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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i27p65-98</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>DOSSIER: CRÍTICA LITERARIA: VUELTAS, RECONFIGURACIONES Y EXPANSIONES EN AMÉRICA LATINA</subject>
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			<title-group>
				<article-title>O latino-americanismo no século XXI: algumas perspectivas</article-title>
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					<trans-title>The Latinamericanism in the 21st century: some perspectives</trans-title>
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				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-6800-3687</contrib-id>
					<name>
						<surname>Perez</surname>
						<given-names>Diego Cardoso</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup></xref>
					<bio>
						<p>Doutor em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e graduado em Letras, habilitação português/espanhol, também pela UFV. Como pesquisador, atua desde uma perspectiva latino-americanista. </p>
					</bio>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Contato: diego.tasloi@gmail.com Brasil</institution>
					<institution content-type="orgname">Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais</institution>
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					<email>diego.tasloi@gmail.com</email>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>20</day>
				<month>07</month>
				<year>2024</year>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Ja-Jun</season>
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			<issue>27</issue>
			<fpage>65</fpage>
			<lpage>98</lpage>
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					<day>15</day>
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					<year>2023</year>
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					<year>2023</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>O presente trabalho faz um breve panorama do atual cenário dos latino-americanismos no século XXI, com suas polêmicas, ramificações teóricas e ponderações críticas. Neste panorama, se notou que, no presente século, com novos aportes teóricos, este campo de estudos tem ganhado novas dimensões e ramificações, tornando-se gradualmente mais interdisciplinar. Esse fenômeno, marcado pelo impulso dos estudos culturais e o estabelecimento dos estudos subalternos ainda na década de 1990, também parece marcar uma cisão histórica, pois, desde então, o(s) latino-americanismo(s) passou a ser pensado prioritariamente por instituições de fora do aparato cientifico-intelectual latino-americano. Prioridade, contudo, não significa exclusividade, visto que, entre instituições e pesquisadores latino-americanos, um tipo particular de latino-americanismo, relacionado com a crítica literária, parece seguir resistindo, em alguma medida, aos avanços dos “giros” vindos da “metrópole”. Resistência essa que, em várias ocasiões, tem se tornado motivo de querela entre investigadores da área.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This paper is a brief overview of the current scenario of Latin Americanisms in the 21st century, with its controversies, theoretical ramifications and critical considerations. In this scenario, it was noted that, in the present century, with new theoretical contributions, Latin American Studies has gained new dimensions and ramifications, gradually becoming more interdisciplinary over the years. This phenomenon, marked by the impulse of Cultural Studies and the establishment of Subaltern Studies in the 1990s, also seems to mark a historical split, as, since then, Latin Americanism(s) has come to be thought of primarily by institutions from outside the Latin American scientific-intellectual apparatus. Priority, however, does not mean exclusivity, since, among Latin American institutions and researchers, a particular type of Latin Americanism seems to resist, to some extent, advances of the new “turns” coming from the “metropoli”. This resistance has, on several occasions, become a source of controversy among researchers in the field.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>PALAVRAS-CHAVE:</title>
				<kwd>América Latina</kwd>
				<kwd>Latino-americanismo</kwd>
				<kwd>Século XXI</kwd>
				<kwd>Crítica Literária</kwd>
				<kwd>Estudos Decoloniais</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>KEYWORDS:</title>
				<kwd>Latin America</kwd>
				<kwd>Latin Americanism</kwd>
				<kwd>XXI century</kwd>
				<kwd>Literary criticism</kwd>
				<kwd>Decolonial Studies</kwd>
			</kwd-group>
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				<page-count count="34"/>
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		<sec>
			<title>UM RETRATO</title>
			<p>Ocorrido no campus São Paulo do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), o mais recente congresso celebrado pela Associação Brasileira de Hispanistas<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> teve, julgo, um caráter bastante simbólico do momento contextual das instituições latino-americanistas nesta primeira metade do século XXI.</p>
			<p>Durante o debate na mesa redonda “Revisitando as relações literárias e culturais entre Brasil e América Hispânica” entre os intelectuais Elena Palmero e Eduardo F. Coutinho, vindos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Pablo Rocca, da Universidad de la República, veio a tona, com certa naturalidade, a questão dos livros de referências e o papel que estes têm na perpetuação de teorias e correntes críticas na academia.</p>
			<p>A naturalidade da questão se dava tanto pela recém-lançada coleção <italic>Temas para uma História da Literatura Hispano-americana</italic> (2022) organizada por Palmero,<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> bem como pela publicação de <italic>Literary Cultures of Latin America: A Comparative History</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B21">2004</xref>) - organizada no Canadá pela Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ICLA) -, da qual Coutinho havia sido um de seus elaboradores. Com efeito, tanto a exposição como o contraste dos projetos, isto é, um considerado a partir de dentro e outro pensado desde fora do espaço geográfico-institucional da América Latina (resguardemos a fala de Rocca por um momento), formou um retrato bastante curioso dos movimentos latino-americanistas propostos na atualidade.</p>
			<p>Por um lado, Coutinho parecia reter em sua exposição parte do discurso que a Oxford University Press, editora de <italic>Literary Cultures of Latin America</italic>, considerou na divulgação do livro, quer dizer, listou os três tomos que formam a publicação como “O maior projeto de história comparada do mundo (...), [de modo que] <italic>Literary Cultures of Latin America</italic> cria um novo capítulo na história cultural que define o padrão para os próximos anos”.<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> Tal seria, suponho, a razão da frustração do pesquisador no fato do projeto - que circulou em todos os grandes centros universitários norte-americanos e europeus - nunca ter chegado às mãos dos pesquisadores e estudantes brasileiros, mesmo que, segundo seu relato, tivessem tratativas sobre uma tradução e edição brasileira no passado.</p>
			<p>Não obstante, o que parecia escapar da percepção do discurso da Oxford University Press e ressoado por Coutinho na mesa redonda é que se as instituições internacionais que produziram o material realmente tivessem interesse em fazer os livros e, por consequência, a <italic>ideia</italic> de América Latina circular na própria, elas teriam em conta as peculiaridades do nosso próprio sistema editorial, como distribuição de livros e ideias. Afinal, que editora, pública ou privada, poderia, comercialmente, comprar os direitos, traduzir, publicar e fazer circular os três volumes na academia brasileira? Por que os organizadores - a associação, a editora e as demais instituições que fomentaram o <italic>Literary Cultures of Latin America</italic> - do projeto não lançaram os artigos que o compõem em volumes menores? Por que não em <italic>e-book</italic>? Por que não, ao fim e ao cabo, considerar as instituições dos próprios latino-americanos no processo de <italic>idealização</italic> dessa História?</p>
			<p>Por outro lado, o recém-lançado projeto capitaneado por Palmero e companhia parece não cometer a mesma falha proporcionada pelo olhar institucional estrangeiro, pois, ao também contar com importantes contribuições de intelectuais e pesquisadores dos mais diversos países do globo, põe a prova não só que é possível realizar um trabalho de fôlego no ambiente latino-americano (quiçá, podendo ser traduzido ou importado para os demais países do subcontinente), como também atualiza questões importantes de seus predecessores, entre os quais o maior destaque estaria o livro <italic>América Latina: Palavra, literatura e cultura</italic> (1993-1995), sob a organização da chilena Ana Pizarro, e publicado em 3 tomos. Isto é, <italic>Temas</italic> não oferece um projeto de história da literatura e cultura em sentido amplo, mas, como o próprio nome sugere, trabalha <italic>Temas para uma história da literatura</italic>.</p>
