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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i25p831-859</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>VÁRIA</subject>
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				<article-title>Fardo civilizador e visões da barbárie: <italic>Mariluán,</italic> de Alberto Blest Gana, em seu tempo.</article-title>
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					<trans-title>Civilizing burden and visions of barbarism: Mariluán, by Alberto Blest Gana, in its time.</trans-title>
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						<surname>Verneck</surname>
						<given-names>Bruno</given-names>
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					<institution content-type="original">Universidade de São Paulo (USP). Contato: bruno.verneck@usp.br Brasil</institution>
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					<email>bruno.verneck@usp.br</email>
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			<author-notes>
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					<p>Bacharel (2019) e doutorando em Letras pela FFLCH-USP. Atua na investigação das relações entre cultura e política nas literaturas hispânicas dos séculos XVIII e XIX. Realizou estágios de pesquisa no Chile (PUC, 2018) e na Argentina (UNLP, 2022-2023).</p>
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			</author-notes>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>09</day>
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				<year>2023</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2023</year>
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			<issue>25</issue>
			<fpage>831</fpage>
			<lpage>859</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Publicado em 1862, <italic>Mariluán</italic>, de Alberto Blest Gana, vem despertando o interesse da crítica literária desde o estudo de John Ballard, no qual a considerou como uma “novela olvidada” na trajetória do prolífico narrador chileno. Nosso artigo busca inserir-se no debate sobre o livro ao indagar os sentidos do romance em um duplo movimento comparativo: por um lado, consideramos as relações entre o romance e as polêmicas sobre as campanhas militares na região da Araucanía, no Sul do Chile; além disso, visamos aproximar o texto de romances contemporâneos à sua publicação que tratam da questão indígena e tiveram melhor acolhida em seus respectivos países. O movimento busca reavaliar o singular tratamento conferido por Blest Gana às complexas discussões sobre a assimilação dos indígenas à sociedade <italic>criolla,</italic> sem aderir aos termos com que o debate se colocava quando escreveu <italic>Mariluán</italic>, tendo lhe conferido o subtítulo de “<italic>crónica contemporánea”</italic>.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>Published in 1862, Mariluán, by Alberto Blest Gana, has been arousing the interest of literary criticism since the study of John Ballard, in which he considered it as a “forgotten novel” in the trajectory of the prolific Chilean narrator. Our article seeks to insert itself into the debate about the book by investigating the meanings of the novel in two comparative movements: on the one hand, we consider the relationship between the novel and the polemics about the military campaigns in the Araucania region, in southern Chile; on the other hand, we aim to bring the text of novels published at the same period that deal with the indigenous issue and were better received in their respective countries. The movement seeks to re-evaluate the singular treatment Blest Gana gives to the complex discussions about indigenous assimilation to Creole society, without adhering to the terms in which the debate was installed at the moment he wrote the novel, which had as a subtitle “crónica contemporánea”.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>PALAVRAS-CHAVE:</title>
				<kwd>Alberto Blest Gana</kwd>
				<kwd>Mariluán</kwd>
				<kwd>Indigenismos</kwd>
				<kwd>Romance oitocentista</kwd>
				<kwd>História Chilena</kwd>
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				<title>KEYWORDS:</title>
				<kwd>Alberto Blest Gana</kwd>
				<kwd>Mariluán</kwd>
				<kwd>Indigenisms</kwd>
				<kwd>19th century novel</kwd>
				<kwd>Chilean History</kwd>
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		<p>O presente trabalho tem por objetivo analisar o romance <italic>Mariluán</italic> de Alberto Blest Gana, publicado como folhetim entre outubro e novembro de 1862 no jornal <italic>La voz de Chile</italic>. Nossa leitura, partindo da análise de passagens do romance, busca reconstituir as polêmicas sobre a inserção dos indígenas nos Estados Nacionais, em voga no contexto da escrita, a fim de analisar o modo singular como o autor chileno trata da assimilação dos indígenas, núcleo do enredo, e se inserir em um debate que, desde o estudo de John <xref ref-type="bibr" rid="B3">Ballard (1981</xref>), vem mobilizando diversas abordagens da crítica literária em torno ao romance, como é o caso dos trabalhos de Gilberto <xref ref-type="bibr" rid="B21">Triviños (2004</xref>), Álvaro <xref ref-type="bibr" rid="B16">Kaempfer (2006</xref>) e Laura <xref ref-type="bibr" rid="B13">Hosiasson (2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">2021</xref>).</p>
		<p>Para tanto, estabelecemos dois movimentos comparativos: o primeiro diz respeito às polêmicas sobre as campanhas conhecidas na historiografia como a Pacificação de Arauco. Este projeto, levado a cabo pelo Estado chileno entre 1860 e 1883 e liderado pelo general Cornelio Saavedra, objetivou invadir, fortificar e ocupar as terras ocupadas pelos indígenas mapuches na Araucanía, no sul do Chile. Para localizar as linhas de força das contradições que o debate sobre essas campanhas estabeleceu na sociedade chilena, mobilizamos um editorial de 1859 publicado em <italic>La revista católica</italic> e um discurso pronunciado pelo senador chileno Benjamin Vicuña Mackenna em 1868, a fim de contrapô-los à posição que o romance adota sobre a questão indígena na década de 1860, tema esse que o romancista já havia tratado em crônicas publicadas em 1862, mesmo ano em que escrevera <italic>Mariluán</italic>.</p>
		<p>Por outra parte, buscamos comparar a representação dos povos indígenas no romance blestganiano com outros dois romances que lhe sucederam e tiveram melhor acolhida em seus respectivos países: <italic>Iracema</italic>, do brasileiro José de Alencar, e <italic>Cumandá,</italic> do equatoriano Juan León Mera, publicados respectivamente em 1865 e 1877. Analisado em relação a estes outros textos, <italic>Mariluán,</italic> visto a partir das contradições de seu narrador, demonstra forte teor crítico ao problematizar a relação entre <italic>criollos</italic> e indígenas na fronteira da Araucanía. Nutrindo-se da zona de contato situada no espaço fronteiriço, o romance capta as contraditórias e aporéticas possibilidades da assimilação dos indígenas ao Estado Nacional.</p>
