<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article
  PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article article-type="research-article" dtd-version="1.1" specific-use="sps-1.9" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">
	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="publisher-id">plural</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Plural - Revista de Ciências Sociais</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Plural - Revista de Ciências Sociais</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="ppub">2176-8099</issn>
			<issn pub-type="epub">2176-8099</issn>
			<publisher>
				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
			</publisher>
		</journal-meta>
		<article-meta>
			<article-id pub-id-type="doi">10.11606/issn.2176-8099.pcso.2022.192950</article-id>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ARTIGO</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>A construção social do corpo e de si mesmo nos esportes coletivos</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>The social building of the body and the self in collective sports</trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-0538-8337</contrib-id>
					<name>
						<surname>Nazareth</surname>
						<given-names>Eduardo Fernandes</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>a</sup></xref>
				</contrib>
				<aff id="aff1">
					<label>a</label>
					<institution content-type="original">Doutor em Sociologia pelo IESP UERJ.</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">IESP</institution>
					<institution content-type="orgname">UERJ</institution>
				</aff>
			</contrib-group>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>16</day>
				<month>02</month>
				<year>2023</year>
			</pub-date>
			<pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2022</year>
			</pub-date>
			<volume>29</volume>
			<issue>2</issue>
			<fpage>165</fpage>
			<lpage>187</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>29</day>
					<month>11</month>
					<year>2021</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>04</day>
					<month>12</month>
					<year>2022</year>
				</date>
			</history>
			<permissions>
				<license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Em trabalho de campo para uma pesquisa sobre esportes coletivos, uma série de relatos de um jogador de basquete chamou a atenção. Tratava-se de descrição de suas dificuldades de adaptação ao modo de jogar da nova equipe, algo comum entre jogadores nos esportes coletivos. O presente artigo se debruça sobre o caso desse jogador, explorando várias dimensões de seu relato e mobilizando alguns importantes referenciais teóricos no tratamento da questão. A análise dos relatos nos permitiu melhor compreender a complexidade dos aspectos envolvidos nos processos de construção do corpo atlético, sua relação com o <italic>ser jogador</italic>, e com o contexto em que isso geralmente ocorre - o da constituição de uma equipe -, revelando ainda a formação da dimensão <italic>intercorporal</italic> própria do jogar coletivo e da experiência dos mundos dos jogos esportivos coletivos.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>In fieldwork for research on team sports, a series of reports from a basketball player caught my attention. It was a description of their diﬃculties in adapting to the new team’s way of playing, something common among players in team sports. The present article looks into the case of this player, exploring several dimensions of his report and mobilizing some important theoretical references in the treatment of the issue. The analysis of the reports allowed us to better understand the complexity of the aspects involved in the processes of construction of the athletic body, its relationship with being a player, and with the context in which this usually occurs that of the constitution of a team also revealing the formation of the intercorporeal dimension proper to collective play and the experience of the worlds of collective sports games. </p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Esportes</kwd>
				<kwd>Esportes coletivos</kwd>
				<kwd>Corpo</kwd>
				<kwd>Equipe</kwd>
				<kwd>Treinamento</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Sports</kwd>
				<kwd>Collective Sport</kwd>
				<kwd>Body</kwd>
				<kwd>Team</kwd>
				<kwd>Training</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
				<fig-count count="0"/>
				<table-count count="0"/>
				<equation-count count="0"/>
				<ref-count count="20"/>
				<page-count count="23"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>INTRODUÇÃO</title>