			<p>O material organizado por Palmero, Olmos, Gárate e Cordiviola parece ser, contudo, o exato resultado da mudança de perspectiva teórica e contextual que o distancia do livro concebido na década de 1990 com apoio do Memorial da América Latina e da Unicamp: os 5 volumes que formam a obra não versam sobre a <italic>América Latina</italic>, essa <italic>ideia</italic> e <italic>práxis</italic> tão cultivada por nossos intelectuais durante as décadas de 1960 e 1970 (já chegaremos em Rocca), mas numa outra América, a Hispânica.</p>
			<p>Se até a década de 1980 houve, por parte de uma intelectualidade regional, o sonho de um projeto latino-americano que fosse, ao mesmo tempo, cultural e intelectual, desde a redemocratização, o estreitamento entre as relações Brasil-América Hispânica se deu por um caminho muito distinto das idílicas linhas traçadas por esse desejo e se consolidou, em grande medida, sob o signo de pactos comerciais. </p>
			<p>Assim, se houve um lento e crescente interesse para com a língua espanhola no Brasil desde a década de 1990 é porque este encontrou seu sustento no MERCOSUL e amparo em leis que alargassem o trânsito de profissionais bilíngues na região que, por consequência, alargaram o próprio mercado de professores de espanhol.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>
			</p>
			<p>Nesse contexto, o lançamento de <italic>Temas para uma lhistória da iteratura Hispano-americana</italic>, como a mais recente nacional empreitada no mundo dos livros de referência sobre &quot;as relações entre Brasil e América Hispânica&quot;, parece então materializar tal mudança de perspectiva, isto é, que em nosso próprio meio a <italic>ideia</italic> e a <italic>práxis</italic> de &quot;América Latina&quot; não mais são presentes e proeminentes quanto foram um dia.</p>
			<p>Diante desse cenário, trato e tratarei neste breve panorama, então, de um reflexo institucional, mais amplo da questão que, em maior ou menor medida, parece se retroalimentar e se complementar nos estudos latino-americanistas praticados neste princípio de século XXI. </p>
		</sec>
		<sec>
			<title>UM CONTEXTO</title>
			<p>Em seu livro <italic>La aporia descolonial</italic> (2018a), a pesquisadora chilena Romina Pistacchio elege de forma arbitrária, ainda que ilustrativa, o ano de 1962 como “(...) chave para a construção do que já podemos reconhecer como o campo intelectual da América Latina da segunda metade do século XX”. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Pistacchio, 2018a</xref>, 18 tradução minha).</p>
			<p>Como forma de valer seu ponto, Pistacchio recorda da realização, naquele mesmo ano, do Primer Congreso de Intelectuales organizado pela Universidade de Concepción, do Chile no qual compareceram “Filósofos, antropólogos, sociólogos, juristas, físicos, biólogos e químicos de fama mundial, homens laureados com o Prêmio Nobel e o Prêmio da Paz, escritores vindos da Índia e Japão, da União Soviética, Europa, Estados Unidos e América Latina”. (Rojas, 1963 <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B16">Pistacchio 2018a</xref>, p. 20)<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, todos com um otimismo utópico e impulsionados pela recente Revolução Cubana - que se deu em 1959 - a imaginar um projeto intelectual e cultural latino-americano que fosse comprometido e autônomo.</p>
			<p>Em seu texto “Ángel Rama e Antonio Candido: Salidas del Modernismo” (2001), o pesquisador argentino Gonzalo Aguilar recorda que nas reuniões de Campinas de 1983, que resultariam conjunto e geracional trabalho <italic>América Latina: Palavra, literatura e cultura</italic>, o crítico e teórico uruguaio Ángel Rama declararia que a “América Latina segue sendo um projeto intelectual vanguardista que espera sua realização concreta”. (Rama <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B2">Aguilar, 2001</xref>, p. 101 tradução minha). </p>
			<p>Nos 21 anos passados entre o ano-chave apontado por Pistacchio e o momento da organização para a elaboração da “História da Literatura Latino-americana” descrita por Gonzalo, o otimismo para a real concretização deste projeto intelectual, como indica Aguilar, já não parecia mais o mesmo: com efeito, Ana Pizarro, coordenadora de <italic>Palavra, literatura e cultura</italic>, viria em partes a reconhecer o “fracasso” dessa empreitada no prólogo de sua obra em 1995 e o próprio Aguilar, em 2001, afirmou que a frase de Rama soava naquele então anacrônica dado que “(...) tudo indica que já não cabe esperar o cumprimento de semelhante projeto”, (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Aguilar, 2001</xref>, p. 101 tradução minha).</p>
			<p>Em definitiva, não seria nenhuma polêmica em nosso meio dizer que essa etapa latino-americanista findou-se ainda no final do século XX. Contextualmente, a causa mais evidente para esse “fracasso” seria a onda de ditaduras latino-americanas que tomaria o Cone Sul entre as décadas de 1960 e 1990 e, com isso, desencadearia uma perseguição intelectual e política, causando exílios, mortes e desaparecimentos com perdas incalculáveis ao projeto latino-americanista imaginado nos anos de 1960.</p>
			<p>O latino-americanismo, no entanto, não deixou de existir, mas no fim do século XX e princípio do século XXI, mudou de escopo e de endereço. Isto é, assumiu novas abordagens teóricas e, a partir do mundo anglófono - sua estadia prioritária desde então -, ganhou novos adeptos e dissidentes. Com efeito, esta ruptura dos estudos feitos dentro e fora dos limites geográfico-institucionais do subcontinente se deu, como de praxe, com um polêmico debate entre os latino-americanistas. Um retrato significativo desta ruptura, segundo Alberto Moreiras, em seu livro <italic>The Exhaustion of Difference</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B13">2001</xref>),<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> poderia ser localizada na V Congresso da ABRALIC de 1996, ocorrida no Rio de Janeiro.<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>
			</p>
			<p>Neste encontro, segundo Moreiras, as duas principais correntes latino-americanistas daquele momento, a “tradicional” (vinda dos estudos literários) e a irruptora (concebida a partir da ascensão dos estudos culturais), entrariam em um confronto discursivo entre uma oposição mútua: “duas instâncias ou vetores de força cuja dissimilaridade ou heterogeneidade era um resultado direto da necessidade de cortar ou dividir um território que anteriormente estava ocupado de forma indiferente”. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras, 2001</xref>, p. 7 - tradução minha).</p>
			<p>Moreiras, então, nomearia essas vertentes como <italic>poder</italic> e <italic>força</italic> de modo que se “‘Poder’ faz referência ao local hegemônico da literatura na discussão brasileira; ‘força’ à posição irruptiva dos estudos culturais” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras, 2001</xref>, p. tradução minha, grifo meu), que, como é sabido, vinha se desenvolvendo prioritariamente desde os Estados Unidos. Dessa forma,</p>
			<disp-quote>
				<p>Durante as sessões, nos corredores, nos bares e nos passeios pela praia, era possível pensar que a defesa do aparato literário estava, ao mesmo tempo, sendo uma defesa da ordem nacional ou regional contra uma interferência que só podia ser compreendida como neocolonial, uma vez que provinha de um espaço transnacional hegemonizado pela metrópole dos Estados Unidos (...). Por outro lado, ou seja, do ponto de vista dos irruptores, poder-se-ia pensar que a defesa do espaço literário, dado que era a defesa de um espaço nacional previamente constituído, estava comprometida pela defesa ideológica concomitante da dominação social estabelecida dentro da nação contra novas interpelações que desejassem desmantelá-la. E, é claro, ambas as posições são simultaneamente verdadeiras e falsas: elas são verdadeiras porque descrevem fenômenos reais, mas são falsas porque não os descrevem de maneira suficientemente precisa. (...) Assim, a discussão entre <italic>poder</italic> e <italic>força</italic> na ABRALIC de 1996, entre estudos literários e culturais, tomou um rumo diferente quando se reproduziu como uma reclamação transnacional de alguns importantes praticantes latino-americanos da força dos estudos culturais contra o poder constituído da academia amplamente norte-americana (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras, 2001</xref>, p. 8-9 tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Apesar de considerar que ambas as posições no Congresso da ABRALIC de 1996, Moreiras, que naquele momento escrevia seu livro na virada do milênio, termina sua introdução com uma previsão e defesa que “O aparato acadêmico denominado estudos culturais virá assim a substituir os estudos literários na articulação ideológica do presente” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras, 2001</xref>, p. 13 tradução minha) dentro do campo latino-americanista e que:</p>
