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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">rmr</journal-id>
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				<journal-title>Rumores</journal-title>
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			<issn pub-type="epub">1982-677X</issn>
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				<publisher-name>Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2024.230823</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ARTIGOS TEMAS LIVRES</subject>
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				<article-title><bold>Netflix, cosmopolitismo e a construção de um <italic><italic>ethos</italic> discursivo de diversidade</italic></bold><xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
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					<trans-title>Netflix, cosmopolitanism, and the construction of a discursive <italic>ethos</italic> of diversity</trans-title>
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						<surname>Prudencio</surname>
						<given-names>Natalia Engler</given-names>
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					<bio>
						<p>Jornalista graduada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGMPA ECA-USP) e doutoranda pelo PPGMPA ECA-USP. Integrante do MidiAto - Grupo de Estudos de Linguagem: Práticas Midiáticas</p>
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					<institution content-type="original"> Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</institution>
					<institution content-type="normalized">Universidade de São Paulo</institution>
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			<author-notes>
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					<label>E-mail:</label>
					<email>nataliapru@gmail.com</email>
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			</author-notes>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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				<year>2025</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<year>2025</year>
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			<volume>18</volume>
			<issue>36</issue>
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				<copyright-statement>(Atribuição-NãoComercial-Sem Derivações): Permite que outros façam download de suas obras e as compartilhem com outras pessoas, desde que lhe atribuam crédito, mas não podem alterá-las de forma alguma ou usá-las comercialmente.</copyright-statement>
				<copyright-year>2025</copyright-year>
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				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0">Licença Creative Commons CC BY NC ND</ext-link>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo tem por objetivo discutir como a noção de diversidade tem sido tematizada na construção de marca da Netflix. Para tanto, nos valemos da noção de ethos discursivo e a analisamos a construção de um ethos discursivo de diversidade em um comunicado de imprensa em que a companhia mobiliza essa noção. Conclui-se que a construção desse ethos discursivo de diversidade seria uma estratégia da plataforma para estratificar seu público transnacionalmente diante de um mercado globalizado e se diferenciar da concorrência, posicionando a marca como agente de mudanças em sua indústria e a ligando a um modo de ser cosmopolita e comprometido com a diversidade de identidades de seu público e de seus criadores.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This study aims to discuss how the Netflix branding has incorporated the notion of diversity. For this, we begin with the concept of discursive ethos and analyze the formation of a discursive ethos of diversity in a press release in which the company foregrounds its notion of diversity. The findings suggest that the construction of this discursive ethos of diversity serves as a strategy for Netflix to stratify its audience transnationally within a globalized market and to distinguish itself from competitors, positioning the brand as an agent of change in its industry and aligning it with a cosmopolitan ethos committed to the diversity of identities among its audience and creators.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Diversidade</kwd>
				<kwd>ethos discursivo</kwd>
				<kwd>cosmopolitismo</kwd>
				<kwd>Netflix</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Diversity</kwd>
				<kwd>discursive ethos</kwd>
				<kwd>cosmopolitanism</kwd>
				<kwd>Netflix</kwd>
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					<funding-source>CAPES</funding-source>
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				<funding-statement>Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001</funding-statement>
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	<body>
		<p>Diante da emergência do tema da diversidade e de sua presença ubíqua no senso comum, este artigo tem por objetivo discutir como essa noção tem sido apropriada na construção do ethos discursivo da plataforma audiovisual global Netflix. Essa discussão se insere no contexto de nossa pesquisa de doutorado, em que nos propomos a investigar os sentidos da noção de diversidade em sua circulação na cultura midiática, a partir da articulação entre o modo como plataformas audiovisuais globais se apropriam dessa noção em seus materiais institucionais e produções e o modo como o público que consome tais materiais e produções se (re)apropria dessa noção. Para tanto, tomamos como objetos empíricos os materiais institucionais e as produções das plataformas de streaming Netflix e Disney+, bem como o consumo dessas representações por parte dos espectadores, na medida em que a noção de diversidade tem sido tema de reivindicações de visibilidade midiática e reconhecimento feitas por grupos historicamente subalternizados e invisibilizados, além de que cada vez mais vem sendo utilizada por tais plataformas para dar conta de uma audiência globalizada.</p>
		<p>Três questionamentos principais norteiam nossa pesquisa de doutorado: i. as crescentes reivindicações por reconhecimento de identidades e diferenças de grupos historicamente subalternizados e invisibilizados, que entendem a visibilidade midiática como componente essencial de sua luta por expansão de direitos; ii. o recurso de plataformas audiovisuais globais à noção de diversidade, tomada tanto como valor universal para atingir consumidores em um mercado global quanto como forma de responder a demandas das audiências que reivindicam visibilidade midiática; iii. as pressões mais amplas na direção da despolitização e mercantilização das identidades e diferenças.</p>
