<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article
  PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article article-type="research-article" dtd-version="1.1" specific-use="sps-1.9" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">
	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">plural</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Plural - Revista de Ciências Sociais</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Plural - Revista de Ciências Sociais</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="ppub">2176-8099</issn>
			<issn pub-type="epub">2176-8099</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
			</publisher>
		</journal-meta>
		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2176-8099.pcso.2023.206006</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ARTIGO</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>Redes de solidariedade e práticas de resistência através de interações online e ofﬂine entre familiares de pessoas encarceradas</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>Solidarity networks and resistance practices through online and ofﬂine interactions between family members of incarcerated people</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5455-1647</contrib-id>
					<name>
						<surname>Santos</surname>
						<given-names>Alana Barros</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>a</sup></xref>
				</contrib>
				<aff id="aff1">
					<label>a</label>
					<institution content-type="original">Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Campinas</institution>
					<addr-line>
						<city>Campinas</city>
						<state>SP</state>
					</addr-line>
					<country country="BR">Brasil</country>
				</aff>
			</contrib-group>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>23</day>
				<month>06</month>
				<year>2023</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2023</year>
			</pub-date>
			<volume>30</volume>
			<issue>1</issue>
			<fpage>108</fpage>
			<lpage>127</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>20</day>
					<month>10</month>
					<year>2022</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>17</day>
					<month>04</month>
					<year>2023</year>
				</date>
			</history>
			<permissions>
				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Diversos trabalhos têm demonstrado a relevância das redes sociais <italic>online</italic> como mediadoras e produtoras de vínculos entre pessoas que convivem nos arredores das prisões. Este artigo, se propõe a avançar no campo dos estudos prisionais ao olhar etnograficamente para o contexto da Penitenciária Feminina alagoana. O principal objetivo é analisar como são produzidas redes de solidariedade e práticas de resistência entre os familiares de pessoas encarceradas, matizadas por interações <italic>online</italic> e <italic>offline</italic>. Secundariamente, reflito sobre os usos das tecnologias de comunicação e analiso como as redes sociais, especificamente um grupo de <italic>WhastApp</italic>, e os celulares têm sido articuladores das possibilidades de contato, bem como das formas de organização e de resistência entre esses sujeitos. A pesquisa foi desenvolvida por meio de trabalho etnográfico; registros de campo escritos, em áudios e imagens. Por fim, o artigo apresenta questões (in)conclusivas sobre a construção das relações em campo feita na/através da internet durante a pandemia da covid-19, indagando sobre os “saberes localizados” incógnitos da pesquisadora em um grupo de <italic>WhatsApp</italic>.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p>Several works have demonstrated the relevance of online social networks as mediators and producers of bonds between people living in the surroundings of prisons. This article proposes to advance in the prison studies by looking ethnographically at the context of the Women’s Penitentiary of Alagoas. The main objective is to analyze how solidarity networks and resistance practices are produced among family members of incarcerated people, nuanced by online and offline interactions. Second, I reflect on the uses of communication technologies and analyze how social networks, specifically a WhastApp group, and cell phones have articulated the possibilities of contact, as well as forms of organization and resistance between these subjects. The research was developed through ethnographic work; written, audio and image field records. Finally, the article presents (in)conclusive questions about the construction of field relations made on/through the Internet during the covid-19 pandemic, inquiring into the “localized knowledge” of the researcher in a WhatsApp group.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Presídio Feminino</kwd>
				<kwd>Famílias</kwd>
				<kwd>WhatsApp</kwd>
				<kwd>Redes de solidariedade</kwd>
				<kwd>Antropologia Digital</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd>Women’s Prison</kwd>
				<kwd>Families</kwd>
				<kwd>WhatsApp</kwd>
				<kwd>Solidarity Networks</kwd>
				<kwd>Digital Anthropology</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
				<fig-count count="1"/>
				<table-count count="0"/>
				<equation-count count="0"/>
				<ref-count count="17"/>
				<page-count count="20"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<p><italic>Nas primeiras horas de uma manhã de quarta-feira em julho de 2021, ao desbloquear o celular para verificar as notificações de mensagens no WhatsApp, vejo que o grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref><italic>” já estava movimentado com as trocas de áudios. O motivo era o novo comunicado feito por uma funcionária do presídio feminino: as famílias seriam autorizadas pela gestão do Sistema Prisional a levar novos objetos para as suas parentes encarceradas na penitenciária Santa Luzia até a sexta-feira daquela semana. Seriam permitidos tintura de cabelo preta, casaco branco sem botão (por conta do inverno), um secador e uma chapinha para servir a todas as mulheres do módulo 1 e 2, extensão e produtos para selagem no cabelo.</italic></p>
		<p><italic>Como a notícia surgiu após o dia de entrega da feira</italic><xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref><italic>(que estavam ocorrendo uma vez por mês), alguns familiares que não moravam em Maceió passaram a se preocupar com a informação de última hora e como fariam o trajeto de entrega dos materiais fora da agenda de visitas familiares. No grupo, há pessoas que moram em Recife, São Miguel dos Campos, Ibateguara, Penedo, entre outros municípios. O custeio de passagens até a penitenciária Santa Luzia pode variar entre 30 e 200 reais por dia. Além disso, a maioria depende de uma rotina de trabalho que não os permite se ausentar durante a semana.</italic></p>
		<p><italic>Após os pedidos de ajuda de familiares que não moravam na capital alagoana, algumas mulheres se dispuseram a ajudar as famílias que residiam em outros municípios e estados. Kátia</italic><xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref><italic>, fez o trajeto até o centro da cidade algumas vezes para comprar as encomendas que as famílias foram pedindo para ela através do WhatsApp. Jane, que reside próximo à penitenciária, se ofereceu para levar as mercadorias de quem não poderia se deslocar até a Cidade Universitária</italic><xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref><italic>na sexta-feira pela manhã.</italic></p>
		<p><italic>No decorrer dos dias, o assunto principal no grupo girou em torno das aquisições desses objetos: onde comprar mais barato; a maneira de marcar as roupas e as encomendas com os nomes e celas das mulheres; quem levaria até o presídio; quais as quantidades e embalagens dos produtos que eram autorizadas, dentre outras muitas dúvidas e acertos. As famílias, através do grupo, se apoiaram e construíram caminhos solidários para suprir suas familiares presas, apesar da instabilidade na produção das informações e normativas instauradas na prisão feminina.</italic><xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>
		</p>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>***</title>
			<p>O objetivo deste artigo é investigar metodológica e analiticamente como são produzidas as relações entre os familiares de pessoas encarceradas no Presídio Feminino de Alagoas, matizadas por interações <italic>online</italic> e <italic>offline</italic>. Essas questões surgiram da minha trajetória de pesquisa em instituições de encarceramento desde 2016. E mais recentemente no contexto do Sistema Prisional Feminino em Alagoas e no acompanhamento de um grupo de <italic>WhatsApp.</italic> Interessada nas tramas afetivas que constituem redes de solidariedade, organização e resistência entre pessoas encarceradas e seus familiares.</p>