			<disp-quote>
				<p>Os estudos literários assumirão agora uma função subalterna. Esse processo não ocorrerá sem problemas, pois envolve uma reestruturação do poder acadêmico e a consequente redistribuição do capital cultural no interior do discurso universitário. (...) Essa é a minha primeira hipótese. Como corolário, quero dizer que a nova função subalterna dos estudos literários a encerra com um forte potencial irruptivo. Estamos longe de ter lidado com o literário - mas as ferramentas necessárias para a reflexão literária devem ser redesenhadas em vista das configurações emergentes do conhecimento (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras, 2001</xref>, p. 13-14 tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Na prática, já no século XXI, essa alteração e “reestruturação do poder acadêmico” significou um crescimento considerável do latino-americanismo produzido fora da América Latina e uma redução significativa da “América Latina” enquanto objeto de estudo ao nível institucional no próprio subcontinente.</p>
			<p>Por certo, Nick Morgan, em seu texto “¿Olvidar el latinoamericanismo?: John Beverley y la política de los estudios culturales latinoamericanos” (2013), não nos deixa esquecer do fato de que “Há apenas um mestrado em estudos latino-americanos na Colômbia, por exemplo, enquanto na Inglaterra, onde o latino-americanismo não é muito importante, há pelo menos dez” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan, 2013</xref>, p. 25 - tradução minha) sem ao menos mencionar as influências políticas diretas nessa transição de ares ou o fato que estes países hegemônicos, que agora detém a capacidade de pautar a ideia de América Latina<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>, parecem bastante confortáveis nessa posição. </p>
			<p>Por outro lado, um mapeamento realizado pelas pesquisadoras Flávia Lessa de Barros e Lília G. M. Tavolaro no artigo “Latino-americanismos, campos de produção e difusão de conhecimento e informação sobre a ‘América Latina’, e mapeamento preliminar do caso brasileiro” (2017) nos demonstra que o desenvolvimento dos estudos latino-americanos no Brasil desde a década de 1980 se realizou de uma forma muito diferente, seja do que pintam Morgan e Moreiras ou do que reivindicavam os intelectuais das reuniões campinenses de 1983.</p>
			<p>Neste trabalho, as investigadoras mapearam 146 iniciativas institucionais sediadas no Brasil e criadas entre 1985 e 2017. Neste recorte, se percebeu que o país criou um número expressivo de novas iniciativas a partir de 2004<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> e, destas, um número considerável (ficando apenas atrás da área da História) foram sediados no campo das Letras<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>, fato que corroboraria para a hipótese de que o latino-americanismo feito na América Latina (ou de <italic>poder</italic>) após a querela de 1996, ao contrário da previsão de Moreiras, não tornou os Estudos Literários como “subalternos” na investigação sobre esse assunto.</p>
			<p>Contudo, também se percebe que o “grau de institucionalidade” destas iniciativas é díspar, de modo que os dados preliminares “(...) mostram que algumas iniciativas são maiores e/ou mais consolidadas institucionalmente, outras têm em si baixa institucionalidade, a despeito de sua extensão, e outras ainda operam no limite da informalidade, em termos jurídico-institucionais”. (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavarolo, 2017</xref>, p. 62). Motivo pelo qual é difícil de se perceber a mobilização conjunta e o (re)surgimento de um latino-americanismo de tendência nacional ou um conjunto regional para a formação de novas linhas tão claras e definidas como se verá se consolidar na metrópole no mesmo período.</p>
			<p>Neste sentido, considerando o texto de Nick Morgan<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref>, a partir da leitura de <italic>Latinamericanism after 9/11</italic> (2011) de John Beverley para compor um panorama de subgrupos atuais da paisagem latino-americanista nesse princípio do século XXI, assim como de produções contextuais da própria América Latina - como de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Feres (2005</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B19">Poblete (2021</xref>) e as já citadas <xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros e Tavoralo (2017</xref>), que também consideram o meio desde a sociologia e estudos culturais para uma análise desta área de pesquisa -, me limito a fazer algumas considerações dos rumos que esse campo tem tomado tanto <italic>do lado de lá</italic>, isto é, da metrópole (para utilizar o termo de Morgan), como <italic>do lado de cá</italic>, ou seja, no subcontinente.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>DO LADO DE LÁ</title>
			<p>Se existe uma disparidade na quantidade de instituições - bem como no grau de institucionalidade - dedicadas a cultura e literatura latino-americana dentro e fora dela, é preciso ter em conta - ao contrário do que sugere a exposição quase <italic>en passant</italic> de Morgan - que isso não é fruto de um acaso, mas de um projeto institucional muito bem delineado.</p>
			<p>Como bem explica João <xref ref-type="bibr" rid="B9">Feres Jr. em seu livro <italic>A história do conceito de Latin America nos Estados Unidos</italic> (2005</xref>), não foram somente as instituições latino-americanas que se impulsionariam e se organizariam em torno de uma <italic>ideia e práxis</italic> de América Latina após a Revolução Cubana de 1959. Nesse sentido, os Estados Unidos também se colocariam a postos para melhor entender este fenômeno e investiram, desde então, pesadamente na institucionalização de programas e centros de pesquisas sobre a <italic>Latin America</italic>:</p>
			<disp-quote>
				<p>Em 1959, o American Council of Learned Societies e o Social Science Research Council criaram o Committee on Latin American Studies; que objetivava expressamente planejar futuros desenvolvimentos acadêmicos, oferecer bolsas para pesquisa sobre Latin America e melhorar a comunicação entre os interessados no assunto. (...) Embora o número de ofertas de cursos de Latin American Studies por universidade fosse praticamente o mesmo em 1949 e em 1958, ele dobrara em 1969. Essa tendência foi constante em todo o espectro de disciplinas - exceto para os cursos de sociologia cujo número aumentou quatro vezes. Enquanto os levantamentos de 1949 e 1958 identificaram cento e quarenta e nove instituições americanas de ensino superior com oferta de cursos de Latin American Studies, o de 1969 totalizou duzentas e doze dessas instituições. (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Feres Jr., 2005</xref>,. p. 88 - grifo meu).</p>
			</disp-quote>
			<p>A infraestrutura, contudo, não faz campo intelectual. Intelectuais fazem campos intelectuais. Estes, depois do aparato montado, chegariam aos montes desde a década de 1970 às terras norte-americanas com a diáspora latino-americana proporcionada pela onda de ditaduras militares decorridas principalmente no Cone Sul. Este seria, então, o declínio e queda da Cidade Letrada latino-americana como bem escreve Jean <xref ref-type="bibr" rid="B10">Franco em seu livro <italic>The Decline and Fall of the Letter City: Latin America in the Cold War</italic> (2002</xref>):</p>
			<disp-quote>
				<p>A repressão, a censura e o exílio forçado acabaram com os sonhos utópicos de escritores e projetos de literatura e arte como agentes de “salvação e redenção”. Na medida em que os governos militares representaram seus regimes como essenciais para a cruzada contra o comunismo, eles certamente participaram da Guerra Fria; o que torna a situação latino-americana tão distinta é que esses mesmos governos militares deixaram estruturas mais antigas, tanto culturais quanto políticas, em fragmentos. Termos como “identidade”, “responsabilidade”, “nação”, “futuro”, “história” - até mesmo “latino-americano” - tiveram de ser repensados. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Franco, 2002</xref>, p. 12 - tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Dessa queda da Cidade Letrada e a nova formação de um (ou vários) campo(s) intelectual(is) dedicados aos estudos latino-americanos, dadas as condições particulares da produção de conhecimento e ciência da metrópole, formara-se toda uma nova fauna intelectual “do lado de lá” disposta a se debruçar sobre o fenômeno da <italic>Latin America</italic>. Este, com efeito, ganharia uma significativa tração com o desenvolvimento dos estudos culturais - como já dito anteriormente - em todo âmbito universitário metropolitano que não deixaria de imprimir suas marcas também por essa fauna classificada, a princípio, por Beverley em seu livro <italic>Latinamericanism after 9/11</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B5">2011</xref>) e posteriormente comentada por <xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan (2013</xref>). </p>
