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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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					<subject>DOSSIER - RESENAS</subject>
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				<article-title>Taking form, making words: cartonera publishers in Latin America. Lucy Bell, Alex Ungprateeb Flynn, Patrick O’Hare. Austin: University of Texas Press, 2022, 304 p.</article-title>
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						<surname>Mubarack</surname>
						<given-names>Chayenne Orru</given-names>
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						<p>Doutoranda junto ao PPG Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana. Mestre em Letras pelo mesmo programa. Possui licenciatura e bacharelado em Letras (Português-Espanhol) pela Universidade de São Paulo. É integrante da Malha Fina Cartonera.</p>
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					<institution content-type="original">Doutoranda junto ao PPG Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana. Mestre em Letras pelo mesmo programa. Possui licenciatura e bacharelado em Letras (Português-Espanhol) pela Universidade de São Paulo. Contato: chayenne.mubarack@usp.br Brasil</institution>
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				<year>2024</year>
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				<source>Taking form, making words: cartonera publishers in Latin America</source>. <person-group person-group-type="author">
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						<surname>Bell</surname>
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			<p>[...] la salubridad de nuestro caminar se fundamenta más en un antiguo instinto que en las conclusiones parciales que la ciencia a diario ofrece. Esta visión nos hace rozar los bordes (inexistentes) y desplazarnos sin demasiado lío entre márgenes, centro, periferias y alguna otra dimensión más allá de lo clasificable</p>
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		<disp-quote>
			<p>MANIFESTO DA YERBA MALA CARTONERA <xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
			</p>
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		<p>Escrever sobre um movimento cuja principal característica é não seguir nenhuma regra é, inegavelmente, desafiante. A citação que prefacia esta resenha foi retirada do livro <italic>Akademia Cartonera: un ABC de las editoriales cartoneras de América Latina</italic>, o qual agrupa manifestos escritos por distintas editoras cartoneras. As palavras da Yerba Mala Cartonera enfatizam um importante - e, arriscaria dizer, definidor - traço desse tipo de editora: permear as bordas (quiça evidenciando suas inexistências) e deslocar-se livremente entre todos os espaços. Ao circular entre distintos mundos, as cartoneras mostram a adaptabilidade e flexibilidade deste tipo de publicação, particularidade amplamente analisada em <italic>Taking form, making words: cartonera publishers in Latin America</italic>, escrito potLucy Bell , Alex Ungprateeb Flynn e Patrick O’Hare e publicado em 2022. </p>
		<p>Os autores possuem formações em áreas distintas: Lucy Bell é especialista em teoria literária, Alex Flynn em antropologia social e Patrick O’Hare em reciclagem e materialidade. Essa multiplicidade está explícita no livro, que aborda distintas vertentes desse tipo de publicação. O primeiro aspecto que chama a atenção é a metodologia utilizada ao longo do trabalho de investigação, cujos resultados nos deparamos no texto. Os pesquisadores decidiram acompanhar as atividades de quatro editoras cartoneras pertencentes à dois países - Brasil e México - que pouco ou nada compartilham entre si: Catapoesia, conduzida por Solange Barreto e Julio Brabo no norte do estado de Minas Gerais; Dulcinéia Catadora, fundada por Lucia Rosa, Peterson Emboava e alguns membros da Eloísa Cartonera no bairro do Glicério, em São Paulo; La Rueda Cartonera, de Guadalajara, iniciada por Sergio Fong, Lorena Baker e Fernando Zaragoza; La Cartonera, de Cuernavaca, cofundada por Nayeli Sánchez, Dany Hurpin, Raúl Silva de la Mora e Rocato Bablot. Além da distância geográfica, os autores apresentam, no primeiro capítulo, cada projeto editorial e os diferentes focos: Catapoesia atua em um contexto de garimpo, quilombos e degradação ambiental, o que reflete diretamente em seu público alvo - pequenas comunidades onde busca reverberar a história oral e a cultura popular; Dulcinéia Catadora tem sua sede em uma cooperativa de catadores de papelão e surgiu a partir dessa fusão entre os catadores, o mundo artístico e o projeto literário, buscando valorizar a matéria prima - o papelão -, baratear o custo dos livros e torná-los acessíveis e trabalhar por meio de projetos colaborativos com artistas voluntários; La Rueda Cartonera surgiu do encontro de seus fundadores como um projeto contracultural que publicava autores sem espaço no mercado editorial tradicional e republicava autores canônicos, funcionando também como uma oficineira pelos distintos cenários urbanos - desde grupos de crianças até aidéticos, a população carcerária, pessoas com dificuldades de aprendizagem entre outros; La Cartonera produz um catálogo que passa pela história de Cuernavaca, valorizando de artistas e escritores locais a autores internacionais, imigrantes e indígenas, com engajamento em causas sociais como a violência utilizada na guerra contra as drogas na cidade sede da cartonera e a dificuldade da comunidade indígena em acessar a terra, a água e a democracia. </p>
		<p>A escolha de cartoneras tão diversas pode parecer incompreensível no começo da leitura, mas se justifica quando as questões base do livro são pautadas: qual a conexão entre as editoras cartoneras pelo mundo para além do uso do papelão? Qual a mágica do livro de papelão que permite tamanha diversidade de práticas e formas? Como essa mágica é transpassada para as histórias contadas dentro dos livros cartoneros?</p>
