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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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					<subject>ENTREVISTAS</subject>
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				<article-title>Arte, ativismo, literatura e decolonialidade: Dulcinéia Catadora como projeto fronteiriço. Entrevista com Lúcia Rosa</article-title>
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					<trans-title>Art, activism, literature and decoloniality: Dulcinéia Catadora as a border project. Interview with Lucia Rosa</trans-title>
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						<given-names>Chayenne Orru</given-names>
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				<institution content-type="original">Atualmente, é doutorando junto ao PPG Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana. Ademais, possui mestrado em Letras e bacharelado/licenciatura em Letras (Português-Espanhol), ambos pela Universidade de São Paulo. Contato: pacelli.sousa@usp.br Brasil</institution>
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				<email>pacelli.sousa@usp.br</email>
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				<institution content-type="original">Doutoranda junto ao PPG Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana. Mestre em Letras pelo mesmo programa. Possui licenciatura e bacharelado em Letras (Português-Espanhol) pela Universidade de São Paulo. Contato: chayenne.mubarack@usp.br Brasil</institution>
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		<p>
			<xref ref-type="bibr" rid="B4">Dulcinéia Catadora</xref> é o primeiro projeto editorial de tipo cartonero no Brasil, configurando um marco para a história desse tipo de publicação na América Latina. O coletivo foi criado a partir do encontro de Lúcia Rosa e Peterson Emboava, futuros fundadores da Dulcinéia, com Javier Barilaro, membro da Eloisa Cartonera, na 27ª Bienal de São Paulo em 2007. Lúcia Rosa trabalhava há alguns anos com materiais de descarte em suas obras artísticas e, pouco tempo antes da Bienal, passou a trabalhar com papelão, o que resultou no contato com a equipe da Coopamare (Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Papelão, Aparas e Materiais Reaproveitáveis), que seria presença importante na Bienal de diferentes formas, incluindo a participação dos filhos e filhas de membros da cooperativa na instalação que se desenvolvia ali. A ideia da Dulcinéia Catadora nasce nesse momento, a partir desses cruzamentos, e é definida por Lúcia Rosa como uma “microutopia e tática de guerrilha, ficção e realidade”.</p>
		<p>O projeto toma corpo nos anos seguintes, com a participação de Andreia Emboava, Maria Dias da Costa, Eminéia dos Santos e Agata Emboava, membras do coletivo e catadoras ligadas à Cooper Glicério (Cooperativa de Trabalho e da Coleta Seletiva dos Catadores da Baixada do Glicério), na Baixada do Glicério, parte do bairro Liberdade, em São Paulo, onde se reúnem todas até hoje, em uma pequena sala no meio da cooperativa. </p>
		<p>A criação do coletivo não foi algo espontâneo. Ao longo da entrevista, Lucia elenca leituras teóricas e visões sobre a arte contemporânea - motivadas pelo título da Bienal “Como Viver Junto” - que guiaram a concepção da Dulcinéia e a definição de seu campo de atuação. O objetivo estava longe de ser a criação de uma editora nos moldes tradicionais, mas uma maneira consciente de trabalhar com a arte e com tudo que o selo de editora cartonera carrega consigo: uma publicação feita com capas de papelão reutilizado, por vezes sem aspectos essenciais a um livro do mercado editorial corrente - como o ISBN -, sem almejar o lucro, mas visando à circulação da renda. O encontro da liberdade da arte com as amarras do livro, que aqui representam as muralhas da cidade letrada, foi o que permitiu a produção de um objeto que nasce dentro dessa cidade e traz consigo muitos que até então estavam do lado de fora. </p>
		<p>Dulcineia Catadora joga com a fronteira da cidade letrada e traz para o lado de dentro das muralhas quem usualmente fica de fora: catadoras produzem os livros, os quais são vendidos a baixo custo e consequentemente chegam às mãos de um maior número de leitores, autores e autoras que não estavam inseridos na República das Letras. Nesse processo, as obras fronteiriças de Dulcinéia - que incluem não só livros, mas também instalações e oficinas - podem ser lidas como desafios tanto ao universo das artes, quanto ao universo da literatura, não se encaixando plenamente em nenhum desses campos, segundo concepções tradicionais, e questionando seus limites, modos de produção, leitura e, inclusive, o seu acesso. Nas palavras de Lúcia Rosa, nesta entrevista:</p>
		<disp-quote>