		<sec>
			<title>MARILUÁN: TRÁGICO GUERREIRO DA ZONA DE CONTATO</title>
			<p>O caráter honrado e os serviços prestados pelo protagonista indígena Fermín Mariluán não deixam nos <italic>criollos</italic> à sua volta sombra de dúvidas: trata-se de um guerreiro irrepreensível e útil à pátria, destes que povoam o imaginário chileno desde os cantos de Alonso de Ercilla. Tendo sido cedido na adolescência pela família indígena ao exército criollo, como parte de um acordo de paz, trata-se de um aculturado. No entanto, ele possui o empecilho de carregar consigo a marca que irá denunciá-lo sempre como um “outro”. Homem da fronteira, ao desfilar pelas ruas e tertúlias de Santiago, Mariluán é símbolo do acordo de paz entre civilizados e bárbaros, berço da pátria.</p>
			<p>O conflito do livro se dá justamente porque o jovem guerreiro mapuche não quer ser o “outro” que diz da piedade do homem branco pelo selvagem. Sua busca é por dissolver as fronteiras geográficas e simbólicas, casar-se com seu grande amor, a criolla Rosa Tudela, e deixar a “raça araucana” eternizada no passado colonial da épica americana, integrando os indígenas coevos à sociedade <italic>criolla</italic>.</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Uníase entonces el presente al pasado en el espíritu de Mariluán, que saludaba con alma reverente a las divinidades de los primeros años, juraba con orgullo la emancipación, por medio de la libertad y del trabajo civilizador, de la raza cuya sangre circulaba por sus venas, y en el fondo del corazón, dorada por los reflejos del amor, brillaba la imagen de Rosa como luz reservada para iluminar la siempre fantástica dicha del porvenir. En el suelo que le había visto nacer, con las palpitaciones del corazón producidas por el reciente combate, con la guerra en perspectiva y el amor venturoso en esperanza, Mariluán se sentía poderoso y feliz en aquel momento</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 187)</p>
			</disp-quote>
			<p>Esta passagem, que sucede a traição à Mariluán e o início dos conflitos na fronteira, marca a indissociabilidade do amor por Rosa e da liberdade de seu povo como objetivos para o protagonista. Uma vez a guerra iniciada, os anseios de plenitude do protagonista amalgamam os dois projetos, como se um fundamentasse e facilitasse o outro. A emancipação do povo araucano passa por uma visão singular de liberdade, lida como resultante de um “<italic>trabajo civilizador</italic>”. Tal contradição vai regendo as muitas outras contradições no romance: Mariluán quer uma guerra sem sangue; quer derrotar os <italic>criollos</italic> para juntar-se a eles; quer libertar seu povo para civilizá-lo. O desejo de conciliação entre <italic>criollos</italic> e indígenas marca a ideologia do protagonista.</p>
			<p>O narrador não economiza adjetivos para qualificar o brio “<italic>venturoso</italic>” e “<italic>poderoso</italic>” de seu herói de “<italic>altivo corazón</italic>”. Reforçando a honra e legitimidade de suas intenções, o final do livro aparece como um corte brutal do clima de aventura quase cavalheiresca do enredo. Entre o sonho, a utopia grandiloquente e a violência que sela o destino de Mariluán, Blest Gana constrói um abismo intransponível. Não à toa, o plano de libertação do herói é tão contraditório e improvável, uma vez que há uma ordem estabelecida, rígida e avessa à integração do indígena. As tensões e contradições do projeto enunciado atendem à necessidade prática de driblar as condições históricas objetivas.</p>
			<p>Cruel, o desenlace nega ao protagonista inclusive a bela morte: ele acaba apunhalado pelas costas por um semelhante quando parecia poder retomar as rédeas da missão. Não bastasse a brutalidade do golpe, ampliada pelo detalhamento do narrador, ele tem a cabeça exposta em praça pública num chocante momento de humilhação que denota a falência total da possibilidade de integração. Ele e Rosa, que acaba enlouquecendo, terminam punidos, eliminados pela ordem que tentaram infringir.</p>
			<p>No entanto, há algo ainda mais candente na beira do abismo, fruto do olhar arguto de Blest Gana. Para compreender a complexidade que o breve romance oferece, é necessário analisar com atenção as relações entre a figura de Mariluán e seus opositores.</p>
			<p>A descrição heroica do guerreiro vai contrastar com a de seu assassino, Peuquilén. Este é o índio bárbaro, pura pulsão, contraponto absoluto do indígena civilizado, cuja descrição radicalmente oposta serve de preparo para as duas ações finais - a morte e a exposição da cabeça - expressões máximas da selvageria que vai marcando a personalidade do araucano traidor.</p>
			<p>Se nos olhos de Mariluán brilha o orgulho da raça araucana, nos de Peuquilén brilha “<italic>un fuego sombrío</italic>”; se Mariluán é notável guerreiro por sua honra e capacidade de liderança, Peuquilén é notável pelos seus traços de crueldade; se o encontro inicial do primeiro com Rosa é um saudar de corações, da “<italic>infinita y desconocida región del amor primero</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 115), o do segundo será de “<italic>ardente mirada</italic>”, com uma “<italic>energía sobrenatural</italic>” que imediatamente, ao entregar a carta de Mariluán à moça, se converte em “<italic>rayos sombríos, que un buen fisonomista habría atribuído al despecho celoso que envía a las pupilas la repentina llamarada que abrasa con tal sentimiento al corazón</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 196-197). O amor correspondido do civilizado Mariluán contrasta com a paixão unilateral e puramente sexual do bárbaro Peuquilén.</p>
			<p>A atração atormentadora de Peuquilén por Rosa que, como afirma o narrador, “<italic>apenas nos atrevemos a designar con el nombre de amor</italic>” vai converter-se em inveja, e é este o sentimento que vai levá-lo a matar Mariluán. Nem o momento da guerra em favor de sua raça é suficientemente forte para que Peuquílen desista de destruir o rival. Contudo, sua selvageria desenfreada tomará forma após um encontro.</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>La conferencia entre Mariano y Peuquilén fue corta, pero decisiva: ambos habían jurado un odio eterno al jefe de los araucanos; mas, el hijo de doña Andrea ignoraba que Rosa era el origen del odio de Peuquilén como lo era el suyo. Sin embargo, de no ofrecerle aquel indio ninguna garantía, Mariano le dio algún dinero, ofreciéndole completar la suma de quinientos pesos cuando le presentase la cabeza de Mariluán y le entregase libre a Rosa</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 230).</p>
