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        <journal-id journal-id-type="publisher-id">RuMoRes</journal-id>
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          <journal-title>Revista online de comunicação, linguagem e mídias</journal-title>
          <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Rumores</abbrev-journal-title>
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        <issn pub-type="epub" publication-format="electronic">1982-677X</issn>
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          <publisher-name>Revista online de comunicação, linguagem e mídias da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo</publisher-name>
        </publisher>
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        <article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2022.200394</article-id>
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          <subj-group subj-group-type="heading">
            <subject>DOSSIÊ</subject>
          </subj-group>
        </article-categories>
        <title-group>
          <article-title>
            <bold>Saúde Mascarada:</bold> tensionamentos e apropriações do personagem Zé Gotinha durante a pandemia brasileira
          </article-title>
          <trans-title-group>
            <trans-title xml:lang="en">
              <bold>Masked Health:</bold> disputes and appropriations of the mascot Zé Gotinha during the Brazilian pandemic
            </trans-title>
          </trans-title-group>
        </title-group>
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              <surname>França</surname>
              <given-names>Renné Oliveira</given-names>
            </name>
            <xref ref-type="aff" rid="aff1">
              <sup>1</sup>
            </xref>
            <xref ref-type="corresp" rid="c1" />
          </contrib>
        </contrib-group>
        <aff id="aff1">
          <institution content-type="original">Doutor em Comunicação Social pela UFMG. Professor de Cinema e Audiovisual do Instituto Federal de Goiás</institution>
          <institution content-type="orgname">Instituto Federal de Goiás</institution>
          <institution content-type="orgdiv1">Cinema e Audiovisual</institution>
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
        <author-notes>
          <corresp id="c1">
            <label>E-mail:</label>
            <email>renneof@gmail.com</email>
          </corresp>
        </author-notes>
        <pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
          <day>26</day>
          <month>07</month>
          <year>2022</year>
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        <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
          <season>Jan-Jun</season>
          <year>2022</year>
        </pub-date>
        <volume>16</volume>
        <issue>31</issue>
        <fpage>87</fpage>
        <lpage>111</lpage>
        <history>
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            <month>05</month>
            <year>2022</year>
          </date>
        </history>
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          <license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/" xml:lang="pt">
            <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença 
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          </license>
        </permissions>
        <abstract>
          <title>RESUMO</title>
          <p>O presente trabalho dá continuidade à proposta de compreender personagens ficcionais como celebridades. Partindo do pressuposto de que estes seres imaginários possuem também poder de mobilização e reflexão de valores e anseios dentro de um determinado contexto, buscou-se aqui analisar três momentos em que o Zé Gotinha, figura símbolo da vacinação brasileira, atuou durante a pandemia de covid-19, entre final de 2020 e meados de 2021. Para tal, este artigo propôs pensar sua articulação em meio ao imaginário político atual a partir de uma breve recuperação de campanhas de vacinação anteriores, que construíram uma imagem do Zé Gotinha que foi tensionada nas disputas de sentido da esfera pública e ressignificada por usuários de redes sociais na disputa com a narrativa governamental.</p>
        </abstract>
        <trans-abstract>
          <title>ABSTRACT</title>
          <p>This research provided continuity to a proposal of understanding fictional characters as celebrities. Assuming that these imaginary beings can mobilize and reflect values and wishes in a given context, the paper analyzes three moments in which Zé Gotinha, mascot of Brazilian vaccination, was invoked during the COVID-19 pandemic, between late 2020 and mid-2021. To this end, the text reflects on its articulation amidst the current political imaginary by resuming previous vaccination campaigns, which built an image of Zé Gotinha that was tensioned within public disputes of meaning and resignified by social media users against the State’s narrative.</p>
        </trans-abstract>
        <kwd-group xml:lang="pt">
          <title>Palavras-chave:</title>
          <kwd>Zé Gotinha</kwd>
          <kwd>pandemia</kwd>
          <kwd>celebridade</kwd>
          <kwd>imaginário</kwd>
        </kwd-group>
        <kwd-group xml:lang="en">
          <title>Keywords:</title>
          <kwd>Zé Gotinha</kwd>
          <kwd>pandemic</kwd>
          <kwd>celebrity</kwd>
          <kwd>imaginary</kwd>
        </kwd-group>
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      </article-meta>
    </front>
    <body>
      <p>Este estudo de caso busca apreender valores e significados que circularam durante o período da pandemia de covid-19 (2020/2021) em torno do Zé Gotinha, dando continuidade à proposta de perceber personagens ficcionais enquanto celebridades ou figuras públicas que agenciam sentidos. Criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa para a campanha de vacinação contra o vírus da poliomielite, realizada pelo Ministério da Saúde, o personagem se tornou popular a ponto de simbolizar a vacinação brasileira como um todo, sendo representado em cartazes, animações, bonecos e fantasias.</p>
      <p>Os olhos grandes, o sorriso longo e as poses amigáveis sugerem uma personalidade simpática, que é reforçada pelos dados biográficos ficcionais que o apresentam em sites como o da FioCruz (
        <xref alt="2020" rid="ref-b7" ref-type="bibr">2020</xref>) ou vídeos como 
        <italic>Zé Gotinha – A História</italic> (
        <xref alt="2011" rid="ref-b19" ref-type="bibr">2011</xref>) (realizado pelo próprio criador, Darlan Rosa). É a ideia desta personalidade e de determinados valores positivos associados a ela ao longo dos anos, como bondade, simpatia, inocência, alegria e saúde, que parece ter chamado a atenção e causado polêmicas e piadas nas formas como o personagem foi utilizado e se tornou vetor de disputas ideológicas no ano de 2020.