			<p>Transitamos com liberdade e irreverência entre a literatura e a arte e é comum me fazerem perguntas como: por que colocam seus livros em espaços do circuito da arte? Não são ativistas? Se vocês fazem livros, então são uma editora? Se os livros são feitos artesanalmente, então vocês são artesãos? Vivemos num mundo em que as divisões rígidas não fazem mais sentido. As fronteiras estão desmoronando e vejo essa dificuldade de colocar Dulcinéia Catadora numa caixinha como algo positivo.</p>
		</disp-quote>
		<p>Esse movimento, que chamamos fronteiriço, também permite que não se possa localizar as membras do coletivo em categorias únicas e estanques: são catadoras-artistas-produtoras, simultaneamente. Trabalha-se com uma linha de produção horizontal que a entrevistada define como “Tudo é feito por todas. Tudo é Dulcinéia”. As mulheres que trabalham neste coletivo atuam em todas as áreas que a idealização de um selo editorial inclui: a elaboração de um catálogo e as decisões das obras a serem (auto)publicadas, a seleção da matéria prima de cada publicação, o projeto de capa - se houver -, a confecção material de cada livro, sua venda em feiras e o compartilhamento do dinheiro obtido pelas vendas. Não há, portanto, a estrutura vertical e hierárquica comum em que alguém detém o conhecimento e os demais funcionários aprendem e reproduzem os padrões. Isto demonstra o caráter plural e intrinsecamente decolonial que Dulcinéia Catadora possui. </p>
		<p>A entrevista possibilita que o leitor acompanhe os processos teóricos envolvidos no fazer cartonero, baseados em leituras e análises de obras de diversos campos do conhecimento. Contudo, ao conhecermos a Dulcinéia Catadora, estamos diante de um “corpo-texto” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Anzaldúa, 2012</xref>), que ultrapassa a teoria e atua na prática e na realidade, elaborando uma tradução prática desse arquivo conceitual. A tradução cultural, ação fronteiriça em si, também esteve presente na própria escolha do nome próprio do coletivo: Dulcinéia é definida como “catadora” e não “cartonera”, baseando-se na busca de reconhecimento pessoal e representatividade por parte de Andreia Emboava, que interveio prontamente no momento de autonomeação, reclamando a sua posição e o “ver-se” no nome do coletivo, mais do que a referência ao modelo argentino, que seguiu mais presente entre as cartoneras, inclusive no Brasil. </p>
		<p>Esta entrevista procura dar a conhecer ao público com maiores detalhes a história do coletivo Dulcinéia Catadora, sua concepção intelectual e práticas de trabalho, no que concerne à produção de livros, instalações e oficinas. Foi elaborada especialmente para o dossiê <italic>Pensando o acontecimento cartonero</italic> e de modo on-line: as perguntas foram enviadas à entrevistada por e-mail e as respostas para os autores através deste mesmo canal. </p>
		<sec>
			<title>ENTREVISTA: </title>
			<p><bold>A Dulcinéia Catadora foi a primeira editora cartonera brasileira. Poderia comentar sobre seu primeiro contato com as editoras cartoneras? Como se deu o encanto por esse tipo de edição?</bold></p>
			<p>A primeira vez que vi um livro com capa de papelão foi em 2006. Estava fazendo um trabalho para uma mostra de arte que aconteceria na Biblioteca Adelpha Figueiredo, no Pari, cidade de São Paulo. Decidi usar papelão recolhido por carroceiros, muitos em situação de rua. Foi quando recebi a sugestão de Samuel Souza, responsável pela mostra, de entrar em contato com Eloísa Cartonera, que se dedicava à produção de livros cartoneros em Buenos Aires. Escrevi para Javier Barilaro, artista e um dos idealizadores do coletivo argentino - junto com Washington Cucurto, escritor, e Fernanda Laguna, artista - e as trocas por e-mail começaram. </p>
			<p>Meses depois, Eloísa Cartonera foi convidada a participar da 27<sup>a</sup> Bienal de São Paulo, que tinha como tema <italic>Como Viver Junto</italic>, com curadoria de Lisette Lagnado. Em maio, fui procurada pela produção para iniciar os preparativos do trabalho com a Eloísa. A partir desse momento, seguiram-se muitas conversas com os representantes do Movimento Nacional dos Catadores, para que a participação de filhos de catadores acontecesse na instalação-oficina montada por Javier, outros integrantes do coletivo e eu. </p>
			<p>Na época, soube que havia livros cartoneros na Mercearia São Pedro, na Vila Madalena. O local era ponto de encontro de escritores e vendia livros. Encontrei vários exemplares pendurados em uma corda. Este foi o início de tudo. Minha formação em Letras, minha paixão pela arte e minha inclinação pela arte colaborativa despertaram meu interesse por aquelas publicações com capas coloridas. Os livros de Eloísa têm a literatura como um elemento fundante, mas, como Cucurto tão bem os apresenta, são <italic>mucho más que libros</italic>. </p>
			<p><bold>Qual a origem do nome “Dulcinéia Catadora”?</bold></p>
