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				<journal-title>Rumores</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">RuMoRes - Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias</abbrev-journal-title>
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					<subject>Ensaio</subject>
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				<article-title>Três motivos para uma linguagem da esperança</article-title>
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						<given-names>Juarez Rocha</given-names>
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					<bio>
						<p>Professor Titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais, tem sua pesquisa voltada em especial para as tradições republicanas no campo da teoria política. Nas áreas do pensamento político e social brasileiro, dedica-se às teorias marxistas, feministas e antiracista. Autor de diversos livros, entre eles O mundo real – socialismo na era pós-neoliberal (L&amp;PM, 2008) e PT 40 anos: a história aberta (Renascença, 2021).</p>
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					<institution content-type="original"> Professor Titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais, tem sua pesquisa voltada em especial para as tradições republicanas no campo da teoria política. Nas áreas do pensamento político e social brasileiro, dedica-se às teorias marxistas, feministas e antirracista. Autor de diversos livros, entre eles “O mundo real - socialismo na era pós-neoliberal” (L&amp;PM, 2008) e “PT 40 anos: a história aberta” (Renascença, 2021). Brasil. E-mail: juarezrg15@gmail.com</institution>
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			<title>A esperança é uma subversão</title>
			<p>Equilibrando-se entre a histórica declaração de direitos que é a Constituição de 1988 e as agruras do governo Sarney, a sociedade brasileira foi catalisada pelo mote “Sem medo de ser feliz” nas eleições presidenciais de 1989. Parecia mesmo desafiar este outro mote da talvez mais linda canção da bossa-nova, aquela que versava que a felicidade, como o carnaval, tinha a vida breve.</p>
			<p>Nas eleições seguintes, o medo ao incerto, à mudança, ao desconhecido foi mobilizado pelas forças conservadoras em oposição à esperança de ser feliz. Aquela atriz que representou esta peça de advertência terminou apoiando entusiasticamente Bolsonaro, hoje sabemos. A resposta política a esta advertência alarmista e conformista veio com um mote atualizado: “A esperança vai vencer o medo”. </p>
			<p>Se hoje se retorna ao motivo da esperança, é porque estamos felizmente condenados a ela. A desesperança - mais do que o medo - é hoje a nossa grande inimiga. Já Carlos Drummond de Andrade nos falava da “força das coisas”, diante da qual as vontades humanas coletivas parecem impotentes na história.</p>
			<p>“Não há alternativa” continua sendo o lema central do neoliberalismo, após a crise final do mal chamado socialismo real, nesta sua quinta década de dominância internacional, o que nos permite falar propriamente de uma Era Neoliberal. Se a vida não está boa, se o próprio mundo ameaça perecer, a saída parece um labirinto, o horizonte está fechado.</p>
			<p>Quando se avalia a recém-eleição de Trump, conclui-se que sua vitória é, na verdade, a derrota do Partido Democrata. Este diminuiu nove milhões de votos em relação a 2020. Trump cresceu 1,5 milhão de votos. Foi sobretudo a desesperança em relação ao governo do Partido Democrata, que não cumpriu suas promessas de refundar o <italic>New Deal</italic> de Roosevelt e lançou o país em duas guerras infames, que abriu o caminho à vitória da extrema-direita.</p>
			<p>Quando se olha mais de perto as recentes eleições municipais brasileiras, com o crescimento de partidos conservadores da direita liberal e um importante protagonismo da extrema-direita neoliberal bolsonarista, com a continuidade das abstenções para mais de 30% do eleitorado, de novo é a desesperança que parece estar no centro. É ela - o descrédito na mudança possível - que alimenta o conservador e, pior, as vontades de regressão civilizatórias, das quais Bolsonaro no Brasil é ainda o símbolo, embora hoje apareçam vários candidatos alternativos na mesma vertente do carisma do ódio. </p>
			<p>Quando publicamos, em coautoria com a economista Marilane Teixeira, em agosto de 2024 o ensaio “Retomar o caminho da esperança”, advertindo já sobre um provável resultado adverso nas urnas para as forças democráticas e progressistas nas eleições municipais desse ano, estávamos operando a partir deste juízo. Apesar de melhorias importantes, medida por índices macroeconômicos, o governo Lula ainda não havia conseguido transitar para um patamar qualitativamente novo de bem-estar na vida do povo brasileiro. Os brasileiros viveram, na última década, os dois anos de dura recessão no segundo governo Dilma, fortes ataques aos seus direitos durante o governo Temer, uma pandemia com resultados catastróficos frente ao negacionismo do governo federal, as devastadoras políticas sociais e ambientais do governo Bolsonaro, além de agravamento das crises climáticas e da violência, principalmente contra os negros e as mulheres. A vida da maioria das classes trabalhadoras - ainda marcada pela precarização generalizada de seus direitos e enfraquecimento dos sindicatos - é um inferno cotidiano. Frente à carestia dos alimentos e de outros preços de serviços fundamentais à reprodução da vida social, é ainda alto o índice de insegurança alimentar apesar dos avanços notáveis conseguidos pela reativação e ampliação do Bolsa-Família. </p>