			<p>Esse tipo de classificação de vertentes latino-americanistas, formadas majoritariamente desde um contexto institucional norte-americano, ganharia, inclusive, um mais recente aporte que ratificaria em grande medida as taxonomias anteriores assim como proporia uma ampliação no escopo classificatório dos latino-americanismos a povoar o século XXI. Aponto, nesse sentido, para o panorâmico trabalho <italic>Nuevos acercamientos a los estudios latino-americanos: Cultura y poder</italic> (2021) editado pelo argentino Juan Poblete. </p>
			<p>No conjunto elaborado por Poblete, pensado após o XXXII Congresso da LASA<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref> em 2014, o pesquisador contaria ao menos 16 tendências - ou “giros”, como as nomeará - latino-americanistas nos últimos 25 anos. Entre estes, vários - como se perceberá - perpassam estudos interdisciplinares mais amplos que permeiam todas as Ciências Humanas e Sociais no século XXI. Outras encontram particularidades e idiossincrasias no próprio objeto de estudo da <italic>Latin America</italic>. Algumas delas, efetivamente, já tinham sido cobertas tanto pelo livro de Beverley como pelo comentário de Morgan e suas óticas mais críticas. Desta confluência de referências, passo para as que me parecem as de maior relevo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>PÓS-HEGEMÔNICO</title>
			<p>Uma corrente ainda em ascensão neste início de século XXI seria a chamada pós-hegemônica. Ao ter como referência principal o livro <italic>Posthegemony: Political Theory and Latin America</italic> (2002), de Jon Beasley-Murray, essa vertente latino-americanista se propõe a reestruturar o campo mediante uma mudança na conceptualização do político.</p>
			<p>Desta feita, os pós-hegemônicos seriam, de alguma maneira, os “jovens turcos” do latino-americanismo metropolitano a incomodar perspectivas já estabelecidas como o subalternismo dada sua “(...) confiança na certeza de suas ideias e uma bateria de pontos de referência - soberania, êxodo, linhas de fuga, multidão etc. - que lhes permitem ultrapassar aqueles que já ocupam uma posição dominante no campo”. (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan, 2013</xref>, p. 36 tradução minha). Apesar dessa agitação crítica, acompanhada de um refinamento teórico, essa abordagem latino-americanista ainda não parece ter ganhado força o suficiente dentro do subcontinente, confinando-se aos portões interiores da metrópole.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O SUBALTERNISMO</title>
			<p>Como afirmado em entrevista a Rafael Ojeda - intitulada “Hacia un latinoamericanismo del siglo XXI” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">2011</xref>) -, Beverley reclamaria a fundação dessa vertente para o seu Grupo Latinoamericano de Estudios Subalternos, que, em 1992, daria luz ao “Manifiesto Inagural”. </p>
			<p>Sob a leitura de Morgan, a motivação por trás do grupo foi de “(...) reposicionar o estudo da cultura latino-americana, substituindo o domínio da literatura pelo dos estudos subalternos”. (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan, 2013</xref>, 29). Essa troca se deu, então, após o fracasso do projeto de solidariedade “literária” dos anos 60, como interpretado na pessimista visão de Cidade Letrada de Ángel Rama, e uma perspectiva de conluio dos intelectuais com a formação de um Estado-nação excludente e branqueador. Posição esta que, em certa maneira, não escapa em demasia da que o próprio Beverley havia demonstrado ao conceder entrevista para Ojeda em 2011:</p>
			<disp-quote>
				<p>O Grupo Latinoamericano de Estudios Subalternos começou em 1992 e, apesar de ter surgido nos Estados Unidos, era um grupo principalmente de latino-americanos. Ou seja, os únicos gringos eram uma historiadora chamada Patricia Seed e eu, enquanto os demais integrantes eram nicaraguenses, mexicanos, argentinos e bolivianos, que estavam na academia norte-americana e que se relacionavam sobretudo por sua condição pessoal, social.e intelectual de pertencer à geração dos anos sessenta na América Latina. Uma geração que também viveu a experiência da guerra fria e teve muitas desilusões, mas que também acalentava a ilusão da utopia porque tinha, de uma forma ou de outra, não só uma posição teórica mas também uma militância política específica. (...) É por isso que os estudos subalternos, em certo sentido, surgiram do compromisso esquerdista da geração dos anos sessenta, mas que, no entanto, tendiam a ser também uma crítica a uma certa vanguarda esquerdista que poderia ter consequências desastrosas na sociedade. (Beverley <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B15">Ojeda, 2011</xref>, p. 68 - tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Com efeito, o subalternismo, que já passou por crises internas que tanto Beverley indicaria como Morgan reafirmaria, parece ter alcançado seu pico de interesse logo nessas primeiras décadas do século XXI. Como legado de influência, ainda é possível dizer que o mesmo abriu um espaço significativo, no mundo anglófono e latino-americano, para o surgimento de outras correntes culturalistas como, por exemplo, a decolonial que em grande medida tomam conta do cenário acadêmico no momento<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref>. Assim, é possível afirmar que os estudos subalternos de Beverley e companhia formam a primeira corrente latino-americanista coesa produzida após o êxodo intelectual das décadas de 1960 a 1980.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O DECOLONIAL</title>
			<p>Grupo desgarrado dos Estudos Subalternos, o Grupo Modernidade/Colonialidade surgiu em 1998 a partir de uma série de seminários, diálogos e publicações acerca do tema da colonialidade e suas relações intrínsecas com a Modernidade, como o próprio nome do grupo sugere. </p>
			<p>Segundo Luciana <xref ref-type="bibr" rid="B3">Ballestrin (2013</xref>), ainda em 1998, um encontro realizado na Universidad Central de Venezuela reuniu pela primeira vez os principais nomes desta vertente latino-americanista, quer dizer, Edgardo Lander, Arthuro Escobar, Walter Mignolo, Enrique Dussel, Aníbal Quijano e Fernando Coronil. Contudo, apesar da importância do encontro, um ponto significativo para os estudos decoloniais viria em 2000 quando seria lançada “(...) uma das publicações coletivas mais importantes do M/C: <italic>La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Ballestrin, 2013</xref>, p. 97), expandindo assim o escopo epistemológico do grupo pelo mundo acadêmico. Desde então, os estudos decoloniais tem se tornado a maior tendência nos estudos latino-americanistas no século XXI, dominando congressos, publicações e a atenção de latino-americanistas por todo o globo.</p>
			<p>A sua popularidade - ao contrário do que muito se acredita no momento -, não a blinda de críticas, de modo que, se por um lado as saídas para os problemas apresentados muitas vezes aparecem sempre em foro individual, dando à epistemologia um caráter neoliberal<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref>, por outro lado, como aponta o colombiano Carlos Granés, em seu <italic>Delirio americano: una historia cultural y política de América Latina</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B12">2022</xref>), haveria uma contradição inerente à epistemologia dado o fato dos próprios gurus decoloniais serem lidos pela sua própria teoria como privilegiados (brancos, heteronormativos, professores de universidades americanas e que escrevem em inglês para um público majoritariamente ocidental) ao passo que enviam palavras de ordem para dentro do continente. Em outras palavras:</p>
			<disp-quote>
