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                <institution content-type="original">Wellington Augusto Silva Professor de Literatura Brasileira do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Teoria Literária, bacharel e licenciado em Letras pela UFRJ. Dedica-se ao estudo de narrativas ficcionais contemporâneas.</institution>
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                <corresp id="c01">Contato: <email>silva.wa@gmail.com</email></corresp>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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        <p>Uma nova edição dos primeiros romances do escritor cubano Leonardo Padura chegou aos leitores brasileiros por meio da Boitempo Editorial, em novembro de 2016, integrando a tetralogia “Estações Havana”, que já fora traduzida para a língua portuguesa, há tempos, no Brasil e em Portugal. Entretanto, certa novidade é alcançada, frente às antigas edições, pelo box recém-lançado (com o belo projeto gráfico), pelo menos por dois motivos. Além do extremo cuidado visual, marca da editora Ivana Jinkings, a recente edição dos romances de Padura pode dar sequência ao interesse do leitor brasileiro, para quem o nome do cubano restringia-se, até então, apenas a <italic>O homem que amava os cachorros</italic>. É inegável que este fenômeno editorial – fato surpreendente para um livro de ficção de 600 páginas, no Brasil –, ampliou não apenas o nome, como também o reconhecimento do artista entre o público letrado daqui. E parte da “popularidade” literária da epopeia de Leon Trótski e do exílio de Ramón Mercader em Cuba se transmite para o simpático e colorido box “Estações Havana”, que reúne, além de <italic>Passado perfeito</italic>, os romances <italic>Ventos de quaresma</italic>, <italic>Máscaras</italic> e <italic>Paisagem de outono</italic>. Contudo, dependerá de mais alguns anos para sabermos se as aventuras de Mario Conde, o herói-detetive <italic>habanero</italic> de Padura, que protagoniza a tetralogia, introduzirá mais uma geração de leitores de boas histórias policiais.</p>
        <p>Sabe-se que o gênero policial encontrou terras férteis em todo o continente americano. De tal sorte que há um conhecido veio latinoamericano influenciado por essa forma literária, tão inventivo que é e foi capaz de reelaborar as convenções do clássico europeu. Entre hispanos, lembremo-nos rapidamente dos muito diferentes entre si, Bioy Casares, Ricardo Piglia ou Roberto Bolaño. Já entre brasileiros, existe um extenso séquito formado pelo consagrado Rubem Fonseca, difícil de ser enumerado. Do ponto de vista da crítica, há grande oscilação de avaliações do gênero. Ora tratado como mero produto da cultura de massa, literatura de entretenimento, ora como portador de valor estético, como literatura sem adjetivações. Dita desse modo simplificado, a oposição não dá conta de inúmeras criações artísticas em que, invariavelmente, a figura do detetive, ao empregar meios variados de investigação, parte da observação do real e busca, como que num trabalho ficcional, construir uma narrativa verossímil para o enredo que a vítima (o cliente, o chefe de polícia etc.) lhe denuncia. Com base em poucas pistas, também o escritor oferece a seu leitor a oportunidade de este mesmo ser, através da leitura, um pouco detetive. Seja por procedimentos formais elaborados, seja pela exposição de raciocínios lógicos, a estrutura dos enredos de romances do gênero, por mais inventivas que sejam as obras, contará com o leitor (médio ou experimentado) ávido por desvendar o mistério. É bem verdade que algumas das melhores obras dos escritores latino-americanos citados, subvertendo a forma tradicional, não se interessam em revelar crimes ou criminosos (penso, por exemplo, em <italic>A pista de gelo</italic>, um belo e instigante livro de Bolaño).</p>