		<p>Tais questionamentos nos colocaram diante da necessidade de qualificar o modo como a noção de diversidade é tematizada na construção de marca dessas plataformas, o que fazemos aqui por meio da análise da construção de um ethos discursivo (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau, 2008</xref>) de diversidade em um material institucional específico em que a Netflix mobiliza essa noção. Iniciamos nossa discussão, portanto, apresentando um panorama sobre a emergência da temática da diversidade como um valor universal na contemporaneidade e o modo como ela se impõe também a um mercado globalizado e a empresas que buscam se posicionar e se distinguir nesse mercado, como a Netflix. Em seguida, discutimos como a noção de ethos discursivo pode servir à nossa análise. Por fim, analisamos um comunicado de imprensa emitido pela plataforma, em que ela apresenta duas de suas iniciativas em termos de promoção de diversidade.</p>
		<sec>
			<title>A emergência da diversidade</title>
			<p>Temos observado reivindicações de visibilidade midiática para identidades e diferenças de mulheres, pessoas LGBTQIA+, pessoas negras, pessoas com deficiência etc. se intensificarem e ganharem relevância com a aceleração dos processos de midiatização, conferindo novas formas às trocas comunicacionais. Esses grupos historicamente subalternizados e invisibilizados por formas de injustiça culturais e simbólicas - um dos elementos que, para Nancy <xref ref-type="bibr" rid="B6">Fraser (2006</xref>), interferem no seu processo de reconhecimento como parceiros integrais na interação social - compreendem que, em uma sociedade altamente midiatizada, serem vistos e tornarem-se relevantes na cultura dominante é crucial para expandir seus direitos, porque altera o modo como suas identidades são social, política e culturalmente valorizadas (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Banet-Weiser, 2018</xref>). O que se observa, então, é uma “demanda por paridade imagística na cultura midiática” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Serelle, 2019</xref>, p. 12), já que narrativas midiáticas e representações estão implicadas na formação de estigmas sociais.</p>
			<p>Por outro lado, em meio a esse contexto, também temos visto a categoria da diversidade ganhar importância na contemporaneidade, emergindo como o que Renato Ortiz denomina de “emblema da modernidade-mundo” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Vicente; Venanzoni; Soares, 2017</xref>), uma representação que torna visível um determinado aspecto crucial da realidade. Para o autor, esse aspecto que a diversidade torna visível tem a ver com o processo de globalização, uma situação em que o mundo passa a estar integrado em um mercado global e interconectado por tecnologias da comunicação, mas não se homogeneíza, continua a ser um conjunto diferenciado de unidades sociais que coexistem na situação global (Ortiz, op. cit.). Ainda segundo o autor, nesse contexto em que temos a necessidade de buscar respostas consensuais para problemas comuns, mas as grandes teorias e narrativas totalizantes e universalizantes do passado perderam força em face justamente da valorização das diferenças, a diversidade cultural passa também a ser valorizada como um traço essencial das sociedades humanas, e “as qualidades positivas, antes atribuídas ao universal, deslocam-se para o ‘pluralismo’ da diversidade” (Ibid., pos. 5).</p>
			<p>Na Convenção Internacional de Proteção e Promoção da Diversidade Cultural, elaborada pela <xref ref-type="bibr" rid="B14">Unesco em 2005</xref>, por exemplo, a diversidade aparece como “uma característica essencial da humanidade” que deve ser valorizada e cultivada, essencial para a “plena realização dos direitos humanos e das liberdades fundamentais”, e um “dos principais motores do desenvolvimento sustentável” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Unesco, 2005</xref>). Chegamos, assim, à noção do diverso como um bem comum, e a diversidade adquire, paradoxalmente, um valor universal como uma categoria intrinsecamente boa e inquestionável (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">Vicente; Venanzoni; Soares, 2017</xref>). A diversidade seria, assim, aquilo que permite algum sentido de unificação ao mundo globalizado, uma “diversidade global” que desfaz as contradições e as diferenças.</p>
			<p>Ortiz argumenta ainda que as transformações do mundo contemporâneo impõem a questão da diversidade também aos homens de negócios. Em um estudo sobre como o tema aparece na literatura de administração de empresas e marketing desde os anos 1980, ele observa que a noção de diversidade transcende os homens de empresa “e os aprisiona numa cadeia de significados que lhes escapa. Não obstante, a apropriação do termo é deslocada, se preferirem, naturalizada pelo uso que dela se faz” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz, 2015</xref>, pos. 92). Essa cadeia de significados que transcende o discurso empresarial, para o autor, diz respeito a uma série de ideias cultivadas no interior da modernidade-mundo, que são encapsuladas pela diversidade quando esta assume um valor universal: reconhecimento, igualdade, direitos, valorização do outro, multiculturalismo, cidadania, pluralismo, democracia.</p>
			<p>No entanto, o discurso empresarial deixa também entrever que o “uso” da diversidade nesse contexto é orientado pelos princípios de racionalidade e eficiência em que se ancora a empresa moderna. Ou seja, para <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>), a instrumentalidade se sobrepõe a valores, e a proposta de diversidade, nesse caso, não se apoia verdadeiramente em fundamentos morais ou éticos, mas sim na praticidade, nas vantagens competitivas apontadas nessa literatura: ganhar acesso ao mercado em mudança, recrutar e incentivar os melhores talentos, expandir a criatividade, reforçar a sobrevivência por meio da resistência e da flexibilidade etc.</p>
