Uma dívida de sangue: escravidão, violência de gênero e a sobrevida da escravidão em Kindred, de Octavia E. Butler
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2448-1769.mag.2025.236348Palabras clave:
Escravidão, Gênero, Trauma, Afeto, PoderResumen
Kindred (1979), de Octavia E. Butler, é uma obra fundamental para compreender como as estruturas da escravidão permanecem operantes nas dinâmicas sociais contemporâneas. Através da experiência da protagonista Dana, uma mulher negra do século XX transportada para o passado escravocrata, o romance entrelaça temporalidades e evidencia como raça, gênero e poder moldam tanto as relações históricas quanto as atuais. Este ensaio propõe uma leitura crítica da obra à luz do conceito de “dívida impagável”, formulado por Denise Ferreira da Silva (2024), que aponta como a modernidade continua a marginalizar corpos negros por meio da reprodução de uma lógica colonial de exploração econômica e social. A análise centra-se na experiência da mulher negra escravizada como chave para compreender o funcionamento interno do regime escravista e sua continuidade histórica, destacando o papel do corpo feminino como instrumento de reprodução do sistema. O conceito de Ferreira da Silva é expandido pelo diálogo com Saidiya Hartman, especialmente em Cenas de sujeição (2025), onde a autora investiga como a violência racial penetrou as esferas do afeto e do consentimento, tornando o vínculo íntimo entre opressor e oprimido um espaço de sujeição profunda. Em Kindred, esse ponto se manifesta na relação entre Rufus, Alice e Dana, onde a violência sexual é recoberta pela aparência de sedução e afeto, demonstrando a impossibilidade de consentimento em contextos de subjugação racial. A crítica de Hartman é complementada pelas contribuições de Jennifer Morgan em Laboring Women (2004), que revela como o corpo da mulher negra era essencial para a manutenção do regime escravista, especialmente pela via da reprodução forçada. Essa lógica está refletida na personagem Alice, constantemente estuprada por Rufus para gerar descendentes escravizados. Já Dana, apesar de também ser alvo de dominação, representa um esforço contínuo de resistência e preservação de autonomia, oferecendo outra dimensão de enfrentamento à escravidão. O romance, portanto, constrói uma crítica radical à ideia de que a escravidão é um evento encerrado no passado, revelando-a como estrutura que se atualiza e persiste. Ao longo da narrativa, o afeto aparece de forma ambígua: ora como ferramenta de controle e manipulação, ora como potência de sobrevivência entre os personagens negros. A tensão entre violência e cuidado, submissão e resistência, está no cerne da experiência de Dana, que precisa negociar sua própria subjetividade em um tempo que insiste em negá-la. Ao final, Kindred evidencia o corpo da mulher negra como território em disputa, atravessado por múltiplas camadas de violência, mas também por estratégias de enfrentamento. As trajetórias de Alice e Dana configuram dois modos distintos — porém complementares — de viver a escravidão e suas sobrevidas, apontando para a necessidade de se pensar as marcas históricas do colonialismo não apenas como passado, mas como presente estruturante. Assim, a obra de Butler, ao mobilizar o fantástico como linguagem da memória e da crítica social, contribui para uma reflexão urgente sobre os modos como o poder colonial ainda conforma nossas experiências de afeto, identidade e resistência.
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Referencias
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HARTMAN, Saidiya. Cenas de sujeição: terror, escravidão, e criação de si na América do século 19. São Paulo: Fósforo, 2025.
HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Tradução de José Luiz Pereira da Costa. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
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SHARPE, Christina. No vestígio: negridade e existência. São Paulo: UBU, 2023.
SILVA, Denise Ferreira da. A dívida impagável: uma crítica feminista racial e anticolonial do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
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Derechos de autor 2025 Mayara Luiz Barbosa

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