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				<journal-title>Rumores</journal-title>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.1982-677X.rum.2024.232182</article-id>
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					<subject>EDITORIAL</subject>
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				<article-title>Dossiê Crítica da narrativa seriada (parte 2)</article-title>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0">Licença Creative Commons CC BY NC ND</ext-link>
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		<p>No início do 2024, a Revista RuMoRes propôs, como eixo temático para seu dossiê, a “crítica da narrativa seriada”. Ao lançarmos a proposta, não imaginamos que traria resultados tão expressivos, tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo, e que receberíamos numerosos artigos com conceitos e metodologias instigantes para essa reflexão. Alguns meses depois, a presente edição se constitui por mais um conjunto de textos que integram a segunda parte do dossiê, dando continuidade aos debates propostos no número anterior (<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.revistas.usp.br/Rumores/issue/view/13482">https://www.revistas.usp.br/Rumores/issue/view/13482</ext-link>). </p>
		<p>Como anunciado na chamada inicial, partimos da premissa de que a grande oferta de narrativas audiovisuais seriadas na televisão linear ou em serviços de <italic>streaming</italic>, bem como o reconhecimento da qualidade e a expansão do público dessas obras, têm estimulado a crítica cultural nesse campo. Se, como identificou José Luiz <xref ref-type="bibr" rid="B1">Braga (2006</xref>), a crítica jornalística de TV dedicava-se pouco à análise da “economia narrativa” das obras, a complexidade das séries atuais demanda reflexões sobre a poética desses produtos (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Mittell, 2015</xref>). Para Marcel <xref ref-type="bibr" rid="B6">Silva (2014</xref>), configurou-se, na contemporaneidade, uma cultura das séries, constituída por vetores relacionados a formas narrativas, contexto tecnológico e modos de consumo.</p>
		<p>Nesse último ponto, <xref ref-type="bibr" rid="B6">Silva (2014</xref>, p. 249) destaca “a crescente quantidade de material, tanto noticioso quanto crítico, inclusive com espaços próprios dedicados ao fenômeno”, que fomenta o debate e estimula o consumo da ficção televisiva. Proliferam-se publicações especializadas, produzidas por jornalistas, mas também sites e canais criados e mantidos por “profissionais de outras áreas que em seu tempo livre escrevem e pesquisam sobre séries [...]” (Silva, 2014, p. 250). Muitos críticos de televisão passaram a privilegiar a análise de séries; outros, antes apenas dedicados ao cinema, começaram a escrever sobre essas narrativas (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Mousinho, 2023</xref>); e há ainda aqueles que surgiram, no período, já especializados nas séries. Emily Nussbaum, crítica da revista <italic>The New Yorker</italic> e ganhadora do Pulitzer, considerou, no início da carreira, à semelhança da obra seminal de Arlindo <xref ref-type="bibr" rid="B2">Machado (2000</xref>), que a televisão “merecia uma atitude crítica menos constrangida - uma linguagem que tratasse a televisão por meio de suas potências próprias, e não como uma irmã fraca de outras mídias superiores” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Nussbaum, 2019</xref>, p. 10, tradução nossa). </p>
		<p>Para Nussbaum, uma conjunção de fatores torna a televisão uma arte distinta das outras, tais como seu caráter dosificado e formulaico, a natureza fortemente colaborativa - que dificulta emergências autorais e assinaturas (algo que a categoria do <italic>showrunner</italic> veio reivindicar, pelo menos em termos retóricos) -, a preponderância da escritura, o tempo alongado de produção e espectatorialidade. Esses e outros fatores, somados a aspectos pertinentes à forma cultural seriada, são abordados pela crítica, o que diferencia a análise das séries da de outras formas narrativas audiovisuais. Convém assinalar ainda que a própria crítica, originalmente publicada em jornais em revistas ou mesmo em sites e blogs, de forma escrita, desdobrou-se em outros formatos, que abarcam, por exemplo, vídeo-ensaios e podcasts, de autoria individual ou na forma de conversação ou debate. </p>