			<p>O nome é uma homenagem a uma das primeiras catadoras que conheci, de quem comprei papelão durante a participação de Eloísa na Bienal. Dulcinéia Silva dos Santos trabalha na Coopamare, zona oeste de São Paulo. Quando pensamos em iniciar nosso grupo brasileiro, o primeiro nome de que eu me lembrei foi o dela. Estávamos conversando sobre essa ideia lá mesmo, no prédio da Bienal, e Javier Barilaro adorou a sugestão do nome. Lembrou-se imediatamente de Dulcinea, personagem de Cervantes, amada sempre presente no imaginário fantasioso de Quixote. Foi um momento mágico. Sim, o nome seria Dulcinéia e carregaria consigo tantos significados, que iam do amor ideal, inatingível, sempre buscado pelo delirante cavaleiro, à força e resistência de Dulcinéia, a catadora maranhense, em sua luta diária pela sobrevivência. Dulcinéia Catadora é, a um só tempo, microutopia e tática de guerrilha, ficção e realidade.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<caption>
						<title>Lúcia Rosa na 27ª Bienal de São Paulo: Como viver junto, quando nasce a Dulcinéia Catadora. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf1.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p><bold>Como foi o processo de concepção intelectual e artística do projeto Dulcinéia Catadora?</bold></p>
			<p>Desde o momento em que soube que a Bienal tinha como título <italic>Como Viver Junto</italic>, me inscrevi para assistir aos seminários mensais que antecederam o evento. Ao fim de cada um deles eu voltava para casa com muitas referências. Já estava desenvolvendo um trabalho colaborativo no Pari, como mencionei, e os textos foram me dando suporte. Foi nesse período que li Nicolas Bourriaud, <italic>A Partilha do Sensível</italic>, de Rancière, <italic>Conversational Pieces</italic>, de Grant Kester, me inteirei dos trabalhos de Thomas Hirschhorn e Rirkrit Tiravanija, revi a obra de Hélio Oiticica e Lygia Clark, procurei trabalhos e escritos de artistas como o da mexicana Minerva Cuevas, que participou da mesma bienal, de Virgínia de Medeiros, que fez o livro <italic>Studio Butterfly</italic>, lançado por Eloísa na Bienal (e que mantenho no nosso catálogo), e da cubana Tania Bruguera, entre outros. </p>
			<p>Parte de algumas leituras foi traduzida e postada posteriormente no meu blog catacá<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>; são textos que de algum modo dialogam com as ações de Dulcinéia. Essas leituras tornaram muito clara a natureza do trabalho coletivo, relacional. Por exemplo, quando em <italic>Estética Relacional</italic> Bourriaud afirma que a &quot;Arte é um estado de encontro&quot;, &quot;Arte é o lugar que produz uma sociabilidade específica&quot;, um &quot;conjunto de tarefas executadas ao lado ou abaixo do sistema econômico real, de modo a recosturar pacientemente o tecido social&quot;, e quando aborda várias maneiras de explorar vínculos sociais, afirmando que &quot;o artista trabalha no campo real da produção de bens e serviços, e visa a estabelecer uma certa ambiguidade, dentro do espaço de sua atividade, entre a função utilitária dos objetos que está apresentando e sua função estética&quot;, identifico o fazer de livros cartoneros. </p>
			<p>Na oficina, instauram-se momentos de sociabilidade; em feiras e eventos culturais, os livros são objetos que forjam encontros. Mas é preciso ressaltar que esse &quot;viver junto&quot; envolve lidar com atritos, antagonismos e diferenças. E trata-se de um exercício contínuo, de atentar para as questões do outro. O tempo todo vivemos num clima de negociação. Este foi um aspecto essencial no período em que participamos da oficina na Bienal, com integrantes do Eloísa e catadores brasileiros, e continua sendo para o coletivo até hoje. Também identifico o embrião de Dulcinéia Catadora quando Lisette Lagnado refere-se a projetos, no catálogo da bienal, que &quot;envolvem comunidades em pequena escala, mas são efetivos na saída do estado de menoridade graças a uma ativação do imaginário pelo trabalho. Alguns têm conseguido aliar as lutas sociais e a economia informal à construção de imagens diferenciadas que circulam por meio de publicações, camisetas e estandartes usados em passeatas.&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>
			</p>
			<p>O contato quase diário com Javier Barilaro no último trimestre de 2006 deixou claro para mim o quanto a estética de Eloísa era orientada pelo conceito de &quot;escultura social&quot; de Joseph Beuys, em que a participação daqueles que não tinham meios de ser expostos à arte era fundamental. Entendi esse conceito na prática, durante a Bienal, e fui atrás de obras de/sobre Beuys para saber mais. </p>
			<p>Não existiu um projeto escrito para conceber Dulcinéia Catadora. As ideias foram ganhando corpo nas conversas diárias, como fazemos nos projetos comunitários que desenvolvemos até hoje. Tomam forma a partir de conversas com as comunidades envolvidas; não são engessadas nem chegam prontas. Estão sujeitos a modificações no decorrer do processo e os resultados não são definidos de antemão. Além da participação dos catadores no Dulcinéia, era importante manter nossa autossustentabilidade, para garantir a independência e a autonomia do grupo. A geração de recursos para os catadores é fundamental. E as leituras foram se somando e embasando o trabalho de Dulcinéia de forma concomitante à nossa prática. Escritos sobre arte socialmente engajada de Grant Kester, que reverberam nos textos de Pablo Helguera, também entraram para minhas referências e me deram mais elementos para seguir caminho. </p>