      </p>
      <p>Três delas se destacaram e serão o foco deste trabalho: as imagens em que o presidente da república Jair Bolsonaro tenta cumprimentá-lo quebrando as normas de distanciamento social e o personagem evita o seu toque – além de ser o único usando máscara na ocasião (que nas redes sociais foi comparada a uma mordaça); quando foi “abandonado” no aeroporto do Rio de Janeiro durante a chegada ao país das primeiras vacinas Oxford anticovid; e, finalmente, o desenho publicado em rede social pelo deputado Eduardo Bolsonaro, em que o Zé Gotinha segura uma seringa em formato de fuzil.</p>
      <p>A partir da observação destas imagens e comentários no Twitter,
        <sup>
          <xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>
        </sup> foi possível perceber como Zé Gotinha tensionou sentidos diversos que circulam na sociedade brasileira, servindo ao mesmo tempo como avatar e reflexo dos humores, engajamentos e disputas políticas do Brasil pandêmico.
      </p>
      <p>Este artigo partirá de uma breve apresentação do personagem Zé Gotinha e uma contextualização de seu caráter célebre a partir das diferentes facetas que apresentou ao longo de décadas para, em seguida, tratar de sua ação e repercussão nos três acontecimentos aqui citados. A partir daí, a proposta é discutir o tipo de valores agenciados e expectativas criadas em relação ao personagem e as formas de apropriação simbólicas destes mesmos valores que se deram na esfera pública do Twitter.</p>
      <sec id="a-simpática-gotinha">
        <title>A simpática gotinha</title>
        <p>Em 1986, após o governo brasileiro assinar um compromisso com a Organização das Nações Unidas (ONU) de erradicar a poliomielite, teve início o projeto de criação de uma logomarca para ajudar na popularização da vacinação contra esta doença no Brasil.</p>
        <p>O responsável pela tarefa foi o artista plástico e publicitário Darlan Rosa, que fez a proposta de uma
          <xref alt="1" ref-type="fig" rid="f1">figura</xref>  de traços simples e arredondados, fácil de ser desenhada por uma criança. A animação estrelada pelo personagem no mesmo ano de 1986 (exibida em intervalos comerciais de TV) e o concurso nacional para a escolha de seu nome tornaram o Zé Gotinha popular em todo o país, e logo a mascote se transformou em símbolo de todo o PNI (Programa Nacional de Imunizações) e em garoto propaganda de todas as campanhas de vacinação no Brasil.
        </p>
        <fig id="f1">
          <label>Figura 1</label>
          <caption>
            <title>         </title>
            <p><bold>Zé Gotinha original, desenhado por Darlan Rosa</bold></p>
          </caption>
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          <attrib>Fonte: FioCruz.</attrib>
        </fig>
        <p>O sucesso do Zé Gotinha parece associado a um modelo de desenho clássico que denota simpatia, atrelado a valores positivos de suas campanhas publicitárias, especialmente aquelas veiculadas na televisão, onde o personagem pode ser visto em ação.</p>
        <disp-quote>
          <p>A simpática Gotinha parece-nos transparecer por intermédio de suas formas diagramáticas um carisma que o 
            <italic>Apelo</italic> preconiza. Por ser um herói que protege especificamente as crianças, Zé Gotinha não aparenta força física de um adulto, mas a inteligência e sagacidade de um herói que dialoga com o mundo infantil diretamente ao modelizar a figura da criança com o ícone da gota. Ele é antropomórfico, já que se baseia na sequência de fotos da criança de Muybridge, porém não é humano, sendo então externo ao nosso mundo, mas próximo a nós. (
            <xref alt="PENA, 2015, p. 80" rid="ref-b14" ref-type="bibr">PENA, 2015, p. 80</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>Em seu Manual de Utilização da Marca (
          <xref alt="MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013, p. 124" rid="ref-b10" ref-type="bibr">MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013, p. 124</xref>), são apresentadas as características definidoras do personagem: sua forma primária é uma gota de vacina, e a secundária, um boneco. Zé Gotinha é descrito como leve como uma bolha de sabão, proporcionando capacidade de flutuar e voar, e encerrando em sua forma “um concentrado de energia”. Um ser elemental que deveria ser leve e transparente, com “propriedade de atravessar paredes de organismos vivos”, multiforme, capaz de se multiplicar, e capaz de se transformar em um exército quando dentro do organismo.
        </p>
        <p>Essas características ajudam a compor suas identidades, que foram apresentadas ao público ao longo dos anos, reforçando os valores positivos aos quais ele permanece associado no imaginário do brasileiro.</p>
      </sec>
      <sec id="o-herói-mágico">
        <title>O herói mágico</title>
        <p>Na 
          <xref alt="2" ref-type="fig" rid="f2">animação</xref>  
          <italic>Zé Gotinha Contra o Perna de Pau</italic>
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
          </sup>, nosso herói é apresentado como “amigo das crianças” e tem sua origem revelada em um laborátório, criado para combater o “Perna de Pau, o monstro da paralisia infantil”. Usando força, inteligência e aparatos tecnológicos, ele ataca monstros e salva vidas (com direito a clássicas poses de super-heróis nos cinemas e histórias em quadrinhos).
        </p>
        <fig id="f2">
          <label>Figura 2</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Animação de apresentação do personagem, 1986</bold></p>
          </caption>
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          <attrib>Fonte: Zé Gotinha contra o Perna de Pau. Capturas de tela do Youtube.</attrib>
        </fig>
        <p>Já na animação
          <xref alt="3" ref-type="fig" rid="f3">
            <italic>Zé Gotinha – A História</italic>
          </xref>
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
          </sup>, o personagem-título surge tocando as crianças e lhes dando uma espécie de aura protetora, como se as abençoasse. Esta característica mágica do personagem será muito comum em suas primeiras campanhas de vacinação, em que uma espécie de mística sobrenatural se confude com ciência no didatismo direto para se comunicar com o público infantil.
