Chamadas para artigos: v. 18, n. 36 (segundo semestre de 2026): FERNANDO PESSOA, 90 ANOS DE POSTERIDADE; v. 19, n. 37 (primeiro semestre de 2027): A LITERATURA PARA CRIANÇAS E JOVENS NO BRASIL E EM PORTUGAL
Fernando Pessoa, 90 anos de posteridade
Organizadores: Rui Sousa (Universidade de Lisboa, Portugal), Carlotta Defenu (Universidade de Parma, Itália), Maria Silva Prado Lessa (Universidade de São Paulo, Brasil)
O mito de Fernando Pessoa é consensualmente reconhecido como um dos mais importantes da literatura em língua portuguesa, construído num ritmo de disseminação continuada ao longo do século XX por parte de sucessivas gerações de escritores, ensaístas, tradutores, intérpretes e biógrafos de diversas nacionalidades. Recentemente, António Sáez Delgado sugeriu que Pessoa pode considerar-se uma espécie de santo cultural, com apropriações pelos mais diversos meios, incluindo as artes plásticas, o cinema, a criação a partir da inteligência artificial e uma profusão de objetos de marketing. Este dossiê convida a uma análise do momento fundador de todo esse percurso, de acordo com duas vertentes que condicionam muito do que viria a ser o discurso dedicado ao poeta dos heterónimos.
Por um lado, interessa-nos abordar a etapa final da vida e da obra de Pessoa, com especial incidência para as peculiaridades criativas desse período e para o modo como nele as leituras interpretativas do poeta a respeito do seu próprio projeto autoral foram conhecendo novas configurações e sofrendo o influxo de novas linguagens. Nesse campo, destaca-se o número 17 da revista presença, de 1928, no qual Pessoa publicou a «Tábula Bibliográfica» que apresentava sinteticamente a sua obra, introduzindo pela primeira vez as noções de «obras heterónimas» e de «obras ortónimas», dando também a ver um pouco da sua interpretação sobre o que era de conservar da produção em nome próprio. Nos anos seguintes, o poeta daria a conhecer outros documentos vitais para a intervenção criativa na construção de uma posteridade, incluindo cartas célebres para João Gaspar Simões (11 de dezembro de 1931) e para Adolfo Casais Monteiro (13 e 20 de janeiro de 1935). É também este o momento de uma série de gestos e movimentos criativos e vivenciais, entre os quais a consolidação do projeto de Mensagem, o regresso ao plano do Livro do Desassossego, a produção do Barão de Teive, os esboços de romances policiais, o encontro e complexa interação com Aleister Crowley, a elaboração de leituras estruturantes sobre o drama em gente, o segundo romance com Ofélia, no qual escreveu algumas das mais insólitas cartas de amor, a escrita de parte dos seus textos sobre as condições de acesso à posteridade, com Heróstrato, o súbito interesse pelas quadras populares e uma profusão de textos políticos, incluindo os que criticaram os regimes de Mussolini, Hitler e Salazar.
Por outro lado, importa-nos investigar os primeiros anos da elaboração póstuma de Pessoa, reunindo também trabalhos que explorem o seu impacto na gestação poética dos nomes maiores da cultura portuguesa da segunda metade do século XX. O início do movimento de progressiva afirmação póstuma da sua figura pode ser visto em 1936, no número 48 da presença, em homenagem ao poeta recém falecido. Já no número seguinte, Casais Monteiro dava a conhecer a carta de 13 de janeiro de 1935, talvez o documento basilar de toda a mitologia pessoana desde então, acompanhando a publicação com uma nota crítica que revela as ambiguidades da recepção do que Pessoa ali transmite. Por volta de 1942, concentram-se alguns marcos editoriais e críticos decisivos, como a antologia Poesia de Fernando Pessoa, de Adolfo Casais Monteiro (1942; 1945), a primeira sequência de publicações promovidas pela Ática (1942-1946), a composição, por Mário Cesariny de Vasconcelos, de Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, longo poema escrito 1946 e publicado em 1953, e, finalmente, a edição da biografia de João Gaspar Simões, Vida e obra de Fernando Pessoa: história duma geração (1950).