				<p>O latino-americano continuaria arrastando seu continente e sua identidade, e continuaria sendo o bufão que animava a utopia ocidental. Ao menos esse seria seu destino americano: juntar-se às vozes ianques que detestavam a modernidade e o mainstream de seu país, e sonhar ao seu lado, nos departamentos de estudos pós-coloniais, com uma América decolonial (...). América seria redefinida como Abya Yala e graças a livros escritos em inglês -como <italic>The Idea of Latin America</italic>, de Walter Mignolo-, destinados a comunidades acadêmicas anglo-saxônicas e escritos para construir carreiras acadêmicas em universidades ianques, a América Latina seria mais uma vez a América Latina em sua pior versão: aquela que alimentava o romantismo superaquecido e anacrônico dos ianques, aquela que nos tornava o continente da resistência à modernidade, a tela das fantasias que só servia para escrever papéis em que o continente era apenas um mercado de pulgas de quinquilharias anti-ocidentais ou o ferro-velho de ideologias que falharam no resto do mundo. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Granés, 2022</xref>, p. 351 - tradução minha, grifo meu).</p>
			</disp-quote>
			<p>Apesar de tais críticas, há de se dizer que essa mesma aporia ou, se poderíamos chamar também, esse <italic>entre-lugar</italic>, essa posição labiríntica, transculturada, entre a civilização e a barbárie ou, enfim, <italic>delirante</italic> do latino-americanismo decolonial é, em alguma medida, “autenticamente latino-americano”, fato que com certeza contribuirá para a manutenção dos trabalhos decoloniais nos anos que virão ou mesmo para as demais teorias que trazem da metrópole questionamentos e aporias semelhantes.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A DESCONSTRUÇÃO</title>
			<p>O principal nome deste latino-americanismo - tanto à época da publicação de Beverley, do comentário de Morgan ou do tempo em que o presente texto vem a luz - é o do pesquisador espanhol Alberto Moreiras que, com a publicação de seu <italic>A Exaustão da Diferença: a política dos estudos culturais latino-americanos</italic> (2001) tornar-se-ia o seu maior e mais notável divulgador.</p>
			<p>Sob esta alcunha, claramente influenciada por Jacques Derrida e o pós-estruturalismo francês, seus principais críticos “(...) enfatizam a sofisticação teórica sobre o radicalismo político, dedicando-se a desfazer essencialismos identitários e destacar os momentos aporéticos dos discursos políticos” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan, 2013</xref>, p. 32 - tradução minha), ou, nas palavras do próprio Moreiras, “Grande parte da análise que se segue é informada por intenções pós-marxistas e desconstrutivas, devido em grande parte à minha relação talvez idiossincrática com a tradição dos estudos subalternos”. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras, 2001</xref>, p. x - tradução minha).</p>
			<p>Já Poblete, ao trazer o texto “El segundo giro de la deconstrucción” de Moreiras para seu panorama, parece reafirmar a importância da desconstrução - a despeito de críticas<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref> - para os estudos latino-americanos do século XXI. Assim, diz Poblete:</p>
			<disp-quote>
				<p>Para Moreiras, as condições históricas mudaram a tal ponto que a ideia de Derrida de um primeiro registro do pensamento não funciona mais, o que também significa que o segundo registro também não. As condições para o pensamento desconstrutivo mudaram. Isso torna necessário pensar em uma segunda virada de desconstrução no campo, ou seja, uma segunda etapa de desconstrução crítica. (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Poblete, 2021</xref>, p. 24-25 - tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>A desconstrução ganha, assim, uma sobrevida para a próxima década e segue se perpetuando nos estudos da <italic>Latin America</italic>.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>OS ESTUDOS FEMINISTAS LATINO-AMERICANOS</title>
			<p>Fora da lista de Morgan, “El giro hacia los feminismos” (2021), como chamaram Sonia E. Álvarez e Claudia de Lima Costa<xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref>, aparece no presente texto tanto por sua posição proeminente - ou, como se verá, proeminência que deveria ter - nos estudos latino-americanos como em todas as Ciências Humanas e Sociais neste século XXI.</p>
			<p>Ao se depararem com um contexto em que as intervenções feministas nos estudos culturais anglo-saxões são muito mais proeminentes (como nos casos, por exemplo, de Gloria E. Anzaldúa e María Lugones) do que dentro do próprio subcontinente, Álvarez e Costa apresentam duas hipóteses sobre esse fenômeno: se, por um lado, argumentam que “(...) a corrente predominante nos estudos latino-americanos sobre cultura, poder e política não levou, e talvez ainda não leve, a sério os avanços da pesquisa feminista” (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Poblete, 2021</xref>, p. 24 - tradução minha); por outro lado, as pesquisadoras também sugerem que, inversamente, “(...) os estudos iniciais sobre gênero na região não deram a devida atenção à cultura” (<italic>idem</italic>).</p>
			<p>Nessa perspectiva, ao tomarem como ponto de partida o caso brasileiro, as pesquisadoras “(...) analisam os vários fatores que ajudam a explicar como os estudos feministas hegemônicos tendem a ignorar a cultura, especialmente a política cultural”. (Álvarez, Costa, 2021, p. 279 - tradução minha). Entre estes fatores<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref>, assim, as autoras puderam perceber que nos estudos culturais estabelecidos por aqui existiria uma predominância dos “problemas maiores” (imperialismo, dominação ideológica e luta de classes) na área da política cultural que não abriria espaço para um diálogo mais direto com com os estudos feminismos.</p>
			<p>Contudo, algo que parece latente no texto das pesquisadoras é a percepção que, a par dos estudos culturais em sua razão de <italic>força</italic> (como diria Moreiras), a tradição teórica e crítica literária siga tendo um considerável <italic>poder</italic> nas pesquisas latino-americanistas. Afinal, se “O caso da crítica literária merece atenção especial se considerarmos seu papel como precursora dos estudos culturais na América Latina” (Álvarez, Costa, 2021, p. 290 - tradução minha), talvez seja interessante que as relações entre os estudos feministas e latino-americanistas sejam reavaliadas por essa ótica. Em outras palavras, se os estudos iniciais de gênero talvez tenham encontrado um campo muito mais estético do que cultural em seus primeiros desenvolvimentos pela América Latina, é imaginável que esta relação, no contexto atual, possa encontrar-se com uma produtividade outra.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>DO LADO DE CÁ</title>
			<p>Como sabemos, houve um prejuízo considerável no desenvolvimento de trabalhos que pensassem a América Latina desde a própria região na segunda metade do século XX devido à perda intelectual perpetrada pelas ditaduras locais. Sobre este assunto, dizem Barros e Tavolaro:</p>
			<disp-quote>
				<p>Na perspectiva da institucionalização, diferentemente do acontecido nos EUA, o empreendimento intelectual na América Latina no período não se traduziu, contudo, em um número significante de centros de estudos de área ou núcleos de pesquisa e informação especificamente voltados para a região. Segundo Pablo Gentili e Fernanda Saforcada (2010:7), os projetos acadêmicos e políticos de alcance regional em prol do fortalecimento de uma agenda latino-americanista comum no campo do conhecimento, anti-imperialista e anti-colonialista, foram ferrenhamente prejudicados pelas ditaduras que se sucederam na região entre as décadas de 1960 e 1980, o que concorreu, entre outros fatores, para o desenvolvimento desigual e assincrônico dos cursos de pós-graduação, cuja dinâmica de crescimento caracterizou-se basicamente pela “heterogeneidade da oferta, sua segmentação e diferenciação”. Em geral, o pensamento latino-americano foi invisibilizado e fragmentado em disciplinas temáticas que tratavam de assuntos relacionados à região. (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 51-52).</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim, visto de fora como parece sugerir o texto de Morgan, o contexto atual de produção no subcontinente seria um campo pouco fértil em pesquisas, críticas ou teorias latino-americanistas. Contudo, como bem afirma Romina Pistacchio em “Abrazar la aporía descolonial. Trayecto y desafío de los Estudios Latinoamericanos” (2018b), arbitrária ou não, casual ou não, a leitura unilateral que realiza Morgan, sob o contexto dos estudos latino-americanos, em privilegiar as metodologias produzidas na metrópole e pouco ou nada citar dos estudos produzidos na própria América Latina:</p>
			<disp-quote>
				<p>(...) nos parece sintomática, pois mostra não apenas a incapacidade de uma vontade política de estabelecer um vínculo entre os campos regionais, mas também, usando a mesma nomenclatura de leitura que Morgan utiliza, a de teoria de campo poderia sugerir que não seria apropriado considerar e/ou validar tal configuração naquele espaço chamado América Latina”. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Pistacchio, 2018b</xref>, n.p - tradução minha.).</p>
