Chamada - dossiê nº 60: Teorias e críticas do arquivo.

2026-02-24

“A história é a variação dos sentidos. [...] Não existe sequer um acontecimento, um fenômeno, uma palavra, nem um pensamento cujo sentido não seja múltiplo” (Gilles Deleuze, Nietzsche et la Philosophie).

 

Nas dissertações que integram a Genealogia da Moral [Zur Genealogie der Moral], Friedrich Nietzsche apresenta uma das mais instigantes questões sobre a produção do conhecimento: a história de uma “coisa” é a de quantas forças e quantos nomes assenhoram-se dela e interpretam-na. O mesmo pode-se dizer, por efeito, que uma palavra terá tantos sentidos quantos contextos e interpretações lhe sejam aplicadas. 

As duas últimas décadas evidenciaram o interesse crescente pela temática do “arquivo” nas ciências humanas e nos estudos artísticos/literários, assim como em processos de criação nas diversas linguagens e suportes. Ao mobilizarem representações materiais e simbólicas de documentos, acervos, coleções e dispositivos de organização da informação, fazem do “arquivo” uma palavra que desliza de um campo a outro no pensamento contemporâneo.  Significando, por vezes, diferentes “coisas”, tornou-se um objeto teórico polissêmico,  não circunscrito  a uma única disciplina, à medida que se multiplicam os saberes e se diversificam as apropriações  do arquivo.

            O repertório atual sobre o tema é enriquecido pelas diversas contribuições dos campos das letras e artes, ciências humanas e sociais aplicadas, assim como de contextos plurais de produção de saber. Acreditamos, portanto, na constituição  de uma polifonia em torno  dessa palavra,  em que diferentes  vozes possam abordá-la sem que qualquer  delas se imponha como instância  de autoridade sobre as outras. 

            Serão bem-vindas propostas que não somente apliquem a bibliografia, mas que apresentem uma abordagem metacrítica sobre teorias, métodos e interpretações do arquivo e dialoguem com os seguintes temas:

 

  • Teoria arquivística moderna e pós-moderna.

  • Princípios arquivísticos e tratamento documental: desafios práticos à teoria.

  • Interdisciplinaridade no processamento técnico de arquivos.

  • Noções de “documento”, “arquivo”, “documento arquivístico”, “documento de arquivo”, “ego-documentos”, dentre outras.

  • Transição digital de arquivos físicos/analógicos e documentos nato-digitais.

  • Curadoria, custódia e gestão documental na sociedade contemporânea.

  • Fundamentos éticos e jurídicos do trabalho arquivístico.

  • Teorias e críticas da edição de documentos: filologia, crítica textual e crítica genética.

  • Obras e processos de criação que teorizam esteticamente sobre o arquivo.

  • Críticas do arquivo no pensamento contemporâneo.

  • Epistemes não ocidentais, o viver comunitário e a teoria arquivística.

  • Estatuto do arquivo nos estudos históricos e (auto)(sócio)biográficos: fabulação, memória e informação.

  • O arquivo nos estudos linguísticos e discursivos (sincrônicos e diacrônicos).

 

Referências:

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