        <p>Com <italic>O homem que amava os cachorros</italic>, Leonardo Padura entrou definitivamente no rol daqueles que transformaram as estruturas do romance policial clássico, como que buscando sua própria linguagem ao narrar um evento cujas ressonâncias foram (são?) mundiais. Talvez não seja exagero afirmar que, neste livro, o escritor narra, sob um ponto de vista independente, uma matéria que, passadas décadas, ainda é capaz de despertar paixões entre os estreitos círculos de esquerda.</p>
        <p>A leitura prévia pelo público brasileiro do sucesso <italic>O homem que amava os cachorros</italic> redimensiona o romance <italic>Passado perfeito</italic>, do então jovem escritor. O romance em tela é evidente obra de estreia, do artista buscando nexos da matéria histórica cubana, a impregnar a forma do romance policial. Destaquemos a abertura deste livro, em que Padura, experimentando no gênero, flertando com o <italic>noir</italic>, ao mesmo tempo demonstra ser um escritor construindo estilisticamente uma sintaxe, ela própria tentando abarcar a totalidade das cenas narrativas: do exterior ao interior da cena; da claridade da manhã à consciência do cérebro, ressequido pelos maus-tratos do álcool.</p>
        <p><disp-quote><p>Não precisava nem pensar muito para entender que o mais difícil ia ser abrir os olhos. Aceitar nas pupilas a claridade da manhã que resplandecia nos vidros das janelas e pintava o quarto com sua iluminação gloriosa e então saber que o ato essencial de levantar as pálpebras é admitir que dentro do crânio habita uma massa escorregadia, disposta a empreender um balé doloroso ante o menor movimento de seu corpo (2016, 11).</p></disp-quote></p>
        <p>Vejamos um pouco mais de perto o romance que inaugura as quatro estações <italic>habaneras</italic> da tetralogia de Padura. <italic>Passado perfeito</italic> foi escrito entre 1990 e 1991, portanto após a queda do muro de Berlim, à luz da dissolução da União Soviética e sob o que em Cuba se chamou de “Período</p>
        <p>Especial”, o longo “inverno” de sua Revolução. A referência ao contexto histórico interessa não para enquadrar a obra, mas para lhe verificar o tom, anunciado já nas primeiras linhas. O romance apresenta Mario Conde, o protagonista, da seguinte maneira, um tanto quanto desabonadora: “Na penumbra remota viu a própria imagem de penitente culpado, ajoelhado diante da privada, descarregando ondas de um vômito ambarino e amargo que parecia interminável” (2016, 11). Vê-se que o tipo criado por Padura está a léguas de distância das propagandas edificantes, que marcaram o famigerado realismo socialista.</p>
        <p>É verdade que um detetive, entre marginal e herói, a cumprir ordens de desvendar um desaparecimento, expedidas diretamente pelo major Antonio Rangel, o Velho, chefe da Central de Polícia, não é lá muita novidade no gênero. Entretanto, vê-se o escritor Leonardo Padura, contemporâneo do próprio Mario Conde, com seus trinta e tantos anos, experimentando estilo e linguagem próprios. Note-se, na citação anterior, a herética sintaxe que alia consciência ante as dificuldades com a cambaleante ressaca de rum da noitada.</p>
        <p>A trama é bem adequada aos cânones do gênero. O tenente Mario Conde e o sargento Manuel Palacios estão incumbidos de descobrir as causas do desaparecimento, na noite de Ano Novo, de uma figura de destaque do Ministério da Indústria, o diretor da Empresa Atacadista de Importações e Exportações, e estrela em ascensão, Rafael Morín Rodrigues. Para quem se lembra, o referido ministério adquiriu grande relevância para Cuba desde os primeiros anos da Revolução, com Ernesto Guevara à frente. A importância estratégica da pasta para a Ilha se justifica também pelo bloqueio econômico imposto pelos EUA, até o século XXI.</p>
