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               <subject>Dossiê-Resenha</subject>
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               <italic>Un grande abrazo</italic>: Resenha de <italic>La Amistad, Patria de los Sin Patria</italic>, Epistolário Inédito editado por Barbara Greco</article-title>
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               <trans-title>Un grande abrazo: Review of La Amistad, Patria de los Sin Patria: an unpublished epistolary edited by Barbara Greco</trans-title>
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                  <p>pesquisa literatura espanhola contemporânea, exílio e poesia. Possui mais de quatro artigos publicados sobre literatura e análise crítica.</p>
               </bio>
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            <institution content-type="original">doutorando em Letras pela USP. Brasil</institution>
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            <corresp id="c01">Contato: <email>raphael_boccardo@msn.com</email>. </corresp>
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               <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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    <p>O epistolário <italic>La Amistad, patria de los sin patria</italic>, composto por correspondências entre María Teresa León, Rafael Alberti e Max Aub, e editado por Barbara Greco, constitui um testemunho raro e significativo da prática epistolar entre intelectuais espanhóis exilados após a Guerra Civil Espanhola. O conjunto reúne 44 cartas, quase todas manuscritas, de María Teresa León; 3 cartas de Rafael Alberti; 3 cartas de Aitana Alberti León; e 30 cartas de Max Aub. Redigidas em contextos de deslocamento geográfico e político, essas cartas não apenas documentam as relações pessoais entre León, Alberti e Aub, mas configuram um campo discursivo em que a amizade construída nesse distanciamento opera como forma articuladora de pertencimento simbólico e de continuidade subjetiva.</p>
    <p>O estilo fragmentado dessas cartas, geralmente curtas, com cerca de 1 a 3 páginas, revela como elas atuavam na manutenção dos vínculos em um contexto de rupturas políticas e históricas, com envios constantes de escritos pessoais: “Hoy mando hasta la pág. 84. Calculo 150 cuartillas de esas que recibes” (p. 37). A escrita, nesse cenário, é mobilizada de forma estratégica como tentativa de preservar relações em meio à ausência de um território compartilhado. Forma-se, assim, uma rede de contato imaterial que ligava Buenos Aires, onde residiam María Teresa León e Rafael Alberti, ao México, onde Max Aub se estabelecera. A frase de León, “los sin nos fabricamos una en el aire que se llama amistad” (p. 63), condensa de modo exemplar essa operação simbólica de fundação de um espaço relacional sustentado pela linguagem.</p>
    <p>Nesse sentido, <italic>La Amistad, patria de los sin patria</italic> pode ser lido como testemunho de relações pessoais, além de visualizar uma forma discursiva de reconstrução do pertencimento em situação de exílio e desenraizamento. A epístola, nesse contexto, opera como um dispositivo de construção relacional, sustentando formas de convivência simbólica num momento em que os vínculos territoriais, institucionais e culturais haviam sido irremediavelmente rompidos. Essas cartas não emergem de um cotidiano compartilhado, mas precisamente da impossibilidade de habitá-lo em um espaço comum. Cada mensagem configura, assim, um gesto afirmativo de continuidade e uma resistência ativa contra o apagamento. Com isso, , antes de tudo, <italic>La Amistad, patria de los sin patria</italic> revela que a amizade, sob certas condições, deixa de ser apenas tema para se tornar forma: uma forma inscrita em cartas breves.</p>
    <p>No pensamento aristotélico, φιλία (<italic>philia</italic>) designa uma relação que ultrapassa a afeição espontânea, constituindo uma escolha deliberada de convivência entre aqueles que desejam mutuamente o bem e compartilham um projeto ético comum. A amizade exige mais do que simpatia ou afinidade emocional: ela se estrutura como prática de reciprocidade, constância e construção de um mundo em comum. Os φίλοι (<italic>philoi</italic>), nesse sentido, não são apenas “amigos” no sentido contemporâneo do termo, mas aqueles com quem se partilha uma existência, uma forma integrada de vida. Por isso, para Aristóteles, a amizade ocupa um lugar fundamental na constituição da pólis e na sustentação da vida ética (<xref ref-type="bibr" rid="B02">Aristóteles, 2020</xref>).</p>
    <p>Retomando essa tradição sob uma perspectiva contemporânea, Giorgio Agamben observa que a amizade não pode ser pensada como um predicado ou uma propriedade atribuível ao sujeito. O “é amigo de” não descreve uma qualidade estável, mas se realiza no próprio ato da convivência, na partilha do tempo e do espaço, mesmo quando as palavras não se interconectam. A amizade, para Agamben, não se funda em uma identidade comum, mas na abertura à alteridade: é uma relação que escapa à definição substancial e, ainda assim, instaura um espaço de coexistência compartilhada (<xref ref-type="bibr" rid="B01">Agamben, 2009, p. 36-38</xref>).</p>