			<p>Essas vantagens têm a ver, na visão do autor, com as mudanças impostas pela globalização e com o modo como o pensamento empresarial evoluiu ao longo do tempo para lidar com elas. Há uma percepção da unificação dos mercados localizados nos mais diversos lugares do planeta (por meio do advento das tecnologias, que multiplica produtos e aproxima pessoas), acompanhada da segmentação no interior desses mercados, fazendo com que o mundo seja visto como um conjunto diversificado de segmentos nos quais o consumo se faria, que podem ser trabalhados em sua especificidade e transnacionalidade. Assim, “importa recortar no mercado global segmentos semelhantes, que constituiriam as ‘universalidades’ das estratégias de marketing” (Ibid., pos. 84).</p>
			<p>Nesse primeiro momento, ainda não se fala em “a diversidade”, e é só em um segundo momento - em que a globalização passa a ser compreendida em seu sentido de comunalidade, de um comum permeado por elementos idiossincráticos, particulares - que ela é assumida como um valor universal, um “programa ético” a ser implementado, servindo de justificativa moral para a “boa gestão”. Trata-se de um discurso que, na análise de <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>), valoriza a pluralidade, a igualdade e o espírito de cidadania, mas no qual essa valorização está subordinada ao potencial da eficiência, e não da emancipação da força de trabalho. Ou seja, as premissas desse discurso negam as intenções políticas que ele expressa.</p>
			<p>Nesse contexto, o esforço do marketing transcultural deve ser distinguir semelhanças e diferenças dos grupos de consumidores, compará-las e retirar uma perspectiva comum a seu respeito (Ibid.). É o que se pode ver no modo como grandes empresas globais de mídia, como a Netflix, têm se apropriado da noção de diversidade em seus discursos institucionais. Como aponta Thiago S. <xref ref-type="bibr" rid="B15">Venanzoni (2021</xref>, p. 213), “ao ocupar novos territórios e suas identidades”, plataformas audiovisuais globais têm se valido da diversidade como valor apropriado para atingirem seus consumidores em um mercado global.</p>
			<p>Assim, é constante reconhecer a diversidade “como emblema discursivo em narrativas e formas de distribuição audiovisual, inclusive, como parte das identidades das companhias, produtoras e empresas” (Ibid.). Nesse sentido, “as identidades renovadas apresentadas por essas plataformas geram identificações e construções de mercados” desterritorializadas (Ibid.), a partir de uma percepção de mobilidade de grupos minoritários em diversos âmbitos da sociedade (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bianchini; Camirim, 2019</xref>) - ou seja, retomando <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>), grupos minoritários tornam-se “segmentos” transnacionais a serem trabalhados em sua especificidade e transnacionalidade por meio de discursos “universais” de diversidade.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Diferenciação e ethos discursivo</title>
			<p>O foco em segmentos transnacionais de públicos pode ser conectado ao argumento de <xref ref-type="bibr" rid="B12">Straubhaar (Palestra…, 2023</xref>) de que a Netflix busca constituir um público espectador transnacional mobilizando seu capital simbólico e conectando-o ao consumo cultural global, a uma classe média alta global de valores cosmopolitas. Assim, o que gostaríamos de argumentar, e buscaremos demonstrar adiante, é que, para estratificar seu público transnacionalmente diante de um mercado globalizado, bem como para se diferenciar da concorrência, a Netflix busca ligar sua marca a valores cosmopolitas - reconhecimento, igualdade, direitos, valorização do outro, multiculturalismo, cidadania, pluralismo, democracia, que, como aponta <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>), são encapsulados pela diversidade quando esta assume um valor universal - por meio da construção de um ethos discursivo de diversidade.</p>
			<p>É isso que aponta a análise de 800 comunicados de imprensa da plataforma realizada por <xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar, Raats e Audenhove (2023</xref>) para compreender como a Netflix promove [<italic>brands</italic>] sua narrativa sobre diversidade. Segundo os autores, a estratégia da diversidade é um aparato-chave para a expansão transnacional da Netflix e serve de justificativa para a diversificação de conteúdo e para atrair públicos mais amplos. Nesse sentido, para garantir a circulação e recepção transnacional de suas produções, a plataforma apela a ideais de liberalismo, democracia e diversidade em seu conteúdo e na promoção dele, valores indicativos de uma cultura global, os quais representam “um conjunto de normas compartilhadas que não apenas ressoam através (da maioria) das culturas, mas também se relacionam com as experiências (da maior parte) dos espectadores individuais” (Ibid., p. 26).</p>
			<p>Desse modo, os autores apontam que, por meio de suas políticas, de suas estratégias de <italic>branding</italic> ou de sua programação, a plataforma tenta se promover como curadora global de conteúdos progressistas e culturalmente diversos. Assim, ao incorporar um ethos cosmopolita, a Netflix busca construir um aparato cultural de influência que lhe permita suavizar sua expansão global. A partir de sua análise, então, os autores apresentam cinco características do que a Netflix entende por diversidade e quatro estratégias por meio das quais a empresa promove sua marca de diversidade. Para a Netflix, portanto, diversidade significa (Ibid.):</p>
			<p>
				<list list-type="order">
					<list-item>
						<p>Diversidade racial e étnica (representação global de comunidades marginalizadas, com investimentos em entidades locais para promover diversidade na televisão ao redor do mundo);</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Diversidade de gênero (representação de mulheres em frente e atrás das câmeras, com investimentos e colaborações com organizações supranacionais);</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Diversidade sexual (inclusão em frente e atrás das câmeras de personagens e protagonistas LGBTQIA+ fortes, além da promoção de discussões explícitas sobre sexualidade e consentimento, sobretudo voltadas para o público jovem);</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Diversidade de idade (desenvolvimento e promoção de jovens talentos ao redor do mundo);</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Diversidade linguística (investimentos em conteúdos produzidos fora dos Estados Unidos e em dublagem e legendagem).</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Já em termos de estratégia, essas dimensões se traduzem em quatro formas principais por meio das quais a Netflix promove sua marca de diversidade (Ibid):</p>
