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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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        <journal-id journal-id-type="publisher-id">RuMoRes</journal-id>
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          <journal-title>Revista online de comunicação, linguagem e mídias</journal-title>
          <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rumores</abbrev-journal-title>
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        <issn pub-type="epub" publication-format="electronic">1982-677X</issn>
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          <publisher-name>Revista online de comunicação, linguagem e mídias da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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        <article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2022.200388</article-id>
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          <subj-group subj-group-type="heading">
            <subject>DOSSIÊ</subject>
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          <article-title>
            A emergência de Galo, entregador antifascista: análise de uma entrevista midiática
          </article-title>
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              The rise of Galo, anti-fascist delivery worker: analysis of an interview
            </trans-title>
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            <xref ref-type="aff" rid="aff1">
              <sup>1</sup>
            </xref>
            <xref ref-type="corresp" rid="c1" />
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              <given-names>Marcio</given-names>
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            <xref ref-type="aff" rid="aff2">
              <sup>2</sup>
            </xref>
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          </contrib>
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          <institution content-type="original">Ercio Sena é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É vice-coordenador do grupo de pesquisa Mídia e Narrativa e coordenador do Centro de Crítica da Mídia. Foi Chefe do Departamento de Comunicação Social entre 2013 e 2017.</institution>
          <institution content-type="orgname">Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Centro de Crítica da Mídia</institution>
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          <institution content-type="original">Marcio Serelle é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, onde coordena o grupo de pesquisa Mídia e Narrativa. É pesquisador do CNPq (bolsista de produtividade, nível 2). Foi coordenador do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da PUC Minas entre 2019 e 2022.</institution>
          <institution content-type="orgname">Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Mídia e Narrativa</institution>
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        <author-notes>
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            <label>E-mail:</label>
            <email>erciosena@gmail.com</email>
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            <label>E-mail:</label>
            <email>marcio.serelle@gmail.com</email>
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        <pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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          <month>07</month>
          <year>2022</year>
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        <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
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          <year>2022</year>
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        <fpage>42</fpage>
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            <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença 
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        </permissions>
        <abstract>
          <title>RESUMO</title>
          <p>Este artigo investiga, por meio da análise de entrevista midiática na 
            <italic>Folha de S.Paulo</italic>, aspectos da construção da figura pública de Paulo Roberto da Silva Lima, o Galo, que, durante a pandemia de covid-19, liderou o movimento dos entregadores antifascistas. Em contexto de valorização desses entregadores, Galo emerge como personagem com habilidades comunicativas que o projetam e contribuem para o debate social acerca da precarização do mundo do trabalho. A análise demonstra que, por meio de uma fala consciente das interações jornalísticas, Galo desvela as estratégias da uberização e se utiliza de um saber narrativo para a construção de um discurso solidário que desafia a racionalidade neoliberal e recupera o sentido de classe trabalhadora.
          </p>
        </abstract>
        <trans-abstract>
          <title>ABSTRACT</title>
          <p>By analyzing an interview published in 
            <italic>Folha de S.Paulo</italic>, this essay investigates aspects of the rise of Paulo Roberto da Silva Lima, known as Galo, as a public figure in Brazil during the COVID-19 pandemic, when he led the movement of anti-fascist delivery workers. In a context where such workers are held up in high esteem, Galo emerges as a character with communicative skills that project him and contribute to the social debate around labor precariousness. The analysis shows that, through a conscious speech about journalistic interactions, Galo unveils the uberization strategies and uses narrative knowledge to build a solidarity discourse that challenges neoliberal rationality and resumes the meaning of the working class.
          </p>
        </trans-abstract>
        <kwd-group xml:lang="pt">
          <title>Palavras-chave:</title>
          <kwd>Paulo Roberto da Silva Lima, o Galo</kwd>
          <kwd>gentregadores por aplicativo</kwd>
          <kwd>entrevista midiática</kwd>
          <kwd>uberização do trabalho</kwd>
          <kwd>figura pública</kwd>
        </kwd-group>
        <kwd-group xml:lang="en">
          <title>Keywords:</title>
          <kwd>Paulo Roberto da Silva Lima, Galo</kwd>
          <kwd>delivery workers</kwd>
          <kwd>interview</kwd>
          <kwd>uberization</kwd>
          <kwd>public figure</kwd>
        </kwd-group>
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      </article-meta>
    </front>
    <body>
      <p>Este trabalho objetiva compreender a emergência pública de Paulo Roberto da Silva Lima, o Galo, como líder de entregadores por aplicativo. A ascensão de Galo analisada neste artigo, por meio de aspectos de projeção midiática de sua imagem, ocorreu entre 2020 e 2021, período marcado pela pandemia de covid-19. Em 2020, primeiro ano da crise sanitária, a categoria dos entregadores por aplicativo alcançou protagonismo social e midiático. Profissionais uberizados, os entregadores se expuseram nas ruas e foram valorizados na mídia
        <sup>
          <xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
        </sup> por contribuírem para a quarentena daqueles que puderam ficar em casa e para a sobrevivência de estabelecimentos comerciais que contaram com seu serviço. Nesse contexto, Galo tornou-se figura proeminente que, ao demandar das empresas de aplicativo condições mínimas para a sobrevivência dos entregadores, politizou o movimento e se esforçou para construir uma categoria profissional. No ano seguinte, Galo, também membro do coletivo Revolução Periférica, foi preso e um dos responsabilizados pela queima da estátua de Borba Gato, em São Paulo, em 24 de julho de 2021.
