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                <article-title>Só que não. Sobre <italic>Poesia Língua Franca – Antologia</italic>. Malha Fina Cartonera, 2016</article-title>
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                <institution content-type="orgname">Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Universidade Federal de São Paulo</institution>
                <institution content-type="original">Doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Escritora e professora de Teoria Literária na Universidade Federal de São Paulo. Publicou, entre outros, Mar azul (Rocco, 2012, romance); Três peças (Dobra, 2014, peças); Durante e Dois (7Letras, 2015, poemas do blog “Lugares onde eu não estou”: www.escritosgeograficos. blogspot.com); Dupla exposição (Rocco, 2016, contos com imagens de Elisa Pessoa). É editora da revista Grumo (www.salagrumo.com) e da coleção Entrecríticas (editora Rocco), de ensaios de crítica contemporânea.</institution>
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                <chapter-title>Só que não</chapter-title>
                <source>Sobre Poesia Língua Franca – Antologia</source>
                <publisher-name>Malha Fina Cartonera</publisher-name>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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        <p>Acompanhei, de longe, os preparativos do II Encontro Internacional de Poesia Hispano-americana. Nele seria lançada a antologia <italic>Poesia Língua Franca</italic>, que agora resenho, com poemas de alguns dos participantes. Estava longe de São Paulo enquanto o encontro e a antologia eram preparados. O encontro não aconteceu, a antologia está aqui, entre minhas mãos: uma edição da Malha Fina Cartonera (<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://malhafinacartonera.wordpress.com">https://malhafinacartonera.wordpress.com</ext-link>), cuidadosamente encadernada – no meu exemplar, com linha amarela e papelão pintado em diversos tons de verde. A editora é dirigida por Idalia Morejón Arnaiz e coordenada por Tatiana Faria, que assinam também, juntas, várias das traduções do volume. Ellen Maria Vasconcellos, Pacelli Dias Alves de Sousa e Chayenne Mubarack assinam as demais. Todos fazem parte da equipe de trabalho da editora, que surgiu em 2014, em busca de um modo não convencional e autônomo de fazer circular o texto literário no espaço universitário, e para além dele, mobilizando alunos e professores.</p>
        <p>Não são detalhes o que trago nesta breve apresentação. Pelo contrário, me parecem signo das nossas circunstâncias neste ano de 2016 que, enquanto escrevo, vai acabando. O encontro não aconteceu, falando muito diretamente, por falta de financiamento. Seria a segunda edição, sendo que a primeira foi realizada em 2012 e contou com a participação, entre outros, dos poetas e ensaístas Tamara Kamenszain e Fabio Morábito. Os poemas que lemos na antologia, como disse, são de alguns dos convidados do encontro, de cantos diversos da América Latina, que, com o seu cancelamento, não puderam viajar. Viajaram, felizmente, os poemas, por meio da tradução e da edição, e assim chegam até nós.</p>
        <p>Gostaria de começar pelo final, com um poema longo de Silvio Mattoni (Córdoba, Argentina, 1969). Em seu “Dias paulistas”, a viagem a São Paulo acontece; acontece o encontro com os alunos e com a “selva do campus”; e acontece o encontro dos alunos com poetas, lidos por Mattoni, que falam “da morte, da infância, da paisagem”. E assim, propondo-se a “escrever um poema leve, descuidado”, Mattoni, sem saber, lê também outros poemas do volume, pois a infância se toca com a morte, por exemplo, quando em “Ofício de guardião”, de Jacqueline Goldberg (Maracaibo, Venezuela, 1966) – poeta que na outra ponta do livro abre a antologia –, um filho, recém­chegado de uma “viagem pelas marismas do sul”, terá que se enfrentar ao real: “sua tartaruga morreu”. À mãe, que fala, com ironia, no poema, cabe explicar por que ela não pode ser senão uma débil “guardiã de outro porvir”.</p>
