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				<journal-title>Plural - Revista de Ciências Sociais</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2176-8099.pcso.2021.193512</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>TRADUÇÃO</subject>
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				<article-title>Sobre a greve geral (1974)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>
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						<surname>Costa</surname>
						<given-names>Mariarosa Dalla</given-names>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0003-4472-8848</contrib-id>
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						<surname>Torre</surname>
						<given-names>Bruna Della</given-names>
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				<institution content-type="original">Professora emérita na Universidade de Pádua. Dalla Costa fez parte do movimento Potere Operaio, movimento do qual saiu para fundar a organização Lotta feminista, na Itália. É uma das organizadoras da “Campanha internacional por salários para o trabalho doméstico” e autora de outro panfleto importante da campanha: Potere femminile e sovversione sociale.</institution>
				<institution content-type="orgname">Universidade de Pádua</institution>
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				<label>b</label>
				<institution content-type="original">Pesquisadora visitante no Käte Hamburger Kolleg für Apokalyptische und Postapokalyptische Studien (CAPAS)/Heidelberg, pós-doutoranda no departamento de Sociologia da Unicamp (bolsista Fapesp) e editora executiva da revista Crítica Marxista.</institution>
				<institution content-type="orgname">Unicamp</institution>
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				<year>2022</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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		<p>Hoje o movimento feminista na Itália está dando início à campanha por SALÁRIOS PARA O TRABALHO DOMÉSTICO. Como vocês devem ter escutado pelas canções, como devem ter visto pela exposição de fotografias, como devem ter lidos nos cartazes, são muitas as questões que levantamos hoje: as condições bárbaras sob as quais temos de encarar o aborto; o sadismo ao qual estamos submetidas nas clínicas obstétricas e ginecológicas; nossas condições de trabalho - em empregos fora de casa nossas condições são sempre piores que as dos homens e em casa trabalhamos sem salários; o fato de que os serviços sociais ainda não existem ou são tão ruins que temos medo de deixar nossas crianças utilizá-los e assim por diante.</p>
		<p>Agora, podem-se perguntar em algum momento: qual é a relação entre a campanha iniciada hoje, a campanha por SALÁRIOS PARA O TRABALHO DOMÉSTICO, e todas essas coisas para as quais chamamos a atenção hoje, que expusemos e contra as quais lutamos? Todas essas coisas sobre as quais falamos, sobre as quais fizemos canções, que mostramos em nossas exposições e filmes?</p>
		<p>Acreditamos que a fraqueza de todas as mulheres - essa fraqueza que está por trás do fato de sermos apagadas de toda a história, que está por trás do fato de que quando saímos de casa temos que enfrentar os trabalhos mais revoltantes, sub pagos e inseguros - essa fraqueza está baseada no fato de que todas nós mulheres, não importa o que fizermos, estamos exauridas e esgotadas desde o princípio pelas 13 horas de trabalho doméstico que ninguém nunca reconheceu e pelo qual ninguém nunca pagou.</p>
		<p>E essa é a condição básica que força as mulheres a ficar satisfeitas com creches como “Pagliuca,” “Celestini,” “OMNI.” [“Pagliuca” and “Celestini” - ambas notoriamente brutais. “OMNI” - creches do Estado que são mal equipadas e mal administradas]. Essa fraqueza nos força a pagar meio milhão de liras por um aborto e, isso, soletremos claramente, acontece em todas as cidades e todos os países - e, não bastasse isso, ainda corremos o risco de morte e de encarceramento.</p>
		<p>Todas nós fazemos trabalho doméstico; isso é a única coisa que todas as mulheres têm em comum, é a única base a partir da qual podemos erigir nosso poder, o poder de milhões de mulheres.</p>