			<p>No início de abril de 2021, fui adicionada ao grupo de <italic>WhatsApp</italic><xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> “Guerreiros e Guerreiras da Fé”, composto por familiares de pessoas encarceradas na Penitenciária Feminina Santa Luzia através de uma das mães, Kátia, conhecida por ser uma “liderança” entre as famílias do Sistema Prisional em Alagoas. Mesmo com sua filha em <italic>liberdade</italic>, Kátia, mulher negra e empregada doméstica, continua alimentando a rede <italic>online</italic> de comunicação que ela mesma criou para responder uma demanda que antes fora sua e agora é vivenciada por outros homens e mulheres que se conheceram nos portões da prisão.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Fotografia da frente do Presídio Feminino de Alagoas, que é a imagem de capa do grupo de <italic>WhatsApp</italic>.</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2176-8099-plural-30-01-108-gf1.jpg"/>
				</fig>
			</p>
			<p>Passei a acompanhar dia e noite a rotina de comunicação que movimenta o grupo, feita através das trocas de áudios, regra estabelecida entre os membros para incluir as pessoas que não sabem ler e/ou escrever. Essa característica de comunicação me chamou atenção para uma dimensão que revela a importância do <italic>WhatsApp</italic> na vida cotidiana em países da América Latina, como os estudos de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Cruz e Harindranath (2020</xref>) demonstraram. O <italic>WhatsApp</italic> tornou-se uma infraestrutura econômica e comunicativa central em todas as classes com distintos graus de alfabetização, por permitir a comunicação através de chamadas, trocas de áudio, vídeos e videochamadas, assim como, <italic>emojis</italic>, imagens, adesivos, <italic>gifs</italic> e memes. Ampliando e democratizando as formas comunicativas através de interações <italic>online</italic> a partir de múltiplas linguagens. O <italic>WhatsApp</italic> tem se consolidado como uma ferramenta de mediação fundamental para a vida social, econômica e cultural (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Cruz, Harindranath, 2020</xref>).</p>
			<p>Para os familiares de pessoas encarceradas, essa ferramenta tem possibilitado a ampliação das suas formas de comunicação e articulação, integrando tanto as trocas de informações, fundamentais para o cotidiano de quem acompanha um familiar aprisionado, como as afetivas, que sustentam emocionalmente esses sujeitos. De forma que me interesso por compreender como são tecidas essas relações que se moldam na vida <italic>online</italic> e <italic>offline</italic>, conectando dos muros da prisão aos interiores das casas dos familiares.</p>
			<p>O grupo possui uma média de 80 membros, pessoas que residem em distintos bairros de Maceió, em cidades do interior de Alagoas, além de estarem diluídas em outros estados do Brasil. Familiares de pessoas que estão cumprindo suas penas ou esperando julgamento, algumas estão presas há dois/três anos, outras há poucos meses. Por isso o fluxo de informações é constante. Quem já tem experiência de acompanhar a rotina da prisão há mais tempo ensina para os familiares que foram adicionados recentemente ao grupo. Nas trocas de mensagens, também é comum os questionamentos sobre como enviar cartas ao presídio, qual o número de contato da assistente social, qual o dia de fazer o cadastro das visitas, e outras indagações sobre a logística do Sistema Prisional.</p>
			<p>Da mesma maneira, o grupo também funciona como um espaço para desabafos sobre as dificuldades na relação com os/as advogados/as, a demora de respostas do judiciário ou as péssimas condições de habitação, alimentação e saúde que suas parentes enfrentam dentro da prisão: <italic>Elas estão fracas ali dentro, sem uma vitamina C, sem uma vitamina D. Mal toma um banho de sol, fracas sem se alimentar direito, as vezes não come nem um feijão. Se pegar uma gripezinha, pronto, já era, é coronavírus</italic><xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>.</p>
			<p>As condições de sobrevivência dentro do Sistema Prisional, que já eram desafiadoras antes da pandemia da COVID-19, no contexto pandêmico se apresentaram ainda mais problemáticas e angustiantes. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B17">Padovani (2020</xref>), as atenções voltadas para o genocídio, intensificado pela pandemia, foi sedimentado nas estatísticas que evidenciaram como mortes e adoecimentos atingiram predominantemente as populações negras e pobres. O Sistema Carcerário, sem dúvida, é integrante dos “aparatos tecnológicos que faz/deixa morrer homens e mulheres pobres, negros/as ou racializadas pela territorialidade dos bairros, regiões, países que os/as localizam socialmente” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Padovani, 2020, p. 10</xref>).</p>
			<p>Até o final de maio de 2021 as famílias estavam sem visitas presenciais, sem poder levar a <italic>feira</italic> e com pouquíssimas informações sobre o estado de saúde de suas familiares presas. Não se comunicavam por vídeo chamada ou ligação<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>. O raro contato que se tinha era através de cartas e não era fácil de enviar e receber respostas. Nesse contexto, o grupo de <italic>WhatsApp</italic> também se tornou um importante instrumento de interação entre os familiares, bem como palco das mobilizações em torno das precariedades da Penitenciária Feminina. Nadja, umas das mães que aguardava o julgamento de sua filha há mais de um ano, enviou um áudio convocatório do grupo no dia 06 de abril de 2021: <italic>A gente faz protesto pelo menos pra feira entrar. Todo mundo se junta e corre pra porta do Sistema e diz: “a gente tá fazendo protesto pra feira entrar”, quando a reportagem chegar. É assim que faz, bora se juntar todo mundo.</italic></p>
			<p>Ao acompanhar o fluxo de comunicações e diálogos que cotidianamente circulavam através do grupo, passei a perceber como a experiência do encarceramento impacta a vida das pessoas encarceradas e seus familiares, que estão inseridos em “processos de precarização da vida” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Butler, 2018</xref>), geralmente induzidos e reproduzidos pelas próprias instituições estatais, como por exemplo, o Sistema de justiça, as polícias, o judiciário e a gestão do Sistema Prisional. <xref ref-type="bibr" rid="B4">Butler (2018)</xref> define como esses processos adaptam populações, com o passar do tempo, a insegurança e a desesperança. Esses sentimentos estiveram presentes nos relatos de uma das mães, que me enviou a seguinte mensagem de áudio:</p>
			<disp-quote>
				<p>Ficam jogando spray de pimenta nas celas, teve uma delas que até internada foi com a garganta e o nariz na carne viva [...] isso é desumano, gente. Eu disse pra minha filha que a parti de hoje eu ia começar as novas denúncias sobre isso aí, eu não vou me calar. Mesmo quando a minha filha saí dali eu não vou parar por aí, eu vou continuar [...] sobre o alimento é igual, horrível, que nem um cachorro come as comidas.</p>
			</disp-quote>
			<p>As narrativas que representam a indignação e a insegurança frente as condições precárias de sobrevivência dentro dos muros da prisão, parecem estar associadas as respostas que buscam meios de resolução dessas demandas, por exemplo, através do protesto e da denúncia, ou seja, do ato de “não se calar”. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B13">Natália Lago (2019</xref>), a prisão é produtora das tensões que atravessam os caminhos dessas mulheres, assim como também é parte constitutiva das ferramentas mobilizadas por elas para deslizar entre tensões e perseguir seus projetos de vida (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Lago, 2019a</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">2019b</xref>). Em concordância, enxergo a prisão como um campo alargado que concebe múltiplos limites físicos, mas também possibilidades de agência. Por isso, analiso as redes de solidariedade tecidas entre as pessoas presas e os seus familiares, que possibilitam um fluxo constante de informações, cuidados, objetos e pessoas.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>A PESQUISA NA/ATRAVÉS DA INTERNET: O OLHAR INCÓGNITO DA PESQUISADORA</title>
