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				<journal-title>Revista Caracol</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2317-9651.i28p278-309</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Vária</subject>
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				<article-title><italic>Manuscrito cuervo</italic>, o humor na absurda tragédia da guerra</article-title>
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					<trans-title><italic>Manuscrito cuervo</italic>, humor in the absurd tragedy of war</trans-title>
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						<given-names>Amanda</given-names>
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                    <bio>
                    <p>Doutoranda em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp); mestra em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pesquisa financiada pela Capes. Tem licenciatura em Letras/ Português e bacharelado em Línguas Estrangeiras/Inglês-Espanhol pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). </p>
                    </bio>
                    <email>amandaberchez@gmail.com</email>
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						<surname>Oliveira</surname>
						<given-names>Katia Aparecida da Silva</given-names>
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                    <bio>
                    <p>É professora, pesquisadora e tradutora, é doutora em Letras (Unesp, 2016) e mestre em Literatura Espanhola (USP, 2008). É professora de Literaturas da Espanha na Unifal-MG desde 2010. Desenvolve pesquisas sobre literatura de autoria feminina, tradução, e literatura, história e memória. </p>
                    </bio>
                    <email>katia.oliveira@unifal-mg.edu.br</email>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2024</year>
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            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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			<issue>2</issue>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este estudo parte da hipótese de que o humor foi o mecanismo que Max Aub conseguiu eleger para, em Manuscrito cuervo, narrar os traumas contraídos em ocasiões várias, abordar o peso que carregou consigo das tragédias vivenciadas. Entre elas, a Guerra Civil Espanhola, em que ele foi classificado como “comunista perigoso” e, por isso, encaminhado para o campo de concentração de Le Vernet. Isso nos ajuda a entender a condição “entre-terras” do autor (que nasceu parisiense, se afiliou espanhol, regressou à França enquanto prisioneiro de guerra e, por fim, se refugiou no México), que mais pareceu ter sido prismada como impossibilidade de pertencimento e de situar sua individualidade. Foi donde reclamou um corvo para registrar experiências, em especial, da guerra, mas também adentrando problemáticas relacionadas, como exílio e identidade. Depreendemos que, pelo cômico, Aub violou a potência e a impenetrabilidade dos horrores que conheceu pelas mãos de outros “humanos”, embora nunca tenha disso se desvencilhado. Uma vez testemunha, sempre testemunha.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This study has as its hypothesis humor was the mechanism Max Aub managed in Manuscrito cuervo to narrate the traumas acquired on several occasions, addressing the burden carried from the experienced tragedies. Among them, the Spanish Civil War, during which he was labeled a “dangerous communist” and consequently sent to the concentration camp of Le Vernet. This helps us understand the author’s in-between condition (born in Paris, affiliated with Spain, returned to France as a prisoner of war and ultimately took refuge in Mexico), that seemed to represent an impossibility of belonging and situating his individuality. It was from this standpoint that he summoned a raven to record experiences, particularly of war, while also delving into related issues like exile and identity. Through humor, Aub breached the power and impenetrability of the horrors experienced at the hands of other “humans”, although he never entirely detached from them. Once a witness, always a witness.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Max Aub</kwd>
				<kwd>Manuscrito Cuervo</kwd>
				<kwd>Cômico</kwd>
				<kwd>Guerra Civil Espanhola</kwd>
				<kwd>Franquismo</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Max Aub</kwd>
				<kwd>Manuscrito Cuervo</kwd>
				<kwd>Comic</kwd>
				<kwd>Spanish Civil War</kwd>
				<kwd>Francoism</kwd>
			</kwd-group>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<sec>
				<title>1. O perene sonho utópico com Estados de autômatos</title>
				<p>Houve um momento da história em que se pretendeu e defendeu o desengajamento das artes de quaisquer moções políticas, morais, práticas, utilitárias <italic>etc</italic>. Como se isso fosse possível. Como se um sujeito compositor não carregasse consigo e manifestasse as chaves e as condições que ensejaram e forjaram sua existência até quando da composição, fosse as afirmando, as declinando ou mesmo ambas. Como se o lugar da enunciação pouco ou nada pesasse em sua concepção. Convicção similar seria a de que os enunciados, uma vez emitidos e predominantemente aceitos, se acomodassem num complexo de verdades alegadamente neutras e universais; nessa perspectiva, não haveria por que de questionar o que vale para todos, justamente por valer para todos. Castro-Gómez (2005) faz o paralelo desta lógica com a <italic>hybris</italic> grega, conceito referente ao descomedimento de um mortal ao crer poder transcender para o divino. A arrogância contida nessa desmesura é de natureza análoga ao desprezo pelo ponto de partida, ao desejo de se desenlaçar dele, de se provar em soberania, inconteste. A isto, ele chamou de <italic>la hybris del punto cero</italic>. Pois neutralidade não existe, e a suposição de universalidade é etnocentricamente orientada.</p>
				<p>A intenção de fazer arte enclausurando-se em torre de marfim, embora decorrente de um sentimento primevo e de cunho revolucionário contra a perda do aspecto humano na modernidade (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Paz, 2014</xref>), ganhou força no século XIX, em que a ideia de progresso irrestrito (especialmente em sentido científico-tecnológico) ainda soava plausível, corria por entre alguns ainda bastante esperançosos. Em outros momentos, como o século XX e suas modulações de barbárie, esse enclausuramento pareceu menos possível de acontecer, senão justamente impossível. Como permanecer incólume a tanto sangue derramado, a milhares de corpos putrefando empilhados? Ou a existências em estilhaço, suas angústias inacalentáveis, o sentimento de putrefar em espírito após ter conhecido o horror em forma pura e a ele sobrevivido?</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2. Um ponto de vista não passa da vista de um ponto</title>