		<p>Não é um acidente que reformistas de todos os tipos sempre evitaram cautelosamente a ideia de nos organizarmos com base no trabalho doméstico. Eles sempre se recusaram a reconhecer trabalho doméstico como trabalho, justamente porque esse é o único trabalho que temos em comum. Uma coisa é confrontar duzentas ou trezentas mulheres numa fábrica de sapato e outra bem diferente é enfrentar milhares de donas de casa. E, como todas as mulheres empregadas nas fábricas são donas de casa, também é outra coisa bem diferente confrontar essas duzentas ou trezentas trabalhadoras reunidas a milhões de donas de casa.</p>
		<p>Mas é isso que nós colocamos em pauta hoje nesta praça. Nós decidimos nos organizar em torno do trabalho que todas fazemos, com o objetivo de ter o poder de milhões de mulheres.</p>
		<p>Para nós aqui, a exigência de salários para o trabalho doméstico é uma exigência de poder, pois trabalho doméstico é o que milhões de mulheres têm em comum.</p>
		<p>Se nós, enquanto esses milhões, pudermos nos organizar em torno dessa exigência - e já há muitas de nós nesta praça -, podemos ter tanto poder que não precisaremos estar numa posição de fraqueza quando sairmos de casa. Nós podemos criar novas condições de trabalho para o trabalho doméstico - se eu tiver meu próprio dinheiro no bolso eu posso até mesmo comprar uma máquina de lavar-louça sem me sentir culpada e sem ter que implorar ao meu marido por meses sem fim enquanto ele, que não lava a louça, considera uma lava-louças desnecessária.</p>
		<p>Então, se eu tiver meu próprio dinheiro, pago nas minhas próprias mãos, eu posso mudar as condições do trabalho doméstico. E, mais do que isso, eu serei capaz de escolher quando quero sair para trabalhar. Se eu receber 120.000 liras pelo trabalho doméstico, eu nunca mais vou me vender por 60.000 liras numa fábrica têxtil, ou como secretária de alguém, ou como caixa ou porteira no cinema. Da mesma forma, se eu tiver uma certa quantidade de dinheiro em minhas mãos, se eu tiver comigo o poder de milhões de mulheres, eu poderei decretar um tipo completamente novo de serviços, creches, cantinas e todas as instalações que são indispensáveis para a redução do tempo de trabalho e que nos permitam ter uma vida social.</p>
		<p>Nós queremos dizer outra coisa. Por muito tempo - e de forma intensa nos últimos 10 anos, mas digamos sempre - os trabalhadores homens saíram para lutar contra suas jornadas de trabalho e por mais dinheiro e se reuniram nesta praça.</p>
		<p>Nas fábricas de Porto Marguera tem havido muitas greves, diversas lutas. Nós nos lembramos das marchas dos trabalhadores que começaram em Porto Maguera, atravessaram a ponte Mestre e chegaram nessa praça.</p>
		<p>Mas vamos deixar claro. Nenhuma greve jamais foi uma greve geral. Quando metade da população trabalhadora estiver em casa nas cozinhas, enquanto o resto está em greve, não será uma greve geral.</p>
		<p>Nós nunca vimos uma greve geral. Nós apenas vimos os homens, normalmente de grandes fábricas, irem para as ruas, enquanto suas mulheres, filhas, irmãs, mães continuaram a cozinhar nas cozinhas.</p>
		<p>Hoje nesta praça, com o início da mobilização por SALÁRIOS PARA O TRABALHO DOMÉSTICO, nós colocamos na pauta as nossas horas de trabalho, nossos feriados, nossas greves e nosso dinheiro. Quando conseguirmos um poder que nos permite reduzir nossas 13 horas ou mais de trabalho por dia para oito ou menos que oito, quando pudermos colocar em pauta nossos feriados - porque não é segredo para ninguém que nos domingos ou nas férias as mulheres nunca tiveram um feriado - então, talvez, possamos falar pela primeira vez de uma greve “geral” da classe trabalhadora.</p>
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				<label>1</label>
				<p>Publicado originalmente em: Edmond, Wendy e Suzie Fleming. (Org.) All Work and No Pay:Women,House work and the Wages Due. Bristol: Falling Wall Press, 1975. Dalla Costa proferiu esse discurso em 1974 em comemoração ao Dia Internacional da Mulher em Mestre, na Itália.</p>
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