Os cães e a magia dos duplos: uma resenha da obra póstuma de Mauricio Lissovsky
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2525-3123.gis.2025.239332Palavras-chave:
Fotografia, Antropologia, MagiaResumo
A obra póstuma do pesquisador brasileiro Mauricio Lissovsky, "A Fotografia e Seus Duplos", é um trabalho fundamental para a teoria da imagem. Resultado de uma década de pesquisa, o livro aplica um método inspirado em Walter Benjamin para analisar a fotografia como uma "máquina de semelhanças" que opera através de "duplos" — imagens que ecoam, se contradizem ou dialogam ao longo da história. A análise de Lissovsky se aprofunda em duas vertentes principais que se entrelaçam: o caráter mágico da fotografia e a figura do cão como um duplo filosófico.
A magia do meio é rastreada desde sua invenção, descrita ora como "milagre" divino, ora como "feitiço" de um feiticeiro. Lissovsky argumenta que a fotografia funciona como uma "magia simpática", cujo poder de "contágio" é ativado por duplos rituais, como nas fotos de gêmeos Ibeji. É a figura do cão, no entanto, que emerge como o "operador mágico" central da obra, um ser liminar que expõe as fissuras da "máquina antropológica" que separa o humano do animal.
Sua presença em imagens é analisada em diversos contextos. Na pintura cortesã, por exemplo, a proximidade entre cães e anões revela a ambiguidade de seus status, enquanto na fotografia de Robert Capa, a dinâmica de poder e hierarquia se inverte quando um soldado americano assume a postura de um "cão de caça". A relação do cão com o poder também se estende à sua conexão com a morte e o além; ele atua como um guardião dos mortos, um Anúbis moderno em retratos de luto, e sua aparição acidental na história da fotografia é tratada como um evento escatológico. Além de mediador do poder e da morte, o cão é também um duplo para o desejo e a transgressão, como se vê em sua associação com a lascívia feminina e no enigma de identidade que se torna nos retratos de Kafka.
Para Lissovsky, a fotografia é assombrada por fantasmas e presságios, e o cão é o guia privilegiado por esse universo, revelando que por trás da técnica fotográfica persiste uma poderosa dimensão mítica. Sua obra é apresentada como um legado que "mal começou a ser lido", destinado a "assombrar" e inspirar futuras gerações de pesquisadores da imagem.
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Referências
LISSOVSKY, Maurício. A Fotografia e seus duplos: mulheres invisíveis e retratos impossíveis. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, [S. l.], v. 47, n. 53, p. 297–322, 2020. DOI: 10.11606/issn.2316-7114.sig.2020.155349. Disponível em: https://revistas.usp.br/significacao/article/view/155349. Acesso em: 17 jul. 2025.
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