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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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            <journal-title>Caracol</journal-title>
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         <issn pub-type="ppub">2178-1702</issn>
         <issn pub-type="epub">2317-9651</issn>
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            <publisher-name>Universidade de São Paulo</publisher-name>
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         <article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i30p14-24</article-id>
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            <subj-group subj-group-type="heading">
               <subject>Apresentação</subject>
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            <article-title>Em torno aos 100 anos de <italic>Marinero en tierra</italic>: leituras e releituras</article-title>
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                  <surname>Santos</surname>
                  <given-names>Margareth</given-names>
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               <bio>
                  <p>é professora livre-docente em Literatura Espanhola na Universidade de São Paulo, sua pesquisa dedica-se ao exame das relações entre literatura, história e arte no século XX, tanto na Espanha como no contexto ibero-americano. Atualmente faz parte dos projetos interinstitucionais Mapas da poesia hispânica e Geografias Culturais Ibero-americanas: Paisagens, contato, linguagens.</p>
               </bio>
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               <xref ref-type="corresp" rid="c01"/>
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                  <surname>Carvalho</surname>
                  <given-names>Mayra Moreyra</given-names>
               </name>
               <bio>
                  <p>Doutora em Letras (Universidade de São Paulo), com estágio na Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Sua tese foi agraciada com o Prêmio USP de Teses em 2020. Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais. Dedica-se à poesia espanhola século XX, Exílio Republicano de 1939 e relações literárias Brasil-Espanha-Argentina.</p>
               </bio>
               <xref ref-type="aff" rid="aff05"/>
               <xref ref-type="corresp" rid="c02"/>
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            <institution content-type="original">Universidade de São Paulo, USP, Brasil.</institution>
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            <institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Minas Gerais</institution>
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            <institution content-type="original">Universidade Estadual de Minas Gerais, UEMG, Brasil.</institution>
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         <author-notes>
            <corresp id="c01">Contato: <email>marsanto@usp.br</email>
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            <corresp id="c02">Contato: <email>mayramoreyra@gmail.com</email>
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         </author-notes>
         <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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            <year>2025</year>
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         <pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
            <season>Jul-Dec</season>
            <year>2025</year>
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         <issue>30</issue>
         <fpage>14</fpage>
         <lpage>24</lpage>
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            <license license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
               <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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         <title>Em torno aos 100 anos de <italic>Marinero en tierra</italic>: leituras e releituras</title>
         <p>Ao descrever a cena inicial da aparição de <italic>Marinero en tierra</italic>, o crítico espanhol Andrés Soria Olmedo<xref ref-type="fn" rid="fn01">1</xref> elabora-a nos seguintes termos:</p>
