<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?><!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "../../../JATS-journalpublishing1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" dtd-version="1.1" specific-use="sps-1.9" article-type="book-review" xml:lang="es">
    <front>
        <journal-meta>
            <journal-id journal-id-type="publisher-id">caracol</journal-id>
            <journal-title-group>
                <journal-title>Caracol</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Caracol</abbrev-journal-title>
            </journal-title-group>
            <issn pub-type="ppub">2178-1702</issn>
            <issn pub-type="epub">2317-9651</issn>
            <publisher>
                <publisher-name>Universidade de São Paulo</publisher-name>
            </publisher>
        </journal-meta>
        <article-meta>
            <article-categories>
                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>RESENHAS</subject>
                </subj-group>
            </article-categories>
            <title-group>
                <article-title><italic>Hedonismo e timidez</italic> Pedro Juan Gutiérrez. <italic>Fabián e o caos</italic>. Trad. Paulina Wacht e Ari Roitman. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016, 195 p.</article-title>
            </title-group>
            <contrib-group>
                <contrib contrib-type="author">
                    <name>
                        <surname>Valente</surname>
                        <given-names>Valdemar</given-names>
                        <suffix>Júnior</suffix>
                    </name>
                    <xref ref-type="aff" rid="aff01"/>
                    <xref ref-type="corresp" rid="c01"/>
                </contrib>
            </contrib-group>
            <aff id="aff01">
                <institution content-type="orgname">UERJ</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Faculdade Paraíso</institution>
                <institution content-type="original">Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ e Pós-Doutorado em Literatura Brasileira pela UERJ. Professor Assistente da Universidade Castelo Branco e da Faculdade Paraíso. Autor de Entre a cidade e o campo: Mário de Andrade e a Música Popular.</institution>
            </aff>
            <author-notes>
                <corresp id="c01">Contacto: <email>valdemarvalente@gmail.com</email>
                </corresp>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
                <day>0</day>
                <month>0</month>
                <year>2020</year>
            </pub-date>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
                <season>Jul-Dec</season>
                <year>2016</year>
            </pub-date>
            <issue>12</issue>
            <fpage>252</fpage>
            <lpage>257</lpage>
            <product product-type="book">
                <source>Hedonismo e timidez</source>
                <person-group person-group-type="author">
                    <name>
                        <surname>Gutiérrez</surname>
                        <given-names>Pedro Juan</given-names>
                    </name>
                </person-group>
                <chapter-title>Fabián e o caos</chapter-title>
                <person-group person-group-type="translator">
                    <name>
                        <surname>Wacht</surname>
                        <given-names>Paulina</given-names>
                    </name>
                    <name>
                        <surname>Roitman</surname>
                        <given-names>Ari</given-names>
                    </name>
                </person-group>
                <publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
                <publisher-name>Alfaguara</publisher-name>
                <year>2016</year>
                <size units="pages">195 p</size>
            </product>
            <history>
                <date date-type="received">
                    <day>11</day>
                    <month>09</month>
                    <year>2016</year>
                </date>
                <date date-type="accepted">
                    <day>19</day>
                    <month>10</month>
                    <year>2016</year>
                </date>
            </history>
            <permissions>
                <license license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="es">
                    <license-p>Este es un artículo publicado en acceso abierto (<italic>Open Access</italic>) bajo la licencia <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite su uso, distribución y reproducción en cualquier medio, sin restricciones siempre que el trabajo original sea debidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <counts>
