Decifra-me, disse eu à esfinge. E esta ficou muda: Pose e artifício na correspondência de Clarice Lispector
DOI:
https://doi.org/10.11606/issn.2596-2477.i56p122-141Palavras-chave:
correspondência, pose, artifícioResumo
Este artigo propõe investigar como a correspondência de Clarice Lispector contribui como um espaço de construção e complexificação das imagens públicas da escritora, frequentemente, marcadas por leituras biografistas e mitificadas. Nesta complexa elaboração de imagens realizadas por diversas vozes – críticos, amigos, leitores –, as cartas de Clarice Lispector acrescentam um conjunto de diálogos que visam, não apenas um registro transparente do cotidiano e da intimidade, mas como um espaço aberto à performance e a elaboração estética. O objetivo deste artigo, portanto, é estudar o processo de construção das imagens de Clarice Lispector, buscando compreender o lugar que sua correspondência ocupa nele. Para esta análise destacaremos os conceitos de “persona” e “pose” (política da pose) (LIMA, 1986 e 1991; MOLLOY, 2022), bem como a ideia de “sensibilidade Camp” (SONTAG, 2020). A partir dessas referências, foi possível observar como as cartas participam desse diálogo, constituindo-se não como uma escrita transparente e referencial, mas como um espaço de elaboração de autoimagens complexas da autora, nas quais a ficção e o tratamento poético da linguagem também estão presentes.
Downloads
Referências
ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Trad. Paloma Vidal. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 2010.
ANDRADE, Welington. “Em boa companhia crítica”. Clarice Lispector rara e inédita. Revista Cult, São Paulo, n. 229, set. 2017, s/p.
BARTHES, Roland. A morte do autor. In: _____. O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2004, p. 57-64.
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre literatura e história cultural. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 2012.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Trad. Leyla Perrone-Móises. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2018.
BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: AMADO, Janaína e FERREIRA, Marieta de Moraesa (Coord.). Usos e abusos da história oral. 8 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, p. 183-191.
CANDIDO, Antonio. No raiar com Clarice Lispector (1943). In: _____. Vários escritos. São Paulo: Ed. Livraria Duas cidades, 1977, p. 125-131.
DOSSE, François. O desafio biográfico: escrever uma vida. Trad. de Gilson César Cardoso de Souza. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 2009.
FILHO, Fernando Antônio Pinheiro. Decifrar a esfinge: figuração e escritura em Clarice Lispector. Lua Nova, São Paulo, Universidade de São Paulo, n. 114, 2021, p. 253-287.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: _____. Ditos e escritos: estética - literatura e pintura, música e cinema (vol. III). Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 2001, p. 268-302.
GOTLIB, Nádia Battella. Clarice. Uma vida que se conta. São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 2013.
KLINGER, Diana. Escritas de si, escritas do outro: Autoficção e etnografia na narrativa latino-americana contemporânea. Tese (Doutorado em Literatura Comparada). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006.
LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1986.
LIMA, Luiz Costa. Pensando nos trópicos. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1991.
LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca: ensaios e estudos (1940-1960). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.
LINS, Álvaro. Tesouro bem guardado [Entrevista de Clarice Lispector]. Quatro Cinco Um, Piauí, Ano 7, n. 72, Agosto 2023, p. 25-32.
LINS, Álvaro. Outros escritos. Org. Lícia Manzo e Teresa Montero. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2005.
LINS, Álvaro. Todas as cartas. Org. Larissa Vaz, Teresa Montero e Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2020.
LINS, Álvaro. Todas as crônicas. Org. Larissa Vaz, Marina Colasanti e Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2018.
MARQUES, Reinaldo. O arquivo literário e as imagens do escritor. In: SOUZA, Eneida Maria de; TOLENTINO, Eliana da Conceição; MARTINS, Anderson Bastos (Orgs.). O futuro do presente: arquivo, gênero e discurso. Belo Horizonte: Ed. Universidade Federal de Minas Gerais, 2012, p. 87-113.
MOLLOY, Sylvia. A política da pose. In: _____. Figurações: ensaios críticos. Trad. Gênese Andrade. São Paulo: Editora 34, 2022, p. 120-133.
NUNES, Benedito. O drama da linguagem. São Paulo: Ed. Ática, 1995.
RIBEIRO, Leo Gilson. Quem mistério tem Clarice Lispector (entrevista). Estado de S Paulo, Jornal da Tarde, São Paulo, 05 fev. 1969, s/p.
SABINO, Fernando e LISPECTOR, Clarice. Cartas perto do coração. Org. Fernando Sabino. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2011.
SONTAG, Susan. Notas sobre Camp. In: _____. Contra a interpretação. Trad. Denise Bottmann. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2020.
SONTAG, Susan. Sobre a tortura dos outros, In: ____ Ao mesmo tempo. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2008.
SOUSA, Carlos Mendes. Clarice Lispector: Figuras da escrita. Braga: Centro de Estudos Humanísticos /Universidade do Minho, 2000.
SOUZA, Eneida Maria de. Janelas indiscretas: ensaios de crítica biográfica. Belo Horizonte: Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2011.
TRILLING, Lionel. Sinceridade e autenticidade. A vida em sociedade e a afirmação do Eu. Trad. de Hugo Langone. Ed. É Realizações: São Paulo, 2014.
VOLTAN, Raynara Isis Barbosa. Não se pode andar nu: Pose e artifício na correspondência de Clarice Lispector. Dissertação (Mestrado em Literatura). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2024.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2025 Raynara Barbosa Voltan

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.









