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				<journal-title>Plural - Revista de Ciências Sociais</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2176-8099.pcso.2016.125101</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>RESENHA</subject>
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				<article-title>Uma resenha de <italic>Mobilidades da elite</italic></article-title>
				<article-title xml:lang="en">A review of Elite mobilities</article-title>
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						<given-names>João</given-names>
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					<label>a</label>
					<institution content-type="orgdiv2">Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">Centro de Documentação de História Contemporânea do Brasil</institution>
					<institution content-type="orgname">Fundação Getúlio Vargas</institution>
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					<institution content-type="original">Doutorando no Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais (PPHPBC) no Centro de Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) na Fundação Getúlio Vargas. Brasil</institution>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>16</day>
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			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2016</year>
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			<issue>2</issue>
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						<surname>BIRTCHNELL</surname>
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						<surname>CALETRÍO</surname>
						<given-names>Javier</given-names>
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				</person-group> (Ed.). <source>Elite mobilities</source>. <publisher-loc>Abingdon</publisher-loc>: <publisher-name>Routledge</publisher-name>, <year>2013</year>. <size units="pages">270 p</size>.</product>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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		<p><italic>Elite Mobilites,</italic> editado por Thomas Birtchnell e Javier Caletrío, é o primeiro livro da série <italic>Changing Mobilities,</italic> da editora <italic>Routledge</italic>. A série, organizada por Monika Büscher e Peter Adey, tem como objetivo explorar as transformações na sociedade, na política e nas experiências diárias provocadas pelas mudanças nas mobilidades, e como as pesquisas podem dar respostas a tais transformações. Thomas Birtchnell, atualmente, é professor da Universidade de Wollongong, Australia, e Javier Caletrío é pesquisador do Center for Mobilities Research (CeMoRe) da Universidade de Lancaster.</p>
		<p>Ao longo do livro, a elite - à qual o título se refere - é também chamada de super-ricos, classe-alta, globais, entre outros nomes. Os editores, na introdução, optam pela tipologia de Eric <xref ref-type="bibr" rid="B2">Carlton (1996</xref>) e a chama de <italic>os poucos</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> (<italic>the few</italic>)<italic>.</italic> Embora numericamente pequeno, sublinha-se o poder de influência desse grupo. As pesquisas com esses <italic>poucos</italic> costumam ser muito difíceis, como registram os editores:</p>
		<disp-quote>
			<p>Os <italic>poucos</italic> que compõem o tema deste livro não estão lá fora, esperando pacientemente por cientistas sociais se lembrarem de incluí-los em uma pesquisa por amostragem, testar o seu QI, ou pedir-lhes para preencher um questionário. Estes atores poderosos são pequenos em número, mas grande em termos de influência e seu poder se estende ao controle sobre os métodos de investigação utilizados sobre eles (p. 15, tradução do autor).</p>
		</disp-quote>
		<p>A despeito da dificuldade registrada, a maioria dos capítulos é construída a partir de pertinentes pesquisas empíricas. Além dos desafios inerentes aos <italic>Mobile Methods</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BÜSCHER; URRY; WITCHGER, 2011</xref>), as mobilidades se mostram como um ponto de vista privilegiado para demonstrar como o poder desse grupo é exercido e expressado no mundo.</p>
		<p>Trata-se não somente de discutir a questão da mobilidade, mas encará-la enquanto um paradigma, cotejando suas múltiplas dimensões e ingerência na sociabilidade contemporânea. <italic>Elite mobilities</italic> se detém a analisar a mobilidade de alguns <italic>poucos</italic> sem, no entanto, negligenciar os impactos disso na vida de muitos outros: o regime de intensa mobilidade de poucos pressupõe a imobilidade de muitos.</p>
