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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i27p217-246</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>DOSSIER: CRÍTICA LITERARIA: VUELTAS, RECONFIGURACIONES Y EXPANSIONES EN AMÉRICA LATINA</subject>
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			<title-group>
				<article-title>O insílio: certa dívida da crítica literária na América Latina</article-title>
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					<trans-title>The Insilium: a Debt of Literary Criticism in Latin America</trans-title>
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						<surname>Leal</surname>
						<given-names>Cristina Gutiérrez</given-names>
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					<institution content-type="original">Universidade Federal da Integração Latino-Americana - UNILA. Contato: cdgl19@gmail.com Brasil</institution>
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				<day>22</day>
				<month>07</month>
				<year>2024</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Ja-Jun</season>
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			<issue>27</issue>
			<fpage>217</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Dentro do amplo escopo de temáticas e correntes estéticas que a literatura latino-americana tem produzido, o deslocamento em suas múltiplas faces - migração, exílio, diáspora - desempenha um papel de destaque. No entanto, é importante ressaltar que existem projetos estéticos construídos com base em um tipo de deslocamento não geográfico, o insílio, o qual representa uma das grandes lacunas na historiografia literária da América Latina. Nesse sentido, o objetivo desta análise é compilar, por meio de uma revisão bibliográfica não exaustiva, uma série de reflexões teóricas que possam servir como uma sistematização preliminar sobre o tema do insílio. Essa compilação será realizada a partir da análise de determinadas obras críticas e literárias, visando a propor uma reconfiguração da cartografia crítica da literatura latino-americana. Para tal propósito, o corpus do trabalho é composto por textos críticos de autores como Jacques Derrida, Elena Palmero González e Eduardo Lalo, além do romance <italic>Los Vigilantes</italic> (1994), da escritora chilena Diamela Eltit (1949).</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Within the broad scope of themes and aesthetic currents that Latin American literature has produced, displacement in its multiple faces - migration, exile, diaspora - has played a prominent role. However, it is important to note that there are aesthetic projects built on a non-geographic type of human displacement, the insile, which represents one of the great gaps in Latin American literary historiography. In this sense, the aim of this analysis is to compile, through a non-exhaustive bibliographical review, a series of theoretical reflections that can serve as a preliminary systematization on the theme of insile. This compilation will be carried out from the analysis of certain critical and literary works, aiming to propose a reconfiguration of the critical cartography of Latin American literature. For this purpose, the corpus of the work is composed of critical texts by authors such as Jacques Derrida, Elena Palmero González and Eduardo Lalo, in addition to the novel <italic>Los Vigilantes</italic> (1994), by Chilean writer Diamela Eltit (1949).</p>
			</trans-abstract>
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				<title>PALAVRAS-CLAVE:</title>
				<kwd>Insílio</kwd>
				<kwd>Literatura latino-americana</kwd>
				<kwd>Diamela Eltit</kwd>
				<kwd>Descolamento</kwd>
				<kwd>Crítica literária</kwd>
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				<title>KEYWORDS:</title>
				<kwd>Insile</kwd>
				<kwd>Latin American literature</kwd>
				<kwd>Diamela Eltit</kwd>
				<kwd>Human displacement</kwd>
				<kwd>Literary criticism</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>INTRODUÇÃO</title>
			<p>A historiografia da literatura hispano-americana tem desempenhado um papel fundamental na sistematização de muitos dos temas e projetos estéticos que perpassam o desenvolvimento histórico de nossas nações e suas conexões com a literatura universal. Ao examinarmos os momentos canonicamente destacados da história literária hispano-americana, é possível encontrar eventos como a configuração das jovens repúblicas no começo do século XIX, refletida na forma como o romantismo foi apropriado e reconfigurado em prol de uma ideia de identidade nacional, por exemplo; outro marco importante é a renovação literária e política representada pelo modernismo, que teve um impacto significativo além da região, especialmente na Espanha. As vanguardas também desempenharam um papel crucial, caracterizando um período de prolífica produção literária estruturada por projetos estéticos antes impensáveis. Além disso, o chamado &quot;realismo mágico&quot; emerge como um ponto extremamente relevante na configuração da literatura hispano-americana, consolidando uma ideia distintiva. </p>
			<p>Sem dúvida, também existem projetos inovadores que produziram obras às margens dessa grande história da literatura hispano-americana. A partir deles, surgiram temas e correntes estéticas que hoje são amplamente estudados por setores da crítica literária e alimentam as novas tendências da historiografia em nossa região. Dentro desse amplo escopo de temáticas e correntes estéticas, encontramos o exílio, cujo (nem tão) oposto, o &quot;insílio&quot;, se configura como o foco do presente trabalho, já que, acredito, as reflexões teóricas e conceituais sobre o &quot;insílio&quot; ainda são incipientes e configuram, em certa medida, uma das grandes dívidas da historiografia literária na América Latina. Nesse sentido, a análise que aqui apresento pretende compilar uma série de reflexões teóricas que possam servir como sistematização, ainda que larvária, sobre o tema mediante obras literárias a partir das quais é possível começar a pensar acerca do insílio como motivo literário e, a partir dele, a reconfiguração da cartografia crítica da literatura latino-americana.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>INSÍLIO: UM TIPO DE DESLOCAMENTO?</title>