      </p>
      <p>Nessa busca por identificar e compreender aspectos sociais, midiáticos e da ordem da singularidade do indivíduo que atuaram na construção e na projeção dessa imagem, partimos de duas noções: a primeira, presente em Clifford Geertz (
        <xref alt="1997" rid="ref-b8" ref-type="bibr">1997</xref>), ressalta a importância dos centros de poder para catalisar a projeção dos sujeitos e os valores socialmente estimados que eles representam. No caso específico, um desses centros de poder é a mídia, mas em articulação com a valorização social, durante a pandemia, dos entregadores por aplicativo.
      </p>
      <p>Entregadores por aplicativo não constituem um grupo coeso. A própria ideia de empreendedorismo que o conforma mina a possibilidade de categoria, que é proposta e defendida por Galo. Uma das frases de Galo que mais circularam foi: “Ninguém aqui é empreendedor de porra nenhuma. Nós é força de trabalho nessa porra”
        <sup>
          <xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
        </sup>. De todo modo, a classe – se podemos usar essa denominação – dos entregadores alcançou estima social durante a pandemia, e, neste trabalho, traremos algumas especulações acerca dessa valorização.
      </p>
      <p>A outra noção de que partimos é proveniente da abordagem intertextual de Richard Dyer (
        <xref alt="1998" rid="ref-b6" ref-type="bibr">1998</xref>), que considera que a imagem de uma celebridade é construída a partir da interseção de textos midiáticos. Paulo Lima, em suas entrevistas, reconhece que sua figura pública começa a despontar midiaticamente e como liderança após a viralização de um vídeo de entrevista sua ao 
        <italic>The Intercept</italic>, em 10 de junho de 2020. Mas a entrevista veiculada no 
        <italic>The</italic> 
        <italic>Intercept</italic> já era uma reverberação de um vídeo que havia circulado nas redes sociais, com discurso de Galo, em manifestação em São Paulo a favor da democracia, em 7 de junho de 2020.
      </p>
      <p>A trajetória de Galo foi, desde o início da pandemia, marcada por sucessivos acontecimentos de grande visibilidade, entre eles: a consolidação de um movimento antifascista entre trabalhadores, que é claramente uma oposição a práticas autoritárias de governo e da racionalidade neoliberal; a coordenação de greves locais e nacionais dos trabalhadores de aplicativo; e, por fim, como dito, projetando-se para além da questão profissional, o entregador é um dos responsabilizados por incendiar a estátua de Borba Gato em São Paulo.</p>
      <p>Este artigo não dará conta desse percurso, mas se detém em parte dele. Analisaremos um dos textos midiáticos em que Galo é entrevistado e expressa suas ideias acerca, principalmente, do mundo do trabalho hoje: o vídeo veiculado na 
        <italic>Folha on line</italic>, em 23 de fevereiro de 2021 (
        <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>). Faremos uma análise do discurso audiovisual dessa entrevista, com exame dos aspectos estéticos, do gênero entrevista e do discurso de Galo, buscando refletir sobre dois campos de enunciação em articulação: os modos de expressão da entrevista e os do próprio entrevistado. O objetivo é compreender como se dá, neste texto em específico, a representação midiática de Galo e seus embates no campo do trabalho, na sociedade de racionalidade neoliberal (
        <xref alt="DARDOT; LAVAL, 2016" rid="ref-b4" ref-type="bibr">DARDOT; LAVAL, 2016</xref>). No próximo segmento, contudo, abriremos inicialmente a reflexão com a discussão sobre a uberização e a precarização do trabalho contemporâneo, contexto que nos parece fundamental para a emergência do líder Galo. Em seguida, descreveremos elementos da cena da entrevista para, depois, analisarmos os modos de expressão e os argumentos de Galo acerca da uberização e consequente precarização do mundo do trabalho.
      </p>
      <sec id="uberização">
        <title>Uberização</title>
        <p>A imagem que melhor simbolizou o trabalhador no século XX, o da indústria automobilística, foi difundida por Charlie Chaplin em 
          <italic>Tempos Modernos</italic> (
          <xref alt="1936" rid="ref-b12" ref-type="bibr">1936</xref>). Nele, o trabalhador é submetido a extenuantes jornadas até atingir um colapso nervoso que o faz deixar a fábrica para viver outras situações que têm como pano de fundo uma visão crítica dos anos de depressão e desemprego nos Estados Unidos e do fascismo emergente. Para Ricardo Antunes (
          <xref alt="2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">2020</xref>), a imagem que simboliza o trabalho no século XXI é a do equipamento digital, que sintetiza tempo de vida e trabalho no mesmo dispositivo. Da diarista aos entregadores de comida, diferentes prestadores de serviços como pedreiros, manicures, “maridos de aluguel” e outras ocupações precárias e intermitentes dependem do vínculo com o dispositivo para ofertar sua força de trabalho num mundo de muita mão de obra e poucos empregos. O avanço das tecnologias, ao invés de diminuir a quantidade de trabalho e propiciar mais tempo livre, traz para o século XXI o reencontro com práticas pretéritas de exploração do trabalho, tal qual se viveu durante os primórdios da Revolução Industrial.