			<p>Para aprofundar a apresentação sobre o grupo de <italic>WhatsApp</italic> “Guerreiros e Guerreiras da Fé”, torna-se necessário conhecer a Penitenciária Feminina de Alagoas. No último boletim divulgado pela SERIS/AL (Secretaria de Estado de Ressocialização e Inclusão Social de Alagoas) em junho de 2022 havia 141 pessoas encarceradas na Penitenciária Feminina Santa Luzia, entre condenadas e provisórias. Alagoas possui apenas uma unidade prisional feminina, situada na capital Maceió. É, portanto, nessa prisão onde estão reclusas todas aquelas que foram apreendidas no Estado, além de algumas pessoas que estão cumprindo suas penas em Alagoas. Dessa forma, no grupo de familiares estão inseridas pessoas de vários municípios e de outros Estados que enfrentam as jornadas de visitas<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> para acompanhar suas parentes presas.</p>
			<p>Desde abril de 2021, acompanho esse grupo de <italic>WhatsApp</italic> interessada na interlocução com as pessoas que passam a compartilhar da trajetória de encarceramento de suas familiares. A partir do grupo, também é possível tecer interlocução com pessoas egressas do Sistema, que ao <italic>ganhar liberdade</italic> se tornam membras. A pesquisa realizada através de redes sociais <italic>online</italic>, por exemplo, no <italic>WhatsApp</italic>, me exige um rigor ético e metodológico tanto no recolhimento dos dados, como no processo de análise. A luz das produções do campo da “antropologia digital”, compreendo a internet como “campo, contexto e ferramenta de pesquisa, composta pelas muitas relações que se desenvolvem nela e a partir dela” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Lins, Parreiras, Freitas, 2020</xref>, p. 6), produzindo reflexões sobre as relações de pesquisa <italic>online</italic> e <italic>offline</italic> a partir “dos modos como os sujeitos dão sentido às suas práticas, aos seus usos e às relações que estabelecem” (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Lins, Parreiras, Freitas, 2020</xref>, p. 3) com a internet e seus dispositivos móveis.</p>
			<p>O mergulho etnográfico apresentado neste artigo, iniciado durante a pandemia da covid-19, me levou a navegar em águas desconhecidas e intrigantes na busca de formas alternativas para lidar com um trabalho de campo feito através do distanciamento físico-social. Ao me indagar sobre as possibilidades de “estar” em relação com meus interlocutores de pesquisa, passei a refletir sobre os significados da minha inserção no grupo de <italic>WhatsApp</italic> dos familiares de pessoas encarceradas no Presídio Feminino em Alagoas. Experiência moldada a partir da relação entre o meu corpo de mulher negra, cisgênero, heterossexual, pesquisadora e cientista social e a diversidade de corpos dos/das meus/minhas interlocutores/ras.</p>
			<p>Apesar de ter experienciado algumas breves interações no grupo, eu não costumava participar dos diálogos. O meu repertório cotidiano não me possibilitava contribuir com as conversas que circulavam no grupo. Por exemplo, eu não tinha uma familiar encarcerada, por isso as informações sobre o que, como e quando levar nas <italic>feiras</italic> ou sobre os dias de visita íntima e social, entre outras coisas que fazem parte do dia a dia dos meus interlocutores, eu não conseguia acessar através da minha interação como pesquisadora, que até determinado momento aconteceu exclusivamente <italic>online</italic>.</p>
			<p>Nota-se, nos trechos dos meus diários de campo, que apresento no decorrer do texto o meu olhar narrativo, associado a um lugar observador direto, paralelamente aproximado e distante. A minha localização digitalmente encarnada no grupo do <italic>WhatsApp</italic> possibilitou uma presença que assisti as interações, mas não necessariamente participa delas. Os meus interlocutores têm me permitido essa presença no grupo sem questionamentos, a minha presença ali foi autorizada, o que não significa que eu consigo manter diálogos continuamente aproximados com os conteúdos e repertórios que circulam naquele ambiente <italic>online</italic>.</p>
			<p>Por isso tenho me perguntado, qual conhecimento é possível de ser produzido nesse plano de interações? A minha figura quase transparente de observação me possibilita acompanhar, ler, ouvir, fazer registros de campo, mas não participar ou contribuir diretamente nos diálogos que acontecem através dessa ferramenta virtual. Essa percepção sobre a relação com os meus interlocutores foi tensionada quando estabeleci conversas no privado com algumas pessoas, por vezes motivadas por mim e outras por membros do grupo. Nessas situações, passei a ser novamente lembrada como participante e através disso indagada: <italic>você tem como ajudar a transferir a minha filha de presídio? Qual a sua relação com o pessoal dos direitos humanos? Você trabalha lá no Sistema? Tem alguma informação?</italic></p>
			<p>Essas perguntas foram feitas por uma das mães do grupo, que chamarei de Maria, em agosto de 2022. Ela me enviou uma mensagem no privado depois que enviei no grupo a divulgação de um evento realizado pela comissão de Defesa dos Direitos Humanos da OAB em parceria com o Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas, uma auditoria com os familiares de presos(as) e ex-reeducandos(as), para colher as denúncias relacionadas as violações de Direitos Humanos dentro dos presídios. A minha mensagem no grupo fez com que Maria me identificasse como alguém que poderia ajudá-la no processo de transferência da sua filha de Alagoas para a Bahia, estado onde ela e a família residem. A filha da Maria apresentava todas as condições plausíveis para a transferência, mas o processo estava parado, sem avanços durante meses. Busquei os contatos dos advogados que atuam na comissão de Defesa dos Direitos Humanos e repassei para Maria, que conseguiu ter mais informações sobre o processo e o comprometimento da Comissão de ajudá-la pressionando as partes envolvidas.</p>
			<p>A minha localização transparente deu lugar a uma localização indagada, corporificada e questionada, sobretudo, no que eu posso contribuir, como eu posso ajudar. Ao me aproximar dos familiares, tenho compreendido a urgência e os desafios cotidianos de quem está nas malhas desiguais do sistema de justiça brasileiro, que responde as famílias mais pobres e com menos recursos de defesa com indiferença e lentidão. Essas questões me levaram a refletir sobre as minhas implicações como pesquisadora na produção das redes de afeto e solidariedade entre os familiares e sobreviventes do cárcere.</p>
			<p>No momento em que eu aciono a minha rede de relações com a comissão de Defesa dos Direitos Humanos da OAB/AL, que entro em contato com colegas advogadas para pedir ajuda e esclarecimento sobre os processos que os familiares me apresentam, que ofereço uma escuta qualificada e propositiva para participantes do grupo que chegam até o meu privado no <italic>WhatsApp</italic>, estou tecendo as tramas afetivas que conectam as fronteiras entre o dentro e fora da prisão feminina, estou sendo parte dos “vasos comunicantes” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Godoi, 2015</xref>) que materializam as porosidades prisionais e as agências possíveis entre os sujeitos que as constituem.</p>
			<p>A produção etnográfica feita na/através da internet no campo dos estudos sobre prisões nos abre para as possibilidades e os limites da atuação digital, pois está a todo momento sendo mediada pelo caráter arbitrário e autoritário das práticas e políticas penitenciárias. Ao passo que evidencia como os familiares estão constantemente negociando, tensionando e buscando as brechas possíveis de desestabilizar essas políticas arbitrárias, para continuar produzindo relações de cuidado e afeto com quem está sob os olhares permanentes da punição e da privação de liberdade. Como nos ensinou Padovani, “as redes de afeto são as saídas pelos portões da prisão. São elas as suas porosidades possíveis” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Padovani, 2018, p. 40</xref>).</p>