		<p>Embora seja difícil sintetizar a ideia central de um livro, escrito por 18 colaboradores, os editores apresentam alguns pontos que são fundamentais para a compreensão do objetivo do livro e sua relevância para as pesquisas em Ciências Sociais. Os cinco pontos elegidos pelos editores são: “mobilidade como de costume”; estratificação; superinclusão; segredos; resquícios. A presente resenha utilizará esses cinco pontos como referência e tentará agrupar os artigos que compõem o livro por afinidades em suas perspectivas, reconhecendo a impossibilidade de aprofundar individualmente os debates apresentados.</p>
		<sec>
			<title>MOBILIDADE COMO DE COSTUME</title>
			<p>Mobilidade como de costume (<italic>mobility-as-usual)</italic> se refere a maneira genérica que se encara a mobilidade, reduzindo-a ao transporte ou mobilidade corpórea (<xref ref-type="bibr" rid="B4">URRY, 2007</xref>). Mesmo nessa compreensão reducionista, mostra-se necessário refletir sobre as formas de locomoção da elite: estratificada, intensivamente global, altamente poluente e expansionista.</p>
			<p>O capítulo 3, “Wealth Segmentation and the mobilities of the super-rich: a conceptual framework”, escrito por Jonathan V. Beaverstock e James R. Faulcon-bridge, explora a invisibilidade - jatinhos e helicópteros - e opulência - super iates e trens de luxo - dos meios de transporte dos multimilionários e bilionários. Os autores atentam para uma segmentação dentro dessa elite, evidenciando que há diferenças entre um milionário e Bill Gates, por exemplo, cuja fortuna é estimada em U$ 61 bilhões. Para além da segmentação dos super-ricos, uma das principais contribuições deste capítulo é a reflexão acerca do quanto as mobilidades da elite são imbuídas de significados simbólicos e contribuem para a construção social do que seria o “normal”. Beaverstock e Faulconbridge reiteram Kaufmann <italic>et al.</italic> (2004) ao apontarem a mobilidade como uma forma de capital; no qual não só a velocidade importa, mas a praticidade e flexibilidade em escolher rotas e gerenciar suas mobilidades de acordo com suas agendas.</p>
			<p>No mesmo diapasão, Lucy Budd analisa no capítulo 5 - “Aeromobility elites: private business aviation and the global economy” <italic>-</italic> um segmento pequeno, porém valioso, da indústria do transporte aéreo: a aviação executiva. Novos discursos de conveniência, flexibilidade, velocidade, produtividade, conforto e <italic>status</italic> promoveram a aviação privativa como uma necessidade e alternativa racional em relação a formas mais convencionais de aeromobilidade.</p>
			<p>Os editores do livro atentam a um ponto relevante: as infraestruturas são planejadas de acordo com a agenda dos <italic>poucos</italic> antes de considerar a necessidade da maioria da população. Há, nesse sentido, todo um aparato que envolve capital e poder político e que garante que essa elite se mova diferentemente que as demais pessoas.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>ESTRATIFICAÇÃO</title>
			<p>As mobilidades da elite se apresentam enquanto um valioso prisma de análise de uma minoria que, de outro modo, continuaria secreta e inacessível. O que o <italic>mobilities turn</italic> revela é uma outra dimensão de desigualdade social: a mobilidade de poucos depende da imobilidade de muitos. Mesmo considerando que a mobilidade não é exclusividade de poucos, a maneira conspícua que os <italic>globals</italic> - como Zygmunt Bauman cunhou - se movem física, virtual e simbolicamente reitera as diferenças. No entanto, a obra não se detém a discriminar quem é elite ou quem não é, mas, sim, busca identificar os diferentes tipos de mobilidades através de diferentes geografias.</p>
			<p>Independentemente de quantas casas decimais a fortuna do indivíduo está avaliada e quão etéreos são os mundos que ocupa, ele continua se movendo de um ponto a outro. Aqueles cujas formas de mobilidade estão constrangidas à condição socioeconômica modesta testemunham os vestígios das mobilidades da elite: os jatos executivos na pista de pouso, carros luxuosos pelas ruas da cidade, os espaçosos trens de primeira classe, helicópteros aterrissando nos heliportos de arranha-céus, ou os super iates ancorados nos portos.</p>
			<p>No capítulo 8, Matilde Córdoba Azcárate, Ana García de Fuentes e Juan Córdoba Ordóñez analisam o desenvolvimento do turismo de luxo em Yucatán, no México. O artigo “The uneven pragmatics of ‘affordable’ luxury tourism in inland Yucatán (Mexico)” explora a transformação de um meio de hospedagem decadente, Hacienda Temozón Sur, em um economicamente acessível hotel de luxo. Os autores apontam que essa transformação tende a escamotear uma realidade de inequidade social e segregação espacial na península mexicana. Além disso, o estudo oferece a oportunidade de observar como o estilo e a arquitetura da elite - performados pelos novos empresários mexicanos - influenciam outras classes através de práticas sociais concretas e arranjos materiais.</p>