			<p>O deslocamento é privilegiado neste trabalho como matriz principal com potência suficiente para pensar os mais distintos modos de mobilidade, pois, em palavras de Elena Palmero González, pensar o deslocamento “significa remeter a diferentes formas de mobilidade, física, espiritual, linguística; as diversas práticas de emigração, exílio, diáspora, êxodos, nomadismos, circulações humanas; é pensar em traslados e trânsitos de todo tipo” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">2010</xref>, 109). No âmbito dessa multiplicidade de formas e práticas, se considera a noção de insílio como um tipo de deslocamento, cuja singular direção, para dentro, postula outra maneira de pensar a estrangeiridade, conforme explico no decorrer das seguintes reflexões.</p>
			<p>A pergunta acerca do estrangeiro já encontrou resposta em muitas áreas do conhecimento. Julia Kristeva, nas primeiras páginas de <italic>Estrangeiros para nós mesmos</italic>, afirma que “o estrangeiro que habita em nós, ele é a face oculta da nossa identidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Kristeva, 1994</xref>, p. 9), e o contato com esse nosso rosto vindo de fora parece interpelar também nossa maneira de nos relacionarmos com o que consideramos diferente. “Poderemos viver com outros?”. (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Kristeva, 1994</xref>, p. 9). No texto <italic>Da hospitalidade</italic> (2003), Jacques Derrida responde a essa pergunta: é impossível viver com outros, mas é um imperativo. Nesse mesmo livro <italic>Da hospitalidade</italic>, o autor nos revela um dos seus grandes apotegmas: a hospitalidade é uma aporia, um conceito sem poros, é dizer sem possibilidades de respirar, irresolúvel. “Como se o imperativo categórico da hospitalidade exigisse transgredir todas as leis da hospitalidade, a saber, as condições, as normas, os direitos e os deveres que se impõem aos hospedeiros e hospedeiras”. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Derrida, 2003</xref>, p. 69). Pois, segundo ele, a hospitalidade radical -e não pode existir hospitalidade sem ser radical - é impossível por uma série de questões relacionadas também aos conceitos de soberania e propriedade. O autor postula que o estrangeiro é, fundamentalmente, um desafio ao poder do <italic>logos</italic> paterno, logo à autoridade “do pai, do chefe da família, do ‘dono do lugar’, do poder da hospitalidade”. (2003, p. 7). </p>
			<p>Ser <italic>host</italic> a partir do conceito de hospitalidade radical é, então, impossível, pois em face ao “estranho”, ao vindo de longe, ao diferente, não somos capazes de apartar a necessidade de sentir-nos resguardados em prol de um “próximo” que não o é tanto, que continua a ser estrangeiro. Nesse sentido, Derrida discute a fundo o conceito e convida-nos a pensar nele da única forma possível: desde a sua complexidade.</p>
			<p>A literatura não é alheia ao tema e, de fato, uma das grandes figuras da tradição literária ocidental é a do deslocado, nas suas múltiplas acepções: o exilado, o migrante, o refugiado, etc. E essa figura se faz tão presente na literatura contemporânea que ela transforma a tradição de produção da literatura identificada como nacional, tornando complicada essa definição “tradicional - nacional” e, talvez, irrelevante (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Bernd, 2007</xref>). Neste sentido, é importante repensar as formas que temos de nos relacionar com o deslocamento como conceito meramente geográfico, para dar caminho, assim, a um entendimento maior sobre as movimentações próprias do humano, aquelas que ocorrem dentro, no insílio, e que, como já disse, contam com pouquíssima reflexão teórica dentro do campo intelectual na América Latina.</p>
			<p>Há uma intensa discussão interdisciplinar em torno do deslocamento geográfico, com várias propostas artísticas/poéticas que exploram o exílio, as diásporas e outros movimentos migratórios no contexto estético contemporâneo. Não há dúvidas de que esse tema tem ocupado uma posição de destaque na literatura. Por sua vez, o insílio se apresenta como um monstro disforme, que não tem estrutura definida e pode ser experimentado com formatos muito diferentes, que ainda não foram suficientemente analisados pelos estudos literários e pelos estudos da cultura de forma geral. O exílio parece mais diáfano, não menos doloroso e significativo, mas, sim, mais caracterizado, com rosto mais bem definido tanto dentro da história das civilizações quanto dentro da crítica cultural. Aqueles que ficam tornam-se opacos nas grandes histórias dos deslocamentos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O INSÍLIO, SUA URGÊNCIA</title>
			<p>Diante da necessidade de sistematização bibliográfica da literatura relacionada ao insílio, se faz necessária uma proposta cartográfica de autores que abordam/abordaram o tema a partir de procedimentos teóricos, de projetos estéticos e de poéticas inovadoras em decorrência da condição insílica. Sobre a urgência desse procedimento o escritor porto-riquenho Eduardo Lalo afirma, em seu livro <italic>donde</italic>:</p>
			<disp-quote>
				<p>Até hoje na literatura e na história, o exilado foi um personagem protagonista. Proponho outro: o que ficou, o que retornou, o que não pode (ou não quis) ir a algum lugar. [...] Aposto na pertinência desses seres, em seu heroísmo domiciliar. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Lalo, 2005</xref>, p. 95, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nesta citação do Lalo, &quot;quem fica&quot; é colocado como uma nova categoria a partir da qual vale a pena olhar o mundo e as identidades; uma categoria cívica/política que tem repercussões nos laços que se formam ou deveriam formar-se com a sociedade. Nesse sentido, os estudos sobre as múltiplas formas do deslocamento deveriam prestar atenção a essa figura de quem ficou, do <italic>insilado</italic>, para pensar a cultura em trânsito do nosso tempo.</p>
			<p>Apesar de as discussões literárias sobre o insílio não se materializarem em uma bibliografia crítica sistematizada e abundante, existem formas de cartografar aproximações incipientes de autores que tradicionalmente dedicaram suas reflexões a temas como diáspora ou estrangeiridade, organizando assim, uma pequena amostra de trabalhos que exploraram o tema do insílio. A seguir, são destacadas algumas apreciações. </p>
