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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i25p963-973</article-id>
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					<subject>RESEÑAS</subject>
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				<article-title>As travessias de Ana Pizarro</article-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-7601-2022</contrib-id>
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						<surname>Moraes</surname>
						<given-names>Felipe de</given-names>
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					<institution content-type="original">Universidade de São Paulo Contato: felipe2.moraes@usp.br Brasil</institution>
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					<email>felipe2.moraes@usp.br</email>
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			<author-notes>
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					<p>Licenciado en Letras por la Universidad de São Paulo, desenvolve actualmente una maestría acerca de los cuentos de Guimarães Rosa junto al Departamento de Teoría Literária y Literatura Comparada (FFLCH-USP). También actua como investigador residente en la Biblioteca Brasiliana Guita y Jose Mindlin de la USP.</p>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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				<year>2023</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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		<p><italic>Travesías</italic>, o livro mais recente de Ana Pizarro publicado no Chile pela Editorial Hueders em <xref ref-type="bibr" rid="B1">2021</xref>(e ainda sem tradução no Brasil), reúne um conjunto de textos de variada dicção crítica nos quais a mirada de uma ensaísta experiente revisita temas e autores, agora plasmados pela experiência intelectual acumulada ao longo de anos de pesquisa em arquivos, pelo convívio sensível com as formas amplas da cultura (letradas e orais) e pelo vasto conhecimento dos territórios da América Latina e Brasil, estimulando atravessamentos culturais por meio de suas formulações teóricas precisas e do seu agudo olhar para as formas simbólicas.</p>
		<p>O ponto de vista de quem escreve um ensaio é quase sempre íntimo, e tal intimidade é a escolha de individualizar uma repulsa, um desejo, uma profunda inquietação em relação às coisas e ao mundo. O ensaio, nesse sentido, pode se tornar o espelho (partido) do ensaísta e acabar refletindo mais a si mesmo do que o Outro que é sua busca. Pizarro, no entanto, não centra sua enunciação exclusivamente num Eu quando fala seja da poesia de Gonzalo Rojas, ou de Carmen Miranda e da construção de sua máscara pública e atraente às massas. Ao contrário, há nos ensaios de <italic>Travesías</italic> uma constante alternância entre Eu e Nós que despetrifica os juízos de gosto instituídos e reflete em alguma medida, nas palavras da própria autora, ‘‘o trânsito [...] da análise literária à crítica cultural.’’<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
		</p>
		<p>Se por um lado esse movimento do particular ao geral é marca da ‘‘microestrutura’’ da enunciação, na medida que a ensaísta chilena incorpora outras vozes à sua numa posição de alteridade crítica, por outro, esse movimento também está presente na ordenação dos textos, o que dá uma força dialética para o todo, fazendo com que cada ensaio, ainda que autônomo em relação à sua matéria e ao tratamento analítico que recebe, ilumine a leitura dos outros.</p>
		<p>O livro está dividido em três grandes seções - ‘‘<italic>Mirar Chile</italic>’’, ‘‘<italic>Mirar América Latina</italic>’’ e ‘‘<italic>Territorios de la cobra grande</italic>’’. Passemos por cada uma delas, tentando extrair e comentar seus núcleos de pensamento.</p>
		<p>***</p>
		<p>A escolha de abrir <italic>Travesías</italic> com uma sequência de ensaios sobre poetas chilenos contemporâneos - ‘‘<italic>Gabriela Mistral: ¿qué modernidad?</italic>’’, ‘‘<italic>América Latina como archivo literario</italic>’’, ‘‘<italic>Gonzalo Rojas: escribir en el relámpago</italic>’’ e ‘‘<italic>Neruda en la transición</italic>’’ - não é casual, pois nesses estudos estão colocados alguns dos temas e das indagações que dão sustentação ao livro, tais como: o choque entre formas simbólicas e a modernização; a complexa e contraditória formulação de uma ‘‘identidade’’ latino-americana frente ao apagamento das culturas locais promovido pelos discursos homogeneizantes do Estado; a relação entre Brasil e América Latina; o espaço que ocupa a mulher enquanto pensadora e artista, dentre tantos outros. Ou seja, ao analisar a obra de três medalhões da poesia chilena do século XX - Mistral, Rojas e Neruda - e colocá-los como pórtico do seu livro, Ana Pizarro mostra que há um imbricamento entre literatura e sociedade, entre cultura e processos históricos que não podem ser ignorados em um estudo das formas literárias.</p>