				<p>Em <italic>El libro de los abrazos</italic>, Eduardo Galeano trouxe à baila o seguinte provérbio africano: “<italic>Hasta que los leones tengan sus propios historiadores, las historias de cacería seguirán glorificando al cazador</italic>.” (1999, p. 104). Ao retomá-los (autor e esse dito), Hugo <xref ref-type="bibr" rid="B1">Achugar (1997</xref>), por sua vez, chamou atenção para os contornos dos campos intelectuais e de ação desses âmbitos metafóricos em jogo: dos leões e do(s) caçador(es). Costurando as assertivas apresentadas até agora, chegamos à fórmula do hegemônico, cujo anseio é fazer-se absoluto (e, portanto, único), afim ao de Narciso, que olha só para si, considera só a si, encontra dignidade só em si. Para os caçadores, que queriam as cabeças dos leões, as histórias destes não importavam. Não obstante, elas existiram. Havia, com efeito, vida entre os leões, eles rugiram até quando puderam. Mas, felizmente, alguns desses rugidos ecoaram e, quando foi a hora de chegarem os historiadores e outros entusiastas dos leões, se fizeram enfim ouvidos. Dadas ao conhecimento, as histórias dos leões não nos deixam esquecer quão maculadas de sangue estiveram as mãos dos caçadores. Pois, na marcha da história, e apesar dos tenebrosos eclipses que acometem os seres de tempos em tempos, a tendência é de superar episódios e sistemas de opressão, passando a olhar para eles com muito pesar e muito mal-estar, sim, mas para lembrar de que, se eles existiram, e se não continuarmos a combatê-los com vigor também pela posteridade, podem voltar a existir. </p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>Guerra e escrita, sem paz</title>
			<sec>
				<title>1. Não existe arte apolítica</title>
				<p>No ensaio <italic>Why I write</italic> de 1946, Orwell deixou manifesta sua renúncia a escrever sobre temas desligados das situações em efervescência na época, como a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), na qual, inclusive, ele lutou, declarando ser contra qualquer modulação de totalitarismo. Para ele, não havia sentido no propósito de uma arte apolítica nem em sua defesa, pois essas façanhas são, em si mesmas, políticas: “<italic>Everyone writes of them in one guise or another. It is simply a question of which side one takes and what approach one follows</italic>.” (<xref ref-type="bibr" rid="B19">2005</xref>, p. 8). Logo, toda escrita é política, pois o próprio viver é político. Já de Anzaldúa, notamos a urgência de escrever também pensando politicamente, pois, se comunicar úlceras sociais, violências e traumas é aplicação perigosa, não o fazer é ainda mais: “<italic>I write because I’m scared of writing but I’m more scared of not writing.</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">1983</xref>, p. 170). O estadista inglês Frederick Douglass, que experienciou a servidão e, com ela, a impossibilidade à educação (pois que “senhor” quer um escrav[izad]o pensante e possivelmente insurgente?) também ratificou, depois de letrado, tamanho poder abarcado nos atos de leitura e escrita. Não à toa Winston Smith, do <italic>1984</italic> orwelliano, mantinha um diário às escondidas do “Grande Irmão”, cuja doutrina pregava que a soma de 2 e 2 é 5. A realidade que nos consome é absurda, então ousemos duvidar: parece ser este o recado. “Ó meu corpo, faz sempre de mim um homem que questiona!” (Fanon, 2020, p. 242).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2. A dificuldade humana em manifestar, crer, significar o terrível </title>
				<p>Sem questionamentos, incorremos em alto risco de incorporar cabalmente lógicas de disparate que, segundo nos lembra a história, estão sempre à espreita, se renovando e sofisticando, alto risco de justificar atrocidades, tomar o desumano por aceitável, normal. A guerra nos serve novamente como exemplo disso. Vejamos a utopia nazista, assentada no juízo de superioridade ariana, ocupando-se de aniquilar e/ou condenar à morte em vida (escravizar) todos aqueles que não encaixavam em tal equação (o foco era nos judeus, mas também martirizando deficientes físicos e/ou mentais de outras localidades, poloneses e demais populações eslavas, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, comunistas, socialistas e mais inimigos políticos). Tamanhas foram as crueldades e monstruosidades perpetradas nesse sistema de ódio e seus engenhos de massacre e extermínio, que essa configuração tendeu a ser rejeitada como possível, real. Enquanto os opressores tinham consciência da impiedade e do desprovimento de sentido em suas dinâmicas, conforme lemos na seguinte fala de um agente nazi recuperada por <xref ref-type="bibr" rid="B17">Levi (2004</xref>, p. 9),</p>
				<disp-quote>
					<p>Seja qual for o fim desta guerra, a guerra contra vocês nós ganhamos; ninguém restará para dar testemunho, mas, mesmo que alguém escape, o mundo não lhe dará crédito. Talvez haja suspeitas, discussões, investigações de historiadores, mas não haverá certezas, porque destruiremos as provas junto com vocês. E ainda que fiquem algumas provas e sobreviva alguém, as pessoas dirão que os fatos narrados são tão monstruosos que não merecem confiança: dirão que são exageros da propaganda aliada e acreditarão em nós, que negaremos tudo, e não em vocês.</p>
				</disp-quote>
				<p>Os vitimizados, por sua vez, temiam a falta de crédito em seus relatos, se resistissem. De qualquer forma, o SS estava errado: houve afogados, sim, mas houve sobreviventes. Levi, originalmente químico de profissão, e outros nomes como Elie Wiesel e Jorge Semprún trouxeram seus testemunhos, suas experiências concentracionárias excruciantes para a ficção. Não que houvesse (tampouco poderia haver, já nos advertiu <xref ref-type="bibr" rid="B7">Derrida</xref> [2000]), nessa empreitada, alegação de exatidão epistemológica. Para os que escaparam, o (re)acessar o trauma por meio da escrita compreendia mais uma forma de lidar com a dor, com a culpa. Nas palavras de Semprún, trata-se da angústia “<italic>porque no se está muerto, precisamente, porque se ha sobrevivido</italic>.” (2012, p. 57). Pois só aqueles que não voltaram é que tiveram a experiência completa dos terrores da guerra, quer dizer, do terror que é a guerra: “<italic>Pero no había, jamás habría supervivientes de las cámaras de gas nazis. Nadie jamás podrá decir: yo estuve allí</italic>.” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Semprún, 2012</xref>, p. 57). Donde só lidemos com testemunhas/os parciais, que carrega(ra)m o peso dos abusos por toda a vida.</p>
				<p>Esse medo de não ser ouvido - ou pior: de ter seu relato desacreditado - junta-se à tensão do inexprimível (de tão sinistros, inadmissíveis os desdobramentos da guerra), à insuficiência linguística, relatou Antelme (<italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B21">Seligmann-Silva, 2008</xref>, p. 70):</p>
				<disp-quote>
					<p>E desde os primeiros dias, no entanto, parecia-nos impossível preencher a distância que descobrimos entre a linguagem de que dispúnhamos e essa experiência que, em sua maior parte, nos ocupávamos ainda em perceber nos nossos corpos. [...] Mal começávamos a contar e sufocávamos. A nós mesmos, aquilo que tínhamos a dizer começava então a parecer inimaginável.</p>
				</disp-quote>