			<p>Mike Featherstone é o autor do sexto capítulo do livro: “Super-rich lifestyles”. Certamente, é o capítulo que tem os objetivos mais ambiciosos: examinar a recente ascensão deste novo grupo de ricos e super-ricos e tentar lançar alguma luz sobre o seu <italic>modus operandi</italic>, examinando seus estilos de vida, espaços de convivência, atividades de consumo, ações de caridade, esforços para a manutenção da riqueza e padrões de investimento. Featherstone consegue cotejar todos esses pontos e oferece um mapa para entender um pouco melhor as realidades dessa elite.</p>
			<p>O capítulo 10 - “‘This is not me’: Conspicuous consumption and the travel aspirations of the European middle class” - assinado por um dos editores do livro, Javier Caletrío, explora a mesma questão por outro viés. A partir de uma pesquisa realizada com 92 europeus no mediterrâneo espanhol, Caletrío tentou averiguar a ideia apresentada na obra centenária de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Veblen (2005</xref>), de que a elite influencia nas aspirações e desejos da classe média. O objetivo era analisar a relação entre os ricos e a classe média, focando em como o consumo conspícuo molda as noções de normalidade e excesso nos padrões de viagem. Contrariando as hipóteses, Caletrío aponta que, para a maioria dos entrevistados, as aspirações de viagens de lazer são inspiradas menos pela reclusão da elite em <italic>lounges</italic> de primeira classe, ilhas privativas, mega iates e hotéis luxuosos e mais pelo ideal cosmopolita de um mundo de mobilidade democrática persuasivamente transmitido pela mídia global. A frase do título, <italic>This is not me</italic> (Isso não sou eu), é a resposta enfática de um dos três-quartos dos entrevistados que não se sentem atraídos pelo estereótipo sedutor das viagens de lazer da elite.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>SUPERINCLUSÃO</title>
			<p>Os <italic>poucos</italic> são intercalados, emaranhados e superincluídos nos <italic>commons</italic>, movendo-se rapidamente para dentro e fora dos espaços públicos, privatizando e fazendo uso deles, ao invés de serem exteriores a eles (p. 3). Ao invés de sugerir que os <italic>poucos</italic> vivem à margem da sociedade, segregados, os editores afirmam que esse grupo está superincluído na sociedade, inclusive escolhendo estarem visíveis ou não.</p>
			<p>Malene Freudendal-Pedersen tenta investigar em “Tracing the super-rich and their mobilities in a Scandinavian welfare state”, décimo primeiro capítulo do livro, a razão de os super-ricos e suas mobilidades estarem relativamente ausentes das pesquisas dinamarquesas e do imaginário da população. Freudental-Pedersen destaca que os super-ricos na Dinamarca vivem em discretos, reclusos e globalizados círculos sociais. Não significa, no entanto, que esses estejam excluídos do resto da sociedade. Muito pelo contrário: eles ditam as regras desse jogo, se estão nessa situação é justamente por prezarem pelo anonimato e discrição. A pesquisa demonstra que os movimentos dos <italic>poucos</italic> forçam uma redefinição das práticas sociais, de modo a perpetuar suas mobilidades sem comprometer a sua facilidade, independentemente do sabor do sistema social ou do governo.</p>
			<p>O capítulo 7, “The ease of mobility”, reitera tal perspectiva. Shamus Rahman Khan propõe uma reflexão acerca de uma transformação na cultura da elite devido a uma melhora em sua mobilidade física. A pesquisa de Khan é realizada dentro de escolas particulares - em suas palavras - privilegiadas. A facilidade da mobilidade, à que o título se refere, diz respeito a uma capacidade desenvolvida para navegar em uma gama diversificada de instituições sociais. O autor sugere que a elite deixou de ser esnobe para ser onívora, a analogia aponta que eles optam por traços culturais que lhe garantem maior permeabilidade em diversos grupos sociais em detrimento de traços culturais distintivos que fixavam seu lugar na sociedade.</p>