        </p>
        <fig id="f3">
          <label>Figura 3</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha – A História</bold></p>
          </caption>
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          <attrib>Fonte: Zé Gotinha – A História. Capturas de tela do Youtube.</attrib>
        </fig>
      </sec>
      <sec id="o-esportista">
        <title>O esportista</title>
        <p>Outra  identidade comumente associada ao Zé Gotinha é a de 
          <xref alt="4" ref-type="fig" rid="f4">praticante de esportes</xref>, buscando ligá-lo a uma ideia de saúde ou hábitos saudáveis. Zé Gotinha já lutou caratê e boxe e jogou futebol, sempre combatendo, é claro, algum vírus ou doença. Esta fase “esportista” está diretamente relacionada ao governo Fernando Collor (1990-1992), um presidente que fazia questão de se apresentar como uma pessoa saudável, praticando esportes, entre eles, o mesmo caratê do Zé Gotinha.
        </p>
        <fig id="f4">
          <label>Figura 4</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Imagens da campanha de 1990</bold></p>
          </caption>
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          <attrib>Fonte: 
            <italic>Zé Gotinha – A História</italic>. Capturas de tela do Youtube.
          </attrib>
        </fig>
      </sec>
      <sec id="a-celebridade">
        <title>A celebridade</title>
        <p>O que faz com que um ser ficcional adquira o status de celebridade
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>
          </sup> não é diferente do que torna uma pessoa real uma celebridade: a capacidade de personificar valores, anseios e ideias de uma determinada época e lugar. Ao atuar em diferentes campanhas e se tornar um rosto conhecido (inclusive dividindo vídeos e cartazes com celebridades de carne e osso, como a Xuxa, por exemplo), Zé Gotinha atingiu um status de reconhecimento imediato e até solicitações para
          <xref alt="5" ref-type="fig" rid="f5">fotos</xref>  em suas versões de humano fantasiado.
        </p>
        <fig id="f5">
          <label>Figura 5</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha em suas versões de humano fantasiado</bold></p>
          </caption>
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          <attrib>Fonte: Ministério da Saúde – divulgação.</attrib>
        </fig>
        <p>Desprovido de uma personalidade complexa, que nunca foi desenvolvida, Zé Gotinha é um personagem que apenas representa o bem, sem maiores nuances. Protege e salva a vida de crianças, é corajoso e poderoso. Isso o torna um personagem pronto para espelhar tudo que cada um considera como “bem” em oposição a um “mal”. E durante os momentos mais dramáticos da pandemia do covid-19 nos anos de 2020 e 2021, Zé Gotinha, há tempos sem maiores destaques no país, ressurgiu como herói novamente.</p>
      </sec>
      <sec id="o-rebelde">
        <title>O rebelde</title>
        <p>Em 16 de dezembro de 2020, durante cerimônia de lançamento do 
          <italic>Plano Nacional de Operacionalização da Vacina Contra Covid 19</italic>, Zé Gotinha estava presente ao lado do Presidente da República Jair Bolsonaro e do Ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Chamou a atenção o fato de o personagem ficcional – no caso, uma pessoa fantasiada – ser o único dos três usando máscara de proteção no nariz e boca.
        </p>
        <p>O presidente Bolsonaro vinha fazendo nos últimos meses seguidas declarações que colocavam em dúvida a eficácia da vacina
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
          </sup> e promovendo aglomerações em desacordo com as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Quando Zé Gotinha se aproximou, Bolsonaro estendeu a mão para cumprimentá-lo – em mais uma quebra das normas de distanciamento social em vigor –, e o personagem evitou o toque, respondendo com o polegar para cima
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
          </sup>.
        </p>
        <fig id="f6">
          <label>Figura 6</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha recusa aperto de mão de Bolsonaro</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig6.png" />
          <attrib>Fonte: Jornal O Dia. Captura de tela. 16 dez. 2020.</attrib>
        </fig>
        <p>A ação do não aperto de mão roubou a cena e logo se transformou em ato de resistência contra o governo nas redes sociais. A 
          <xref alt="6" ref-type="fig" rid="f6">imagem</xref> foi reinterpretada de diversas formas, inclusive de sua máscara como uma mordaça, que associava o personagem a alguém sequestrado. Afinal, para os críticos do presidente e de sua ação no controle da pandemia no Brasil, só assim Zé Gotinha poderia fazer parte daquele governo: como um prisioneiro.
        </p>
        <fig id="f7">
          <label>Figura 7</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Capturas de tela do Twitter</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig7.png" />
          <attrib>Fonte: Twitter. Capturas de tela. 16 dez. 2020.</attrib>
        </fig>
        <p>Se Zé Gotinha está associado a aspectos positivos e saudáveis, o sentido de seu não aperto de mão com o presidente do Brasil teve a força de uma luta do bem contra o mal: a dualidade de tudo que é bom de um lado versus tudo que é ruim do outro. Como espelho de uma saúde mascarada no país, que escondia dados sobre números de mortos
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>
          </sup> e atrasou a compra de vacinas, fig. 
          <xref alt="7" rid="f7">7</xref> Zé Gotinha de máscara e evitando o contato direto com Bolsonaro foi um vetor na disputa de sentidos que se dava naquele momento e um importante personagem na guerra de narrativas que se seguiria a partir dali. Reforçando seu caráter célebre, ele amplificou anseios de uma parte da população ao se negar a apertar a mão dos valores de outra.
