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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i28p189-215</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Dossiê - Novos olhares para os estudos da tradução espanhol&lt;&gt;português no século XXI</subject>
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				<article-title>Materialidade na Tradução de “Versos de Astronomia” de Rosa Araneda para um Folheto de Cordel</article-title>
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					<trans-title>Materiality in the Translation of ‘Verses of Astronomy’ by Rosa Araneda into a Cordel Literature</trans-title>
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						<surname>Marques</surname>
						<given-names>Rodrigo de Albuquerque</given-names>
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                    <bio>
                    <p>Professor da Universidade Estadual do Ceará (UEC), atua no curso de Letras do Campus de Quixadá (FECLESC). Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (2015) e Pós Doutor em Literatura Comparada pela USP. Editor da Aluá Edições. Possui sete livros publicados.</p>
                    </bio>
                    <email>marques@uece.br</email>
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						<surname>Sobottka</surname>
						<given-names>Mary Anne Warken Soares</given-names>
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                    <bio>
                    <p>É doutora e mestra em Estudos da Tradução pelo Programa em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (PGET/ UFSC). É graduada nos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Língua Espanhola e Literaturas de Língua Espanhola pela UFSC e graduada em Licenciatura em Letras Português pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci. Pesquisa a poesia vanguardista latino-americana. Desenvolve atualmente projeto de tradução da lira popular chilena e décimas cubanas para o português, em um estudo comparado que trabalha a recepção destas poéticas para o cordel brasileiro.</p>
                    </bio>
                    <email>warkenespanholufsc@gmail.com</email>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2024</year>
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            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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			<issue>2</issue>
			<fpage>189</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Neste artigo colocamos em diálogo duas manifestações da literatura popular latino-americanas: a Lira Popular do Chile e o Cordel do Brasil. Comentamos o projeto de tradução e edição que culminou com a publicação de traduções do poema “Versos de Astronomia” (Araneda, 2023) da autora chilena Rosa Araneda (1850-1894), em uma edição impressa, no formato dos folhetos de cordéis, para leitores do idioma castelhano, e em edição digital para divulgação online. Para a tradução comentada, colocamos em evidência a importância dos elementos compositivos da literatura popular, discutimos os aspectos formais do verso em consonância com os aspectos semânticos, enfatizando a importância de uma reflexão dentro dos estudos culturais para uma leitura por meio da tarefa da tradução.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>In this article, we engage in a dialogue between two expressions of Latin American popular literature: the Popular Lyre of Chile and the Cordel of Brazil. Our focus centers on a translation and editing project that culminated in the release of translated versions of the poem “Verses of Astronomy” (Araneda, 2023) by the Chilean author Rosa Araneda (1850-1894). These translations have been presented in a printed format, resembling the format of cordel pamphlets, for Spanish-speaking readers, and in a digital edition for online dissemination.Within the framework of our annotated translation, we highlight the significance of compositional elements in popular literature, discuss the formal aspects of verse in harmony with semantic aspects, and emphasize the importance of cultural studies reflection for an understanding through the translation task.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Lira Popular</kwd>
				<kwd>Literatura de Cordel</kwd>
				<kwd>Rosa Araneda</kwd>
				<kwd>Materialidade</kwd>
				<kwd>Tradução</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Popular Lyre</kwd>
				<kwd>Cordel Literature</kwd>
				<kwd>Rosa Araneda</kwd>
				<kwd>Materiality</kwd>
				<kwd>Translation</kwd>
			</kwd-group>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Não encontramos registros de tradução para o português até o momento, no Brasil, da poesia de Rosa Araneda (1850-1894), poeta chilena que também foi editora de seus versos publicados e que, segundo indícios, chegou a ter uma imprensa<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. Araneda é considerada uma das primeiras mulheres que registraram em texto escrito a poesia popular chilena. Sendo assim, a materialidade, ou seja, o verso publicado e o mundo editorial foram cruciais para o reconhecimento da autora como poeta e para que tivéssemos acesso aos seus poemas na atualidade. De acordo com Pamela Tala Ruiz, estudiosa chilena que se dedicou à obra de Rosa Araneda, a poeta foi uma das primeiras mulheres a registrar em texto escrito o gênero poesia popular no Chile. As suas publicações são uma representação da literatura popular, em especial, da lira em um contexto de final do século XIX. São publicações que apresentam diversidade temática e respeito à formalidade da estrutura poética das décimas (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Tala, 2001</xref>, p. 57). </p>
			<p>A obra de Rosa Araneda se insere no gênero “lira popular chilena”, assim denominada a partir da paródia crítica feita pelo poeta Juan Bautista Peralta (1885-1933) à revista <italic>La lira chilena</italic> (1898-1907), à época de grande prestígio num seleto público da elite de Santiago. A Lira Popular foi reconhecida em 2013 como “Memória do mundo” pela Unesco<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>, sua estrutura métrica remete às <italic>décimas</italic>, forma poética que pode ser encontrada em diferentes países da América Latina.</p>
			<p>A tradução que ora apresentamos e comentamos é possivelmente a primeira experiência tendo como objeto a poesia da escritora que, apesar do renome como autora da Lira Popular, circunscreve-se ao cancioneiro do seu país. Micaela Navarrete, estudiosa de Rosa Araneda no Chile, organizou a obra da poeta em uma edição sob o título, <italic>Aunque no soy literaria. Rosa Araneda en la poesía popular del siglo XIX</italic> (1998)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. </p>