			<p>Thomas Birtchnell, um dos editores, na companhia de Gil Viry e John Urry, dissertam sobre uma elite que se constitui a partir do que chamam de terceira revolução industrial. “Elite formation in the third industrial revolution” explora a corrida por patentes relacionadas a impressão 3D por um viés bastante peculiar e útil para os estudos no campo: a rede de relações que esses atores criam, mantém e alimentam. A pesquisa se fundamenta em criteriosas e sistemáticas análises das patentes, o que reitera o quanto as metodologias de pesquisas nessa área precisam ser inventivas, como apontam <xref ref-type="bibr" rid="B3">Lury e Wakeford (2012</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>SIGILOS</title>
			<p>As pesquisas sobre a elite pressupõem encarar o sigilo e as ausências como parte da episteme. <italic>Elite mobilities</italic> se esforça para trazer à tona os segredos dos <italic>poucos</italic> e iluminar as mobilidades sombrias de finanças, recursos e pessoas. Os editores afirmam que essas informações são incrivelmente vastas, porém não observáveis através dos instrumentos atuais.</p>
			<p>No capítulo 2, “Elsewhere: Tracking the mobile lives of globals”, Anthony Elliot examina detalhadamente alguns aspectos da vida performática dos <italic>globals</italic>, em um cenário de recentes mudanças radicais para as economias, identidades e culturas nacionais. A partir de um estudo teórico e empírico de cinco anos, Elliott cria a figura do Mr. X, uma mistura entre dois dos seus setenta e cinco entrevistados, cujas rotinas possibilitam refletir acerca dessa realidade. Elliot faz questão de extrapolar a compreensão acerca da mobilidade enquanto mero movimento corpóreo, compreendendo-a como um sistema complexo que envolve comunicação e redes.</p>
			<p>John Urry, em “The super-rich and offshore worlds”, décimo segundo capítulo do livro, apresenta um outro olhar acerca da diluição das fronteiras e dos fluxos de dinheiro, pessoas, ideias, imagens, informações e objetos. Embora tais fluxos sejam comumente interpretados como econômica, política e culturalmente benéficos, Urry aponta alguns fluxos não desejados desse mundo globalizado:</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] terroristas, riscos ambientais, mulheres traficadas, traficantes de drogas, criminosos internacionais, mão-de-obra terceirizada, negociantes de escravos, requerentes de asilo, especuladores imobiliários, trabalhadores contrabandeados, riscos financeiros e rendimentos não tributados (URRY, 2013, p. 227, tradução do autor).</p>
			</disp-quote>
			<p>São justamente sobre rendimentos não tributados e os paraísos fiscais que Urry se debruça neste artigo. <italic>Offshoring,</italic> como a evasão de impostos é chamada, envolve o movimento de recursos, práticas, pessoas e capitais de um território nacional para outro, porém escondendo-os com sigilosas jurisdições e movendo por rotas que são parcial ou completamente ocultas. Urry afirma que esses sigilos são consequência de um mundo sem fronteira: um mundo sem fronteiras que gesta novas fronteiras e novos sigilos. Novas fronteiras são regularmente criadas e vigiadas. Segundo ele, um mundo sem fronteiras é, paradoxalmente, um mundo de sigilos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>RESQUÍCIOS</title>
			<p>Em uma perspectiva comparativa, os estudos sociais acerca da elite são poucos, enquanto aqueles sobre os membros das demais camadas socioeconômicas se multiplicam rapidamente. Retorna-se, então, ao problema da metodologia: como abordar tal grupo? Os editores apontam como a utilização dos métodos de pesquisa tradicionais estão fadados ao fracasso pelos mais diversos motivos: dificuldade em obter aprovação ética; as cartas e e-mails são sistematicamente ignorados; as perguntas são friamente analisadas e editadas; questionários consomem muito tempo; acesso aos espaços pode não ser conseguido; falta de espaço na agenda; informações censuradas durante a pesquisa; amostras muito pequenas para se construir generalizações; dificuldade em se garantir anonimato; custos de viagem para uma observações aproximada são altos demais.</p>
			<p>Para ilustrar tais questões, os editores aludem ao filme <italic>007 contra Goldfinger</italic> (1964). A trama é construída em cima de várias mobilidades da elite, desde uma partida de golf em Buckinghamshire a uma perseguição de carro na Suiça. O herói interpretado por Sean Connery desvenda o secretíssimo esquema de contrabando de ouro do vilão, justamente a partir dos resquícios de sua vida móvel. A cena final se desenrola no jato particular do vilão, do qual ele é ejetado e voa para sua morte, enquanto o herói escapa com seu paraquedas. Sagazmente, os editores comentam: “Nós todos gostaríamos de conduzir nossas pesquisas assim, mas os comitês de ética, reitores, supervisores acadêmicos e gestores de risco dificilmente aprovariam” (p. 14). Mesmo sem saídas espetaculares de jatos particulares, as pesquisas sobre a elite demandam um senso investigativo digno do MI6: elas se apoiam nos detalhes, em questões transversais ao que seria o problema principal, mas que acabam dizendo muito sobre eles.</p>
