Chamada para publicação - Caracol número 32

2025-09-01

Dossiê: A invenção do latino-americanismo no século XIX: a herança colonial em debate

           

            O século XIX foi marcado por múltiplos e intensos debates que procuravam reposicionar cultural e politicamente o mundo americano com relação à Europa e aos Estados Unidos. Embora para muitos intelectuais crioulos o espaço ocidental continuasse funcionando como paradigma de modernidade e progresso, a emergência do americanismo pós-colonial permitiu a valorização da uma especificidade sociocultural das repúblicas do Novo Mundo.

            Um dos eixos iniciais foi a busca da unidade continental em âmbitos político, social e cultural, baseada na recuperação de um passado colonial comum e de um presente republicano projetado como modelo de modernidade política, agora da América para o mundo. Assim, a partir das propostas inaugurais de Simón Bolívar, Frei Fernando Teresa de Mier, Simón Rodríguez, Andrés Bello, Bernardo Monteagudo, Juan Bautista Alberdi, entre outros, surgiram programas políticos confederativos que questionavam os limites culturais e raciais das diversas nações americanas. Em sua famosa Carta de Jamaica (1815), Bolívar advertia: “não somos índios nem europeus, mas sim uma espécie intermediária entre os legítimos proprietários da terra e os usurpadores espanhóis”. Uma frase polêmica que introduz o problema das definições e das fronteiras da composição étnico-racial na América.

            Nesse contexto, a ideia de América Latina e o uso do gentílico latino-americano foram duas das concepções mais influentes na hora de pensar a região em sua dimensão continental e particular. Tais noções foram formuladas simultaneamente, em 1856, pelo chileno Francisco Bilbao, o colombo-panamense Justo Arosemena e o colombiano José María Torres Caicedo, ainda que com alcances culturais, ideológicos e políticos divergentes. Se no início a reivindicação da raça latina esteve vinculada à agenda panlatinista do Segundo Império napoleônico, o conceito de América Latina e seu derivado, o latino-americanismo, foram dispositivos ideológicos e representacionais que serviram não apenas para conceber um projeto sociocultural compartilhado para além das fronteiras nacionais e dos nacionalismos, mas também para questionar o expansionismo norte-americano, as investidas imperialistas e o fortalecimento do colonialismo europeu em escala global.

            A partir dos trabalhos de John L. Phelan, Arturo Ardao e Miguel Rojas Mix, o estudo da emergência do latino-americanismo e sua continuidade nos séculos posteriores também se conectou ao desenvolvimento de perspectivas anticoloniais e anti-imperialistas no subcontinente. No entanto, o latino-americanismo do século XIX também foi debatido e rejeitado por posturas hispanistas e iberistas que defendiam a herança colonial europeia na região. Estas se intensificaram na virada do século, com a elaboração de pautas pan-hispanistas e ibero-americanistas por parte de Espanha e Portugal, apropriadas também por agentes culturais e intelectuais locais.

            Tanto o latino-americanismo quanto o hispanismo e o ibero-americanismo representam programas ideológicos que seguem vigentes em suas múltiplas dimensões e nos debates culturais das últimas décadas com relação à reavaliação do colonialismo e do imperialismo na América Latina. La Ideia de América Latina (2005), de Walter Mignolo, The allure and Power of na idea (2017), de Mauricio Tenorio Trillo, Latinoamericanismos situados (2018), de Fernando Degiovanni, e La invención de Nuestra América (2021), de Carlos Altamirano, são alguns dos títulos que, a partir de diferentes perspectivas crítico-metodológicas, abordam os temas aqui esboçados e que desejamos desenvolver neste número.

            Convidamos pesquisadoras e pesquisadores a explorar e problematizar, a partir de múltiplos enfoques teórico-críticos, os modos como em suas diferentes vertentes no século XIX e início do XX, foram se gestando o latino-americanismo, o hispanismo e o ibero-americanismo que estão na base das primeiras modulações de retóricas e posturas anti-imperialistas e anticoloniais no subcontinente. Para isso, interessa a revisão de textos, narrativas, trajetórias e redes intelectuais envolvidos nesse processo, assim como o destaque de novos arquivos e fontes que permitam complexificar e ampliar o conhecimento sobre nossa história cultural, literária e intelectual.

