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				<journal-title>Plural - Revista de Ciências Sociais</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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					<subject>TRADUÇÃO</subject>
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				<article-title>Necessidade de acolher bem as mulheres estrangeiras<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
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				<institution content-type="original">Lilian Villanova é educadora. Professora e tradutora de língua francesa, licenciada em Letras pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Formou-se em tradução literária e científica pela Aliança Francesa do Rio de Janeiro em 2010 e em tradução audio-visual pela Gemini Media em 2012.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade Federal Fluminense</institution>
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				<label>b</label>
				<institution content-type="original">Luna Ribeiro Campos é professora de sociologia no CEFET/RJ. Mestra em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ e doutoranda em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde desenvolve uma pesquisa sobre a trajetória de Flora Tristan.</institution>
				<institution content-type="orgname">CEFET/RJ</institution>
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			<p><italic>Ajudai-vos uns aos outros (Cristo)</italic></p>
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		<p>Gênios superiores definiram bem a nossa época, quando a denominaram uma época de transição do estado social e de regeneração para a espécie humana. As bases sobre as quais repousava a antiga Sociedade da Idade Média foram demolidas, demolidas para sempre. Uma nova Sociedade busca reerguer-se sobre os escombros. De toda parte, escuta-se ressoar uma voz unânime, que exige novas instituições adaptáveis às novas necessidades. Uma voz que pede por associação, por união, por trabalhar de comum acordo, de modo a aliviar as massas que sofrem e definham sem poder se levantar. Divididas, as massas são fracas, incapazes de lutar contra os últimos esforços de uma civilização decrépita que está se apagando.</p>
		<p>Uma classe inteira - composta de metade do gênero humano - integra esses seres infelizes que nossa civilização condena a uma vida de dores. Os homens que não sufocaram a voz de seu coração sentem que é preciso melhorar o destino das mulheres, dessa parte da humanidade que recebeu por missão levar a paz e o amor ao seio das Sociedades.</p>
		<p>Reconhece-se, geralmente, que toda a Sociedade - e, em particular, as mulheres - experimenta a necessidade de melhorar sua condição geral e de mudar os hábitos sociais que não convêm mais ao desenvolvimento alcançado pelo progresso. Contudo, o defeito da nossa época é querer generalizar demasiadamente: dessa maneira, perdem-se de vista os meios de realização; sonha-se com sistemas perfeitos, que talvez não poderão ser executados senão dentro de dois séculos.</p>
		<p>Nosso objetivo aqui não é criar mais uma brilhante utopia, descrevendo o mundo como ele deveria ser, sem indicar o caminho que poderia nos conduzir ao lindo sonho de um paraíso universal. Nós queremos melhorias progressivas, e é nesse sentido que trataremos de apenas uma parte da humanidade e de suas infelicidades. Pensamos que, se cada um fizesse o mesmo, trabalhando por melhorias diversas, segundo um aspecto em especial, muito brevemente veríamos despontar o sol da redenção e da felicidade.</p>
		<p>Nós queremos simplesmente nos ocupar do destino das <italic>mulheres estrangeiras,</italic> nunca nos distanciando dessa perspectiva.</p>
		<p>Escrevemos para as mulheres, que, por sua própria experiência, não conhecem as agruras dessa posição; para os homens, que, apesar de todos os esforços que possam empreender, jamais conseguiriam compreender o quão aterrorizante é ser uma <italic>mulher sozinha,</italic> e <italic>estrangeira.</italic> É para todas as pessoas que dirigimos nossas palavras e nossa súplica. Nossas palavras nos são ditadas pela filantropia mais convicta, nosso objetivo é santo. Esperamos também que Deus nos muna de palavras que ecoarão fundo em todos os corações sensíveis, de todas as almas nobres e generosas. Por muito tempo viajamos <italic>sozinha e estrangeira,</italic> portanto conhecemos toda a infelicidade dessa cruel situação. Fomos estrangeira em Paris, nas cidades do interior, nos vilarejos, nos balneários. Também percorremos muitas regiões da Inglaterra e de sua imensa capital e visitamos grande parte da América. Nossas palavras serão apenas ressonâncias da nossa alma, pois não saberíamos falar, senão das coisas que experimentamos diretamente.</p>
		<p>Para pintar um quadro fiel de todos os tormentos enfrentados pela mulher <italic>sozinha e estrangeira,</italic> acreditamos dever representá-la em uma das grandes e populosas capitais, centros da civilização. Paris nos fornecerá mais material do que o necessário para gelar o sangue de todas as pessoas que receberam da natureza a faculdade de compreender a infelicidade de uma posição tão sofrida.</p>
		<p>É, portanto, de Paris que falaremos em primeiro lugar; essa cidade que, desde muito tempo atrás, detém <italic>renome</italic> na Europa pela <italic>afabilidade</italic> de seus habitantes. E nossas palavras reprovadoras soarão ainda mais potentes, já que, até agora, nenhuma outra cidade pôde rivalizar com ela.</p>
		<p>Se, por vezes, entramos em detalhes que podem parecer minuciosos, é porque o conjunto de todos os pequenos dissabores formam verdadeiros suplícios, tanto mais dolorosos por se renovarem a cada instante da vida.</p>
		<p>A Estrangeira que sobe em um <italic>coche</italic> na fronteira, durante os três ou quatro dias que levará para percorrer o espaço que a separa da capital, já terá sofrido mil desgostos, mil faltas de hospitalidade e até mesmo de educação. Em vez de receber as deferências e as atenções que deveriam, por obrigação, ser dispensadas às estrangeiras por seus companheiros de viagem e nas diversas hospedarias onde é obrigada a pernoitar, ela encontra apenas egoísmo e curiosidade, de um lado, ou a completa indiferença, de outro. Quando ela finalmente chega, está esgotada de cansaço, doente, mas ainda precisa preocupar-se em encontrar um lugar para se alojar. Ela desce da pesada carruagem atordoada com o barulho que lhe ressoa nos ouvidos. Os gritos dos cocheiros, os comissários que brigam para carregar seus pertences, os funcionários de hotéis, que querem encaminhá-la, sem que sejam solicitados, ao belo <italic>Hôtel de France</italic> ou ao magnífico <italic>d’Angleterre</italic> deixam-na ainda mais atordoada. Além disso, a algazarra à qual ela não está acostumada, as pessoas apressadas ou indiferentes que giram em torno de si, tudo lhe injeta na alma uma espécie de susto que lhe aflige e aperta o coração. Parece-lhe que uma infelicidade já ameaça sua vida; seu peito incha, os olhos enchem de lágrimas, e uma exclamação parte de seu coração: Meu Deus! O que será de mim? <italic>Sozinha</italic>, completamente só, nessa cidade grande onde sou estrangeira!</p>
