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				<article-title>Poéticas y cánones literarios bajo el franquismo. Fernando Larraz y Diego Santos Sánchez (eds.) La casa de la riqueza. Estudios de la cultura de España. Madrid / Frankfurt: Iberoamericana - Vervuert, 2021.</article-title>
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					<institution content-type="original">Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, instituição onde também lecionou Literatura e fez o seu Pós‐doutorado. Pesquisa a poesia do exílio espanhol e seus desdobramentos articulados com a produção teatral e com as artes plásticas. Além de pesquisador acadêmico em literatura e dramaturgia, é desenhista e escritor. Brasil</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo</institution>
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				<corresp id="c1">Contato: <email>forneron@uol.com.br</email>
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		<p><italic>Poéticas y cánones literarios bajo el franquismo</italic>, organizada por Fernando Larraz e Diego Santos, reúne um conjunto fundamental de ensaios para ajudar a compreender o século XX literário espanhol e, por consequência a história político-social espanhola, sobretudo no que é afetado pelas consequências e pelos desastres da Guerra Civil (1936-1939). Duas dessas consequências - que se tornaram circunstâncias - foi o ter que lidar com fortes restrições de uma censura ditatorial e a produção de cultura diante de situações extremas. Os ensaios que constituem <italic>Poéticas y cánones</italic>, por essa razão, também são documentos históricos de restituição que resgatam pensamento e memória dentro de uma história marcada pelo apagamento, que foi uma das práticas do projeto de poder da ditadura franquista (1939-1975). A obra também discute a formação de um cânone literário estruturado por uma ideologia de alienação que distanciou o pensamento crítico e emancipador na medida em que fortaleceu os pressupostos socioculturais de um regime monárquico, cristão-católico e fascista.</p>
		<p>Os organizadores de <italic>Poéticas y cánones</italic> propõem a ideia de anomalia para tratar desse período autoritário em Espanha, cujo expediente consiste sobretudo por uma ditatura que atuou fortemente contra o fim de um dos períodos más férteis e diversos da história da literatura espanhola, o período da Segunda República, condenando, por consequência, todas as conquistas das vanguardas. Como agravante, ainda temos a hostilidade às outras línguas (Basco, Catalão, Galego) que formaram a diversa cultura espanhola, aumentando o controle restritivo às mais diversas expressões políticas e artísticas. Esse breve panorama nos revela a importância de investigações e estudos que, ao olhar a dimensão artística-histórica atual, se debruçam sobre as interrogações que remontam a sucessão de eventos, quase sempre tortuosos, para compreender a literatura espanhola do século XX.</p>
		<p>Os ensaios que compõem <italic>Poéticas y cánones</italic> permitem compreender, portanto, fatores literários e extraliterários que constituem o cânone literário franquista, tal como os discursos historiográficos, por exemplo. É o caso do primeiro ensaio do livro “Ceguera estética e historiografia literaria en la era de Franco”, da professora Valeria de Marco (Universidade de São Paulo) que, num grande movimento de investigação, recupera desde o século XIX espanhol para apontar, entre outros expedientes, a incapacidade da historiografia literária, cristalizada em Menéndez Pelayo, em assimilar a heterodoxia estética, com definições que não alcançam o entendimento da obra literária também como um produto político, linguístico e de tradição cultural. </p>
		<p>Em direção semelhante, está posicionada a discussão apresentada pelo professor Max Hidalgo (Universidade de Barcelona): “Genealogía de la teoria literaria y herencias teóricas del franquismo”. Ao tratar da obra crítica de Dámaso Alonso, ressalta que a proeminência dos estudos de análise e crítica literária durante o franquismo, pelo seu enfoque positivista, acentuou o empobrecimento da teoria literária na Espanha. A estilística de Dámaso Alonso, qualificada por Hidalgo como católica, na medida em que sua retórica abranda fatos sociais e privilegia um certo “estruturalismo” totalizante, segue vigente nos dias de hoje. Ao constatar esse problema, o ensaio também faz o percurso sobre o trânsito da estilística até o estruturalismo como método de análise da obra literária na Espanha, e recupera um trajeto desde os anos de 1940 até 1975, para pontuar a recepção, uso e prática das normas da estilística na apreensão da obra literária.</p>