				<p>O que em literatura incide como representação do irrepresentável (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira, 2011</xref>). O nível de absurdo a que chegaram determinados seres humanos quando em poder foi tão inimaginavelmente elevado, que aconteceu, por exemplo, de Max Aub - sobrevivente ao exílio republicano após a Guerra Civil Espanhola, cujo disfórico saldo foi a instituição da ditadura franquista, e aos campos de concentração franceses, bem como prolífico (embora amiúde olvidado) literato em língua espanhola - se ver impelido a recorrer à voz de um animal para tratar desses procedimentos (eliminação, expropriação, desumanização <italic>etc</italic>.) pertencentes e facultados pelo bélico. O caso de extrema repressão de que foi alvo o poeta e dramaturgo Federico García Lorca, culminando em sua morte em 1936, também nos faz atentar para os perigos a que estiveram expostos os que ousavam ter voz em tempos e regimes de intolerância. </p>
				<p>De volta a Aub: apreendemos a personagem do <italic>cuervo</italic>, no <italic>Manuscrito</italic>, construída com muito mais benignidade e dotada de muito mais racionalidade do que, efetivamente, certos homens da primeira metade do século XX: a “era da confusão” para H. G. Wells; “era da catástrofe” para Eric Hobsbawm. E dissemos “homens” porque, como sabiamente frisado por Virginia Woolf em <italic>Three Guineas</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>, guerra é departamento masculino: “<italic>Here, immediately, are three reasons which lead your sex to fight; war is a profession; a source of happiness and excitement; and it is also an outlet for manly qualities, without which men would deteriorate</italic>.” (p. 7). Ou seja: homens que deterioram outros seres, suas formas de ser e existir no mundo, por se julgar melhores e na posse de plenas condições para governar sobre eles, subjugando-os, os asfixiando em liberdade. É tanta a absurdidade da guerra (sua falta de lógica, suas disposições e arbitrariedades), que o corvo demonstra entendimento equivocado sobre o campo de concentração (seu projeto, seu escopo, seu funcionamento, seu alicerce ideológico <italic>etc.</italic>), apesar de entendermos ser ele acurado e justo no tópico da mediocridade humana. Também nisso consiste a sátira de Aub, expressando pela vereda do humor “<italic>the horror of an unthinkable experience in a coherent manner</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>, p. 23).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3. Sobre os “perigos” da arte</title>
				<p>Um parêntesis faz-se oportuno para que acrescentemos algumas palavras sobre Le Vernet, comuna francesa que comportou um campo de concentração, julgado por Jacobo (o corvo) como “[...] <italic>para mayor y mejor aprovechamiento de españoles</italic>” (Aub, 1995, p. 187). Primeiramente, foi engendrado para punição dos apontados como politicamente suspeitos ou perigosos, sendo Aub um deles, esse “<italic>hebreo, comunista y revolucionario de acción</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Greco, 2016</xref>, p. 159) enredado em atividades controversas. O que o levou a ser nele internado duas vezes (de maio a novembro de 1940 e de setembro a novembro de 1941), antes de ser transferido para Djelfa na Argélia. Com a declaração da Segunda Guerra em 1939, passou a abrigar outros estrangeiros, além dos refugiados republicanos espanhóis. </p>
				<p>Entre os campos na França, ficou conhecido como o mais repressivo e com mais rigidez, tendo sido comparado aos nazistas (com exceção do crematório), também devido às péssimas condições a que eram sujeitados seus prisioneiros (por exemplo: alimentação e higiene parcas, exposição a frio elevado). Foi fechado em 1944. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>)</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>A leitura de um corvo sobre o homem, o pior de todos os animais</title>
			<sec>
				<title>1. Formalização de nossas intenções</title>
				<p>Feitas essas considerações incipientes, propomos fazer a seguir uma leitura dessa obra a partir da cifra cômica, com vistas a averiguar como (e porque) se recorreu à estratégia do humor para abordar o aparelho concentracionário, ultrapassando operações retórico-discursivas e formas literárias tradicionais de representá-lo, narrar experiências e eventos-limite traumáticos, uma vez que elas não dão inteiramente conta do horizonte e das experiências adquiridas em subjugação. Debruçar-nos-emos sobre a hipótese de que Aub acionou a “brincadeira” como artifício para refletir ainda mais profundamente sobre as conjunções dessa realidade de atrocidades e, com isso, também atacar o autoritarismo, seus arranjos coercitivos. O autor os desmantelou já pelo fato de ter sobrevivido ao regime do absurdo; com sua arte, continuou sua resistência, sendo representante da prevalência da vida sobre a morte. Como para outros que subsistiram, o fazer literário não se deu por prazer de Aub pela escrita, mas, sim, por necessidade, foi o meio encontrado para romper a impermeabilidade e a força do trauma, que desencadeou o ato da narração e se imprimiu nele: “<italic>No siento el placer de escribir, creo que nunca lo sentí, pero sí el placer de intentar ver más claro, en mí y en mis personajes: todo</italic> [...] <italic>por intentar explicar y explicarme el tiempo en que vivo.</italic>” (1998, p. 197). Também foi como ele fez legar seu testemunho, para que entendêssemos e impedíssemos que mais seres viessem a passar por isso. É sobre não deixar apagar da memória coletiva as mãos cobertas de sangue dos caçadores de leões.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>2. Especificações teóricas</title>
				<p>Acabamos de insistir no absurdo bélico; agora, examinaremos como isso integrou as interpretações de um corvo sobre a condição humana baseadas na disposição do campo de concentração de Le Vernet, ao recuperar dos seres ali observados (tanto os opressores quanto os oprimidos) características que chamaram sua atenção por sua estranheza, donde se imprima o aspecto ridículo em todo este esquema (a saber: a guerra e suas implicações). O tratamento jocoso e exagerado de uma problemática tão séria mediante a representação dos homens e suas descrições caricaturizadas por parte de um pássaro esforçando-se em entender essa realidade insana é possível porque o humor, nos revelou <xref ref-type="bibr" rid="B16">Kundera (1994</xref>), é justamente o terreno em que se suspende o julgamento moral. Além deste paradigma que, por si só, ensejaria uma produção voltada ao burlesco, no caso de Aub (e provavelmente de outras vítimas), o humor parece ter correspondido a um mecanismo para enfrentamento da dor, para confrontar vários modos de trauma (ditadura, exílio, crise de identidade <italic>etc</italic>.), mas também de insurgência e catarse. Pois o trabalho que favoreceu o compartilhamento de experiências, informações, a inteligibilidade do inteligível e, com isso, o levantamento (ao mesmo tempo, individual e coletivo) de relatos e memórias que aqueles no poder não contavam que sobrevivessem também se prestou a atacar as estruturas que tornaram tudo isso infelizmente possível.</p>