		<p>A partir dessa configuração mais recente do campo da crítica sobre produções audiovisuais seriadas, o dossiê publicado ao longo deste ano teve como objetivo debater aspectos e desafios da atividade, dentre eles: critérios, valores e abordagens da crítica de séries; elementos de serialidade e categorias analíticas; formatos da crítica de série nas redes digitais; crítica e cultura de fãs; espaços de conversação entre crítica, público e instâncias de produção; crítica de série e crítica cinematográfica: aproximações e distanciamentos; transformações na crítica profissional, especializada ou popular; criação, circulação e consumo cultural de produções audiovisuais; aspectos sociais, políticos, éticos e estéticos relacionados às narrativas seriadas contemporâneas.</p>
		<p>Diante dessas e de outras questões, uma vez mais são reunidos aqui textos que investigam a crítica de séries por meio de abordagens diversas, realizada em veículos jornalísticos e em outras instâncias midiáticas, como vemos nos artigos agora publicados. Em “A estética armorial em <italic>A pedra do reino</italic> de Luiz Fernando Carvalho”, Marco Túlio Ulhôa analisa alguns dos conceitos estéticos produzidos pelo Movimento Armorial, abordando a obra e o pensamento do escritor, poeta e dramaturgo, Ariano Suassuna, na exposição das relações existentes entre a arte armorial, o barroco, o regionalismo e a cultura popular. Gabriela Alves, Claudia Garcia, Dyone Arruda Cypriano, Raabe Bastos e Regina Trindade buscam evidenciar, a partir de uma escrita coletiva, presenças e materializações de representatividades femininas ligadas às lesbianidades, à aparência e envelhecimento de corpos femininos, à solidão da mulher negra e à cultura do estupro em produções audiovisuais. No artigo “Mulheres em série(s): presenças e materialidades femininas em ficções seriadas contemporâneas”, as obras abordadas são a telenovela <italic>Vai na fé</italic> (2023) e as séries <italic>And just like that</italic> (2021), <italic>Insecure</italic> (2016) e <italic>The handmaid’s tale</italic> (2017). O principal objetivo é trazer para o primeiro plano experiências femininas diversas, a partir de uma metodologia de análise da narrativa seriada. </p>
		<p>Tendo por base o preceito da constituição dialógica do discurso na minissérie televisiva <italic>Juana Inés</italic> (2016), a qual retrata a vida da freira e escritora mexicana seiscentista, Nara Lya Cabral Scabin e Fernanda Elouise Budag observam que o <italic>ser-mulher</italic> desempenha papel central à construção da narrativa e à representação de sua protagonista. No artigo “O ser-mulher na narrativa seriada mexicana <italic>Juana Inés</italic>: entre a lógica do empoderamento individual e a construção de identificações latinas”, as autoras apontam o atravessamento de uma perspectiva afirmativa e a incorporação da lógica do empoderamento individual, sem, contudo, esvaziar um potencial político e de identificação latina. Em “<italic>Magnífica 70</italic>: precariedade opulenta e brasilidade conspícua em uma série original brasileira HBO”, Christian Hugo Pelegrini e Maria Cristina Palma Mungioli debatem as escolhas estilísticas realizadas nessa série. Com base na intermidialidade, a análise desvela aspectos de uma brasilidade conspícua estrategicamente representados na narrativa de modo a conferir, intradiegeticamente, uma identidade de origem por meio do discurso sobre a Ditadura Militar (1964-1985) e, extradiegeticamente, construir a marca HBO como sinônimo de qualidade.</p>
