Mexer com peixe, cansar a água: uma etnografia multiespécies nas Terras Altas da Mantiqueira

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v35i1pe236975

Palavras-chave:

Etnografia multiespécies; Serra da Mantiqueira; truta arco-íris; poluição.

Resumo

Por que, com a criação intensiva de truta arco-íris, os moradores poluem a região que tanto admiram? Para responder a essa questão, realizo uma investigação bibliográfica e uma etnografia multiespécies desenvolvida sobre/com uma família que vive na zona rural de Itamonte (MG), nas Terras Altas da Mantiqueira. Analiso as redes de sociabilidade interespecíficas que conectam humanos, trutas e outros seres, descrevendo práticas cotidianas de manejo, percepções locais das águas e conflitos em torno das categorias de nativo/exótico, sujeira e “água cansada”. Em diálogo com debates contemporâneos sobre o Antropoceno, discuto como a criação intensiva de trutas reorganiza relações ecológicas na região, tornando mais porosas as fronteiras entre “criação”, “bichos do mato”, domesticação e asselvajamento. Em suma, o artigo propõe compreender a poluição das águas a partir das categorias nativas mobilizadas pelos interlocutores, destacando como formas situadas de conhecer e viver com peixes, rios e montanhas tensionam os enquadramentos técnico-legais dominantes. 

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Rafael Ribeiro Visconti, Universidade de São Paulo

    Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras (PPG-CIB/IEB-USP). Bacharel em Direito (USP). Cofundador e diretor da organização sem fins lucrativos formigas-de-embaúba, dedicada ao plantio participativo de miniflorestas comunitárias e à restauração das relações entre pessoas e natureza em espaços públicos das cidades.

     

Referências

Behling, Hermann. 1997. “Late Quaternary vegetation, climate and fire history from the tropical mountain region of Morro de Itapeva, SE Brazil.” Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 129: 407–422. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0031018297881771.

Brandão, Carlos Rodrigues. 1983. Os Caipiras de São Paulo. Coleção Tudo É História. São Paulo: Brasiliense.

Bubandt, Nils; Andersen, Astrid Oberborbeck; Cypher, Rachel. 2022. Rubber Boots Methods for the Anthropocene: Doing Fieldwork in Multispecies Worlds. Minneapolis: University of Minnesota Press.

Candido, Antonio. 2010. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida. 11ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul.

Cassidy, Rebecca; Mullin, Molly, orgs. 2007. Where the Wild Things Are Now: Domestication Reconsidered. New York: Routledge.

Chakrabarty, Dipesh. 2009. “The Climate of History: Four Theses.” Critical Inquiry 35(2): 197–222. https://doi.org/10.1086/596640.

Cunha, Manuela Carneiro da; Magalhães, Sônia Barbosa; Adams, Cristina, orgs. 2021. Povos tradicionais e biodiversidade no Brasil: contribuições dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a biodiversidade, políticas e ameaças. Coord. seção 6 Eduardo Neves. São Paulo: SBPC. http://portal.sbpcnet.org.br/livro/povostradicionais6.pdf.

Despret, Vinciane. 2013. “Responding Bodies and Partial Affinities in Human-Animal Worlds.” Theory, Culture & Society 30 (7/8): 51–76. http://web-facstaff.sas.upenn.edu/~cavitch/pdf-library/Despret_Responding.pdf.

Despret, Vinciane. 2022. Autobiografia de um polvo: e outras narrativas de antecipação. Tradução de Milena Duchiade. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Esteves, Francisco de Assis. 1998. “Eutrofização Artificial.” In Fundamentos de limnologia, 2ª ed. Rio de Janeiro: Interciência.

Ezaki, Yuji. 2015. Estudo de autodepuração do efluente da ETE de um loteamento em São José/SC. Universidade Federal de Santa Catarina. https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/160269/TCC%202015-2%20Yuji%20Ezaki.pdf.

Food and Agriculture Organization of The United Nations (FAO). 2011. Small-scale rainbow trout farming. FAO Fisheries and Aquaculture Technical Paper No. 561. Rome, FAO. https://www.fao.org/3/i2125e/i2125e00.pdf.

Ferri, Gil Karlos. 2017. “Araucaria angustifolia: milhões de anos de história.” Revista História Catarina 86: 52–66. https://www.academia.edu/34876510.

Haraway, Donna. 2021. O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridade significativa. Tradução de Pê Moreira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Helmreich, Stefan. 2011. “Nature/Culture/Seawater.” American Anthropologist 113(1): 132–144. https://doi.org/10.1111/j.1548-1433.2010.01311.x.

Henry-Silva, Gustavo; Monteiro, Antonio Fernando. 2008. “Impacto das atividades de aqüicultura e sistemas de tratamento de efluentes com macrófitas aquáticas – relato de caso.” Boletim do Instituto de Pesca 34 (1): 163–173. http://hdl.handle.net/11449/20514.

IBAMA. 1998. Portaria nº 145-N, de 29 de outubro de 1998. Brasília: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. https://www.ibama.gov.br/component/legislacao/?view=legislacao&legislacao=102995.

IGAM. 2019. Avaliação da qualidade das águas superficiais de Minas Gerais em 2018: resumo executivo anual. Belo Horizonte: Instituto Mineiro de Gestão das Águas. http://repositorioigam.meioambiente.mg.gov.br/handle/123456789/3210.

Lazzarotto, Henrique; Caramaschi, Erica. 2009. “Introdução da truta no Brasil e na bacia do rio Macaé, Estado do Rio de Janeiro: histórico, legislação e perspectivas.” OecologiaBrasiliensis 13: 649–659. https://www.researchgate.net/publication/45396814.