			<p>As traduções de poetas populares do Chile e do Brasil não acompanharam o mesmo passo das traduções do cânone nacional de ambos os países, que já conta com edições, seja em castelhano ou português, de poetas como Gabriela Mistral, Cecília Meireles, Pablo Neruda, Ferreira Gullar, Nicanor Parra, Vinicius de Moraes, Vicente Huidobro e Manuel Bandeira, estes últimos com edições bilíngues da Academia Brasileira de Letras (ABL) e da Academia Chilena de la Lengua. Cabe destacar que se bem conhecemos a obra de Violeta Parra, importante poeta e ícone da cultura popular no Chile e com fama internacional, ainda não temos sua obra completa traduzida no Brasil, ou seja, há ainda muito o que se explorar acerca das particularidades da poesia popular na América Latina, suas diferenças e similitudes culturais.</p>
			<p>Neste artigo buscamos evidenciar a importância dos aspectos culturais no poema de referência de Rosa Araneda e nas duas traduções aqui apresentadas que, mediante leitura, apresentam caminhos diferentes para uma proposta conjunta de recepção da obra de Araneda para o português brasileiro. Deve-se considerar que o que uniu as duas formas de ler e traduzir o poema de Araneda foi o projeto de concretizar a edição de um folheto de cordel. Assim, o processo de tradução considerou aspectos relacionados às questões editoriais necessárias para coligir duas traduções num folheto impresso de oito páginas.</p>
			<p>A seguir descreveremos o projeto de tradução e comentaremos aspectos importantes para a edição e publicação do poema que traduzimos para o idioma português.</p>
			<p>Para o poema “Versos de Astronomia”, apresentam-se duas versões realizadas respectivamente por dois tradutores distintos: a primeira (T1), uma tradução que se aproxima mais do texto fonte, que chamaremos de tradução semântica, e a segunda (T2), tradução poética, que se desenvolve em um diálogo estreito com a literatura popular, com vetor apontado para a cultura nordestina dos folhetos populares. Neste artigo, nos limitamos a apresentar o projeto de tradução do poema de Rosa Araneda sem adensar as questões teóricas de tradução envolvidas no processo.</p>
			<p>A sequência das traduções seguiu a ordem das abreviaturas, a saber, só depois de estabilizada a primeira versão da T1 é que a segunda se iniciou. No entanto, o percurso tradutório foi planejado em permanente diálogo, tendo os tradutores como “leitor foco” alternadamente. A formação acadêmica de cada um contribuiu para o trabalho, que corresponde exatamente ao tipo de tradução empreendido. Os comentários também são de autoria deles.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Tradução e materialidade</title>
			<p>As traduções, como dito, destinaram-se à publicação de um folheto impresso em agosto de 2023 para uma editora especializada em cordéis, a Aluá Editora, sediada na cidade de Quixadá, no Brasil, região central do estado do Ceará, berço de cordelistas e cantadores, como Cego Aderaldo, Klévisson Viana e Alberto Porfírio. O folheto bilíngue (dimensões 11cmx16cm), de oito páginas, foi ilustrado pelo artista Silva Barros, gravurista e autor de mais de setenta capas de romances de cordel, o que garantiu preservar as características tradicionais desse tipo de editoração<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>. Para a escolha do poema traduzido, levou-se em consideração a quantidade de estrofes do texto de referência, no caso, cinco, além do mote inicial de quatro versos, extensão ideal para fechar graficamente um folheto nestas condições, prevendo aí o texto original e as traduções, pois um poema com uma quantidade maior de estrofes encareceria a edição e prejudicaria tecnicamente o fechamento do caderno gráfico.</p>
			<p>Na Lira Popular do Chile, a mídia impressa mais usual eram as chamadas “folhas volantes”, impressas numa única face, inicialmente no formato 26cmx38cm, e posteriormente em formatos maiores 35cmx56cm ou até mesmo 55cmx75cm (cf. <xref ref-type="bibr" rid="B6">Galvão, 2022</xref>). “Os <italic>pliegos</italic> eram encabeçados por gravuras e por um título impresso em letras muito grandes, que em geral se referiam a uma ou duas das cinco ou seis poesias nele contidas”. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Galvão, 2022</xref>). Porém, se encontram exemplares da Lira Popular em pequenas brochuras de proporções similares às dos folhetos brasileiros e, embora mais raro, “folhas volantes” publicadas no Brasil.</p>
			<p>Reproduzimos a seguir a capa e a quarta capa do poema “Versos de Astronomia” de Rosa <xref ref-type="bibr" rid="B3">Araneda, edição de 2023</xref> da Aluá Editora.</p>
			<p>A capa apresenta arte digital do artista Silva Barros ao poema de Rosa Araneda, tendo o Sol Inca ao centro, enquanto os astros flutuam ao seu redor em órbita. O Sol das bandeiras do Uruguai e da Argentina ganhou a textura das xilogravuras nordestinas do Brasil, simulada no traço digital, que emulou também o talho característico da gravura em madeira nos contornos das figuras: Júpiter, Vênus, a Lua, o planeta Terra e mais uns outros que se apresentam sobre fundo preto estrelado. A quarta capa traz uma intervenção sobre gravura anônima da Lira Popular: o artista acrescentou à gravura um folheto à altura dos olhos da personagem, como se fosse a própria Araneda a ler o que ora se imprimiu, seguida de uma pequena apresentação da autora:</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<graphic xlink:href="2317-9651-caracol-28-02-189-gf1.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p>Os dados biográficos da autora são poucos e retirados principalmente de poemas que noticiaram sua morte ou homenagearam sua memória, escritos por poetas que conviveram com ela, como seu esposo, o poeta Daniel Meneses. Sabe-se ainda que sua cultura foi eminentemente campesina e que ela viveu em bairros populares de Santiago (cf. Navarrete, 1998). Nem sempre a quarta capa dos cordéis apresenta a biografia do autor ou da autora, geralmente estampa um reclame da própria editora ou de seus patrocinadores. Optou-se por resumir a vida e comentar brevemente a obra de Rosa Araneda para dar visibilidade a esta poeta, tanto para o público brasileiro, quanto para o público chileno, que não estão acostumados a associar a autoria de folhetos de cordel a uma autoria feminina, embora os ensaios e pesquisas mais contemporâneas tenham demonstrado a profícua produção de mulheres cordelistas e a participação de cantadeiras no universo da poesia popular<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>.</p>
			<p>O folheto ainda ganhou uma edição em <italic>ebook</italic> com aparência similar a da edição física, na tentativa de ampliar e atualizar o acesso à poesia de Rosa Araneda sem perder a originalidade dos impressos populares<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>.</p>