			<p>
				<list list-type="bullet">
					<list-item>
						<p>Diferenciação: a plataforma usa a ênfase em diversidade na sua comunicação corporativa para se diferenciar e superar a concorrência, promovendo-se como agente de mudança em contraste com uma indústria que seria lenta demais ou não estaria disposta a promover mudanças, apresentando-se como plataforma determinada a desmontar estruturas tradicionais para levar a TV a uma nova era.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Representação: busca mostrar o comprometimento da Netflix com seu público a partir da narrativa de que há na plataforma uma história para cada gosto, identidade e personalidade, vendendo o serviço como sendo para todos, independentemente das diferenças culturais; essa estratégia é mais voltada para o público jovem e busca promover a programação da Netflix como via para esses espectadores negociarem seu caminho por entre as complexidades da sociedade.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Indigenização: diz respeito à expansão da produção local, com ênfase na diversidade linguística, mas também é uma forma de apresentar a Netflix como elo entre criadores locais e o mundo, e vice-versa.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Cosmopolitismo: a Netflix usa a diversidade de seu conteúdo e de seu público global para se promover por todo o mundo como veículo de tolerância e empatia; ao associar seu conteúdo a questões sociais globais, ela se apresenta como um ator justo e progressista; isso permite criar afinidades com públicos através de diferenças demográficas, geográficas e/ou culturais e, ao mesmo tempo, consolidar a imagem da empresa como uma plataforma inspiradora e democratizadora; assim, a Netflix reenquadra simbolicamente seu valor cultural e moral, apresentando uma programação que não seria guiada tanto por razões econômicas, mas que partiria de um desejo de promover conexões culturais globais.</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Consequentemente, para os autores, a estratégia de diversidade permite que a Netflix apele para um quadro global de experiências e ideais, direcionando-se ao mesmo tempo a nichos de audiência; ou seja, retomando <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>), a Netflix responde à necessidade de recortar segmentos semelhantes no mercado global realizando essa segmentação transnacionalmente, por meio de discursos “universais” de diversidade. A ideia de que a diversidade serve como estratégia de diferenciação é crucial aqui, pois <xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar, Raats e Audenhove (2023</xref>) apontam que o campo de estudos sobre o <italic>branding</italic> da diversidade mostra que ela é quase sempre usada para sustentar a expansão da mídia, adaptando-a às demandas de (novos) públicos, ou como estratégia para se distinguir em tempos de competição acirrada, algo já observado, por exemplo, no mercado de TV a cabo estadunidense nos anos 1990.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B10">Mungioli, Penner e Ikeda (2021</xref>), retomando Jost, apontam que a necessidade de diferenciar as especificidades de cada canal de TV em um contexto de concorrência está ligada à sua identificação como marcas, o que pode ser observado a partir das formas de enunciação das emissoras de televisão, que os autores entendem poderem ser estendidas para a análise de uma plataforma audiovisual como a Netflix. A intencionalidade desse propósito de se diferenciar, segundo os autores, pode ser discernida entendendo-se a emissora como enunciador que tem duas vozes: a primeira, da emissora enquanto responsável pela programação; e a segunda, da emissora enquanto pessoa, uma espécie de orador que critica ou promove a si mesmo.</p>
			<p>Em relação à segunda voz, da emissora como pessoa, Jost (2017 apud <xref ref-type="bibr" rid="B10">Mungioli; Penner; Ikeda, 2021</xref>) distingue três instâncias enunciativas: ethos, autopromoção e comunicação. Portanto, é em relação a essa segunda voz que se pode mobilizar a noção de ethos discursivo, compreendido como a construção de uma imagem de si no discurso (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amossy, 2011</xref>), o que, no caso analisado, inclui os comunicados de imprensa emitidos pela Netflix.</p>
			<p>Advertindo que é preciso inscrever a noção de ethos em uma problemática específica para operacionalizá-la, <xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau (2008</xref>) ainda assim estabelece seus princípios mínimos:</p>
			<disp-quote>
				<p>- O ethos é uma noção discursiva, ele se constrói através do discurso, não é uma “imagem” do locutor exterior a sua fala; - O ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro; - É uma noção fundamentalmente híbrida (sócio-discursiva), um comportamento socialmente avaliado, que não pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação precisa, integrada ela mesma numa determinada conjuntura sócio-histórica. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau, 2008</xref>, p. 17)</p>
			</disp-quote>
			<p>Para especificar a noção de ethos, <xref ref-type="bibr" rid="B8">Maingueneau (2018</xref>) propõe distinguir três dimensões, que podem ser mais ou menos salientes a depender do texto analisado: a dimensão “categorial”, que abrange papéis discursivos ou status extradiscursivos; a dimensão “experiencial”, que abrange caracterizações sociopsicológicas estereotipadas; e a dimensão “ideológica”, que se refere a posições em um campo (político, literário etc.). Além disso, no modelo adotado pelo autor, é central uma ideia de incorporação: “o destinatário constrói a figura de um <italic>fiador</italic> dotado de propriedades físicas (<italic>corporalidade</italic>) e psicológicas (<italic>caráter</italic>), apoiando-se num conjunto difuso de representações sociais estereotipadas, avaliadas positiva ou negativamente, que a enunciação ajuda a reforçar ou transformar” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Maingueneau, 2023</xref>, p. 9315).</p>