			<p>Nossa prática decolonial espelha o pensamento de Quijano, Walter Mignolo e Arturo Escobar. Uma publicação feita com catadores, usando papelão recuperado, que muitas vezes leva só o título na capa, sem o nome do autor, sem ISBN, com um carimbo para identificar o grupo, em vez de uma logomarca cuidadosamente desenvolvida e desenhada é um desafio ao conceito de livro, de acordo com uma visão hegemônica europeia. Além disso, queremos contar uma história diferente, ao nosso modo. A colonialidade se mantém viva e dominante na orientação de livros didáticos, nas indicações de leitura desde os primeiros anos escolares, nos modos de saber, de pensar, impondo toda uma visão de mundo eurocêntrica. Dulcinéia Catadora é um processo contínuo de entrelaçamento de leituras e práticas. E, como projeto que completa dezesseis anos, preza a flexibilidade; procura se reinventar e evita qualquer camisa-de-força rotuladora. Mudam seus integrantes, os colaboradores, surgem novas ideias, regras de trabalho são repensadas, são criados novos formatos de livros, as intervenções em espaços coletivos e públicos vão sendo planejadas, montagens nossas ocupam espaços culturais fechados. Nossos livros vão para coleções de bibliotecas, centros culturais e para museus. Transitamos com liberdade e irreverência entre a literatura e a arte e é comum me fazerem perguntas como: por que colocam seus livros em espaços do circuito da arte? Não são ativistas? Se vocês fazem livros, então são uma editora? Se os livros são feitos artesanalmente, então vocês são artesãos? Vivemos num mundo em que as divisões rígidas não fazem mais sentido. As fronteiras estão desmoronando e vejo essa dificuldade de colocar Dulcinéia Catadora numa caixinha como algo positivo. </p>
			<p><bold>A Dulcinéia tem sua sede no bairro do Glicério, em São Paulo. O que te motivou a criar uma cartonera neste local?</bold></p>
			<p>Faz parte da concepção do Dulcinéia a participação dos catadores no processo de criação e produção de livros cartoneros. Ademais, haveria lugar melhor para se trabalhar com eles que não fosse o próprio local onde o papel recolhido das ruas é selecionado e enviado para ser reciclado? Lá, o papelão é pesado e a &quot;balanceira&quot;, pessoa encarregada de fazer esse trabalho de pesagem, já separa o papelão que considera adequado para ser pintado. As caixas são abertas e guardadas num espaço minúsculo, de aproximadamente 2.5m por 1.8m. E o processo segue, com o corte, a pintura, a dobra e a costura do livro. </p>
			<p>A cooperativa é um espaço que acumula, por um lado, a vivência diária de um grupo marginalizado e, por outro, a memória da cidade através de seus resíduos. É um lugar repleto de sentidos. Quando começamos uma oficina, um ciclo de seleção de materiais feito automaticamente é interrompido. Pintar é um respiro durante a suspensão temporária do ciclo de produção e exploração tão cruel, a essência do neoliberalismo. A rotina do trabalho exaustivo, repetitivo e desvalorizado é quebrada e instaura-se um lugar de criação, de transformação do olhar, de expressão artística. De acolhimento, do sensível. Torna-se um lugar de afeto, de trocas, de relações horizontais, mas as fricções também são frequentes. Nesse lugar que ocupa os baixios de um viaduto, justapõe-se outro espaço e outro tempo, com realidades normalmente incompatíveis. </p>
			<p>Depois de transformado pelas mãos dos catadores, esse material comum, rústico e descartável passa a reocupar espaços na cidade por ocasião de lançamentos, saraus, feiras, oficinas, apresentações, exposições e intervenções urbanas. E os catadores os acompanham. Trata-se de um processo de luta contra a invisibilidade, uma oportunidade de promover o contato de pessoas diferentes, o entrelaçamento de segmentos sociais diversos. Catadores-artistas-produtores de livros apresentam-se ao público, falam de seu trabalho na cooperativa, mostram suas criações. São momentos potentes em que os atores têm seus papéis de fala e de escuta invertidos. Não vejo sentido em trabalhar com descarte em nenhum outro local da cidade que não seja uma cooperativa de reciclagem.</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<caption>
						<title>Lúcia Rosa, Andréia Emboava e Maria Dias Costa, integrantes da Dulcinéia Catadora, na instalação Independência e Vida, na Biblioteca Mário de Andrade, em 2022. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf2.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p><bold>O modo de produção cartonero surgiu na Argentina e logo se expandiu ao redor da América Latina. A partir do contexto em que surgiu e da sua experiência como fundadora da Dulcinéia Catadora, como você vê as relações entre os campos editoriais cartoneros Brasil-Argentina naquele momento? Poderia comentar, por exemplo, a experiência da Bienal com a Eloísa Cartonera em 2006?</bold></p>