			</disp-quote>
			<p>Tal como Pistacchio, acredito que, ao contrário, não apenas seguiu-se produzindo um latino-americanismo regional como, com o fim do período ditatorial, esta produção prosseguiu uma dinâmica já descrita anteriormente.</p>
			<p>Em 1981, o pensador Ángel Rama sustentaria, como exposto em “La tecnificación de la narrativa”, que o projeto latino-americano só seria possível dentro de uma dinâmica entre duas pulsões que se alternariam e, em certas ocasiões, se chocam. Estas pulsões, a interna, ou transculturadora, e a externa, ou cosmopolita, seriam “(...) diálogos autenticamente americanos, com um desenvolvimento várias vezes secular” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Rama, 1981</xref>, p. 67 - tradução minha, grifo meu) e poderiam ser determinadas graficamente como dois grandes círculos que se interseccionam e que permitem um jogo de movimentos opositores: </p>
			<disp-quote>
				<p>“(...) ou se inclinam para o centro externo cumprindo uma modernização cosmopolita ou se inclinam para o centro interno cumprindo uma modernização transculturante. Movimentos, ambos, que não implicam equivalência com posições políticas ou sociais unívocas, como já se argumentou em algumas ocasiões: no cosmopolitismo, tanto os desenvolvimentistas a favor do livre jogo das multinacionais quanto os grupos revolucionários de oposição que também buscavam uma modernização violenta conseguiram coincidir; na aculturação, setores conservadores retardados têm conseguido coincidir com nacionalismos revolucionários”. (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Rama, 1981</xref>, p. 70-71, tradução minha).</p>
			</disp-quote>
			<p>Na sua lúcida explicação - que não demoniza ou exalta nenhuma das duas pulsões mas faz sobre elas ponderações qualitativas (no sentido de pesquisa) bastante contundentes -, Rama se utilizou da sua explicação gráfica para explicar fenômenos literários. Contudo, acredito, assim como o indica José Eduardo González em seu livro <italic>Appropriating Theory: Angel Rama's Critical Work</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">2017</xref>),<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref> o mesmo diagrama da modernização da literatura latino-americana também parece ser aplicado para a modernização da crítica latino-americana.</p>
			<p>Assim, por um lado, a criação e alargamento da zona de influência da LASA, demonstraria</p>
			<disp-quote>
				<p>(...) com maior evidência como arenas acadêmicas e científicas que buscam promover e liderar a produção e a difusão de conhecimento e informação sobre a região podem tornar-se espaços de disputas em torno dos significados de América Latina e dos projetos políticos relacionados, de modo a refletir conflitos geopolíticos mais amplos, enraizados no sistema mundial e, ao mesmo tempo, a também exercer influência sobre estratégias e modelos de integração e cooperação na região. (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 60).</p>
			</disp-quote>
			<p>Num sentido mais ilustrativo, é possível afirmar que a clara adoção, desde os anos 2000, dos estudos decoloniais, que hoje pululam em sua grande maioria nos estudos latino-americanos dentro da América Latina, corresponderia a essa pulsão externa da crítica e que ganharia sua maior originalidade justamente no diálogo com pensadores e pensadoras anteriores à criação dos estudos decolonias como, por exemplo, Lélia González, Sueli Carneiro ou Gloria Anzaldúa. Dessa forma, como dizem Barros e Tavolaro:</p>
			<disp-quote>
				<p>(...) observa-se a ascensão de abordagens no marco da teoria crítica latino-americana com fortes referenciais geopolíticos, de cunho comunitarista e proposições de radicalização da democracia, as quais visam a uma “virada epistemológica”, de modo a compreender “saberes” de sujeitos sociais até então desconsiderados nos campos do conhecimento, como os movimentos indígenas, de mulheres, camponeses e afro-descendentes (como é claro o desenvolvimento de críticas indígenas, feministas, afro-descendentes em sua maioria sob o signo dos estudos decoloniais). (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 56).</p>
			</disp-quote>
			<p>Na confluência desse pensamento - que integra tanto questões regionais como de raça, gênero ou sexualidade - existente nos estudos decoloniais - muitas vezes renomeados ou de fato reformados como <italic>estudos descoloniais</italic> - produzidos na América Latina, se nota uma maior produtividade e originalidade visto que estes escapam, em grande maioria, das contradições e aporias próprias que tais epistemes carregam quando produzidas e divulgadas pela sua contraparte metropolitana (em geral branca, heteronormativa, cis, etc.)</p>
			<p>Por outro lado, segundo o mapeamento de Barros e Tavolaro, também se percebeu o surgimento de novas abordagens da teoria crítica latino-americana, “(...) constituintes de uma terceira grande corrente teórica do pensamento e da teoria social e política do pensamento latino-americano”. (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 55). Essas abordagens seriam mais multifacetadas do que as suas predecessoras distantes, quer dizer, as concebidas antes do período ditatorial e desenvolvidas pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) ou em consonância com a teoria da dependência até por volta da década de 1970. </p>
			<p>Se me arrisco - um pouco mais do que já tenho feito ao longo deste texto visto que traçar um panorama é por si só uma tarefa um risco - a tecer comentário sobre o impacto deste fenômeno, diria que o mesmo tem se traduzido numa recuperação e reavaliação histórica do que foi perdido - seja em produção intelectual, seja em produção cultural - com o encerramento do projeto latino-americanista anterior às ditaduras latino-americanas.</p>
			<p>Nesse sentido, a historiografia da crítica - conduzida por Marcela Croce, Claudia Gilman, Romina Pistacchio e o meu próprio trabalho, para citar apenas alguns nomes - assim como um novo e mais crítico olhar sobre os impactos históricos na literatura latino-americana - como os realizados por Paloma Vidal, Diana Klinger, Florencia Garramuño e tantas outras e outros - demonstram um desejo patente em manter vivas e abertas relações entre o campo da História e das Letras do latino-americanismo praticado na América Latina neste século XXI.<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref>
			</p>
			<p>É preciso evidenciar que perduram, sobre este tipo de estudo, os riscos recorrentes de se cair em nostalgia, por um lado, ou exaltar culturas e expressões literárias que, por outro lado, demonstram claros problemas quanto a suas leituras raciais, de gênero, sexualidade e outros apagamentos e silenciamentos.</p>
			<p>Efetivamente, o termo neo-arielista (o rótulo vem da obra <italic>Ariel</italic> de José Enrique Rodó) é uma categoria negativa inventada por Beverley para se referir a intelectuais latino-americanos que se opunham à imposição de uma agenda crítica metropolitana ao estudo da região. Segundo Beverley, eles considerariam que a teorização latino-americanista tem sido dominada por modismos teóricos metropolitanos - estudos subalternos, estudos decoloniais, estudos pós-hegemónicos e assim por diante -, em detrimento da tradição intelectual local. Na versão de Beverley, porém, tal comportamento seria antes motivado por um ressentimento da perda de seus privilégios como intérpretes da realidade cultural latino-americana e guardiões dessa tradição do que realmente uma posição crítica. Nesse sentido, Beverley relaciona os &quot;neo-arielistas&quot; à cidade letrada de Ángel Rama, já que a grande maioria são estudiosos da literatura:</p>
			<disp-quote>
				<p>Nesse sentido, a posição neo-Arielista, (...) baseia-se numa sobrevalorização, de origem colonial, da autoridade da literatura escrita e do ensaio literário e num sentido essencialmente eurocêntrico do cânone cultural e do “valor” estético. Embora muitas vezes tenda a celebrar a “crítica cultural” em detrimento dos “estudos culturais”, vistos como um fenômeno norte-americano, ela se mostrou curiosamente incapaz de criticar suas próprias limitações. Em vez disso, ela tem de defender e reterritorializar essas limitações a fim de se apresentar como uma alternativa ao que vê como modas acadêmicas “metropolitanas” ou “populistas” para os estudos culturais e não pode - ou não quer - ver adequadamente a orientalização que operou, e ainda opera, dentro da “cidade letrada” latino-americana. Operação está que continua sendo sua parte integrante (a história da literatura latino-americana poderia ser escrita de certa forma como a história da orientalização discursiva por intelectuais literários latino-americanos de amplos setores da população da América Latina.). (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Beverley, 2011</xref>, p. 20-21- tradução minha, grifo meu).</p>