			<p>George Simmel, em <italic>El extranjero. Sociología del extraño</italic>, refere-se à experiência de ser estrangeiro como uma forma social, como uma maneira particular de se relacionar com o outro. Neste sentido, desenvolve uma série de apreciações acerca do tema, e uma das que mais me interessa é aquela em que afirma que ser estrangeiro não é necessariamente “vir de outro país, de outra terra” (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Simmel, 2012</xref>, p. 14), pois também é forasteiro aquele dissociado das características comuns em um grupo social, aquele que experimenta um peso da “estranheza”, cuja composição complexa convoca várias perspectivas e pontos de vista. Quem é, então, o forasteiro? Como reconhecer um estrangeiro inclusive dentro da sua terra? A ideia de distância tem sido prolificamente associada ao ser-estrangeiro, mas na dialética proximidade-distância, Simmel consegue criar alguns elos para entender melhor certos lugares opacos do próprio conceito de estranheza:</p>
			<disp-quote>
				<p>Existe um estranhamento que rejeita a mesma ideia de compartilhar algo comum e genérico com os outros. A relação dos gregos com os “bárbaros” é um exemplo típico deste não reconhecimento no outro de uns traços genéricos, considerados específica e exclusivamente humanos [...]. Como membro do grupo está, ao mesmo tempo, próximo e distante. (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Simmel, 2012</xref>, p. 25, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Então, esse estar em um grupo em relação ao qual nos parece muito clara a ideia de traços em comum e, ainda assim, sentir um tipo de rejeição, produz um modo de afastamento moral e identitário que, apesar da proximidade, empurra o sujeito a experimentar uma forma social distinta, a se sentir estranho, sem pertencimento, estrangeiro em sua própria terra: insilado. O insílio, como a estrangeiridade, seria também uma forma social, uma ideia de relação com o outro atravessado pela dialética entre proximidade e distância. Então, o insilado, nesse caso, pode ser visto não só como o oposto de quem está partindo, mas também como alguém que assume uma espécie de estrangeiridade dentro do seu próprio território.</p>
			<p>James Clifford, por sua vez, ajuda-nos a pensar uma possível estrutura epistemológica e teórica para o insílio, pois no seu livro <italic>Itinerarios transculturales</italic> chama a atenção para a necessidade de se pensar a diáspora para além das grandes narrativas e abrir para interpretação as formas não essencialistas, definitivas e arquetípicas de mobilidade (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1999</xref>, p. 305). A partir dessa ótica, seria vislumbrável um gesto descentralizador da experiência da diáspora capaz de iluminar pontos ainda obscuros que se tornam uma alternativa de análise e uma valiosa chave de leitura, que de certa forma fazem-nos ampliar os modos em que os deslocamentos tinham sido pensados, e abrir a possibilidade de considerar o insílio - como forma colateral ao movimento das diásporas - uma das suas manifestações.</p>
			<p>Justamente neste sentido, Avtar Brah em <italic>Cartografias de la diáspora</italic> (1996) propõe o termo “espaço diaspórico” para pensar uma ideia de diáspora mediada por vários fatores, tais como lar, viagem, fronteira, minoria, poder multiaxial, etc., e no desenvolvimento das suas premissas teóricas introduz - digo “introduz” porque não o amplifica - um modo de pensamento que vem iluminar este trabalho:</p>
			<disp-quote>
				<p>Meu argumento central é o espaço da diáspora como categoria conceitual daquele que habita e não apenas daqueles que migraram e de seus descendentes, mas também aqueles que são construídos e representados como nativos/autóctones. Em outras palavras, o conceito de espaço da diáspora [...] contém genealogias de dispersão relacionadas com aquelas que tendem “a ficar onde estão”. (<xref ref-type="bibr" rid="B5">2011</xref>, p. 220, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Desta forma, Brah, que dedica inúmeras páginas a refletir sobre a noção de diáspora, abre o leque de interpretação para fazer do diaspórico um conceito desligado de um relato único e unívoco, tomando-o como uma área de análise que permite a criação de um espaço expansível onde podem conviver distintos lugares de fala, distintos lugares de onde nomear o deslocamento. Como vemos na citação, um desses lugares é o daquele que fica, aquele cuja viagem é empreendida só em direção interna e que, em determinados contextos, vem configurar novos imaginários, novas identidades, inéditos veículos para pensar o modo de habitar um mundo. O insílio poder-se-ia plantear, então, como um espaço diaspórico? Talvez não exatamente, pois o insílio, sendo uma espécie de contracapa do exílio, é individual e, geralmente, atrelado a circunstâncias políticas; mas as reflexões de Brah são importantes por considerar aqueles que “ficaram” como uma categoria em aberto que propicia formas de organização e representação.</p>
			<p>Nessa mesma linha de pensamento, Néstor García Canclini, em <italic>El mundo entero como lugar extraño</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B12">2014</xref>), reflete sobre vários temas relacionados ao deslocamento e à cultura da globalização. Especificamente no ensaio que dá título ao livro, o autor pensa como a reflexão sobre os exílios do século passado precisa ser revisitada à luz dos novos tipos de movimentos humanos e modos (impossíveis) de ser estrangeiros, pois é cada vez mais frequente a ideia de que não existe mais um lugar para onde ir, já não há lugar livre de desemprego, violência e/ou xenofobia.</p>
			<p>Assim, o autor fala de várias formas não tradicionais de movimentação, formas de estrangeiridade à margem do habitual relato do deslocamento e que, para este estudo, poderíamos enquadrar como possíveis formas de insílio. O primeiro caso seria o dos indígenas. Nas sociedades americanas eles poderiam ser considerados os primeiros insilados, pois, quando não exterminados, foi-lhes arrancada sua própria terra e o direito sobre ela, inclusive sem tirá-los dela, obrigando-os a ficar à beira dos serviços básicos e muitas vezes com grandes dificuldades para demarcação de terras. Neste sentido, as populações indígenas seriam estrangeiras no seu próprio território, expostos como corpos exóticos, alheios, estranhos, em lugares que foram primeiramente habitados por elas. Em palavras de García Canclini:</p>