			<p>Portanto, a adesão ao discurso por parte do interlocutor não seria apenas uma questão de decodificar o conteúdo, mas de aderir a um <italic>modo de ser</italic> que está implicado no <italic>modo de dizer</italic>. Assim, a “incorporação” joga em três registros:</p>
			<p>
				<list list-type="alpha-lower">
					<list-item>
						<p>A enunciação confere uma “corporalidade” ao fiador, ela lhe <italic>dá corpo</italic>;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>O destinatário <italic>incorpora</italic>, assimila, através da enunciação, um conjunto de esquemas que correspondem a uma forma específica de se relacionar com o mundo;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Essas duas primeiras incorporações permitem a constituição de um <italic>corpo</italic>, da comunidade imaginária daqueles que aderem ao mesmo discurso. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Maingueneau, 2023</xref>, p. 9316)</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Por fim, a incorporação do destinatário implica um “mundo ético” do qual o fiador participa, que engloba situações estereotípicas associadas a comportamentos verbais e não verbais.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau (2008</xref>), a publicidade se apoia massivamente nesses estereótipos, e o discurso publicitário tem uma ligação privilegiada com o ethos por ter como objetivo buscar persuadir ao associar produtos a maneiras de habitar o mundo. Nesse sentido, um ethos de “marca” fortemente antropomórfico, cuja dimensão experiencial é saliente, emerge da comunicação feita pela marca, e formas inovadoras de publicidade se distinguiriam justamente por imprimir prioritariamente um ethos à marca em vez de enfocar as qualidades do produto (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Maingueneau, 2023</xref>). O ethos daria, assim, acesso a uma identidade encarnada, e o poder de persuasão estaria em constranger o destinatário a se identificar com o movimento de um corpo (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau, 2008</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O ethos discursivo de diversidade da Netflix</title>
			<p>Tendo definido a noção de ethos discursivo e delineado de forma mais geral as estratégias de diversidade da Netflix, que associamos à construção de um ethos discursivo, passamos então à análise de um comunicado da Netflix à imprensa, divulgado no primeiro semestre de 2023, sobre duas iniciativas da empresa relacionadas à diversidade: o estudo de diversidade em filmes e séries e o Fundo Netflix para Criatividade Inclusiva.</p>
			<p>O comunicado “Seguimos avançando: novidades sobre nosso estudo de diversidade em filmes e séries e o Fundo Netflix para Criatividade Inclusiva” trata dos resultados de uma parceria da Netflix com a Annenberg Inclusion Initiative, da University of Southern California Annenberg (USC Annenberg), que tem como objetivo analisar a cada dois anos os filmes e séries originais da Netflix produzidos nos Estados Unidos em termos de representação e representatividade de grupos sub-representados. O comunicado também apresenta as ações relacionadas ao Fundo Netflix para Criatividade Inclusiva, que tem como objetivo “investir 100 milhões de dólares ao longo de cinco anos na criação de mais caminhos de acesso para profissionais de comunidades com pouca representatividade no mundo todo” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria, 2023</xref>).</p>
			<p>
				<fig>
					<label>Figura 1:</label>
					<caption>
						<p>Reprodução do comunicado “Seguimos avançando: novidades sobre nosso estudo de diversidade em filmes e séries e o Fundo Netflix para Criatividade Inclusiva”, na página de imprensa da Netflix</p>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1982-677X-rmr-18-36-230823-gf1.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria (2023</xref>).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Um primeiro ponto a ser destacado é a construção de um ethos dito (o que o locutor diz sobre si mesmo) já na abertura do texto por meio da apresentação da suposta autora do comunicado, Bela Bajaria, Chief Content Officer da Netflix. Ela (ou seu <italic>ghostwriter</italic>) escreve: “Passei a infância e adolescência no Reino Unido, na Zâmbia e, depois, nos Estados Unidos. Já naquela época, percebi que não tinha nenhuma pessoa parecida comigo nas séries ou nos filmes de que eu tanto gostava e que ninguém contava histórias como a minha, uma garota indiana” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria, 2023</xref>).</p>
			<p>Esse ethos dito concede, de saída, traços de caráter e corporalidade ao ethos discursivo mais amplo construído no texto, pois permite ao interlocutor imaginar um “fiador” incorporado na figura de uma mulher não branca, cuja experiência de vida em diferentes países também remete a um caráter cosmopolita que, como “ela” mesma aponta em seguida, lhe confere uma visão privilegiada sobre a importância da diversidade:</p>
			<disp-quote>
				<p>quando comecei a trabalhar em um canal de TV e analisar vários roteiros por mês, entendi que a <italic>minha origem é um superpoder</italic>: graças a ela, posso ver as histórias sob várias perspectivas diferentes. Hoje, tenho o prazer de trabalhar com <italic>criadores do mundo todo</italic> para compartilhar e aprimorar novas histórias. Dentro desse trabalho, é importante entender <italic>quais vozes ainda não estão sendo ouvidas</italic>. (Ibid., grifos nossos)</p>
			</disp-quote>
			<p>As características atribuídas pela enunciação, aqui, já conferem ao <italic>corpo</italic> do fiador três das cinco dimensões do que, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar, Raats e Audenhove (2023</xref>), a Netflix entende por diversidade: diversidade racial e étnica, diversidade de gênero e diversidade linguística. Também podemos dizer que está em ação uma estratégia de cosmopolitismo (Ibid.), que diz respeito a um pertencimento compartilhado à comunidade mundial, ao qual a trajetória de Bajaria alude. Essa trajetória aponta para uma comunidade imaginada da qual participariam tanto a executiva e a própria plataforma quanto os possíveis interlocutores e o público espectador mais amplo, uma comunidade que, além de cosmopolita, entende a importância da promoção da diversidade.</p>