    <p>A amizade entre exilados, como no caso das cartas reunidas em <italic>La Amistad, patria de los sin patria</italic>, da mesma forma que resiste à perda de um território, também institui um território fantasmagórico, feito de linguagem, de papel e de espera: “Max querido:/Merci, merci! Eres una maravilla: contestas las cartas” (p. 62), escreve María Teresa León para Max Aub. O vínculo se constrói não sobre a presença física, mas sobre a decisão de permanecer em comunicação, apesar da distância e das ausências. A escrita, atravessada por silêncios, interrupções e esperas frustradas, carrega tanto a marca do desgaste quanto a insistência na continuidade. Como confessa León, num momento de cansaço: “Escríbeme para tranquilizarme. Me parece que estoy echando cartas en un pozo” (p. 39). Nesse contexto,</p>
    <disp-quote><p>las cartas se configuran entonces como una importante fuente documental y simbolizan, al mismo tiempo, un espacio de encuentro suspendido en el tiempo, un refugio ideal, ajeno a la brutalidad del destierro</p>
    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B03">GRECO, 2023, p. 26</xref>)​.</attrib></disp-quote><p>O epistolário, portanto, assim como testemunha a superação da perda, ainda revela a construção precária de uma convivência possível em meio ao esfacelamento do mundo comum.</p>
    <p>O que essas cartas concebem, no plano mais imediato, é uma topografia do deslocamento. Elas são escritas entre casas improvisadas, clínicas, enfermidades e esperas. São atravessadas por notícias sobre obras enviadas e não recebidas, livros perdidos, manuscritos datilografados em máquinas precárias: “Trabajo en condiciones desastrosas, cada día con una máquina” (p. 39). María Teresa León escreve de Buenos Aires ou Roma, Max Aub responde do México. Rafael Alberti intervém com um poema ou com o peso do silêncio. O tom que percorre essas cartas não é de resistência heroica, mas de sobrevivência e permanência. A cada nova mensagem refaz-se o gesto de sustentar uma correspondência, no sentido mais literal e no mais profundo. Essa correspondência não é automática, nem linear: ela hesita e espera. Como escreve León: “los sin patria nos fabricamos una en el aire que se llama amistad” (León, 1964, p. 24). O ar, aqui, não é metáfora vazia. É a matéria instável em si. É com ele, e nele, que se constrói essa nova pátria de papel.</p>
    <p>A carta, nesse contexto, é um substituto da conversa, bem como a invenção de uma forma própria de presença em meio ao exílio. Entre remetente e destinatário, o tempo se dilata, o espaço se obscurece, e a linguagem passa a carregar não apenas o conteúdo dito, mas o desejo de continuidade. O suporte material da carta, como o papel, o envelope, a máquina de escrever e o correio internacional, participa ativamente da significação e torna-se parte do gesto de preservação do vínculo. O conjunto epistolar constrói uma paisagem afetiva marcada por tensões. A amizade que emerge dessas cartas não se fundamenta na harmonia, mas na persistência frente às falhas, às distâncias e ao desgaste.</p>
    <p>A forma epistolar acentua a instabilidade própria da vida no exílio e mostra como a amizade não é apenas uma entidade metafísica, mas também uma relação material e histórica. As cartas, fragmentadas e apressadas, entrelaçam relatos de saúde, dificuldades editoriais e precariedade econômica, revelando uma ética do cuidado mínima, intermitente e ainda assim constante. O exílio, enquanto ruptura radical da continuidade territorial, institucional e cultural, impõe aos sujeitos a necessidade de reinventar formas de pertencimento. Nesse processo, a amizade assume a função de ancoragem simbólica: nomear o outro e ser nomeado torna-se um modo de existência possível em terras estrangeiras, ainda que a pátria, nesse momento, permaneça interditada. As cartas circulam entre fronteiras físicas e simbólicas, adquirindo um estatuto ambíguo entre documento e obra, entre testemunho e criação, movendo-se na tensão entre o registro precário e o gesto estético.</p>
    <p>A multiplicidade de vozes que atravessa o epistolário, entre María Teresa León, Max Aub, Rafael Alberti e outros interlocutores intermitentes, compõe uma polifonia fragmentada que resiste à linearidade narrativa. A continuidade do laço não decorre da ausência de conflitos, mas da disposição de insistir, mesmo quando a comunicação se torna hesitante ou falha. Cada carta reafirma um pacto frágil: escrever, mesmo sem resposta imediata, como forma de resistência frente ao apagamento. <italic>La Amistad, patria de los sin patria</italic> não se limita a documentar relações pessoais, mas funda um território simbólico habitável em meio ao desterro e ao desenraizamento. Nesse espaço, a amizade deixa de ser apenas um sentimento e se converte em prática ética de sobrevivência e de reconhecimento recíproco. Nesse gesto insistente de endereçar palavras ao outro, mesmo na ausência de garantias, reencontra-se o que Giorgio Agamben define como a essência da amizade: não a afirmação de uma identidade partilhada, mas a persistência de um ser-comum, sustentado na convivência que resiste à própria dissolução do mundo.</p>
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         <title>Referências bibliográficas</title>
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                    <mixed-citation>Agamben, Giorgio. <italic>O que é o contemporâneo?</italic> e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.</mixed-citation>
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