			<p>Em síntese, entre a decisiva, mas frágil vitória da esperança nas eleições presidenciais de 2022 contra Bolsonaro, criou-se um importante hiato que pode vir a ser fatal em 2026. O desafio democrático central parece ser, pois, o de recuperar as razões da esperança. Mas existem mesmo essas razões?</p>
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		<sec>
			<title>A esperança é uma razão</title>
			<p>Ao diverso da fé, a esperança precisa de razões para continuar. Ela prescinde certamente da linguagem das certezas, das fatalidades, dos destinos inexoráveis, pois mantém um laço decisivo com a própria liberdade. Se o futuro está de antemão previsto, em qualquer hipótese, boa ou má, então o espaço para a construção coletiva democrática dos caminhos possíveis por uma sociedade perde o sentido. Ao contrário dos credos das certezas, a esperança fala a linguagem do talvez, dos possíveis, das previsões condicionadas, da ampliação dos horizontes da história e dialoga com tudo aquilo que não pode ser de antemão previsto. A esperança é venturosa.</p>
			<p>Ao contrário da ilusão, as razões da esperança - é sempre pertinente falar dessas razões não no singular mas no pluralismo dos sujeitos sociais da transformação - devem se assentar em um diagnóstico da realidade. Há decerto conformismos que se chamam realismos, que fazem curvar as vontades coletivas aos imperativos daquele que existe. Mas o mundo social é atravessado por contradições, elas fazem mover a história e é por isso, já se disse, que o deveras realista não descrê das utopias. Elas estão, em potência, como um possível, inscritas na trama das contradições que organizam a sociedade de classes. As teorias críticas, em geral, zelam por uma coerência entre o diagnóstico e a superação dos impasses de uma sociedade em uma determinada conjuntura. Assim pensada, a esperança é realista. </p>
			<p>Se é ameaçadora a perspectiva de quatro anos de um governo Trump, agora com o controle dos quatro principais comandos contramajoritários da democracia liberal norte-americana (o Executivo federal, a Câmara Federal, o Senado e a Suprema Corte), a um tal ponto que ainda não é possível prognosticar o extenso campo de barbárie que daí resultará, não é verdade que há uma invencível onda internacional de vitórias da extrema-direita pelo mundo. Eleições recentes no Uruguai, México, França, Inglaterra e mesmo na Alemanha não confirmam um caminho olímpico de triunfos da extrema-direita. O próprio governo Trump, já no início de seu mandato, mostra um promissor indício de crescimento de sua impopularidade.</p>
			<p>O diagnóstico mais preciso é que estamos diante de uma profunda crise de civilização, certamente a maior desde o período da ascensão do nazifascismo e da Segunda Guerra Mundial. Uma crise de civilização pode ser hoje definida como aquela no qual o patamar básico de vida democrática e republicana, o respeito universal aos direitos humanos, está sob ataque em todas as suas linhas. Essa crise não parece ser de resolução no curto e médio prazo e se insere no grande ciclo histórico da crise da hegemonia norte-americana, da sua incapacidade crescente de liderar o mundo a partir de seus próprios interesses e valores. É certamente útil aqui o conceito de “caos sistêmico”, trabalhado já por Giovanni <xref ref-type="bibr" rid="B1">Arrighi (1999</xref>) em <italic>O longo século XX</italic>, esse período intervalar da história no qual o sistema-mundo perde o seu centro de organização e abre-se às forças centrífugas da desorganização, aberto conflito e mudanças. </p>
			<p>O futuro está, nessa perspectiva, em disputa. E seria um grave erro conceder de partida a vitória às forças da barbárie e descrer, subestimar, tratar apenas com um sinal de menos, as forças políticas, sociais, culturais da resistência e mudança. Aqui, nesta visão histórica larga, estão de novo presentes as razões da esperança. </p>
			<p>A razão primeira da esperança é a crise da dominação neoliberal, que tem o seu epicentro na crise do Estado norte-americano e de seu poder geopolítico. É aqui fundamental a distinção entre hegemonia e dominação: uma ordem pode ser dominante sem ser hegemônica, no sentido preciso que lhe confere Antonio Gramsci. A hegemonia está conceituada como um princípio de civilização que é tão potente que obriga os seus adversários a se opor a ele em sua própria linguagem. Ela é capaz de incluir social e politicamente os dominados, incorporando em alguma medida os seus interesses, sempre de forma subalterna. A partir destas duas dimensões - sua potência em traduzir universais a partir de seus valores, de incluir subordinando -, a hegemonia constrói períodos de estabilidade, no qual as contradições são pactuadas e reguladas no interior mesmo da ordem. </p>