			<p>Este artigo trata do processo de formação dos corpos dos praticantes de esportes coletivos a partir do estudo do caso de adaptação de um jovem jogador de basquete a um novo time, em um importante clube do Rio de Janeiro. A questão se insere no contexto de uma pesquisa maior, cujo objetivo foi o de compreender como a prática de esportes coletivos tradicionais, como o basquete, o futebol ou o voleibol, produz uma experiência intersubjetiva singular, desafiadora, excitante e envolvente. Essa pesquisa mais ampla buscou na forma prática do jogo esportivo o elemento central da explicação da constituição desse tipo de experiência. Tal pesquisa pretendeu</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] a partir de um olhar microssociológico, apoiado sobre referências teóricas fenomenológicas e pragmáticas, compreender o fenômeno do jogo esportivo - especialmente do jogo esportivo coletivo - abordando-o como experiência efetivamente vivida pelos praticantes, isto é, como uma experiência prática, intersubjetiva, íntegra e total, que em seu enquadramento e organização envolve e interliga o outro, o corpo, os objetos, o espaço e o tempo, com um sentido intenso de vida. Voltamos o olhar para uma diversidade de aspectos práticos fundamentais à constituição da realidade do jogo e ao tipo de experiência que ele é capaz de proporcionar entre os jogadores [...]. Os traços de complementaridade e mútua referencialidade entre as ações, a circularidade lógica e a progressividade temporal de todo o complexo interativo, apoiados em um núcleo de disputa capaz de aderir toda a atenção e as energias ao <italic>aqui</italic> e <italic>agora</italic>, geram uma zona intersubjetiva de grande poder de atração, tornando a atividade envolvente e arrebatadora. (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Nazareth, 2015a</xref>, p.59-60)</p>
			</disp-quote>
			<p>A dimensão afetiva é uma das dimensões fundamentais implicadas no aspecto de integração e totalidade intersubjetiva dessa experiência coletiva. Isto é, o estabelecimento de um desafio e a sustentação e a renovação do ímpeto do jogador do início até o final do jogo. Visando desenvolver elementos teóricos mais consistentes acerca do tema, incluindo o papel do corpo na presentificação do mundo desafiador do jogo, produziu-se um trabalho em que se pretendeu</p>
			<disp-quote>
				<p>[...] compreender um aspecto constitutivo fundamental à experiência de jogar, a energia [...], como ela é mobilizada, concentrada e continuamente realizada nos jogos esportivos, em ações que se ordenam por uma forma de atividade, determinando, em razão de sua atuação constituinte e organizadora, uma experiência prática singular. Considera-se fundamental entender o papel desempenhado por uma espécie de “circuito de energia” gerado pela forma prática dos jogos esportivos coletivos, que se mostram capazes de penetrar e envolver profundamente os participantes e seus corpos no ambiente, em uma mesma linha simultânea e sucessiva de eventos arrebatadores que a competição, nesses termos, acaba por gerar, acirrando o que se considera aqui ser, diante desse envolvimento obtido, uma relação íntegra e total entre <italic>ser jogador</italic> e <italic>mundo do jogo</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Nazareth, 2015b</xref>, p.601)</p>
			</disp-quote>
			<p>No presente artigo, pretende-se explorar, a partir do mencionado estudo de caso, algumas questões envolvidas na gênese social do corpo atlético. Pois, na perspectiva em questão, considera-se fundamental à <italic>presentificação</italic> do <italic>mundo do jogo</italic> entre os jogadores - os sujeitos da prática - não apenas a arquitetura das regras, a forma específica dessa ou daquela disputa esportiva, mas a conversão dessas regras, formas de ação e experiências, nos corpos dos sujeitos. Jogadores são aqui entendidos como <italic>membros</italic>, isto é, como sujeitos dotados de competências básicas, reconhecidas por outros jogadores, para jogar.<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> O reconhecimento dessas competências, entre outras coisas, significa a confiança de que o membro já interiorizou esquemas de percepção e ação. Desse modo, esse mundo pode se reapresentar e as interações podem se conduzir de modo pouco problemático. Em se tratando de esporte, esse mundo pode então se assentar na dimensão <italic>intercorporal</italic>, que dá uma densidade e intensidade fisicamente sensível ao plano intersubjetivo da prática esportiva coletiva.</p>