        </p>
      </sec>
      <sec id="abandonado">
        <title>Abandonado</title>
        <p>Zé Gotinha reapareceu com destaque em 22 de janeiro de 2021. Pouco mais de um mês após se esquivar do aperto de mão de Jair Bolsonaro, o personagem estava presente na chegada das primeiras doses da vacina de Oxford no Rio de Janeiro. Durante a cerimônia para celebrar as 2 milhões de doses contra a covid-19 que chegavam ao Brasil, os ministros Eduardo Pazuello e Ernesto Araújo (Relações Internacionais) deixaram Zé Gotinha de lado e, finalmente, sozinho, após eles e as demais autoridades irem embora. Os cinegrafistas que registravam o desembarque da carga filmaram o  personagem – mais uma vez, uma pessoa fantasiada – e as 
          <xref alt="8" ref-type="fig" rid="f8">imagens</xref> logo chamaram a atenção nas redes sociais
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>
          </sup>.
        </p>
        <fig id="f8">
          <label>Figura 8</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Matéria sobre o “Abandono” de Zé Gotinha na chegada das vacinas</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig8.png" />
          <attrib>Fonte: Captura de tela do site CNN Brasil. 23 jan. 2021</attrib>
        </fig>
        <p>Desta vez, houve uma interpretação pela inação. Zé Gotinha não fez nada a não ser ficar parado. Mas mais uma vez sua associação ao mundo infantil e a valores positivos deram às imagens um sentido dramático e mesmo político. Como uma criança esquecida pelos pais, a “solidão” de Zé Gotinha representou ao mesmo tempo tanto – mais uma vez – resistência (ele foi o “único” a permanecer enquanto chegavam as tão aguardadas vacinas) quanto o descaso do Governo Federal com a Saúde brasileira como um todo. Mas, mais do que isso, Zé Gotinha “abandonado” reforçava a 
          <xref alt="9" ref-type="fig" rid="f9">imagem</xref> de alguém que não pertencia àquele grupo. Seja como sequestrado ou um agente infiltrado, ele se apresentava (por ação própria ou de outros) como a única luz em um lugar de trevas.
        </p>
        <fig id="f9">
          <label>Figura 9</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Comentário sobre o “Abandono” de Zé Gotinha na chegada das vacinas</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig9.png" />
          <attrib>Fonte: Twitter. Captura de tela. 22 jan. 2021.</attrib>
        </fig>
        <p>É curioso que as duas cerimônias organizadas pelo governo para sua autocelebração (anúncio do início da vacinação e chegada das vacinas) acabaram sendo protagonizadas por um personagem ficcional. Enquanto ações de propaganda política, estes acontecimentos foram produzidos no sentido de valorizar o presidente do Brasil, o Ministro da Saúde e o Ministro das Relações Exteriores.</p>
        <disp-quote>
          <p>Na sociedade dos meios de comunicação, a política se alimenta do acontecimento – o motor das dramatizações. Em períodos turbulentos, os próprios acontecimentos criam as ocasiões e reivindicam a atenção pelo que contêm de inesperado ou de inquietante. Nos períodos mais calmos, contudo, os “pseudo-acontecimentos” fabricados servem igualmente para se alcançar os mesmos resultados. Essas operações podem ser vistas em personagens políticas que exageram a importância de seu papel; em conferências de imprensa que comportam revelações políticas reais ou aparentes, etc. (
            <xref alt="FONSECA, 2007, p. 177" rid="ref-b8" ref-type="bibr">FONSECA, 2007, p. 177</xref>)
          </p>
        </disp-quote>
        <p>O protagonismo do Zé Gotinha nestas ações promocionais do governo – e em sentido contrário a este mesmo governo – parecem possíveis em grande medida devido a sua ressonância enquanto figura pública. Apesar de nos dois casos tratar-se de uma pessoa com uma fantasia, seu poder de chamar a atenção para suas ações – mesmo quando o personagem não é (ou não deveria ser) o foco do acontecimento – é o que lhe concede a força agenciadora de sentidos que se mobilizam na esfera pública de maneira a ressignificar estas mesmas “dramatizações” políticas que oferecem uma narrativa própria. Mas celebridades como Zé Gotinha conseguem quebrar narrativas pré-estabelecidas e produzir uma nova agenda, mesmo que de maneira mais passiva do que ativa. Talvez por isso, este mesmo governo eclipsado pelo personagem tenha buscado, alguns meses depois, apropriar-se dele de forma mais direta.</p>
      </sec>
      <sec id="o-armado">
        <title>O armado</title>
        <p>A maior polêmica envolvendo a celebridade Zé Gotinha no ano de 2021 surgiu no Twitter. Em 12 de março de 2021, o filho do presidente da República e Deputado Federal Eduardo Bolsonaro postou em seu perfil pessoal uma 
          <xref alt="10" ref-type="fig" rid="f10">ilustração</xref> 
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>
          </sup> que mostrava o Zé Gotinha carregando uma vacina como se fosse uma arma de fogo. Acima, escreveu: “nossa arma é a vacina”
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>
          </sup>.
        </p>
        <fig id="f10">
          <label>Figura 10</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha armado com vacina como fuzil</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig10.png" />
          <attrib>Fonte: Twitter. Captura de tela. 12 mar. 2021.</attrib>
        </fig>
        <p>A 
          <xref alt="11" ref-type="fig" rid="f11">imagem</xref> mais uma vez viralizou de forma rápida, muito entre os apoiadores do Governo Federal, que elogiaram a apropriação bélica do personagem, mas, principalmente, entre aqueles que se indignaram com a imagem, considerando-a uma deturpação dos ideais associados ao Zé Gotinha.