			<p>As informações da mídia impressa se justificam neste artigo por constituir aspecto cultural imprescindível ao contexto de realização desta poesia, pois dão uma ideia das condições materiais do poeta e a sua criatividade em se fazer publicar, e revela ainda um conhecimento gráfico local que resiste aos dias atuais. A materialidade editorial é elemento definidor da salvaguarda desta poesia que, por ter vínculos estreitos com a oralidade, registra um saber contíguo a outras expressões culturais como a cantoria de viola, no caso brasileiro, e a dança <italic>cueca</italic>, as <italic>tonadas</italic> e <italic>os cantares</italic> do Chile. A propósito, Desidério Lizana D., no famoso estudo <italic>Cómo se canta la poesía popular</italic> (1912), comenta sobre o vínculo da oralidade e da escrita na poesia popular chilena, os caminhos de sua preservação e circulação pública a partir daí:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Estos puetas, casi todos anónimos, han dejado sus versos impresos solamente en la memoria de sus admiradores y aficionados oyentes, a excepción de aquellos que han hecho de su arte una profesión o medio de ganar la vida, como ha sucedido con los que hasta ahora venden sus producciones en las calles y plazas, pregonadas por ellos mismos, por los suplementeros, o por vendedores especiales que explotan ese solo ramo, y que las ofrecen al público gritando los títulos de un resuello y cerrando la retahíla con las palabras: los versos.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Lizana D., 2014</xref>, p. 19-20).</p>
			</disp-quote>
			<p>O comentário de Desiderio Lizana D., publicado pela primeira vez em 1912, bem próximo do período de atividade de Rosa Araneda, descreve bem a dinâmica da circulação e do registro da poesia popular no Chile na passagem do século XIX para o XX. O domínio sobre toda a cadeia produtiva dos versos impressos, desde a composição até à venda ao destinatário final, foi uma marca desses poetas. Rosa Araneda, do pouco que sabemos da sua vida, vendia nas ruas de Santiago o seu trabalho, daí, muitas vezes, a Lira Popular trazer à pauta temas do cotidiano ou de forte apelo popular, como as notícias de assassinatos, crimes, fuzilamentos e enforcamentos, numa espécie de noticioso em verso, algo também comum ao cordel no Nordeste brasileiro. É importante salientar que o mesmo se deu, guardadas as devidas proporções, com a publicação do folheto <italic>Versos de Astronomia</italic>, no sentido de que todas as etapas de produção, inclusive a sua circulação no Chile e no Brasil, esteve no domínio e no horizonte dos tradutores que também atuaram como editores, revivendo, de certa forma, o legado de Rosa Araneda.</p>
			<p>Temos assim o comentário das traduções não só em seus aspectos estritamente textuais, mas também em sua consecução como produto, por entendermos que o conjunto constitui um mesmo objeto, uma vez que a poesia da Lira Popular Chilena e da literatura de cordel brasileira não se realizam sem as dimensões gráficas e sem o trânsito da oralidade para a escrita, incluindo aí as implicações sociais de sua distribuição e comercialização.</p>
			<p>Para o folheto, foi utilizado o texto fonte em castelhano com as marcas ortográficas do século XIX, extraído do livro <italic>El cantor de los cantores: poesías populares: libro quinto/ por Rosa</italic><xref ref-type="bibr" rid="B2"><italic>Araneda.</italic> (Araneda, 1895</xref>) - digitalizado e à disposição no site da Biblioteca Nacional do Chile<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>. Optou-se em não atualizar o castelhano para que o texto fosse apresentado aos contemporâneos no registro linguístico da época da autora.</p>
			<p>O castelhano chileno é uma variedade que se diferencia dos países do continente americano e do castelhano ibérico. O professor e pesquisador Dário Rojas, especialista desta variedade destaca que:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>lo que realmente existe en una sociedad en un momento determinado es un conjunto heterogéno de prácticas comunicativas, cuyos patrones emergentes pero siempre mutables nos dan la idea de un “sistema”, que solemos llamar “lengua” y a veces con apellidos (castellana, chilena, etc.).</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Hernando; Warken, 2020</xref>, p. 240).</p>
			</disp-quote>
			<p>Para a construção do nosso projeto de tradução foi importante considerar o idioma do texto fonte, o contexto histórico da sua publicação e o gênero literário no qual se insere o poema de Rosa Araneda. Em “Versos de Astronomia” a autora apresenta rigor formal, e sutis marcas de oralidade no texto escrito, um exemplo é a supressão do “d” final em palavras como “oscuridad”, “verdad”, “velocidad” e “claridad”. O “d” é substituído pelo acento agudo: <italic>oscuridá</italic>, <italic>verdá</italic>, <italic>velocidá</italic> e <italic>claridá</italic>. Essa supressão confere características relacionadas ao gênero popular e não especificamente à variedade do castelhano chileno. Esse apagamento do “d” remete a uma poética que surge de uma tradição oral, do verso recitado com a total liberdade sonora para sua musicalidade em performance de recitação. </p>
			<p>Apesar de neste poema específico não termos forte evidência da variedade chilena, é vital considerar que é uma obra da literatura e de um gênero popular que remete à cultura chilena. Foi fundamental, portanto, a pesquisa dedicada ao gênero e a experiência de tradução nesta variedade do castelhano. Walter Carlos Costa ao comentar as variedades na tradução lembra que devemos considerar que: </p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Si el panorama del uso de las variedades en la producción en castellano es multifacético lo normal sería que hubiera una variación similar en la literatura traducida. Tal no es el caso como muestra una observación somera de libros traducidos. Si tomamoslos libros traducidos al castellano tenemos la impresión de que el castellano es más uniforme de lo que es en realidad.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Costa, 2012</xref>, p. 86)</p>
			</disp-quote>
			<p>O sinalizado acima será considerado em nosso projeto de tradução para toda obra da autora e da lira popular chilena. Temos que considerar o contexto histórico das publicações, estilos de autoria, sistemas de edição e publicação, marcas de oralidade no texto e o castelhano em suas variedades.</p>
			<p>Cumpre ainda informar que esta tradução comentada foi apresentada em forma de minicurso no Chile e no Brasil, o que contribuiu sobremaneira para a percepção dos comentaristas/ tradutores acerca da recepção nos dois países. Dito isto, passemos às traduções propriamente ditas e em seguida aos comentários de ordem mais textual.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Tradução e comentários</title>
			<p>
				<table-wrap id="t1">
					<table>
						<colgroup>
							<col/>
							<col/>
							<col/>
						</colgroup>
						<thead>
							<tr>
								<th align="left"><italic>Versos de Astronomía /</italic> Rosa Araneda</th>
								<th align="left">Versos de Astronomia (T1)</th>
								<th align="left">Lições de Astronomia (T2)</th>
							</tr>
						</thead>
						<tbody>
							<tr>
								<td align="left"><italic>Díceme, ¿qué movimiento / Saturno tiene en su esfera, / Cuánto tiempo se demora / Para dar la vuelta entera?</italic></td>
								<td align="left">Me diga, qual é o movimento / Que Saturno tem em sua esfera, / Quanto tempo demora / Para dar a volta inteira?</td>
								<td align="left">Me diga, qual movimento / Saturno traz na moleira, / Quanto tempo ele demora / Para dar a volta inteira?</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left"><italic>Principiaré por la luna, / A preguntar sin teson, / Dame tu contestacion / Sin haber duda ninguna. / De Marte, ¿cuál fué su cuna / Dime en tu conocimiento, / Si camina mui violento / En su eje cuando vira, / Se le observa cuando jira, / Díceme, ¿qué movimiento?</italic></td>