Tendo em vista a etapa final da vida e da obra de Pessoa, na qual se consolidam as leituras interpretativas do poeta a respeito do seu próprio projeto autoral, e os primeiros anos da sua recepção póstuma, fundamentais para a construção do mito pessoano, serão aceitos artigos visando os seguintes eixos temáticos:
1. Fernando Pessoa como editor de si mesmo: gestos finais de autoexegese, de autolegitimação e a construção da posteridade
2. As primeiras leituras críticas e biográficas e a fundação do mito-Pessoa
3. Pessoa nas gerações seguintes: apropriação e reescrita até os anos de 1950
4. Reconfigurações contemporâneas da figura pessoana
5. Articulações entre arquivo, edição e canonização autoral
6. Mito e cultura de massas: apropriações visuais, cinematográficas e digitais e a fetichização do autor
Além do dossiê temático, a Revista Desassossego conta com a recepção de texto em fluxo contínuo para a seção VÁRIA, para a qual recebemos artigos científicos relacionados à literatura e cultura portuguesas; e a seção OUTROS DESASSOSSEGOS, na qual publicamos textos poéticos e autorais inéditos enviados por nossos leitores. Ainda podem ser publicadas RESENHAS de livros editados nos últimos cinco anos ou ENTREVISTAS com nomes relevantes para a temática da revista.
PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas e entrevistas relacionadas ao dossiê temático Fernando Pessoa, 90 anos de posteridade serão recebidos até 1 de junho de 2026. A publicação está prevista para dezembro de 2026.
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A literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal
Organizadores: Ana Margarida Ramos (Universidade de Aveiro, Portugal), Francisco Topa (Universidade do Porto, Portugal), Marcia Arruda Franco (Universidade de São Paulo, Brasil), Paulo César Ribeiro Filho (Universidade de São Paulo, Brasil) e Sara Raquel Duarte Reis Silva (Universidade do Minho, Portugal)
“Aos infelizes, aos pobres e a todas as crianças que a fortuna despreza e o amor não conhece nem beija, ofereço, humildemente, as páginas deste meu livro”. Essa é a dedicatória feita pelo poeta, dramaturgo e contista português António Botto (1942, p. 11) para uma edição de seus contos infantis. Sempre que refletimos sobre o espaço que as crianças ocupam nos (polis)sistemas literários mundo afora, do passado à contemporaneidade, somos convidados a visitar um campo do conhecimento multidisciplinar, que pode conjugar contribuições de disciplinas como a sociologia, a psicologia, a antropologia, a pedagogia, o design e a editoração, para citar algumas. Fora do núcleo mais imediato de consumo e produção de capital, crianças e outras figuras marginalizadas têm tido suas necessidades básicas de acesso à arte parcamente supridas, e os estudos das literaturas a elas destinadas ainda têm ocupado pouco espaço em ambientes acadêmicos. Tal cenário faz ecoar a imagem criada por Walter Benjamin (2012, p. 257) da criança como um ser “irresistivelmente atraído pelos detritos” deixados pelos adultos, a partir dos quais ela engendra novas concepções, dando formas novas e originais ao que foi por eles preterido. Daí é que o pensador arremata:
"O observador perspicaz encontra exatamente nas áreas menos prestigiosas da criação literária e artística - como a literatura infantil e juvenil - aqueles elementos que procura em vão nos documentos reconhecidos da cultura" (Benjamin, 2012, p. 259).