		<p>O mesmo catolicismo presente em Dámaso Alonso também revela-se atuante, durante o franquismo, nas relações com antigas colônias do Império Espanhol. É o caso do ensaio de Rocío Ortuño (Universidade da Antuérpia) “Nostalgia del imperio: literatura filipina y franquismo”, que a partir dos nomes de Manuel Bernabé e de Conrado Blanco, discorre sobre o grupo <italic>Alforjas para la poesía</italic>, que o jornal ABC publicou entre os anos 1966 até 1981, para difundir na ilha um pensamento alinhado com a ditadura espanhola. O texto nos revela como a condição da antiga colônia encontrou terreno fértil para invocar e promover uma ideia cara ao franquismo, a de “Nación, Unidad, Imperio”, sendo decisiva a atuação da sombria Falange Espanhola, grupo que encarnava as doutrinas anacrônicas do regime. O texto ainda encontra ocasião para trazer ao debate a retórica imperialista espanhola e o que isso produziu em termos simbólicos no campo cultural, sobretudo literário e religioso, acentuando a anomalia com as distorções dos discursos políticos e históricos. </p>
		<p>O ensaio “Teatro y censura”, de Berta Muñoz (Instituto del teatro de Madrid) ao traçar a atuação da equipe ministerial nas décadas da ditadura, sobretudo as que cuidavam do teatro e do cinema, reconstrói a memória teatral espanhola por meio da atuação da censura durante o período ditatorial, e revela a arquitetura de uma administração governamental que tinha por projeto alienar cada vez mais a opinião pública. No entanto, como destaca Berta Muñoz, o teatro, pela sua característica própria de resistência, foi incorporando linguagens novas para enfrentar a censura e o crescimento de um teatro espanhol de perfil conservador que se empenhava, por meio de um “teatro histórico”, instituir o pensamento de uma Espanha ideal. </p>
		<p>Em <italic>Poéticas y cánones</italic> quase todos os gêneros são contemplados, entre eles o de relato de viagem do qual é objeto de estudo de Geneviève Champeau (Universidade Bordeaux Montaigne) “Ideologias poéticas y canon: el relato de viaje bajo el franquismo”. O gênero - uma fronteira complexa e ampla que nos traz a crônica, apontamentos histórico-sociais, a prosa jornalística, a poesia etc. - evidencia com mais força, talvez, aspectos estéticos e ideológicos por trazer na sua constituição o caminho do autor e o caminho da sociedade. Nesse sentido, a autora apresenta as categorias de relatos de viagem para apontar seu teor propagandista que, sob o franquismo, nesse gênero, incorporou parte de sua guerra ideológica, de tom violento e fantasioso, o mesmo que transferia para o jornalismo, sempre buscando falsear a história. Dentro de um estudo em que relaciona e problematiza o gênero de relato de viagem, a autora expõe uma por uma as décadas do franquismo e abre uma discussão temporal de uma literatura profundamente ideologizada, na contramão de uma historiografia emancipadora, com relatos de viagem que conformam a representação de uma Espanha mítica, introduzindo no pensamento coletivo o ideário de um espanhol restaurado na fé e no destino de salvação.</p>
		<p>Em “Canon y campo literario en la poesía española bajo el franquismo” Juan Lanz (Universidade do País Basco) trata da poesia produzida entre os anos 1939-1975. Ao partir das discussões de geração e tradição propostas por Eliot, destaca como esse diálogo é fortemente rompido durante o período ditatorial espanhol. O autor discute, também, os processos decisivos para a construção de modelos de canonização e de marginalização literária, e mapeia um percurso em que relaciona diversas antologias poéticas que ajudaram a erigir o cânone da poesia espanhola do século XX, inclusive a que consagra a <italic>Generación del 27</italic>, a geração republicana. O ensaio ainda interpõe um itinerário de discussão a partir das revistas literárias para apontar a diversidade de conceitos e de poética que terminou por ser afunilada na concepção de estado totalitário, de um pensamento único que, ao tempo em que fazia um revisionismo histórico-político para “limpar” a ideologia crítica do pensamento espanhol, esterilizava a poesia que o regime franquista produzia, privilegiando o estilístico em detrimento do político-histórico-social. É de se ressaltar a ampla discussão sobre a poesia dos anos 50 no que se refere à recuperação que faz dos exilados republicanos, que são assimilados como uma nova poesia espanhola. </p>