								<td align="left">Vou começar pela lua, / Perguntando sem emoção, / Me dê tua resposta / Sem ter dúvida nenhuma. / Sobre Marte, qual foi o seu berço? / Me diz o que sabes, / Se caminha muito violento / No seu eixo quando vira, / Me diz, quando gira / Qual o movimento?</td>
								<td align="left">Vou começar pela lua, / Pergunto sem me afobar, / Quero ver desafiar / E sem lenga lenga tua. / Se Marte nasceu na rua, / Se no berço ou no relento, / Se no andar é violento / Conforme ele faz um giro, / Tal e qual quando eu me viro, / Me diga qual movimento?</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left"><italic>Con luz iluminadora / Mercurio, en la elevación, / Hace su derrotacion / A las veinticuatro horas; / En la órbita que mora / Velozmente, de manera / Si sirve el sol de lumbrera, / Contéstame con tus brillos: / ¿Qué cantidad de anillos / Saturno tiene en su esfera?</italic></td>
								<td align="left">Com luz iluminadora / Mercúrio, na elevação, / Faz sua derrotação / Às vinte quatro horas; / Na órbita que mora / Velozmente, de maneira / Serve-se o sol de clareira, / Me responda com teus brilhos: / Qual a quantidade de anéis / Que Saturno tem na sua esfera?</td>
								<td align="left">A luz dá pra ver de fora / Mercúrio é que se agiganta, / E tudo faz que suplanta / O dia e as vinte quatro horas; / Na órbita em que ele mora / Vai veloz de tal maneira / Que o Sol pra ele é clareira, / Pois me responda em dez pés: / Qual a quantidade de anéis / Saturno traz na moleira?</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left"><italic>Vénus jira a mas distancia, / En blanco cielo plateado / I un rayo del sol dorado / Le da calor i templanza; / Hácia donde él se abalanza / La luz purificadora, / La aclariza i lo atesora / Tan solo porque refleje, / Dando una vuelta en el eje / ¿Cuánto tiempo se demora?</italic></td>
								<td align="left">Vênus gira com mais distância, / Em um céu branco e prateado / E um raio do sol dourado / Entrega calor e equilíbrio; / Para onde ele se balança / A luz purificadora, / O aclara e o guarda / Somente porque reflete, / Dando uma volta no eixo</td>
								<td align="left">Vênus gira numa dança, / Num céu claro e prateado / Desce um raio de dourado / Dando calor e bonança; / Para onde ele se balança / Vem luz purificadora, / Que acalma e é protetora / Somente porque o reflete, / E se no seu eixo se entrete, / Quanto tempo ele demora?</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left"><italic>Júpiter también está, / El astrónomo asegura, / Desde su elevada altura / Mostrando su claridá, / Jira con velocidá / En tan desigual carrera; / Cuando una nube lijera / Lo oscurece, queda errante, / Pero marcha hácia adelante / Para dar la vuelta entera.</italic></td>
								<td align="left">Júpiter está também, / A astrônoma assegura, / Desde sua elevada altura / Mostrando sua claridade, / Gira em velocidade / Numa desigual corrida; / Quando a nuvem leve / O escurece, fica errante, / Mas marcha para adiante / Para dar a volta inteira.</td>
								<td align="left">Júpiter vem na lição, / A astrônoma é que assegura, / Desde sua elevada altura / Nos mostrando a claridade, / Vai e gira em velocidade / Numa desigual carreira; / E se vê nuvem ligeira / Escurece e fica errante, / Mas marcha para adiante / Para dar a volta inteira.</td>
							</tr>
							<tr>
								<td align="left"><italic>Al fin, Saturno, diré / En la pájina brillante / Es el que está mas distante / Como aquí lo esplicaré. / Esta es la razón por qué / A los anillos, en verdá, / Desde mucha antigüedá / La noche con su capus / Les da quince años de luz / I quince de oscuridá.</italic></td>
								<td align="left">No final, Saturno, direi / Na página brilhante / É o que está mais distante / Como aqui o explicarei. / Esta é a razão pela qual / Os anéis, na verdade, / Desde muita antiguidade / A noite com capuz / Lhe dá quinze anos de luz / E quinze de escuridão.</td>
								<td align="left">Com Saturno findarei / Pro cordel ficar brilhante, / É o planeta mais distante / Como aqui te explicarei. / Dentre as lições que ensinei / Seus anéis são de verdade, / Desde a velha antiguidade, / Lhes desce a noite um capuz, / Lhes dá quinze anos de luz / E quinze sem claridade.</td>
							</tr>
						</tbody>
					</table>
				</table-wrap>
			</p>
			<p>“Versos de Astronomia” encontra-se nas páginas 14 a 16 da referida publicação de Rosa <xref ref-type="bibr" rid="B2">Araneda (Araneda, 1895</xref>) e compõe-se de uma quadra (mote) e de cinco décimas. Tendo em vista a sua estrutura, se filia a uma tradição poética que remete à lírica maneirista e barroca da Península Ibérica do final do século XVI, e que, por sua vez, advém da poesia trovadoresca da Baixa Idade Média:</p>
			<disp-quote>
				<p>A poesia ao gosto tradicional, em redondilho maior ou menor, abrange uma grande variedade de formas. Aparecem cantigas, vilancetes, glosas, esparsas, endechas, décimas, quintilhas, dísticos, quadras, romances. (...). Algumas destas formas poéticas, provindas do século XV, não sobrevivem ao período maneirista: estão neste caso as cantigas, as esparsas e os vilancetes. As glosas, as décimas e os romances, pelo contrário, hã-de proliferar exuberantemente no período barroco. (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar, 1971</xref>, pp. 387-388)</p>
			</disp-quote>
			<p>O professor Vítor Manuel Pires de Aguiar e Silva, em seu livro <italic>Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa</italic>, trata da poesia lírica de Portugal, no entanto, as <italic>décimas</italic> e as <italic>glosas</italic> alcançaram o Barroco gongórico, mas não só, atravessaram o Atlântico e se estabeleceram como formas residuais da poesia improvisada e escrita da América Latina. As <italic>décimas</italic> mantêm a sua estrutura na totalidade dos países latinos e se prestam ao canto, à dança e à poesia escrita, participando como modelo poético de expressões culturais diversas: no México, integra o estilo musical folclórico “Son Jarocho”; no Panamá, a poesia cantada com acompanhamento de cordas, “La mejorana”; na Venezuela, a música típica chamada “galerón”, de décimas improvisadas; a “payada” ou “pajada” na Argentina e no Uruguai; “repentismo” em Cuba e “décima peruana” no Peru etc. No Brasil, os repentistas do Nordeste praticam décimas improvisadas ou fazem canções neste formato, bem como a própria literatura de cordel as escreve, como no exemplo a seguir da cordelista cearense Terezinha Feijão em cordel ainda inédito:</p>
			<verse-group>
				<verse-line><italic>Dezenove anos de idade (A)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Decidi então me casar (B)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Continuei a morar (B)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Na mesma comunidade (A)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Grande foi a felicidade (A)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Quando eu mãe me tornei (C)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Tive seis filhos e criei (C)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Quatro meninas e um menino (D)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>E por ordem do destino (D)</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Nesses mesmos encerrei. (C)</italic></verse-line>