        </p>
        <p>Na cultura neoliberal, a ausência de direitos, característica desse tempo, indica que o mundo ideal do patronato é formado por vasto contingente de mão de obra, apto para condições de trabalho que remontam a relações servis de exploração. O mundo neoliberal significa, para Dardot e Laval (
          <xref alt="2016" rid="ref-b4" ref-type="bibr">2016</xref>), uma profunda transformação do capitalismo, criando oportunidades para as classes dominantes se fortalecerem mesmo no cenário de crise. Como consequências deletérias dessa racionalidade, os autores destacam a naturalização de tendências desigualitárias e o agravamento das condições de sobrevivência das populações do planeta.
        </p>
        <p>O desemprego submete os trabalhadores a um regime de concorrência entre si, de modo que os meios de subsistência devam ser equacionados numa realidade marcada pela regressão dos direitos. Embora a necessidade de sobrevivência seja socialmente realizada, Virgínia Fontes (
          <xref alt="2017" rid="ref-b7" ref-type="bibr">2017</xref>) mostra que a solução individual é buscada como um sentido de liberdade para empreender. O predomínio dessa visão ideológica é incorporado como instrumento da concorrência individual em um novo modo de subjetivação que enfraquece a busca de soluções coletivas.
        </p>
        <p>Ao longo dos séculos XIX e XX, as lutas sociais foram responsáveis por limitar a ação do capital na exploração do trabalho, instituindo um conjunto de leis protetivas que asseguraram direitos sociais e trabalhistas. Nesse sentido, o desemprego sempre foi uma ameaça às condições de reprodução da vida no domínio do capital. A expropriação dos meios de sobrevivência permanece como mecanismo de pressão direcionado aos trabalhadores atualmente. Conforme destaca Fontes, ela é a ameaça mais despótica do capitalismo para subjugar e disciplinar os trabalhadores. Embora não haja nenhum tipo de coerção jurídica, a venda da força de trabalho torna-se a única forma de sobrevivência das populações privadas dos meios de produção.</p>
        <p>No atual contexto, a liberdade de empreender, decantada e valorizada socialmente, é, na realidade, a sujeição dos trabalhadores às condições da máxima exploração. Após séculos de desapropriação de suas terras e dos meios de produção, os trabalhadores são agora expropriados das garantias asseguradas pela mediação dos contratos de trabalho. Essas relações trabalhistas atuais são criticamente nomeadas como “uberização”, em alusão ao sistema de contratação de uma empresa de aplicativos, a Uber.</p>
        <p>A uberização das relações de trabalho tornou-se signo de uma realidade que representa não o fim da atividade laboral, mas de relações empregatícias, criadas em dois séculos de luta por direitos dos trabalhadores. Como símbolo do tempo presente, a</p>
        <disp-quote>
          <p>Uber não é proprietária direta das ferramentas e meios de produção (o automóvel, o celular), mas controla ferreamente a propriedade da capacidade de agenciar, de tornar viável a junção entre meios de produção, força de trabalho e mercado consumidor, sem intermediação de um ‘emprego’. A empresa detém, juntamente com outras grandes empresas ou proprietários, a propriedade dos recursos sociais de produção. (
            <xref alt="FONTES, 2017, p. 56" rid="ref-b7" ref-type="bibr">FONTES, 2017, p. 56</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>No caso brasileiro, o ativismo empresarial em favor da reforma trabalhista, da reforma da previdência e, agora, da reforma administrativa busca consolidar essas relações na vida social. Esse esforço em diferentes frentes não poupa nenhum direito que se oponha ao desmonte das garantias mínimas do trabalho, dos serviços públicos e da seguridade social.</p>
        <p>A retórica do empreendedorismo tem sustentado não somente os valores, mas também as condições que presidem a ordem social e seu caráter ideológico. Como um sistema de valores construído socialmente, esses embates têm assumido dimensões narrativas em torno da significação da cultura e do mundo do trabalho. A cultura adquire significação essencial nos processos de produção, circulação e consumo, como atestam Paiva e Sodré (2013). Desse modo, a produção de narrativas capazes de se opor a esses valores é destacada como política necessária, orientada para reapropriações e ressignificações. O próprio papel da mídia é desafiado em diferentes contextos em que os embates de nomeação e significação ocorrem. No entendimento de Paiva e Sodré, nesta cultura sobressaem processos de comunicação que instituem um imaginário aliado aos interesses do capital, travando-se, assim, uma luta de dimensões estéticas pelo domínio de representações e produções de sentido.</p>
        <p>Ricardo Antunes (
          <xref alt="2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">2020</xref>) também chama a atenção para a centralidade da narrativa do capital na sustentação da retórica empresarial, orientada para a eficiência, a neutralidade da técnica e a sustentação ideológica dessas relações. Negar o assalariamento é a estratégia fundamental de um contrato sem obrigações do empregador. A transferência de todos os riscos da atividade para o “prestador de serviços” faz recrudescer as relações de exploração dos trabalhadores. Na uberização, “as organizações se apresentam como empresas de tecnologia, ‘intermediárias’ entre ‘consumidores e produtores’, constituindo um mercado de ‘dois lados’, com externalidades cruzadas por redes” (
          <xref alt="ANTUNES, 2020, p. 31" rid="ref-b2" ref-type="bibr">ANTUNES, 2020, p. 31</xref>).