				<p>Em <xref ref-type="bibr" rid="B6">Bakhtin (2015</xref>), a comédia e o riso são postos como ferramentas subversivas de condenação a relações e ordens hierárquicas, [em] configurações políticas autoritárias. Logo, obras nessa vertente (ou seja, voltadas ao humor) desmascaram e dilaceram a força de ideologias estatais dogmáticas repressivas, com enfoque punitivo para condutas e atos politicamente desmedidos, também de maneira a fazer justiça a demais vitimizados e dar continuidade às lutas por sociedades mais íntegras, que avancem ao invés de regredir pela violência. Assim, “<italic>the cathartic nature of humor mitigates any inappropriate or offensive feelings that may emanate after a first glance or reading of the text</italic>.” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>, p. 123). Isso à vista, sustentamos que, da elaboração cômica de Aub, jamais pode nem deve ser desconsiderado o motivador trágico. Temos em conta, como Kundera, que o humor está num “tipo especial de comicidade que, segundo Paz (e é a chave para compreender a essência do humor), ‘torna ambíguo tudo que atinge’.” (1994, p. 12). O pano de fundo deste palco caricato é grave; seus pilares, de sangue.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>3. Nevermore: nem corvos admitem tamanho horror</title>
				<p>Em <italic>Manuscrito cuervo</italic>, o cronotopo do supracitado campo francês serviu de laboratório para o corvo Jacobo, condutor de um estudo universitário em âmbito antropológico em que se propôs a investigar os inusitados comportamentos dos homens - “<italic>una casta primitiva, netamente inferior</italic>” (Aub, 1995, p. 184) - e, por conseguinte, os erros e desvios neles englobados, na finalidade de evitar que estes viessem a ser cometidos pela raça corvina e comprometessem a primazia de sua cultura. Ou seja, as circunstâncias foram testemunhadas, mas no posto de espectador (o <italic>testis</italic> latino, que equivale à situação daquele que presenciou; para <xref ref-type="bibr" rid="B2">Agamben [2008</xref>], o “terceiro” num evento, numa dinâmica, numa contenda; isso em contraste com o <italic>superstes</italic>, também significando testemunha, mas aquela que vivenciou, sentiu na pele os choques e efeitos cobertos pelos acontecimentos em questão), já que ele não sofreu as intempéries nem o trauma do campo em sua linha de frente: “<italic>Todo cuanto describa o cuente ha sido visto y observado por mis ojos</italic>” (Aub, 1995, p. 185). Essa alternativa a uma abordagem factual que está no acionamento de um ser inesperado para testemunho hipotético e não imerso, <xref ref-type="bibr" rid="B8">Bowie (1999</xref>, p. 15) chamou de “<italic>estrategia desrealizadora</italic>”. E, não obstante a centralidade do corvo na obra, não ter sido um sobrevivente direto e a carência em propriedades comumente tidas por gloriosas em seu caráter parecem fazer dele um anti-herói.</p>
				<p>Apesar da descrença quanto a esse corvo-tratador posta em pauta pela crítica, que sinaliza sua limitação epistêmica por consistir em um pássaro (exemplo: <xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>), o discurso dele se (quis) aparenta(r) provido de bastante verossimilitude. Evidências disso temos tanto nas referências de Jacobo às universidades corvinas, a seus corpos docentes, a seu alegado compromisso acadêmico com a “verdade” quanto na oficialização do desejo de trazer tão somente fatos para seu trabalho: “<italic>Nada he dejado a la fantasía - esa enemiga de la política - ni a la imaginación - esa enemiga de la cultura. Todos los hechos aquí traídos a cuenta no lo son por mi voluntad, sino porque así sucedieron</italic>.” (Aub, 1995, p. 185), procurando ser o “<italic>más riguroso posible</italic>”. No entanto, esse discernimento distorcido de um “<italic>cuervo perfectamente serio</italic>” e “<italic>educado</italic>” (Aub, 1995, p. 184) encaminha a obra, como sustentamos, para alçadas humorísticas e paródicas. Tal como se numa espécie de <italic>esperpento</italic> (para falar de Valle-Inclán), a opção pela representação deturpada da realidade trágica do cosmos do campo, de modo a preterir outras mais fiéis, faz parte do plano para chamar a atenção para o anormal e, diante disso, criticar ferrenhamente as conformações “normalizadas” da sociedade.</p>
				<p>Assim, além de aventar a problemática de transmissão de experiências lancinantes pela literatura, Aub (aqui, aproximado de panoramas pós-modernistas) também provocou o questionamento sobre a postulação da história e, mais amplamente falando, da própria ciência como domínios que conseguem absolutamente precisar o “real”. <italic>Manuscrito</italic> abala a convicção na competência epistemologicamente confiável da escrita, por exemplo, ao oferecer versões sobre supostos fatos que são conflitantes com aquelas categoricamente divulgadas pelas instituições estatais, afora as múltiplas vozes (Jacobo, editor, tradutor - assunto que será melhor desenvolvido em instantes) que conferiram ao texto a forma e a organização em que ele se apresenta. </p>
				<p>Inferimos mais um argumento dessa obra como sendo o de que sempre existirão diferentes compreensões e posições, mesmo em ocasiões compartilhadas (a focalização, no caso, é nas histórico-político-sociais): “[...] <italic>el texto muestra no sólo las limitaciones de la descripción científica, de la interpretación de las culturas, sino también los irreductibles cruces ideológicos presentes en todo discurso que habla sobre el ‘otro’</italic>.” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Degiovanni, 1999</xref>, p. 220). É também possível detectar nessa ótica o posicionamento antiautoritário de Aub, a saber, contra uma única, inflexível e hegemônica possibilidade de existência e atuação no mundo.</p>
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				<title>4. Como a memória traumática, também uma forma literária segmentada</title>
				<p>Antes de avançar nossa análise, façamos constar que se trata de uma obra urdida em 1941, que apareceu primeiramente na imprensa em 1950 e, em 1955, teve sua versão final agregada à coleção de título <italic>Cuentos ciertos</italic>. Como mostrou <xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira (2011</xref>), é escorregadia sua classificação em termos de gêneros literários, pois ela mobiliza vários recursos a serviço derradeiro do testemunhal. Também deixemos algumas palavras quanto à sua forma, devendo já adiantar que ela nos parece não apenas contribuir como refletir as conjunções da manifestação dessa proposta memorialística.</p>
				<p>Após Jacobo se introduzir e procurar legitimar seu propósito com o manuscrito, seguem 55 fragmentos, que refletem as circunstâncias de composição da obra (a partir da compilação de vários fragmentos que Aub fez ao longo de suas passagens por Le Vernet), além de emblemar a própria feição estilhaçada de uma memória que, em dado momento, se cunhou por traumas. Como expusemos há pouco, existem mais duas figuras, as quais: J. R. Bululú, que alegou ter conhecido o corvo em campo (e sobrevivido a este), achado o manuscrito e o editado; e Aben Máximo Albarrón, quem o traduziu do idioma corvino para o castelhano. Assimilamos a integralização de tais personagens de maneira a afastar o texto de narrações autobiográficas mais recorrentes (pois sua forma não coincide com a de obras associadas ao gênero memorialista), apesar de a voz de Aub nunca se ausentar dele. Manejo polifônico, diria Bakhtin.</p>