                <fig-count count="0"/>
                <table-count count="0"/>
                <equation-count count="0"/>
                <ref-count count="0"/>
                <page-count count="6"/>
            </counts>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <p>A narrativa de Pedro Juan Gutiérrez promove uma tomada de posição com relação ao socialismo cubano, a partir do que se efetiva nos romances <italic>Trilogia suja de Havana</italic> e <italic>O rei de Havana</italic>, que tematizam não somente os efeitos da crise que se abate sobre a ilha, com o fim da União Soviética, como também as contradições do sistema em vista da precariedade do acesso aos bens de consumo básicos e da falta de liberdade de expressão. Desse modo, a crítica ao regime faz de sua obra um libelo em defesa de direitos que se confrontam com o sistema e suas mazelas mais recônditas. Dono de uma verve poderosa, sua narrativa caminha na direção de uma postura que referencia o lugar da pobreza diante de um regime que, segundo seu relato, concorre para que se mantenham privilégios de classe, contrariando a ideia de uma sociedade que busca abolir as diferenças sociais. A natureza hedonista de quem nunca se adaptou às mudanças impostas pelo socialismo faz do escritor uma espécie de Charles Bukowski, a partir de uma posição que se mantém distante de acreditar nos proveitos do socialismo. Daí o jovem sequioso por sensações colocar-se como personagem em <italic>Fabián e o caos</italic>, romance que aborda sua condição de dissidente do regime que o conduz ao trabalho em uma fábrica de conservas enlatadas onde reencontra Fabián, um homossexual tímido e recluso que, por motivos opostos aos seus, também se constitui em exceção ideológica.</p>
        <p>Nesse contexto, Pedro Juan e Fabián situam-se em pontos isolados que têm em comum o fato de se dissociarem do <italic>ethos</italic> revolucionário, na medida em que discrepam dos objetivos que deles requerem uma cota de sacrifício para a qual não se sentem capacitados a cumprir, por conta do espírito refratário que os impossibilita de servir ao socialismo. Assim, Fabián, filho temporão de Felipe e Lucía, um casal de imigrantes espanhóis, cresce em meio à rejeição do pai, comerciante que se dedica a juntar dinheiro com um estoicismo que o faz acreditar que o filho, concebido na maturidade, represente um gasto para o qual não se preparara. No entanto, todo o esforço no sentido de acumular riquezas acaba em vão, com a eclosão do movimento revolucionário que passa a confiscar bens privados, começando por estatizar os bancos e as petrolíferas norte-americanas, para em seguida expropriar os pequenos e médios empresários, até chegar à camisaria e à importadora de alimentos de Dom Felipe Cugat, nacionalizadas em nome do socialismo que passa a viger em Cuba. A mudança completa nos termos de uma sociedade onde a livre iniciativa até então predominara, a partir uma política de privilégios às grandes empresas multinacionais, desmorona, tendo em vista a queda de Fulgencio Batista e a ascensão de Fidel Castro.</p>
        <p>Por sua vez, Pedro Juan segue na direção contrária às convenções, buscando exercer a liberdade que lhe determina o comportamento, ao ter como inimigos a família, o governo e a religião. Diante da cruzada moralista que tem efeito, as brigas de galos, as corridas de cavalos, os jogos de azar e a prostituição sofrem um duro golpe, aliando-se a isso a Lei Seca que fecha bares e coíbe a produção de rum, cerveja e cigarros. Decorre daí o recrudescimento do sistema, em vista do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos e da mudança completa na ordem do consumo, que passa a relacionar-se à importação oriunda dos países do Leste Europeu. Por conseguinte, os produtos culturais em desacordo com a ideologia socialista, a exemplo do <italic>rock</italic> e do <italic>jazz</italic>, incluindo-se Elvis Presley e Os Beatles, são sumariamente banidos, além do fato de que se busca a correção moral dos indivíduos com desvios ideológicos. Ao serem recrutados a defender o espaço do colégio, montando guarda contra a ameaça de invasão norte-americana, Pedro Juan e Fabián pela primeira vez se aproximam, em que pese a extrema diferença que separa a pesonalidade agressiva e irrequieta de um da timidez e da fragilidade do outro, irmanados a partir das formas da exclusão que os atinge.</p>