			<p>A partir do conceito de “saberes localizados” de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Donna Haraway (2009</xref>), apresento esta produção de conhecimento como situada e corporificada, longe da rigidez cientifica e das negociações de poder relacionadas a uma ciência que busca uma objetividade relativista e universalista. Acompanhada por <xref ref-type="bibr" rid="B9">Haraway (2009)</xref> e muitas outras feministas, aproximo meu argumento a favor “de uma prática da objetividade que privilegie a contestação, a desconstrução, as conexões em rede e a esperança na transformação dos sistemas de conhecimento e nas maneiras de ver” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Haraway, 2009, p. 24</xref>).</p>
			<p>A metodologia desenvolvida para a escrita deste artigo se deu através da produção de diários de campo das observações feitas no grupo de <italic>WhatsApp</italic>. Geralmente, separava uma ou duas vezes por semana para escutar os áudios, observar as imagens, vídeos e acompanhar a dinâmica dos diálogos que aconteceram naquele intervalo de tempo. Durante esse período também consegui conversar com alguns familiares no privado, mais especificamente seis pessoas. Após todas as interações <italic>online</italic>, fiz registros de campo, assim como costumava fazer após as incursões etnográficas presenciais durante a graduação e o mestrado. Aos poucos fui descobrindo as formas possíveis de produção etnográfica na/através da Internet.</p>
			<p>Ao refletir sobre as experiências compartilhadas por familiares de pessoas encarceradas, através de interações <italic>on</italic> e <italic>offline</italic>, não tenho como objetivo caracterizá-las como se fossem todas iguais ou semelhantes em suas complexidades. Observar o grupo é sobretudo um exercício de compreender quais são as experiências individuais e coletivas que atravessam esses sujeitos nos seus lugares permeáveis e ambíguos, atravessando as muralhas da prisão (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Ricordeau, 2012</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B17">Natália Padovani (2020</xref>), nos alerta que para compreender a prisão e as políticas penitenciárias é necessário ouvir de maneira qualificada as falas sobre “as cadeias” que cada pessoa experienciou para entender de fato cada um de seus processos de encarceramento. Na mesma direção, entendemos que por mais que as vivências em torno do cárcere possam aproximar familiares em relação aos desafios enfrentados, há camadas de experiências que são demarcadas pela diferenciação racial, territorial, geracional e sexual dos corpos que são colocados em intensa relação no espaço que as une, a prisão.</p>
			<p>O grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé”, na diversidade de mulheres e homens vinculados por distintos graus de parentescos com pessoas encarceradas no Presídio Feminino, parece funcionar como uma rede de solidariedade e apoio entre familiares e mulheres egressas. Um espaço para desabafos, orações, troca de informações e mobilizações em torno das demandas geradas pela gestão da Penitenciária.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>INTERAÇÕES ONLINE E OFFLINE: A PENITENCIÁRIA FEMININA SANTA LUZIA COMO MEDIADORA DE VÍNCULOS SOCIOAFETIVOS</title>
			<p><italic>Sábado, dia 11 de junho de 2022, a primeira mensagem no grupo foi enviada às 05h44min da manhã. Uma imagem com cores em tons de amarelo claro e cinza, ao fundo um ramo de plantas verdes amarradas por um laço de fita da mesma cor, que tinha escrito a seguinte frase: “Bom dia! Espalhe boas palavras, tenha boas atitudes e dê o seu melhor sempre. Isso agrada a Deus e faz o bem à alma também”.</italic></p>
			<p><italic>A mensagem foi enviada por Rosa, que é alagoana, mas mora há 20 anos no interior da Bahia, sua filha está presa no EPSL</italic><xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref><italic>há quase dois anos. Durante esse período, Rosa não teve condições de visitar a filha com frequência em Maceió, foi através de pessoas do grupo que conseguiu enviar a feira para ela algumas vezes.</italic></p>
			<p><italic>Naquele sábado aconteceu a visita social. Após mais algumas trocas de imagens e figurinhas de “bom dia” relacionadas a mensagens religiosas, a conversa girou em trono das entradas e saídas do presídio: “gente, bom dia! Podemos levar talher?”, “aquela moça que fica com as nossas coisas vai hoje?”.</italic></p>
			<p><italic>Katia, com sua experiência e conhecimento em torno da rotina de visitas ao sistema prisional, enviou um áudio dizendo que sempre tem outras pessoas na pista paralela a entrada do presídio disponíveis para guardar os pertences dos familiares, enquanto acontecem as visitas. “Leve só a sua passagem de volta, a chave da sua casa e um papelzinho com seu nome anotado dentro da sacola”. Aquele dia tinha amanhecido chuvoso, como a maioria das manhãs de inverno em Maceió. Lurdes, que há cinco anos acompanha os dias de visita na Penitenciária Santa Luzia para guardar os pertences dos familiares, cobra 10 reais pelo serviço. Seu turno de espera geralmente é das 8h até as 16h. Sua renda familiar depende dos serviços que oferece na frente do presídio. Nos dias de visita, além de guardar bolsas de familiares, vende doces e salgados na fila de espera.</italic></p>
			<p><italic>O serviço de Lurdes ajuda os familiares que precisam levar suas bolsas ou até mesmo chaves de casa, guarda-chuva, a passagem de ônibus, itens que não são permitidos passar pelos checkpoints da prisão e que são fundamentais para a mobilidade dos visitantes.</italic></p>
			<p><italic>Na terça-feira anterior àquele sábado o secretário do Sistema decretou que “ninguém poderia mais ficar olhando bolsas e vendendo lanches” na guarita que antecede a entrada do presídio feminino, segundo Lurdes, “porque eles não estavam satisfeitos com esse movimento”. As pessoas que costumavam acompanhar os dias de visita na intenção de oferecer os seus serviços deveriam ficar apenas do lado de fora, o que significava esperar ao lado da avenida, no canteiro que divide os dois lados da pista e possui algumas árvores e tendas de lona improvisadas. Além disso, o Presídio Feminino é o último do complexo penal, a caminhada da avenida até o local é de no mínimo 15 minuto.</italic></p>
			<p><italic>Esse decreto dificultou a dinâmica dos dia de visita, no período chuvoso não haveria espaço minimamente adequado para “as meninas” que guardam as bolsas e vendem lanches esperarem a saída das famílias visitantes. Lurdes, então, comunicou ao grupo que não iria naquele sábado. O que causou descontentamento e mensagens de preocupação no grupo</italic><xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref><italic>.</italic></p>
			<p>Nas pesquisas mais recentes sobre Sistema Prisional, encarceramento e relações familiares a dimensão das interações <italic>online</italic> e <italic>offline</italic> tem tomado uma relevância cada vez mais significativa. A mediação dos vínculos através das trocas estabelecidas via celular e redes sociais ampliou as formas de comunicação e organização entre os familiares de pessoas privadas de liberdade. De tal modo que é interessante ressaltar como essa dinâmica de articulação entre as famílias para encontrar soluções em resposta aos problemas e instabilidades criadas pela gestão prisional, se contrasta com a intensa e recorrente preocupação com o uso de celulares dentro da prisão produzida pelo discurso policial-jornalístico.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B2">Barcinski, Lermen, Campani, Altenbernd (2014</xref>), na pesquisa realizada com uma rede virtual de apoio aos familiares de pessoas privadas de liberdade, observaram que as trocas efetuadas entre os participantes tinham como objetivo suprir diversas demandas dos familiares, tais como as de apoio emocional, jurídico e material. As autoras constataram que a referida “comunidade virtual” refletia “a fragilidade das redes de apoio das famílias de pessoas privadas da liberdade, o potencial criativo e as possibilidades de superação das dificuldades encontradas no contexto carcerário” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Barcinski et al, 2014</xref>, p. 929).</p>
			<p>Ao refletir sobre os “grupos de comunicação instantânea” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Nascimento, 2021</xref>) compartilho das reflexões tecidas por Nascimento, em sua pesquisa com pessoas presas e policiais penais no fora/dentro das prisões no Ceará. O autor compreende os grupos de <italic>WhatsApp</italic> como espaços de constante interlocução envolvidos por relações de intimidades e afetos, que se tornam uma extensão da prisão na vida tanto de profissionais (no caso dos policiais penais) como de quem está experienciando o encarceramento (mulheres presas e seus familiares). “Esse aplicativo não é apenas um meio de comunicação onde emergem as problemáticas cotidianas da prisão, mas é também um canal de interlocução expressivo para a formação de laços de grupo, onde se pode verbalizar o que não se tem espaço na instituição” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Nascimento, 2021</xref>, p. 60).</p>