		<p>Esse é o efeito que Paris produz na mulher que chega na cidade pela primeira vez sozinha e sem nenhuma recomendação. Se a Estrangeira tem alguém que veio recebê-la em sua chegada, isso diminui em muito os dissabores. Caso contrário - o que acontece com frequência - quando chega no famoso <italic>Hôtel d’Angleterre</italic>, ela será recebida com um certo ar que não sabemos qualificar. É certo que lhe dirigirão essas palavras: “A senhora está <italic>sozinha?” (</italic>acentuando a palavra <italic>sozinha)</italic> e, após sua resposta afirmativa, pedir-se-á ao menino ou menina que a conduza ao pior quarto da casa. Ela será servida após todos os outros e Deus sabe de qual maneira! No entanto, ela será cobrada 10 francos <italic>a mais</italic> do que cobrariam a um <italic>homem.</italic> Para todas as outras coisas acontecerá o mesmo, e isso em todos os locais. Esses são os dissabores físicos. Passemos aos demais.</p>
		<p>Se essa Estrangeira recebe em casa um parente, um compatriota, ou um homem de negócios, julgar-se-á imediatamente, segundo a tradição cristã praticada nas pensões, que essa Estrangeira veio a Paris com más intenções. A dona da pensão desconfiará, os demais habitantes da casa não terão a menor dúvida e até os criados confirmarão. Não saberíamos dizer de onde vêm esses costumes, que existem em quase todas as pensões. Porém, eles são tal qual relatamos. Tratam-se de fatos o que aqui se expõe.</p>
		<p>Eis as dores comuns a todas as mulheres que viajam sozinhas. Devemos, agora, dividi-las em classes variadas, a fim de melhor estudar suas respectivas posições, unidas pela infelicidade que lhes é comum.</p>
		<p>Em primeiro lugar, analisaremos a posição das mulheres que viajam sozinhas com o objetivo de instrução e diversão. É nessa classe em especial que encontraremos as mulheres mais distintas e mais interessantes de exibir-se em Paris. São elas que podem ornar e enriquecer uma sociedade, tanto pelas faculdades que já possuem, quanto pelas boas maneiras e meios pecuniários da classe elevada a que normalmente pertencem. No entanto, qual é a acolhida que recebem essas mulheres? Se vêm com recomendação, serão convidadas para um jantar, um chá, um baile; nada além disso. Elas terão muita dificuldade de penetrar na sociedade, pois não encontrarão um caminho para tal fim. Como fará, então, a Estrangeira, que veio a Paris com a nobre curiosidade de visitar a cidade como objeto de arte, de ciência? A quem poderá ela dirigir-se de modo a obter informações úteis? Quem poderá ajudá-la a cumprir o objetivo a que se propôs, a utilizar bem o tempo sacrificado para empreender tal viagem? Esse é um problema que não podemos resolver. Sem dúvida, um guia poderá informá-la dos dias e horários de visitação dos monumentos públicos. Porém, uma Estrangeira, uma mulher tímida, terá ela a coragem de visitar lugares onde há apenas homens, completamente desabituados a encontrar mulheres sozinhas nesses locais e que, por essa mesma razão, irão olhá-la com um ar singular? Caso tenha ousadia, quando estiver em um desses locais e perceber-se olhada dessa maneira, a Estrangeira, sentindo-se intimidada, não ousará dirigir a palavra a quem quer que seja. Ela deverá, assim, renunciar ao objetivo de sua empreitada, pois será forçada a partir sem saber o nome ou a utilidade de milhares de coisas que teria tido tanto interesse em conhecer. Infelizmente, receamos ouvir de pessoas de coração gelado e seco: “Ora, se a sua Estrangeira está sozinha, que ela contrate um acompanhante no local”. Diremos, de pronto, que muito poucas estrangeiras podem suportar esse custo, que é bastante elevado. Além disso, nossos acompanhantes não se assemelham em nada aos originais <italic>ciceroni</italic> da Itália. Lá, essa é uma tarefa que se cumpre com zelo, pois os italianos se identificam com os monumentos de sua cidade, cuja glória eles creem recair sobre si mesmos. Aqui, este é um trabalho que se realiza no máximo com honestidade. Muitas Estrangeiras que vêm a Paris só podem visitar apenas um décimo da cidade, e, ainda assim, como elas o fazem? De maneira triste, fria, incômoda: rapidamente, elas se sentem desencorajadas e suas ilusões se esvaem. Elas sentem apenas um desconforto impossível de definir, tanto moral quanto físico, e a ideia de deixar a linda cidade - essa Paris suprema, tão desejada - torna-se seu único e profundo anseio.</p>
		<p>Passemos agora a uma outra classe de mulheres igualmente interessantes. Um grande número de mulheres vem a Paris, trazidas por questões comerciais, processos ou outros negócios do gênero. Como as primeiras, elas não possuem ninguém que possa guiá-las e são obrigadas a confiar seus interesses a desconhecidos, que as ludibriam com muita frequência. A ignorância em matéria de negócios, que acompanha ordinariamente a educação atual das mulheres, as torna um terreno de fácil exploração para trapaceiros e intrujões de toda espécie. A simplicidade dessas mulheres lhes causa a perdição e seu isolamento lhes custa muito, até mesmo a ruína de suas famílias, no interesse das quais a viagem fora empreendida. Quantas tristezas se acumulam em suas costas! Enganadas, irritadas, arruinadas, elas amaldiçoam Paris e seus habitantes, que não souberam oferecer uma mão amiga à desafortunada Estrangeira, chegada para defender seus direitos, e que retornará sem que uma voz sequer tenha se erguido em seu favor, ou que um único coração tenha se entristecido com suas dores.</p>
		<p>Chegamos, enfim, à terceira classe de mulheres - a mais numerosa, a mais interessante -, sobre a qual parecem se reunir todas as dores, a fim de torná-la digna da mais profunda compaixão.</p>
		<p>As grandes cidades sempre foram objeto de reprovação, sob o argumento de que lá abundam os vícios e as infâmias, onde tudo se esconde, se confunde, se engole. Tudo isso é muito verdadeiro, embora lá também seja morada da virtude que chora e morre ignorada, do desespero que geme e torce as mãos em silêncio, da infelicidade de aparência calma e resignada. Sabemos perfeitamente que, se uma jovem de cidade pequena foi seduzida, desonrada e abandonada em seu tormento, essa desafortunada não terá outra saída para esconder sua vergonha senão confundir-se nesse imenso abismo, onde tudo assume a mesma forma e cor. É lá também que vem buscar refúgio a esposa de um casamento infeliz, autorizada pelas instituições a viver separadamente de seu marido, sem, contudo, lhe ser permitido o divórcio necessário para a felicidade de ambos e para a ordem geral. Também é nesse lugar que vai buscar refúgio a Estrangeira cujo infortúnio, ou a calúnia que o sucede, forçaram-na a abandonar sua terra natal. Quando seus corações estão partidos pelas angústias, quando a infâmia censurável de seus semelhantes - talvez mil vezes mais culpados do que elas - lhes vêm pesar sobre a cabeça, é nesse momento que elas se refugiam nas multidões, no seio das grandes cidades, procurando, ali, a liberdade para chorar despercebidas nas sombras e esconder sua dor e sua miséria. É principalmente para essas mulheres que a luminosa Paris - a quem tantas vezes, nos confins de seus campos, lhes fora pintada sob cores tão vibrantes - parece tão horrível, fria e deserta, mesmo sendo tão populosa! Para essa classe de estrangeiras, a estadia em Paris em uma pensão é mil vezes mais horrenda do que o Tártaro, naquilo que ele tem de mais temível!</p>