			<disp-quote>
				<p>Ser exótico na própria terra, servir de entretenimento para os turistas, ver rituais e música transformados em fetiches e em mercadorias são os procedimentos que convertem em estrangeiros 50 milhões de indígenas e 150 milhões de afro-americanos na América Latina. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">2014</xref>, p. 52, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Outra das formas de ser estrangeiro sem se deslocar geograficamente apontada por García Canclini é a propiciada pela tecnologia da informação e comunicação: “A linguagem ordenada nomeia como migrantes as pessoas que têm dificuldades de mudarem o analógico para o digital e nomeia como nativos os jovens e as crianças formados na internet” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">2014</xref>, p. 52, tradução minha). Embora não seja uma das formas de insílio que são abordadas neste trabalho, esta perspectiva oferece óticas para entender, mais uma vez, como a tecnologia “estrangeiriza” certo grupo de pessoas e propicia o espaço insílico. Idosos ou, inclusive, adolescentes e crianças sem contato com a tecnologia digital tornam-se estrangeiros em face aos “nativos” digitais e, assim, viram corpos deslocados sem sair de casa: insilados.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>ALÉM DESSES EXEMPLOS:</title>
			<disp-quote>
				<p>sentem-se estranhos os que veem seu país se transformar ao aumentar a gente com outras roupas e com outras línguas; ou que já não podem, devido à violência cotidiana, sair às ruas de noite ou deixam de usar partes íntimas da própria cidade. A interculturalidade e as comunicações globalizadas nos tornam estrangeiros não só das paisagens que eram próprias para nós ou nossos pais. Somos convidados ou pressionados a viver em outras pátrias. (Canclini, 2014, p. 52, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>A forma de habitar um lugar, de estabelecer relações sociais e espaciais, também poderia fazer surgir tipos de experiências insílicas, pois, para aqueles cujo pertencimento baseia-se nos vínculos afetivos criados a partir das experiências ali vivenciadas, uma vez que lhes são tiradas, lhes é retirado também seu pertencimento. Assim, aparece um outro atravessamento para pensar o insílio: o de comunidade. Os lugares que herdamos como nossos, que recebemos de geração em geração, colaboram - mesmo que de forma adjeta - para a configuração da nossa identidade e, portanto, da nossa ideia de pátria/país. Quem tem que lidar com o estranhamento de não ter mais certa ordem territorial já manejada vê-se em uma situação de estrangeiridade. O turismo global estaria, talvez, causando estes fenômenos em cidades raptadas pela obrigação se receber turistas e comprazê-los com uma imagem pré-desenhada: “O sentimento de ser estrangeiro na consciência do desajuste, na perda da identidade na qual antes nos reconhecíamos”. (Canclini, 2014, p. 54).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>LATINO-AMÉRICA INSÍLICA</title>
			<p>Apresentadas as definições teóricas, ainda incipientes, sobre o insílio, mostra-se a necessidade de sistematização de propostas literárias associadas às experiências de insílio. Durante a revisão de dados bibliográficos para pensar este tema, houve a evidência de que os trabalhos sobre o tema do insílio estão relacionados às obras de autores que produziram seus textos durante os períodos ditatoriais do Cone Sul ou que se encontraram vinculados aos complexos processos históricos caribenhos do século XX. A seguir, estão dispostos alguns exemplos pontuais que, além de retratar o tema, colaboram na ampliação de seu entendimento teórico.</p>
			<p>No caso do Chile, Araucaria Rojas fez um trabalho importante sobre Rubén Sotoconil, ator e dramaturgo chileno que, apesar de vivenciar as fatalidades do regime de Augusto Pinochet, decidiu permanecer no Chile, insilado no interior do país. Pensando nesse caso específico, a pesquisadora afirma que:</p>
			<disp-quote>
				<p>O insílio além de atomização, o esquecimento e o recuo forçado, é também - e sobretudo - a criação de novas possibilidades de enunciação e articulação comum. Ocupa o lugar comum da clandestinidade como única via de implantar estratégias de resistência e de sortear o horror. O ponto de fuga da repressão. (2017, p. 145, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>A clandestinidade associada ao exílio interior terá especial protagonismo nas narrativas de insilados. Neste caso, é a notável produtividade vital e estética que produz o insílio de Sotoconil, pois é através dela que o dramaturgo assumirá tanto sua vida como sua obra, produzindo refúgios de enunciação desde as margens de um país que expulsa a seus habitantes. Aproveito este contexto chileno para referir também o trabalho de Naim Gomez, que estuda o insílio na poesia chilena no ensaio “Exilio e insilio: representaciones políticas y sujetos escindidos en la poesía chilena de los setenta”. (2017). Gomez faz uma análise exaustiva de obras poéticas escritas na clandestinidade e no interior do Chile, associando esse deslocamento ao interior do país com o insílio.</p>
			<p>No caso caribenho, um dos autores habitualmente associados à produção literária do insílio é o cubano Pedro Juan Gutiérrez, autor, dentre outros livros, de <italic>Trilogía sucia de La Habana</italic> (1998), cuja obra e vida tem sido analisada por Ingenshay (2010) como uma das manifestações que ele denominou de fenômenos colaterais do exílio: a diáspora e o insílio. Ingenshay afirma: “Por la desproporción entre su fama fuera del país y su silenciamiento en Cuba, Gutiérrez es un insilado muy particular” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ingenschay, 2010</xref>, p. 9). Desta forma, Gutierrez é visto como um insilado cuja atuação celebrada no exterior faz da sua permanência em Cuba um acontecimento muito significativo no circuito literário da ilha. Este autor, como vários outros caribenhos, formaria parte de uma relevante tradição de insilados do Caribe, cujo estudo sistemático e comparativo é uma urgência nos estudos caribenhos e na crítica cultural latino-americana.</p>