Lien, Marianne Elisabeth. 2015. Becoming Salmon: Aquaculture and the Domestication of a Fish. Berkeley: University of California Press.

Lima, Mariana Torres. 2016. Tratamento de Efluentes da Truticultura na Serra da Mantiqueira. Projeto de Graduação, Universidade Federal do Rio de Janeiro. https://www.drhima.poli.ufrj.br/images/documentos/tcc/2016/mariana-torres-2016.pdf.

Lidström, Susanna; West, Simon; Katzschner, Tania; Pérez-Ramos, M. Isabel; Twidle, Hedley. 2016. “Invasive narratives and inverse slow violence: Alien species, science, and society.” Environmental Humanities 8(1): 95–120. https://www.environmentandsociety.org/mml/invasive-narratives-and-inverse-slow-violence-alien-species-science-and-society.

Marques Neto, Roberto. 2017. “O horst da Mantiqueira Meridional: Proposta de compartimentação morfoestrutural para sua porção mineira.” Revista Brasileira de Geomorfologia 18 (3). https://rbgeomorfologia.org.br/rbg/article/view/1118.

Moraes, Munique de Almeida Bispo; Carmo, Clóvis Ferreira do; Tabata, Yara Aiko; Martins Vaz-dos-Santos, André; Mercante, Cacilda Thais Janson. 2016. “Environmental indicators in effluent assessment of rainbow trout (Oncorhynchus mykiss) reared in raceway system through phosphorus and nitrogen.” Brazilian Journal of Biology 76 (4): 1021–1028. http://old.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-69842016000401021.

Pimentel, Patrícia de Cássia Gomes. 2022. A presença indígena na toponímia mineira. Tese de Doutorado, Universidade Federal de Minas Gerais. https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/46507.

Prous, André; Jesus, Soraia Maria; Malta, Ione Mendes. 1987. “Les peintures rupestres de la Toca do Indio, Andrelândia, Minas Gerais, Brésil.” Arquives et Documents, Institut d’Ethnologie. http://www.npa.org.br/doc/leis_peintures_rupestres.pdf.

Pysek, Petr. 1995. “On the terminology used in plant invasion studies.” In Plant Invasions, editado por P. Pysek, K. Prach, M. Rejmanek, e M. Wade, 71–81. Amsterdam: SPB Academic Publishing.

Rezende, Éric Andrade. 2013. Evolução do relevo no divisor hidrográfico entre as bacias dos rios Grande e Paraíba do Sul: um estudo na Serra da Mantiqueira (MG/RJ). Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Minas Gerais. https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/IGCC-98CLVH/1/disserta__o_eric_rezende.pdf.

Sales, Cristiano Lima. 2012. A Estrada Real nos cenários arqueológico, colonial e contemporâneo: Construções e reconstruções histórico-culturais de um caminho. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de São João del-Rei. https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/pghis/dissertacaoCristianoLima.pdf.

Sautchuk, Carlos Emanuel. 2018. “Os antropólogos e a domesticação. Derivações de ressurgências de um conceito.” In Políticas etnográficas no campo da ciência e das tecnologias da vida, editado por Jean Segata e Theofilos Rifiotis, 85–108. Porto Alegre: UFRGS.

Silva, Mariana Silveira Guerra Moura; Losekann, Marcos Eliseu; Hisano, Hamilton.S 2013. Aquicultura: manejo e aproveitamento de efluentes. Jaguariúna: Embrapa Meio Ambiente. https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/972692.

Summerfield, Michael. 1991. Global Geomorphology: An introduction of the study of landforms. New York: Longman Scientific & Technical.

Tsing, Anna. 2015. The Mushroom at the End of the World: On the Possibility of Life in Capitalist Ruins. Princeton: Princeton University Press.

Tsing, Anna. 2018. “Nine provocations for the study of domestication.” In Domestication Gone Wild: Politics and Practices of Multispecies Relations, editado por Heather Anne Swanson, Marianne Elisabeth Lien, e Gro B. Ween, 231–251. Durham: Duke University Press.

Tsing, Anna. 2019. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas.

Villa, Gustavo. 2018. Arqueoastronomia no Sítio Toca do Índio em Andrelândia-MG: Um Estudo de Caso. Núcleo de Pesquisas Arqueológicas - NPA. http://www.npa.org.br/doc/arqueo_astronomia.pdf.

Warren, Charles Richard. 2021. “Beyond ‘Native V. Alien’: Critiques of the Native/Alien Paradigm in the Anthropocene, and Their Implications.” Ethics, Policy & Environment 24(3): 283–305. https://research-repository.st-andrews.ac.uk/bitstream/handle/10023/23775/Warren_2021_EPE_Nativevalien_CC.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

Zalán, Pedro Victor; Oliveira, João Alberto Bach de. 2005. “Origem e Evolução Estrutural do Sistema de Riftes Cenozoicos do Sudeste do Brasil.” Boletim de Geociências da Petrobras 13: 269–300. http://www.neotectonica.ufpr.br/estrutural/6.pdf.

Downloads

Publicado

2026-02-09

Edição

Seção

Artigos e Ensaios

Como Citar

Ribeiro Visconti, R. (2026). Mexer com peixe, cansar a água: uma etnografia multiespécies nas Terras Altas da Mantiqueira. Cadernos De Campo (São Paulo - 1991), 35(1), e236975. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v35i1pe236975