				<p>Com o detalhe de que as iniciais do tradutor se assemelham às do autor, e o nome do editor faz alusão ao cômico, pois “<italic>bululú</italic>”, de acordo com a entrada desse verbete no dicionário da <italic>Real Academia Española</italic>, concerne tanto a um comediante que interpretava obras sozinho - do ponto de vista de Bowie (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Aub, 1999</xref>, p. 223), lemos: “<italic>comediante que en el Siglo de Oro actuaba en solitario imitando con su voz la de diversos personajes de la comedia que se encargaba de representar</italic>” - quanto a uma revolta, um escândalo. Há também a conexão com “<italic>bulo</italic>”, espanhol para notícia falsa, mentira. Tal escolha nos conduz então para notas de farsa e zombaria: “[...] <italic>evoca otra vez la traición, en la medida que significa un tipo muy especial de farsante: aquél que imita diferentes voces, o sea, aquél que es capaz de cambiar rapidísimamente de voz, tono y personalidad literaria</italic>.” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">De Marco, 1996</xref>, p. 564 <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B18">Oliveira, 2011</xref>, p. 70).</p>
				<p>Já a apreciação do corvo na seção “<italic>Consideraciones preliminares de mí</italic>”, isto é, colocando à tona um “<italic>yo</italic>” que justifica sua fala e seu afã (ou seja, se justifica), para tanto, se reportando a suas origens, nos faz lembrar do <italic>modus operandi</italic> de outro gênero literário que tem como uma de suas especificidades exatamente a incidência cômica: o picaresco; mais um expediente aubiano para orquestrar pelo humor a tragédia bélica. Neste ponto, o cômico está também em que, diferindo-se dos pícaros e suas procedências de privações, Jacobo se entrega à exaltação de sua estirpe ilustre, seu “<italic>extraordinario destino</italic>”, “<italic>buena estatura, ojos brillantes, pelaje lustroso, pico aguileño, pata agresiva, porte noble, croar estridente</italic>” (Aub, 1995, p. 182). Também nessa parte é lançado pelo corvo um pedido de desculpa por sua ignorância quanto ao lugar de seu nascimento, já que isso, de extrema importância aos humanos, baliza suas condições de vida, seu futuro. Não saber onde se nasceu, explica Jacobo, torna alguém perigoso; é donde depreendamos a determinação da identidade pela origem: “<italic>todos los españoles son hijos de toreros; los italianos, hijos de cantantes; los alemanes, hijos de profesores;</italic> [...] <italic>si chinos, hijos del arroz</italic>” (Aub, 1995, p. 183). Aqui, retoma-se o dilema do autor quanto à própria crise de identidade, em tendo nascido em Paris, morado em Valência, adquirido cidadania espanhola e mexicana, isso também devido ao degredo que o levou para o México, após ter deixado o campo francês de Le Vernet onde foi mantido duas vezes exilado. ¿Os <italic>figuráis un cuervo francés o un cuervo español, por el hecho de haber nacido de un lado u otro de los Pirineos?</italic> (Aub, 1995, p. 183).</p>
				<p>Jacobo acaba subordinando a humanidade ao ter sua raça em conta muito maior que ela, tanto que a aproxima da “<italic>clase de animales</italic> [...] <italic>de las lombrices</italic>” (Aub, 1995, p. 185), deixando bem claro que as semelhanças vão além da carência de asas. Logo pelo título <italic>Se questo</italic> è <italic>un uomo</italic>, podemos ver que Levi propôs revisões quanto ao estatuto do humano, as quais acreditamos já constarem desde <italic>Manuscrito</italic>. Um ser de quem se privou a liberdade, o livre-arbítrio, a individualidade, a possibilidade de se comunicar na própria língua <italic>etc.</italic>, é um homem? E esse ser que privou outros desses ramos humanizantes, é ele um homem também? Assim, ao que se indica, o estranhamento causado pela voz e pela potência de um corvo (ou seja, um não humano, um animal personificado) para narrar a realidade da guerra, mas cujo registro está em desacordo com ela, contribui para assinalar a desumanização não apenas daqueles arrancados de suas terras e/ou que passaram pelos campos de concentração, que tiveram reduzidas suas identidades, foram subalternizados e circunscritos a espaços estreitos demais até para os pássaros. Foram desumanos (talvez até mais drasticamente que esses últimos tratados), aqueles capazes de levar a cabo tais perversidades com pares seus, muitos, inclusive, sem peso algum em consciência.</p>
				<p>Além de garantir o distanciamento necessário para transcrever experiências de uma História dolorosa, a mediação de Jacobo na transmissão da economia do campo põe também à mesa o conflito para com a linguagem (e suas limitações) com que se depara, como vimos com Antelme, quando da escrita (ainda mais a do trauma) e a premência de experimentar outros horizontes linguístico-literários para expressão. Isso ajuda a entender a idealização de uma outra língua (a corvina - sua concepção, sua eleição), o fato de Aub ter recorrido a ela também para comunicar, embora deficientemente, o que testemunhou. Não percamos a referência à interdição às vítimas da utilização de suas línguas naturais, quer dizer, em geral, do uso de suas vozes enquanto sujeitos plenamente constituídos. Até por isso temos na obra um corvo se incumbindo do relato: “<italic>Alegoría de la imposibilidad del hombre contemporáneo de narrar experiencias radicales; alegoría que se construye a través de una narrativa de estructura irónica</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">De Marco, 1996</xref>, p. 560).</p>
				<p>O impasse situado por Aub e outros sobreviventes para narrar o trauma é prismado em Jacobo, haja vista seu embaraço em verter em termos corvinos suas acepções do que conheceu por ter estudado os homens em primeira mão, suas atribuições e suas manobras para (sobre)vivência no campo; isso é reconhecido como empecilho para a objetividade científica ambicionada: “Advertencia importante: <italic>Nuestro riquísimo idioma cuervo no puede expresar tan exactamente como yo hubiese deseado un</italic> cúmulo de <italic>palabras de las que no he podido todavía averiguar el exacto sentido.</italic>” (1995, pp. 186-187). A urgência em documentar e os apuros em fazê-lo denotam que o corvo não só se envolveu profundamente com as esferas humana/bélica, mas também foi afetado por seus corolários por vias indiretas. Pois ocorrências traumáticas contaminam, afligem, perturbam, além rigorosamente de suas vítimas, também todos aqueles aos quais estendem seu impacto, como o corvo ficcional e nós, seus leitores.</p>
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				<title>5. Tratado sobre a humanidade, essa estranha espécie sem penas</title>