		<p>Concebe-se facilmente que as estrangeiras que se encontram na posição que acabamos de descrever são quase sempre desprovidas de recursos financeiros. A jovem enganada não teria sido abandonada, se fosse <italic>rica</italic>; a Estrangeira caluniada não teria sido forçada a abandonar seu país, se fosse <italic>rica:</italic> apenas são atacados os seres fracos e infelizes. Poucas mulheres ricas se encontram na necessidade de separar-se de seus maridos, por já viverem, desde o início, praticamente separadas deles. As estrangeiras de que falamos são quase sempre necessitadas e, muitas vezes, miseráveis.</p>
		<p>Todavia, são esses seres infelizes que, mais do que ninguém, teriam necessidade de uma mão auxiliadora que lhes oferecesse apoio. Quantas dessas mulheres vivendo no abandono consomem suas vidas isoladas em um quartinho escuro, gelado, morrendo na primavera de suas existências. Sequer um raio de esperança brilha para elas no horizonte e, sufocadas sob o peso de suas dores, elas terminam por contrair essa sensibilidade excessiva, essa irritabilidade extrema, que, a longo prazo, destrói a saúde mais robusta. O desprezo e o isolamento a que estão submetidas lhes fazem maldizer a existência. O menor sinal de falta de respeito, o menor olhar levemente maldoso, são para elas como socos certeiros que lhes comprimem o peito. Um amigo lhes seria mais necessário do que o espaço para os pássaros, nascidos para planar sobre os ares; do que o sol para as plantas que crescem sobre a terra. Porém, esse sonhado amigo frequentemente não se encontra em parte alguma e se, por vezes, sua sombra lhes é revelada, ela lhes escapa tão rápido quanto um meteoro brilhante em uma noite de verão. Oh! A dor, então, lhes transborda o coração, como uma torrente após o degelo da neve! Onde elas poderão encontrar alguém que lhes compreenda, a quem elas pudessem se confiar inteiramente e encontrar um pouco de calmaria para dar vazão à sua dor? Poderiam elas dirigirem a palavra a um estrangeiro tomado ao acaso? Mas vocês não tremem ao ouvir essa palavra, <italic>ao acaso,</italic> em uma imensa bolha viciosa como uma cidade grande? Pois bem! Supomos que após mil temores, mil ansiedades das mais cruéis, elas tivessem coragem e ousadia suficientes para arriscar todo o seu futuro ao acaso. Nós perguntamos: onde elas encontrariam tal estrangeiro? Sozinhas em seu quarto, elas ignoram tudo o que acontece no imenso deserto onde vieram se esconder, assim como o estrangeiro que passa na rua lamacenta onde elas moram também ignora que exista, no fundo do pátio do pequeno alojamento que tem diante de si, uma jovem moça, uma jovem mulher, talvez sua compatriota, que precisa mais do que nunca de seu socorro. Dessa impossibilidade de se encontrarem os seres nascidos uns para os outros - ou que necessitam uns dos outros - nascem muitas das tristezas que nos oprimem, no estado atual da nossa sociedade. Oh! Queridos compatriotas, vocês que residem em uma casa construída por seus pais, vocês que gozam todos as oportunidades da vida, que estão cercados de sua família, de seus amigos, de seus prazeres - em uma palavra, de tudo que traz felicidade na vida - deem, de boa vontade, uma olhada de compaixão e piedade sobre os seres que respiram como vocês, que sentem como vocês, mas que sofrem mil vezes mais do que vocês! Vocês, que não sabem o que é ter que deixar a terra natal, nunca pensaram que existam compatriotas seus, talvez até amigos seus, que estão estrangeiros em solo distante, cujo clima lhes deixa doentes, cujos hábitos - estranhos para eles - lhes irritam a todo instante, cuja língua lhes é desconhecida, privando-lhes de todo alimento e de toda consolação? Oh, irmãos, isso é aterrorizante! Isso é capaz de gelar seus corações de medo e de pavor! Ah, tenhamos piedade do destino das estrangeiras que se encontram em posição infeliz, amemo-las, socorremo-las com todo nosso poder. Muitas não ousam lhes falar, pois evitam todo encontro social; não é orgulho, é medo. A tristeza as torna tímidas. Essa posição de <italic>mulher sozinha, estrangeira,</italic> sem fortuna e sem apoio tem algo de tão apavorante, que nós não tentaremos descrevê-la. Nenhuma língua tem expressões suficientemente fortes para exprimir tamanhas dores. Apenas aos corações bons e compassivos é dado o poder de penetrar até o fundo desse abismo de infortúnios.</p>
		<p>Muitas dessas mulheres desafortunadas levaram a Paris um coração partido, porém puro, inteiramente devotado à virtude. Costumes simples, ideias justas e qualidades sólidas. Elas nada demandavam, senão fazer o bem e fazê-lo completamente. Contudo, essa sociedade que as rejeitou, que as olhou com desconfiança, essa mesma sociedade, em vez de socorrê-las como a irmãs, criou precipícios sob seus pés; em vez de ajudá-las a cumprirem seu dever com a escrupulosa exatidão que poderiam fornecer, mostrou-lhes o caminho do vício adornado das cores mais brilhantes, o caminho do vício como sendo o <italic>único</italic> que lhes fosse possível percorrer. Ela zombou, com um sorriso diabólico, da repugnância que essas mulheres sentiam ao percorrê-lo e lhes impôs uma cruel alternativa: ou degradarem-se a seus próprios olhos, ou perecerem de miséria, caluniadas pelos mesmos sedutores que buscavam sua perdição. E essa sociedade bárbara, indigna, mais orgulhosa de seu covarde triunfo que Lúcifer de sua beleza, esgotou todos os recursos de seu gênio infernal para bloquear-lhes toda escapatória, a fim de que suas vítimas nunca possam sair do abismo onde foram lançadas, sem nenhum pudor, sem nenhuma piedade. Eis a ordem das coisas atualmente: um infeliz cai e todos se precipitam sobre ele para pisoteá-lo. Que infelicidade! Se amaldiçoamos nossos irmãos, se os deixamos perecer na dor, quem virá a nosso socorro quando chegar nosso dia de aflição? Homens desgarrados, lembrem-se de que o mal que fazemos aos outros recai sobre nossas cabeças e de nossos filhos!</p>
		<p>É um dever que deve ressoar no fundo de seus corações, é um dever sagrado o de vir ao socorro de tantas milhares de criaturas sofredoras que imploram e sucumbem sob o peso de sua dor. Pensem, em sua consciência, nessa máxima de Cristo, que devaser a base de toda moral: “Façais aos outros o que gostaríeis que fizessem a vós”. Ah! Deixem-se penetrar por essa sublime doutrina e vocês não mais deixarão afogarem-se em um oceano de misérias tantas mulheres que poderiam ser salvas por suas mãos! Façam o bem, vocês experimentarão uma alegria inefável, uma alegria que é, em si mesma, a recompensa que os elevará até Deus.</p>
		<p>Quanto às cidades do interior, podemos assegurar que a sorte das estrangeiras não é melhor do que em Paris. Nas cidades de primeira ordem, elas encontram o mesmo isolamento da capital, o mesmo egoísmo, a mesma falta de cuidado e ainda menos cortesia. Nas outras localidades, mesmo sendo menos corrompidas, a indiferença é substituída por uma curiosidade insolente. Se, nas cidades grandes, as estrangeiras não recebem nenhuma atenção, nesses lugares elas são objeto de conversa. Porém, quanto a um interesse real por si, as estrangeiras não recebem nem em um, nem no outro. Se uma mulher sozinha, em viagem, deseja visitar o que há de interessante pela estrada, ela só poderá fazê-lo com muita dificuldade e tendo a certeza de tornar-se o assunto de todas as conversas das pessoas notáveis do vilarejo.</p>