		<p>Como método de análise, a crítica parte do esboço dos perfis biográficos desses poetas (método que ela repetirá em alguns ensaios da segunda seção, ‘‘<italic>Mirar América Latina</italic>’’, ao falar das ‘‘divas’’ do cinema sul-americano que adquirem relevância internacional, ou ainda quanto aborda as trajetórias intelectuais de Ángel Rama e Marta Traba) para em seguida relacioná-los com um panorama maior, no qual a vida pessoal de cada um está atrelada a um contexto cultural e político que redimensiona o significado de suas poéticas.</p>
		<p>Ao analisar a obra de Gabriela Mistral, por exemplo, Pizarro observa como há uma contradição entre o tom conservador dos poemas da autora de <italic>Lagar</italic>, voltados para o mundo agrário e anti-modernizante, e a posição que ela assumiu enquanto mulher cosmopolita que não se restringia ao ‘‘<italic>discurso de la casa</italic>’’, mas integrava o debate público, o ‘‘<italic>discurso de la calle</italic>’’, ao intervir como ensaísta e conferencista. Em outras palavras, Pizarro reavalia a posição da poeta, que deixa de ser apenas a ‘‘<italic>madre</italic>’’ da nação chilena, poeta da terra no sentido fundacional, e passa a assumir também a forma ensaística, de intervenção política e cultural, comumente atrelada ao mundo masculino. Convivem, portanto, em Mistral essa concepção de que a ‘‘modernização gera um espaço degradado, incapaz de engendrar o mito’’, daí sua poesia ser uma tentativa de <italic>preservação</italic> de um passado agrário, e sua ‘‘condição errante’’ de intelectual que transita por capitais em veloz processo de modernização, como o Rio de Janeiro e o México dos anos 40 do século passado.</p>
		<p>Em relação à figura de Pablo Neruda, Pizarro mostra em ‘‘<italic>Neruda en la transición</italic>’’ como cada época se apropria da obra de um autor de modo diferente. No caso de Neruda, sua poesia sofreu diversas abordagens: desde aquela que via em sua produção uma ligação direta com sua atividade política de homem de esquerda, passando pelo processo de despolitização de seus poemas no período da ditadura, e à partir dos anos 80, com o processo de redemocratização, o poeta torna-se um ‘‘produto de consumo’’, na expressão de Óscar Vega, citado pela ensaísta, uma ‘‘marca’’ cultural à qual são dedicados museus, efemérides, edições de luxo, sem que contudo a dimensão histórica da apreciação estética da obra seja levada em conta.</p>
		<p>Encerram a primeira seção dois ensaios importantes sobre a criação dos mitos nacionais no Chile e o apagamento dos contatos entre o centro desenvolvido, ilustrado, ‘‘civilizado’’, e o interior onde se encontram os diferentes povos indígenas. Pizarro ressalta, com ironia caustica, que o Chile sempre se viu como uma espécie de Inglaterra da América Latina. Tal visão de si mesmo, que incorpora e solidifica moldes estritamente europeus, fez com que o país se fundamentasse sobre uma rígida hierarquização entre as classes sociais e buscasse uma ‘‘normatividade cultural’’ que delimitasse muito bem a fronteira entre o Vale Central, onde floresceu o capitalismo baseado em exportação agrícola e a cultura letrada se estabeleceu, e as regiões ao sul, onde estão os <italic>mapuche</italic> e outras etnias, entregue ao silenciamento e à destruição de suas tradições, fora do circuito hegemônico do poder, portanto.</p>
		<p>É por meio desse tema - a criação de uma identidade nacional baseada na homogeneização de diferentes culturas - que Ana Pizarro faz a transição da primeira para a segunda seção. ‘‘<italic>Mirar América Latina</italic>’’ se abre com um longo ensaio intitulado ‘‘<italic>Las divas latino americanas de los 50</italic>’’, no qual as carreiras de María Felix, Carmen Miranda e Libertad Lamarque são analisadas a fim de mostrar como essas vozes femininas ajudaram a criar uma imagem de América Latina (Brasil incluso) que padece ainda do estereótipo e do exotismo.</p>