        </p>
        <fig id="f11">
          <label>Figura 11</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Reações à imagem de Zé Gotinha armado com vacina como fuzil</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig11.png" />
          <attrib>Fonte: Twitter. Capturas de tela. 12 mar. 2021.</attrib>
        </fig>
        <p>O próprio criador do Zé Gotinha, Darlan Rosa, se pronunciou em entrevista ao jornal 
          <italic>Folha de S.Paulo</italic> (na coluna 
          <italic>Painel</italic>, por Camila Mattoso em 12 de março de 2021), dizendo ser uma “imagem horrível”, ver o personagem com uma arma na mão (
          <xref alt="MATTOSO, 2021" rid="ref-b12" ref-type="bibr">MATTOSO, 2021</xref>). A Sociedade Brasileira de Pediatria (
          <xref alt="2021" rid="ref-b16" ref-type="bibr">2021</xref>) publicou uma nota no dia 15 de março de 2021 pedindo às autoridades brasileiras que voltassem a incorporar na campanha de vacinação o Zé Gotinha em “sua imagem original, alegre, pacífica e motivadora”.
        </p>
        <p>A dicotomia vida x morte parece provocar um deslize de sentidos na representação do personagem. Zé Gotinha salva vidas – e a vacina contra covid era, naquele contexto, a esperança de milhões de vida serem salvas –, entretanto, uma arma (um fuzil) é um signo que tira vidas. Mais uma vez, percebe-se como o personagem está associado a aspectos positivos (alegre, pacífico, motivador) e como sua associação a uma arma de fogo (usada para matar) opõe-se a seu sentido de proteger a vida. De um ponto de vista puramente visual, a imagem compartilhada por Eduardo Bolsonaro ainda apresenta um Zé Gotinha alegre e motivador (apesar de esta motivação poder ser questionável). Contudo, o caráter pacífico está claramente dertupado pelo uso da vacina como fuzil.</p>
        <p>Na guerra de narrativas e imagens compartilhadas, era como se o Zé Gotinha “sequestrado” e “amordaçado” tivesse passado por uma lavagem cerebral para fazer algo assim. Uma violência contra alguém que só representava o bem. Toda a comoção que se deu a partir deste episódio comprovou o personagem como este avatar de valores diversos e alvo de uma disputa ideológica que buscava também sua ressignificação. Afinal, Zé Gotinha nunca foi bélico. Ou será que foi?</p>
      </sec>
      <sec id="o-guerreiro">
        <title>O guerreiro</title>
        <p>Zé Gotinha nunca foi construído como um personagem pacífico. Nas diversas campanhas publicitárias que estrelou por décadas, ele se apresentou como um guerreiro. Isso é algo inerente ao personagem, afinal, ele 
          <italic>combate</italic> um vírus. Suas características bélicas estavam presentes em naves que atiravam para destruir em sua primeira fig. 
          <xref alt="12" ref-type="fig" rid="f12">12</xref> animação e até como cavaleiro medieval portando a vacina como lança
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>
          </sup>.
        </p>
        <fig id="f12">
          <label>Figura 12</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha como guerreiro</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig12.png" />
          <attrib>Fonte: Zé Gotinha – A História e Zé Gotinha contra o Perna de Pau. Capturas de tela do Youtube.</attrib>
        </fig>
        <p>A forma como a memória coletiva parece ter “apagado” estas características de um Zé Gotinha bélico é interessante para pensá-lo como força centrípeta de valores positivos. No momento em que ações mais agressivas ou minimamente violentas passaram a ser mais ferrenhamente questionadas, estas foram “retiradas” da biografia do personagem. E num momento em que se critica um governo que apoia a facilitação do acesso a armas de fogo, Zé Gotinha, o personagem puro e heroico, não poderia estar associado a elas. Mas já esteve.</p>
        <fig id="f13">
          <label>Figura 13</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha e seu passado bélico</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig13.png" />
          <attrib>Fonte: Zé Gotinha – A História. Capturas de tela do Youtube.</attrib>
        </fig>
        <p>Na animação da campanha de vacinação
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>
          </sup> 
          <xref alt="13" ref-type="fig" rid="f13">apresentada acima</xref>, Zé Gotinha usa armas de fogo. Dois revólveres que disparam vacina em um ambiente de Velho Oeste. Sua expressão não é exatamente de alegria, mas de algum tipo de sadismo.
        </p>
        <p>Eduardo Bolsonaro não foi o primeiro a apresentar Zé Gotinha armado. O que parece ter chocado foi a ausência de um adversário. O Zé Gotinha bélico sempre lutou contra monstros. O bem contra o mal. Na imagem de Bolsonaro, ele apenas faz um uso fetichista de sua arma/seringa. Não há objetivo a não ser a destruição (ou morte) pela destruição.</p>
        <p>De qualquer maneira, a reapropriação do personagem gerou uma série de contrarreapropriações, em uma guerra simbólica que se seguiu nas redes sociais. Era como se houvesse uma tentativa coletiva de libertá-lo. Uma vez transformado em arma, que sua belicosidade fosse usada pelo outro lado.</p>
      </sec>
      <sec id="o-político">
        <title>O político</title>
        <p>Para Ansart (
          <xref alt="2001" rid="ref-b2" ref-type="bibr">2001</xref>), é através dos imaginários sociais que uma coletividade constrói uma representação de si, qualificando sua identidade e exprimindo crenças comuns, estabelecendo modelos ideais de conduta. O imaginário social torna-se, nessa perspectiva, uma das forças reguladoras da vida coletiva.
        </p>
        <p>Ter controle sobre o discurso e suas reverberações simbólicas é uma forma de ter controle sobre o imaginário e, por consequência, sobre os modelos de conduta social. A guerra de narrativas durante a pandemia é parte desse processo de tentativa de controle, em que muitas vezes canais oficiais governamentais se utilizavam de um exercício simbólico para apresentação de estratégias de fabricação e emissão de imaginários sociais, em forma de representações ideais da vida social e da imagem social de autoridade e liderança. Foi esta imagem que Zé Gotinha desafiou ao não apertar a mão do presidente. Aqueles poucos segundos, uma vez publicizados, atuaram como força contrária, alimentando a guerra pelo imaginário.</p>
        <p>Da mesma forma, a postagem da ilustração feita pelo filho do presidente não deixa de ser uma resposta àquela ação, uma vez que as autoridades estabelecidas, de acordo com Baczko (
          <xref alt="1985" rid="ref-b3" ref-type="bibr">1985</xref>), dedicam-se constantemente a defender a legitimidade daqueles que as atacam. Por outro lado, a concepção e difusão de uma contralegitimidade é essencial na disputa por imaginários que se opera no plano narrativo, mas muitas vezes podem ter consequências no plano concreto do dia a dia social. Ou seja, a disputa do imaginário é uma instância política.