		<p>Se falarmos dos balneários, dos estabelecimentos termais, são nesses lugares que a posição de Estrangeira <italic>sozinha</italic> se torna ainda mais difícil! São nesses locais que o ócio oferece mais tempo e mais pendor para se ocupar da vida dos outros e, portanto, é lá que a Estrangeira se torna objeto de calúnia. Se uma mulher, atormentada por uma doença qualquer, tem a coragem (e a palavra não é um exagero) de ir <italic>sozinha</italic> banhar-se, ali estarão pessoas caridosas, como tantas há, que não hesitarão em manifestar dúvidas sobre sua honra. Outras garantirão, com base em boatos, que ela está à caça de fortunas; e ela pode certificar-se de que receberá proposta de jovens que envenenarão seu coração e aumentarão seu mal, em vez de aliviá-lo, como era sua intenção inicial. Paremos aqui.</p>
		<p>Nós lançaremos em breve uma obra sobre a Inglaterra, que terá por objeto principal relatar o acolhimento que recebem as estrangeiras que viajam para esse país, detalhes que ficariam deslocados aqui (digamos apenas que a sorte das <italic>mulheres sozinhas</italic> e <italic>estrangeiras</italic> nesse país é mil vezes pior do que na França).</p>
		<p>Quanto à América, veremos, quando da publicação do nosso relato de viagem por essas paragens, que quanto mais ela avança na direção da civilização europeia, mais ela perde de sua antiga hospitalidade. Essa virtude parece desaparecer sob a cultura, como as árvores de florestas seculares, e será com horror que o viajante se perguntará um dia (dia que não se encontra distante, se as coisas continuarem a avançar nesse passo): em que se transformaram os costumes patriarcais, essa hospitalidade natural, essa cordialidade do Novo Mundo, que tanto me encantaram nos relatos dos viajantes dos séculos passados?</p>
		<p>Mas coloquemos um véu sobre essa imagem de infelicidades e egoísmo - podemos até mesmo dizer de barbáries - das civilizações modernas. Basta observar que há muito poucas modificações a serem feitas ao quadro que viemos desenhar sobre a França para transpô-lo às demais nações.</p>
		<p>Já chega de falar ao coração; os que são sensíveis já nos compreenderam. Em nosso século positivista, é preciso também dirigir-se à inteligência. Tomemos cuidado para não sermos confundidos com esses metafísicos que sonham com mais do que a razão. Cuidemos para que nossas teorias não sejam assimiladas pelas utopias morais que brotam de todos os lados e, contudo, ruem logo em seguida, porque a seus autores faltou previdência e espírito matemático. Aliás, em uma época em que as massas são puramente calculadoras, resumindo seu raciocínio à exibição de números e especulando sobre a probabilidade da felicidade vindoura com uma frieza aritmética, acreditamos que é preciso falar a cada um em sua própria língua. Para tanto, traçaremos um panorama das desvantagens materiais que resultam do mau acolhimento das mulheres estrangeiras, bem como dos imensos benefícios que poderiam ser percebidos ao recebê-las de maneira distinta.</p>
		<p>É certo que as estrangeiras compõem grande parte da riqueza das cidades e que as relações de nação a nação fazem o progresso social caminhar a passos largos. Conhecemos as imensas vantagens que a revolução de 89 trouxe para a Europa inteira. Nossos exércitos vitoriosos, sob a república e o império, percorreram todas as terras, estabeleceram relações íntimas por toda parte e ensinaram os povos a se conhecerem, a não mais se desprezarem como no passado e a tirarem proveito de seus conhecimentos recíprocos. Atualmente, não vemos mais o inglês desdenhando do que vem do continente; o italiano não olha mais com desdém para a ciência que é feita para além dos seus Alpes; da mesma forma, os franceses - que por circunstâncias felizes foram os primeiros a se impulsionarem na direção do progresso - também compreendem sua missão de propagar a civilização por todo o mundo. Vejam quantos benefícios alcançaram o comércio, as ciências, a arte, a indústria; a verdade não é mais patrimônio exclusivo de quem a descobre, mas ela é publicada, difundida. As nações rivalizam com um objetivo nobre, e ferrovias, canais, pontes se constroem por toda parte. Nossos vizinhos de além-mar fizeram enormes progressos na construção de máquinas, mas nós os seguimos no mesmo passo, pois, relações íntimas foram estabelecidas entre as duas nações. Estudamos línguas estrangeiras, e os livros são imediatamente traduzidos de nação a nação, para propagar as luzes da inteligência sobre todos os países.</p>
		<p>Ficaria muito longo enumerar aqui todas as vantagens propiciadas pelas viagens, em manter relações permanentes entre as nações, acelerando o momento em que todas as nações rivais chegarão ao ponto de constituírem uma única família. As mulheres também são uma parte ativa nas viagens e, se elas não podem, tanto quanto os homens, serem úteis à ciência, é do lado dos costumes que seu espírito de observação torna a utilidade das mulheres preponderante. Mas o que fazemos para atraí-las ou para mantê-las em nossa cidade? Naturalmente, tendo em vista o quadro traçado acima, as mulheres do interior e as estrangeiras não encorajarão suas amigas, nem suas compatriotas a empreenderem uma viagem que lhes causou tamanho sofrimento. Esse é um fato que nós mesmas pudemos constatar: que muitas mulheres, tendo vindo na intenção de permanecer um tempo prolongado em Paris, deixaram a cidade ao fim de um mês, sem ter visto nada, aprendido nada, desgostosas do isolamento da cidade grande e amaldiçoando o dia em que deixaram <italic>seus lares</italic> tão confortáveis.</p>
		<p>Por outro lado, as parisienses quase nunca visitam as cidades do interior, e pelas mesmas razões. Vejamos, contudo, quantos benefícios reais poderiam produzir essas curtas viagens.</p>
		<p>As mulheres sentem que uma nova era começa para elas, e que elas também estão sendo convocadas a adentrar o santuário da instrução. A maior infelicidade das mulheres abastadas provém de sua ociosidade, ou do fato de que, com sua má educação, elas estão restritas a ocupações frívolas ou de pouca duração. Quanto elas não ganhariam ao poder realizar com frequência viagens agradáveis e instrutivas! As mulheres de Paris não mais estariam desprovidas de conhecimentos sobre seu próprio país, como estão em sua maioria. Elas encontrariam e poderiam se apropriar, ao travar contato com a vida das mulheres do interior, das virtudes que geralmente negligenciam em sua própria cidade, tais como a economia doméstica, o bom senso, e a franqueza que distinguem as mulheres de fora da capital. Essa observação as impulsionaria a refletir seriamente sobre a superficialidade e a incrível frivolidade de um grande número de parisienses. De outro lado, as mulheres do interior retornariam a seus lares com uma instrução mais fina, mais amável e acima de tudo mais avançada rumo ao progresso. Os vilarejos concederiam a pureza de seus costumes às grandes cidades e estas dariam, em contrapartida, sua civilização. Enfim, essas viagens multiplicadas resultariam em inúmeras vantagens e em um progresso sensível, que se faria sentir em todas as camadas da sociedade.</p>