			<p>Quando Eloísa Cartonera participou da 27<sup>a</sup> Bienal de São Paulo, já tinha um vasto catálogo. Na oficina-instalação produzíamos diariamente livros que eram vendidos ao público. Eram aproximadamente 100 títulos. Incluíam alguns escritores e poetas brasileiros, entre eles Haroldo de Campos, Glauco Mattoso, Camila do Valle, Wilson Bueno e Douglas Diegues. Autores que Santiago Vega (Washington Cucurto) conheceu, por viverem e trabalharem em Buenos Aires na época, ou por participarem de eventos literários naquele país. Esses escritores e escritoras colaboraram com contos e poesias que foram traduzidos para o espanhol e publicados em edições bilíngues. Algumas dessas edições foram preparadas para a Bienal. Esses autores e autoras representavam cerca de um décimo do catálogo, apenas. Fui conhecendo muitos autores latino-americanos publicados por Eloísa. Não tenho meios de avaliar a contribuição do coletivo argentino na divulgação de autores de língua espanhola aqui no Brasil. Talvez ajude dizer que vendíamos aproximadamente 70 exemplares por dia. Pensando em seis dias por semana durante 12 semanas (de setembro a dezembro), chegamos a 5040 exemplares vendidos. </p>
			<p><bold>Um aspecto de extrema relevância para as editoras cartoneras - e que as diferencia do modo de produção livreiro das grandes editoras, por exemplo - é a divisão do trabalho. Em que medida o modo de trabalho na Dulcinéia Catadora se organiza a partir do cooperativismo? Há particularidades em relação ao modo de trabalho de outras cartoneras?</bold></p>
			<p>Como coletivo, não há divisão do trabalho realizado na oficina. A pintura é feita por todas - atualmente, o grupo é formado exclusivamente por mulheres -, a capa recebe uma pintura de base por uma pessoa e é completada com a aplicação do estêncil por outra. A questão da autoria é desconsiderada. Tudo é feito por todas. Tudo é Dulcinéia. É claro que há quem tenha mais facilidade para cortar as capas, quem prefira dobrar, quem passe o estêncil ou quem costura com mais facilidade, mas o trabalho vai se distribuindo espontaneamente. Trabalhar junto é o ponto. O trabalho ganha sentido na medida em que acontecem muitas trocas entre nós. </p>
			<p>Cada grupo cartonero tem sua forma de trabalhar. Muitas cartoneras desenvolvem um trabalho solo no qual tudo é pensado e feito por uma única pessoa. Além disso, há casos em que o cartonero tem o único objetivo de se autopublicar; há cartoneras que seguem o esquema tradicional de edição, inserem ISBN, ficha catalográfica, fazem a impressão em gráfica e depois finalizam com uma capa de papelão; há outras que têm as capas pintadas por grupos de colaboradores (incluindo artistas) e depois fazem a encadernação; há aquelas que não pintam as capas, apenas aplicam ou colam o título e a encadernação é feita por uma ou duas pessoas; há quem use grampeador e quem costure. A liberdade no modo de trabalhar impera. A pluralidade é a marca das cartoneras. Como bem escrevem Alex Ungprateeb Flynn, Lucy Bell e Patrick O´Hare em <italic>Taking Form, Making Worlds</italic><xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>, &quot;Trabalhando com cartoneras, vimos como a construção da pluralidade está latente no próprio material, o papelão, e como as decisões que estão por trás da escolha de trabalhar dessa maneira se baseiam na criação de novas possibilidades no mundo social, tanto relacionadas ao livro cartonero quanto se projetando para muito além dele&quot;.</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<caption>
						<title>Maria Dias da Costa, integrante da Dulcinéia Catadora, na Feira Miolo(s), em São Paulo. 2017. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf3.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p><bold>Ao tratar de produtos artesanais, é sempre um tabu referir-se à questão monetária e comercial. Como se dão as vendas dos livros da Dulcinéia? Qual é o público-alvo deste produto?</bold></p>
			<p>Tabu para nós é pensar em lucro. Em cada livro incluímos o custo dos materiais, da impressão e do que as catadoras recebem - cerca de 2/3 do total - que entra nesse cálculo. Não acrescentamos nenhuma margem sobre o valor final. Falar em vendas é algo diferente: dependemos das vendas para repassar recursos para as integrantes do coletivo. Esses valores representam uma complementação de renda necessária e justa, uma vez que o coletivo está calcado na sua sustentabilidade e não depende (nem quer depender) de apoio de nenhuma instituição privada ou pública. Mantemos um valor modesto por unidade (R$15,00) pois é importante que pessoas com baixo poder aquisitivo possam ter acesso à literatura. Nosso público são os próprios escritores e os interessados que frequentam as feiras e bancas de rua que vendem publicações independentes.</p>