			<p>O grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé”, se configura como um espaço comum de interação, uma ferramenta adicional de comunicação entre os familiares que conecta a casa, a rua e a prisão. As famílias passaram a compartilhar, além das filas de espera no portão do presídio feminino, de “relações mediadas digitalmente” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Miskolci, Balieiro, 2018</xref>) que possibilitam uma comunicação cotidiana. E tornou-se mais uma forma de tecer vínculos de cuidado, para além das trocas de informações.</p>
			<p>Segundo Iara <xref ref-type="bibr" rid="B3">Beleli (2017</xref>), a Internet tem permitido o estabelecimento de redes que aprofundaram os contatos na esfera da intimidade, iniciada através do desenvolvimento das “interfaces sociotécnicas”. As transformações relacionadas ao uso individualizado dos equipamentos de comunicação digital estão associadas a ampliação e a politização da vida privada (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Beleli, 2017</xref>).</p>
			<p>O diálogo com esse referencial teórico-metodológico me remeteu as experiências que tive com o Seu João através das nossas interações <italic>online</italic>. Em uma sexta-feira pela manhã no mês de agosto de 2022 fiz uma vídeo chamada pelo <italic>WhatsApp</italic> com um dos membros do grupo, Seu João. Tinha combinado com ele no dia anterior uma conversa para me apresentar e apresentar meus interesses de pesquisa. Eu já observava a participação dele no grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé”, um dos únicos homens presentes e atuantes na comunicação, além de ser um dos administradores.</p>
			<p>Conversamos durante uma hora por chamada de vídeo. Seu João, homem negro de quase 60 anos, usava óculos de grau e vestia uma camisa da padroeira de sua cidade no interior de Alagoas, lugar onde ele mora. Também percebi que ele estava com uma caneta e papel em mãos, em vários momentos durante nossa conversa, assim como eu, fazia algumas anotações.</p>
			<p>Seu João gosta muito de conversar, por isso ele intercalava algumas perguntas sobre a minha pesquisa com a narrativa de sua própria vida. Inicialmente, ele me perguntou o que eu queria saber sobre o Sistema Prisional que envolvia os <italic>direitos humanos</italic>. Após me ouvir, ele disse que teria muita coisa para me contar, mas preferia fazer pessoalmente, pois não confiava em falar sobre certos assuntos através do celular.</p>
			<p>Com a voz embargada e os olhos marejados, Seu João começou a falar sobre sua esposa, encarcerada a mais de quatro anos. Ele falava como quem conta cotidianamente o tempo que vive a espera de sua amada fora dos muros da prisão e me pediu desculpas por se emocionar: <italic>ela é uma pessoa muito boa, não entendo por que passa por isso num caso em que é suspeita</italic>. Foi com a narrativa de um homem apaixonado que naquele dia Seu João me permitiu conhecer e ser afetada por sua história de amor. Pude conhecer mais sobre o homem que eu acompanhava através do grupo, enviando mensagens quase todos os dias sobre a dinâmica do presídio feminino, mas sem saber como ele tinha chegado até ali.</p>
			<p>Durante esses anos Seu João faz o trajeto até Maceió com sua moto nos sábados e/ou domingos de visita íntima e social. A viagem dura em torno de 3 horas para ir e o mesmo tempo para voltar. No momento, tem feito isso duas vezes no mês. Nossa conversa ainda passeou por questões sobre amizade e confiança. Seu João me passou alguns conselhos sobre as relações feitas através do grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé”. E me explicou que assim como ele tinha dúvida sobre mim, outras pessoas também poderiam ficar com certa “desconfiança”. Por fim, ele me deixou feliz ao dizer que a partir daquele contato inicial eu já tinha marcado a sua vida: <italic>se até ontem eu não sabia direito quem era você, agora você já marcou a minha vida, é que eu gosto de fazer amizade</italic>. Naquele dia, Seu João também teve a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a pesquisadora que ele observava com muitas interrogações no grupo do <italic>WhatsApp</italic>.</p>
			<p>Acompanhar as interações através do grupo de <italic>WhatsApp</italic> me levou a refletir sobre os usos e ressonâncias dessa ferramenta entre os meus interlocutores, o que me aproximou dos estudos feitos por <xref ref-type="bibr" rid="B6">Cruz e Harindranath (2020</xref>), que desenvolveram o conceito de “tecnologia da vida” para qualificar as relação estabelecidas com o aplicativo. Segundo os autores, o <italic>WhatsApp</italic> constitui uma infraestrutura que sustenta e molda uma ampla gama de atividades cotidianas de ordem pessoal, econômica, até espiritual e política.</p>
			<p>O conceito convida-nos a compreender os usos do <italic>WhatsApp</italic> como “tecnologia da vida” a partir das relações estabelecidas com o aplicativo, a cotidianidade e a presença difundida em diversos contextos e a maneira como as experiências cotidianas são expandidas e vivenciadas. Cruz e Harindranath, estavam alinhados a uma abordagem descolonizadora em seus estudos e pesquisas, centrados no México e em países da América Latina, por isso, enfatizaram que a dimensão contextual e histórica ao examinar as formas como as tecnologias são usadas, percebidas e vivenciadas por diferentes grupos são “relevantes de serem examinadas com foco em práticas e vidas fora do Norte Global, pois, o <italic>WhatsApp</italic> é sem dúvida a tecnologia cotidiana mais importante em várias partes do Sul Global” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Cruz; Harindranath, 2020</xref>). Portanto, Cruz e Harindranath, afirmam a importância de entender como o <italic>WhatsApp</italic> significa para os seus grupos de usuários, assim como “as ressonâncias culturais, emocionais e sociais que carregam, além de suas possibilidades e capacidades como ferramentas digitais” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Cruz, Harindranath, 2020</xref>).</p>
			<p>O interesse por aprofundar a compreensão sobre as interações <italic>online</italic> está diretamente associado à maneira que as relações <italic>offline</italic> são constituídas. Compreendo que as duas dimensões se retroalimentam. Assim como nos alertou <xref ref-type="bibr" rid="B15">Miller (2004</xref>):</p>
			<disp-quote>
				<p>Deve ficar claro que o compromisso etnográfico de “colocar as coisas no contexto” precisa evitar o perigo de reificar o objeto tanto quanto evitar o perigo de produzir um contexto reificado analiticamente. Isso significa desagregar “a Internet” na profusão de processos, usos e “tecnologias” sociais que ela pode compor em diferentes relações sociais ao invés de considerá-la como um “objeto” único com propriedades inerentes que podem, no máximo, ser expressos de formas variadas em diferentes contextos. Novamente, esse assunto transcende a distinção entre online e off-line. (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Miller, 2004</xref>, p. 46).</p>
			</disp-quote>
			<p>Isso significa dizer que as tramas afetivas e as redes de solidariedade entre as fronteiras da Penitenciária Feminina de Alagoas são constituídas tanto nas trocas estabelecidas nos grupos de <italic>WhatsApp</italic> como nos dias de visitas familiares e de entrega de <italic>feiras</italic>, ou seja, na relação com o espaço físico da prisão e com o cotidiano doméstico das famílias que acompanham parentes encarceradas, ou melhor, a partir desses espaços inter-relacionados.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>QUANDO “A VIDA DA GENTE COMEÇOU A ANDAR NA PORTA DO SISTEMA”</title>
			<p>No dia 12 de março de 2022, após algumas trocas de imagens e mensagens de “bom dia”, iniciou-se no grupo mais um diálogo em torno das dúvidas sobre os dias de visita familiar daquele mês. Lurdes, que acompanhou sua irmã encarcerada durante alguns anos, enviou uma mensagem de áudio:</p>
			<disp-quote>