		<p>É inútil comentar sobre as mulheres que fariam viagens ao exterior, pois as vantagens que acabamos de assinalar seriam potencializadas, por se tratar de uma escala muito maior. Graças a Deus, todos já somos franceses, sem necessidade de fazer distinções entre capital e interior; e essas viagens, essa hospitalidade recíproca, aproximaria em muito o dia tão desejado em que todos seremos <italic>homens, irmãos</italic>, sem nos distinguir pelos nomes de ingleses, alemães, franceses etc. Porém, quando um mal é identificado e o remédio a esse mal é encontrado, é preciso procurar meios de aplicá-lo, e é com esse objetivo que viemos propor nossa Sociedade.</p>
		<p>De início, observemos a História e veremos que, em todas as épocas em que uma parcela da sociedade sofria e sentia a necessidade de uma mudança, as associações se adiantavam às reformas. Essas associações tinham por objetivo se ajudarem mutuamente, ir ao socorro dos irmãos aflitos e perseguidos, pois, fracos como somos, considerados individualmente, é apenas na união que podemos extrair a força, a potência e a possibilidade de fazer o bem.</p>
		<p>Veremos primeiramente os cristãos perseguidos formarem sociedades para vir ao socorro daqueles cuja fé os transformava em vítimas de tiranos. Veremos, mais tarde, judeus perseguidos na Idade Média; eles também formaram associações que se espalharam por toda a superfície do globo e que, ao inventarem as letras de câmbio, cooperaram muito com o progresso do comércio e da civilização. Veremos as cruzadas, verdadeiras associações que se formavam na Europa para socorrer os fiéis do Oriente. Leremos, enfim, a história do protestantismo e veremos que, na Alemanha, na Inglaterra e em todo lugar por onde se estendiam as perseguições - primeiramente exercidas pelos católicos contra os protestantes e depois por estes contra aqueles - sociedades se formaram a fim de socorrer as infelizes vítimas de uma ou de outra seita.</p>
		<p>Poderíamos dizer o mesmo de todas as épocas de grandes revoluções políticas, bastaria abrir as páginas de livros de História para encontrar mil exemplos.</p>
		<p>Pois bem! Nossa época não é igual a qualquer uma dessas épocas críticas em que se prepara silenciosamente uma grande mudança? As mulheres não sofrem? Vir em seu socorro não é um dever, e dos mais sagrados?</p>
		<p>Comecemos, portanto, com mãos firmes, a erguer o estandarte do socorro mútuo. Erijamos uma sociedade santa, hospitaleira e aliviemos uma parte desses seres que sofrem e que nos darão bênçãos por termos eliminado seu sofrimento. Nosso exemplo será seguido, nossa voz ecoará em todas as almas generosas. Não tenhamos dúvidas disso. E então nosso coração saboreará essa alegria pura, divina, que apenas a filantropia e a virtude podem fazer conhecer.</p>
		<p>Iremos expor as bases sobre as quais repousam nossa Sociedade e o estatuto que acreditamos dever atribuir-lhe.</p>
		<sec>
			<title>Estatuto da sociedade para as mulheres estrangeiras</title>
			<sec>
				<title>Lema da sociedade: virtude - prudência - publicidade</title>
				<p>Artigo primeiro. Esta Sociedade será composta igualmente por <italic>homens</italic> e <italic>mulheres</italic>.</p>
				<p>Art. 2. Para ser admitido, será necessário provar domicílio no local onde a Sociedade estará sediada. Art. 3. Ninguém poderá ser admitido antes da idade de vinte e cinco anos.</p>
				<p>Art. 4. Para ser admitido, será necessário ser apresentado por três membros, e oferecer garantias sobre sua moralidade e suas boas intenções em relação às <italic>Estrangeiras</italic>.</p>
				<p>Art. 5. Cada mulher deverá doar, para o custeio do estabelecimento, 30 francos por ano, pagáveis com seis meses de antecedência; cada homem, 60 francos.</p>
				<p>Art. 6. Não se admitirá nenhum membro por menos de um ano.</p>
				<p>Art. 7. O conselho será composto 1º por um Presidente (<italic>mulher</italic> ou <italic>homem</italic>, <italic>estrangeiro</italic> ou <italic>natural</italic>, desde que domiciliado no local). O Presidente será nomeado, como todas as outras funções, por escrutínio, pela maioria relativa dos membros presentes, e por um ano; depois disso ele poderá ser reeleito, se assim a Sociedade julgar conveniente.</p>
				<p>Art. 8. 2º Um <italic>Vice-Presidente,</italic> pelo mesmo período, que deverá substituir o Presidente em sua ausência.</p>
				<p>Art. 9. 3º Três Secretários, que serão nomeados apenas por três meses; eles poderão ser substituídos, desde que às suas <italic>custas</italic>, e depois de fazer com que seus representantes sejam aceitos pela Sociedade.</p>
				<p>Art. 10. Seis membros serão nomeados por 3 meses, para integrar o que chamaremos de <italic>Comitê exterior</italic>, e que serão encarregados de receber as Estrangeiras, de escutar suas demandas, de atendê-las e, se for o caso, de apresentá-las à Sociedade, e mesmo de introduzi-las <italic>no mundo</italic>; de fornecer àquelas que vêm para fazer alguma pesquisa todas as informações de que possam precisar; àquelas que são artistas, de colocá-las em contato com outros artistas; àquelas que são <italic>estrangeiras na França</italic>, de colocá-las em contato com seus compatriotas, se assim o desejarem; àquelas que vêm em busca de uma ocupação profissional, de se esforçarem para encontrar uma que lhes seja conveniente, além de ajudar àquelas que vêm por negócios, questões judiciais, doença etc. Eles deverão igualmente se relacionar bem com inúmeros gerentes de pensões, a fim de que esses últimos, através de uma <italic>recomendação de sua parte</italic>, recebam as Estrangeiras que se apresentarem para a hospedagem com toda a consideração que merece uma <italic>mulher estrangeira</italic>; eles também deverão fornecer cartas de recomendação àquelas que vierem pedi-las, para que elas possam encontrar, ao chegar no país onde desejam ir, outra Sociedade, mãe benfeitora, que as receba em seu seio. Em uma palavra, os seis membros do Comitê Exterior se ocuparão ativamente de velar, com a maior exatidão, para que as Estrangeiras usufruam, em todos os aspectos, dos benefícios que a Sociedade se comprometeu em lhes oferecer.</p>
				<p>Art. 11. A Sociedade terá uma assembleia geral no primeiro dia de cada mês. O objetivo dessa reunião será unicamente discutir os interesses das Estrangeiras. Cada membro deverá levar ideias de melhorias em favor das Estrangeiras. Os projetos de melhorias propostos na sessão geral serão encaminhados a uma comissão para uma análise cuidadosa, a fim de serem avaliados os meios de colocá-los em execução.</p>
				<p>Art. 12. No caso em que se apresentem circunstâncias extraordinárias, como, por exemplo, se uma Estrangeira tiver um <italic>segredo para comunicar sobre sua posição,</italic> ou outras confidências graves a fazer, caso que não saberíamos nomear aqui, o <italic>presidente</italic>, o <italic>vice-presidente</italic>, um <italic>secretário</italic> e <italic>dois membros da Sociedade</italic> deverão se reunir em um comitê secreto para escutar a <italic>Estrangeira</italic> e refletirem entre si sobre as medidas a serem tomadas que lhes possam ser úteis.</p>