        </p>
        <p>Disso decorre a importância de um investimento cotidiano numa representação dos trabalhadores como prestadores de serviço autônomos, que empreendem a oferta de um serviço diante da oportunidade oferecida pela plataforma. Para que isso se efetive, as relações de trabalho devem ser individualizadas e, claro, a despeito de todas as evidências contratuais, ter seu vínculo ocultado e não reconhecido. Na prática, o controle dos trabalhadores contratados ocorre por atribuições, altamente controladas pelo aplicativo, em longas jornadas, sem que o direito ao assalariamento seja reconhecido.</p>
        <p>Em pesquisa coordenada por Antunes (
          <xref alt="2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">2020</xref>), foi demonstrado que, em jornadas de trabalho superiores ao permitido pela legislação trabalhista, trabalhadores de aplicativo recebiam valores inferiores ao salário mínimo vigente. Ainda assim, alguns dos entrevistados viam nessa condição uma oportunidade e certa liberdade para fazer seu próprio horário.
        </p>
        <p>Na pandemia, esses serviços se tornaram essenciais para que parte significativa da população se mantivesse recolhida em suas casas e fizesse o distanciamento social, evitando a propagação do vírus. Além disso, contribuíram com estabelecimentos comerciais e outras empresas, que tiveram no sistema de 
          <italic>delivery</italic> uma forma de sobrevivência. Os entregadores de aplicativo, cuja presença já era destacada nas grandes cidades brasileiras, tiveram a atenção da população voltada para a importância desse trabalho durante o longo período de isolamento social. Convém assinalar que, mesmo antes da pandemia, no final de 2019, 40% da mão de obra brasileira já se encontrava na informalidade (
          <xref alt="ANTUNES, 2020" rid="ref-b2" ref-type="bibr">ANTUNES, 2020</xref>).
        </p>
        <p>Em janeiro de 2020, diante dos graves estragos provocados pelas chuvas em Belo Horizonte, o entregador Wesley Francisco Muniz declara, numa reportagem do jornal 
          <italic>O Tempo</italic>, que cumpria normalmente uma jornada de 10 horas diárias. Com rendimentos entre 80 e 100 reais por dia para sustentar sua filha e esposa desempregada, o entregador reconhece e destaca a natureza precária do seu trabalho. “Eu estou conseguindo sustentar a família através do aplicativo, mas não é uma coisa fixa, não é carteira assinada. Tem riscos e eu gostaria de arrumar um emprego, mas as oportunidades são muito fechadas” (
          <xref alt="MENEZES, 2020" rid="ref-b10" ref-type="bibr">MENEZES, 2020</xref>).
        </p>
        <p>A imagem do entregador
          <xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> em meio a enxurrada viralizou nas redes sociais como signo não só da tragédia provocada pelas chuvas, mas de um tempo em que esse trabalho se sobressai. Cercado pelas águas da chuva em busca de rotas de escoamento, o entregador se arrisca para pegar uma encomenda e, embora não consiga apanhá-la, se vê acuado pela rápida subida da água.
        </p>
        <p>É no contexto que se segue, durante a pandemia da covid-19, que emerge a figura de Galo, o entregador antifascista que ganha projeção na denúncia das condições de trabalho e na liderança de um movimento que, como ele mesmo diz, conquistou visibilidade para esse contingente de trabalhadores (
          <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>).
        </p>
      </sec>
      <sec id="a-cena-da-entrevista">
        <title>A cena da entrevista</title>
        <p>A entrevista que analisamos foi veiculada na 
          <italic>Folha on line</italic>, em 23 de fevereiro de 2021.
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
          </sup> Integra os projetos especiais de comemoração de 100 anos do jornal. Esse projeto específico é uma série de entrevistas audiovisuais e textuais denominada “E eu? – o jornalismo precisa me ouvir”. Logo, a série explicita que há vozes sociais que não possuem lugar no jornalismo da 
          <italic>Folha</italic>. O projeto seria, então, um lugar específico – um canto especial (privilegiado, mas ao mesmo tempo bissexto) – que pretende remediar isso, mas de maneira distante da cobertura jornalística predominante e cotidiana. O tipo de entrevista é o confessional – em que não aparecem as perguntas do repórter/jornalista, apenas as repostas do entrevistado. Temos a impressão de que Galo fala sem balizas, sem condução. Por isso o efeito de depoimento, de fala direta. A 
          <italic>Folha</italic> inclusive apresenta essas entrevistas como depoimento. A transparência e a liberdade são reafirmadas ao final do vídeo, em que Galo (
          <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>) pergunta se “isso aqui tem que passar por um editorial ainda?” – ou seja, se vai sofrer corte ou edição para a versão final. Aparentemente, alguém fora do quadro diz que não será. Galo demonstra-se, então, satisfeito: “Da hora [legal, boa], essa forma”.
