Dimensões ético-políticas da escuta do trauma frente ao deslocamento humano: onde é o que promove o aqui?

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.1984-1124.i43p201-223

Palavras-chave:

Deslocamento, Ruína, Migração forçada, Fronteira, Memória

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão ético-política sobre o deslocamento humano por meio da articulação entre narrativa literária e análise crítica. A partir da figuração do “corpo-ruína” encarnada na história ficcional de João, migrante forçado, o texto explora como experiências de migração e refúgio se entrelaçam a dimensões estéticas e subjetivas, produzindo metáforas que tensionam fronteiras, memórias e identidades. O relato ficcional, sustentado em elementos da prática clínica com imigrantes, é mobilizado como estratégia literária capaz de dar visibilidade a vidas marcadas pela precarização, pelo trauma e pela exclusão. Ao mesmo tempo, o ensaio discute as implicações epistemológicas e políticas da escuta do sofrimento migratório, considerando as ruínas como forma de memória e resistência. Nesse movimento, literatura e crítica se encontram para interrogar os efeitos coloniais-capitalísticos sobre corpos em deslocamento, problematizando categorias de humanidade, pertencimento e alteridade. Assim, a narrativa de João que não é daqui convoca a repensar a viagem como experiência de criação simbólica, deslocamento de fronteiras e produção de novos modos de existência.

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Biografia do Autor

  • Gustavo da Silva Machado, Universidade do Vale do Itajaí

    Psicólogo formado na Universidade Federal de Santa Catarina. Especialista em Saúde com Ênfase em Urgência e Emergência na modalidade Residência Multiprofissional em Saúde no Hospital Universitário da UFSC. Mestre e Doutor em Psicologia pelo Programa de Pós Graduação em Psicologia também pela Universidade Federal de Santa Catarina. É professor dos Departamentos de Psicologia e Medicina da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Professor colaborador do Mestrado Profissional em Psicologia (Univali). Professor visitante da formação em teoria psicanalítica da Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, em Londres. Foi pesquisador visitante no CeSCuP (Center for Social and Cultural Psychology) da Université Libre de Bruxelles (2022-2023). Foi pesquisador do Laboratório de Psicologia da Saúde, Família e Comunidade (LABSFAC), como integrante do Grupo de Pesquisa "Psicologia, Cultura e Saúde Mental", linha de pesquisa "Violência e Trauma" e do Núcleo Marges (Modos de Vida, Família e Relações de Gênero). Atualmente, é pesquisador vinculado ao NEMPsiC (Núcleo de Estudos sobre Psicologia, Migrações e Culturas). Membre étudiant de l'Équipe de recherche en paternariat sur la diversité culturelle et l'immigration dans la région de Québec (ÉDIQ - Québec, Canada). Fundador e curador da muq, plataforma transdisciplinar que promove pesquisa, exposições, projeto e arquivos em arquitetura e psicanálise, com participações no Encuentro La Escuela (São Paulo/Buenos Aires, 2024), Seminário Contraimagem/Counterimage (Lisboa/Florianópolis, 2024), Field Office Workshop 01 (Londres, 2023) - Royal College of Art, University of Greenwich, Bartlett School e Architectural Association, Exposição Pós-pandemia com Contra-arquivo Queer no Museu da Escola Catarinense (2022), The 5th Wrong Biennale (2021) e o Seminário Psicologia e Luto (Itajaí, 2021) (Texto informado pelo autor)

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Publicado

2026-02-26

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Artigos

Como Citar

Machado, G. da S. (2026). Dimensões ético-políticas da escuta do trauma frente ao deslocamento humano: onde é o que promove o aqui?. Revista Criação & Crítica, 43, 201-223. https://doi.org/10.11606/issn.1984-1124.i43p201-223