		<p>A força dos meios massivos de comunicação na primeira metade do século passado - o rádio, o cinema e, em seguida, a televisão - auxiliaram na projeção das imagens dessas artistas notáveis, isso é inquestionável. Assim como, salienta Pizarro, possibilitaram um certo grau de influência no espaço público. Uma influência que se espraia pelas classes baixa e média que, através dos novos meios de comunicação, se inteiram de uma certa realidade social e querem se ver representadas, o que desperta um sentimento de pertencimento nacional. Quando María Felix aparece como uma camponesa viril nos filmes que protagoniza ela está assumindo uma máscara que representa a sociedade mexicana pós-revolução, extremamente militarizada e masculina. Em outras palavras, essas atrizes cristalizaram momentos históricos específicos em suas atuações, que acabam por se tornar a definição distorcida e redutora do que é ‘‘ser mexicano’’, ‘‘ser brasileiro’’ ou ‘‘ser argentino’’. São construções identitárias legitimadas pela indústria cultural americana e que persistem até hoje.</p>
		<p>O ponto alto a meu ver, entretanto, da segunda parte de <italic>Travesías</italic> é o díptico formado por dois ensaios; o primeiro deles, ‘‘<italic>Ángel Rama - un pensamiento en el vértice</italic>’’, comenta as principais contribuições intelectuais e humanas dadas pelo crítico uruguaio; e o segundo, dá conta de Marta Traba, companheira de Rama, crítica de arte, ficcionista e ensaísta. Ambos são indispensáveis para se compreender a ideia de cultura como uma <italic>construção</italic>.</p>
		<p>O que é ressaltado de Rama é o seu ‘‘iluminismo’’, ou seja, sua ‘‘atitude formadora’’ que compreende e propõe uma ‘‘noção ampla e democrática de cultura’’ por meio de um ‘‘sistema literário’’ (conceito que tomou de empréstimo de Antonio Candido, de quem foi amigo e com quem dividiu muitos projetos intelectuais que agregassem Brasil e América Latina) que atuasse como um integrador de concepções múltiplas de linguagem. Rama, no limite, quis romper a força da ‘‘<italic>ciudad letrada</italic>’’, possibilitando um sistema cultural que não seja completamente dependente da metrópole, tendo em vista a situação periférica dos países sul-americanos.</p>
		<p>Tal ‘‘caráter integrador’’ é partilhado igualmente por Marta Traba. Em ‘‘<italic>Marta Traba: resistencia y modernización</italic>’’ há uma identificação muito afetiva entre a própria Ana Pizarro e a postura intelectual da ensaísta argentina. Para Pizarro, Traba, valendo-se de um estilo mesclado, realiza a confluência de diversos gêneros na sua produção intelectual, o que permitiu a ela uma perspectiva abrangente das artes plásticas, do ensaio e da ficção. A marca então dessa pensadora tão arrojada, que fundou um espaço de debate e de reflexão para as vozes femininas, é o ‘‘olhar descolonizador [que lança] para a crítica e para a cultura’’. E acrescenta ainda que Traba ‘‘assumiu a vida intelectual como um compromisso de existência.’’</p>
		<p>O último ensaio de ‘‘<italic>Mirar América Latina</italic>’’ é dedicado às relações entre Brasil e Hispano-América. De intenção menos analítica, ele funciona como elo para a terceira e última seção do livro, pois ‘‘o trabalho de aproximação e conhecimento da América-hispânica e do Brasil em sua história e suas possibilidades de evolução parece indispensável: indispensável para pôr em evidência a articulação da diversificada geografia cultural em que vivemos.’’ A autora se detém em como a presença da cultura brasileira era (talvez após os anos 1960 tenha se tornado menos) difusa na América-hispânica, reduzindo-se a estereótipos cristalizados nas obras de autores como Monteiro Lobato e Jorge Amado, por exemplo, ou limitando-se a uma caricatura feita por depoimentos de figuras da diplomacia hispano-americana que olhavam o Brasil como país atrasado. Essas visões parciais, no entanto, não impediram trocas importantes no que diz respeito ao circuito das letras, sobretudo na relação entre escritores importantes na primeira metade do século XX - é o caso de Alfonso Reyes e sua ligação com poetas como Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes, ou as valiosas trocas de experiências entre Gabriela Mistral e Cecília Meireles, para citar alguns exemplos significativos. Logo, a importância deste capítulo no conjunto de <italic>Travesías</italic> está na transição orgânica que Pizarro realiza da segunda para a terceira parte, e na sua preocupação em situar o território e a cultura brasileira nos estudos latino-americanos através ‘‘dos seus vínculos históricos’’ e da importância das zonas de fronteira que, segundo a ensaísta, são ‘‘espaços de entrelugar cultural’’.</p>