 

Eixos possíveis para abordar nesta chamada:

  • Os usos políticos e culturais do termo América Latina frente a Hispano-América, Luso-América, América Ibérica ou América Espanhola;
  • O Brasil e a América Latina no século XIX: o difícil caminho para a integração cultural;
  • O Haiti e a América Latina: racismo e emancipação;
  • Ficções do colonialismo: narrativas do passado colonial (romances históricos, poesias, peças teatrais, entre outros);
  • O latino-americanismo e o panlatinismo francês: entre a unidade cultural e o projeto imperial;
  • O indigenismo incipiente e as vozes subalternas no campo intelectual latino-americano;
  • O hispanismo e o iberismo como dispositivos imperiais: escrituras de dominação e anticoloniais;
  • Figurações da mestiçagem: racialização e branquitude no ensaísmo e em obras literárias;
  • Escravidão, abolição e racialização no Império brasileiro: debates intelectuais, resistências e seu lugar no latino-americanismo do século XIX;
  • Os latino-americanistas na Europa e nos Estados Unidos: redes intelectuais, agendas culturais e projetos editoriais transnacionais;
  • Modernismo e Noventayochismo (geração de 1898): tensões e diálogos entre latino-americanismo e hispanismo;
  • A batalha do idioma: hispanismo e latino-americanismo diante das políticas linguísticas;
  • Luta de raças no fim de século: os debates entre latinos e anglo-saxões.

 

Os artigos devem ser submetidos por meio da plataforma da revista Caracol, usando-se o link a seguir: https://www.revistas.usp.br/caracol/about/submissions. Os textos deverão obedecer às normas estabelecidas pela revista, em suas diretrizes para autores disponíveis na mesma página web.

Data-limite para a submissão de artigos: 30/04/2026.

 

Organização do dossiê:

Alvaro Garcia (Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación)

Marcelo Sanhueza (Universidad Alberto Hurtado de Chile)

Laura Hosiasson (Universidade de São Paulo)

 


 

 

Dossier: La invención del latinoamericanismo en el siglo XIX: la herencia colonial en debate 

 

            El siglo XIX fue acompañado por diversas e intensas reflexiones que buscaron relocalizar cultural y políticamente al mundo americano con respecto a Europa y a los Estados Unidos. Si bien para muchos letrados criollos el orbe occidental seguía funcionando como paradigma de modernidad y progreso, la emergencia del americanismo postcolonial permitió valorar la especificidad sociocultural de las repúblicas del Nuevo Mundo.

            Uno de los ejes iniciales fue la búsqueda de la unidad continental a nivel político, social y cultural, basada en la recuperación de un pasado colonial común y de un presente republicano proyectado como modelo de modernidad política desde América hacia el mundo. Así, desde los inaugurales planteamientos de Simón Bolívar, Fray Fernando Teresa de Mier, Simón Rodríguez, Andrés Bello, Bernardo Monteagudo, Juan Bautista Alberdi, entre otros, se elaboraron programas políticos confederativos que se interrogaban por los límites culturales y raciales de las diversas naciones americanas. En su famosa Carta de Jamaica (1815), Bolívar advertía: “no somos indios ni europeos, sino una especie media entre los legítimos propietarios del país y los usurpadores españoles”. Una polémica frase que introduce el problema de las definiciones y las fronteras de la composición étnico-racial en América.

            En este marco, la idea de América Latina y el uso del gentilicio latinoamericano han sido dos de las concepciones más gravitantes a la hora de pensar la región en su dimensión continental y particular. Tales nociones fueron enunciadas paralelamente, durante 1856, por el chileno Francisco Bilbao, el colombo-panameño Justo Arosemena y el colombiano José María Torres Caicedo, aunque con alcances culturales, ideológicos y políticos divergentes. Si bien en sus inicios la reivindicación de la raza latina estuvo vinculada a la agenda panlatinista del Segundo Imperio napoleónico, el concepto de América Latina y su derivado, el latinoamericanismo, fueron dispositivos ideológicos y representacionales que sirvieron no solo para pensar un proyecto sociocultural compartido más allá de las fronteras nacionales y los nacionalismos, sino también para cuestionar el expansionismo estadounidense, las arremetidas imperialistas y el fortalecimiento del colonialismo europeo a escala global.