				<verse-line>(Feijão, 2023)</verse-line>
			</verse-group>
			<p>Da mesma forma, como exemplo, reproduz-se aqui uma das <italic>Décimas - autobiografia en verso</italic> (Chile, 1970) de Violeta Parra que, assim como os versos autobiográficos da cearense Teresinha Feijão, optou pela décima para falar de si:</p>
			<verse-group>
				<verse-line><italic>Pa’ cantar de un improviso</italic> (A)</verse-line>
				<verse-line><italic>se requiere buen talento,</italic> (B)</verse-line>
				<verse-line><italic>memoria y entendimiento,</italic> (B)</verse-line>
				<verse-line><italic>fuerza de gallo castizo.</italic> (A)</verse-line>
				<verse-line><italic>Cual vendaval de granizos</italic> (A)</verse-line>
				<verse-line><italic>han de florear los vocablos,</italic> (C)</verse-line>
				<verse-line><italic>se ha de asombrar hast’el diablo</italic> (C)</verse-line>
				<verse-line><italic>con muchas bellas razones,</italic> (D)</verse-line>
				<verse-line><italic>como en las conversaciones</italic> (D)</verse-line>
				<verse-line><italic>entre San Peiro y San Paulo.</italic> (C)</verse-line>
				<verse-line>(Parra, 1998, p.23)</verse-line>
			</verse-group>
			<p>O esquema de rimas não se afasta da matriz de origem Ibérica (ABBAACCDDC), nem dos versos de sete sílabas poéticas, equivalente às oito sílabas na versificação hispânica. Um dos exemplos mais famosos de décima em Língua Portuguesa é o poema “Sôbolos Rios”, conhecido pelo nome de “Super Flumina”, de Luís de Camões; de igual prestígio temos as décimas de Luis de Góngora, inclusive em suas obras dramáticas. De modo que esta unidade formal está presente na América Latina, no Caribe e na Península Ibérica. Na tradição mais hispânica costuma-se atribuir a Vicente Espinel a consolidação deste tipo estrófico:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>La forma poética usada en la Lira Popular, y que hasta hoy dia cultivan los poetas populares, fue la décima, conocida como “espinela” por el poeta español Vicente Espinel (1550-1642) quien le dio forma, aun cuando la décima octosílaba y se venia practicando desde mucho antes</italic> (Navarrete A., 2003, p. 11).</p>
			</disp-quote>
			<p>“Versos de Astronomía” se apresenta como décimas que obedecem a um mote de quatro versos, emparelha-se, dentro do contexto da poesia popular do Nordeste, com o canto improvisado “mote em dez pés” ou simplesmente “glosa”, e é nesta regra poética, extraída da oratura e impressa nos cordéis, que a T2 mirou seu resultado<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>.</p>
			<p>A <italic>glosa</italic> integra mais uma das formas da lírica maneirista e barroca, é resquício de oralidade sedimentada em poemas impressos, por isto afirmar que a tradução aqui realizada transita entre a cultura oral e a cultura escrita. Rosa Araneda escolheu - e na <italic>glosa</italic> esta decisão é discricionária ao poeta (Spina, 2003) - glosar os versos da quadra um a um, dispondo-os sequencialmente no fim de cada estrofe. A T2 procurou cumprir as necessidades impostas pela escolha, pois a retomada literal dos versos resulta em consequências formais a todo o poema, já a tradução mais próxima ao texto de Araneda cumpriu outra função, a de preservar o quanto possível o significado das palavras e a sintaxe dos versos. Esta consideração inicial explica as inversões sintáticas, as inserções de palavras, as elisões, as variações de sentido correntes na segunda tradução e, por outro lado, as ausências ocasionais de rima e certo relaxamento da métrica na primeira (T1). Não se trata de purismo ou capricho formal, pois o desvio da forma, neste caso, representaria um deslocamento da própria cultura da Lira Popular aqui traduzida e a do Cordel, ou seja, os aspectos formais, numa proporção dialética entre fundo e forma, oralidade e escrita, enlaçam as duas culturas.</p>
			<p>Na tradução de poemas glosados, o <italic>mote</italic>, de fato, deve ganhar atenção especial, pois é ele quem define o tema, as terminações das rimas, o campo semântico, a intenção e a orientação do texto. O <italic>mote</italic> de “Versos de Astronomia” aparece em forma de pergunta: “<italic>Díceme ¿qué movimiento/ Saturno tiene en su esfera,/ Cuánto tiempo se demora/ Para dar la vuelta entera?</italic>”. Esta quadra se assemelha às provocações típicas das <italic>pelejas</italic> e <italic>contrapuntos</italic>, reforçando ainda mais a sua dimensão oral. Gera-se naturalmente uma expectativa de que a questão sobre o movimento de Saturno seja respondida ao fim. A leitora ou leitor, no entanto, deve aguardar um pouquinho até que se repitam um a um os versos da quadra no fim de cada décima, para só assim vê-la respondida na quinta e derradeira estrofe. Noutro plano, a efetiva resposta equivale a saber se a poeta venceu ou não o desafio proposto, mas até lá, pacientemente, ela aproveita para versar sobre outros corpos celestes: a Lua, Mercúrio, Vênus e Júpiter.</p>
			<p>Curioso notar que o tema da Astronomia (às vezes confundido com Astrologia) compreende parte da formação dos poetas populares. Na cantoria nordestina, as cantadeiras e os cantadores nordestinos consultavam o Evangelho, bem como outras matérias que constituíam as disciplinas de uma verdadeira “escola da cantoria”. Os poetas estudavam um livro de geografia, um atlas, um livro de anatomia humana, uma antologia de perguntas e respostas, uma gramática, uma história antiga e uma história do Brasil; conhecimentos indispensáveis para responder ou provocar o adversário com temas retirados do domínio destes saberes. Na Lira Popular chilena, o tema da Astronomia perpassa um bom número de poemas, a dar indícios de que uma cultura escrita de fato integrava a profissionalização dos poetas.</p>
			<p>Neste sentido, uma referência corrente em toda a América Latina era o almanaque <italic>Lunário Perpetuo</italic> (1594), compilado por Jerónimo Cortés, matemático, astrônomo e naturalista valenciano. O <italic>Lunário Perpetuo</italic> foi muito lido e serviu de guia para o plantio, a colheita, os usos e os costumes do cotidiano do mundo rural através de inferências matemáticas e astronômicas segundo ciência da época renascentista. A poesia popular encontrou nesta fonte temas para os desafios. Assim sendo, “Versos de Astronomia” se avizinha da peleja, do desafio, do repente, da disputa, do jogo de perguntas e respostas, das modalidades, de uma poesia dialogada e improvisada, como se o poema de Araneda fosse apenas um fragmento ou capítulo de um <italic>romance</italic> ou <italic>rimance</italic> que conta a história desta disputa, o que nos permite trazer aqui um ciclo temático dos contos populares, de heroínas que são desafiadas por sábios para manter sua honra ou escapar de situações difíceis e embaraçosas, na linha de Sherazade ou, para ficarmos no repertório ibérico, na linha da Donzela Teodora:</p>