			<p>Na América do Sul, uma das referências mais citadas ao se falar do insílio é Illanez (2006), que publicou um artigo na revista da Universidad Nacional de San Juan, na Argentina, no qual faz uma breve, mas esclarecedora, caracterização do insílio, derivada da experiência argentina com o golpe e a ditadura. Primeiramente, ele realiza uma distinção já conhecida entre exilado e migrante, argumentando o que já muitos teóricos falaram: aqueles que deixam um país para uma vida melhor, para trabalhar, são migrantes e não exilados, já que sua relação com a memória e o retorno é diferente da de um exilado que foi expulso do país e para quem o retorno não é mais uma possibilidade.</p>
			<p>Assim, ele faz uma ponte para falar de insílio, enfatizando que tal noção requer uma caracterização daquele que dentro da própria pátria se apresenta como alienado, mas não alienado exclusivamente no âmbito socioeconômico, mas no sentido ontológico. A geografia de quem fica é configurada pela impossibilidade da viagem, não há lugares para ir, não há condições físicas para se relacionar, se está no insílio em relação ao território mais imediato e o único pensamento que se produz desta realidade é o da imobilidade, da &quot;viagem imóvel&quot;, que pode ser atravessado por questões sociais e políticas e que muitas das vezes torna-se uma questão da ordem do existencial.</p>
			<p>O insílico é caracterizado pelo silêncio, talvez por isso tenha sido mais ininteligível, mais opaco e bem mais difícil de interpretar. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que é também mais difícil de nomear. Como já foi dito, para o exílio, a literatura tem sido muito mais receptível, e os autores têm até uma tradição para herdar e subverter. Mas como se nomeia a &quot;quem fica&quot;? É indizível? Esse estar-sem-ser que as línguas românicas nos permitem discernir é onde está a condição do insilado. Trata-se de um sujeito que está, mas não é dentro do lugar, sua existência dentro do território é uma circunstância, mas não sua identidade, porque sua pátria foi alienada. Ele já não está lá, pois os insilados estão insilados em relação aos autoritários e despóticos, mas também com respeito ao seu próprio povo, que deixa de ser &quot;seu&quot; para se tornar mero contexto, aquilo que o rodeia, mas que foi perdido.</p>
			<p>E, tal como aqueles que partem, o insilados configuram a sua nova identidade a partir da sua pátria distante e da sua memória alargada, porque agora lidam com dois lados do espaço/casa:</p>
			<disp-quote>
				<p>O insílio é uma identidade violada porque é uma memória reprimida. Mas esta contenção cumulativa tende a ser liberada e depois se transforma em cultura, é uma consciência estranha (...) é uma cultura, isto é, abrange o campo da expressão, e é fonte de conduta política e social, etc. (Illanez, 2006, s/n, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Parece-me sumariamente importante explorar essa passagem da memória reprimida à sua configuração como cultura. Qual é a forma de cultura proporcionada pela memória do insílio?</p>
			<disp-quote>
				<p>No exílio, temos a vantagem e a desvantagem de nos sentirmos estrangeiros. No insílio é ao contrário: se tem a desvantagem de ser um nativo, de compartilhar certos códigos de comunicação. A inscrição está na sua própria terra como um exilado. Do ponto de vista do insílio, pode-se dizer que o que parece ser o próprio é estranho. (Illanez, 2006, s/n, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>A possibilidade remota de voltar para casa é uma espécie de compensação para o exílio, mesmo que ele lide com a estranheza do regresso; mas a condição de &quot;nativo&quot; é o peso no insílio, e isso resulta numa relação tensa com o que é seu e com a sua pertença; além da reconfiguração da relação com a perda como falsificador de identidade, e não como componente alternativo, porque quem se sente forasteiro/estranho/estrangeiro na sua própria pátria, perdeu-a irremediavelmente.</p>
			<p>Essas ideias trazem de volta, com Derrida, a pergunta por uma possível hospitalidade. Quem é o <italic>host</italic> de quem não foi embora? Ele próprio? Ela própria? Nesse sentido, poderíamos falar de uma hospitalidade radical? Será que só no insílio é possível uma hospitalidade? Aquela que é oferecida “sem pedir a ele seu nome, nem contrapartida, nem preencher a mínima condição”? (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Derrida, 2003</xref>, p. 69). Para ensaiar uma tentativa de resposta a essa pergunta irei focar a obra de alguns escritores latino-americanos que decidiram ficar nos seus países, inclusive quando o aparente imperativo comunitário era o de se exilar. Refiro-me a contextos de ditaduras, regimes autoritários ou processos de colonização nos quais a existência se torna precária no sentido material e simbólico.</p>
			<p>Embora possam existir mais exemplos de obras e autores passíveis de serem lidos sob a luz do tema que nos ocupa, interesa-me pensar um romance em específico: <italic>Los Vigilantes</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">1994</xref>), de Diamela Eltit, que é uma das vozes literárias mais consolidadas da literatura latino-americana contemporânea. Entre seus livros mais representativos estão <italic>Lumpérica</italic> (1983), <italic>Por la pátria</italic> (1986), <italic>El cuarto mundo</italic> (1988), <italic>El Infarto del alma</italic> (1994), etc. A sua obra tem se caraterizado por uma insistente exploração da linguagem, nos seus textos há uma busca por um certo modo de dizer que consiga trazer as temáticas que ela decide trabalhar com a devida complexidade tanto argumentativa quanto estética. A sua proposta de linguagem atravessa muitas formas, desde o gênero epistolar até o trabalho em conjunto com outros artistas. Durante a ditadura de Augusto Pinochet, Eltit fez parte do grupo CADA (Colectivo de Acciones de Arte), onde junto com Raúl Zurita, Lotty Rosenfeld e Juan Castillo propuseram intervenções urbanas em protesto contra o regime militar. Nesse contexto, muitos escritores chilenos saíram exilados, e ela ficou em Chile. Mas o seu insílio não foi silencioso, foi altamente expressivo tanto nas ações urbanas com um grupo CADA quanto nas suas obras. Muitas produções da literatura de autoria de Eltit têm sido lidas em chave histórica, e um adjetivo que não falta nos textos críticos é hermética. Esse hermetismo é potente se o pensarmos como uma das formas em que a condição insílica funda poéticas particulares para veicular-se na literatura. O estudo da obra de Diamela Eltit, à luz da noção de insílio, aproxima os estudiosos desse tema de uma experiência estética que singulariza uma vivência histórica do âmbito sul-americano.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>