        </p>
        <p>O vídeo possui 14 minutos. Inicia-se com a tela escura e uma música instrumental emergente, calma, sóbria, que permanecerá, em alguns momentos, como trilha de fundo até o “sobe som” final. O áudio do vídeo começa 
          <italic>in medias res</italic>
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
          </sup>, trazendo um trecho da entrevista/fala de Galo (
          <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>): “Os aplicativos não estão no ramo do 
          <italic>delivery</italic>, o negócio do 
          <italic>delivery</italic> é a exploração”. Enquanto isso, assistimos a Galo entrar em um teatro, um auditório. Somente depois dessa fala inicial, que estende a uberização a todas as categorias – com ênfase no caso da privatização dos Correios –, ele irá se apresentar: “Meu nome é Paulo Roberto da Silva Lima, eu tenho 31 anos de idade, sou mais conhecido como Galo. Faço parte do Movimento dos Entregadores Antifascistas, e eu luto pela emancipação dos trabalhadores e trabalhadoras”. Nota-se que Galo parte da categoria para falar em nome de um universal, o proletariado.
        </p>
        <p>O depoimento é registrado por duas câmeras: uma que o filma de perfil, mais de longe, e outra de frente, sentado nas cadeiras do teatro. Essa câmera, mais ao final da entrevista, alterna para um outro plano mais próximo, fechado no rosto de Galo, em momentos em que ele discute com mais veemência direitos trabalhistas, o que considera a cilada do empreendedorismo e a necessidade de um Estado mais coletivista. Esse último ponto é exemplificado com o desempenho positivo do Sistema Único de Saúde (SUS) na pandemia de covid-19.</p>
        <p>Sobre o cenário, convém dizer que a entrevista foi filmada no interior de um teatro, com Galo sentando-se em uma cadeira da plateia. Pode-se dizer que esse espaço é um lugar-comum hoje para entrevistas audiovisuais, principalmente ligadas à arte, mas também é o cenário, de forma inventiva, do documentário de Eduardo Coutinho, 
          <italic>Jogo de Cena</italic> (
          <xref alt="2007" rid="ref-b9" ref-type="bibr">2007</xref>). A personagem que fala a partir da cadeira da plateia nos remete a uma proposta de, jogando com o dispositivo do teatro, inverter posições entre os protagonistas do palco e as pessoas, espectadoras, o público. Isso nos remete ao título da série: o jornalismo precisa ouvir aqueles que geralmente não ocupam, com protagonismo, o palco midiático.
        </p>
      </sec>
      <sec id="eixos-argumentativos-e-modo-narrativo">
        <title>Eixos argumentativos e modo narrativo</title>
        <p>Sobre o discurso de Galo, identificamos nele três eixos argumentativos: o de 
          <italic>desvelamento</italic>, de 
          <italic>pensamento histórico acerca das classes</italic> e o de 
          <italic>consciência midiática.</italic> Sobre os modos de expressão, há nitidamente uma fala conduzida numa toada popular, pausada, com boa síntese, que torna o conteúdo bastante inteligível para formatos breves. Isso sugere uma adequação ou conhecimento por parte da personagem de formas da comunicação midiática, principalmente com a preparação de frases de efeito, com argúcia, que figurariam em destaque em material jornalístico. Uma delas: “Eu não queria estar lutando para recuperar a carteira de trabalho; eu queria estar lutando pelo direito à preguiça” (
          <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>). Isto é: poder reivindicar o direito de fazer uma hora de almoço e de descanso na jornada.
        </p>
        <p>Destacamos, também, na fala de Galo, o 
          <italic>modo narrativo</italic>. Há nela duas formas narrativas: a parábola e o testemunho, com efeitos pedagógicos e de veracidade. Comecemos pelos eixos argumentativos. O discurso do 
          <italic>desvelamento</italic> busca mostrar ao espectador como “as coisas realmente funcionam”, busca acessar as engrenagens do empreendedorismo e do trabalho vinculado a aplicativos. Por exemplo: Galo explica que o negócio a ser explorado não é o do 
          <italic>delivery</italic>, mas o próprio aplicativo. O 
          <italic>delivery</italic> é apenas a superfície, pois o que está oculto é o mercado da exploração. Os donos das plataformas podem explorar qualquer negócio porque exploram, na verdade, a mão de obra precarizada, que não possui direitos trabalhistas. O artifício é incutir nos trabalhadores a ideia de empreendedorismo. No entanto, mesmo aqueles que não caem no conto do empreendedorismo não têm como fugir, pois são encurralados – palavra que Galo prefere a “escravizados”.
        </p>
        <p>Galo elucida também ao público como funciona o chamado “bloqueio branco”, em que as empresas banem, sem suspensão oficial, entregadores que possuem atitude política e denunciam os abusos do aplicativo. O líder dos entregadores demonstra entendimento das operações do mercado da exploração. A pergunta hoje, segundo ele, é quanto tempo se pode explorar um sujeito sem que ele “estoure”, sofra 
          <italic>burnout</italic>. Galo afirma que esse tempo hoje é de cerca de seis meses. Após isso, o aplicativo deve realizar promoções que façam com o que o trabalhador vislumbre alguma vantagem em continuar na plataforma e, assim, se submeter a um novo ciclo de exploração. Por fim, Galo aponta para o modo de funcionamento do próprio jornalismo, ligado ao interesse dos poderosos e à verba publicitária.