        <p>A partir da convocação do Velho, o enredo ganha vertigem, ao trançar o passado juvenil de Mario e Rafael, contemporâneos do curso PréUniversitário, com o presente de investigação, na Cuba dos anos 1990. A memória do detetive realça uma espécie de jogo de espelhos, em cuja criação a fábula de Padura se especializa. Serão localizados vários elementos duplos, diversas ironias e muitos polos que se alternam, para onde quer que se olhe, no mundo de <italic>Passado perfeito</italic>. Exemplo disso são os espelhos invertidos das inúmeras frustrações do estudante Mario e a altivez de Rafael; a aspiração a escritor intimista do primeiro e o destaque de presidente da Federação de Estudantes do segundo; o amigo de toda a vida, Carlos, o Magro da juventude, agora morbidamente obeso. Estão contidas nessas fórmulas até mesmo as paixões e traições. O jovem estudante Mario nutre amores secretos por Tamara, que, por sua vez, se casará com o futuro diretor da empresa nacional. A mesma mulher, que dispensara o aspirante a artista, precisará dos serviços do agora detetive por conta da traição conjugal do funcionário prodígio, Rafael Morín.</p>
        <p>Ressalte-se, e com bastante ênfase, o embate íntegro dos policiais de Padura com os crimes ocorridos na província. Na sua literatura, não há espaço para propaganda acrítica do regime, afinal seu romance policial se nutre de crimes, de condutas nem um pouco edificantes dos indivíduos. Contudo, a crítica nos parece mais sutil e menos exasperada do que em outros escritores compatriotas dissidentes. Veja-se o exemplo narrado pelo Capitão Jorrín, colega de departamento de Conde: “Você sabe o que estou investigando agora? A morte de uma criança de treze anos, tenente. (...) Foi morto ontem de manhã, na esquina da própria casa, para roubarem sua bicicleta. Foi morto a golpes, por mais de uma pessoa” (2016, 58). Para o leitor brasileiro, acostumado a narrativas que, de tão brutais, parecem tangenciar uma sádica sedução pela barbárie, não há muita estranheza no caso investigado pelo capitão. Entretanto, toda a sordidez, capaz de chocar Jorrín, não esconde o fato de que a sociedade cubana, com todos os defeitos, ainda assim é capaz de produzir seres um pouco mais humanos. Fiquemos com a declaração indignada do velho capitão: “Este trabalho vai me matar. São quase trinta anos nessa luta e acho que não aguento mais. (...) Eu já deveria estar acostumado com essas coisas, não é? Pois nunca me acostumei, tenente, nunca, e elas me atingem cada vez mais, doem cada vez mais” (2016, 58).</p>
        <p>Enfatizamos as pistas duplas deixadas por Padura ao longo de sua narrativa, pois elas adquirem caráter estrutural. Assim, talvez nos indiquem uma chave de interpretação de seu romance. Elas são capazes de despertar no leitor habilidades detetivescas: 1. Desconfiar das aparências, já que as pistas relacionam o que parece ser e o que é; e 2. Acreditar na intuição. Fundamentando a de Conde, a investigação policial acerca do diretor se constrói a partir de um suposto golpe operado por Rafael Morín. Ao costurar os fios dessa trama de corrupção praticada por uma autoridade acima de qualquer suspeita, a dupla Conde e Palacios dá a ver, pelo ângulo das vidas comuns, o que pode ser uma matéria muito mais interessante do que simplesmente descobrir o criminoso ao final da história.</p>
        <p>O romance pode interessar ao leitor nacional em mais de um sentido. Escrito sob a desconfiança frente às elites que se formam a partir de burocracias, ao ser lido (ou relido) a partir do verão de 2016, à luz das relações promíscuas entre empresários e políticos brasileiros, este romance pode levar os leitores a uma reflexão sobre os significados de um golpe (parlamentar ou econômico, nacional ou individual) e sobre seus agentes, homens de bem, acima de qualquer desconfiança.</p>
        <p>Por fim, <italic>Passado perfeito</italic> talvez seja também uma história sobre a confiança nas pessoas que vivem de seu trabalho e que descobrem seu próprio jeito de serem íntegras, ainda que contraditórias. Como o inválido Magro, que pede a Mario para levá-lo ao enterro do golpista, pois “respeita a morte como fazem aqueles que sabem que vão morrer logo” (2016, 208). Ou mesmo como o próprio Conde que, negando o pedido do amigo, decide com ele “afogar em rum as lembranças ruins, os pensamentos fatídicos, as ideias funestas”, não obstante sabendo que não pode driblá-las, porque “essas merdas sabem nadar” (2016, 208).</p>
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