			<disp-quote>
				<p>Há nos contos populares o tipo de moça inteligente e viva que burla o Rei e engana o ladrão, evitando ciladas, castigando erros, respondendo aos enigmas e casando bem. Neste ciclo, europeu, africano, asiático e americano (de origem européia), a heroína salva o pai, defende as irmãs, guarda castidade e conquista o noivo por um encadeado de peripécias e situações curiosas. (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cascudo, 1979</xref>, p. 51)</p>
			</disp-quote>
			<p>Segunda ainda Câmara Cascudo, a Donzela Teodora se enfileira a este tipo de personagem quando responde aos sábios do Rei, decifrando adivinhas, enigmas e outras questões difíceis sobre astrologia judiciária e médica. A Donzela vai-se desvencilhando das perguntas dos Sábios com maestria e por isto obtém vantagens para o Duque, seu amo, que havia perdido toda a fortuna num momento anterior. O conto da Donzela Teodora teve uma versão em cordel, escrita pelo autor paraibano Leandro Gomes de Barros. Interessa-nos aqui o momento que a Donzela responde ao astrônomo que lhe indaga:</p>
			<verse-group>
				<verse-line><italic>O rei mandou chamar logo</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Um grande sábio que havia</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>O instrutor da cidade</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Em física e astronomia</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Em matemática e retórica</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>História e filosofia.</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Êsse vei e perguntou-lhe</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Donzela estais preparada</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Para responder-me tudo</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Não titubía em nada?</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Se não estiver seja franca</italic></verse-line>
				<verse-line><italic>Senão sai envergonhada.</italic></verse-line>
			</verse-group>
			<p>O que se ouve a seguir é um resumo correlacionando os signos do zodíaco com o destino e o caráter dos homens que nascem no mês regido por este ou por aquele ascendente. Ora, a resposta da Donzela é calcada nos preceitos do <italic>Lunário Perpétuo</italic>, como se fosse uma adaptação das lições do almanaque em versos populares<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref>. O que se vê, novamente, é que a poesia popular transita entre saberes da cultura escrita e oral. Por comparação, se não se pode afirmar que Rosa Araneda leu ou se utilizou do <italic>Lunário Perpétuo</italic> (provavelmente não para “Versos de Astronomia”) para escrever os versos aqui traduzidos, não é inverossímil que a autora tenha consultado bibliografia específica, manuais, livros, almanaques, jornais ou conversado com algum astrônomo do local, mesmo porque, como se verá mais à frente, ela se utilizou de categoria técnica da Astronomia ao falar do movimento de Mercúrio. A escolha em traduzir o poema “Versos de Astronomia” para o cordel se legitima ainda mais quando consideramos que sua temática e exposição filia-se ao universo das histórias maravilhosas dos romances de cordel como a <italic>História da Donzela Teodora</italic>.</p>
			<p>Ao situar assim o poema com atenção especial ao mote, o título traduzido foi definido para acentuar o caráter didático sugerido pela quadra, daí ter ganhado a forma final “Lições de Astronomia”. Partindo agora para o mote propriamente, a tradução poética enfrentou de início uma dificuldade no segundo e no quarto verso da quadra/mote, versos que rimam entre si em castelhano: “<italic>Saturno tiene en su esfera</italic> (v. 02)/ <italic>Para dar la vuelta entera?</italic> (v. 04) mas não em português; em português, apenas provocam leve assonância, “esfera” e “inteira”, como está evidenciada na T1. Como a tradução empreendida aqui é voltada à cultura popular do Nordeste brasileiro, a solução encontrada foi traduzir “Que Saturno tem em sua esfera,” por “Saturno traz na moleira,” resolvendo assim a rima em “-eira” e aproximando o poema do léxico de certas expressões idiomáticas do Brasil: “botar sal na moleira”, que significa grande preocupação; “sol na moleira”, “levar sol na moleira”, indicativo de quem trabalha muito e teve que enfrentar calor excessivo sem proteção, podendo resultar em loucura ou doença. “Moleira” surge aqui com o seguinte significado: “[De mole + -eira.] Sf. 1. Fontanela. 2. P. ext. A abóbada do crânio” (Dicionário Aurélio). “Moleira” no sentido de “cocuruto” ou “topo da cabeça”, que nas crianças de colo ainda não está completamente fechada. Como se trata de movimento de translação e rotação dos planetas, girando no próprio eixo e em torno do Sol, a escolha por “moleira” mostrou-se satisfatória.</p>
			<p>Como procedimento, a versão final do mote só se estabeleceu após já termos iniciado a tradução das estrofes, daí também se mostrou de suma importância a tradução mais próxima do texto, por dirimir dúvidas quanto ao campo semântico que se deve circunscrever mesmo diante das exigências formais do verso.</p>
			<p>O início da primeira décima apresenta problema semelhante ao que encontramos na quadra: versos que rimam em castelhano, mas não em português. Este é um problema costumeiro em trabalhos de tradução poética, a novidade é aproveitar a mudança de rima para escolher palavras que trazem referências da cultura popular do Nordeste, como nos versos: “<italic>A preguntar sin teson,/Dame tu contestación</italic>”, “Perguntando sem emoção,/ Me dê tua resposta” (T1), que ficou: “pergunto sem me afobar,/ Quero ver desafiar,” (T2). Se por um lado, como falamos, o mote se parece com um ditado escolar, o desenrolar das décimas desenvolve o assunto no tom dos desafios poéticos, pois há implícito um destinatário hipotético, um contentor, que é provocado constantemente nas estrofes. Esta estratégia de provocar o adversário é o próprio <italic>modus operandi</italic> da cantoria dialogada, do <italic>contrapunto</italic>, atiçada por certa “bazófia” que se soma à provocação direta e que no fundo está a mirar a audiência da cantoria que, em última instância, com aplausos ou vaias, julga a querela poética. No original, “teson” e “contestación” já informam este intuito contencioso do poema, porém, na segunda tradução, procuramos inclinar ainda mais a este contexto ao escolher as palavras “afobar” e “desafiar”. “pergunto sem me afobar,/ Quero ver desafiar,” resume respectivamente a “bazófia” da cantadora e a provocação.</p>