		<p>A geração de 50 também é investigada por María Teresa Navarrete (Universidade de Uppsala) em “1959: triunfos, discordias y paradojas en el canon de la poesía del medio siglo” em que resgata a homenagem feita a Antonio Machado, nesse mesmo ano, ato que também organiza, em pleno franquismo o encontro da poesia do exílio e o pensamento dissidente ao regime ditatorial. Organizado por Carlos Barral, Jaime Gil de Biedma e Goytisolo, entre outros, trata-se de uma importante trincheira lírica que enfrentará o franquismo por meio da assim chamada “operación realismo”. Ao discorrer sobre as origens do grupo de Colliure, a autora também problematiza as categorizações alternativas para apontar as características específicas do grupo. A partir de extensa reunião de autores, grupos e publicações, apresenta a diversidade dos círculos que promovem a difusão de uma poesia que também atua como organização social de um pensamento dissidente.</p>
		<p>Engajamento e literatura atuante também estão presentes nas investigações que organizam o ensaio de Bénedicte Vauthier (Universidade de Berna) “A deshora, 1956-1963: literatura responsable y engagement” discute, a correspondência entre G. de Torre e J. M. Castellet para elucidar as os principais aspectos na formação de ambos os escritores e suas contribuições para o debate político e literário espanhol.</p>
		<p>A problemática inserção da literatura do exílio espanhol de 1939, ainda hoje marginal dentro da historiografia literária espanhola, é o que leva a cabo o ensaio de “Una lectura imposible”, de Fernando Larraz (Universidade de Alcalá). A literatura exilada, como observa seu autor, se escapou da censura “presencial”, sofreu um isolamento que até hoje pode ser constatado dentro da cultura espanhola que, ao tentar incorporá-la, não permite o debate amplo do seu potencial crítico como uma das mediadoras da narrativa histórica espanhola. O ensaio se debruça sobre essa recepção problemática, ou anômala, da produção exilada, principalmente entre os anos 1958-1963, para tratar do exílio interior e exílio peregrino, a fim de pontuar a qualidade fragmentada que a expatriação de tantos escritores, acadêmicos e cientistas causou, dando a medida dos grandes esforços que são exigidos para a recuperação e reparação desse imenso contingente do pensamento espanhol vanguardista, progressista e emancipatório que, mesmo atuante na clandestinidade, tem sido incorporado ao pedaços, como ruína. Assim, Larraz percorre as relações dos escritores dos dois lados do Atlântico, de modo a evidenciar o estranhamento que coordena o diálogo ente eles, que não ultrapassa a fase de projetos, quase todos naufragados, constituindo o que chama de “la consolidación de la exclusión”.</p>
		<p>Sobre a experimentação narrativa na literatura espanhola dos anos 70 é organizado o ensaio “Questo libro non é per te: la neovanguadia narrativa al filo de 1970”, de Domingo Ródenas (Universidade Pompeu Fabra). Ao trazer uma discussão sobre Juan Benet, mostra como a obra desse autor enfrenta as desconfigurações da linguagem para estabelecer os aspectos limitadores da “literatura comprometida”. Nesse sentido, “Una meditación”, obra de 1970, é invocada para encarnar o contramodelo de romance inovador do período, o que nos mostra uma crítica também no campo político ao retomar os pressupostos da vanguarda para apontar a constituição de uma obra destinada a ser um diálogo interditado ao leitor. Nessa interdição reside a incomunicabilidade como um caminho possível. Uma outra face, portanto, da literatura espanhola dentro dos estertores do regime franquista.</p>
		<p>“Autores y obras desde el otro lado del Atlántico: la recepción de la literatura hispano-americana en España durante el franquismo”, de Cristina Suárez (Universidade de Alcalá) reporta um momento significativo nas relações da América Latina com a Espanha franquista, um momento de crescimento econômico espanhol em que a população passou a ter maior acesso aos bens culturais durante os anos do boom da literatura hispano-americana, situação que corresponde também ao novo rosto que o governo espanhol procurava traçar de si, ao jogar sobre a ditadura o disfarce da modernidade, elemento de capital simbólico fundamental para alavancar a economia, principalmente a do setor turístico. Desse modo, a literatura hispano-americana que ali chegava foi uma oportunidade para estreitar laços comerciais dentro de uma estratégia, conforme destaca a autora, apoiada por decisões editoriais que compreendeu uma seleção de autores, destacando as publicações em Barcelona, cuja indústria editorial estava em ascensão. A Espanha dos anos 70, como bem nota Suárez, tratou de escamotear sua antimodernidade por meio dessas relações internacionais em que as editoras jogaram um papel fundamental também no resgate de obras antes restritas, mas sempre prevalecendo o caráter comercial que orientou essas relações num período que foi ao mesmo tempo inclusivo, mas excludente.</p>
		<p>Além da amplitude dos estudos que <italic>Poéticas e cánones literarios bajo el franquismo</italic> reúne, cumpre destacar a bibliografia de cada ensaio, que compõe um importante acervo de pesquisa.</p>
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