 <italic>LOS VIGILANTES</italic> E A HOSPITALIDADE RADICAL</bold></title>
			<p><italic>Los Vigilantes</italic> tem sido lido a partir de muitas perspectivas. Uma das leituras mais citadas é a da psicanálise, que interpreta o romance como uma representação edípica: &quot;amor entre mãe e filho à sombra de um pai cúmplice ausente na ordem política&quot;. (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Avelar, 2000</xref>, p. 242). E, de fato, a relação entre os personagens (mãe e filho) estimula o surgimento de muitas possibilidades de leitura, pois é atravessada por um pai que está presente na ausência, por um interlocutor que vigia sem estar presente fisicamente, formulando-se como uma figura fantasmagórica e inquisitiva a quem o leitor só tem acesso de modo vicário, através de Margarita, a personagem principal. Tal interlocutor foi pensado como uma alegoria da modernidade: &quot;fonte de imaginários eurocêntricos, de materialidades históricas como a lei, instituições legislativas, prisões, instituições educacionais, o Estado&quot;. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ojeda, 2006</xref>, p. 4, tradução minha).</p>
			<p>Dada sua importância no cenário literário latino-americano, <italic>Los Vigilantes</italic> dá origem a uma série de reflexões políticas que o entendem como uma crítica à ordem social herdada das estruturas colonialistas do Ocidente. Estas interpretações são inteiramente justificáveis se considerarmos o que é explicitamente declarado no argumento narrativo. O fato de que o lugar (cidade, país) onde os personagens vivem é chamado, precisamente, de Occidente, permite que a maioria das interpretações do romance retornem, sempre, àquele lugar de entendimento, no qual se assume ser: &quot;a consciência histórica da América mestiça e indígena, a América subjugada pelo &quot;Ocidente&quot;, cujo avanço foi possibilitado pela colonização violenta do outro&quot;. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ojeda, 2006</xref>, p. 2).</p>
			<p>Entre outras, estas leituras parciais abrem, de fato, um panorama de interpretação que dá conta do poder de significado que Eltit propôs com sua escrita. Neste trabalho, tomo tais contribuições como antecedentes importantes para iluminar uma área que talvez não tenha sido vista tão claramente até agora: o insílio e sua forma de hospitalidade. Em <italic>Los Vigilantes</italic>, várias formas de manifestação deste tema podem ser identificadas. Por um lado, sua proposta estética-estrutural revela um modo de escrita que produz uma narrativa tripla: pai, mãe, filho. Estamos diante de um produto estético próprio do insílio? Não necessariamente, porque escrever um romance de diferentes perspectivas não é algo exclusivamente eltitiano. O que consigo identificar como inovador e, além disso, articulá-lo em uma espécie de discurso insílico, pois há nele vários motivos, todos ligados a esta tripla instância narrativa, cujos registros de escrita são completamente diferentes. Membros de uma mesma família, as três vozes a partir das quais o discurso é organizado têm várias particularidades. </p>
			<p>A voz narrativa principal desenvolve sua perspectiva da história através de cartas. O gênero epistolar, embora tenha uma tradição crítica no campo dos estudos literários, não é o formato mais utilizado no romance latino-americano, e muito menos numa metáfora para a América Latina colonizada. Creio que, no caso de <italic>Los Vigilantes</italic>, o formato epistolar poderia responder à necessidade de enunciar aquele sujeito deslocado internamente que é a mãe - ela vive trancada em casa com seu filho - a partir de um código íntimo, uma plataforma discursiva onde a ideia de coletividade é quebrada, e resumida em dois corpos que acabam se tornando um só dentro da casa. Aquele lugar de onde Margarita escreve é o lugar da pessoa que escreve de certa forma para se narrar/compreender, afinal, a carta acontece onde há necessidade de um interlocutor para receber aquela narração de si.</p>
			<p>E, neste sentido, uma das mais poderosas propostas narrativas do livro é a perspectiva deste interlocutor. Apesar de saber o que o pai responde, pensa, impõe, não lemos uma única carta escrita por ele. O leitor o lê através das respostas de Margarita, como uma presença extremada deste pai, mas uma presença sem fala, sem discurso constituído, sem um corpo textual, ilegível. “Pero ¿cómo te atreviste a escribirme unas palabras semejantes? No comprendo si me amenazas o te burlas”. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 21). Estas &quot;tales palabras&quot; são inacessíveis para o leitor. Este relato implícito/tácito, mas não dito, não colocado em palavras, é um desafio à própria ideia de narração, pois configura um corpo textual invisível.</p>
			<p>Esta ausência-presença é o grande olho vigilante da história e, embora não esteja presente no corpo ou na palavra, exerce um controle sobre os corpos insilados da história. Entretanto, à medida que a história avança, esta figura perde gradualmente seu lugar de autoridade e Margarita toma algumas decisões autônomas. Mas assim como está presente, é também uma ausência real e factual, que traz em jogo a possibilidade de uma ideia de identidade, por vezes, não atravessada pelo logos paterno - autoridade - que é construído ao longo da história. Assim, sem pai, entendido como uma história de poder, entendido como Estado, não há identidade nacional, e, desta forma, surge uma identidade íntima, uma identidade insílica cujos referentes geográficos relacionados à cidadania são deslocados. Ela é vista de dentro e organizada em espaços reduzidos (casa, bairro), o que determina uma dialética diferente entre interior/exterior, nativo/estrangeiro.</p>
			<p>A voz insilada se comunica com um poder sem corpo, sem uma linguagem tangível, o que a leva a uma associação de estrangeirismo em relação ao contexto em que habita, o que, sem exigir um deslocamento para fora, parece exigi-lo para dentro. A narrativa ausente do poder interroga a relação com o espaço e do espaço com os corpos que o habitam, posto que o insílio não ocorre em relação a um país, e sim em relação a um espaço identitário imediato, ocorre na estranheza de não mais fazer parte de um lugar (ou nunca ter feito). </p>