        </p>
        <p>O 
          <italic>pensamento histórico</italic>, articulado a uma consciência de classe trabalhadora, manifesta-se numa série de termos que aparecem no discurso de Galo: “Ludismo”, “Revolução Industrial”, “A emancipação da classe trabalhadora”, entre outros. A identificação dos processos históricos, por parte de Galo, objetiva compreender a realidade atual e projetar transformações futuras. Um exemplo é a comparação que ele faz entre a mecanização do trabalho e a uberização. Para Galo, se a mecanização do trabalho eliminou os trabalhadores, a uberização do trabalho vai eliminar não propriamente os trabalhadores, mas os direitos. Conclui ainda que se a Revolução Industrial chegou para todos, para todas as categorias de trabalhadores, a uberização chegará também.
        </p>
        <p>A 
          <italic>consciência midiática</italic> de Galo revela-se na interação com o entrevistador, com quem tem uma relação discursiva, pois, como dissemos, nem o jornalista nem suas intervenções aparecem na cena da entrevista. Galo aponta discursivamente a todo momento para a presença e o lugar do jornalista, inclusive enfatizando que aquele é um diálogo entre trabalhadores. O trabalhador jornalista busca “dar voz” a outro trabalhador. Por isso, segundo Galo, aquela entrevista conseguirá atravessar a máquina do jornalismo. O jornalista, ele infere, está também em situação precarizada. Todos os trabalhadores estão. O jornalista é explorado e sustenta as empresas. “É um trabalhador que faz a reportagem e ganha o Pulitzer
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>
          </sup>”, mas os ganhos vão para os veículos de imprensa.
        </p>
        <p>Como dissemos, a consciência midiática de Galo se manifesta no modo como ele se pronuncia por meio de falas concisas. A personagem sintetiza bem o pensamento e produz frases com potência para se tornarem manchete ou outro tipo de destaque em material jornalístico. Galo mapeia, na entrevista, a conquista de seu capital social a partir de suas inserções midiáticas, citando outras matérias já publicadas sobre ele. É, portanto, ciente da relação entre sua imagem projetada e as diferentes entrevistas e fases midiáticas por que passou, o que é verbalizado na entrevista.</p>
        <p>Um dos modos de argumentação de Galo é por meio de narrativas. Identificamos, na entrevista, dois tipos de narrativa. O primeiro, logo no início do vídeo, é de caráter parabólico: a explicação de algo desconhecido por meio de analogias e figuras conhecidas. Vejamos a parábola do pescador:</p>
        <disp-quote>
          <p>Imagina que os entregador é uma tribo, mano. Todo dia o entregador vai lá no rio pescar seu peixe. Do nada o rio seca, mano, não tem mais peixe. E aparece um homem branco na porta da tribo e fala assim: “Qual o problema de vocês, porque vocês estão tristes?”. Aí os entregador fala: “Ah, nois tá passando fome, mano, acabou o peixe do rio, homem branco”. O branco fala: “É isso, mano? Eu tenho a solução. Eu tenho uma fazenda aqui perto e tá cheio de peixe lá”. No outro dia, eles voltam com uma abundância de peixe para a tribo e eles falam: “ó, é verdade, o homem branco tem peixe. Olha o tanto!” Aí, no outro dia, todos entregadores falam: “Vamos lá, é peixe mesmo.” Quando os entregadores chega no outro dia desse acontecido, o homem branco barra esses entregadores na porta e fala assim: “Ó mano, você não vai poder pescar aqui, porque aqui é minha propriedade, aqui tem regra. Você só pode pescar aqui, se você seguir a regra, e a regra é o seguinte: cada um de vocês pode pescar até 10 peixes. Sete é meu, três é de vocês. Quer?” Não tem peixe, você acha que os entregadores vai fazer o quê? A única coisa que esse homem branco não vai contar é que ele foi lá com o capital dele, com a tecnologia dele, com toda a força que ele tem, com as máquinas dele, no rio de noite, drenou todos os peixes daquele rio, colocou na fazenda dele, e agora a gente tá tendo que pescar os mesmos peixes que a gente sempre pescou, só que tem que dar sete para o homem branco. De dez, sete vai para o homem branco. E por que que eu digo isso? Porque se você voltar na sua memória, a pizza deixou de chegar na sua casa quando os aplicativos não existiam? (
            <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>O aspecto geral a ser ressaltado da parábola é a pedagogia do relato: o ensinamento por meio da analogia, que contribui para clarear o que está oculto. Mas há outros pontos que merecem atenção. Primeiro, a reiteração, a repetição no texto, que contribui para a fixação, o que é uma característica das formas breves orais. A história é curta, mas construída por meio de acontecimentos em causalidade: falta de peixe, aparecimento do homem branco, oferta dos peixes, exploração do trabalho (e depois a revelação da atuação desonesta do homem branco). As figuras da parábola são importantes. Há o embate entre o homem branco e os indígenas, o que remete a questões identitárias candentes em nossa sociedade, inclusive com a reorientação e revisão hoje de narrativas e afrontamento de figuras históricas (como aconteceria, depois, com a queima da estátua de Borba Gato). A imagem dos peixes é um símbolo cristão, o que dá à parábola senso comunitário e de partilha, valores importantes para a constituição de uma classe de trabalhadores com recuperação da universalidade do proletariado.</p>
        <p>O segundo tipo de narrativa é o do testemunho sobre as injustiças sofridas no trabalho. Galo narra de dentro o trabalho extenuante, sem horas de descanso, pois possui família (mulher e filhos) para sustentar. Relata o drama que é “levar comida nas costas e ter o estômago vazio” (
          <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>). Uma das breves histórias que conta é a de uma entrega frustrada em virtude de um pneu de sua moto que furou. Ainda assim, mesmo diante da justificativa, segundo Galo, o entregador teve sua vinculação cancelada pela empresa do aplicativo.