			</disp-quote>
			<p>O acordo entre o irmão de Rosa Tudela, Mariano, e Peuquilén os coloca em pé de igualdade: ambos odeiam Mariluán, ambos o querem morto, mas o civilizado Mariano não pode duelar com o austero chefe dos Araucanos, sendo necessário usar daquele bárbaro que se dispõe a sujar as mãos, e o seduz com o alicerce vital do mundo burguês: o dinheiro. Peuquilén, por sua vez, familiarizado com a lógica do dinheiro, exige recompensa adequada para cumprir seus próprios objetivos: “<italic>ganar dinero, (...) vengarse de Mariluán y (...) huir después con Rosa a los montes</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 230). A postura adotada nos obriga a rever a selvageria supostamente natural do antagonista: se o dinheiro é fundamental para seu plano, há por outro lado, em alguma medida, um anseio de viver ao modo burguês no pós-sequestro de Rosa.</p>
			<p>O civilizado Mariano e o bárbaro Peuquílen afinam-se não apenas no ódio por Mariluán, mas no anseio do dinheiro, uma vez que Mariano precisa casar Rosa com um homem rico, não se tratando apenas de recuperar a irmã por afeto, mas também por ser a jovem moeda de troca vantajosa para os negócios da família que, como observou Laura Hosiasson, indica a penetração do capitalismo voraz: </p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Por otra parte, estamos frente a la idea de que el engranaje capitalista había invadido todos los lugares del planeta, incluso la región de Arauco, donde también “el ganar 20 plata” se había transformado ya en la premisa fundamental. Esta es una de las líneas de fuerza de toda la producción blestganiana, con poquísimas excepciones. Tenemos entonces que los personajes en la novela van a aliar sus posiciones en dos grupos opuestos dentro de ese esquema binario típico del género: De un lado, están Fermín Mariluán, su hermano Cayo, los amigos Caleu, Juan Valera y Rosa Tudela. Del otro, el terrible Peuquilén unido a Mariano Tudela y Damián Ramillo. Es decir, lo que determina los lugares de los personajes en el tablero maniqueísta de la novela irá más allá de sus diferencias raciales</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Hosiasson, 2021</xref>, 19-20).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nesse sentido, pensada à luz das articulações econômicas que regem a fronteira, a cena brutal da cabeça exposta de Mariluán não é produto apenas da crueldade de Peuquilén, ela é também sinal do cumprimento do acordo com Mariano. A cabeça hasteada de Mariluán não deixa dúvidas: o negócio foi cumprido, cabe ao homem branco pagar o combinado, tornando-se símbolo dos negócios escusos que citadinos e “selvagens” travam na fronteira. No início do romance, ao apresentar Damián Ramillo, tio de Mariano e Rosa, o narrador explicita que ele fizera fortuna com “<italic>convenios fraudulentos hechos con los indios</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 121), usando da proximidade de Mariluán para manter em segredo os tais negócios.</p>
			<p>“<italic>Durante esta atroz operación, los ojos de Peuquilén brillaban con los sombríos resplandores de la venganza satisfecha</italic>” nos conta o narrador no momento em que o indígena se livra do “<italic>temor que le inspiraba Mariluán</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 288). Como já mencionado, os tipos bárbaros e civilizados vão se opondo nas descrições do narrador, mas as tensões internas da narrativa vão mostrando as fraturas que esta dicotomia provoca. Antes da carta que encerra o romance, o narrador faz uma espécie de balanço da ação transcorrida que nos permite pensar algumas contradições de seu discurso.</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Tal es el trágico fin que ha conservado la crónica del generoso descendiente de los héroes inmortalizados por la epopeya. El sol fecundo de la civilización había hecho germinar en el pecho de Mariluán la simiente de una noble esperanza: quería regenerar a su raza por medio del trabajo y de la honradez. (...) En medio de los vicios adquiridos por los araucanos en una lucha de más de tres siglos contra enemigo que siempre enarbolaban la bandera de la opresión y del despojo, Mariluán divisaba a la raza primitiva de sus mayores, rindiendo a la muerte los heroicos pechos antes que doblar el cuello a la esclavitud que les amenazaba.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 289).</p>
			</disp-quote>
			<p>Neste balanço as contradições ficam evidentes evidenciando o que <xref ref-type="bibr" rid="B21">Triviños (2004</xref>) chamou de “moral controversa” do livro. O interessante é que de alguma maneira repetem-se os motivos de Mariluán, pois ele reconhece a legitimidade de seu plano como solução para a situação dos araucanos a partir do trabalho civilizador. A fé positivista na civilização como estágio avançado do progresso se mantém intacta na fala final, mesmo que a face perversa dessa mesma civilização apareça na relação com os indígenas e que seja a grande responsável por selar o destino trágico do herói.</p>
			<p>Em vez de estancar os mundos <italic>criollo</italic> e indígena, Blest Gana escolhe situar o romance naquilo que Mary Louise Pratt chamou de zonas de contato, constituídas por “espaços de encontro coloniais, no qual as peças geográfica e historicamente separadas entram em contato e estabelecem relações contínuas, geralmente associadas a circunstâncias de coerção, desigualdade radical e obstinada” (<xref ref-type="bibr" rid="B19">1999</xref>, 25). Nessa mesma direção, Gabriel Passetti em seu estudo sobre os conflitos entre indígenas e <italic>criollos</italic> no sul da Argentina, afirma que nestes espaços de fronteira no século XIX “o fluxo demográfico e comercial era intenso (...) sendo seus limites à relação de forças circunstanciais e aos momentos de guerra e paz, estando constantemente sujeitos às invasões de guerreiros de ambos os lados” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">2012</xref>, 25).</p>