Nelly Novaes Coelho (2000, p. 13, in memoriam), fundadora da área de Literatura Infantil e Juvenil da Universidade de São Paulo, indica que a literatura para crianças e jovens — o que se expande à noção geral de Literatura enquanto Arte — encontra-se diretamente relacionada à divulgação de “valores culturais que dinamizam uma sociedade ou uma civilização”; a pesquisadora atribui à literatura infantil e juvenil o potencial de gerenciar as novas consciências por intermédio da linguagem. Benjamin Abdala Jr. (2012) endossa o posicionamento de Coelho e é sintomático ao sugerir que é preciso assumir atitudes mais ativas e propositivas para criar ou desenhar, com matização mais forte, tendências que embalam a noção de devir encapsulada no ser criança (a infância como “sociedade em crisálida”, tal como propõe Florestan Fernandes), apontando para a necessidade de uma literatura infantil e juvenil ao mesmo tempo lúdica e lúcida, engajada na gestação de novos paradigmas progressistas. Em consonância com Abdala Jr., Américo Diogo (1994) enfatiza o cosmopolitismo do leitor infantil, sugerindo que a literatura para crianças “integra algo que muito se parece com o espaço da própria humanidade dialogante”. Tal menção ao caráter cosmopolita da criança leitora nos conduz, por fim, à análise do que aqui denominamos literatura cross-age, aquela que rompe limites etários e seduz públicos diversos, superando balizas cronológicas e transpassando obstáculos geracionais, cativando audiências variadas. Parte da obra poética de autores como Manoel de Barros e Fernando Pessoa, por exemplo, tem sido editada como livros destinados a leitores infantis e juvenis, com projetos gráficos cuidadosamente elaborados para esse público-alvo. Sobre esse fenômeno e suas variações, reflete Cecília Meireles (2016, p. 19-20):
"Ah! Tu, livro despretensioso, que, na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou e, sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... Tu, sim, és um livro infantil, e o teu prestígio será, na verdade, imortal".
Vale ressaltar que um dos desafios da literatura cross-age reside no preconceito arraigado de setores da sociedade que veem a presença de ilustrações, por exemplo, como um sinal de menoridade estética ou intelectual, inerente ao que depreciativamente classificam como literatura infantil e juvenil (associando o gênero, por desconhecimento, a livros didáticos, paradidáticos, de função morigerante ou com função referencial), sintoma de uma hierarquização que historicamente subalterniza as obras voltadas, ainda que parcialmente, ao público infantil e juvenil.
Com base em tais reflexões, propomos o dossiê temático A literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal, com ênfase em reflexões teóricas sobre a natureza e a função da literatura infantil e juvenil do passado à contemporaneidade e na análise de obras de autores e/ou ilustradores brasileiros e portugueses produzidas nos últimos vinte a cinco anos. As abordagens podem variar conforme os seguintes eixos temáticos:
• Temas, tendências e desafios da literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal no século XXI;
• O livro enquanto objeto: reflexões sobre a materialidade da arte destinada a crianças e jovens no Brasil e em Portugal;
• Livros e leituras em ambiente escolar no Brasil e em Portugal no século XXI: acervos e políticas de acesso à arte literária;
• Aspectos formais, temáticos e semânticos de obras literárias cross-age no Brasil e em Portugal;
• Tendências, desafios e contradições da literatura cross-age no Brasil e em Portugal;
• Literatura brasileira e portuguesa para crianças e jovens em perspectiva comparatista com a arte produzida nos países e comunidades de língua oficial portuguesa.
Além do dossiê temático, a Revista Desassossego conta com a recepção de texto em fluxo contínuo para a seção VÁRIA, para a qual recebemos artigos científicos relacionados à literatura e cultura portuguesas; e a seção OUTROS DESASSOSSEGOS, na qual publicamos textos poéticos e autorais inéditos enviados por nossos leitores. Ainda podem ser publicadas RESENHAS de livros editados nos últimos cinco anos ou ENTREVISTAS com nomes relevantes para a temática da revista.
PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas e entrevistas relacionadas ao dossiê temático A literatura para crianças e jovens no Brasil e em Portugal serão recebidos até 15 de novembro de 2026. A publicação está prevista para maio de 2027.
Referências:
ABDALA JR., Benjamin (Org.). Estudos Comparados: Teoria, Crítica e Metodologia. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2014.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 8ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BOTTO, António. Contos. Porto: Livraria Latina Editora, 1942.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura: Arte, Conhecimento e Vida. São Paulo: Peirópolis, 2000.
DIOGO, Américo António Lindeza. Literatura infantil: História, teoria, interpretações. Porto: Porto Editora, 1994.
FERNANDES, Florestan. “Os grupos infantis”. In: FERNANDES, Florestan. Folclore de mudança social na cidade de São Paulo. Petrópolis: Vozes, 1979.
MEIRELES, Cecília. Problemas da literatura infantil. 4ª ed. São Paulo: Global, 2016.