Mexer com peixe, cansar a água: uma etnografia multiespécies nas Terras Altas da Mantiqueira
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v35i1pe236975Palavras-chave:
Etnografia multiespécies; Serra da Mantiqueira; truta arco-íris; poluição.Resumo
Por que, com a criação intensiva de truta arco-íris, os moradores poluem a região que tanto admiram? Para responder a essa questão, realizo uma investigação bibliográfica e uma etnografia multiespécies desenvolvida sobre/com uma família que vive na zona rural de Itamonte (MG), nas Terras Altas da Mantiqueira. Analiso as redes de sociabilidade interespecíficas que conectam humanos, trutas e outros seres, descrevendo práticas cotidianas de manejo, percepções locais das águas e conflitos em torno das categorias de nativo/exótico, sujeira e “água cansada”. Em diálogo com debates contemporâneos sobre o Antropoceno, discuto como a criação intensiva de trutas reorganiza relações ecológicas na região, tornando mais porosas as fronteiras entre “criação”, “bichos do mato”, domesticação e asselvajamento. Em suma, o artigo propõe compreender a poluição das águas a partir das categorias nativas mobilizadas pelos interlocutores, destacando como formas situadas de conhecer e viver com peixes, rios e montanhas tensionam os enquadramentos técnico-legais dominantes.
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eISSN: 2316-9133