			<p>Quando falamos de <italic>intercorporalidade</italic>, nos referimos às conexões que se estabelecem entre corpos, objetos e ambiente, que se avivam na experiência real quando estamos em campo e decidimos jogar. Considerar essa interface corporal (e afetiva) é, portanto, ter em conta o suporte em que esse mundo profundamente se enraíza. A <italic>intercorporalidade</italic> é imprescindível à compreensão das propriedades distintivas da <italic>inlusio</italic> esportiva, próprias ao estar imerso na ilusão dessa realidade à parte do jogo (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Huizinga, 2005</xref>). No fundo, no que concerne à pesquisa em tela e ao programa em que se insere, é disso que o caso a ser analisado tratará.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O TRABALHO DE CAMPO E O CASO MAURINHO</title>
			<p>Esta pesquisa se inicia no trabalho de campo com a equipe profissional de futebol do Nova Iguaçu Futebol Clube. Eu a acompanhei durante o campeonato estadual da 2ª divisão, em 2008. O trabalho prosseguiu, em 2009, com o time de basquetebol juvenil do Fluminense Football Club, do qual fui jogador, entre 1989 e 1994, dos meus 12 aos 18 anos. Após ter me afastado do esporte, regresso ao clube, já com 39 anos, como pesquisador. Retomo uma experiência muito familiar: volto a conviver com as categorias de base do clube em que passei grande parte da minha adolescência, entrando novamente em contato com os sonhos e projetos que um dia experimentei.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> Acompanhava todas as categorias, concentrando-me, entretanto, no time juvenil, de atletas até 18 anos.<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>
			</p>
			<p>Nesse time jogava o então jovem jogador (hoje treinador das categorias de base do Flamengo) Mauro Macêdo, Maurinho, que se tornou um de meus informantes mais próximos. Coincidentemente, filho de meu ex-treinador nos tempos em que joguei por lá. Maurinho era um dos únicos atletas que morava na zona norte da cidade, onde eu também morava. Sempre voltava para casa com ele e com Marcel, seu amigo, assistente técnico e estagiário, de carona, das Laranjeiras até o Maracanã. Nessas ocasiões, conversávamos sobre o clube, o time, o campeonato, os jogos ou simplesmente eu os ouvia conversando sobre os jogos universitários, a faculdade, as peladas, as noitadas... Entre essas conversas, seus relatos sobre a adaptação ao novo time, que em certo momento daquele ano se tornaram mais frequentes, me chamaram a atenção. Na ocasião, a questão já me parecia muito rica, pois revelava aspectos da formação do corpo do jogador. Esses relatos serão objeto de nossa análise.</p>
			<p>Maurinho havia acabado de chegar ao clube. No momento em que o assunto surgiu naquelas conversas, ele começava a construir o entendimento de que sua dificuldade de adaptação ao novo time se relacionava ao fato de ter chegado ao Fluminense com algumas disposições bastante arraigadas em sua forma de jogar, adquiridas durante os longos anos em que havia jogado no Vasco da Gama, clube onde se deu sua formação básica como jogador de basquete. Desde seus 11, 12 anos - quando era, segundo descrição do próprio Maurinho, um jogador baixo e acima do peso -, até a categoria juvenil, seus esquemas individuais de ação haviam se desenvolvido e sofisticado. Seu corpo havia crescido (media pouco mais de 1,90). Ele havia adquirido velocidade, agilidade e outras habilidades requeridas pelo jogo. Tornara-se um reconhecido arremessador de 3 pontos.</p>
			<p>Mas o desenvolvimento dessas capacidades havia ocorrido dentro dos mesmos esquemas coletivos básicos adotados no seu primeiro clube, que eram utilizados pelos treinadores em todas as categorias, com algumas pequenas variações. Esses esquemas então se reforçaram no modo próprio de jogar de Maurinho, forjando fortes conexões intercorporais com seus companheiros daqueles tempos. Certos movimentos, relações lógicas com espaços do campo, com linhas de ação etc., se consolidaram, formando conjuntos que estavam nele e fora dele, envolvendo-o e a seus companheiros no modo de jogar daquela equipe, sintetizando-se como o “<italic>nosso</italic> modo de jogar”.</p>
			<p>O problema de que Maurinho se queixava era o de que, naquele momento, jogando em outro time, com outros companheiros e outros esquemas coletivos, aquelas disposições cultivadas e consolidadas por anos no antigo clube insistiam em operar, apesar de não fazerem mais sentido. Quando começamos a conversar a esse respeito, com a temporada já em andamento, Maurinho tomava alguma consciência do que se passava. Como ele mesmo dizia, a sua integração ao processo de construção da nova equipe vinha lhe “tirando a alegria de jogar”. As “evidências” do que ocorria já eram percebidas por ele e pelo treinador, Márcio “Bronquinha”, que o conhecia desde a infância. Márcio e Mauro, pai de Maurinho, eram amigos de muito tempo. Para ambos, jogador e treinador, a performance de Maurinho no novo clube se mostrava aquém do esperado. Ou seja, o jogador não se adequava nem às próprias expectativas, fundadas em sua recente história esportiva de sucesso, nem às do treinador.</p>