        </p>
        <p>Grandes crises, como a pandemia de covid-19, são momentos onde mais facilmente se consegue perceber a intensificação da produção de imaginários sociais antagonistas, em que as representações de legitimidades diversas proliferam e se difundem. A utilização política do Zé Gotinha é apenas uma dessas representações.</p>
        <p>Ainda de acordo com Baczko (
          <xref alt="1985" rid="ref-b3" ref-type="bibr">1985</xref>), o imaginário social só é “inteligível e comunicável” a partir do momento em que as difusas representações coletivas se tornam um único discurso dotado de certa coerência. A ideia de quem é o Zé Gotinha se construiu a partir das mais variadas campanhas que se assentaram e trouxeram, como resultado, as ideias de esperança e alegria associadas ao personagem. “O dispositivo imaginário assegura a um grupo social quer um esquema coletivo de interpretação das experiências individuais, tão complexas quanto variadas, quer uma codificação das expectativas e das esperanças” (
          <xref alt="BACZKO, 1985, p. 311" rid="ref-b3" ref-type="bibr">BACZKO, 1985, p. 311</xref>).
        </p>
        <p>A ilustração do Zé Gotinha com a seringa como se fosse um fuzil foi recebida como afronta porque escapava deste imaginário, tentando criar um novo, em sua reapropriação do personagem. Baczco (
          <xref alt="1985, p. 311" rid="ref-b3" ref-type="bibr">1985, p. 311</xref>) aponta que os imaginários sociais fornecem um sistema de orientações “expressivas e afetivas”, que se apresentam em forma de estereótipos relativos à imagem do indivíduo perante seu grupo social: Zé Gotinha torna-se, de certa forma, arquétipo do bem contra o mal. É a vida contra a morte, não podendo ser associado a armas de qualquer tipo (mesmo que antes, em sua própria história, esta associação já tenha ocorrido sem polêmicas). “A potência unificadora dos imaginários sociais é assegurada pela fusão entre verdade e normatividade, informações e valores, que se opera no e por meio do simbolismo” (
          <xref alt="BACZKO, 1985, p. 311" rid="ref-b3" ref-type="bibr">BACZKO, 1985, p. 311</xref>).
        </p>
        <p>Georges Balandier (
          <xref alt="1982" rid="ref-b4" ref-type="bibr">1982</xref>) chama de “teatrocracia” o dispositivo de poder que opera a ação de atores políticos que comandam o real através do imaginário
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>
          </sup>. Esta parece ser uma das estratégias do governo Bolsonaro em seu processo de construção e disseminação de fake news e constante utilização de ações performáticas nas redes sociais. Se as disputas políticas operam através do imaginário, é de se esperar que cada vez mais grupos antes sem acesso a formas de intervenção nestes imaginários tentem agir – de forma organizada ou desorganizada – para ocupar estes espaços de luta. Na disputa pelo imaginário envolvendo o Zé Gotinha, a ilustração bolsonarista encontrou um embate com outras ilustrações que surgiram como resposta e tentativa de não permitir que aquela imagem dominasse por total o imaginário envolvendo o personagem.
        </p>
        <p>O herói salvador em que Zé Gotinha se transmutou a partir daí parece pensado a partir de uma evocação a um ideal de coragem e poder que dificilmente se consegue associar a pessoas de carne e osso. Ele se tornou aquilo que cada um quisesse que ele fosse na luta contra o mal.</p>
      </sec>
      <sec id="o-salvador">
        <title>O salvador</title>
        <p>A apropriação do Zé Gotinha feita no desenho compartilhado por Eduardo Bolsonaro teve o efeito de abrir o signo, permitindo que qualquer um se desse o direito de ressignificar um personagem até então intocável. 
          <xref alt="14" ref-type="fig" rid="f14">Várias imagens</xref>  de um Zé Gotinha guerreiro, resistente, salvador surgiram por artistas diversos.
        </p>
        <fig id="f14">
          <label>Figura 14</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha por Antônia Baloneto, Free_Gels e Latuff/Mari Lemos</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig14.png" />
          <attrib>Fonte: Twitter.</attrib>
        </fig>
        <p>Alimentado pelo otimismo da chegada das vacinas, Zé Gotinha se tornou representante daquilo que iria salvar os brasileiros 
          <italic>apesar</italic> do Governo Federal e seus apoiadores. Sua história escrita durante a pandemia de covid-19 foi uma clássica jornada heroica. A rebeldia contra o governo se torna abandono, e depois é ainda obrigado – quase lobotomizado – a usar a seringa como arma. Mas este Zé Gotinha se liberta e encontra a redenção como revolucionário.
        </p>
        <p>Mais do que lutar contra um governante ou outro, o processo de reapropriações simbólicas transformou o Zé Gotinha em símbolo de resistência não apenas contra o vírus, mas contra o negacionismo.</p>
        <p>Em um governo que operava através da ficção, criando e disseminando narrativas e personagens ficcionais para si mesmo e para seus inimigos, um personagem ficcional se tornou resistência por se encontrar na mesma natureza e ambiência do que devia ser combatido. Se quase toda publicização no governo Bolsonaro é um constructo 
          <italic>fake</italic>, um ser 
          <italic>fake</italic> possui as mesmas dimensões e forças discursivas para operar como um revolucionário. Em um contexto em que a batalha política e de vida atual no Brasil se dá pelo simbólico, não é de se espantar que ela passe pela apropriação de um personagem-celebridade que, da noção de senso comum de bondade, pacifismo, alegria e ingenuidade, tornou-se um símbolo de resistência e revolução – mesmo que por poucos dias.
