização, narrativa popular e melodrama. <italic>MATRIZes</italic>, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 181-194, 2009.</mixed-citation>
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							<surname>ZANETTI</surname>
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					<article-title>Repetição, serialização, narrativa popular e melodrama</article-title>
					<source>MATRIZes</source>
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					<year>2009</year>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Trabalho apresentado no 9º Encontro de GTs de Pós-Graduação - Comunicon, realizado de 17 a 19 de outubro de 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Segundo informações do site IMDb. Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt5593998/?ref_=ev_nom. Acesso em: 26 jul. 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Segundo informações do site IMDb. Disponível em: https://www.imdb.com/event/ev0002747/2016/1/. Acesso em: 26 jan. 2021.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Disponível em: https://www.produ.com/television/noticias/hoy-cdmx-canal-once-presenta-la-miniserie-biografica-juana-ines/. Acesso em: 26 jul. 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80123792. Acesso em: 26 jul. 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Disponível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLxWdIw-DrWg4b95PRwtb9H_7Hsnhl81qB. Acesso em: 27 jul. 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Em 27 de julho de 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>Não pretendemos nos estender nessa discussão - não só porque nossas indagações se dirigem às discursividades articuladas em <italic>Juana Inés</italic> (a minissérie) e não à natureza da atuação histórica de Juana Inés (a pessoa): também porque a atribuição a figuras históricas de camadas semântico-axiológicas ligadas a diferentes temporalidades por meio de representações midiáticas, longe de constituir equívoco ou problema, é, para nós, dado intrínseco à elaboração discursiva da memória e do objeto de nosso interesse analítico. Não obstante, convém assinalar que não parece haver, entre estudiosos da vida e obra de Juana Inés, consenso sobre a (im)possibilidade de pensá-la como escritora feminista. Destacam-se, por exemplo, as discussões propostas por <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bruera e Cortez (2016</xref>), que defendem a existência de um <italic>feminismo anacrônico</italic> na poética de Sor Juana Inés de la Cruz, e <xref ref-type="bibr" rid="B5">Fiori (2013</xref>), que vê na obra da poetisa uma espécie de <italic>depuração do feminismo</italic> por meio da transcendência da dicotomia homem/mulher e da tomada de consciência de que a emancipação da mulher passa, necessariamente, pela emancipação do homem.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>No original: “Lo que propuso esta serie fue hablar de la mujer y por eso se llama Juana Inés y no Sor Juana Inés de la Cruz […] esta mujer quien vivió una época en que absolutamente el mundo era de los hombres y las mujeres no tenían derecho a ejercer su libertad. Tuvo que luchar contra esta estructura para defender su derecho al conocimiento, a los libros, a escribir, e incluso a publicar […] En aquel entonces, para la mujer estaba prohibido y aunque en este momento no es tan claro, está implícito: las mujeres están sometidas a un sistema que no ha podido desarrollar una equidad de género y muchas veces están supeditadas a los quehaceres del hogar. Por eso, este personaje es inspirador”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>No original: “<italic>A los historiadores no les gusta que diga eso, a los sorjuanistas tampoco, pero Sor Juana Inés es de todos y ésta es una hipótesis de lo que pudo haber sucedido</italic>”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p>No original: “[…] sólo por tomar el punto de vista de la mujer, porque no es que hubiera un grupo de malos que no querían que una monja no escribiera, es que esa era la manera de entender a la mujer en ese momento”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p>No original: “<italic>No diría que Juana Inés fuera feminista, porque eso ni siquiera se entendía. Era una mujer que exigía el derecho a pensar y a estudiar. Muchas mujeres tardaron siglos en lograrlo</italic>”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p>No original: “<italic>una Juana Inés filtrada por el siglo XXI: la hacemos rebelde desde lo que conocemos de este siglo y no sólo mirando a los ojos de un prelado, porque nadie lo entendería</italic>”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p>Disponível em: https://www.imdb.com/title/tt5593998/. Acesso em: 9 nov. 2024.