        </p>
        <p>
          <bold>Considerações finais</bold>
        </p>
        <p>A partir da reportagem analisada, destacamos alguns pontos abordados neste artigo que se articulam no processo comunicativo em que emerge a figura de Paulo Galo: a consciência e a competência midiática demonstradas na entrevista; a importância da solidariedade e da ação coletiva por meio da recuperação da universalidade do proletariado, no qual projeta sua categoria e inclui os profissionais do jornalismo; o pensamento histórico, em torno do qual insere a luta de classes; e o saber narrativo, por meio do qual articula a parábola de desvelamento e o efeito de verdade através do testemunho.</p>
        <p>No primeiro ponto, chama a atenção a compreensão do entregador sobre o papel dos meios de comunicação como um instrumento a ser usado na disputa política. Embora reconheça a importância da mídia na defesa dos interesses do capital, entende que ela é um centro de poder e de projeção e pode ser usada para promover outras expressões sociais. Busca, então, atuar nas brechas dessas possibilidades para ampliar as bandeiras do movimento que representa. Para viabilizar seu propósito, reivindica o uso dos canais disponíveis, afirmando os direitos que expressa e advoga. A familiaridade que o entregador demonstra no manejo desses recursos revela que a apropriação desse conhecimento é essencial para difundir, inclusive, formas de pensar negadas na cultura midiática, sustentada em bases neoliberais.</p>
        <p>Ao demonstrar evidente compreensão sobre esses papéis, Galo aposta na solidariedade de classe com os trabalhadores da mídia, no caso específico, os jornalistas, vistos como aliados e capazes de criar espaços para que outros valores ganhem ampla expressão pública. Ao distinguir o papel da mídia e de seus operadores, aproveita as oportunidades para desafiar o pensamento hegemônico, abrindo caminho para insurgências em favor das possibilidades de transformação social. A ação de Galo nesse contexto reflete uma atitude crítica, modulada por uma interpretação desnaturalizada do empreendedorismo, buscando aproveitar ao máximo o potencial das mídias, sem nutrir nenhuma ilusão quanto a sua neutralidade.</p>
        <p>No segundo ponto, destacamos a recuperação da universalidade do proletariado com a inclusão dos jornalistas. Galo situa o proletariado em um grupo que extrapola o conceito original dos trabalhadores fabris, por isso, inclui o jornalista como parte de uma classe marcada universalmente pela despossessão, à mercê da necessidade de vender sua força de trabalho para viver. Galo recupera, assim, dimensões fundamentais da luta de classes, na medida em que demarca, de um lado, o lugar dos que detêm os meios de produção e, de outro, os que dependem da sua capacidade de trabalho. Nesse enquadramento, seu discurso se contrapõe ao esvaziamento do proletariado e das relações de trabalho, na medida em que a noção de empreendedor que presta serviços ao consumidor e às empresas cimenta o discurso ideológico difundido pela racionalidade neoliberal. Refuta essa nomeação (a de empreendedor) para afirmar um proletariado desprovido dos meios para sobrevivência, mas atuante na luta por direitos históricos alcançados por sua classe. Aposta-se, assim, na ressignificação de uma universalidade do proletariado, apoiado em suas conquistas e na denúncia dos embates que hoje promovem seu esvaziamento como sujeito político. Ao afirmar a condição de trabalhador, tensiona também a representação linguageira dos valores neoliberais. Por fim, expressa um pensamento político que justifica a importância das lutas sociais, além das reivindicações econômicas imediatas, projetando a intervenção dos trabalhadores no rumo da superação da exploração de classes.</p>
        <p>No terceiro ponto, o pensamento histórico do entregador Paulo Galo é sublinhado por uma compreensão que transcende espacial e temporalmente o contexto em que a trama se insere. Ao evocar marcos de batalhas históricas, afirma direitos, colocando a luta dos entregadores de aplicativos como parte de um contexto mais amplo que não se esgota em uma contenda específica. O movimento dos entregadores faz parte de um projeto maior no qual os trabalhadores são pensados como classe social historicamente constituída. Afirma, assim, história e tradição como fundamentos de sua argumentação. A luta dos entregadores de aplicativo é continuidade de outros movimentos organizados por trabalhadores ao longo de sua história.</p>
        <p>No quarto ponto, Galo demonstra conhecimento e capacidade para manejar recursos narrativos. Aposta numa interação direta com interlocutores e suas prováveis experiências, criando um diálogo a partir de referências comuns. Sem perder de vista seu horizonte social, usa a linguagem conforme a concepção de Bakhtin (
          <xref alt="1999" rid="ref-b3" ref-type="bibr">1999</xref>), expressando lutas e relações sociais, elaborando a crítica sobre as condições e os efeitos concretos desses conflitos. Na modulação de sua expressão, aciona formas comuns referenciadas na imagem de um interlocutor médio, inserido no grupo social com o qual dialoga. Ao trazer a analogia de uma fazenda repleta de peixes, antes disponível e agora cercada pelas empresas de aplicativos, utiliza-se de um recurso alegórico, muito comum na parábola bíblica, para estabelecer um efeito de verdade com lições de vida. Sua intervenção parte da situação social em que está envolvido, sustentando sua fala na experiência, aplainando e definindo um território comum para estabelecer conexões com seus interlocutores.