         <disp-quote>
            <p>La aparición de Rafael Alberti en la escena poética española tiene los rasgos del asombro. <italic>Marinero en tierra</italic> es un libro que parece haber nacido como Minerva, de un golpe del creador, armado de todas las armas relucientes. Es un libro que trae consigo su propia fórmula, su propia poética. Pocas veces se habrá dado un caso tan redondo de acierto en materia y forma, de inauguración solemne y definitiva de un mundo poético..</p>
         </disp-quote>
         <p>A proposta para este número 30 da <italic>Caracol</italic> considerou tanto o impacto da aparição do livro de estreia de Rafael Alberti em seu momento, como bem capturado por Soria Olmedo, quanto repercussões não só entre contemporâneos, mas para a tradição da poesia espanhola, fortemente violentada no século XX pela ruptura instaurada desde a Guerra Civil até os longos anos do Exílio Republicano a partir de 1939, e para outras tradições e correntes da poesia ocidental. Esse mote abrangente justifica o título do dossiê, dedicado a pensar <italic>Marinero en tierra</italic> e seu entorno, portanto, não como marco ou obra fixada em um tempo, mas como possível irradiadora de questões na Península e fora dela; para artistas e leitores espanhóis e de outras tradições; ponto de partida para a discussão sobre o alcance das poéticas dos primeiros decênios do século XX e possível termômetro da crítica de um poeta e de um livro cem anos depois de sua publicação.</p>
         <p>Algo dessas aspirações pode ser encontrada nos artigos, ensaios e demais textos que compõem este dossiê, sobre os quais discorreremos mais adiante. Por ora, importa considerar que o breve conjunto de textos aponta para alguns modos de leitura da obra de Rafael Alberti: a perspectiva comparativa, que integra estudos sobre as redes intelectuais e de sociabilidade, o olhar para a prosa do poeta, e a prevalência do interesse por certas obras emblemáticas, como a própria <italic>Marinero en tierra</italic>, e <italic>Sobre los ángeles</italic>, de 1929.</p>
         <p>Desse modo, mesmo com um conjunto breve, não parece temerário afirmar que a crítica de Alberti não ostenta nos dias de hoje a pujança vivida a partir dos anos 1960, quando foi publicado o conhecido estudo de Solita Salinas de Marichal, <italic>El mundo poético de Rafael Alberti</italic> (1968); ou das décadas de 1980 e 1990, anos em que se editou sua obra completa com acompanhamento do próprio poeta e estudo acurado de Luis García Montero (1988), e em que vieram à luz números de periódicos importantes em sua homenagem, como os <italic>Cuadernos hispanoamericanos</italic> n. 485-486 de 1990. Tal movimento é vigente pelo menos até o centenário de Alberti, celebrado em 2002 com uma grande exposição do Museu Reina Sofía e a publicação de relevantes estudos sobre sua vasta obra, como os volumes <italic>Rafael Alberti libro a libro. El poeta en su centenario</italic> (2003), organizado por Manuel Ramos Ortega e José Jurado Morales, ou <italic>El color de la poesía (Rafael Alberti en su siglo)</italic>, coordenado por Gonzalo Santonja, de 2004, e a posterior reedição de toda sua obra pela Seix Barral.</p>
         <p>É possível dizer que a centralidade de Rafael Alberti na crítica de literatura espanhola produzida ao longo de quase quarenta anos se deve em parte a distintas dimensões simbólicas atribuídas ao poeta – e em parte assumidas por ele – durante esse período. Além das evidentes qualidade e relevância de sua poesia, amalgamaram-se em Alberti as figuras do militante político obstinado, do poeta sobrevivente, do representante de uma geração de grandes artistas quase todos mortos, do detentor da memória de um tempo, do longevo poeta que correu o mundo recitando poesia a multidões. Não se pode ignorar também o momento de seu retorno à Espanha, após um longo exílio e a morte do ditador no final dos anos 1970, os turbulentos e controversos anos que selam a transição democrática, quando a presença do célebre poeta no debate público era incontornável não só para os jovens escritores como para a discussão que começava a se travar em torno da memória histórica da Guerra, dos anos de ditadura e do exílio.</p>