			<p>Por outro lado, há a narração do filho, uma linguagem larval que abre e fecha o romance: “O que esta figura representa não é ‘a’ linguagem, mas a resistência contra a linguagem e o desejo de encontrar outra linguagem”. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ojeda, 2006</xref>, p. 7). Esta linguagem que balbucia, que se expressa em onomatopeias, tem sido lida como uma resposta à disputa de poder entre os pais; embora eu a considere uma leitura completamente legítima, tendo a pensar que é, também, certa tentativa de uma linguagem diferente, que explique o complexo cenário existencial. Este deslocamento ininteligível que é o insílio talvez só possa ser representado por uma língua-rabisco: “Es bonito, duro, dulce. Golpeo mi cabeza de tonto, PAC PAC PAC PAC suena duro mi cabeza de tonto, de tonto. TON TON TON To. […] Hago un hoyito y me tuerce la mano. La mano. Si ella sigue, BAAAM, BAAAM, me reiré”. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, 10).</p>
			<p>Assim, testemunhamos três modos de narração: um, digamos, orgânico, em registro epistolar; um segundo, que guia a sequência de eventos, porém sem corpo, materialmente ilegível; e outro larval, gaguejante, inorgânico, cuja existência denota a busca de uma linguagem que nomeie este deslocamento interno. </p>
			<p>Já no nível da trama, há vários indícios que nos permitem delinear possíveis formas de entender como surge a condição insílica. Embora estas características possam ser provavelmente delineadas a partir de mais lugares interpretativos, aqui vou escolher aquelas que me parecem ser as mais fundamentais. Primeiramente, a importância dos vizinhos no romance deve ser recuperada; eles, os verdadeiros vigilantes, constituem o lado de fora da história. Há uma casa (o interior) e eles (o exterior). Neste sentido, retomo uma das ideias discutidas anteriormente: no insílio não há território, há uma casa, um bairro; e a ideia de (não) pertencer é organizada em torno desta comunidade imediata, em relação à qual existe uma “consciência de desajuste”. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">García Canclini, 2014</xref>, p. 54).</p>
			<p>Em <italic>Los vigilantes</italic>, esta estranheza torna-se uma forma de isolamento que obriga mãe e filho a encontrar espaços na casa e em si mesmos (a escrita para a mãe; os vasos para o filho) que os conectam com alguma forma alternativa possível de habitar o mundo que os fez estrangeiros. Este contexto, que não é mais um país, uma cidade, mas um bairro - que se tornou um olho controlador - fala, então, de uma relação diferente com o espaço:</p>
			<disp-quote>
				<p>Siento que los vecinos quieren representar una obra teatral en la cual el rol del enemigo es adjudicado a los habitantes que no se someten a la extrema rigidez de sus ordenanzas (…) El verdadero conflicto que afrontamos descansa en los vecinos y en el conjunto de sus intolerancias. Ahora, gracias a ellos, la ciudad que en algunas horas y por obligación recorro, me parece un espacio irreal (…) Ellos intentan establecer leyes que nadie sabe a ciencia cierta de dónde provienen. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 33-34).</p>
			</disp-quote>
			<p>A lei, que em um contexto de deslocamento geográfico seria representada pelo Estado/nação, é aqui teatralizada pelos vizinhos. O &quot;inimigo&quot;, neste caso, é aquele que vive fora daquela lei, um estranho a ela, de costas para ela, submetido ao rigor de suas próprias ordenanças, de seu próprio espaço insilado, de sua casa, que se configura, diante da violência destes vizinhos, como um refúgio: “¿Cuál de todas las orillas es la que me corresponde?” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 109), pergunta a protagonista, uma vez completamente separada da sociedade onde ela vive: “La casa es ahora nuestra única orilla y se ha convertido en un espacio inexpugnable para la desidia de Occidente. Jamás podrán derribar la simetría en la que conseguimos concentrar nuestras defensas”. (Eltit, 1994, p. 109). Aquela casa que no início do romance era vista apenas como um local de confinamento, pois os protagonistas estão alienados em seu próprio lugar (o Ocidente), é vista como o único espaço possível onde se pode &quot;concentrar as defesas&quot;, em outras palavras, encontrar uma forma de existir.</p>
			<p>Esta transição de apropriação do espaço se vê claramente no uso dos pronomes possessivos: no início do romance, a protagonista fala da &quot;nuestra casa&quot; em relação ao pai ausente; no final, quando já existe uma reapropriação do significado e do lugar de identidade que a casa ocupa, aparece uma &quot;mi casa&quot; ligada a cenas do que talvez sejam sinais daquela hospitalidade radical que Derrida achava impossível, mas que, como vemos ao longo do romance, o insílio favorece, sustenta. A premissa de Derrida de que a hospitalidade é uma aporia reside, como já foi dito, no fato de que ela é atravessada pelo logos paterno, por uma ideia de poder que sempre interrogará o hóspede, e este interrogatório desfaz a hospitalidade, mutila-a, pois o deslocado é sempre outro de quem é necessário desconfiar. No romance, esta hospitalidade radical aparece claramente por meio da casa:</p>
			<disp-quote>
				<p>Abrí mi casa a los desamparados en cuanto tocaron mi puerta. Desobedecí, como ves, las órdenes sin el menor titubeo (después hube de repetir el gesto con mi corazón exaltado sabiendo que tu mirada ausente me vigilaba). (…) Eran dos familias completas las que mostraron ante mis ojos la profunda miseria que transitaba por sus cuerpos. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 89).</p>
			</disp-quote>
			<p>O evento narrado corresponde a um momento da trama do romance em que Margarita e seu filho, desobedecendo a todas as leis possíveis, hospedam em sua casa &quot;los desamparados&quot;, pessoas que, diante do desastre no Occidente, perderam tudo. É senso comum um anfitrião perguntar ao convidado seu nome, sua origem, sua idade, e isso tornaria a hospitalidade atravessada por algo que é da ordem do poder e da autoridade e, portanto, inviabilizaria a hospitalidade. Mas, nesta parte do romance, não há perguntas diretas sendo feitas aos desamparados. Há a repetição de um gesto que questiona a aporia derridariana: “hube de repetir muchas veces el gesto de la puerta abierta (ahí tu hijo y yo definitivamente cómplices, unidos como una sola figura)”. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 98). Este gesto é a linguagem do insilado, uma linguagem que vai além do verbal e é atravessada pelo corpo, que sabe oferecer-se como um lugar e oferecê-lo a outros em absoluta desobediência aos códigos legais de um lugar ao qual eles não pertencem mais.</p>