			<p>Passetti observa ainda que a historiografia durante muito tempo, e avançando o século XX, seguiu entendendo a relação entre <italic>criollos</italic> e indígenas “a partir da oposição entre duas regiões bem definidas e claramente identificadas com essa sociedade” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">2012</xref>, 25). Interessado nos negócios escusos que rondavam este ambiente fronteiriço, o romancista baliza, plasmando a maleabilidade da zona de contato, os sentidos que esse fluxo possui a depender das relações de poder que o conformam discursivamente, sem, no entanto, jamais estancá-lo nos limites geográficos. As continuidades que a fronteira instaura na vida social, captadas pelo romance, são o motor das contradições que regem o enredo.</p>
			<p>As tintas carregadas na caracterização de Peuquílen sugerem uma implosão do projeto de Mariluán, uma vez que acaba sendo morto por aquele para quem a causa também deveria ser cara. No entanto, é nas pressões ao redor da fronteira e através dos interesses pecuniários <italic>criollos</italic> que as motivações do desfecho se tornam decisivas. Nesse sentido, a contradição do narrador é evidente: ele se encanta por seu herói, segue-o atentamente, pronto para fazer-lhe as honras sempre que puder, se compadece da causa, reconhece o sofrimento dos araucanos, mas mesmo evidenciando as relações corruptas na fronteira ainda termina por creditar ao trabalho civilizador a saída para o impasse. O lado perverso da civilização aparece, mas não é o suficiente para que o narrador reconheça, a partir da experiência de Mariluán, a face devastadora do progresso que passa impiedoso por sobre os araucanos. Na verdade, a civilização acaba redimida e o embate se restringe ao de um guerreiro honrado com um desertor.</p>
			<p>Assim como em <italic>Martín Rivas</italic>, o final deste romance de Blest Gana parece sair do encaminhamento realista e adotar um lance romântico: lá com a celebração e aqui com a tragédia dos amantes. No entanto, se instalamos o livro nos debates de sua época, a situação parece menos esquemática e ganha camadas problemáticas. A contradição em <italic>Mariluán</italic> se projeta de maneira mais aguda quando nos centramos no subtítulo do romance: “crónica contemporánea”.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>BLEST GANA E OS DEBATES SOBRE A “CONQUISTA DE ARAUCO”</title>
			<p>Blest Gana publica <italic>Mariluán</italic> em 1862 (o mesmo ano em que publica seu <italic>magnum opus, Martín Rivas</italic>), ano em que as operações de conquista da Araucanía geravam intensos debates na sociedade chilena. Alguns acontecimentos explicam a tensão com que o assunto era debatido a esta altura. Depois de um levantamento dos índios araucanos em 1859, assistiu-se uma série de contra-ataques a Nacimiento e Los Angeles (locais onde se passa o romance), acontecimentos “<italic>que engendraron todavía más odio y más temor hacia los índios</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Ballard, 1981</xref>, 08). A situação ganhou novos matizes com a chegada do francês Orellie Antoine que, junto dos indígenas, tinha se autoproclamado rei da Araucanía e da Patagônia, sinalizando para o governo liberal-conservador de José Joaquín Pérez um ponto cego para a defesa do país. Com o argumento de pacificar o território e dissolver as tensões na fronteira, o general Cornélio Saavedra propôs um plano de avance e ocupação que começaria a colocar em prática em 1862, depondo o autodeclarado rei francês.</p>
			<p>Toda a discussão do tema permeia essa década no Chile, uma vez que a segunda campanha de Saavedra cobre os anos de 1867 e 1869, sendo alvo das mais variadas leituras. Já em junho de 1859, na iminência dos conflitos, um editorial intitulado “<italic>Independencia de Arauco</italic>” aparece em <italic>La revista católica</italic> problematizando o direito de empreender a ocupação.</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Esa raza de héroes que ha inspirado a los poetas i que ha sido cantada con los sublimes acentos de la epopeya; que prodigó su sangre con entusiasmo por la defensa de su amada patria, logró al fin alzar su frente erguida i triunfante del yugo español, orlanda con mil laureles cojidos con honor en los campos de batalla: ellos supieron conservar a costa de su sangre, su territorio, su independencia i su libertad.</italic></p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p><italic>(…)</italic></p>
			</disp-quote>
			<disp-quote>
				<p><italic>Creemos haber demostrado hasta la evidencia que no hai derecho para conquistar por la fuerza a los indíjenas; pero al mismo tiempo hemos manifestado que la caridad i el patriotismo nos obligan a trabajar con empeño i actividad en su pronta civilización. iQué gloria para Chile, si llegara a conseguirlo sin echar mano de la fuerza bruta!</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Editorial de junho de 1859</xref>, 49 e 113).</p>
			</disp-quote>
			<p>No excerto do longo editorial, delineia-se o núcleo da argumentação. Remete-se ao passado heroico da “raça”, como eternizado na épica nacional, para justificar o necessário respeito pelo modo de vida daqueles que habitam o território supostamente intocado. De fundo está o fardo civilizador, sombra do jesuitismo, em que se reconhece o direito dos indígenas à autonomia, ao passo que se reitera o dever dos <italic>criollos</italic> de civilizá-los. Tendo em vista o caráter da revista de oposição à imprensa liberal, é possível entrever uma polêmica direta com a classe dirigente que dava corpo ao projeto de enfrentamento que se consumaria três anos depois com as campanhas lideradas por Cornelio Saavedra.</p>
			<p>Do outro lado da questão, o senador Benjamin Vicuña Mackenna pronuncia em 10 de agosto de 1862 um discurso na câmara dos deputados que explicita outros argumentos do debate. Mackenna desconstruía a mitologia guerreira dos mapuches que, tomando <italic>La Araucana</italic> de Alonso de Ercilla como origem, os colocava, na observação Horacio Gutiérrez, como inventores da nação estabelecendo uma “alegoria da coragem (...) resistindo e repelindo os intrusos por trezentos anos” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">2003</xref>, 117). Desde Andrés Bello, que a considerou a “<italic>Eneida de Chile</italic>” conferindo-lhe a honra de ser um povo “<italic>cuya fundación ha sido inmortalizada por un poema épico</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">1957</xref>, 530), a imagem do mapuche guerreiro serviu de fundamento à nacionalidade.</p>
			<p>Assim, o senador chileno sabia que deveria atacar o imaginário e inverter radicalmente os polos da representação indígena. Vicuña Mackenna era enfático: os indígenas que nesse momento enfrentavam o governo liberal eram cruéis, covardes e bárbaros. Para ele, a questão era uma reminiscência danosa da Colônia que não tinha sido sufocada por falta de recursos e, por isso, pedia que a câmara autorizasse mais investimentos nas campanhas que estavam em desenvolvimento<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>.</p>