				<p>Art. 13. A Sociedade deverá alugar um local próximo ao centro do bairro onde se reúnem o maior número de estrangeiros. O local deverá ser composto de uma primeira sala, onde serão os escritórios; de uma segunda, onde haverá uma biblioteca e todos os jornais franceses e estrangeiros; de uma terceira, que servirá de salão de recepção, onde poderemos nos reunir pelo prazer da conversação; e, enfim, de um grande salão que servirá para sediar as sessões da Sociedade. Ele também poderá ser utilizado para dar festas, concertos, fazer cursos etc.; a entrada nesse salão será sempre <italic>gratuita</italic>, a menos que se queira fazer concertos, bailes ou outras festas em <italic>benefício das Estrangeiras pobres</italic>.</p>
				<p>Art. 14. Não tendo objetivo de lucro, a Sociedade, para provar ao público que suas intenções são inteiramente filantrópicas, deverá fazer um registro exato de todas as despesas ocasionadas pelos custos desse estabelecimento. A declaração de todos os custos, por mês, será afixada na primeira sala, para que todos possam julgá-los, de maneira a não restar nenhuma dúvida de que a <italic>Sociedade para as Estrangeiras</italic> nunca teve qualquer pretensão comercial, pensamento que se rejeita por ser altamente incompatível com o espírito que a dirige.</p>
				<p>Art. 15. Cada membro poderá usufruir do direito de entrar no salão de leitura e no de recepção. Nos dias de assembleia geral, cada membro terá o direito de levar três pessoas <italic>aos lugares reservados</italic>. O mesmo valerá para quando houver cursos, concertos, bailes (beneficentes) ou outra festa.</p>
				<p>Art. 16. Cada membro deverá usar, nos dias de reunião, uma grande fita verde com uma borda vermelha de cada lado, na qual será pendurada uma medalha de prata onde estará escrito, de um lado, o lema da Sociedade e, de outro, as palavras: <italic>Sociedade para as Estrangeiras</italic>. Usaremos a fita como ela é utilizada pelo comandante da Legião de Honra<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>. Cada membro deverá usar <italic>diariamente</italic>, os homens na <italic>lapela</italic>, as mulheres no <italic>peito</italic>, uma pequena fita da mesma natureza que a grande.</p>
				<p>Art. 17. Cada membro, onde quer que se encontre, será obrigado a oferecer ajuda e proteção a toda Estrangeira que, ao reconhecer a insígnia que ele carrega e que indica pertencimento à <italic>Sociedade das Estrangeiras,</italic> lhe demandar <italic>socorro.</italic></p>
				<p>Art 18. Se houver algum caso em que a Sociedade queira queixar-se de uma Estrangeira, a queixa deverá ser feita em sessão pública, nomeando a pessoa pelo seu nome <xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> e enunciando os fatos; mas, fora desse recinto, deve-se abster de dizer uma só palavra sobre as Estrangeiras que conhecemos no seio da dita Sociedade.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>
				</p>
				<p>Art. 19. As Estrangeiras e os Estrangeiros poderão fazer uma assinatura, para leitura dos jornais, por um preço que será fixado de acordo com o número de assinantes.</p>
				<p>Nós devemos observar aqui que nosso estatuto talvez não esteja completo; entendemos facilmente que isto não passa de um projeto, que nós terminaremos inteiramente com a ajuda e a participação de pessoas que queiram se juntar a nós.</p>
				<p>O espírito que ditou esse estatuto garante à toda <italic>Estrangeira</italic> a prudência e a discrição da Sociedade, pontos essencialmente importantes. As <italic>Estrangeiras</italic> que, de alguma maneira, se encontrem em uma posição delicada e particular, poderão igualmente confiar-se a nós com segurança<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, certas de que encontrarão, em cada membro da Sociedade, uma pessoa amiga e profundamente interessada em aliviar suas dores. Elas poderão pedir ajuda, conselho, proteção, persuadidas de antemão de encontrarem, no coração de cada membro dessa nobre associação, um desejo verdadeiro de em tudo lhes servir, além de uma firme vontade de procurar todos os meios para alcançá-lo. Enfim, elas não estarão mais sozinhas nessa imensa Paris, onde pretendemos instalar o centro de nossa primeira associação; elas poderão falar de suas dores a seres bons e compassivos, que as acolherão com doçura e atenção, e que se empenharão, por todos os meios possíveis, em fazer renascer em suas almas abatidas a esperança e a tranquilidade.Eis as vantagens morais que a nossa Sociedade apresentará às mulheres estrangeiras, vantagens que farão quase desaparecer as dores que lhes oprimem no presente.</p>
				<p>Nós lhes abriremos nossos braços, daremos lágrimas às suas infelicidades e trabalharemos para diminuí-las; derramaremos bálsamos sobre as feridas de seus corações e seremos amplamente recompensados por nossos próprios sofrimentos, pela alegria pura e simples que vem da alma após a realização de uma boa e louvável ação.</p>
				<p>Nós sentimos perfeitamente que a realização de nosso projeto será difícil. Quando se pretende sair do caminho óbvio, encontram-se mil dificuldades. Mas nós nos sentimos fortes e não esqueceremos a tarefa que nos impusemos. A Sociedade, desde sua formação, deverá se ocupar inteiramente de vincular a ela pessoas verdadeiramente boas e caridosas, capazes de servir à humanidade. Numa palavra, nós seguiremos com ardor o espírito de nossa Sociedade, que não terá outro objetivo senão o de melhorar o destino das <italic>mulheres estrangeiras</italic>.</p>
				<p>Agora, nós vamos responder às pessoas que vieram nos objetar que é impossível fazer o que propomos, porque se encontrará, em todos os lugares e principalmente em Paris, muitas <italic>mulheres sozinhas e estrangeiras</italic> que não são mulheres <italic>como se deve</italic> ser.. E como vocês querem, nos dirão<italic>, que admitamos essas mulheres dentro da boa sociedade</italic>?</p>
				<p>Se não estivéssemos restritos aos limites estreitos que aqui se impõem, poderíamos discutir essa questão em toda sua amplitude, na medida do seu alcance profundamente filosófico e moral. Seria fácil demonstrar que, quase sempre, a causa que produz o mal está ela mesma dentro da sociedade, mais do que dentro do indivíduo que a comete. A sociedade que rejeita em seu seio, sem nenhuma piedade e sem jamais perdoar, o indivíduo que cometeu a menor das faltas, o coloca infalivelmente na cruel necessidade de continuar no caminho do vício. Há poucos, bem poucos, que são dotados dessa força sobre-humana que torna o homem capaz de levantar-se acima da sociedade e de desdenhar seu desprezo, contentando-se com a pureza de sua consciência ou do arrependimento dos seus erros. “Tragam a ovelha desgarrada de volta ao rebanho”, disse nosso Senhor, e o que ele disse é verdadeiro, pois o homem não é mau por natureza e não pode regozijar-se no vício, mas nossa sociedade o tornou cruel e <italic>empurra-o para o vício</italic>. Muitos desses seres desgarrados, vítimas de nosso egoísmo, poderiam ter se tornado excelentes cidadãos, porém agora são perigosos para a sociedade. Mas essa questão é muito vasta para ser discutida aqui. Mais tarde, se nos sentirmos aptos, tentaremos tratá-la mais a fundo.</p>