				<p>Muito da dimensão humorística da obra se deve aos erros em que incorre Jacobo ao tomar as observáveis do campo de Le Vernet como valendo para os seres humanos em geral, isto é, tomar a parte pelo todo. Um exemplo é o comportamento dos homens, cujos traços ele reputa inerentes e categóricos a toda a humanidade. É precisamente isso que o direciona a deduções que, de tão equívocas, se prestam ao cômico, concomitantemente nos recordando da falta de sentido nas guerras e seus campos de concentração. Um lance que ilustra tanto o absurdo bélico como os julgamentos errôneos da ave é o da rotulagem dos homens em i) internos, os “<italic>presos, internados, detenidos</italic>”, e ii) externos, os “<italic>militares con o sin graduación</italic>” (Aub, 1995, p. 189), estimando os últimos como “<italic>seres inferiores y uniformados</italic>” que estão a serviço dos tidos por ela como “escolhidos”. </p>
				<p>Isso nos guia para outro ponto contemplado por Jacobo, que é o da categorização e/ou da hierarquização dos homens, da própria necessidade de fazê-las reiteradamente. A primeira divisão da humanidade feita por ele tem enquanto critério o passado: “<italic>A</italic> - <italic>Los que cuentan su historia</italic>.”, “<italic>B</italic> - <italic>Los que no la cuentan</italic>.”, “<italic>C</italic> - <italic>Los que no la tienen</italic>.” (Aub, 1995, p. 189). Dickey aponta que Aub aproveitou do amplo sentido da palavra “<italic>historia</italic>”, espanhol tanto para história (ciência) quanto para estória (narrativa, relato), no intuito de discutir a constituição identitária e memorialística dos exilados, os imbróglios em retomá-la após os traumas: “<italic>One part of the definition of being an exile resides in the loss of one’s history/story and of one’s individual and collective identity</italic>.” (2009, p. 155). Até por isso o critério seguinte do corvo é a língua: “<italic>A</italic> - <italic>Los que no tienen lengua</italic>.”, “<italic>B - Los que la tienen mala</italic> [...].”, “<italic>C</italic> - <italic>Los que teniéndola no hacen uso de ella, callando por no hablar, porque les tiene sin cuidado.</italic>”, “<italic>D - Los discretos (género que se extingue, sin remedio).</italic>” (Aub, 1995, p. 189). Pois a repressão do regime franquista (que incluiu recursos como a indisponibilidade de documentos, a veiculação de mentiras, a mistificação da História, a censura, o silêncio <italic>etc.</italic> - um molde bem orwelliano, um <italic>lugar ruim</italic> real) foi ingrediente fundamental para tecer a <italic>historia</italic> (história e estória) do vencedor e, por consequência, a do perdedor; noutras palavras e respectivamente, a dos caçadores e a dos leões.</p>
				<disp-quote>
					<p><italic>Me hallo de nuevo ante la imposibilidad de explicar uno de los fundamentos de la sociedad humana. ¿Cómo puede comprender un cuervo que otro cuervo valga más o menos que</italic> él <italic>siendo cuervo? Todos los cuervos somos negros, y basta. Los hombres, para que no haya lugar a dudas llevan señas exteriores de su rango: valen según sus galones, y por sus galones</italic>. (Aub, 1995, pp. 202-203).</p>
				</disp-quote>
				<p>No afinco de descrição, consta o comentário sobre quão fácil é chegar ao campo (dada a proximidade à rodovia, estando “<italic>a un vuelo de la estación</italic>”, tudo para simplificar ao máximo a vinda), mas quão difícil é sair dele, havendo “<italic>alambradas alrededor de las numerosas barracas</italic>” (Aub, 1995, p. 187), pensadas para que os internos tivessem mais tempo para devotar e desempenhar seus afazeres. Ocorre que, na avaliação do corvo, o campo é “<italic>uno de los centros culturales de mayor nombre y, quien ha pasado por</italic> él <italic>tiene asegurado su porvenir</italic>” (Aub, 1995, p. 187). Essa percepção ironiza a complexidade e as dificuldades enfrentadas durante a “graduação” no campo (cuja conclusão seria, em última instância, a saída dele). Outra investida sarcástica está na inferência de que os internos tampouco gostariam de se mudar de lá:</p>
				<disp-quote>
					<p><italic>Los internados viven a gusto, porque el que vive conforme con lo que espera es feliz - a pesar de las privaciones -.</italic> [...] <italic>de tan buen trato, los hombres no quieren marcharse de los campos de concentración. Los uniformados hacen lo necesario para darles gusto.</italic> (Aub, 1995, p. 229).</p>
				</disp-quote>
				<p>A crítica também se faz pela incapacidade de Jacobo em perceber o campo como espaço que se desliga das convenções e leis humanas, que não comporta práticas ordinárias dos homens, quer dizer, que reproduz um estado de exceção (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Agamben, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>). Enfim, ele falha em captar que o campo de concentração resume uma deturpação da realidade, não sendo dela um fractal, conforme crido por ele. Ao mesmo tempo, essa ironia serve para acentuar o teor de ininteligibilidade próprio desse universo, transgressor de fundamentos, critérios, direitos <italic>etc</italic>. da humanidade, mas também as incoerências nos comportamentos daqueles que atuam hediondamente sob sua lógica.</p>
				<disp-quote>
					<p><italic>De las excelencias de los campos el encierro mejora la condición humana. Para lograrlos excelentes suélenlos encarcelar cierto tiempo. Cuando los hombres de mando no pasan una temporada en una escuela superior de esta naturaleza, surge una época de decadencia, cercano el fin de un ciclo; los mandamases son destronados por gentes venidas de las cárceles y de los campos de concentración</italic>. (Aub, 1995, p. 202).</p>
				</disp-quote>
				<p>E, por falar em ironia, o dinheiro é vislumbrado pelo corvo como outro elemento-chave da escravidão humana, que se atinge ao se vender e trabalhar. Neste momento, o relator expressa sua gratidão ao “<italic>Gran Cuervo</italic>” (o qual intuímos ser uma autoridade) por impedir que essa “<italic>plaga</italic>” se instalasse por entre a comunidade corvina, uma vez detectado que essa “<italic>enfermedad</italic>” leva os homens a “<italic>someterse voluntariamente a hacer toda clase de ejercicios completamente inútiles desde que empiezan a tener uso de razón y fuerza bastante, hasta su muerte; que tanto es el poder del vicio</italic>” (Aub, 1995, p. 195). Irônico é, então, seu parecer de que a forma encontrada para livrar os “internos” desta moléstia é designando-os a um trabalho sem para tanto receber, isto é, excluindo dessa operação o dinheiro. Ele diz ter ouvido dizer que, nos campos alemães, se trabalha por “alegria”: “<italic>Es decir, que los hombres están intentando cambiar monedas por sonrisas</italic>.” (Aub, 1995, p. 205). Trata-se de um novo modelo de cruzada, contra o monetário e o remunerável, dentro de sua análise.</p>
