Chamada - dossiê nº 59: Arquivo e inacabamento: processos de criação e crítica contemporâneos

2025-11-10

Prazo para submissão: 15 de março de 2026.

Editoras convidadas: Aline Leal, Natalie Lima, Paloma Vidal

A proposta deste dossiê tem origem no simpósio da Abralic Arquivo e inacabamento: escritas lacunares e pensadores/as catadores/as, realizado remotamente em 2021 e, em 2023, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Esses encontros se propuseram a investigar e refletir sobre as poéticas do arquivo e as políticas do inacabado, interrogando o lugar do fragmento, da perda e da sobrevivência nos processos de criação e crítica contemporâneos.  

A concepção da escrita como prática voltada ao inacabado, ao informe e ao residual — e não como produto final ou forma estabilizada — atravessa diferentes correntes críticas e literárias, assumindo novos desdobramentos na contemporaneidade. Em Crítica e clínica, Gilles Deleuze retoma a noção de devir para libertar o texto literário de uma função representativa e aproximá-lo da ideia de processo. Antes dele, Maurice Blanchot havia formulado o conceito de fragmentário, que rompe com a ideia de unidade textual e reconhece o lacunar como modo de relação entre enunciados. Roland Barthes, desde o final da década de 1960, e sobretudo no curso A preparação do romance, encena uma escrita que se oferece como processo desejante, feita de impasses e interrupções. Walter Benjamin, por sua vez, legou-nos um projeto interrompido que se tornou paradigma de uma escrita em construção: O trabalho das passagens — empreendimento arqueológico e arquivístico composto de milhares de fragmentos, onde a pesquisa e o pensamento se confundem.

Essas experiências, que indicam o inacabamento não como falha, mas como forma, em que a escrita é tomada como gesto, encontram, no arquivo, um espaço de exercício privilegiado. Para Jacques Derrida, o arquivo é sempre um “substituto deformado” da memória: ele é uma perda em relação ao que arquiva, uma subtração – deliberada ou involuntária – da sua origem. Assim, será trabalho do/a pensador/a-catador/a inserir-se nessas lacunas e cavidades, traçar relações perdidas ou imaginadas, fazer desta subtração uma sobrevivência. Tal gesto implica reconhecer o arquivo também como espaço simbólico, onde a materialidade do acúmulo convive com o esquecimento e onde a anacronia — o desencontro temporal entre obra, arquivo e presente — torna-se força de criação.

Inspirado por essas abordagens, o presente dossiê propõe refletir sobre as práticas do arquivo e as formas do inacabamento, compreendendo a escrita em campo expandido, que atravessa o literário, o artístico e o crítico. Interessa-nos reunir estudos que explorem a potência das escritas lacunares, fragmentárias, residuais e processuais, bem como os modos de elaboração, preservação e reinvenção de arquivos — pessoais, institucionais, imaginários.

Serão bem-vindas propostas que dialoguem com os seguintes eixos:

– Escritas lacunares: textos e obras em que o não preenchido, o impasse ou o fracasso se tornam potência de leitura e de reescrita, como em La novela luminosa (Mario Levrero), Machado (Silviano Santiago), Cascas (Georges Didi-Huberman) ou Ensaio geral (Nuno Ramos);

 – Pensadores/as-catadores/as: teóricos/as e artistas que operam com materiais heterogêneos e práticas de coleta, como Walter Benjamin, Carolina Maria de Jesus, Roland Barthes, Agnès Varda, Bispo do Rosário, Jorge Luis Borges, entre outros;

 – Projetos inacabados: empreendimentos críticos ou artísticos que não se realizaram como produto final, mas geraram novas possibilidades de invenção e reflexão — como A preparação do romance, de Barthes, O trabalho das passagens, de Benjamin, ou o Conglomerado newyorkaises, de Hélio Oiticica;

 – Encenações do arquivo: narrativas, performances ou instalações em que o arquivo se torna dispositivo estético — como em Nove noites, de Bernardo Carvalho, Lorde, de João Gilberto Noll, Arquivo das crianças perdidas, de Valeria Luiselli, O arquivo universal e outros arquivos, de Rosângela Rennó, entre outros.

A Manuscrítica – Revista de Crítica Genética recebe contribuições em português, espanhol, francês e inglês.

Para consultar as seções da revista e as diretrizes para autores, acesse:

https://www.revistas.usp.br/manuscritica/about/submissions

Palavras-chave: Arquivo; Inacabamento; Contemporaneidade; Escritas lacunares; Pensadores/as-catadores/as; Projetos inacabados.