			<p>Além disso, o tom informal e de conversa, que permanece no restante do texto e que diz respeito à construção de um ethos discursivo (mostrado), também contribui para a construção de um ethos de “marca” fortemente antropomórfico, com ênfase na dimensão experiencial (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Maingueneau, 2023</xref>). Cabe, no entanto, a advertência de que, se o ethos discursivo é um conjunto de determinações físicas e psíquicas ligadas ao “fiador” pelas representações coletivas estereotípicas (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau, 2008</xref>), poderíamos argumentar que, ao construir um corpo diverso e cosmopolita para seu fiador, a enunciação aqui também pode contribuir para fixar estereótipos de que diverso é tudo que não é branco, homem e de cultura anglófona, colocando em circulação um sentido marginalizante em relação a indivíduos e grupos ditos “diversos”.</p>
			<p>Outro ponto interessante a ser notado em relação ao ethos dito é a construção da Netflix como pioneira, agente de mudança que se diferencia de sua concorrência por meio da ênfase em diversidade, posicionando-se como empresa que busca levar a TV a uma nova era em meio a uma indústria lenta em promover mudanças - o que <xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar, Raats e Audenhove (2023</xref>) identificam como uma estratégia de diferenciação. Reproduzimos alguns exemplos de trechos em que o texto remete ao próprio enunciador e se refere a ele como líder da indústria em termos de comprometimento com a promoção da diversidade, contribuindo para construir esse aspecto do “caráter” do ethos discursivo da Netflix:</p>
			<disp-quote>
				<p>Para ajudar a manter essa responsabilidade [de analisar métricas de inclusão] e promover mudanças duradouras no setor, assumimos o compromisso de divulgar nosso progresso a cada dois anos até 2026. (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria, 2023</xref>)</p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p>[…] sabemos que para promover verdadeiras mudanças não só na Netflix, mas no setor como um todo, precisamos continuar pensando nas vozes que continuam faltando e na descoberta da próxima geração de criadores. (Ibid.)</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa construção aparece ainda em um dos vídeos que acompanha o comunicado, que apresenta os resultados do estudo de diversidade nos filmes e nas séries da Netflix. O vídeo conclui com a pesquisadora responsável, Dra. Stacy L. Smith, afirmando: “vimos ganhos notáveis este ano, o que <italic>deveria servir de exemplo para o resto da indústria do entretenimento</italic>” (Ibid., 9min20s, grifos nossos).</p>
			<p>Além desses elementos mais explicitamente ligados à construção de um ethos encarnado, identificamos nesse comunicado três eixos em torno dos quais se pode delinear o que a Netflix compreende por diversidade, e que podem ser associados ao ethos mostrado (discursivo): <italic>diversidade e inclusão como valores positivos</italic>; <italic>valorização da representatividade</italic>; <italic>busca por uma abordagem interseccional</italic>.</p>
			<p>A positivação da diversidade e da inclusão aparece já na abertura do texto, quando Bajaria lembra que não havia personagens com quem se identificar quando era jovem e caracteriza sua origem diversa como um “superpoder”. Assim, cria-se de saída uma ligação entre a valorização da representatividade de grupos historicamente excluídos e invisibilizados em frente e atrás das câmeras e a possibilidade de se contar histórias melhores. O vídeo que apresenta os resultados do estudo de diversidade nos filmes e séries da Netflix reforça essa positivação quando, ao final, a Dra. Smith afirma que “inclusão é possível e necessária para refletir o mundo no qual vivemos” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria, 2023</xref>, 9min26s).</p>
			<p>A valorização da representatividade, por sua vez, é reforçada, ainda no início do texto, no trecho já mencionado em que Bajaria aponta que “é importante entender quais vozes ainda não estão sendo ouvidas” (Ibid.), e na apresentação do estudo sobre diversidade nos filmes e séries da plataforma (“Essa colaboração com a USC nos mostrou que mais inclusão por trás das câmeras aumenta a representatividade na tela” [Ibid.]). Em termos do ethos discursivo, o que a enunciação parece indicar aqui, como traços de “caráter” da Netflix (enquanto enunciadora), é que a valorização da diversidade lhe permite contar histórias melhores (melhores que as da concorrência, podemos inferir).</p>
			<p>Também é sugerido que a Netflix se importa e está comprometida com cada indivíduo que integra seu público, não importando quais diferenças - de gênero, raça/etnia, sexualidade, capacidade, idade - constituam suas identidades, e que há (ou deveria haver) na plataforma uma história para cada gosto, identidade e personalidade, algo que, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar, Raats e Audenhove (2023</xref>), integra a estratégia de representação que a Netflix emprega para seu <italic>branding</italic> da diversidade.</p>
			<p>Essa estratégia de representação e esse traço de “caráter” do compromisso da Netflix com cada indivíduo de seu público são reiterados pela tentativa de demonstrar que a empresa busca uma perspectiva interseccional em sua abordagem da diversidade, o que pode ser observado na apresentação dos resultados do estudo sobre diversidade nos filmes e nas séries da plataforma. Isso está presente tanto no próprio texto quanto no vídeo que o acompanha. O texto aponta que as métricas adotadas no estudo incluem gênero, raça/etnia (compreendida também em termos de origem geográfica/nacional), representação de pessoas LGBTQIAP+ e deficiência. No entanto, gênero e raça/etnia são os eixos mais claramente evidenciados no vídeo, tanto de forma isolada quanto cruzados (<xref ref-type="fig" rid="f2">Figura 2</xref>), e são apontados como aqueles em que houve maior avanço.</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2:</label>
					<caption>
