Leptospirose em suínos ferais e em rebanhos bovinos no Pantanal brasileiro
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.1678-4456.bjvras.2025.237487Palavras-chave:
Interface vida selvagem-pecuária, Sus scrofa, Soroprevalência, Leptospira interrogans, Saúde ÚnicaResumo
A leptospirose é uma zoonose endêmica altamente prevalente em bovinos e em animais silvestres no Pantanal brasileiro. Alguns sorovares tipicamente encontrados em suiformes foram relatados em rebanhos bovinos, levantando suspeitas de transmissão interespecífica. Para avaliar o risco que suínos ferais (Sus scrofa) poderiam representar às fazendas da região do Pantanal do Mato Grosso do Sul, foi realizado um inquérito soroepidemiológico durante as estações secas de 2010 e 2011, no qual 151 suínos ferais foram capturados nas sub-regiões da Nhecolândia e Abobral. Amostras de sangue foram coletadas para análise sorológica, e 30 animais foram aleatoriamente eutanasiados para necropsia. Por meio do teste de soroaglutinação microscópica (SAM), foram identificados 108 indivíduos positivos (71,52%), sendo que os sorovares Icterohaemorrhagiae, Pomona e Autumnalis foram os mais frequentemente detectados e estão geralmente associados a roedores e suínos domésticos. Pomona e Autumnalis apresentaram os títulos mais elevados (1:12.400 e 1:1.600, respectivamente). Pela coloração de Warthin–Starry, estruturas compatíveis com Leptospira sp. foram observadas no interior de túbulos renais de duas amostras de rins. Paralelamente, 266 amostras de soro bovino foram testadas, das quais 204 foram positivas (76,69%), predominantemente para os sorovares Hardjo, Tarassovi e Grippotyphosa – comumente relacionados a bovinos, suínos domésticos e roedores. Este representa o maior estudo envolvendo amostragem de suínos ferais de vida livre no Brasil e descreve a maior prevalência de leptospirose registrada nesses animais nas últimas quatro décadas. Apesar da alta soropositividade nos suínos ferais, a sobreposição limitada entre os sorovares predominantes sugere um baixo risco de transmissão direta para os bovinos na região. O controle eficaz da leptospirose em rebanhos no Pantanal brasileiro deve, portanto, priorizar o manejo sanitário interno, minimizando a exposição indireta a fontes de água contaminadas e reduzindo a presença de roedores nas proximidades das instalações.
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