			<p>A encenação desta desobediência à lei/pai e à lei/vizinhança torna possível o encontro de sujeitos deslocados à margem de uma ideia de sociedade/cidade: mãe e filho insilados e pessoas sem-teto que, expulsos de suas vidas e espaços, encontram naquela casa uma forma de comunidade, a daqueles que perderam seu vínculo com a sociedade que os cerca, mas conservam um espaço físico e ético que lhes permite congregar-se por força do reconhecimento, por força de ver naquele outro uma vulnerabilidade que não é estranha, onde a pertença é reconfigurada e feita em relação a uma dor comum e não a uma identidade pátria/país/nacional comum: &quot;Hambrientos, definitivamente entumecidos, atravesaron el umbral. Les proporcioné todo lo que necesitan&quot;. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 89). Nesta solidariedade radical estaria a hospitalidade radical? Tenho a tendência de acreditar que sim, pois não é necessária a narrativa de uma identidade, uma linhagem, para se manifestar: &quot;la única conversación que mantuve con ellos giró en torno al frío y a la resistencia para soportarle&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B9">ELTIT, 1994</xref>, 82). Assim, não houve nenhum ritual de passagem que respondesse à autoridade, nenhuma verificação de parentesco, de filiação, de história moral.</p>
			<p>É importante notar que esta &quot;única comunicação&quot; é a única de natureza verbal, arbórea e orgânica; porém, sabe-se pela história: “Me vi en la necesidad de lavar sus cuerpos. Los desvestí uno por uno y, con el paño más fino de hilo que guardaba en el fondo del armario, quise encontrar la verdadera piel que envolvía la piel de la carencia. Fue una búsqueda, un conocimiento, un estremecimiento mutuo”. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 90).</p>
			<p>Esse conhecimento, este &quot;estremecimento mútuo&quot; ocorre fora da linguagem verbal (como ocorre também no discurso larval da criança?), e acontece, antes, através do corpo, mediante o encontro destes corpos necessitados e, mais uma vez, do reconhecimento de um lugar comum, de um espaço de vulnerabilidade compartilhada. Nessa necessidade de lavar o corpo podemos ler também uma necessidade de compreensão, de acesso a áreas de &quot;verdadera piel&quot;, como se a &quot;piel de la carencia&quot; não fosse legível; estamos testemunhando, mais uma vez, a busca de um conhecimento silencioso, não expresso na linguagem. O conhecimento do insílio?</p>
			<p>Pode-se observar como a literatura resolve a aporia derridariana, expõe a hospitalidade radical, a torna possível, porque &quot;Dar por algunas horas un pedazo de techo no puede ser el delito&quot;. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Eltit, 1994</xref>, p. 68). É por isso que a hospitalidade em <italic>Los Vigilantes</italic> é um imperativo ético.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>À GUISA DE CONCLUSÃO</title>
			<p>Com base nas reflexões desenvolvidas nas seções anteriores deste artigo, alguns aspectos poderiam ser sistematizados neste momento, na tentativa de oferecer algumas conclusões. Primeiramente, pode-se afirmar que o insílio deve ser pensado dentro das múltiplas formas de manifestação do deslocamento. A figura de “quem fica” convida a repensar uma nova ideia de cidadania - atravessada pela distância entre a noção de Nação/Estado e circunscrita a ambientes domésticos/íntimos -, mas também traz à luz propostas estéticas com especificidades dignas de serem incorporadas a uma possível revisão histórica das poéticas da literatura latino-americana contemporânea, e este é o segundo aspecto que acreditamos ser relevante. Esta incorporação também requer um esforço cartográfico, um novo mapeamento que permita traçar rotas de compreensão e entendimento da comunidade literária na América Latina e no Caribe. </p>
			<p>Como já foi dito, o insílio é um tema incipientemente estudado e sempre associado às literaturas produzidas no contexto dos regimes ditatoriais da América do Sul. Neste sentido, um gesto cartográfico importante é ver como a literatura caribenha (principalmente a de Cuba e Porto Rico, mas também, e especialmente no contexto político atual, a da Venezuela) poderia configurar um espaço de enunciação fora da órbita das grandes capitais culturais/editoriais da região - Buenos Aires, México -, para verificar a presença do insílio como fenômeno social e como praxe estética, com o desenvolvimento de uma potente escrita insílica. Acreditamos que novos mapas, assim como a construção teórica de tais escritas, tornam-se urgentes. Assim sendo, o trabalho aqui realizado oferece chaves de leitura para começar a organizar uma forma sistematizada de pensar esses processos de escrita que abrem importantes debates estéticos em torno ao contemporâneo na comunidade literária latino-americana.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Avelar, Idelber. Alegorías de la derrota: la ficción postdictatorial y el trabajo del duelo. Santiago de Chile: Editorial Cuarto Propio, 2000.</mixed-citation>
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					<publisher-loc>Santiago de Chile</publisher-loc>
					<publisher-name>Editorial Cuarto Propio</publisher-name>
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					<source>O espaço biográfico dilemas da subjetividade contemporânea</source>
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					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
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					<issue>35</issue>
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				<p>Doctora en Literatura comparada (UFRJ). Profesora de español como lengua adicional (ILAACH-UNILA). Investigadora de literatura latinoamericana y caribeña. Traductora y escritora. </p>
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