				<p>Essa questão do dinheiro insere-se numa escala maior, relativa à fixação humana para com papéis, dos quais se depende até para estabelecer e/ou situar a identidade: “<italic>Los hombres para andar por el mundo necesitan llevar papeles. No pueden nacer sin ellos.</italic>” (Aub, 1995, p. 206). A constatação de Jacobo prossegue pontuando outra serventia do papel aos humanos, de modo a atestar ainda mais sua inferioridade (e não só perante os Corvos - com maiúscula proposital -, mas, sim, os animais em geral): “<italic>Lo que hacemos volando, atéstales mil suspiros, y lo tienen por vergonzoso</italic>.” (Aub, 1995, p. 207). Neste caso, o cômico está externo ao texto, residindo no fato de que, para ele, essa constatação sobre a fragilidade do ser humano não é uma zombaria. Sem embargo, a crítica dirige-se com mais intensidade ao sistema burocrático dos regimes totalitários, à exigência de documentação em abundância e às corrupções envolvidas nesse processo, já que, nessa classe de meros papéis, vidas eram banalmente decididas; uma das formas mais sórdidas de se desumanizar a identidade. Em condição similar à de outros exilados, Aub vivenciou diretamente as consequências dessa burocratização, dada sua inscrição policial de “comunista perigoso”, que atravancou a obtenção de um visto para poder regressar à França. Logo, foi com propriedade (isto é, com base na própria essência multi-identitária) que Aub fomentou, pelo <italic>Manuscrito</italic>, uma discussão, como conferimos há pouco, acerca da complexidade das políticas de identidade:</p>
				<disp-quote>
					<p>[...] <italic>this need to have papers is what ultimately represented the decisive factor that determined the fate of each exile. It was one single paper</italic> - <italic>a visa</italic> - <italic>that marked the road that each exile would take: the journey to Mexico (or other Latin American countries), or the ill-fated road to death in Nazi concentration camps or perhaps back to Spain</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>, p. 144).</p>
				</disp-quote>
				<p>Ainda sobre o dinheiro, constatamos que ele medeia as relações no campo. Jacobo arrazoa sobre os internos “<italic>enfermos y sanos</italic>” (Aub, 1995, p. 198), os primeiros podendo ser dispensados do trabalho caso, para isso, consigam “remunerar” por sua convalescença (noutras palavras: comprá-la) os de “<italic>batas blancas</italic>”, também organizados em hierarquias: “<italic>el de los tres galones, el de los dos galones, el del galoncito</italic>” (Aub, 1995, p. 198). Do contrário, o destino dos adoecidos é a prisão, como veremos no próximo excerto. Além da nítida crítica à corrupção por suborno, há aquela que toca à obsessão da classe médica por dinheiro, sua insensibilidade para com a dor alheia:</p>
				<verse-group>
					<verse-line>- ¿<italic>Qué tienes?</italic></verse-line>
					<verse-line>- <italic>Me duele el estómago.</italic></verse-line>
					<verse-line>- ¿<italic>Tienes dinero?</italic></verse-line>
					<verse-line>- <italic>No.</italic></verse-line>
					<verse-line>- <italic>Entonces no puedo hacer nada.</italic></verse-line>
					<verse-line>- <italic>Lo recibiré mañana.</italic></verse-line>
					<verse-line>- <italic>Vuelve mañana.</italic></verse-line>
					<verse-line><italic>Otro</italic>:</verse-line>
					<verse-line>- <italic>Me duele la cabeza.</italic></verse-line>
					<verse-line>- <italic>Consulta inmotivada. Ocho días de cárcel.</italic></verse-line>
					<verse-line>(Aub, 1995, p. 199).</verse-line>
				</verse-group>
				<p>Jacobo também discorre sobre os processos de deterioração e envelhecimento dos submetidos a trabalhos forçados, maus-tratos, abusos <italic>etc.</italic> no campo de concentração, os quais eram acelerados por essa árdua realidade com que se defrontavam. As elucubrações hiperbólicas sobre “<italic>el efecto del tiempo en el hombre</italic>”, apesar de ser algo passível de tristeza na visão do corvo, são apreendidos satiricamente por nós no extraliterário, mesmo porque é tomado para comparação o desenvolvimento físico corvino, atingido aos seis meses, depois disso, se mudando apenas em tamanho:</p>
				<disp-quote>
					<p>¡<italic>Qué espantoso es un hombre viejo!</italic> [...] <italic>los hombres padecen toda clase de vejaciones con el correr del sol; se transforman, su feísima piel desplumada se arruga, cáeseles el pelo, los dientes, se consumen; todo se les vuelven colgajos, sálenles manchas oscuras y las costillas se les marcan como si el esqueleto quisiera salirse de tan innoble envoltura. Carraspean, escupen,</italic> peden<italic>, a quién</italic> más <italic>mejor.</italic> (Aub, 1995, p. 193).</p>
				</disp-quote>
				<p>A seção em que o corvo versa isso se chama “<italic>De la limpieza</italic>”. Nela, os abusos e os maus-tratos de que falávamos ficam evidentes, posto que ele diz sair das duchas com desgosto, por lá ter divisado, por exemplo, prisioneiros sem membros lavando seus “tocos”, muitos com cicatrizes espalhadas por seus corpos, enfim, no geral, pessoas bastante debilitadas: “<italic>Esas delgadas piernas, esos vientres caídos, esas nalgas chupadas... Ahora comprendo por qué los hombres se visten</italic>.” (Aub, 1995, p. 194). Destacamos a indignação irrisória de Jacobo com esse tratamento aos detentos que considera de “<italic>tanto esmero y lujo</italic>” (Aub, 1995, p. 194), nada compatível com a cor marrom da água que sai de seus corpos, ou seja, uma entre as várias demonstrações das miseráveis circunstâncias em que eram mantidos. Curiosos são os limites intelectuais do corvo, que nota a sordidez em que se achavam os “internos”, mas não a do sistema que os encarcerou e assim os deixou: “<italic>Marchitos, lacios, flacos, sarmentosos, tal como olivos o troncos muertos, con sólo el pellejo y los huesos, tizones;</italic> [...] <italic>mohosos, orinados, cubiertos de maculas. ¡Qué guarrería!</italic>” (Aub, 1995, p. 194). Assim, entendemos que os comentários feitos sobre os corpos dos prisioneiros oscilam entre uma espécie de desdém e pena.</p>
				<p>Outro raciocínio afim (e será que tão desacertado assim?) seu é o de que os homens, para ter liberdade, abdicam dela ao levantar barreiras que a obstruem, como os passaportes, os tratados e as bordas: “<italic>Cifran los hombres su ideal en la libertad, amontonando fronteras.</italic>” (Aub, 1995, p. 214). Apesar disso, ele atina perfeitamente o cunho abstrato das fronteiras territoriais e toda falta de sentido envolvida em sua defesa: “<italic>Estos extraños seres se pasan la vida matándose los unos a los otros</italic> [...]<italic>, sin lograr entenderse, como es natural, para rectificar esas</italic> líneas inexistentes. (Aub, 1995, p. 208).</p>
				<p>Arrematemos nosso debate voltando ao prólogo de <italic>Manuscrito</italic>, pois cremos ser deveras significativo o motivo da obra inacabada, tal como sugere o comentário do editor J. R. Bululú: “<italic>Por lo visto no tuvo tiempo de acabarlo, o no se trata más que del borrador del libro publicado en lengua corvina.</italic>” (Aub, 1995, p. 178). A falta de uma conclusão, ainda mais em se tratando de um ser que visava à precisão científica, pode indicar, além da impotência da escrita (em geral, da linguagem) em documentar realidades e Histórias duras, também de abordar em completo relato experiências traumáticas. É bem ilustrativo disso o fato de Aub ter se dedicado à composição de muitas obras relativas à Guerra Civil e aos campos de concentração, as quais podem ser vistas como que num mosaico e nos mostram que a condição de testemunha, uma vez contraída, é indissociável, ininterrupta e inesgotável ao ser: “<italic>Las notas y recuerdos que acumulé necesitarían cien años de vida para resolverlos en libros.</italic>” (Aub <italic>apud</italic><xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>, p. 137).</p>