			<p><bold>A Dulcinéia Catadora produziu livros com estéticas muito únicas, que revelam um processo de concepção afiado com as obras editadas. Como se dá o processo de criação artística das capas?</bold></p>
			<p>Não discutimos a criação das capas. Raras são as vezes em que pensamos em uma proposta direcionada que seja de algum modo seguida pelas integrantes do grupo. O que consideramos essencial é dialogar com as impressões gráficas presentes nas caixas de papelão por serem memória do descarte industrial. As capas são pintadas livremente. Dissolve-se a relação de cima para baixo daquele que detém o saber com os que têm de se submeter a ensinamentos. Nada é ensinado, sentamos todas juntas para pintar. A leitura do caderno que será publicado pode ser feita parcial ou integralmente, em grupo ou individualmente, dependendo do nosso interesse. Cada integrante desenvolve sua linguagem e vai descobrindo, a seu tempo, sua forma de expressão. </p>
			<p>
				<fig id="f4">
					<caption>
						<title>Algumas das capas de Dulcinéia Catadora. Foto retirada na Feira Miolo(s), em 2017. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf4.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p>Qual a linha editorial da Dulcinéia Catadora? Como você analisa o catálogo da Dulcinéia Catadora em relação às tendências literárias do mercado editorial ou ao universo acadêmico dos últimos anos?</p>
			<p>Acesso é um dos nossos pilares, um conceito que abarca todo o processo, contemplando desde os participantes na cooperativa aos autores e aos leitores. Publicar contos e poesia de autores brasileiros contemporâneos que não têm inserção no mercado editorial é um eixo que nos guia até hoje. Nosso primeiro lançamento foi <italic>Sarau,</italic> da Cooperifa. Representa com clareza nossa intenção de relativizar a importância de escritores brancos que tiveram acesso a um sistema de ensino excludente e de publicar escritores que fugissem às normas canônicas valorizadas tradicionalmente e difundidas no sistema de ensino. Fizemos um livro de Sebastião Nicomedes - <italic>Marvadas</italic> - que viveu algum tempo em situação de rua e teve seus poemas guardados por uma assistente social. Muitos são os autores nossos que representam vozes periféricas. Escritos de Heloísa Buarque de Hollanda contribuíram bastante para nosso pensamento sobre literatura marginal. O mercado editorial publica para ter lucro. As editoras se envolvem em um esquema de marketing que garante as vendas, independentemente da qualidade. Jogam no consagrado, autores legitimados pela crítica e que são sucesso certo: trata-se de uma prática excludente. Nossa linha de ação segue na direção oposta: questionamos os modos prevalecentes de conhecimento ditados por uma sociedade altamente estratificada e sedimentada em divisões de gênero, raça e classe. </p>
			<p>Temos autonomia, trabalhamos paralelamente ao mercado, não queremos gerar lucro, podemos escolher autores interessados em experimentar, em arriscar; aqueles engajados em questões sociais. Não estamos ligados às tendências de mercado nem ao universo acadêmico. Curiosamente, muitos escritores que tiveram sua primeira publicação feita por Dulcinéia, como Marcelo Ariel, Sheyla Smanioto e Kátia Bandeira de Mello continuaram publicando, ganharam prêmios e foram absorvidos por grandes editoras. Alguns deles estão sendo ou foram objeto de estudos acadêmicos. Nós incluímos ainda autores conhecidos, com longa lista de livros publicados, mas que estão afinados com nossa proposta, que querem chegar a públicos diferentes com uma publicação a um preço acessível e que consideram o livro cartonero como um instrumento de resistência capaz de ampliar o alcance da literatura. Entre eles, cito Alice Ruiz, Andréa del Fuego, João Anzanello Carrascoza, Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Paulo Scott, Xico Sá e Glauco Mattoso, que são colaboradores que entendem que a publicação cartonera é inseparável do contexto em que é criada, está baseada em relações de afeto e se insere em nosso projeto mais amplo de arte colaborativa.</p>
			<p>Em 2010, quando participamos da segunda Feira Tijuana de Publicações Independentes no Brasil, na Galeria Vermelho (São Paulo), lançamos os primeiros livros em parceria com artistas. A receptividade foi muito boa, não só por parte do público, como também das catadoras, que passaram a participar ativamente da produção de conteúdo, em um processo muito aberto de colaboração com os artistas. </p>
			<p><bold>Desde 2008, a Dulcinéia Catadora vem fazendo intervenções urbanas em São Paulo, que trazem questionamentos importantes para o campo da discussão pública sobre o acesso aos livros. Você poderia comentar mais sobre essas performances? Como foram elaboradas, quais os conceitos envolvidos e a recepção por parte do público?</bold></p>