				<p>Suponhamos que, no começo, algumas mulheres ousem solicitar assistência de nossa sociedade, apoiando-se em nomes e problemas falsos, com o único intuito de ludibriar as pessoas introduzindo-se na sociedade. Pois bem! Assim que o caso for revelado, nem os membros que as apresentaram, nem os que as receberam ficarão comprometidos com o que quer que seja, pois não serão <italic>elas pessoalmente</italic> que receberemos, mas elas sob o título de <italic>Estrangeiras</italic>, e com essa recomendação nós lhes daremos os cuidados e a atenção que sua posição exige.</p>
				<p>Se uma dessas mulheres não for uma mulher honesta - falemos a palavra - se ela for uma arrivista, a boa sociedade que a tiver recebido não será responsável; nós cumpriremos com os deveres de hospitalidade a ela devidos, porém, se ela não nos retribuir através de ações louváveis, nós a expulsaremos da Sociedade, fazendo conhecer publicamente sua conduta indigna.</p>
				<p>A esse respeito, também vamos especificar os deveres que toda Estrangeira deverá cumprir para com a Sociedade, e esperamos que, assim, os casos em que possamos temer ser enganados se tornem mais raros.</p>
				<p>A mulher que desejar recorrer aos benefícios da Sociedade dita <italic>para as Estrangeiras</italic> deverá estar ciente de que estará se apresentando a uma associação santa, filantrópica, onde todos os pensamentos, ações e objetivos são nobres, generosos e inspirados pela virtude. Ela deverá pensar que ao lado da virtude caminha sua acompanhante inseparável, a <italic>seriedade</italic>, escrutinando incessantemente os modos, as ações e até mesmo as palavras. Ela deverá pensar que a coragem e a abnegação de si próprio, consagradas ao socorro às desgraças, para proteger os fracos e inocentes, para consolar as dores, só podem ser encontradas nas almas que possuem uma natureza inexorável para tudo o que for vício, mentira ou engano.</p>
				<p>Leis morais<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> serão estabelecidas para nossa Sociedade, leis mais severas do que qualquer código já publicado até agora. Nós teremos como lema, escrito em letras grandes sobre a porta do local onde acontecerão as reuniões, essas três palavras: <italic>Virtude, Prudência, Publicidade</italic>. <italic>Virtude</italic> significará, para nós, amor inteiro e completo pela humanidade, indulgência fundamentada, perdão por todos os erros que, não tendo afetado o coração, não serão doenças sem remédio. A palavra <italic>Prudência</italic> servirá para nos lembrar de que, em nosso século, os homens estão inclinados a enganar seus semelhantes, portanto é necessário manter-se ao abrigo de todas as armadilhas; servirá também para nos lembrar da prudência e da discrição que devemos às Estrangeiras tímidas que vierem nos solicitar ajuda. E, enfim, a <italic>Publicidade</italic> nos imporá o imperioso dever de denunciar ao público o vício, a intriga e a maldade. Sim, nossa Sociedade oferecerá às Estrangeiras um lugar de refúgio, de consolação, de doces alegrias; porém, se elas não forem dignas, será para elas um tribunal fatal que fará soar por todos os lados o grito de reprovação que deve pesar sobre um vício incorrigível.</p>
				<p>Após essa profissão de fé, acreditamos que será impossível encontrar mulheres tão ousadas para vir até nós sob o véu da hipocrisia.</p>
				<p>Cada Estrangeira, ao se apresentar à Sociedade, será obrigada a fazer conhecer seus <italic>verdadeiros nomes</italic> (se ela utiliza um nome falso, ela poderá guardá-lo para o mundo, se lhe convier), a<italic>s causas pelas quais ela saiu de seu país, seu local de moradia</italic>; e, enfim, <italic>quais são seus meios de existência</italic>; tudo de maneira sigilosa, caso ela ache conveniente. São essas as condições sem as quais será inútil que qualquer Estrangeira se apresente; e nós estamos convencidos de que as mulheres sensíveis e virtuosas, longe de as considerar muito severas, ficarão contentes com as garantias que tais condições representam.</p>
				<p>Sigamos as santas impressões do coração, multipliquemos as sociedades no mesmo espírito da nossa, e nós caminharemos no sentido do progresso.</p>
				<p>As desgraças da nossa época advém do fato de que os homens não têm nenhuma crença consolidada. A indefinição, que produz inicialmente em seus espíritos mil sistemas e mil sonhos, para em seguida provocar uma <italic>desilusão</italic> completa e um vazio medonho, os conduz naturalmente ao materialismo e ao egoísmo, que secam seus corações e lhes fazem maldizer sua existência.</p>
				<p>Mas nós temos diante de nós uma crença, uma religião, a mais bonita, a mais santa: o amor da humanidade. Aqui não há espaço para nenhum sistema incompreensível, nenhuma superstição, nenhum objetivo indefinido. O bem das massas é também o bem do indivíduo, e a bandeira dessa religião pode juntar a ela todas as outras, porque esse é o <italic>espírito de Cristo</italic>.</p>
				<p>Sejamos filantrópicos e aliviemos as mulheres, pois as mulheres são a poesia, são a arte dentro do gênero humano, e sem poesia, sem arte, não pode haver nada de perfeito. Longe de nós a ideia de sonhar com uma vida puramente metafísica; mas o homem é um ser ao mesmo tempo físico e moral, e apenas será feliz se agir segundo as necessidades de sua dupla natureza.</p>
				<p>As benfeitorias que resultarão da associação que viemos oferecer se estenderão a todas as classes da Sociedade. As mulheres se tornarão mais instruídas, menos frívolas, mais elevadas e mais carinhosas; os homens serão melhores, ainda mais fortes, e mais engajados em fazer o bem, pois a felicidade redobra as forças morais aniquiladas pelo sofrimento, assim como a santidade aumenta as forças físicas.</p>
				<p>Assim, poderemos ver o reino da virtude se estender pela terra e unicamente a virtude; poderemos esperar ver realizar-se esse desejo de sábia liberdade, que faz bater tão ardentemente todos os corações generosos e sublimes. Sim, a virtude e o amor podem sozinhos unir as massas, e da sua reunião nascerá uma força invencível. Nós ousamos dizer, ainda, que a realização de nosso projeto possibilitará ao homem conhecer sua potência, quando ele quiser confiar na virtude. O homem que ama torna-se igual a Deus. Mas o que digo! Ele pode fazer mais que o próprio Deus! Se quiser, ele pode reunir sob uma só crença<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>, sob uma única esperança, esse universo tão vasto e belo que é sua herança, mas que está despedaçado pelas divisões e pelo ódio. Meus irmãos, renunciemos a toda odiosa rivalidade, ao egoísmo da família ou da nação; que nossa boa vontade firme e constante nos faça procurar a felicidade - que até o momento não passou de um sonho - no amor<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref> e na união! Trabalhemos de comum acordo e a encontraremos. Homens, insistiremos, nós podemos fazer mais do que Deus; estendamos nossa filantropia universalmente e formemos uma única família. Não somos nós homens antes de sermos Ingleses, Italianos ou Franceses? Os limites do nosso amor não devem restringir-se aos arbustos que circundam nosso jardim, aos muros que envolvem nossa cidade, às montanhas ou aos mares que fazem fronteira com nosso país. Doravante nossa <italic>pátria deverá ser o universo</italic>. Jesus disse: <italic>Vós sois todos irmãos!</italic> Façamos com que a diferença de nossos costumes e modos, variáveis segundo cada clima, no lugar de ser um motivo de disputa e raiva contínua, torne-se uma escola mútua de onde cada um irá extrair a perfeição. Homens, amemo-nos, e a felicidade virá habitar nosso coração; mas, principalmente, que nunca venha aos nossos lábios a palavra do desprezo, pois aquele que disser <italic>raca</italic><xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref><italic>a seu irmão será maldito por Deus</italic><xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>. Caminhemos, então, corajosamente para o nobre objetivo da perfectibilidade que todos podemos ver, e que, à base de trabalho e perseverança, poderemos alcançar; assim, o homem será digno do seu criador, pois terá feito, com seu coração, tanto quanto fez Deus todo- poderoso: <italic>do caos, o universo! Do universo caos</italic>, <italic>o universo harmonioso,</italic> e sua missão será cumprida.</p>