			</disp-quote>
			<p>Apesar das acusações de nostalgia e/ou neoconservadorismo contra esse latino-americanismo da América Latina, é preciso pontuar que: 1) vindas de um latino-americanismo estrangeiro, tais acusações perpassam por um espaço de luta de hegemonia interpretativa; 2) a “incapacidade de criticar suas próprias limitações” é mero recurso retórico visto que a grande maioria destes estudos demonstram uma clara compreensão de seus limites e possibilidades metodológicas visto o atual contexto do campo<xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref>; 3) por fim, se preocupar com a História não significa concordar com o que nela se passou, quer dizer, incorrer no risco de produzir um apagamento histórico por fobia de questões complexas parece tão problemático quanto às acusações feitas por Beverley (se o intelectual se esquece, os riscos que envolvem os extremos das pulsões internas e externas são semelhantes). Sobre isso, diz Pistacchio:</p>
			<disp-quote>
				<p>As políticas de esquecimento (desmemoria) e as gramáticas de apagamento aplicadas no Chile durante a ditadura e as de branqueamento no pós-ditadura tiveram fortes efeitos não só no terreno sócio-político de nosso país, mas também no campo cultural, intelectual e acadêmico. Talvez um dos cenários onde isso se torna mais visível seja na adoção de critérios a-históricos e a-historicizantes estrangeiros para o estudo das humanidades e da literatura em particular, quero dizer, sobretudo, a imposição de modas temáticas para o estudo da produção passada e atual literatura. Isto, com o propósito de integrar um aparente campo global que atribui legitimidade e prestígio através de critérios ferozes de concorrência, ao mesmo tempo que não é capaz de suportar o crescimento amorfo da massa profissional e a escassa oferta de emprego. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Pistacchio, 2018b</xref>, n.p.).</p>
			</disp-quote>
			<p>Ao contrário do que essa repartição entre estudos de tendência histórico-estéticas, por um lado, e descoloniais-culturais de outro, como parece sugerir uma abordagem como esta, é preciso dizer que, em muitos casos elas podem caminhar juntas. Isso se dá justamente pelo fato de que existem poucas redes internacionais inter-latino-americanas, o que ocasiona um diálogo muito maior de pares em nível local e gera teorias e abordagens de cunho não especializado mas heterogêneas e, em algum grau, previne a guetificação do conhecimento sobre a América Latina como ocorre nos Estados Unidos e Europa. É o que Rama entendia como o encontro entre as duas pulsões e que em exemplo mais claro desse tipo de trabalho no âmbito recente, poderíamos citar, entre vários (e até mesmo alguns dos trabalhos já mencionados) <italic>Delirio americano: Una historia cultural y política de América Latina</italic> (2022) de Carlos Granés que, em sua visão crítica, transbordam questionamentos bastante agudos para ambos os lados.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Em seu livro <italic>El insomnio de Bolívar</italic> (2009), o mexicano Jorge Volpi afirma que a “América Latina, esse território mítico que foi imaginado - e ciumentamente protegido - por seus pais e avós, já não existe mais”. (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Volpi, 2009</xref>, p. 116-117 - tradução minha). </p>
			<p>John Beverley, em livro mais recente, proclama <italic>The Failure of Latin America</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B6">2019</xref>), mas curiosamente, nos diz que ainda há vida nos estudos subalternos como seu capítulo 8, nomeado “SUBALTERN LIVES”, parece indicar.</p>
			<p>Quando perguntado na mesa “Revisitando as relações literárias e culturais entre Brasil e América Hispânica” do XII Congresso Brasileiro de Hispanistas sobre o desaparecimento de figuras tão grandes como Ángel Rama e Antonio Candido, Pablo Rocca (enfim, com a palavra Pablo), este, especialista nos intelectuais daquela época, conseguiu apenas responder que “já não é mais possível” de se ter novos pensadores com o mesmo peso.</p>
			<p>A impossibilidade final do pensamento latino-americano parece sempre iminente. A América Latina já não existe mais, mas mesmo assim, por algum motivo inexplicável, não conseguimos parar de falar dela.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Álvarez, Sonia E.; Costa, Claudia de Lima. A circulação das teorias feministas e os desafios da tradução. Estudos Feministas, Florianópolis, 21-2, maio-agosto, 2013, p. 579-586.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>Álvarez</surname>
							<given-names>Sonia E.</given-names>
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					<article-title>A circulação das teorias feministas e os desafios da tradução</article-title>
					<source>Estudos Feministas</source>
					<publisher-loc>Florianópolis</publisher-loc>
					<volume>21</volume>
					<issue>2</issue>
					<season>mai-ago</season>
					<year>2013</year>
					<fpage>579</fpage>
					<lpage>586</lpage>
				</element-citation>
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				<mixed-citation>Aguilar, Gonzalo. “Ángel Rama e Antonio Candido: Salidas de Modernismo”. In: Antelo, Raúl (ed.). Antonio Candido y los estudios latinoamericanos. Pittsburgh: Universidad de Pittsburgh, 2001, p. 71-94.</mixed-citation>
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							<surname>Aguilar</surname>
							<given-names>Gonzalo</given-names>
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					<chapter-title>Ángel Rama e Antonio Candido: Salidas de Modernismo</chapter-title>
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					<source>Antonio Candido y los estudios latinoamericanos</source>
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					<article-title>América Latina e o giro decolonial</article-title>
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				<mixed-citation>Beverley, John. Latinamericanism after 9/11. Durham: Duke University Press, 2011.</mixed-citation>
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					<source>Temas para uma literatura Hispano-americana. Volume 1: Inscrições do sujeito/Redes do literário</source>
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				<mixed-citation>Granés, Carlos. Delirio americano: una historia cultural y política de América Latina. Bogotá: Taurus, 2022 [e-book].</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Moreiras, Alberto. The exhaustion of difference: The politics of Latin American cultural studies. Durham: Duke University Press , 2001.</mixed-citation>
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					<year>2001</year>
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					<article-title>¿Olvidar el latinoamericanismo?: John Beverley y la política de los estudios culturales latinoamericanos</article-title>
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				<mixed-citation>Ojeda, Rafael. Hacia un latinoamericanismo del siglo XXI. Quehacer, n. 182, 2011, p. 66-75. </mixed-citation>
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					<article-title>Hacia un latinoamericanismo del siglo XXI</article-title>
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					<source>La aporía descolonial: Una historia de la tradición crítica de la crítica literaria latinoamericana en los casos de Antonio Cornejo Polar y Ángel Rama</source>
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					<year>2018</year>
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				<mixed-citation>Pistacchio, Romina. Abrazar la aporía descolonial. Trayecto y desafío de los Estudios Latinoamericanos. Revista Demarcaciones, v. VI, n. 6, 2018b, n.p.</mixed-citation>
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					<article-title>Abrazar la aporía descolonial. Trayecto y desafío de los Estudios Latinoamericanos</article-title>
					<source>Revista Demarcaciones</source>
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				<mixed-citation>Pizarro, Ana (org.). América Latina. Palavra, literatura e cultura. Volume 1: A situação colonial. Unicamp. Memorial/ Unicamp, 1993.</mixed-citation>
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					<source>América Latina. Palavra, literatura e cultura. Volume 1: A situação colonial</source>
					<publisher-name>Unicamp. Memorial/ Unicamp</publisher-name>
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				<mixed-citation>Poblete, Juan (ed.). Nuevos acercamientos a los estudios latinoamericanos: Cultura y poder. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO; México: UNAM, 2021.</mixed-citation>
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					<source>Nuevos acercamientos a los estudios latinoamericanos: Cultura y poder</source>