		<p>Já em “<italic>Bom dia, Verônica</italic>: intermidialidade <italic>streaming</italic>, hibridação narrativa e a mediação cultural local-global”, Carlos Pereira Gonçalves realiza uma análise crítica da primeira temporada da série, coprodução da plataforma Netflix com a empresa Zola Filmes, obra criada a partir de romance homônimo. O texto se propõe a discutir três abordagens midiáticas e narratológicas: o processo social de intermidialidade tendo em vista os formatos “série de TV” e “websérie”, com foco ao campo audiovisual nacional; os gêneros e a questão da hibridação narrativa; e a mediação cultural local-global. Mauricio de Souza Fanfa, Ana Clara Lima Ribeiro e Mar Rodrigues Fonseca, por sua vez, analisam elementos de narrativas de <italic>streaming</italic> para identificar características promotoras de mundialização atuais da cultura de séries. Em “Elementos mundializados em narrativas de <italic>streaming</italic>: padronização e cultura de séries em <italic>Young royals</italic>, <italic>Wandinha</italic> e <italic>Sex education</italic>”, são identificados aspectos de padronização em representação de estereótipos, ambientações, elementos estéticos e narrativos em tais séries, característicos de modos de mundialização de narrativas seriadas do <italic>streaming</italic>. No âmbito de narrativas do cotidiano e da intimidade, “Dizis turcas: o romance, o sensorial e o erótico”, de Carolina Oliveira do Amaral, apresenta obras seriadas baseadas em tramas românticas para construção de ganchos, clímax e reviravoltas narrativas, com poucas demonstrações físicas de intimidade por conta da censura no país de origem, mas que mesmo assim, criam uma atmosfera erótica a partir dessas tramas.</p>
		<p>A seção Temas Livres traz três artigos também sobre questões locais ou globais em obras audiovisuais . No primeiro deles, “A circulação e as interpretações de <italic>Que horas ela volta?</italic>”, Eduardo Paschoal de Sousa tem como intuito analisar a circulação crítica do filme <italic>Que horas ela volta?</italic> (2015), desde seu lançamento. A partir das reações acerca do filme, inclusive em suas consecutivas exibições na TV aberta, o texto busca mapear suas interpretações recorrentes. Refletindo também sobre a crítica audiovisual de obras cinematográficas, Cecília Antakly de Mello e Luna Gonçalves D’Alama analisam no artigo “A crítica cinematográfica nos filmes brasileiros <italic>Benzinho</italic> e <italic>A mãe</italic>” críticas jornalísticas dos filmes <italic>Benzinho</italic> (2018) e <italic>A mãe</italic> (2022), publicadas na grande mídia pelos críticos Luiz Carlos Merten, Eduardo Escorel e Flavia Guerra. Finalmente, o texto “Netflix, cosmopolitismo e a construção de um <italic>ethos</italic> discursivo de diversidade”, de Natalia Engler Prudencio, tem por objetivo discutir como a noção de diversidade tem sido tematizada na construção de marca da Netflix como uma forma da plataforma estratificar seu público diante de um mercado globalizado. A autora aponta que tal estratégia visa posicionar a marca como agente de mudanças cosmopolita e comprometido com as identidades de públicos e criadores.</p>
		<p>No encerramento de mais um ciclo de trabalho, desejamos uma boa leitura e um novo ano que potencialize a força transformadora do pensamento e da cultura, reafirmando o papel incomparável da crítica na construção de uma sociedade mais fraterna e justa.</p>
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			<sig>Marcio Serelle</sig>
			<sig>Rosana de Lima Soares</sig> dezembro de 2024</sig-block>
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			<title>Referências</title>
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				<mixed-citation>Braga, J. L. <italic>A sociedade enfrenta sua mídia:</italic> dispositivos sociais de crítica midiática. Paulus, 2006.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Machado, A. <italic>A televisão levada a sério</italic>. São Paulo: Senac, 2000.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Mittell, J. <italic>Complex TV</italic> - the poetics of contemporary television storytelling. New York, London: New York University Press, 2015.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Mousinho, L. A. O bruxo solto: Capitu, na TV, pelo olhar da crítica jornalística. In: <italic>O mal-assombrado e o iluminado dia diário:</italic> narrativas e vozes sociais no cinema e na TV. João Pessoa: Editora UFPB, 2023. p. 120-138.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Nussbaum, E. <italic>I like to watch</italic>. New York: Random House: 2019.</mixed-citation>
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