        </p>
        <fig id="f15">
          <label>Figura 15</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha como símbolo de resistência e revolução</bold></p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig15.png" />
          <attrib>Fonte: Twitter. Captura de tela do perfil do Instituto Butantan (@butantanoficial), em 17 jan. 2021.</attrib>
        </fig>
        <p>Zé Gotinha saiu da pandemia maior do que quando entrou, tornando-se um símbolo de vida em todas as dimensões. Sua força de mobilização de representação de anseios por parte dos brasileiros transfigurou-se em resistência, tornando-se signo depositário das mais variadas esperanças. Seria sintoma de uma país que precisava de um herói como nunca? O personagem transcendeu a campanha pela vacinação e se torna 
          <xref alt="15" ref-type="fig" rid="f15">símbolo</xref> do que é certo, bom e bonito.
        </p>
        <fig id="f16">
          <label>Figura 16</label>
          <caption>
            <title>          </title>
            <p><bold>Zé Gotinha transcende seu papel de símbolo da vacinação, tornando-se símbolo do que é certo, bom e bonit</bold>o</p>
          </caption>
          <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="1982-677X-rumores-16-31-04-200394-fig16.png" />
          <attrib>Fonte: Captura de tela Revista Forum em 1 out. 2021.</attrib>
        </fig>
        <p>E em 1 de outubro de 2021, era como se o Zé Gotinha reapropriado pelas <xref alt="16" ref-type="fig" rid="f16">ilustrações</xref>  alimentasse o Zé Gotinha fantasiado das cerimônias oficiais, como se em uma simbiose simbólica, e o herói brasileiro permitiu o toque, abraçando o Ministro da Saúde interino, Rodrigo Cruz, que chorou no lançamento da campanha de vacinação para crianças e jovens
          <sup>
            <xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref>
          </sup>. A gota de emoção tão ausente no Governo Federal veio de uma autoridade a favor da vacina e da ciência e, dessa forma, recebeu o carinho do personagem. Mas mais do que isso, como a aura de proteção que dava às crianças em suas primeiras animações, o toque mágico do Zé Gotinha tornou Rodrigo Cruz automaticamente alguém digno de consideração.
        </p>
        <p>Entre o não aperto de mão e o abraço, passou-se quase um ano de ressignificações e apropriações simbólicas. Na guerra pela narrativa ficcional, Zé Gotinha se tornou guerreiro e salvador. Avatar de valores de uma sociedade em luto, evitou o aperto de mão e abraçou um país.</p>
      </sec>
    </body>
    <back>
      <ref-list>
        <ref id="ref-b1">
          <mixed-citation>'ABANDONO' de Zé Gotinha viraliza nas redes. CNN Brasil, São Paulo, 23 jan. 2021. Disponível em: 
            <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3Nsmczm">https://bit.ly/3Nsmczm</ext-link>. Acesso em: 10 mar. 2022.
          </mixed-citation>
          <element-citation publication-type="webpage">
          <person-group person-group-type="author"><collab>'ABANDONO' de Zé Gotinha viraliza nas redes</collab></person-group>
              <source>CNN Brasil</source>
            <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2021-01-23">2021</year>
            <month>01</month>
            <day>23</day>
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              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3Nsmczm">https://bit.ly/3Nsmczm</ext-link>
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            <chapter-title>Pediatras pedem incorporação do Zé Gotinha, defensor da saúde e da paz, como símbolo da campanha de vacinação contra COVID-19</chapter-title>
            <source>Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP): Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)</source>
            <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2021">2021</year>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3OwGrMx">https://bit.ly/3OwGrMx</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-06-07">Acesso em: 07 jun. 2022</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b17">
        <mixed-citation>TEODORO, P. Em governo negacionista, Zé Gotinha consola ministro interino da Saúde que chorou ao falar da vacina. Revista Forum, Porto Alegre, 1 out. 2021. Disponível em: 
          <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3Mo2lQy">https://bit.ly/3Mo2lQy</ext-link>. Acesso em: 10 mar. 2022.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="journal">
            <person-group person-group-type="author">
              <name>
                <surname>TEODORO</surname>
                <given-names>P.</given-names>
              </name>
            </person-group>
            <article-title>Em governo negacionista, Zé Gotinha consola ministro interino da Saúde que chorou ao falar da vacina</article-title>
            <source>Revista Forum</source>
            <publisher-loc>Porto Alegre</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2021-10-01">2022</year>
            <month>10</month>
            <day>01</day>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3Mo2lQy">https://bit.ly/3Mo2lQy</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-03-10">Acesso em: 10 mar. 2022</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b18">
        <mixed-citation>ZÉ GOTINHA recusa aperto de mão de Bolsonaro em cerimônia do plano de imunização. Jornal O Dia, São Paulo, 16 fev. 2020. Disponível em: 
          <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3aBSOIl">https://bit.ly/3aBSOIl</ext-link>. Acesso em: 10 mar. 2022.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="journal">
            <person-group person-group-type="author">
              <string-name>ZÉ GOTINHA</string-name>
            </person-group>
            <article-title>ZÉ GOTINHA recusa aperto de mão de Bolsonaro em cerimônia do plano de imunização</article-title>
            <source>Jornal O Dia</source>
            <publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
            <year iso-8601-date="2022-03-10">2022</year>
            <month>03</month>
            <day>10</day>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3aBSOIl">https://bit.ly/3aBSOIl</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-06-07">Acesso em: 10 mar. 2022</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