			<p>Mantendo a atenção ao tema do poema e a seu caráter didático, o desafio para a tradução da palavra “derrotación” no texto fonte, fez emergir a necessidade de pesquisar o aspecto semântico dessa palavra em um poema da Lira Popular que remete a astronomia publicado no século XIX. A opção por “derrotação” no idioma português sinaliza e indica movimento, mudança de rumo. Movimento que podemos relacionar ao processo de construir um projeto de tradução e da própria tarefa de tradução. “Derrotar” é uma palavra com origem no idioma francês “<italic>déroute</italic>”, na navegação tem o sentido de rota, na astronomia remete ao percurso dos astros. No castelhano podemos relacionar com a palavra: “<italic>derrotero”</italic><xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref> que no verbete da Real Academia Espanhola remete ao caminho para chegar ao fim proposto.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>A tradução aqui comentada procurou equilibrar-se entre duas tradições da poesia popular da América Latina que apresentam muitos pontos em comum. Estas similitudes abrangem aspectos linguísticos, poéticos e culturais que se manifestaram à medida que se materializava a edição do folheto, o que evidencia que os meios em que se realiza a recepção da poesia popular, seja ela oral ou impressa, são definidores do processo tradutório. A materialidade entra como elemento determinante deste tipo de tradução, uma vez que o trabalho por trás da veiculação da poesia popular, o trabalho gráfico ou do recitador, por exemplo, deixam vestígios no texto que devem igualmente transparecer na versão traduzida.</p>
			<p>Neste sentido, o comentário da tradução privilegiou aspectos culturais que permeiam a materialidade da Lira Popular do Chile e da literatura de cordel brasileira, avançando sobre pontos aparentemente marginais ao ofício do tradutor: soluções gráficas; objetivos editoriais; diretrizes para ilustração e designer; estratégias de circulação do impresso (feiras, minicursos, oficinas, podcast, lojas <italic>online</italic> etc); entremeados com discussões mais clássicas e corriqueiras de um trabalho de tradução de poesia, mas mesmo aí explorando as dimensões da oralidade e da escrita bem específicas do objeto.</p>
			<p>A leitura compartilhada de um poema de Rosa Araneda exigiu, portanto, o estudo da forma poética e dos processos de edição do século XIX no Chile e no Brasil, atualizando o debate em confronto com a contemporaneidade e suas técnicas de impressão e circulação.</p>
			<p>Apresentar versos de Rosa Araneda em duas diferentes traduções coloca em evidência a diversidade cultural que emerge ao se trabalhar com dois idiomas e contextos de enunciação com muitas proximidades. Todavia, mediante o estudo da linguagem e texto poético se construiu um projeto de tradução que esteve atento ao heterogêneo das duas línguas e do gênero poético Lira Popular e cordel. Todos os comentários da tradução descrevem os processos de leitura que consideramos caros para a tarefa de traduzir.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências bibliográficas</title>
			<ref id="B1">
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						<name>
							<surname>Aguiar e Silva</surname>
							<given-names>Vítor Manuel Pires de</given-names>
						</name>
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					<source>Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa</source>
					<publisher-name>Centro de Estudos Românicos</publisher-name>
					<publisher-loc>Coimbra</publisher-loc>
					<year>1971</year>
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			<ref id="B2">
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							<surname>Araneda</surname>
							<given-names>Rosa</given-names>
						</name>
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					<source>El cantor de los cantores: poesías populares: libro quinto/ por Rosa Araneda</source>
					<publisher-loc>Santiago de Chile</publisher-loc>
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					<source>Versos de Astronomia</source>
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					<source>Cinco Livros do Povo</source>
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					<publisher-name>Editora Universitária UFPb</publisher-name>
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					<source>Ritmo, Historicidade e uma teoria crítica de linguagem</source>
					<year>2022</year>
					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://letra.fflch.usp.br/sites/letra.fflch.usp.br/files/inline-files/henri_meschonnic_ebook_8_06_.pdf">https://letra.fflch.usp.br/sites/letra.fflch.usp.br/files/inline-files/henri_meschonnic_ebook_8_06_.pdf</ext-link>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B10">
				<mixed-citation>Navarrete Araya, Micaela. La lira popular, Literatura de cordel en Chile. In: LENZ, Rodolfo. <italic>Sobre la poesia popular impresa de Santiago de Chile Siglo XIX</italic>. Santiago de Chile: Centro Cultural de España, 2023.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>Navarrete Araya</surname>
							<given-names>Micaela</given-names>
						</name>
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					<chapter-title>La lira popular, Literatura de cordel en Chile</chapter-title>
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							<surname>LENZ</surname>
							<given-names>Rodolfo</given-names>
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					<source>Sobre la poesia popular impresa de Santiago de Chile Siglo XIX</source>
					<publisher-loc>Santiago de Chile</publisher-loc>
					<publisher-name>Centro Cultural de España</publisher-name>
					<year>2023</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B11">
				<mixed-citation>Perrone Moisés, Leila. <italic>Mutações da literatura no século XXI</italic>. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>Perrone Moisés</surname>
							<given-names>Leila</given-names>
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					<source>Mutações da literatura no século XXI</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
					<year>2016</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B12">
				<mixed-citation>Santos, Francisca Pereira dos. Cantadoras e Repentistas do Século XIX: a construção de um universo feminino. dossiê: poéticas da oralidade <italic>Estud. Lit. Bras. Contemp</italic>. (35). Jan-Jun. 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2316-40183515.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>Santos</surname>
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					<article-title>Cantadoras e Repentistas do Século XIX: a construção de um universo feminino</article-title>
					<comment>dossiê: poéticas da oralidade</comment>
					<source>Estud. Lit. Bras. Contemp</source>
					<issue>35</issue>
					<year>2010</year>
					<pub-id pub-id-type="doi">10.1590/2316-40183515</pub-id>
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			<ref id="B13">
				<mixed-citation>Sobrinho, José Alves. <italic>Cantadores, Repentistas e Poetas Populares</italic>. Campina Grande: Bagagem, 2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>Sobrinho</surname>
							<given-names>José Alves</given-names>
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					<source>Cantadores, Repentistas e Poetas Populares</source>
					<publisher-loc>Campina Grande</publisher-loc>
					<publisher-name>Bagagem</publisher-name>
					<year>2003</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B14">