        <p>Em seguida, a inadaptação de Fabián ao conjunto de música cubana, de que passa a tomar parte, por insistência de Papito, mesmo que lhe propicie ganhar algum dinheiro, lhe violenta o espírito de artista refinado. As rumbas, boleros e guarachas que interpreta ao piano, nos <italic>nightclubs</italic> do Varadero, nada têm a ver com o cotidiano de semirreclusão do aluno do conservatório de música e seus estudos de Wagner, Mahler, Debussy e Beethoven. No entanto, o contato com <italic>dancings</italic> escuros e enfumaçados, em vias de serem fechados pelo governo, lhe possibilita conhecer Roberto, um jovem jardineiro do hotel onde se hospeda com os demais músicos. O relacionamento se mantém por algum tempo, a partir de encontros em casarões abandonados na praia do Varadero, até que, descobertos pela polícia, são detidos e levados a uma delegacia. Em liberdade, Fabián recorre a uma antiga professora de inglês que, sendo também advogada, usa seus contatos para livrá-lo do julgamento público e da prisão em Agüica, onde a dureza do trabalho em uma indústira de pré-moldados serve para regenerar os desvios ideológicos de vagabundos, homossexuais e religiosos. As aulas no conservatório de música são retomadas, mas o relacionamento com Roberto chega ao fim, assim como o conjunto musical, quando Papito, seu <italic>band-leader</italic>, depois de juntar algum dinheiro, foge com a família para Miami.</p>
        <p>Pedro Juan segue seu caminho de jovem dissidente e coloca-se como um pária do regime. O relacionamento com Regina se dá pela possibilidade de satisfação sexual e termina quando lhe é exigida uma posição frente à formação de uma família, a que se nega com veemência. Em seguida, o relacionamento com Haymé recai no lugar-comum de rum, cerveja e sexo até a exaustão. Do mesmo modo, chega ao fim quando Haymé lhe propõe casar e ter filhos, devendo ele trabalhar como motorista de ônibus ou em uma fábrica de refrigerantes. Diante disso, Pedro Juan reafirma sua postura de insubmissão, depois de ter prestado o serviço militar, ao considerar a caserna como casa de correção. A rigidez do serviço militar faz dele alguém sempre disposto ao confronto, como uma cascavel em seu ninho, prestes a atacar. Em vista de sua condição de inadaptado, é convocado a trabalhar na construção de uma fábrica de conservas enlatadas, onde se depara com a imundície de porcos abatidos, sangue, urina e fezes, bem como a imundície moral dos dirigentes que desviam material e verbas do governo, em meio a ratos e sexo promíscuo.</p>
        <p>A butalidade prossegue no ambiente da fábrica, onde Pedro Juan recebe a tarefa de cobrir de azulejos as paredes da cozinha, quando Fabián lhe aparece depois de vários anos. Despreparado para o serviço, queima-se diante do fogão, por falta total de aptidão. O músico explica a Pedro Juan que aquilo se devia ao fato dele não cumprir os parâmetros para trabalhar com cultura, e que por isso encontrava-se nessa função, tendo sido desligado do conservatório de música e da companhia de ópera. O afastamento devia-se, no entanto, a sua condição de homossexual, o que se constutuía em desvio ideológico grave. Na fábrica, diante de um caldeirão fervente, de onde retira a gordura dos porcos, o pianista clássico é o retrato da infelicidade que atinge os mais sensíveis, colocados à margem como escória do socialismo. Pedro Juan, por sua vez, parece conseguir transitar pelos meandros da violência, da escassez e da censura impostas, a partir de uma capacidade de sobrevivência que se coaduna ao apetite sexual como necessidade de fruição de um momento de cada vez. O sentido de liberdade de que se alimenta não o faz transigir em favor do regime que considera autoritário, na medida em que busca reduzir todos à condição de proletários.</p>
        <p>A fábrica passa a ser um suplício para Fabián, que é transferido para o setor reponsável por cortar em pedaços a carne destinada ao consumo. O trabalho aviltante o faz sentir-se ridículo, sobretudo em função da convivência com uma gente bruta e ignorante que busca anestesiar-se sob o efeito do álcool. De volta a sua casa, depara-se com a enfermidade e a velhice dos pais, por quem passa a devotar enorme desprezo, diante da ruína do sobrado que já fora um símbolo de opulência. O piano não toca mais e Fabián limita-se ao trabalho diário de cortar carne de porco. Na fábrica, atura o desrespeito dos que sorriem da miséria e levam pedaços de carne escondidos na roupa como compensação às agruras regime opressor. Resta-lhe apenas entregar-se, em um banheiro nauseabundo, a Antonio, um operário que o possui com violência e sadismo. Sem ânimo para seguir em frente, assiste a morte dos pais e recebe a notícia da morte de Manolo Albán, tenor do teatro de ópera. Deixa de ir à fábrica e passa os dias trancado, sem atender ao pedido de Pedro Juan para sair de casa, até que seu corpo é encontrado em estado avançado de decomposição.</p>
    </body>
</article>