			<p>O senador discorria sobre os danos profundos que a presença dos indígenas causava à jovem república chilena. Segundo ele, assim como o índio pampa, “<italic>el ser mas horrible talvez de la raza humana</italic>”, os araucanos empreendiam “<italic>matanzas aleves i cobardes</italic>”, além de terem sido “<italic>los mas implacables enemigos de nuestra independencia</italic>”. Terminava a fala ironizando: “<italic>Tales son los semidioses de Ercilla!</italic>” (1868, 04). Vicuña Mackenna insistia que a guerra, prolongada pela “<italic>carencia de recursos i desgobierno</italic>” devia ser levada a cabo com <italic>mano dura</italic>, porque “<italic>el índio (no el de Ercilla, sino el que ha venido a degollar a nuestros labradores) no es sino un bruto</italic>”, sem pátria. Ao final, agregava: “<italic>es valiente, pero ¿qué salvaje no lo es? Es cierto que el indio defiende su suelo, pero lo hace porque odia la civilizacion, odia la lei, el sacerdocio, la enseñanza…</italic>” (1868, 07).</p>
			<p>É patente que Vicuña Mackenna buscava superar o imaginário em torno ao mapuche e romper com a visão idealizadora. Horacio <xref ref-type="bibr" rid="B12">Gutiérrez (2003</xref>, 120-121) observa que este esforço de depreciar a população indígena não estava restrito apenas aos intelectuais e ao Estado, se espraiava também pela imprensa. Sendo os mapuches o grupo mais numeroso do país, não era impossível prever que fossem eles também que catalisassem os ataques da burguesia <italic>criolla</italic>. Habitando uma ampla zona conhecida como <italic>La Frontera,</italic> os mapuches significavam também um entrave para o desenvolvimento econômico, como verifica <xref ref-type="bibr" rid="B12">Gutiérrez (2003</xref>, 125): </p>
			<disp-quote>
				<p>A maior demanda de alimentos do mercado mundial estimulava a expansão interna das fronteiras agrícolas. Internamente, o mercado de terras aptas para a agricultura estreitava-se com o crescimento da economia, havendo cada vez maior pressão de fazendeiros e especuladores de terras que incursionavam ilegalmente na Araucanía (...) A elite econômica e seus meios de comunicação ajudavam a radicalizar o clima, tornando-se cada vez mais virulenta em seus ataques aos mapuches com notícias regulares sobre a barbárie indígena, a indolência e a incapacidade de civilizar e seu horror ao progresso. </p>
			</disp-quote>
			<p>Nesse sentido, o discurso de Vicuña Mackenna era parte de um esforço das elites <italic>criollas</italic> em viabilizar as campanhas militares cooptando a opinião pública contra os indígenas. O tom é absolutamente oposto ao adotado por <italic>La revista católica.</italic> Enquanto aquele editorial parecia estar às voltas com uma leitura lascasiana da questão, aqui se afirmava o paradigma de Sarmiento: era necessário eliminar os indígenas para que o caminho do progresso fosse trilhado com plenitude.</p>
			<p>Portanto, é produtivo pensar no subtítulo do romance, <italic>crónica contemporánea</italic>, como um indício do diálogo profundo com os debates de seu tempo e uma inserção, desde a ficção, em seus contornos problemáticos sem aderir a nenhum dos polos em que a questão se colocava.</p>
			<p>Ao falar da crônica como gênero, Davi Arrigucci afirma que “trata-se de um relato em permanente relação com o tempo, de onde tira, como memória escrita, sua matéria principal, o que fica do vivido” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">1987</xref>, 51). Retomando Walter Benjamin, o crítico relembra como a crônica surge dentro do discurso historiográfico, do qual foi distanciando-se. Na modernidade, já aguerrido à imprensa, o discurso da crônica se descolaria da lógica interpretativa do narrado, própria da historiografia.</p>
			<p>Alberto Blest Gana foi também cronista - como tantos outros romancistas do século XIX - e no ano de 1862 ocupava-se de uma página semanal, <italic>Conversación del sábado</italic>, no jornal <italic>La voz de Chile</italic>. Laura Hosiasson nota que há na obra de Blest Gana “uma estreita relação de interdependência entre as crônicas e a escrita ficcional” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">2017</xref>, 112). Certos temas, visões e comentários penetram entre as duas partes da produção do autor, e no caso de <italic>Mariluán</italic> não foi diferente. Nesse ano de 1862, aparece uma série de menções, na <italic>Conversación del sábado,</italic> a uma comitiva de Araucanos que chegava a Santiago para tratar do delicado tema da pacificação da Araucanía, em um “gesto diplomático para tratar de dirimir pacificamente a questão que, a essa altura, já estava decidida” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Hosiasson, 2017</xref>, 130).</p>
			<p>Ao falar dos araucanos, Blest Gana lança mão de uma adjetivação muito parecida à que usa para caracterizar Mariluán no romance: “brilha em todos eles certa beleza relativa: a da altivez do coração e do valor incontrastável da alma” (Blest Gana <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B13">Hosiasson, 2017</xref>, 131). O reconhecimento do brio araucano vem entremeado às alusões jocosas de sua vestimenta e modo de se relacionar com o espaço citadino, mas não apagando a dimensão crítica do cronista com relação a arenga política que os movera até Santiago.</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>Bien puede ser que los jefes y allegados de esta legación ignoren lo que significa autonomía, por ser palabra de muy reciente usanza entre nosotros, pero allí está su historia para atestiguar que, si no conocen tal palabra, porque no leen nuestra prensa diaria, saben pelear con denuedo por la cosa, que es lo principal en estos tiempos de autonomías flacas amenazadas por gordas autonomías.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Blest Gana, 1956</xref>, 238).</p>
			</disp-quote>
			<p>Aqui, o cronista reconhece as duas visões de mundo que correm em paralelo na questão. Se o significante soa como o “livro mudo” de Cajamarca, para os araucanos, o significado de autonomia é velho conhecido dos indígenas que, famosos por guerrear por ela, agora descem ao mundo dos civilizados para tentar jogar na nova ordem. Ordem esta ditada por uma suposta diplomacia ironizada pelo cronista que já sabe o estado da questão no desenho do governo. A ponderação do autor dialoga com as considerações presentes no editorial e no discurso que analisamos. Mas, sem aderir ao discurso do jesuitismo ou o da dizimação, Blest Gana os tensiona pela perspectiva irônica, como verifica <xref ref-type="bibr" rid="B13">Hosiasson (2017</xref>, 115):</p>