				<p>A inexistência de um desfecho ou conclusão nos leva a cogitar o desaparecimento do corvo, desenlace correlato ao de muitos no quadro de uma Espanha fascista, que nunca mais voltaram ou dos quais nunca mais se soube. A controversa morte de Lorca, logo ao início da Guerra Civil (tendo sido dela uma das primeiras vítimas), é para nós um exemplo muito expressivo disso. Analogamente, não temos, como leitores, pistas do que sucedeu com Jacobo; <xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey (2009</xref>) infere sua morte simbólica. O corte abrupto - “<italic>El índice</italic> [...] <italic>promete más de lo que el texto da</italic>” (Aub, 1995, p. 178) - serve para frisar a catástrofe que, em movimento oposto ao da ave, continua se manifestando, se insinuando pela obra. Também em nível simbólico, outra leitura possível seria sua total assimilação do fardo concentracionário ao ponto de, como os prisioneiros, não mais se encontrar capaz de exercer sua voz ou, talvez ainda mais drástica e abrangentemente, de prosseguir sua jornada dignamente. Vazios e incertezas, violência e mortes, estes são, pois, elementos assíduos nas narrativas traumáticas, de uma ponta a outra. É esta a linguagem da guerra.</p>
				<p>Diante de tudo o que foi exposto, é inequívoca, ao fim, a importância dos postos de J. R. Bululú e Aben Máximo Albarrón na conservação da memória de Jacobo, também e particularmente enquanto testemunha dos acontecimentos cruéis e funestos do campo, mediante a publicação de seus registros sobre eles. Tanto que Bululú declara ter entregado o manuscrito à imprensa “[...] únicamente <italic>como curiosidad bibliográfica y recuerdo de un</italic> tiempo pasado <italic>que, a lo que dicen,</italic> no ha de volver<italic>, ya que es de todos bien sabido que</italic> se acabaron las guerras y los campos de concentración” (Aub, 1995, p. 178, grifo nosso). Mas sabemos muito bem que, embora anunciado o término das guerras e dos campos de concentração, o trauma não simplesmente desvaneceu ou cessou. Pelo contrário: o horror dos “tempos [supostamente] passados” segue vigoroso, em assombro, alimentando-se dos descuidos e das negligências, ameaçando retornar. De qualquer forma, face ao medo, uma saída para quando do confronto é o humor; no caso dos detidos, por exemplo, viemos ao conhecimento de que ele funcionou como artifício terapêutico à sobrevivência, para não deixar morrer as abatidas porções de individualidade, identidade, humanidade <italic>etc.</italic> numa atmosfera a elas tão inóspita. O cômico significou-lhes contingência de recuperação, esperança da melhora. Podemos nos despedir na afirmação, tendo por base o trabalho com <italic>Manuscrito</italic>, de que esse ingrediente também permitiu que conhecêssemos as dores pelas quais passaram aqueles que vieram antes de nós e, assim, nos impele a dar continuidade, sem que hesitemos, às indispensáveis e urgentes lutas sociais para que elas, em verdade, não voltem mesmo a acontecer.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais: todo es hablar, porque o silêncio não é possível</title>
			<disp-quote>
				<p>“<italic>RECORDAR: Del latín</italic> re-cordis, <italic>volver a pasar por el corazón</italic>.” - Eduardo <xref ref-type="bibr" rid="B14">Galeano (1999</xref>)</p>
			</disp-quote>
			<p>Na empreitada de revisitar o passado, para fazer justiça e/ou reparar injustiças históricas, uma instituição que pode operar na condição de evidência é a literatura. A arte é frequentemente esse meio para falarem os que se queria manter calados. Pois, pela arte, também se pode dar vazão à memória, basilar ao testemunho; donde, para se testemunhar, sejam compostas narrativas que partam da memória. Mas nem sempre essas composições se pretendem, se apresentam ou mesmo são de caráter autobiográfico.</p>
			<p>Mesmo vindo posteriormente à famosa geração vanguardista de 27, Aub, podemos dizer, experimentou formas estético-artísticas distintas para enveredar por realidades que os esquemas convencionais, segundo entendeu, não conseguiam representar. O que pode muito bem ter se combinado com sua necessidade de certo afastamento para poder tocar, até com mais profundidade, em experiências bárbaras e absurdas, refletoras da capacidade abominável dos seres humanos de serem nocivos e fatais para a própria humanidade, mas também causar toda sorte de males e destruição para onde puderem estender sua ação. É o <italic>antropoceno devastador</italic>, o sistema de arrogância, leviandade, ignorância, dominação e violência dos homens, que se julgam “senhores, conquistadores e proprietários” para mais que “dos recursos da terra”, como disse Murad (2021, p. 589). </p>
			<p>É em face e corolário de todo esse poder destrutivo que também enxergamos a criação de <italic>Manuscrito</italic>, narrativa de rupturas e fragmentações, cuja primeira “pessoa” não é humana. De tão caótico esse campo bélico (com) que (se) comunica, Aub reclamou um narrador não ortodoxo, armou uma estrutura deformada e imbuiu sua narração de humor, recurso polivalente, satírica e paradoxalmente acertado para tratar do ilógico: “<italic>this text is the result of Aub’s difficulty in confronting and expressing the horror and indescribability of giving coherence to something that lacks logic</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Dickey, 2009</xref>, p. 149). A ideia é de que, como uma ave estrangeira àquela situação disfórica, possamos sobrevoar e olhar para ela com um irredutível posicionamento de desaprovação e crítica, repetindo seus arranjos literária e historicamente, entre outros, para que ela nunca mais se repita como realidade sociopoliticamente concreta de alguém. A obra de Jacobo, embora naufrague em aspectos desejados por ele (como objetividade e verossimilhança), é para nós exitosa em ressaltar às avessas que a guerra não é senão sobre dor, desumanização, ruínas, mentiras. Mas esses fatores que podem fazer de nós <italic>verdadeiramente humanos</italic>, mesmo que em falta, ainda podem ser recobrados, à medida que não deixemos esses entendimentos se desenlaçarem de nossos corações: jamais negar, jamais esquecer, é <italic>recordar</italic> para não reviver.</p>
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			<title>Referências bibliográficas</title>
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			<p>Não foram localizadas data de publicação ou marcação de página no documento eletrônico consultado no endereço da Blackwell Publishing, do qual foi retirado o excerto citado. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://acesse.dev/FT6jt">acesse.dev/FT6jt</ext-link>. Acesso em: 1/6/2022.</p>
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