				<p>Almas nobres e ardentes, corações sensíveis e generosos, que compreendem o que há de sagrado e santo na virtude e na caridade, é a vocês que dirigimos nosso apelo. Nós temos esperança em vocês, nós recorremos a vocês com todo nosso vigor, a fim de que venham em nossa ajuda para que o projeto que concebemos tenha sucesso. Sim, nós não duvidamos, nossa voz será escutada com simpatia, pois no meio da multidão encontramos ainda muitas pessoas repletas de devoção, cujo espírito elevado compreende o dever sagrado que todos temos de cumprir, aquele de fazer o bem <italic>de acordo com nossos meios</italic>. Nós não nos limitaremos apenas a indicar o que deve ser feito, mas consagraremos nossa vida a trabalhar no propósito que nos propusemos a alcançar.</p>
				<p>Nossa França, tão bela, tão engrandecida pelas novas ideias que por aqui estão fermentando, responderá com um ressoante eco ao nosso chamado. Ela pede apenas que caminhemos em direção à perfeição, por isso estamos felizes em poder mostrar-lhe um novo caminho aberto diante de si. O príncipe<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref>, a quem o povo, recém-chegado da vitória, outorgou a si mesmo no dia do seu triunfo, esse príncipe que nos governa, e que sofreu com nobreza e grandeza um longo exílio, compreenderá, melhor que ninguém, o louvável pensamento que nossos extensos sofrimentos nos sugeriram. É para seus santos sentimentos que endereçaremos nosso primeiro apelo, como rei de uma nação generosa e como homem que conhece o infortúnio de ser <italic>Estrangeiro</italic>; e que, por mais elevado que seja, pode ainda vir a ter um dia de sofrimento, pois a vontade impenetrável de Deus pesa sua mão sobre os grandes da terra, assim como sobre os vermes que se arrastam na poeira, submetendo-os igualmente a um dia de dor. Além do príncipe, encontraremos homens que, assim como ele, sofreram o exílio e a miséria, retornando de lá com aquela nobre generosidade que sempre foi a mais preciosa qualidade francesa em todos os tempos; e enfim, teremos as mulheres, que se sentirão moralmente obrigadas e felizes a contribuir com toda sua capacidade para uma obra tão útil e urgente para o progresso do seu sexo e do gênero humano como um todo. Se a execução de nosso projeto acontecer, como temos todo o direito de esperar, nós agradeceremos a Deus de ter-nos impregnado de tão pungentes dores durante dez longos anos, pois desses mesmos infortúnios nasceu a ideia deste projeto, que poderá servir de maneira eficaz à causa que nós servimos, a da humanidade.</p>
				<p>NOTA: As pessoas que desejarem fazer parte da <italic>Sociedade para as Estrangeiras</italic>, e que quiserem entrar em contato com a autora do projeto, encontrarão seu endereço na editora.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>FIM</title>
			<p>
				<fig id="f1">
					<caption>
						<title>Folha de rosto da publicação original</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2176-8099-plural-28-02-159-gf1.jpg"/>
					<attrib>disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://gallica.bnf.fr/">https://gallica.bnf.fr/</ext-link>
					</attrib>
				</fig>
			</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Nécessité de faire un bon accueil aux femmes étrangères. Paris: Chez Delaunay, 1835. Nota das tradutoras: A única reedição deste texto foi feita em 1988. Ver: TRISTAN, Flora. Nécessité de faire un bon accueil aux femmes étrangères. Édition présentée et commentée par Denys Cuche, postface de Stéphane Michaud. Paris: L’Harmattan, 1988. A versão original está disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://gallica.bnf.fr/">https://gallica.bnf.fr/</ext-link>
				</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>[N.T.] A Legião de Honra foi criada em 19 de maio de 1802, por vontade do Primeiro Cônsul, Napoleão Bonaparte, em um contexto de hostilidade. A nova instituição se inscreve em um vasto programa de reorganização do Estado, da mesma maneira que o Código Civil, o Conselho de Estado, a Corte de Contas, o corpo de polícia e as grandes escolas. Bonaparte tem consciência da necessidade de restabelecer um sistema completo de recompensas, inspirado nas antigas ordens honoríficas exterminadas pela Revolução, mais respeitoso da igualdade entre os cidadãos. O que anuncia a criação da Legião de Honra é de suma relevância: sem privilégios, exceções, ou retribuições de qualquer sorte, apenas o reconhecimento do mérito individual adquirido e intransmissível. Retirado de: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.legiondhonneur.fr">www.legiondhonneur.fr</ext-link> (acesso em 08/08/2019)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>[N. A.] Em alguns casos, não violaremos o segredo do nome que a Estrangeira possa ter dado confidencialmente.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>[N. A.] Essa cláusula é uma das principais do juramento que cada membro deverá pronunciar antes de sua admissão.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>[N. A.] Ver os Estatutos, artigo Comitê Secreto.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>[N. A.] A fórmula do juramento desenvolverá a natureza dessas leis, que não encontram espaço aqui.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>[N.A.] Nós não entendemos por crença apenas uma única e mesma religião, mas um único e só pensamento, aquele de fazer o bem. O muçulmano e o judeu sentem o que há de belo na virtude, assim como o cristão.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>[N.A.] Nós devemos explicar que não conferimos à palavra amor a acepção corrente até o momento: nós queremos dizer o amor da humanidade, amor do bem, amor da virtude.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>[N.A.] Palavras da Bíblia</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>[N.T.] Raca é um termo de desprezo que significa louco, néscio, tolo, estúpido. Ver, Mateus 5:22 “... e qualquer um que disser a seu irmão: raca, será réu do sinédrio...”.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>[N. T.] O príncipe a que Tristan se refere é Luís Filipe I (1773-1850), o último rei da França, conhecido como “rei cidadão” e “rei dos franceses”, que reinou de 1830 a 1848. Após a Revolução de 1789, o príncipe, filho de Luís Filipe II, Duque de Orléans, que havia sido guilhotinado durante o período, ficou exilado por 21 anos, só retornando à França em 1814, durante a Primeira Restauração.</p>
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