			<disp-quote>
				<p>Seu tom está muito distante do ímpeto idealista e juvenil, inclusive do de seus muitos amigos, daquele grupo de intelectuais com os quais convivia (Benjamín Vicuña Mackenna, José Francisco Vergara, Francisco Bilbao, Diego Barros Arana...). Alberto Blest Gana foi um homem e um intelectual comedido, sempre manteve uma distância prudente da contingência. </p>
			</disp-quote>
			<p>Ilustrado demais para o jesuitismo e romântico<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> de menos para crer que o progresso justifica a dizimação desenfreada, Blest Gana parece adentrar outro lugar para pensar a questão indígena, tanto na crônica, como no romance. Por mais difuso e contraditório que o posicionamento do autor possa parecer, é perceptível sua “sensibilidade e simpatia pela causa indígena” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Hosiasson, 2017</xref>, 130).</p>
			<p>Ainda segundo Hosiasson, o recuo temporal para 1833 não implica uma contradição com o propósito de crônica que o livro se coloca. Utilizando-se de um recurso que remonta a Walter Scott, a distância era uma forma de afastar-se da contingência para ganhar um ponto de vista distanciado e objetivo. “<italic>El intervalo de treinta años que media entre los acontecimientos narrados en la novela y el momento de su escritura hablan de la permanencia del problema y se proyectan como un dilema hacia el futuro</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Hosiasson, 2021</xref>, 21-22). Assim, a distância não implica afastar-se do problema coevo: “<italic>la novela aprovecha la actualidad de los acontecimientos en Santiago para clamar en voz alta, lo que apenas se insinuaba en su “Conversación del Sábado</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Hosiasson, 2021</xref>, 23).</p>
			<p>Como bem analisou Gilberto <xref ref-type="bibr" rid="B21">Triviños (2004</xref>), em <italic>Mariluán</italic>, Blest Gana não economiza no espaço dado para que o herói se expresse. Nestes momentos que chama de “fugas narrativas”, Blest Gana permite que, pela voz desse nobre araucano, se façam reivindicações precisas em momentos em que o Governo chileno é chamado diretamente à responsabilidade:</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>El fin a que aspiro es el siguiente: que el Gobierno de Chile reglamente la internación de sus súbditos en el territorio de nuestros padres; que las autoridades nos presten su amparo, comprometiéndonos nosotros a respetarlas; que nuestros hermanos sean devueltos a sus hogares, y que se nombren tribunales que oigan los reclamos que tenéis que hacer contra los que os han despojado de vuestras tierras.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 181).</p>
			</disp-quote>
			<p>Sendo os argumentos de <italic>Mariluán</italic> frutos do engenho de Blest Gana, eles parecem adensar ainda mais a surpresa que para a época causaram, trazidos na voz do protagonista. Mesmo errático no fluxo ambíguo que o narrador estabelece, se pensarmos o livro diante dos argumentos que circulavam no momento da escrita e publicação do romance, Blest Gana vai na contramão e apenas adensa os problemas, sem aderir às soluções dadas por seus compatriotas. O argumento do líder mapuche toca na ferida: que o estado poderia (e deveria), dentro de sua institucionalidade, garantir aos araucanos.</p>
			<p>Portanto, é central o espaço em que a ação de <italic>Mariluán</italic> transcorre. É na zona de contato, onde as fronteiras se borram, que Blest Gana consegue balizar os sentidos de civilização e barbárie que, pelo menos desde Sarmiento, eram claramente ligados a espaços estanques: os <italic>pampas</italic> bárbaros e a cidade civilizada. Habitando a fronteira, o romance mostra que os interesses <italic>criollos</italic> não apenas gravitam em torno do dinheiro, mas que o signo do dinheiro, introjetado nas relações sociais, anima um desejo atávico de barbárie, representado pelo traidor Peuquilén. Pluralizando a barbárie e revestindo de contradições o discurso civilizador - cujo interesse pecuniário é posto às claras - o livro também questiona a possibilidade de que o indígena se integre nos termos da conquista espiritual que aninava os argumentos de veículos como <italic>La revista católica</italic>.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>
 <italic>MARILUÁN</italic> NO CONTEXTO DO ROMANCE LATINO-AMERICANO OITOCENTISTA</bold></title>
			<p>Outra dimensão que adensa a singularidade de <italic>Mariluán</italic> é a de sua comparação com outros romances latino-americanos que se ocuparam da questão indígena. No romance equatoriano <italic>Cumandá</italic>, do equatoriano Juan León Mera, publicado em 1879, a história é contada a partir de uma indígena branca que dá nome ao livro e que se descobrirá no decorrer da história a filha perdida de um missionário criada por indígenas na selva amazônica. Com a morte da protagonista no final do livro, brancos e indígenas, então inimigos, são reconciliados pelo amor da “índia cristiana”, naquilo que seria um gesto de sublimação da violenta história colonial.</p>
			<disp-quote>
				<p>Ha más de un siglo, la infatigable constancia de los misioneros había comenzado a hacer brillar algunas ráfagas de civilización entre esa bárbara gente; habíala humanado en gran parte a costa de heroicos sacrificios. La sangre del martirio tiñó muchas veces las aguas de los silenciosos ríos de aquellas regiones (…) Cada cruz plantada por el sacerdote católico en aquellas soledades, era un centro donde obraba un misterioso poder que atraía las tribus errantes para fijarlas en torno, agregarlas a la familia humana y hacerlas gozar de las delicias de la comunión racional y cristiana. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Mera, 2011</xref>, 97).</p>
			</disp-quote>
			<p>Nessa passagem, do início do segundo capítulo, o narrador demonstra a afinidade de seu relato às ideias de civilização dos povos indígenas que dependem diretamente da conquista espiritual. A religião seria, naquelas escuras matas, levada pelos sacerdotes católicos, redimindo os selvagens de sua vida bárbara. O tom de assimilação se combina à excepcionalidade de sua protagonista, como observa <xref ref-type="bibr" rid="B10">Cornejo Polar (2003</xref>, 114) “<italic>la novela insiste cuantas veces puede en el carácter excepcional de Cumandá, no sólo por su aspecto físico -obviamente blanco- sino también por sus virtudes morales -evidentemente intachables</italic>”. Inscrita num processo perfectivo e teleológico, a civilização era um imperativo, que no romance adere totalmente à cristianização e se funda na superioridade da raça branca. Cumandá redime os selvagens não por possuir valores elevados, mas justamente porque os possui por ser branca.</p>