				<mixed-citation>Tala Ruiz, Pamela. La construcción de la identidad nacional en la lira popular: los versos de Rosa Araneda. Santiago: <italic>Revista Chilena de Literatura</italic>, n. 58, p. 95-116, 2001.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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							<surname>Tala Ruiz</surname>
							<given-names>Pamela</given-names>
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					<article-title>La construcción de la identidad nacional en la lira popular: los versos de Rosa Araneda</article-title>
					<publisher-loc>Santiago</publisher-loc>
					<source>Revista Chilena de Literatura</source>
					<issue>58</issue>
					<fpage>95</fpage>
					<lpage>116</lpage>
					<year>2001</year>
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		</ref-list>
        <fn-group>
		<fn fn-type="other" id="fn1">
			<label>1</label>
			<p>Não consta no Index Translation da Unesco referência a trabalhos de tradução da obra de Rosa Araneda. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.unesco.org/xtrans/bsform.aspx">https://www.unesco.org/xtrans/bsform.aspx</ext-link>. Temos no âmbito acadêmico brasileiro a tese <italic>Literatura e identidad: un estudio comparativo entre la lira popular chilena y la literatura de cordel brasileña</italic> (2021) de Anderson Morales Velloso que dedicou atenção a obra de quatro poetas da lira popular: Bernardino Guajardo (1810-1865), Nicasio García (1829-), Abraham Jesús Brito (1874-1945).</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn2">
			<label>2</label>
			<p>No site da Unesco são apontados os dois arquivos físicos da Lira Popular no Chile: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.unesco.org/es/memory-world/collections-printed-chilean-popular-poetry-lira-popular">https://www.unesco.org/es/memory-world/collections-printed-chilean-popular-poetry-lira-popular</ext-link>
			</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn3">
			<label>3</label>
			<p>Rosa Araneda foi a escolhida para dar início à “Colección de Documentos del Folklore”, a partir do acervo da Lira Popular que está sob a guarda da Biblioteca Nacional do Chile. Trata-se de quatro alentados volumes com a poesia dos poetas: Rosa Araneda (1998, Volume I); Juan Bautista Peralta (2006, Volume II); Daniel Meneses (2008, Volume III), por sinal esposo de Rosa Araneda, e os desafios (<italic>contrapunto</italic>) de Nicasio García e Adolfo Reys (2011, Volume IV). A coleção esteve a cargo da professora Micaela Navarrete A. e dos professores Tomás Cornejo C., Daniel Palma A. e Karen Donoso F.</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn4">
			<label>4</label>
			<p>Artista visual, ilustrador e gravador (linoleogravura). Já ilustrou diversas capas de cordéis pela Aluá Editora e publicou suas ilustrações em revistas acadêmicas. Possui trabalhos expostos em equipamentos de cultura do Estado do Ceará e tem experiência como formador das áreas da literatura popular e da gravura. Atualmente, é Diretor de Arte na Aluá Editora.</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn5">
			<label>5</label>
			<p>“Essas vozes femininas “descobertas” e/ou “achadas” em lugares caracterizados como exclusivamente “de homem” ecoam e aparecem na historiografia de variadas maneiras, seja através do imaginário dos poetas - onde elas aparecem como protagonistas nas pelejas criadas por cordelistas -, seja através das representações das imagens dessas mulheres encontradas nas capas de folhetos de duelo e álbuns de gravuras. Nesse sentido, a constatação de que existiram diversas mulheres cantando e duelando no contexto da cantoria e do repente nordestino obriga a rever tanto um discurso construído que negou essas mulheres de serem representadas na cultura brasileira como aquele que as impediu de constar na historiografia como narradoras e construtoras do campo da cantoria. Deixadas de fora da história, as mulheres repentistas e cantadoras, assim como as escritoras romancistas do século XIX, conforme nos diz Rita Terezinha Schmidt (2001), também foram excluídas de comporem a memória social e cultural da nação”. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Santos, 2010</xref>, p. 208).</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn6">
			<label>6</label>
			<p>O folheto digital pode ser adquirido no link: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://l1nk.dev/sT0ux">https://l1nk.dev/sT0ux</ext-link> A publicação em e-book traz a seguinte sinopse: <italic>“Versos de Astronomía” es un poema de la poeta y cronista chilena Rosa Araneda (c.1850 -c. 1894). La autora es una de las principales referencias de la Lira Popular chilena, expresión poética en formato de impresos sueltos que circularon masivamente en los principales centros urbanos de Chile entre fines del siglo XIX y las primeras</italic> décadas <italic>del XX. El poema “Versos de Astronomía”, en esta edición, fue traducido del castellano al portugués en dos versiones: una traducción</italic> más <italic>cercana al texto original, que busca una aproximación con el texto fuente, realizada por la profesora Mary Anne Warken, y una transcreación para cordel, por el poeta y profesor Rodrigo Marques. El poema de Araneda trata sobre los movimientos de cuerpos celestes como la Luna, Mercurio, Júpiter y Venus, revelando una concepción del Sistema Solar a finales del siglo XIX. Esta publicación también cuenta con ilustración del artista visual Silva Berros, creador de más de cincuenta portadas de cordeles para Aluá Editora. Una publicación magníficamente editada que une tradiciones populares latinoamericanas: la Lira Popular, el Cordel y las Cantorias del Nordeste brasileño.</italic></p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn7">
			<label>7</label>
			<p>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-96875.html">http://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-96875.html</ext-link>
			</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn8">
			<label>8</label>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B13">Sobrinho (2003)</xref>, a glosa é uma “Estrofe setissilábica de dez pés que obedece a um mote de um ou mais pés”. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Sobrinho, 2003</xref>, p. 49); os motes podem ser de um, dois, três ou quatro versos.</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn9">
			<label>9</label>
			<p>Diz Cascudo: “Essa ciência do LUNÁRIO PERPÉTUO, reunião de tôdas as crendices astrológicas e tradições populares sôbre a vida rural, conservava os mesmos elementos vivos no Oriente e inseparáveis dos folhetos de informação agrícola, anônima, cabalística e secular. A página do SÊCAS CONTRA A SÊCA evidencia a existência na primeira década do século XX dos preceitos registados (sic) na DONZELA TEODORA e no MIL E UMA NOITE” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Cascudo, 1979</xref>, p. 62).</p>
		</fn>
		<fn fn-type="other" id="fn10">
			<label>10</label>
			<p>Real Academia Espanhola: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://dle.rae.es/derrotero">https://dle.rae.es/derrotero</ext-link>
			</p>
		</fn>
        </fn-group>
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