			<p>Nossas intervenções sempre foram pensadas em grupo: conversamos sobre todo o processo, mergulhamos juntos nos preparativos e lá vamos nós. Cada intervenção toma forma dependendo do espaço em que será realizada. Em muitas delas, usamos capas de papelão pintadas, uma sugestão de Carlos Rosa, meu companheiro e grande colaborador do coletivo. Claro que queremos mostrar nossos livros ao público, é uma forma de fazê-los circular. Algumas vezes eles foram distribuídos. Nós lemos poemas, pedimos para o público escrever em cadernos que levamos pendurados em nossas capas, no meio dos livros. O acesso à leitura está claramente em jogo, mas as performances agregam outros objetivos: são catadores que estão nas ruas ou em espaço público. O fato de estarem assumindo outro papel expõe os passantes a uma questão social que pode passar despercebida no dia a dia. Queremos suscitar questionamentos, provocar dissensos, contribuir para uma mudança social positiva, desmantelar preconceitos, romper com a invisibilidade e a exclusão. Não temos uma ideia preestabelecida do que pode acontecer, apenas atuamos. A curiosidade das pessoas é grande: respondem positivamente, querem conhecer os livros, saber como são feitos, saber dos autores. Sentimos uma grande satisfação nessas intervenções bem-humoradas provocando as pessoas, quebrando o automatismo de suas ações rotineiras e incitando-as à reflexão. Para falar especificamente sobre cada uma das performances feitas até hoje, precisaríamos de um espaço imenso e daria um livro (risos).</p>
			<p>
				<fig id="f5">
					<caption>
						<title>Intervenção da Dulcinéia Catadora no Largo da Batata, em São Paulo. 2010. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf5.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p><bold>A Dulcinéia Catadora possui uma longa trajetória de oficinas e da promoção de cruzamentos entre o mundo editorial e a educação. Em que medida esses campos estão imbricados? Qual importância tem as oficinas na história da Dulcinéia Catadora?</bold></p>
			<p>As oficinas são a bandeira educativa de Dulcinéia e têm um papel importante na formação de outros grupos cartoneros. Muitos foram os grupos que surgiram a partir de uma oficina nossa. As oficinas aproximam os catadores do público em geral e aproveitamos para que também sejam oportunidades de combate à invisibilidade, aos preconceitos. Para crianças, dão o recado sobre como reciclar é uma alternativa ao consumo de materiais novos e caros, como é possível fazer o próprio caderno, ou diário, de maneira original e criativa. Nas oficinas, sempre há espaço para comentários sobre autor, gênero literário, ato de escrever, quanto a leitura enriquece nossa visão de mundo. Por outro lado, gerar recursos é fundamental e as oficinas contribuem muito para a complementação de renda das catadoras e para a continuidade de nossas ações. </p>
			<p>
				<fig id="f6">
					<caption>
						<title>Oficina a céu aberto, em Recife, Pernambuco. 2008. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf6.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<fig id="f7">
					<caption>
						<title>Oficina em Pedra Lisa, Rio de Janeiro. 2012. Fonte: Lúcia Rosa.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-26-291-gf7.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p><bold>Nos últimos anos, houve uma expansão do campo cartonero não só pela América Latina, mas pelo mundo. Um efeito se vê no surgimento de cartoneras dedicadas aos mais distintos e específicos temas e em diversos locais de produção. Poderia comentar essa expansão? Quais projetos cartoneros atuais chamam a sua atenção?</bold></p>
			<p>Com formato simples, feito com materiais baratos, o livro cartonero é facilmente executável e, ao mesmo tempo, de grande impacto visual. Ele pode ser visto como uma publicação original, excêntrica, ousada e irreverente, como instrumento de resistência. Presta-se a vários formatos: aceita colagem, bordado, perfurações e recortes vazados. O livro cartonero diferencia-se da brochura ou das plaquetes pela materialidade, pois o papelão estrutura melhor a publicação. Preenche lacunas deixadas pelo mercado editorial, com publicações e traduções de escritores que não foram legitimados pela crítica. Talvez estes sejam alguns aspectos que contribuíram para a proliferação desenfreada de cartoneras, pelo menos nos primeiros anos, a partir de 2003. Elas atendem ao desejo de um número imenso de escritores que não se contentam em divulgar seus escritos pelos meios digitais. </p>
			<p>Nos últimos dez anos, parece que identificar-se como cartonera passou a ser quase um selo em defesa do meio ambiente. Um livro cartonero é uma marca de resistência, traz o carimbo invisível de um gesto decolonial. A autonomia no fazer e a liberdade na escolha editorial são fatores primordiais. Pertencer a esse grupo espalhado pelo mundo pode abrir possibilidades de circulação, de trocas entre grupos. Os grupos que desenvolvem um trabalho educativo se destacam por seu papel formador de leitores e também pela disseminação da prática para pessoas de todas as idades, deixando claro que todo indivíduo é capaz de publicar seus escritos, montar seus livros e colocá-los em circulação. Os grupos dedicados a trabalhar com pessoas encarceradas também são admiráveis, ensinando-as a prática cartonera e desenvolvendo oficinas de escrita. Muito válidos são os projetos cartoneros feitos em comunidades para denunciar carências, violências e questões que não podem ser ignoradas e que requerem uma mobilização da sociedade.</p>