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p>A crítica à maternidade compulsória e ao matrimônio por parte de Juana Inés comparecem de forma particularmente evidente em duas passagens da narrativa fílmica, a saber: quando, ao perceber que a vice-rainha está grávida, afirma não entender a maternidade; e quando, ao ser indagada pela amiga se não se sente triste por ter renunciado à possibilidade de ser mãe, diz: “<italic>Ni todas somos iguales, señora. Algunas necesitamos la soledad… Soledad y silencio para poder pensar</italic>” (“Não somos todas iguais, senhora. Algumas de nós necessitamos da solidão... Solidão e silêncio para poder pensar”, tradução nossa); e em um diálogo da personagem com sua mãe, quando esta, em seu leito de morte, questiona a filha sobre a razão pela qual ela teria se tornado freira, ao que Juana responde: <italic>“¿Tendría sido más feliz sometida a un hombre? ¿Como vos a mi padrastro? ¿Con niños trepándose a mis faldas cada vez que busco una rima? Vos sabéis que siempre tuve aversión al matrimonio</italic>” (“Eu teria sido mais feliz submetida a um homem? Como você e meu padrasto? Com crianças subindo no meu colo cada vez que busco uma rima? Você sabe que sempre tive aversão ao matrimônio”, tradução nossa).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p>A coragem e altivez de Juana Inés parecem ser especialmente evidenciadas em uma dramática cena na qual a personagem enfrenta o arcebispo Francisco Aguiar y Seijas, questionando-o sobre o que o autoriza a, apesar das diferenças das mulheres em relação aos homens (“tenemos otro olor, otra forma”), privar as mulheres do acesso ao conhecimento.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p>O arco triunfal era uma peça fundamental durante as grandes celebrações públicas no mundo barroco. Em 1680, quando o vice-rei Tomás de la Cerdas e a vice-rainha María Luisa Manrique de Lara chegaram à Cidade do México, foram recebidos por dois arcos monumentais - um dos quais idealizado por Sor Juana Inés de la Cruz, que escreveu ainda uma breve loa intitulada <italic>Explicaccion succinta del arco triumphal</italic> para ser recitada diante das autoridades (Cordiviola, 2017).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p>Melodrama enquanto gênero de origem teatral que privilegia o drama e os relacionamentos à trama (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Mittell, 2012</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>21</label>
				<p>Ainda que, como se sabe, essa concepção já fosse largamente problematizada, no momento de produção, do filme, entre os Estudos de Gênero e movimentos feministas (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Hollanda, 2003</xref>), pode-se levantar a hipótese de que sua centralidade como posição valorativa no filme de Bemberg, materializada sobretudo em dizeres de Juana Inés e na forma como são orquestradas as vozes dos personagens, possa dever-se à preocupação, por parte da cineasta, em incorporar uma concepção de gênero mais próxima daquela corrente no contexto do século XVII.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn22">
				<label>22</label>
				<p>Afastando-se do sentido proposto originalmente para o termo por feministas negras nos Estados Unidos, a dimensão do empoderamento no contexto dos feminismos midiáticos caracteriza-se pelo foco prioritário no individualismo e na liberdade de escolha, favorecendo a reprivatização de “questões que apenas poucos anos antes haviam sido politizadas” (Prudencio, 2020, p. 10).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn23">
				<label>23</label>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B7">Fraser (2006,</xref> p. 237) destaca duas grandes abordagens de combate à injustiça que atravessam a divisão redistribuição-reconhecimento: a abordagem relativa à <italic>afirmação</italic> - relativa aos “remédios voltados para corrigir efeitos desiguais de arranjos sociais sem abalar a estrutura subjacente que os engendra” - e a abordagem relativa à <italic>transformação</italic> - relacionada aos “remédios voltados para corrigir efeitos desiguais precisamente por meio da remodelação da estrutura gerativa subjacente”.</p>
			</fn>
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	</back>
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