		<p>Para responder os questionamentos, os autores adotam uma metodologia denominada <italic>“trans-formal methodology”</italic>, definida como a necessidade de realizar uma pesquisa que cruza o campo social, estético, literário, material e outras formas. Além disso, a metodologia de trabalho, amplamente apresentada ao longo do capítulo dois, consiste na coexistência entre o conhecimento acadêmico e a experiência de viver nas e as cartoneras estudadas. Em termos práticos isso significou passar um tempo acompanhando e participando de todos os aspectos que permeiam cada uma dessas editoras. Quando acompanhavam o trabalho da Dulcinéia Catadora, por exemplo, os pesquisadores se depararam com o cenário político do Brasil pós eleições de 2018, que consagraram Jair Messias Bolsonaro como presidente, e toda movimentação social e política que surgiu a partir daí possui estreitas relações e conexões com as atividades da editora apresentadas pelos autores. </p>
		<p>O livro é dividido em capítulos respectivamente intitulados <italic>“Histories”</italic>, <italic>“Methods”</italic>, <italic>“Texts”</italic>, <italic>“Encounters”</italic>, <italic>“Workshops”</italic> e <italic>“Exhibitions”</italic>. No primeiro capítulo, há um regresso à história das cartoneras, ao surgimento da Eloísa Cartonera em Buenos Aires e ao contexto que cercou este momento. Também trata-se de como esse início se espalhou pela América Latina e pelo mundo. Paralelo a isso, apresenta-se o conceito de “resistência” pelo continente - desde o começo de seu uso nos anos 1960 - e como ele se tornou algo que caracteriza as práticas cartoneiras hoje. </p>
		<p>O capítulo <italic>“Methods”</italic> apresenta detalhadamente a metodologia adotada, a qual se pauta em um trabalho interdisciplinar que entrelaça distintos modos de pensar. Ao longo da pesquisa, o objeto definiu o método, uma vez que os autores demonstram como a metodologia adveio das práticas e colaborações cartoneras vistas, vividas e presenciadas. No âmbito teórico, o método “mão na massa” alinha-se à autores decoloniais como Jacques Rancière, Néstor García Canclini e Robert Alan Levine. </p>
		<p>O terceiro capítulo, <italic>“Texts”</italic>, mergulha nos textos publicados em livros cartoneros. Este capítulo apresenta grande contribuição a essa área de estudos - não só sobre a estética desse tipo de livro, mas também sobre a literatura que veicula - pois muito se fala sobre os contextos de produção, consumo e distribuição cartonera, mas pouco se analisam os textos que compõem as linhas editoriais destes selos. Por mais que os autores entendam as cartoneras como um movimento editorial, o capítulo mostra como as publicações se afastam do cânone literário e apresenta análises literárias detalhadas de quatro textos publicados pelas editoras estudadas. </p>
		<p><italic>“Encounters”</italic> traz à tona o âmbito relacional e social das práticas cartoneras - a comunhão de pessoas - analisando inicialmente a ideia de “encontro” em si e traçando uma genealogia do conceito. Com um olhar mais etnográfico, o capítulo apresenta dois encontros cartoneros ocorridos durante o período de pesquisa, um em Cuernavaca e um em São Paulo, pontuando as diferenças e semelhanças entre eles.</p>
		<p>Em <italic>“Workshops”</italic>, temos o papel fundamental das oficinas para as cartoneras e como essa esfera de atuação interage com os contextos social e cultural. O processo de confecção de livros a partir do papelão - material que ganha protagonismo, apesar de ser apresentado ao lado de diversos instrumentos que participam da feitura material desse tipo de livro - significa também intervir em questões que rodeiam a produção livresca, seja por um miolo que desafia o cânone, pela ressignificação de um produto por muitas vezes invisível, pela possibilidade de geração de renda para os participantes através da possibilidade de venda do produto final ou pelo encontro entre pessoas que discutem como intervir no contexto que os rodeia enquanto fazem os livros. Os autores exploram conexões e contrastes das oficinas das quatro cartoneras estudadas e como os trabalhos manual e intelectual se constituem como resistência aos modos de trabalho em uma sociedade capitalista.</p>
		<p>O último capítulo, <italic>“Exhibitions”</italic>, mostra como as exposições cartoneras são politizadas e subvertem o que se entende por “exibição” ou “exposição” em outras áreas de conhecimento. Em mais uma análise etnográfica, os autores descrevem o processo de organização de uma mostra cartonera em São Paulo: “Cartoneras: Releituras Latino-Americanas”, realizada por eles na Casa do Povo no segundo semestre de 2018.</p>
		<p>Ao longo do livro, os autores trabalham com a pluralidade das práticas cartoneras, demonstrando seu potencial como produtoras de um objeto artístico, texto, símbolo de troca, panfleto, instrumento de ensino, meio de comunhão de pessoas, ferramenta de defesa, objeto de protesto e gerador de renda ao mesmo tempo. O estudo mostra maneiras pelas quais as cartoneras formam e criam novos sentidos, relações e comunidades, originando formas plurais de vida, existência e resistência que respondem aos distintos meios em que são criadas. As cartoneras operam no que os autores demonstram ser um <italic>“double fold”</italic>, ou “via de mão dupla”, em que o estético depende do social e vice-versa. Bell, Flynn e O’Hare exploram a pluralidade, a pluriversalidade e a materialidade de uma prática que vai além de uma maneira alternativa de existir no mundo ao tornar-se contadora de uma <italic>outra</italic> história, seja ela literária, social, estética ou artística. </p>
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				<p>Bilbija, Ksenija; Carbajal, Paloma Celis. <italic>Akademia Cartonera.</italic> Un ABC de las editoriales cartoneras en América Latina. Madison. EUA: Parallel Press: University of Wisconsin-Madison Libraries, 2009, p.127.</p>
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