						<p>Gráfico mostrado no vídeo que trata dos resultados do estudo sobre diversidade nos filmes e nas séries da Netflix. Os números mostram o apagamento de personagens femininas não brancas, ainda que se afirme que a paridade de gênero foi alcançada</p>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1982-677X-rmr-18-36-230823-gf2.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria (2023</xref>).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Ainda assim, os resultados relativos à representação de grupos LGBTQIAP+ e de pessoas com deficiência são analisados de forma mais interseccional, cruzando-se os eixos de sexualidade, capacidade, gênero e raça/etnia. Porém, isso acaba evidenciando que falta interseccionalidade ao modo como essas representações são construídas - o que tanto o texto quanto o vídeo reconhecem ao apontar que houve avanços, mas que ainda é preciso avançar mais. Assim, admite-se que, quando personagens desses grupos são representados, eles em geral são integrantes de grupos majoritários (homens brancos e, no caso de pessoas com deficiência, heterossexuais).</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<label>Figura 3:</label>
					<caption>
						<p>Cena do vídeo que apresenta as ações do Fundo de Criatividade Inclusiva</p>
					</caption>
					<graphic xlink:href="1982-677X-rmr-18-36-230823-gf3.jpg"/>
					<attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria (2023</xref>).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>O vídeo que apresenta as ações do Fundo de Criatividade Inclusiva (<xref ref-type="fig" rid="f3">Figura 3</xref>) segue na construção do caráter da Netflix como uma empresa que se importa com todas as identidades não só de seu público, mas também de seus criadores. Aqui, igualmente são evidenciadas as dimensões de gênero e raça/etnia; entretanto, acrescenta-se as dimensões de diversidade de idade (as pessoas que aparecem no vídeo são majoritariamente jovens talentos a quem a plataforma estaria dando oportunidades) e linguística, que se associa à dimensão étnica quando relacionada à origem geográfica/nacional dos profissionais (a ênfase do vídeo é a apresentação de inúmeras iniciativas e criadores de diferentes partes do mundo fora dos Estados Unidos, sobretudo África e Ásia).</p>
			<p>Se a positivação da diversidade e da inclusão, a valorização da representatividade e a busca por uma perspectiva interseccional nos trechos analisados anteriormente remetem mais diretamente a um comprometimento com o público, aqui o comprometimento é com os criadores de diversas partes do mundo, reiterando o caráter cosmopolita do ethos discursivo da Netflix. O vídeo se encerra com uma fala do CEO do Latino Film Institute, que reforça essa percepção: “Precisamos de mais contadores de histórias. E quanto mais autênticas, poderosas e únicas essas histórias se tornarem, o mesmo se aplica aos contadores de histórias” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Bajaria, 2023</xref>, 3min20s). Além disso, a profusão de pessoas de diferentes culturas, etnias e gêneros, incluindo pessoas com deficiência, sobretudo jovens, mostrada no vídeo contribui para a atribuição de traços de caráter e corporalidade a um ethos discursivo encarnado, construído no texto de forma mais ampla, associando-o a corpos jovens, “diversos” e cosmopolitas.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Se o ethos efetivo de um discurso resulta da interação entre o ethos pré-discursivo (no caso, a representação que destinatários têm da Netflix antes da enunciação), o ethos discursivo (mostrado) e o ethos dito (direta ou indiretamente na enunciação) (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau, 2008</xref>), a partir da análise da enunciação neste texto específico (sem levar em conta o ethos pré-discursivo, o que demandaria uma análise adicional de outra natureza), poderíamos resumir o ethos discursivo de diversidade da Netflix construído aqui em seis pontos (sendo os três primeiros mais relacionados ao ethos dito, e os três últimos, ao ethos mostrado):</p>
			<p>
				<list list-type="bullet">
					<list-item>
						<p>Temos um corpo diverso (de mulher, não branco, não estadunidense, jovem);</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Aderimos a e representamos valores cosmopolitas;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Somos agentes de mudanças em nossa indústria e inovadores em relação à nossa concorrência;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Somos contadores de histórias melhores (porque valorizamos a diversidade);</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Valorizamos e estamos comprometidos com todos os indivíduos do nosso público, não importando as diferenças que constituem suas identidades interseccionais;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>Valorizamos e estamos comprometidos com criadores do mundo todo, sobretudo os jovens.</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Portanto, podemos dizer que o comunicado analisado busca construir um ethos discursivo que remete a um “mundo ético” fortemente ligado à noção de diversidade enquanto valor universal em um mundo globalizado, como caracterizada por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>). Esse mundo ético encapsula valores cosmopolitas como reconhecimento, igualdade, direitos, valorização do outro, multiculturalismo, cidadania, pluralismo, democracia - um ethos cosmopolita, nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar, Raats e Audenhove (2023</xref>), que contribui para a expansão global da Netflix. Nesse sentido, seu modo de dizer remete a um modo de ser que se apoia em um “conjunto difuso de representações sociais estereotipadas” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Maingueneau, 2023</xref>, p. 9315) ligadas à ideia de uma cultural global cosmopolita (Palestra…, 2023).</p>
			<p>Esse modo de ser sinaliza um corpo que, em termos de suas propriedades psicológicas (caráter), poderia ser caracterizado como tolerante, empático, justo, progressista, inspirador e democratizador (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Asmar; Raats; Audenhove, 2023</xref>). Já em termos de sua corporalidade, sinaliza um corpo “diverso” (de mulher, não branco, não estadunidense, jovem), o que, em certa medida, pode contribuir para fixar estereótipos de que diverso é tudo que não é branco, homem e de cultura anglófona. Portanto, se a enunciação postula implícita ou explicitamente um interlocutor e estabelece uma relação discursiva com esse parceiro (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Amossy, 2011</xref>), poderíamos concluir que o interlocutor a quem a Netflix imagina se dirigir nesse comunicado - e também nas suas estratégias mais amplas de <italic>branding</italic> da diversidade, analisadas por Asmar, Raats e Audenhove (2023) - seria uma nova classe média alta global com disposições mais cosmopolitas (Palestra…, 2023).</p>