            Desde los trabajos de John L. Phelan, Arturo Ardao y Miguel Rojas Mix, el estudio de la emergencia del latinoamericanismo y su continuidad en los siglos posteriores se ha conectado también al desarrollo de perspectivas anticolonialistas y antiimperialistas en el subcontinente. Sin embargo, el latinoamericanismo en el siglo XIX fue también discutido y rechazado por posturas hispanistas e iberistas que defendían la herencia colonial europea en la región. Estas se intensificarán en el cambio de siglo con la elaboración de pautas panhispanistas e iberoamericanistas por España y Portugal, apropiadas asimismo por agentes culturales e intelectuales locales.    

Tanto el latinoamericanismo como el hispanismo y el iberoamericanismo expresan programas ideológicos que siguen vigentes en sus múltiples dimensiones y en los debates culturales de las últimas décadas en relación con la reevaluación del colonialismo y el imperialismo en América Latina. La idea de América Latina (2005), de Walter Mignolo, Latin America. The Allure and Power of an Idea (2017), de Mauricio Tenorio Trillo, Latinoamericanismos situados (2018), de Fernando Degiovanni, y La invención de Nuestra América (2021), de Carlos Altamirano, son algunos de los títulos que desde diferentes perspectivas crítico-metodológicas abordan los temas esbozados aquí y que deseamos desarrollar en este número.  

            Invitamos a investigadoras e investigadores a explorar y problematizar desde múltiples enfoques teórico-críticos, el modo cómo en sus diferentes vertientes en el siglo XIX y principios del XX, se fueron gestando el latinoamericanismo, el hispanismo y el iberoamericanismo que están en la base de las primeras modulaciones de retóricas y posturas antiimperialistas y anticolonialistas en el subcontinente. Para ello, interesa la revisión de textos, narrativas, trayectorias y redes intelectuales involucrados en este proceso, así como también relevar nuevos archivos y fuentes que permitan complejizar y ampliar el conocimiento sobre nuestra historia cultural, literaria e intelectual.

 

Ejes posibles para abordar en la presente convocatoria:

Los usos políticos y culturales del término América Latina frente a Hispanoamérica, Luso américa, Iberoamérica o América española;

Brasil y América Latina en el siglo XIX: el difícil camino a la integración cultural;

Haití y América Latina: racismo y emancipación;

Ficciones del coloniaje: narrativas del pasado colonial (novelas históricas, poesías, obras teatrales, entre otras);

El latinoamericanismo y el panlatinismo francés: entre la unidad cultural y el proyecto imperial;

El indigenismo incipiente y las voces subalternas en campo intelectual latinoamericano;

El hispanismo y el iberismo como dispositivos imperiales: escrituras de dominación y anticolonialistas;

Figuraciones del mestizaje: racialización y blanquitud en el ensayismo y en obras literarias; 

Esclavitud, abolición y racialización en el Imperio brasileño: debates intelectuales, resistencias y su lugar en el latinoamericanismo del siglo XIX;

Los latinoamericanistas desde Europa y los Estados Unidos: redes intelectuales, agendas culturales y proyectos editoriales transnacionales;

Modernismo y noventayochismo: tensiones y diálogos entre latinoamericanismo e hispanismo;

La batalla del idioma: hispanismo y latinoamericanismo frente a las políticas lingüísticas;  

Lucha de razas en el fin de siglo: los debates entre latinos y anglosajones;

 

Los artículos deben ser enviados por medio de la plataforma de la revista Caracol en el siguiente link: https://www.revistas.usp.br/caracol/about/submissions. Los textos deben seguir las directrices para autores de la revista, disponibles en la misma página web.

Fecha límite para el envío de los artículos: 30/04/2026.

 


Organización del dossier:

Alvaro Garcia (Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación)

Marcelo Sanhueza (Universidad Alberto Hurtado de Chile)

Laura Hosiasson (Universidade de São Paulo)