         <p>Passado aquele período, o primeiro quarto do século XXI encontra Rafael Alberti sob outras perspectivas, não menos relevantes e de genuíno interesse investigativo, e é uma amostra dessas leituras contemporâneas do poeta que este número da <italic>Caracol</italic> buscar apresentar.</p>
         <p>A ordenação do dossiê segue um percurso que se conforma do olhar mais abrangente ao mais específico. Nesse sentido, parte-se de um amplo mapeamento sobre as relações entre a <italic>Generación del 27</italic> e a poesia brasileira, para dar passagem, em seguida, a estudos de diferentes dimensões do exílio de Rafael Alberti, até chegar a leituras detidas em duas obras poéticas do gaditano. Esse percurso delineado pelos textos guarda também um aspecto espaço-temporal: desde ressonâncias estéticas que se espraiaram geograficamente ao longo do século XX pela pena dos artistas desterrados da <italic>España Peregrina</italic>, ao momento de escritura de <italic>Marinero en tierra</italic>, a efervescente Espanha de meados dos anos 1920. Desse modo, o dossiê oferece reflexões sobre distintos momentos e expressões da obra de Rafael Alberti, de seus contemporâneos e de suas interlocuções.</p>
         <p>O dossiê se abre com o generoso ensaio de Vagner Camilo, “Diálogos Geracionais Hispano-Brasileiros: Sondagem da Presença da <italic>Generación del 27</italic> no Brasil”, em que o professor e pesquisador se vale de seu profundo estudo anterior sobre a Geração de 45 brasileira e a Geração de 42 argentina, durante o qual detectou interlocuções com o Garcilasismo e a Geração de 27 espanhola, ao investigar a recepção da poesia hispânica moderna e vanguardista pela lírica e pela crítica de poesia brasileiras de meados dos anos 1940 até fins dos anos 1950. A partir dessas descobertas e percepções, Camilo considera diferentes suportes, publicações e fontes primárias para levantar traduções, homenagens poéticas e estudos críticos no Brasil sobre a Geração de 27, além de explorar criticamente intercâmbios entre poetas espanhóis e brasileiros, como faz com Rafael Alberti e Murilo Mendes – aliás, o “Retrato relâmpago” sobre o gaditano é finamente analisado no ensaio –; Dámaso Alonso, este último tradutor de poesia brasileira; Carlos Drummond de Andrade; ou ao desentranhar um triângulo de relações poéticas entre José Paulo Moreira da Fonseca, Vicente Aleixandre e León Felipe com a famosa tela pintada por Diego Velázquez de Francisco Lezcano, <italic>el Niño de Vallecas</italic>, e seus distintos alcances simbólicos.</p>
         <p>Na sequência da ampla cartografia de relações oferecida pelo ensaio de Vagner Camilo, encontra-se a contribuição de Silvia Cárcamo, “Memoria y visiones de la cultura en <italic>La Arboleda Perdida</italic>. Libros I y II”. Centrada na análise das passagens da prosa autobiográfica de Alberti em que as memórias do poeta se articulam a reflexões sobre a cultura, a autora discute as conexões e os deslocamentos entre a cultura popular, a culta e a de massa no discurso albertiano e como eles permitem pensar sua posição democrática e moderna, coerentes com sua autofiguração como escritor. Dessa maneira, Cárcamo observa a exposição das convicções ético-estéticas do poeta e seu empenho em construir uma visão da cultura na vida social com amplitude e livre de preconceitos, delineada por olhos curiosos e esquadrinhadores.</p>
         <p>Valendo-se do fato de que os primeiros livros de <italic>La Arboleda Perdida</italic> são escritos por Alberti no exílio, os próximos textos do dossiê dão passo aos estudos dedicados a pensar o longo desterro do poeta, que compreendeu uma breve passagem pela França, entre 1939 e 1940, vinte e três anos na Argentina, com breves períodos no Uruguai, e pouco mais de quinze anos na Itália. Assim, o artigo de Ethel Junco e Claudio César Calabrese propõe uma reflexão sobre o exílio como símbolo em Rafael Alberti e María Zambrano. “Variaciones sobre el exilio” parte da perspectiva hermenêutica de Paul Ricoeur para pensar a condição do desterro como chave de interpretação para além da dimensão estritamente territorial, na medida em que implica um profundo rompimento identitário e de pertencimento. Nesse sentido, os autores defendem que o exílio foi uma experiência definidora para as obras de Alberti e Zambrano e buscam demonstrar como <italic>Marinero en tierra</italic> anteciparia o enfrentamento dessa condição em Alberti, enquanto em Zambrano a situação se vincularia à formulação de seu método de razão poética.</p>