        <ref id="ref-b19">
        <mixed-citation>ZÉ GOTINHA, a historia. [S. l.: s. n.], 2011. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal darlanrosa. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3Mgy2eA">https://bit.ly/3Mgy2eA</ext-link>. Acesso em: 10 mar. 2022.</mixed-citation>
          <element-citation publication-type="webpage">
            <source>ZÉ GOTINHA, a historia</source>
            <publisher-name>Publicado pelo canal darlanrosa</publisher-name>
            <year iso-8601-date="2011">2011</year>
            <size units="time">1 vídeo (5 min)</size>
            <publisher-loc>[S. l.: s. n.]</publisher-loc>
            <comment>Disponível em:
              <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bit.ly/3Mgy2eA">https://bit.ly/3Mgy2eA</ext-link>
            </comment>
            <date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-06-07">Acesso em: 10 mar. 2022</date-in-citation>
          </element-citation>
        </ref>
      </ref-list>
      <fn-group>
        <fn fn-type="other" id="fn1">
          <label>1</label>
          <p>Doutor em Comunicação Social pela UFMG. Professor de Cinema e Audiovisual do Instituto Federal de Goiás. E-mail: renneof@gmail.com.</p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn2">
          <label>2</label>
          <p>O Twitter foi a rede social escolhida para se perceber as repercussões dos acontecimentos citados por ter sido a rede pela qual foi compartilhada incialmente a polêmica ilustração do personagem com a vacina como fuzil.</p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn3">
          <label>3</label>
          <p>Realização Otto Desenhos Animados, 1986. Ver FILME… (
            <xref alt="2014" rid="ref-b6" ref-type="bibr">2014</xref>) (2014).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn4">
          <label>4</label>
          <p>Realização Darlan Rosa. Ver ZÉ GOTINHA… (
            <xref alt="2011" rid="ref-b19" ref-type="bibr">2011</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn5">
          <label>5</label>
          <p>Para uma maior discussão a respeito de personagens ficcionais como celebridades, ver França (
            <xref alt="2021" rid="ref-b9" ref-type="bibr">2021</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn6">
          <label>6</label>
          <p>O presidente colocou em dúvida a eficácia da vacina, criticou a “pressa” para compra de vacinas, chamou a atenção para seus efeitos colaterais e defendeu tratamento precoce. Mais detalhes em Noblat (
            <xref alt="2021" rid="ref-b13" ref-type="bibr">2021</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn7">
          <label>7</label>
          <p>Maiores detalhes em ZÉ GOTINHA… (
            <xref alt="2020" rid="ref-b7" ref-type="bibr">2020</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn8">
          <label>8</label>
          <p>Em junho de 2020 o Ministério da Saúde passou a informar somente o número de casos e mortos registrados nas últimas 24 horas (e não o total), omitindo do site informações do acumulado de casos, além do detalhamento por estados. Mais detalhes em BRASIL… (
            <xref alt="2020" rid="ref-b5" ref-type="bibr">2020</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn9">
          <label>9</label>
          <p>Mais detalhes em ‘ABANDONO’… (
            <xref alt="2021" rid="ref-b1" ref-type="bibr">2021</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn10">
          <label>10</label>
          <p>Pode-se considerar esta ilustração de autoria não divulgada como uma charge, uma vez que utiliza de uma de suas principais características, que é ser multimodal (ROJO; MOURA, 2012), ou seja, demanda capacidades múltiplas de linguagens para construir sua significação por completo. Neste caso, a pose do personagem, o formato da seringa e até mesmo a capa de super-herói com a bandeira do Brasil auxiliam na construção de um significado. O discurso militarista é reforçado na legenda que associa arma e vacina.</p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn11">
          <label>11</label>
          <p>A postagem foi possivelmente uma resposta ao ex-presidente Lula da Silva, que dois dias antes afirmou que o presidente Bolsonaro abandonou a figura do Zé Gotinha. Em: LEIA… (
            <xref alt="2021" rid="ref-b11" ref-type="bibr">2021</xref>).
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn12">
          <label>12</label>
          <p>As imagens do Zé Gotinha em naves e dentro da seringa são da animação 
            <italic>Zé Gotinha Contra o Perna de Pau</italic> (1986). Já a animação que apresenta Zé Gotinha como cavaleiro medieval tem um trecho apresentado em 
            <italic>Zé Gotinha – A História</italic>, mas sem datação. Pelo estilo de animação e traços estilizados do personagem, infere-se que se trata da virada dos anos 1990 para os anos 2000. Nem o Mistério da Saúde e nem a FioCruz apresentam um histórico ou arquivo das campanhas do personagem que possa ser consultado.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn13">
          <label>13</label>
          <p>Mais uma vez não foi possível acessar a datação da campanha. O trecho apresentado está presente no vídeo 
            <italic>Zé Gotinha – A História</italic>, mas sem contextualização. Pelo traço do personagem e estilo da animação serem próximos das campanhas do personagem “esportista”, acredita-se que sua animação como cowboy tenha sido veiculada na televisão brasileira em meados dos anos 1990.
          </p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn14">
          <label>14</label>
          <p>Partindo do pressuposto de que o poder é sempre uma relação de forças desiguais que se transfigura constantemente, o autor chama a atenção para as relações de poder que não percebemos. Uma ocultação do poder que se realiza em todas as instituições de forma encenada, normalmente como ação ostensiva em manifestações públicas excessivas.</p>
        </fn>
        <fn fn-type="other" id="fn15">
          <label>15</label>
          <p>Maiores detalhes em Teodoro (
            <xref alt="2011" rid="ref-b19" ref-type="bibr">2011</xref>).
          </p>
        </fn>
      </fn-group>
    </back>
  </article>