			<p>Nesse sentido, a ordem neoliberal tornou-se dominante no mundo, atingindo o seu máximo de poder no período que vai do fim da URSS até a crise financeira mundial de 2008, mas não formou uma hegemonia. O senso comum neoliberal, amplamente apoiado em controles midiáticos corporativos, é certamente orgânico à crescente mercantilização da vida social, mas ele não se enraíza nas classes populares e trabalhadoras de forma estável pois está em contradição mesmo com a vida cotidiana da grande maioria que não vê realizadas as promessas de enriquecimento apregoadas pela cantilena neoliberal.</p>
			<p>Esse sentido da apartação e da não inclusão da dominação neoliberal é visível no plano internacional e das economias nacionais nas quais tem prevalecido o regime de Estado neoliberal. O neoliberalismo aprofundou de maneira dramática a desigualdade social e no plano internacional entre o centro e as periferias capitalistas. A dificuldade de manter adesão a seus princípios, diante da evidência do não cumprimento de suas promessas, foi desde o início compensada pelo aumento qualitativos dos poderes repressivos dos Estados e pela reiteração das guerras e dinâmicas coloniais no plano internacional. Ao mesmo tempo, a diminuição dos espaços de negociação pelo estrangulamento das dimensões públicas das democracias liberais e o sentido dissolvente das instituições internacionais em torno ao sistema ONU pelo unilateralismo de potência norte-americana, amplifica os conflitos. A brutal regressividade social, patriarcal e racialista das agendas neoliberais amplifica as zonas abertas de conflito.</p>
			<p>Em suma, não estamos diante de uma ordem estável, legitimada pelas maiorias, que reúne a maioria, mesmo hierarquicamente, ao seu redor. Há uma crise de legitimidade dos fundamentos neoliberais de civilização cada vez mais profunda e grandes deslocamentos de opinião, de correlação de forças políticas, nos planos nacional e internacional, são possíveis nesse período largo de crise sistêmica. É nessas potencialidades, nessas brechas abertas da dominação, na insurgência diante dos valores neoliberais em torno aos direitos fundamentais que a esperança pode exercer a sua capacidade catalizadora.</p>
			<p>A segunda razão da esperança diz respeito ao estado atual do ciclo histórico de organização política, social e cultural das classes trabalhadoras e populares, das forças democráticas progressistas, iniciada algumas décadas atrás na resistência e superação da ditadura militar. Estas forças de transformação social passaram por vários ciclos desde então, de magníficas ondas de manifestação classista e de greves, de heroicas lutas pela reforma agrária no campo, de construção de redes públicas de educação popular freyrianas e de construção do maior sistema público de saúde do mundo, de ativação de feminismos e de expansão do protagonismo social das mulheres, de organização unitária dos povos indígenas e de suas culturas, de enraizamento social dos cristianismos da libertação, dos movimentos de ocupação por moradia nas grandes cidades, de belíssimas expressões no campo da cultura, de movimentos pela liberdade de ser e amar que arrancaram da ordem conservadora brasileira importantes conquistas, de aprofundamento e generalização de políticas sociais contra a fome e exclusão, de expansão e democratização do acesso racial e social às universidades públicas, de protagonismos latino-americanos e internacionais. </p>
			<p>Vive-se hoje na sociedade brasileira impasses profundos destes movimentos que testaram historicamente nas últimas décadas os limites conservadores da ordem da dominação no Brasil. Certamente hoje a cultura brasileira, diante da fase mais regressiva do neoliberalismo, exposta no bolsonarismo, vive pulsões de morte com uma intensidade inédita talvez desde o período da escravidão. Mas são ainda mais fortes as pulsões de vida, de alegrias e sonhos de bem viver, agora com uma expressão pública mais notável dos valores feministas e antirracistas. Os motivos de festa ainda são mais potentes que os motivos do luto. O carnaval é, ainda, a nossa festa nacional. Se unidas em seu pluralismo e dotadas de um programa que bem traduza os valores da esperança e da universalização dos direitos, estas forças têm capacidade de vencer a extrema-direita neoliberal.</p>
			<p>Uma terceira razão da esperança está na consciência democrática dos brasileiros, que rejeitou a tentativa de golpe recente e que legitima o julgamento dos golpistas, inclusive aqueles vestidos de alta hierarquia militar. Esse é certamente um grande teste, ainda em processo e em disputa na democracia brasileira. A democracia liberal norte-americana, com seus sistemas de justiça contramajoritários, não foi capaz de parar Trump. Mas, no caso brasileiro, há um tal estreitamento de interesses reunidos no centro das classes dominantes - o capital financeiro internacionalizado e o agronegócio voltado para os mercados mundiais de <italic>commodities</italic> - que a defesa da república democrática tem potencialmente uma base majoritária muito extensa. O povo entende a democracia através da linguagem dos seus direitos fundamentais. Se a esperança souber falar, de forma plena e efetiva, a partir de seus direitos ela tem uma potência democrática irresistível.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A esperança é uma linguagem de promissão</title>