			<p>Ángel Esteban observa que neste romance “<italic>la defensa del índio no se sustenta en el carácter de su estado inicial, libre y primitivo, sino en su capacidad de ser civilizado y en la idea cristiana de la igualdad radical y esencial de todo hombre por ser hijo de Dios y creación divina</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Esteban, 2011</xref>, 61). Aderindo aos motivos religiosos da conquista e aguerrido à ideia de que a população indígena possa ser integrada sem que isso mostre fraturas, a perspectiva de Mera difere radicalmente do teor problemático que Blest Gana confere a <italic>Mariluán</italic>.</p>
			<p>Também retornando ao mito das origens, em <italic>Iracema</italic>, do brasileiro José de Alencar, o expediente é ainda mais explícito:</p>
			<disp-quote>
				<p>Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. (..) Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho (...) Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu, e ainda hoje é o orgulho da terra, onde ele viu a luz primeiro (...) A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá. (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Alencar, 2011</xref>, 306).</p>
			</disp-quote>
			<p>A volta das caravelas ao solo brasileiro e a respectiva recepção dos indígenas é uma reescrita da já conhecida oposição entre novo e velho mundo. Na cena final de <italic>Iracema</italic>, o velho mundo irá trazer a verdade para o novo; não se trata de um encontro para promover a união de culturas, trata-se do reconhecimento da soberania de uma sobre a outra. O “ritual” mencionado torna o indígena, de uma só vez, cristão e servo de um rei, logo após reconhecer a soberania do irmão branco que trazia o primeiro brasileiro, filho da índia e do português, forjando uma origem mítica e conciliadora, dada pelo amor irresistível dos trópicos. </p>
			<p>Nesse gesto fundacional que Alfredo <xref ref-type="bibr" rid="B9">Bosi (1992</xref>) chamou de sublimação, Alencar inscreve a história americana na lógica da superação do passado infiel. Os nativos dos romances de Alencar possuem, segundo o crítico, uma disposição natural para servir, ainda que isto implique no extermínio de seu próprio povo. A construção desse “mito sacrificial”, berço das civilizações americanas, não só reconstrói a narrativa da colônia pela lente conciliatória, mas torna o indígena uma presença do passado, superada, servindo aos estados nacionais em consolidação como peça de museu.</p>
			<p>De fato, em uma das primeiras obras historiográficas chilenas, a <italic>Historia general de Chile</italic> de Diego Barros Arana, cujo primeiro volume foi publicado em 1884, ou seja, quatro anos após o fim da pacificação de Arauco, descreve-se a barbárie da sociedade indígena com o seguinte exemplo: “<italic>El indio chileno tenía tantas mujeres como podía comprar o sustentar, cuatro o seis la generalidad de los hombres, diez o veinte los más ricos</italic>” (2000, 65). Para além da terrível generalização do vocábulo “índio chileno”, chama a atenção o uso do pretérito para referir-se a esta população, como se já fosse parte do passado da nação. Um século e meio depois, sabemos que as questões indígenas estão longe de ser um dilema superado não apenas no Chile, mas também no Brasil, no Equador, e em vários outros países latino-americanos.</p>
			<p>Na relação com estes outros textos, pode-se perceber a postura crítica com que Blest Gana enfrenta a questão indígena. Ela não é mobilizada, como em Alencar e Mera, para tramar um berço étnico, de um tema do passado. Pelo contrário, ainda que haja um recuo temporal de cerca de 30 anos no enredo, o texto está em profundo diálogo com o presente da escrita.</p>
			<p>Assim como o editorial de <italic>La revista católica</italic> e o discurso de Vicuña Mackenna (diga-se de passagem, amigo de Blest Gana), em <italic>Mariluán</italic> o protagonista lê <italic>La araucana</italic> de Ercilla. Mas, nem como esperança, nem como pura criação, neste romance o poema épico fala de uma impossibilidade, do entrave que é para o jovem Fermín Mariluán conviver com sua “<italic>armonía desgarrada</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Cornejo Polar, 2003</xref>). Impedido de viver no espaço geográfico em que a vida guerreira poderia flamejar, o herói quer conciliar as duas pertenças.</p>
			<p>O não-lugar de Mariluán fala da queda do sonho épico e da falsidade da promessa de civilização. A Araucanía é a nostalgia de um passado vivido pela leitura, cuja reminiscência no real está ameaçada pela civilização que, por seus próprios mecanismos, impede que este homem deixe de representar um “outro”. Como acontece em vários romances do autor, “os personagens que se recusam a aceitar o limite que a sociedade impõe ao sujeito, à sua natureza e à extensão dos seus desejos, tornam-se bodes expiatórios desta sociedade” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Bersani, 1984</xref>, 76). A prosa do mundo expurga a poesia (épica) do coração, numa dinâmica que se repetia na contemporaneidade do autor com a ocupação do território araucano. Nesse sentido, discordamos da leitura de Álvaro <xref ref-type="bibr" rid="B16">Kaempfer (2006</xref>) quando afirma que</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>las narrativas de exterminio naturalizan</italic><xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref><italic>y a lo más lo narran a partir de una desaparición, la escritura delinea un pasado narrable divisible en relación con las comunidades políticas cuya cohesión es posible por la extinción o desaparición de esos cuerpos.</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Kaempfer, 2006</xref>, 106).</p>
			</disp-quote>
			<p>Se no caso de Alencar essa conclusão é bastante adequada (e já bem desenvolvida pelo estudo de Alfredo Bosi, escrito nos anos noventa), no caso do Blest Gana, diante do exposto, tal leitura elimina todas as tensões internas do romance. Já funcionando no paradigma realista, o autor dispensa qualquer idealização que não seja a do próprio personagem com relação à sua identidade. Blest Gana cria uma narrativa em que os limites da ideologia liberal ficam expostos.</p>
			<p>É digno de nota pensar que por estes anos Brasil e Chile passavam por um mesmo processo: a conciliação entre liberais e conservadores no poder. O que para Alencar não era nada problemático e impulsava um certo otimismo (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Bosi, 1992</xref>), para Blest Gana soava como uma anomalia perversa, motivo de crítica em diversas de suas crônicas e, mais sutilmente, em <italic>Martín Rivas</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Hosiasson, 2017</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>.</p>