				<p>Quando a minha irmã estava presa eu fiquei 6 meses sem levar feira e sem visitar. Um dia eu fui na sexta, me disseram que era no sábado. No sábado eu fui pra levar a feira e não tinha nada. Aí disseram que era no domingo, no domingo vem eu de novo, quando eu cheguei ali no meio do caminho eu me ajoelhei e disse - meu Deus eu não acredito, eu não aguento mais isso, chorando sem saber como ela tava, imaginando que era aquelas coisa que a gente ver de televisão. Resumindo a história, quando foi num final de semana eu disse pra minha irmã - eu não vou mais, minha irmã, eu não tenho condições de ir, eu vou dar viagem perdida. A minha irmã disse - me dê a feira que eu vou. A gente já tinha feito outra feira, que aquela não prestava mais, disseram que entrava refrigerante, bolacha, aquelas caixinha de água de coco, umas coisa que não tinha nada a ver. Tudo isso a gente comprou, gastamos um horror na feira dela, nada entrou. Resumindo, um dia a minha irmã foi e encontrou com uma filha de Deus, uma abençoada de Jesus, que foi quem criou esse grupo que a gente está hoje. Ela viu a minha irmã, chegou logo junto, porque quando chegava uma novata ela ia logo pra perto saber, indicar tudo, disse a minha irmã como era, disse pra minha irmã que não era dia de feira, nesse dia era dia de visita, disse a data que a feira da minha irmã entrava, olhou a feira e disse que não era aquelas coisas, o que entrava era outra. E eu sei que resumindo, depois que a gente encontrou a Kátia foi que a vida da gente começou a andar na porta do Sistema, porque todos, de cadastro, de seja lá de quem for que trabalha ali só botava a gente pra trás, minha gente. Esse grupo que a Kátia criou foi tudo de bom, porque se não vocês iam ver o que é difícil você sem saber de nada.</p>
			</disp-quote>
			<p>O áudio da Lurdes foi mais um em que ouvi o testemunho da importância da Kátia e do grupo de <italic>WhatsApp</italic> durante o acompanhamento da familiar encarcerada. As dificuldades de acesso as burocracias do Sistema Prisional me parecem fazer parte da instabilidade de suas produções. As famílias recorrentemente reclamam sobre a constante mudança no que é “permitido” ou não de acessar os portões da prisão. A relação entre os policiais penais e os familiares são permeadas por nebulosas interações. O comportamento, vestimenta ou alimento/objeto que pode gerar um transtorno ou até mesmo o impedimento da visita, é incerto e variável.</p>
			<p>As famílias, do lado de fora, tentam estabelecer comunicações com funcionários do Sistema, por vezes frustradas, para entender o que se passa dentro da penitenciária. Através do grupo de <italic>WhatsApp</italic>, percebo que há muitos entraves na obtenção de informações quando uma pessoa é presa. A família não sabe como fazer o cadastro de visita, em qual módulo e cela está sua parente, o que é permitido ou não incluir na feira mensal, a quem deve solicitar informações etc. Essa burocracia que se apresenta de maneira descontínua e imprevisível, confunde e dificulta o cotidiano de quem tem um familiar encarcerado. Os dias de visita e entregas de feira, exigem um deslocamento que envolve tempo, dinheiro e organização na vida das pessoas. Por isso, a falta de comunicação ou informações mais sólidas sobre as questões apontadas acima causam gastos financeiros e emocionais.</p>
			<p>Por esses motivos, as relações e interações produzidas a partir do grupo de <italic>WhatsApp</italic> me chamou a atenção para como essa ferramenta impactou favoravelmente as trajetórias de encarceramento e desencarceramento desses sujeitos.</p>
			<disp-quote>
				<p>Agradeço a todas pelas informações de vocês, agradeço a força. Nós um dia vamos conseguir vencer, com fé em Deus eu venci a minha batalha, porque a minha responsabilidade não tava fácil, não sei se vocês sabem, mas eu tava tomando de conta do meu irmão e da minha filha, eu não trabalhava, eu sustentava a minha filha e o meu irmão sozinha, pra fazer feira pra minha mãe, pra visitar minha mãe deixar minha filha em casa era uma luta, sabe, não tinha ninguém pra me ajudar e era uma luta. Aí agradeço a todas vocês, meu sofrimento já acabou, mas creio eu que o de vocês vai acabar um dia. Obrigada a todas, boa noite.<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref>
				</p>
			</disp-quote>
			<p>Olhar para as redes de solidariedade tecidas no grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé” me levou a refletir sobre os afetos e saberes produzidos a partir das margens sociais e territoriais, tecidas através das práticas de cuidado, da transmissão de conhecimentos e da religiosidade (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Almeida, 2018</xref>), como artifícios para lidar com os dilemas enfrentados no dentro e fora da prisão.</p>
			<p>Analiso as relações representadas pelos familiares como “vasos comunicantes” que alimentam os fluxos entre o “dentro e o fora” da prisão, termo cunhado por Rafael Godói (2015). O autor defende que os vasos colocam em contato e comunicação dois “mundos”, que são atravessados por bloqueios: “neles, são demandadas múltiplas negociações, poderes e disputas que operam a diferenciação entre o que entra e sai, o que é permitido ou proibido, facilitando ou dificuldade acessos, registrando as passagens e estabelecendo destinações” (Godói, 2015, p.136).</p>
			<p>No mesmo caminho, <xref ref-type="bibr" rid="B5">Bruna Bumachar (2016</xref>), argumentou como as fronteiras prisionais e transnacionais, quando atravessadas por corpos, cartas, documentos, dinheiro, e-mails etc. esquadrinham presas e prisão, tornando-as produto e produtoras dos fluxos e atravessamentos. As reflexões tecidas pela autora me orientaram a observar a movimentação das trocas de mensagens, dos alimentos, materiais de higiene, roupas etc. como partes constituintes dos afetos entre-muros que circulam no cotidiano da Penitenciária Feminina. A cada informação compartilhada no grupo de <italic>WhatsApp</italic> sobre como, quanto e quando levar, uma entrega de <italic>feira</italic> pode ser garantida, a cada informação de como fazer o cadastro de visita e qual a vestimenta adequada, uma visita familiar e intima pode ser garantida, o que alimenta os vínculos afetivos que sustentam a vida das pessoas encarceradas e seus familiares.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>No decorrer deste artigo tive como principal objetivo apresentar uma parte das reflexões que tenho elaborado acerca das relações e vínculos produzidos entre os familiares de pessoas encarceradas, matizadas por interações <italic>online</italic> e <italic>offline</italic>, para evidenciar a centralidade e relevância do <italic>WhastApp</italic> como ferramenta de comunicação que ampliou as formas de tecer redes de solidariedade, cuidado e organização entre esses sujeitos. A abordagem que busco explorar nessa construção etnográfica através e na Internet tem como objetivo seguir “conexões” e não um “local específico”, se beneficiando do caráter inventivo e aberto no sentido mais amplo do campo de pesquisa (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Hine, 2020</xref>).</p>
			<p>A construção dessa pesquisa <italic>on</italic> e <italic>offline</italic> tem se desenhado a partir do interesse sobre a maneira que as pessoas inseridas no grupo “Guerreiros e Guerreiras da Fé” compreendem, articulam e referenciam essa rede de comunicação através da Internet nos seus cotidianos, na forma que essa ferramenta impactou as trajetórias de encarceramento que envolvem pessoas presas e seus parentes.</p>
			<p>Produzir etnografia na e através da Internet tem me apresentado os desafios metodológicos de equilibrar as relações em campo, pois as construções de significado são inicialmente imprevisíveis e frequentemente diversas. Por vezes, sou compreendida com desconfiança ao apresentar uma identidade profissional pouco conhecida entre meus interlocutores como pesquisadora/cientista social, ao mesmo tempo que ao aprofundar os diálogos passo a construir relações de confiança capazes de me enxergarem como “amiga” ou parceira na produção dos vínculos entre as fronteiras do Sistema Prisional. As inventivas soluções dependem das circunstâncias individuais e das aspirações específicas do estudo etnográfico em questão, como nos orientou <xref ref-type="bibr" rid="B10">Hine (2020</xref>).</p>
