Polícias em conflito: “pluralismo policial” e os vetos a reformas na segurança pública

Autores

  • Julia Maia Goldani Fundação Getulio Vargas, Escola de Direito, São Paulo, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2026.40116.003

Palavras-chave:

Reforma da polícia, Segurança pública, Polícias militares, Grupos de interesse, Reformas institucionais

Resumo

Este trabalho investiga as dinâmicas institucionais que minam reformas democráticas nas polícias militares do Brasil pós-1988. Embora a resistência da polícia a mudanças institucionais seja amplamente documentada, há uma lacuna na compreensão dos mecanismos que por meio das quais ela se materializa. Para abordar essa lacuna, analiso dois casos: a Proposta de Emenda Constitucional 51/2013, que buscava uma reforma estrutural, e as Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro, exemplo de reforma incremental. A análise revela uma dinâmica comum: a segmentação das polícias em grupos de interesse, formais e informais, que controlam parcelas da coerção estatal e utilizam esse controle como fonte de influência política, resultando em uma multiplicidade de atores com poder de veto. Com base na perspectiva teórica do pluralismo estatal, proponho a noção de “pluralismo policial” para descrever como os conflitos entre esses grupos impedem mudanças institucionais.

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Biografia do Autor

  • Julia Maia Goldani, Fundação Getulio Vargas, Escola de Direito, São Paulo, Brasil

    Pesquisadora de pós-doutorado no Global Fellowship Program da FGV Direito SP e pesquisadora associada ao Centro de Pesquisa Aplicada em Direito e Justiça Racial da mesma instituição. Doutora pela FGV Direito SP e mestre pelo Instituto Internacional de Sociologia Jurídica de Oñati. 

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Publicado

2026-04-10

Edição

Seção

Violência, dor e sofrimento

Como Citar

Goldani, J. M. (2026). Polícias em conflito: “pluralismo policial” e os vetos a reformas na segurança pública. Estudos Avançados, 40(116), e40116039. https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2026.40116.003