        <p>Povoam o livro mães, pais e filhos, num fio delicado que comunica a herança com a vida e com a morte, como no poema de Diana Bellessi “O Malho”: as frases da infância, num café frequentado com o pai, ressoam na velhice, trazendo de volta “um sabor de aventura antiga”, dando “vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo”. Vem da infância também “Paisagens”, em que um caminhão azul que passa por uma rua poeirenta do povoado de Zavalla – na província de Santa Fé, Argentina, onde nasceu a poeta – nos transporta aos distantes mares do Índico.</p>
        <p>São as heranças que insistem, por caminhos tortuosos e até cômicos, como os da pizza Marguerita, que aparece num poema de Edgardo Dobry (Rosario, Argentina, 1962). Aqui a companhia infantil toma conta dos textos, deslocando por momentos a melancolia: “Depois, fazendo fumacinha do hálito,/ Luca emite um murmúrio sobre/ a evolução dos Pokemons”. A conversa entre pai e filho é meio desencontrada, mas persistente: “levo um menino pela mão”, conclui a voz que fala no poema. De encontros e desencontros se faz também “O que não me ensinou minha mãe”, poema em 18 fragmentos de Irina Garbatzky (Rosario, Argentina, 1980), em que se fala das possibilidades e impossibilidades da transmissão, que torna possível, em última instância, a escrita e o amor: “Quando deixei de ser mais velha/ desmontei uma casa/ desmontei outra casa/ e me sentei ao lado de um homem”.</p>
        <p>Quando é de mães e filhas que se fala, o corpo se faz muito presente. Em “Ossinhos”, também de Irina, lemos: “sentada na fila do médico/ toco os meus ossinhos/ reconheço minha mãe em alguns deles”. É essa aproximação dos corpos que se dá em “Outra beleza”, da também <italic>rosarina</italic> Sonia Scarabelli (1968). Talvez não haja nada tão estranhamente familiar do que o corpo materno, e mais ainda, quiçá, quando uma mulher reconhece, diante da mãe, seu próprio corpo que envelhece. Diz o poema de Scarabelli: “Mãe, agora eu tenho outra idade/ e encontro em mim uma beleza diferente,/ algo que não vem nem da noite nem do dia,/ uma maneira de ser do corpo que se cai: a carne vai se despedindo dos ossos/ (isso que ainda não se percebe),/ amolece e dá um medo/ parecido à verdade”.</p>
        <p>O poeta envelhece também em “Memória (ou cânone) do perdedor”, do cubano Jorge Luis Arcos (La Habana, 1956): escrever, diante disso, é fazer da derrota força motriz, do esquecimento um modo de recordar, que sustenta um olhar jovem mesmo quando o corpo decai. “Todo um livro aberto/ em passagens de tinta,/ nas coxas e no ventre”, diz um dos poemas do também cubano Néstor Díaz de Villegas (Cumanayagua, 1956), “Baixa Moisés”. Já aqui, o corpo que se descortina é como a própria carne do poema – poema­tatuagem, letra que deixa uma marca, como um beliscão; som que escorre entre os lábios, como uma baba.</p>
        <p>O corpo é superfície nos poemas de Ana Porrúa (Comodoro Rivadavia, Argentina, 1962) – pele, como diz o título do livro ainda inédito. É a pele do animal, que nos atrai e nos enamora, e também se descola de nós, quando na lida cotidiana, quem sabe a manuseamos mecanicamente. Mas não neste caso, pois a descrição minuciosa e afetiva do ato de despelar um frango, por exemplo, presentifica a textura, a resistência, o peso da matéria fronteiriça que já não pode ser observada como se nada estivesse acontecendo: “Despelar um frango morto é perder pé”.</p>
        <p>Gostaria de terminar com outro poema longo, de Carlos Ríos (Santa Teresita, Argentina, 1967), que em seus 31 tercetos, alternando repetidamente, como um irônico mantra do conformismo, “esperando sentado os benefícios” e “sentado esperando os benefícios” – “de outra exoneração”, “de voltar ao risco-país”, “de cortar pela raiz”, “de comprar uma bicicleta”, “de cuspir para cima”, “de cortar meu próprio cabelo”, “do mar no verão”, “de ser agregado cultural”, “de brincar com fogo”, “de comprar em cash”... – parece antecipar algo do que provavelmente se esperaria de nós diante dos descalabrados acontecimentos deste ano. Só que não.</p>
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