		<p>‘‘<italic>Territorios de la cobra grande</italic>’’ é composto de cinco ensaios - ‘‘<italic>El tránsito de la oralidad a la escritura amazónica latinoamericana</italic>’’, ‘‘<italic>Un proceso conjunto: las culturas amazónicas</italic>’’, ‘‘<italic>El trabajador del caucho y la representación narrativa</italic>’’, ‘‘<italic>Discursos al margen de la historia</italic>’’ e ‘‘<italic>Saber hegemónico y alteridad</italic>’’ - que podem ser lidos como um só. Todos eles, em alguma medida, analisam criticamente como se dão os processos de apreensão do universo das culturas indígenas da região amazônica pelo ponto de vista do Ocidente. As dificuldades de apreensão da alteridade é um dos empecilhos mais significativos quando se pensa em como se fazer a história da literatura latino-americana. Como incorporar o discurso indígena, se pergunta Ana Pizarro, quando a literatura (pensando-a em sentido amplo) é o ‘‘conjunto de sistemas que expressam as fraturas [...] próprias da história cultural em uma constituição periférica’’? Ou, como definir o que é o popular sem cair numa distorção conceitual que engloba nessa denominação tudo aquilo que está disseminado pelas mídias e tem apelo das massas? São perguntas que a ensaísta se (nos) coloca ao pensar uma epistemologia que agregue gêneros variados como o cordel, as ladainhas dos pescadores, os desafios de viola e tantas outras formas de discurso que fazem parte da constituição definidora dos povos amazônicos.</p>
		<p>A passagem da oralidade para a escrita alfabética, que por um lado pode ser vista como uma tentativa de preservação da memória oral desses povos originários, acaba por reforçar o caráter de dominação da ‘‘cidade letrada’’ (para recuperar a formulação de Ángel Rama), levando a uma simplificação da capacidade simbólica do pensamento indígena. Quando, na verdade, como pontua Ana Pizarro, a ‘‘dinâmica cultural dos imaginários’’ apresenta uma <italic>densidade</italic> de representação que vem das relações de intercâmbio cultural entre os povos amazônicos e os da América pré-colombiana desde antes da chegada dos colonizadores. Além da intensa migração de outros povos para a Amazônia, como árabes e chineses e judeus, a floresta também recebeu gente vinda do nordeste do Brasil para trabalhar na extração de borracha no princípio do século XX. Essa ‘‘heterogeneidade’’ (expressão que Pizarro toma de Antonio Cornejo Polar) mostra como os entrelugares, as zonas de fronteira, não são meras regiões de ‘‘transição entre culturas’’, mas de <italic>coexistência</italic> entre elas (nem sempre pacíficas, reforça a crítica).</p>
		<p>E para dar conta da complexidade desses imaginários que constituem a força e a beleza da Amazônia, não basta apenas ‘‘o relato que tem a frieza das cifras’’, ou a crônica histórica, com sua pretensão de verdade. Se assim fosse, como se poderia transmitir, com a devida carga ética e estética, a vida dos seringueiros no ‘‘inferno verde’’ da floresta? É necessário ir além, diz Pizarro, da ‘‘austeridade documental’’, e buscar a vida cotidiana desses homens, vida essa que vem gravada nas formas poéticas do simbólico, nas quais o Outro pode ser encontrado, pois é na cultura que ‘‘estará o ser humano, que merece ter maior sentido e presença em nossa busca por conhecimento.’’</p>
		<p>Ao fim da leitura de <italic>Travesías</italic>, o leitor tem a sensação de que é necessário recomeçar, retomar detalhes, contradizer hipóteses, recuperar conceitos, enfim, refazer os caminhos do pensamento da ensaísta. Um livro, portanto, que pede constantemente uma posição ativa de quem o lê, para dele se desentranhar o humano. E nesse sentido, talvez seja impossível não recordar aqui as palavras de Riobaldo, e com elas encerro essas considerações, ao final de <italic>Grande sertão: veredas</italic>, pois poderiam muito bem servir de epígrafe para este livro tão necessário de Ana Pizarro: ‘‘Existe é homem humano. Travessia.’’</p>
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			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
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				<mixed-citation>Pizarro, Ana. Travesías. Chile: Editorial Hueders, 2021.</mixed-citation>
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							<surname>Pizarro</surname>
							<given-names>Ana</given-names>
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				<p>Todas as traduções de trechos apresentadas nesta resenha serão de minha autoria e têm por base a edição publicada pela Editorial Hueders. Pizarro, Ana. <italic>Travesías</italic>. Chile: Editorial Hueders, 2021.</p>
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