         <p>Outra análise comparativa entre Alberti e um contemporâneo é o objeto de Darío Gómez Sánchez em “Alberti y Cernuda: poetas desterrados”. O artigo coteja a maneira como cada poeta expressou e elaborou sua condição de exilado, demonstrando as diferenças de tom, tratamento e expressão. Através de leituras e comentários de alguns poemas, em articulação com os termos “transterrado” e “desterrado”, o autor observa a convivência entre nostalgia e esperança de retorno em Rafael Alberti frente à constante meditação de Cernuda em relação ao regresso e sua impossibilidade.</p>
         <p>Com o ensaio de Virginia Bonatto, as reflexões do dossiê chegam ao momento da Guerra Civil Espanhola. Em seu “La representación de la mujer combatiente en ‘La miliciana del Tajo (Balada)’ de Rafael Alberti (1938)”, a autora se detém na leitura de uma crônica poética de Rafael Alberti publicada no periódico <italic>El Mono Azul</italic>, fundado por ele, por sua companheira María Teresa León e outros escritores durante o conflito, a fim de analisar como a mulher miliciana é representada pelo poeta. Bonatto investiga como essa representação conjuga elementos populares, figurações de gênero e influxos históricos diretamente relacionados à guerra. Por outro lado, deslinda a tradição literária e cultural do Século de Ouro espanhol que alimenta a poética republicana de Alberti. Ao articular essas frentes de discussão, a autora demonstra como Alberti opera uma espécie de releitura dos designíos trágicos da mulher combatente amalgamando história, imaginário e literatura.</p>
         <p>As duas contribuições que encerram os artigos do dossiê se dedicam a obras compostas por Alberti antes de 1936. Fernando Candón Ríos apresenta em “Cartografía semántica de <italic>Sobre los ángeles</italic>: un estudio de las isotopías y metáforas en la poesía de Rafael Alberti” apresenta uma análise de matriz semiótica a fim de compreender como as estruturas semânticas permitem reconhecer a trama de significados que conformam a crise existencial e a fragmentação do sujeito em uma das obras mais celebradas do poeta, <italic>Sobre los ángeles</italic>, sem deixar de considerar as ressonâncias de <italic>Marinero en tierra</italic>. Assim, o pesquisador espanhol, radicado na Universidade de Cádiz, examina como as isotopias e as metáforas interagem na obra de 1929 para construir um universo simbólico de desencanto e desintegração.</p>
         <p>O “Estudio comparativo de <italic>Marinero en tierra</italic> y <italic>Versos humanos</italic>” de Ana María Alonso Fernández fecha esta sessão da <italic>Caracol 30</italic> com um estudo comparativo entre as obras de Rafael Alberti e Gerardo Diego. Valendo-se das circunstâncias de aparição dos dois conjuntos de poemas, a autora busca rastrear traços comuns entre ambos, tendo em conta sua inserção nas discussões estéticas movidas pela Geração de 27 entre a tradição e a vanguarda. Alonso Fernández seleciona alguns poemas, observando recorrências temáticas e relações com a tradição lírica erudita e popular espanhola em Alberti e Diego.</p>
         <p>Na sessão “Entrevistas”, contamos com a presença do Centro Cultural Generación del 27, sediado em Málaga, instituição fundamental na preservação e na divulgação da memória e do legado dessa geração de artistas, poetas, escritores e intelectuais, representadas pelas figuras de seu diretor, José Antonio Mesa Toré, e do diretor de sua biblioteca, Javier Strani. A conversa com Mesa Toré congrega não só informações sobre o Centro, suas realizações ao longo de cerca de quarenta anos e um balanço de sua importância, como reflexões poéticas de redobrado interesse, já que o entrevistado, além de enfronhado nas funções de gestão do Centro Cultural, é também poeta. O diálogo com Javier Strani mantém o tom do anterior. Igualmente escritor e poeta, Strani compartilha sua longa experiência a frente da Biblioteca do Centro, destacando a relevância de seus arquivos e fundos documentais para os sempre renovados estudos sobre a Geração de 27, alguns dos quais ele comenta valendo-se da percepção acurada de seu contato constante com pesquisadores de muitas partes do mundo.</p>