			<p>Persigo essas reflexões para compreender a minha localização dentro da experiência <italic>online</italic> da produção etnográfica. As relações tanto <italic>online</italic> quanto <italic>offline</italic> são modos complexos de ser para si e para os outros, que muitas vezes precisam ser desagregadas, com a finalidade de se compreender seus significados. Indagar sobre os limites e possibilidades da inserção em campo através de interações <italic>online</italic>, me levou a questionar sobre as condições de produção de conhecimento no período pandêmico. E nas brechas que encontramos para realizá-las.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ALMEIDA, Mariléa de. Espaço, corpo e afeto: o antirracismo nas práticas femininas quilombolas contemporâneas. Labrys, études féministes/estudos feministas, julho/2017-junho 2018.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ALMEIDA</surname>
							<given-names>Mariléa de</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Espaço, corpo e afeto: o antirracismo nas práticas femininas quilombolas contemporâneas</article-title>
					<source>Labrys, études féministes/estudos feministas</source>
					<season>jul-201</season>
					<year>2018</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>BARCINSKI, M., LERMEN, H. S., CAMPANI, C., ALTENBERD, B. Guerreiras do Cárcere: Uma Rede Virtual de Apoio aos Familiares de Pessoas Privadas de Liberdade. Temas em Psicologia, Vol. 22, nº 4, 929-940, 2014.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BARCINSKI</surname>
							<given-names>M.</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>LERMEN</surname>
							<given-names>H. S.</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>CAMPANI</surname>
							<given-names>C.</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>ALTENBERD</surname>
							<given-names>B</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Guerreiras do Cárcere: Uma Rede Virtual de Apoio aos Familiares de Pessoas Privadas de Liberdade</article-title>
					<source>Temas em Psicologia</source>
					<volume>22</volume>
					<issue>4</issue>
					<fpage>929</fpage>
					<lpage>940</lpage>
					<year>2014</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>BELELI, Iara. Reconfigurações da intimidade. Estudos Feministas, Florianópolis, 25(1): 422, janeiro-abril/2017. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http:/dx.doi.org/10.1590/18069584.2017v25n1p337">http:/dx.doi.org/10.1590/18069584.2017v25n1p337</ext-link>
				</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BELELI</surname>
							<given-names>Iara</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Reconfigurações da intimidade</article-title>
					<source>Estudos Feministas</source>
					<publisher-loc>Florianópolis</publisher-loc>
					<volume>25</volume>
					<issue>1</issue>
					<fpage>422</fpage>
					<lpage>422</lpage>
					<season>jan-abr</season>
					<year>2017</year>
					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http:/dx.doi.org/10.1590/18069584.2017v25n1p337">http:/dx.doi.org/10.1590/18069584.2017v25n1p337</ext-link>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>BUTLER, Judith. Introdução e Capítulo 2. In:. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 7-30 e 75-109, 2018.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BUTLER</surname>
							<given-names>Judith</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Introdução e Capítulo 2</chapter-title>
					<source>Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Civilização Brasileira</publisher-name>
					<fpage>7</fpage>
					<lpage>30 e 75-109</lpage>
					<year>2018</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B5">
				<mixed-citation>BUMACHAR, Bruna. Nem dentro, nem fora: a experiência prisional de estrangeiras em São Paulo. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BUMACHAR</surname>
							<given-names>Bruna</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Nem dentro, nem fora: a experiência prisional de estrangeiras em São Paulo</source>
					<comment content-type="degree">Doutorado em Antropologia Social</comment>
					<publisher-name>Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas</publisher-name>
					<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
					<year>2016</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B6">
				<mixed-citation>CRUZ, Edgar Gómez; HARINDRANAT, Ramaswami. WhatsApp as ‘technology of life’: Reframing research agendas. First Monday, Volume 25, Number 1 - 6 January 2020. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https:/journals.uic.edu/ojs/index.php/fm/article/download/10405/8318">https:/journals.uic.edu/ojs/index.php/fm/article/download/10405/8318</ext-link>
				</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>CRUZ</surname>
							<given-names>Edgar Gómez</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>HARINDRANAT</surname>
							<given-names>Ramaswami</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>WhatsApp as ‘technology of life’: Reframing research agendas</article-title>
					<source>First Monday</source>
					<volume>25</volume>
					<issue>1 - 6</issue>
					<month>01</month>
					<year>2020</year>
					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https:/journals.uic.edu/ojs/index.php/fm/article/download/10405/8318">https:/journals.uic.edu/ojs/index.php/fm/article/download/10405/8318</ext-link>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B7">
				<mixed-citation>GWÉNOLA, Ricordeau. Between Inside and Outside: Prison Visiting Rooms. Politix (No 97), p. 101-123, 2012.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>GWÉNOLA</surname>
							<given-names>Ricordeau</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Between Inside and Outside: Prison Visiting Rooms</article-title>
					<source>Politix</source>
					<issue>97</issue>
					<fpage>101</fpage>
					<lpage>123</lpage>
					<year>2012</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B8">
				<mixed-citation>GODOI, Rafael. Vasos comunicantes, fluxos penitenciários: entre dentro e fora das prisões de São Paulo. Revista de Antropologia Vivências, n. 46, 2015, p. 131-142.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>GODOI</surname>
							<given-names>Rafael</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Vasos comunicantes, fluxos penitenciários: entre dentro e fora das prisões de São Paulo</article-title>
					<source>Revista de Antropologia Vivências</source>
					<issue>46</issue>
					<year>2015</year>
					<fpage>131</fpage>
					<lpage>142</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B9">
				<mixed-citation>HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cad. Pagu, Campinas, SP, n. 5, p. 7-41, 2009.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>HARAWAY</surname>
							<given-names>Donna</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial</article-title>
					<source>Cad. Pagu</source>
					<publisher-loc>Campinas, SP</publisher-loc>
					<issue>5</issue>
					<fpage>7</fpage>
					<lpage>41</lpage>
					<year>2009</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B10">
				<mixed-citation>HINE, Christine. A internet 3E: uma internet incorporada, corporificada e cotidiana. Cadernos de Campo (São Paulo, online), vol. 29, n.2, p.1-42, USP, 2020.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>HINE</surname>
							<given-names>Christine</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>A internet 3E: uma internet incorporada, corporificada e cotidiana</article-title>
					<source>Cadernos de Campo</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<comment>online</comment>
					<volume>29</volume>
					<issue>2</issue>
					<fpage>1</fpage>
					<lpage>42</lpage>
					<publisher-name>USP</publisher-name>
					<year>2020</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B11">
				<mixed-citation>LINS, Beatriz; PARREIRAS, Carolina; FREITAS, Elaine. Dossiê Estratégias para pensar o digital. Cadernos de Campo (São Paulo, online), vol. 29, n.2, p.1-10, USP, 2020.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>LINS</surname>
							<given-names>Beatriz</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>PARREIRAS</surname>
							<given-names>Carolina</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>FREITAS</surname>
							<given-names>Elaine</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>ossiê Estratégias para pensar o digital</article-title>
					<source>Cadernos de Campo</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<comment>online</comment>
					<volume>29</volume>
					<issue>2</issue>
					<fpage>1</fpage>
					<lpage>10</lpage>