			<p>As contradições do narrador que adere ao projeto de seu protagonista (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Triviños, 2004</xref>), parecem se mover dentro do estreito espaço que a questão poderia ocupar no século XIX. Fundindo-se num paradoxo indissolúvel, o fardo civilizador de Mariluán, atento às circunstâncias perversas, só calcula a liberdade de seu povo dentro do processo da civilização. Se neste aspecto o romance morde o próprio rabo é porque a história coeva não ofereceria saídas mais radicais. O que interessa é a maneira com que a barbárie do “mau selvagem”, Peuquilén, se relaciona com a fome de dinheiro dos citadinos, de modo que ao fim do percurso, e no íntimo das justificativas, eles se equivalham.</p>
			<p>Ainda que o narrador tente manter as rédeas da narrativa, concentrando na figura de Peuquílen a face de um mal latente e selvagem <italic>stricto sensu</italic>, a fronteira como espaço do interesse do capital amplia o alcance da narrativa para além dos maniqueísmos. Se o narrador trata de organizar o mundo ao final, em detrimento do caos que antes projetou, ainda assim pondera: “<italic>Mariluán divisaba a la raza primitiva de sus mayores, rindiendo a la muerte los heroicos pechos antes que doblar el cuello a la esclavitud que les amenazaba</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Blest Gana, 1876</xref>, 123). No que Alencar era “doce”, em Blest Gana torna-se símbolo de enfrentamento e resistência.</p>
		</sec>
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			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
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				<mixed-citation>Alencar, José de. Iracema. São Paulo: Ateliê, 2011.</mixed-citation>
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					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Ateliê</publisher-name>
					<year>2011</year>
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					<chapter-title>Fragmentos sobre a crônica</chapter-title>
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					<year>1987</year>
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					<source>El jefe de familia y otras páginas</source>
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				<mixed-citation>Cornejo Polar, Antonio. Escribir en el aire. Lima: Latinoamericana Editores, 2003.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Esteban, Ángel. Introducción. In: Cumandá o un drama entre salvajes. Madrid: Ediciones Cátedra, 2011, 9-72.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Hosiasson, Laura. Alberto Blest Gana: Four Chronicles and a Novel. In: Open Cultural Studies, 1, 2021, 123-135.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Independencia de Arauco. La revista católica. Año XVII, nº 388. Santiago, Junio de 1859. Disponível em: &lt;<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.memoriachilena.cl/602/w3-article-3630.html#documentos">https://www.memoriachilena.cl/602/w3-article-3630.html#documentos</ext-link>
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				<mixed-citation>Kaempfer, Álvaro. Alencar, Blest Gana y Galván: narrativas de exterminio y subalternidade”. Revista Chilena de Literatura, 2006, 69, 89-106.</mixed-citation>
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					<article-title>Alencar, Blest Gana y Galván: narrativas de exterminio y subalternidade</article-title>
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				<mixed-citation>Mera, Juan León. Cumandá o un drama entre salvajes . Madrid: Ediciones Cátedra , 2011.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Passetti, Gabriel. Indígenas e criollos. Política, guerra e traição nas lutas do sul da Argentina (1852-1885). São Paulo: Alameda, 2012.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Pratt, Mary Louise. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Tradução de Jézio Hernani. Bauru: Edusc, 1999.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Sommer, Doris. Ficções de fundação. Tradução de Gláucia Remate &amp; Eliana Lourenço. Belo Horizonte: Editora UFMG/Humanitas, 2004.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Triviños, Gilberto. Mariluán de Albesto Blest Gana: Panóptico, utopía, alteridad. Revista Atenea, 2004, 33-57.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Vicuña Mackenna, Benjamín. La Conquista de Arauco: discurso pronunciado en la Cámara de Diputados en su sesión de 10 de agosto. Disponível em: Memoria Chilena, Biblioteca Nacional de Chile &lt;<comment>Disponível em: Memoria Chilena, Biblioteca Nacional de Chile <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.memoriachilena.cl/602/w3-article-7806.html">https://www.memoriachilena.cl/602/w3-article-7806.html</ext-link>
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					<article-title>La Conquista de Arauco: discurso pronunciado en la Cámara de Diputados en su sesión de 10 de agosto</article-title>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>O discurso é lido no contexto da segunda campanha que marcou o sangrento enfrentamento das forças de Saavedra com a resistência indígena liderada pelo cacique Quilapán. (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Bengoa, 2000</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Aqui tratando-se do romantismo hispano-americano nos termos de <xref ref-type="bibr" rid="B20">Sommer, 2004</xref>, no qual se destaca o impulso de harmonia que regia a construção simbólica dos Estados Nacionais.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Kaempfer se refere a Alencar (<italic>O guarani)</italic>, Blest Gana (<italic>Mariluán</italic>) e Galván (<italic>Enriquillo</italic>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>É necessário ter em conta que <italic>Mariluán</italic> é publicado antes de clássicos “indianistas” como <italic>Iracema</italic> (1865), <italic>Cumandá</italic> (1877) e <italic>Enriquillo</italic> (1879). Assim, não se trata de um trabalho com o acúmulo de obras que trataram do tema, mas sim de escritas contemporâneas, absolutamente diferente do que fará o romance indigenista do século XX, problematizando a posição do indígena na nação consolidada com mais fôlego do que Blest Gana poderia fazer neste momento. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Cornejo Polar, 2003</xref>).</p>
			</fn>
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