Poesia auto-móvel
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2237-1184.v0i42p%25pPalavras-chave:
poesia brasileira contemporânea, automóvel, transformação da cidadeResumo
O ensaio investiga como o automóvel reconfigura a experiência urbana e, consequentemente, o olhar do poeta moderno e contemporâneo. Partindo da hipótese de que o flâneur da primeira modernidade cede lugar ao transeunte acelerado e fraturado das grandes metrópoles, o texto analisa três poemas — de José Paulo Paes, Sebastião Uchoa Leite e Ana Cristina Cesar — além da canção “Iracema”, de Adoniran Barbosa. Observa como o carro passa de símbolo de distinção e progresso a elemento banalizado e até opressor da vida cotidiana, alterando a percepção sensível do espaço e dos sujeitos. Nos poemas, o automóvel funciona ora como metáfora da paralisia e dissolução, ora como agente de choque e desagregação, ora como signo de urgência e descontrole temporal. O ensaio mostra como a poesia contemporânea, ao captar cenas fugazes de deslocamento e atravessamento, registra tensões entre lirismo e reflexão, entre subjetividade e cidade, configurando lampejos de consciência no meio do trânsito — onde encontros são breves, choques substituem epifanias e o olhar poético tenta resistir à velocidade inóspita da metrópole.
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