         <p>O dossiê “Em torno aos 100 anos de <italic>Marinero en tierra</italic>” termina com a resenha de Raphael Boccardo sobre o volume <italic>La Amistad, Patria de los Sin Patria</italic> (Editora Renacimiento, 2023), que reúne cartas inéditas trocadas entre Rafael Alberti, Maria Teresa León e Max Aub, entre 1953 e 1972, anos de exílio daqueles na Argentina e na Itália e deste no México. Como bem observa Boccardo, o valioso epistolário testemunha o quão significativa foi a prática epistolar entre intelectuais espanhóis exilados, para quem as cartas encarnavam o signo da amizade possível, capaz de delinear tanto um “pertencimento simbólico” quanto uma “continuidade subjetiva”.</p>
         <p>Com efeito, diferentes espécies de laços e rupturas pontuaram a experiência de Rafael Alberti desde <italic>Marinero en tierra</italic>. Não deixa de ser curioso que o convite da <italic>Caracol</italic> para (re)pensar esta obra cem anos depois de sua aparição tenha rendido um dossiê breve, mas não por isso menos contundente, como se emulasse a feição dos breves e contundentes poemas que compõem o livro inaugural do gaditano.</p>
         <p>Esperamos que os leitores e leitoras dessa revista disfrutem desse percurso espaço-temporal, salpicado de discussões necessárias e em nada conclusivas, uma vez que mantêm um mar de palavras aberto e que buscam destrinchar tanto essa obra inaugural de Rafael Alberti como seu vasto entorno.</p>
         <p>A expressão “livro inaugural”, aliás, é potencializada na (re)leitura daqueles tantos breves poemas, que, reiteradamente, dizem pela primeira vez. Mas também predizem e “tomam agouro”<xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref> ao consultar-se com a tradição imemorial das cantigas populares medievais e árabe-andaluzes, transfiguradas nos signos diletos do poeta vanguardista:</p>
         <verse-group>
            <title>Ilusión</title>
            <verse-line>–Madre, vísteme a la usanza</verse-line>
            <verse-line>de las tierras marineras:</verse-line>
            <verse-line>el pantalón de campana,</verse-line>
            <verse-line>la blusa azul ultramar,</verse-line>
            <verse-line>y la cinta milagrera.</verse-line>
         </verse-group>
         <verse-group>
            <verse-line>–Adónde vas, marinero,</verse-line>
            <verse-line>por las calles de la tierra?</verse-line>
         </verse-group>
         <verse-group>
            <verse-line>–¡Voy por las calles del mar!<xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref></verse-line>
         </verse-group>
         <p>Ou ainda com a poesia de matriz erudita, como no soneto “A Juan Antonio Espinosa, capitán de navío”, ou na rigorosa <italic>terza rima</italic> que estrutura o poema-prólogo “Sueño del marinero”.</p>
         <p>Cem anos depois, <italic>Marinero en tierra</italic> ainda caminha/navega da experiência vivida à experiência poética sem perder o teor de verdade que aquela lhe concede tampouco o estatuto de criação que esta exige.</p>
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         <fn fn-type="other" id="fn01">
            <label>1</label>
            <p>Para mais detalhes, ver: SORIA OLMEDO, Andrés. La depuración de la mirada. En torno al neopopularismo de Rafael Alberti. <bold>Cuadernos hispanoamericanos</bold>. Homenaje a Rafael Alberti. Madrid, n. 485-486, Noviembre-Diciembre 1990, p. 109..</p>
         </fn>
         <fn fn-type="other" id="fn02">
            <label>2</label>
            <p>Considerando a definição e a etimologia do verbete “Inaugurar” no <italic>Dicionário Houaiss</italic>. &lt;<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php/9b0/inaugurar">https://houaiss.uol.com.br/houaisson/apps/uol_www/vopen/html/inicio.php/9b0/inaugurar</ext-link>&gt;</p>
         </fn>
         <fn fn-type="other" id="fn03">
            <label>3</label>
            <p>ALBERTI, Rafael. <bold>Poesía I</bold>. Edición de Jaime Siles. Barcelona: Seix Barral, 2003, p. 172.</p>
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