			<p>O movimento intenso dessa elite acaba por deixar resíduos, e os ditos métodos móveis focam justamente nisso. Os editores comparam os pesquisadores com os jornalistas que vasculham o lixo das celebridades para tentar desvendar seus segredos sujos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>ÚLTIMOS APONTAMENTOS</title>
			<p>Os dois últimos capítulos do livro são poderosas análises da obra em si e também das pesquisas nessa área. Mimi Sheller assina o décimo-terceiro capítulo do livro: “Epilogue: the bodies, spaces and tempo of elite”. Além de revisitar alguns dos pontos levantados ao longo do livro e promover um debate com os demais autores, Sheller aponta algumas áreas que ainda carecem de pesquisas: 1) a esfera política, e as formas em que as mobilidades da elite se cruzam e interagem com regimes de mobilidade dos países; e 2) as mobilidades ilícitas das economias sombrias, o que ela propõe chamar de narcomobilidades. São dois tópicos bastante complexos e necessitam de maior atenção e coragem por parte dos cientistas sociais.</p>
			<p>Por fim, Andrew Sayer é o autor do posfácio do livro, “Elite mobilities and critique”. Além de afirmar que é fundamental saber sobre os ricos e seus estilos de vida, mobilidades e gastos, Sayer defende uma abordagem mais crítica e que inclua, prioritariamente, investigar como os ricos conseguiram o seu dinheiro. O autor descreve - e, de certa maneira, desconstrói - algumas possibilidades para o enriquecimento astronômico. A primeira delas é o investimento. Por mais que a palavra evoque uma aura positiva, Sayer estabelece claras diferenças entre investidores e especuladores.</p>
			<p>A segunda possibilidade desse enriquecimento seria o que ele chama de “o rico trabalhador” (<italic>the working rich</italic>). Seria ingenuidade imaginar que as fortunas são um simples reflexo de algum tipo alta produtividade e eficiência. Segundo o autor, <italic>the working rich</italic> é um tipo de eufemismo legitimador que as pesquisas nessa área deveriam desmascarar.</p>
			<p>A terceira possibilidade seria o “<italic>high net worth individuals”</italic> (indivíduos de alto valor líquido, literalmente), termo usado por agências e segmentos financeiros para classificar os ricos com mais de um milhão de dólares. Sayer é bem crítico em relação ao uso do termo, pois, segundo ele, é descaradamente ideológico e os acadêmicos que se prezam só devem utilizá-lo em notas de repúdio.</p>
			<p><italic>Elite mobilities</italic>, ainda não publicado no Brasil, é uma obra necessária tanto para os estudos das mobilidades quanto para ajudar a preencher lacunas no que diz respeito às pesquisas acerca das elites. A obra ajuda a sublinhar a notabilidade do Paradigma das Mobilidades: refletir sobre a maneira única e dispendiosa que a elite se move física, social e simbolicamente pelo mundo é ao mesmo tempo atentar para o alargamento da inequidade social. O livro reitera a ideia de que a vida móvel desses poucos depende do regime de imobilidade de muitos, demonstrando o quanto, nesses tempos, o movimento é também símbolo de distinção social. Nesse sentido, é de total importância atentar para a existência de uma rede de pessoas que trabalha para que <italic>os poucos</italic> possam se mover pelo globo com o mínimo de atrito.</p>
			<p>Todos os artigos do livro apontam o quanto as mobilidades da elite são excessivas e dispendiosas. Com as questões ambientais estando cada vez mais em evidência, é possível que haja uma transformação no julgamento moral da vida móvel. Percebe-se também o quanto tais pesquisas estão centradas na Europa e na América do Norte. Ainda que as pesquisas com a elite sejam extremamente difíceis, seria pertinente analisar os multimilionários e a plutocracia no hemisfério sul.</p>
		</sec>
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			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Opta-se por utilizar <italic>poucos</italic> (em itálico) para evidenciar a referência à tipologia de Eric Carlton e não gerar nenhum tipo de interpretação equivocada.</p>
			</fn>
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			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
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				<mixed-citation>BÜSCHER, Monika; URRY, John.; WITCHGER, Katian. Mobile Methods. Abingdon: Routledge, 2011.</mixed-citation>
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