					<publisher-name>USP</publisher-name>
					<year>2020</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B12">
				<mixed-citation>LAGO, Natália Bouças. Jornada de visitas e de luta: Tensões, relações e movimentos de familiares nos arredores da prisão. (Tese de doutorado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências humana, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2019.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>LAGO</surname>
							<given-names>Natália Bouças</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Jornada de visitas e de luta: Tensões, relações e movimentos de familiares nos arredores da prisão</source>
					<comment content-type="degree">doutorado</comment>
					<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências humana, Universidade de São Paulo</publisher-name>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<year>2019</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B13">
				<mixed-citation>_____. Dias e noites em Tamara: prisões e tensões de gênero em conversas com “mulheres de preso”. Dossiê Prisões em etnografias: perspectivas de gênero. Cadernos pagu, n. 55, Campinas, 2019.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>LAGO</surname>
							<given-names>Natália Bouças</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Dias e noites em Tamara: prisões e tensões de gênero em conversas com “mulheres de preso”. Dossiê Prisões em etnografias: perspectivas de gênero</article-title>
					<source>Cadernos pagu</source>
					<issue>55</issue>
					<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
					<year>2019</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B14">
				<mixed-citation>MISKOLCI, Richard; BALIEIRO, Fernando de Figueiredo. Sociologia Digital: balanço provisório e desafios. Revista Brasileira de Sociologia, Vol. 06, No. 12, p. 132 a 156, 2018.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MISKOLCI</surname>
							<given-names>Richard</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>BALIEIRO</surname>
							<given-names>Fernando de Figueiredo</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Sociologia Digital: balanço provisório e desafios</article-title>
					<source>Revista Brasileira de Sociologia</source>
					<volume>06</volume>
					<issue>12</issue>
					<fpage>132 a 156</fpage>
					<lpage>132 a 156</lpage>
					<year>2018</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B15">
				<mixed-citation>MILLER, Daniel; SLATER, Don. Etnografia on e off-line: cibercafés em Trinidad. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 10, n. 21, p. 41-65, jan./jun. 2004</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MILLER</surname>
							<given-names>Daniel</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>SLATER</surname>
							<given-names>Don</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Etnografia on e off-line: cibercafés em Trinidad</article-title>
					<source>Horizontes Antropológicos</source>
					<publisher-loc>Porto Alegre</publisher-loc>
					<comment>ano 10</comment>
					<issue>21</issue>
					<fpage>41</fpage>
					<lpage>65</lpage>
					<season>jan-jun</season>
					<year>2004</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B16">
				<mixed-citation>NASCIMENTO, Francisco Elionardo de Melo. Fronteiras de guerra: gestão da vida e processos de estado nas fronteiras entre policiais penais e presos. 2021. 334f. Tese (Doutorado em Sociologia). Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Centro de Estudos Sociais Aplicadas, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2021.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>NASCIMENTO</surname>
							<given-names>Francisco Elionardo de Melo</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Fronteiras de guerra: gestão da vida e processos de estado nas fronteiras entre policiais penais e presos</source>
					<year>2021</year>
					<size units="pages">334f</size>
					<comment content-type="degree">Doutorado em Sociologia</comment>
					<publisher-name>Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Centro de Estudos Sociais Aplicadas, Universidade Estadual do Ceará</publisher-name>
					<publisher-loc>Fortaleza</publisher-loc>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B17">
				<mixed-citation>PADOVANI, Natália Corazza. Nós Por Nós: Teias de solidariedade, políticas de desencarceramento e abolicionismo penal no mundão em pandemia. DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social. Reflexões na Pandemia 2020, p. 1-17. Rio de Janeiro 2020.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>PADOVANI</surname>
							<given-names>Natália Corazza</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Nós Por Nós: Teias de solidariedade, políticas de desencarceramento e abolicionismo penal no mundão em pandemia</article-title>
					<source>DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social</source>
					<comment>Reflexões na Pandemia</comment>
					<year>2020</year>
					<fpage>1</fpage>
					<lpage>17</lpage>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<comment>2020</comment>
				</element-citation>
			</ref>
		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>No decorrer do texto apresentarei o grupo de maneira mais detalhada.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>O termo “feira” significa os alimentos, materiais de higiene e limpeza que a gestão do Sistema Prisional permite que as famílias levem para as suas parentes encarceradas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Substituirei os nomes reais por fictícios para preservar a identidade das/dos meus/minhas interlocutoras/interlocutoras. Cheguei até o contato de Kátia através de um amigo psicólogo que trabalhava em uma ONG organizada em torno da defesa dos direitos humanos da população prisional.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Nome do bairro onde fica localizada a Penitenciária Feminina de Alagoas, que está situada próximo a Universidade Federal.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Trecho de diário de campo, 15 de julho de 2021.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Ao entrar no grupo me apresentei, por mensagem de texto e por áudio. Falei sobre minha trajetória, meu processo de formação e a pesquisa de doutorado. Fui recebida por membros do grupo com mensagens de boas-vindas e perguntas mais especificas sobre o que eu pretendia fazer com a pesquisa. Percebi que fui confundida, em alguns momentos, como uma possível assistente social ou funcionária do Sistema. Os familiares me pareceram ansiosos por essas explicações na expectativa que eu também os ajudasse na comunicação entre eles/elas e as mulheres presas. Foi preciso que eu explicasse mais de uma vez qual era meu trabalho, o que eu pretendia fazer e explicitar de maneira mais enfática de que forma eu poderia ajudá-los ou não. Certamente, tais apresentações e explicações irão ser reiteradas durante todo o período de pesquisa.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Desabafo de uma das mães no grupo do <italic>WhatsApp</italic> em junho de 2021.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Essa medida foi adota em alguns estados do Brasil durante o período de distanciamento social ocasionado pela pandemia da Covid-19, como por exemplo no Mato Grosso e em São Paulo, como alternativa as visitas presenciais. Para que fosse garantido o direito dos/das reeducandos/das ao recebimento de visitas e o contato com os familiares. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.sesp.mt.gov.br/-/14143570-governo-de-mato-grosso-garante-visitas-virtuais-para-reeducandos">http://www.sesp.mt.gov.br/-/14143570-governo-de-mato-grosso-garante-visitas-virtuais-para-reeducandos</ext-link> (acesso em: 15/12/2022).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Atualmente, em razão da pandemia da covid-19, as visitas familiares e entregas de feiras acontecem apenas duas vezes no mês. Diferente do período anterior a pandemia que as visitas aconteciam semanalmente.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>Estabelecimento Prisional Santa Luzia.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>Diário de campo escrito no dia 11 de junho de 2022.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>Áudio enviado por uma das pessoas do grupo em novembro de 2022, que estava com a mãe encarcerada.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
</article>