			<p>A dominação neoliberal constituiu em torno de si, ao longo do seu período de formação, de chegada aos centros do poder mundial e de seus processos de expansão internacional, uma espécie de dicionário, em geral compilado em anglo-saxão. Se examinados com uma lente crítica mais profunda, os pensamentos que deram origem a esta linguagem são rasos, inconsistentes e autorreferidos em suas razões dogmáticas. Mas têm, desde sua origem, uma notável característica propagandística, afeita às linguagens da publicidade mercantil.</p>
			<p>Como essa linguagem tem em seu centro um conceito de liberdade, ontologicamente pensado na vida que se mercadeja no horizonte da reprodução do capital, ela pretende submeter todas as esferas da vida social à pulsão mercantil. Longe de ser, portanto, uma linguagem que se estreita ao campo econômico ela pretende universalizar esta lógica mercantil. Não se trata propriamente de um economicismo, restrita a um campo de conhecimento ou de atividade, mas de uma <italic>economicização</italic> da vida e dos próprios corpos em um sentido totalizante. </p>
			<p>Os neoliberais apresentam-se desde o início e com frequência como críticos do Estado democrático, mesmo em seu formato liberal democrático, mas lutam pelo poder de Estado como cães raivosos. Se examinados mais de perto, mais além de seus slogans publicitários, o neoliberalismo propõe e luta, com todas as armas possíveis, por novos regimes de Estado liberal. Por isso, propõem quase sempre mudanças constitucionais, novos padrões e procedimentos de governança, que confinam a lógica dos cidadãos e dos atores políticos a seu círculo de ferro. Nesse círculo de ferro, que se autolegitima através da linguagem neoliberal, o cidadão é vocacionado à desesperança da transformação social.</p>
			<p>Há, decerto, uma macroeconomia da desesperança, que acerta uma linguagem conformista a individualismo egóticos, à concorrência e às incertezas e vulnerabilidades próprias de quem se insere no cosmos mercantil e vê o fundamento de seus direitos soçobrarem.</p>
			<p>Seria preciso construir, portanto, uma espécie de antidicionário neoliberal. Uma linguagem expressiva da esperança pública, capa de derrotar os discursos do ódio, do medo e das neuroses massificadas. Uma linguagem, enfim, que dialogue com as pulsões de vida hoje oprimidas.</p>
			<p>De uma exemplaridade atualíssima neste sentido vem sendo a proposta de superação da jornada 6×1 e por uma jornada de trabalho de 36 horas, sem redução de salários. Ela dialoga criticamente e propõe uma alternativa ao estresse do trabalho na sociedade neoliberal, sobrecarregado pela extensão da jornada e pela compressão dos salários. A sua repercussão e a adesão imediata que recebeu, muito massiva, ultrapassando os circuitos restritos de opinião já formada, diz bem da sua sensibilidade em trazer à tona o próprio sentido do viver, do tempo livre, do lazer, da saúde, da superação do trabalho doméstico invisível, das neuroses do trabalho e da fadiga permanente.</p>
			<p>Ao mesmo tempo esta demanda tão contemporânea é clássica, já que no centro da crítica de Marx ao capitalismo, que identifica a produção cada vez mais social e uma apropriação cada vez mais privada das riquezas através do uso predatório da tecnologia no plano social e da natureza. A liberdade aspira o tempo livre, pensava Marx, na sua maturidade crítica ao dinamismo autofágico da reprodução do capital. Mais além de possível, outro modo de viver seria necessário.</p>
			<p>Ao ousar transgredir o círculo de ferro neoliberal, esta demanda da superação da jornada 6×1 traz, em si mesma, uma gramática de luta contra o capitalismo neoliberal. Ela constitui, assim, um vetor de formação da linguagem pública da esperança.</p>
			<p>Será preciso, então, fundar uma macroeconomia da esperança, uma política participativa da esperança, uma nova moralidade pública da esperança. Ou seja, uma linguagem pública da promissão aqui e agora. </p>
		</sec>
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			<title>Referências</title>
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				<mixed-citation>ARRIGHI, G. <italic>Chaos and governance in the modern world system</italic>. Minnesota: University of Minnesota Press, 1999.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>GUIMARÃES, J. R. A Astúcia do marxismo: reflexão sobre a problemática do trabalho no final do milênio. <italic>Temáticas</italic>, Campinas, v. 2, n. 3, p. 1-11, 1994. https://doi.org/10.20396/tematicas.v2i3.11716</mixed-citation>
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