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					<comment>México: UNAM</comment>
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				<mixed-citation>Rama, Ángel. La tecnificación narrativa. Hispanoamérica, v. 10, n. 30, 1981, p. 29-82.</mixed-citation>
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					<article-title>La tecnificación narrativa</article-title>
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				<mixed-citation>Volpi, Jorge. El insomnio de Bolívar: Cuatro consideraciones intempestivas sobre América Latina en el siglo XXI. DEBOLS!LLO: México, 2009.</mixed-citation>
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					<source>El insomnio de Bolívar: Cuatro consideraciones intempestivas sobre América Latina en el siglo XXI</source>
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					<year>2009</year>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>O XII Congresso Brasileiro de Hispanistas ocorrido entre 31 de agosto e 3 de setembro de 2022.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Conjuntamente com outros nomes atuantes na teoria literária hispano-americana como Alfredo Cordiviola, Ana Cecilia Olmos e Miriam V. Gárate.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>&lt;<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://global.oup.com/academic/product/literary-cultures-of-latin-america-9780195126211">https://global.oup.com/academic/product/literary-cultures-of-latin-america-9780195126211</ext-link>&gt;. Grifo meu.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>A lei 11.161 decretada em agosto de 2005 pelo presidente Lula foi um marco nesse sentido. A lei dispunha sobre a &quot;(...) oferta obrigatória pela escola e de matrícula facultativa para o aluno, [que] será implantado, gradativamente, nos currículos plenos do ensino médio&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Brasil, 2005</xref>, n.p.) e, no campo acadêmico, possibilitou a criação de novos cursos de Letras, pós-graduação, revistas especializadas e todo um novo aparato focados no ensino da língua espanhola (tal qual das suas culturas e literaturas vinculadas) que ainda deixa marcas na intelectualidade brasileira, mesmo depois de sua revogação em 2017. Para a sociedade, não obstante, fica claro que o ensino de espanhol se vinculava muito mais a um estreitamento comercial - condizente com o complicado conceito de &quot;Onda Rosa&quot; - do que realmente com a formação de um novo projeto de integração cultural regional.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Pistacchio alude ao relato deixado pelo poeta chileno Gonzalo Rojas, organizador do Primer Encuentro de Escritores Chilenos, evento precursor ao Primer Encuentro de Intelectuales.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>O livro de Moreiras seria publicado e traduzido no Brasil como <italic>A exaustão da diferença: a política dos estudos culturais latino-americanos</italic> (2001) pela editora da UFMG. No entanto, como, no momento de escrita desse texto eu tenho acesso apenas a versão original em inglês, é esta edição que citarei aqui.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Tal congresso seria presidido, coincidentemente, por Eduardo F. Coutinho que, 26 anos depois, faria um trabalho retrospectivo em parte do assunto na mesa “Revisitando as relações literárias e culturais entre Brasil e América Hispânica” do XII Congresso Brasileiro de Hispanistas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Afinal, se, em alguma medida, o latino-americanismo “(...) é o conjunto de discursos que evocam a América Latina e, ao evocá-la, <italic>a inventam</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan, 2013</xref>, p. 23 tradução minha), quem hoje possui a primazia dessa invenção não são as instituições latino-americanas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>“De 1985 a 2003 foram 21,8% e de 2004 até o presente foram 78,2%, identificando-se um ápice nos anos de 2011 e 2012, de modo que é factível apontar, tentativamente, algumas relações entre os processos de integração regional” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 62).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>Respectivamente: “17,1% História, 14% Letras; 8,9% Ciência Política, 6,8% Direito e Comunicação (cada uma); 4,1% Sociologia, Ciências Sociais e Educação (cada uma), 3,4% Artes e Serviço Social (cada uma), 1,4% Administração. As demais disciplinas aparecem individualmente com 0,7%.” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 62) elencam as autoras.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>Que se utilizou da categoria de campo intelectual de Pierre Bourdieu.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>Latin American Studies Association, organização criada em 1966 nos Estados Unidos e tida atualmente como a maior associação de estudos latino-americanos do mundo. A marca da associação se faz clara nas palavras e no conjunto total dos trabalhos reunidos: “Embora alguns dos colaboradores sejam acadêmicos latinos-americanos residentes na América Latina, a maioria é latino-americanistas residentes nos Estados Unidos e este livro reflete, por design, essa perspectiva”. (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Poblete, 2021</xref>, p. 18 - tradução minha).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p>Enquanto o decolonial teve 5 - de 23 - simpósios dedicados à sua questão no XII Congresso Brasileiro de Hispanistas, os estudos subalternos não teve nenhum (ainda que tenha se apresentado em 6 trabalhos ao longo de toda a programação do evento).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p>A afirmação (ou acusação, como queiram) para com os Estudos Decoloniais é tão antiga quanto o contra-ataque do grupo que aponta em seus críticos traços (neo)coloniais de pesquisadores que não querem abrir mão de seus privilégios (paradoxal visto que os cabeças-de-escola decoloniais também os têm) e tem sido traçada desde o começo dos anos 2000 como havia notado <xref ref-type="bibr" rid="B13">Moreiras (2001</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p>Críticas, por exemplo, tanto de Beverley, que julgava seu compromisso político insuficiente, quanto de Morgan, que afirmaria que a posição hiperteorizante de Moreiras é problemática do ponto de vista do princípio da legitimação política visto que “Os seus fundamentos teóricos levam-no a evitar o essencialismo identitário, a situar-se criticamente no espaço entre as reivindicações nacionalistas dos defensores do Estado-Nação e a lógica da globalização neoliberal”. (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Morgan, 2013</xref>, p. 33 - tradução minha).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p>O dito texto se encontra inserido no panorama editado por <xref ref-type="bibr" rid="B19">Poblete (2021</xref>), <italic>Nuevos acercamientos a los estudios latino-americanos: Cultura y poder</italic>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p>Em texto anterior, “A circulação das teorias feministas e os desafios da tradução” (2013), as pesquisadoras também evidenciaram as questões e desafios da tradução na circulação de modo que as “(...) interações entre os feminismos das mulheres latinas e das latino-americanas, as viagens dos discursos e das práticas através de fronteiras geopolíticas, disciplinares e outras encontram enormes bloqueios e pontos de controle migratório” (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Álvarez; Costa, 2013</xref>, p. 580).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p>No caso de José Eduardo González, o pesquisador aponta como os processos de transculturação narrativa descritos por Rama em sua teoria também seriam, em alguma medida, uma descrição da transculturação teórica que ele havia realizado no momento de pensar e construir seu pensamento.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p>Desejo este, inclusive, traduzido em números, visto que ambas são as disciplinas que, como já comentamos, dominam os estudos no Brasil sobre a América Latina.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p>Veja, como exemplo palpável, como Barros e Tavolaro encerram o seu artigo: “Uma pergunta que prossegue para nós, enquanto partícipes do objeto de estudo, é se podemos pensar a nós próprios num campo de interesses conflitantes, no sentido bourdieusiano, justamente numa conjuntura em que defender a autonomia da ciência é menos acusá-la de qualquer isolacionismo e mais se preocupar com sua vitalidade, quando o cenário atual a submete a vários ataques ideológicos, tendo em vista seu enfraquecimento enquanto postuladora de sentidos do mundo”. (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barros, Tavolaro, 2017</xref>, p. 70).</p>
			</fn>
		</fn-group>
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