        </p>
        <p>Constrói uma breve sucessão de fatos que dão sentido às questões que aborda para situar e afirmar a justeza de suas posições. Mapeia claramente o conflito, implicando os interlocutores na assimilação e compartilhamento do caminho que escolhe para enfrentá-lo. No relato de suas vivências como trabalhador de aplicativo, evoca sua própria história, ressaltando suas experiências como testemunho, reiterando a veracidade do seu depoimento. O testemunho é relato próximo, marcado pela intensidade de quem viveu os acontecimentos.</p>
        <p>O diálogo proposto por Galo compreende, então, a constante ação dos meios de comunicação no reforço dos discursos em torno das reformas desconstituintes dos direitos. Diante da eliminação das conquistas históricas dos trabalhadores, é preciso refutar o apagamento jurídico dos direitos sociais e trabalhistas. No enfrentamento desse debate, ele aciona seu sentido histórico para requalificar a discussão diante do mascaramento das relações de trabalho. Há, sem dúvida, grande quantidade de trabalho sendo realizada e não remunerada e uma frenética concorrência entre trabalhadores, dispostos a ofertar seus serviços para poucas chances de contratação. É nesse cenário que emerge a figura de Paulo Galo, uma liderança política disposta a uma luta que desafia nomeações e significações de um tempo, em busca de novos horizontes históricos para os trabalhadores.</p>
      </sec>
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            <article-title>Capitalismo em tempos de uberização: do emprego ao trabalho</article-title>
            <source>Marx e o Marxismo</source>
            <year iso-8601-date="2017">2017</year>
            <volume>5</volume>
            <issue>8</issue>
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                <surname>GEERTZ</surname>
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            <chapter-title>Centros, reis e carisma: reflexões sobre o simbolismo do poder</chapter-title>
            <source>O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa</source>
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              <collab>JOGO de cena</collab>
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            <comment>Produção de João Moreira Sales</comment>
            <size units="time">1 DVD (107 min)</size>
            <publisher-name>Vídeo Filmes</publisher-name>
            <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
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            <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3wVTC2d">https://bit.ly/3wVTC2d</ext-link>. Acesso em: 10 out. 2020.
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            <source>‘Fiz 2 entregas ainda’, conta entregador de iFood que superou alagamento em BH</source>
            <publisher-name>O Tempo</publisher-name>
            <publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
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            <month>01</month>
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            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3wVTC2d">https://bit.ly/3wVTC2d</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2020-10-10">Acesso em: 10 out. 2020</date-in-citation>
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            <chapter-title>Existe cultura crítica na mídia?</chapter-title>
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            <comment>Produção de Charlie Chaplin</comment>
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            <size units="time">1 vídeo (86 min)</size>
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        </ref>
      </ref-list>
      <fn-group>
        <fn fn-type="other" id="fn3">
          <label>3</label>
          <p>Um bom exemplo é o episódio do programa Greg News, 
            <italic>Delivery</italic> (
            <xref alt="DELIVERY, 2020" rid="ref-b5" ref-type="bibr">DELIVERY, 2020</xref>), exibido em 17 de abril de 2020. Nele, o apresentador, em tom de denúncia, descreve as práticas das empresas de aplicativo que precarizam o trabalho.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn4">
          <label>4</label>
          <p>Entre os inúmeros vídeos em circulação na rede, ver este: 
            <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3t4kxIf">https://bit.ly/3t4kxIf</ext-link>. Acesso em: 2 abr. 2022.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn5">
          <label>5</label>
          <p>Ver: https://bit.ly/3wVTC2d, disponível em Menezes (
            <xref alt="2020" rid="ref-b10" ref-type="bibr">2020</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn6">
          <label>6</label>
          <p>Disponível em: https://bit.ly/3MZAg34 (
            <xref alt="ENTREGADOR ANTIFASCISTA’ CRITICA PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO E OMISSÃO DE VEÍCULOS DA IMPRENSA, 2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">ENTREGADOR..., 2021</xref>). Os trechos entre aspas da fala de Galo foram transcritos desse vídeo.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn7">
          <label>7</label>
          <p>Do latim, “no meio das coisas”, “no meio da narrativa”.</p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn8">
          <label>8</label>
          <p>Prêmio anual estadunidense que distingue obras jornalísticas e artísticas.</p>
        </fn>
      </fn-group>
    </back>
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