			<p>Assim, segundo o esquema proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B8">Maingueneau (2018</xref>; 2023), a enunciação no material analisado confere à Netflix, enquanto “fiador” construído pelo destinatário, um corpo cosmopolita, comprometido com a diversidade; o público da Netflix (aqui representado indiretamente por meio dos jornalistas a quem o comunicado de imprensa se destina, que podem potencialmente reproduzir o ethos de diversidade construído pela plataforma para um público mais amplo), enquanto destinatário da enunciação, assimila essa maneira cosmopolita e comprometida com a diversidade de se relacionar com o mundo; e essas duas primeiras incorporações permitem a constituição de um corpo supostamente compartilhado pela comunidade imaginária daqueles que aderem ao discurso de cosmopolitismo e diversidade, distribuída globalmente, cuja identificação a Netflix busca através de diferenças demográficas, geográficas e/ou culturais.</p>
			<p>Por fim, é preciso destacar que a construção desse ethos discursivo de diversidade seria uma estratégia da plataforma para estratificar seu público transnacionalmente diante de um mercado globalizado e se diferenciar da concorrência ao ligar a marca a um modo de ser cosmopolita, caracterizado pela aderência a valores como reconhecimento, igualdade, direitos, valorização do outro, multiculturalismo, cidadania, pluralismo, democracia, que, como aponta <xref ref-type="bibr" rid="B11">Ortiz (2015</xref>), são encapsulados pela diversidade quando esta assume um valor universal.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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			<title>Referências</title>
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					<source><italic>Imagens de si no discurso</italic>: a construção do ethos</source>
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					<article-title>Ethos discursivo da marca Netflix no YouTube: interdiscurso e storytelling em estratégias de propagação de conteúdos</article-title>
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				<mixed-citation>ORTIZ, R. <italic>Universalismo e diversidade</italic>. São Paulo: Boitempo, 2015.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>PALESTRA Netflix e Disney: novos e velhos padrões de televisão global. Com Joe Straubhaar. [São Paulo: s. n.], 2023. 1 vídeo (1h 48min 56s). Canal Labidecom ECA - USP. Disponível em: <comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://youtu.be/ubJjRcmf_TY">https://youtu.be/ubJjRcmf_TY</ext-link>
					</comment>. Acesso em: 20 jul. 2024.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>SERELLE, M. Reconhecimento como categoria de crítica cultural. <italic>Estudos em Jornalismo e Mídia</italic>, Florianópolis, v. 16, n. 1, p. 11-20, 2019.</mixed-citation>
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					<article-title>Reconhecimento como categoria de crítica cultural</article-title>
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				<mixed-citation>UNESCO. Convenção sobre a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais. <italic>In</italic>: Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura, 33. <italic>Anais</italic> […]. Paris: Unesco, 2005.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>VENANZONI, T. S. Diversidade em plataformas globais de distribuição. <italic>Revista GEMInIS</italic>, São Carlos, v. 12, n. 1, p. 212-226, 2021.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>VICENTE, E.; VENANZONI, T. S.; SOARES, R. de L. Renato Ortiz: tecido da escrita, teia da memória. <italic>MATRIZes</italic>, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 91-112, 2017.</mixed-citation>
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					<article-title>Renato Ortiz: tecido da escrita, teia da memória</article-title>
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			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Este trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Os autores compreendem a noção de <italic>branding</italic> como um “texto socialmente construído” que oferece aos consumidores um modo específico de falar sobre e enxergar o mundo, criando o contexto cultural em que as mercadorias devem ser usadas e invocando a série de imagens, temas ou valores associados aos produtos promovidos (Asmar; Raats; Audenhove, 2023). Como veremos a seguir, a evocação de um modo de habitar o mundo está relacionada à construção de um ethos discursivo, com o qual o discurso publicitário tem uma ligação privilegiada por ter como objetivo buscar persuadir ao associar produtos a maneiras de habitar o mundo (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Maingueneau, 2008</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Ainda que aqui nosso objetivo não seja analisar um exemplo de discurso publicitário, mas sim um comunicado de imprensa, acreditamos que esse tipo de texto também é parte da comunicação feita pela marca da qual emerge seu ethos. Partindo das instâncias de manifestação enunciativa das emissoras propostas por Jost (1998 apud <xref ref-type="bibr" rid="B10">Mungioli; Penner; Ikeda, 2021</xref>), poderíamos dizer que esses textos integram tanto o discurso da instituição, relacionado à posição que esta adota no espaço público quanto o discurso da marca, que tem como objetivo prescrever comportamentos ao semantizar os objetos do mundo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p> Asmar, Raats e Audenhove (2023) argumentam que as estratégias de <italic>branding</italic> da diversidade da Netflix, enquanto tecnologia de poder que permite à plataforma controlar a narrativa sobre a própria diferença que procura expressar, tendem a fixar como diverso tudo que não é branco, homem ou sem deficiência.</p>
			</fn>
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