			<p><bold>A Pandemia de COVID-19, entre outras coisas, trouxe grandes mudanças em relação àqueles que trabalhavam coletivamente e com o público. Como foi esse período para a Dulcinéia Catadora? Você vê perspectivas diferentes para o universo cartonero pós pandêmico?</bold></p>
			<p>No período da COVID-19 o mundo parou. E nós também. As cooperativas ficaram fechadas por muito tempo. Muitas ações sociais foram feitas para socorrer os catadores e ajudá-los a sobreviver. Aos poucos, surgiram os encontros online para conversas e troca de ideias, mas nunca me vi plena nesses encontros pois faltava o calor, o olhar direto não intermediado pela tela. Até participamos de uma feira online - um recurso bem arquitetado, mas que perde de longe de uma feira presencial -, fizemos um lançamento online e cheguei a dar oficinas online para instituições de São Paulo e para um evento na Holanda. Sempre registro a falta: o contato humano, pele a pele, é essencial. </p>
			<p>Aos poucos, as atividades presenciais estão voltando e novos mecanismos de vendas e circulação aparecem, como as bancas de publicações independentes. É preciso seguir com cautela, mas não vejo motivo para uma diminuição no ritmo de crescimento do trabalho cartonero. Afinal, seu crescimento também parece viral. O livro cartonero firmou sua presença em meio às possibilidades de publicação na atualidade, o que é resultado de um trabalho de resistência. Uma alternativa claramente ligada a uma visão decolonial que deve garantir seu espaço ao fazer parte de uma forma de ver o mundo que se distancia da visão hegemônica europeia. A continuidade de cada grupo é fundamental. Como diria meu avô, AVANTE!</p>
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			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Anzaldúa, Gloria E. Borderlands/La frontera: the new mestiza. San Francisco: Aunte Lute Books, 2012.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>Anzaldúa</surname>
							<given-names>Gloria E.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Borderlands/La frontera: the new mestiza</source>
					<publisher-loc>San Francisco</publisher-loc>
					<publisher-name>Aunte Lute Books</publisher-name>
					<year>2012</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>Casanova, Pascale. A República Mundial das Letras. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>Casanova</surname>
							<given-names>Pascale</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>A República Mundial das Letras</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Estação Liberdade</publisher-name>
					<year>2002</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>Rama, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Editora Brasiliense S.A., 1985.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>Rama</surname>
							<given-names>Angel</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>A cidade das letras</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Editora Brasiliense S.A.</publisher-name>
					<year>1985</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation> “Sobre o projeto”. DULCINÉIA CATADORA. Disponível em: &lt;<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.dulcineiacatadora.com.br/sobre-o-projeto-about-the-project">https://www.dulcineiacatadora.com.br/sobre-o-projeto-about-the-project</ext-link>
					</comment>&gt;. Acesso em: 03 maio 2023.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="webpage">
					<article-title>Sobre o projeto</article-title>
					<source>DULCINÉIA CATADORA</source>
					<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.dulcineiacatadora.com.br/sobre-o-projeto-about-the-project">https://www.dulcineiacatadora.com.br/sobre-o-projeto-about-the-project</ext-link>
					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2023-05-03">Acesso em: 03 maio 2023</date-in-citation>
				</element-citation>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>O link para o blog é: &lt;<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://dulcineiacatadora.blogspot.com/">http://dulcineiacatadora.blogspot.com/</ext-link>&gt;. Acesso em: 15 abril 2023.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Lagnado, Lisette. “No amor e na adversidade”. Lagnado, Lisette; Pedrosa, Adriano (Org.). <italic>27ª Bienal de São Paulo. Como viver junto</italic>. São Paulo: Fundação Bienal, 2006, p. 58.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Bell, Lucy; Flynn, Alex Ungprateeb; O’Hare, Patrick. <italic>Taking form, making worlds: cartonera publishers in Latin America</italic>. Austin: University of Texas Press, 2022.</p>
			</fn>
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