			<p>Toda a problemática em que se via imerso me remetia, enquanto pesquisador e alguém que jogou nesse meio, à ideia de que essa era uma questão central e que merecia, de minha parte, uma atenção mais detida. Seus relatos em torno dessas questões nos permitiriam abordar muitos dos fatores sociais implicados na construção do próprio corpo atlético, explicitando a complexidade e a multidimensionalidade desse processo, envolvendo as adversidades inerentes à formação de uma equipe, os outros membros dessa equipe e a construção e atualização simultânea do próprio <italic>ser jogador</italic>.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>TEORIA E CORPO</title>
			<p>A fim de dar conta dessa complexidade e dessa multidimensionalidade de fatores envolvidos, examinei duas abordagens teóricas acerca da relação entre corpo, consciência, espaço natural e espaço social que poderiam fundamentar meu olhar. Essas abordagens me permitiriam enxergar aspectos que, a partir do campo, do caso Maurinho e de minhas experiências anteriores como jogador, poderiam ser relevantes para tratar do fenômeno da corporalidade e da intercorporalidade no jogo esportivo coletivo. Aqui, de maneira um tanto esquemática, distinguirei essas duas abordagens do ponto de vista de seu enquadramento, sua abrangência, seus limites e potencialidades analíticas. Não ambicionei realizar um exame exaustivo dessas teorias, mas apenas destacar aspectos que podem ser úteis para elaborar um problema que o caso do jogador já nos ajuda a circunscrever.</p>
			<p>Essas duas abordagens, tanto a <italic>fenomenológico-pragmática</italic> quanto a <italic>construtivista</italic>, se diferenciam de uma terceira, que aqui não desenvolvo, mas que gostaria de apenas indicar, a <italic>kantiano-durkheimiana</italic>. Vejamos rapidamente no que consiste esta última e, logo a seguir, as outras duas. Depois prosseguiremos observando-as em maior detalhe. Então retornaremos ao caso Maurinho, analisando-o à luz dessas perspectivas.</p>
			<p>Para a <italic>perspectiva kantiano-durkheimiana</italic>, tributária de uma abordagem idealista, os fenômenos do corpo são apresentados como derivações das operações constituintes de um <italic>sujeito transcendental</italic>. Segundo ela, as categorias de entendimento gerariam os esquemas mentais que, por sua vez, ordenariam a sensibilidade. Haveria uma instância pré-pessoal e pré-empírica constituinte da representação de um real que não seria exatamente o real em si. O corpo não exerce participação ativa na formação do sentido da experiência. Essa instância transformar-se-ia, no desenvolvimento do pensamento sociológico, numa classificação, também social, acoplando-se, como representações ou como razão prática, sobre os corpos individuais. Suas referências principais são <xref ref-type="bibr" rid="B9">Kant (1996</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B3">Durkheim (1996</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B4">1999</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B12">Mauss (1974</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">Mauss; Durkheim, 2001</xref>). Contra ou diferenciando-se dessa perspectiva, surgem duas outras.</p>
			<p>Denomino uma delas <italic>fenomenológico-pragmática</italic>. Nessa perspectiva, o corpo surge como parte ativa na constituição do real, a partir da relação incontornável, e inerente à existência humana, entre <italic>ser</italic> e <italic>mundo vivido</italic>; relação essa que se estabelece por meio de um imperativo existencial prático, que dá sentido à experiência e à relação com o ambiente. A constituição da consciência e do corpo, presente na síntese constituinte do sentido do mundo, preserva, nessa abordagem, o aspecto de imanência, ressaltando a consciência e a intencionalidade dos sujeitos diante da abertura do real à contingência. O “real” é dado aos sujeitos, implicando problema prático e existencial fundamental ao ser. Suas referências principais são <xref ref-type="bibr" rid="B7">Heidegger (2005</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B11">Merleau-Ponty (1999)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B10">Mead (1967</xref>).</p>
			<p>A outra perspectiva é a <italic>construtivista</italic>. De acordo com ela, a construção orgânica do corpo ocorre na relação ativa do sujeito com o ambiente, que é compreendido tanto em seu sentido natural quanto social. A construção do corpo ocorre no processo de desenvolvimento humano, envolvendo o engajamento ativo dos sujeitos, em interação com o ambiente e com o outro, forjando gradualmente uma relação intrínseca do corpo com a consciência. Tal construção corresponde a uma lógica geral, que tende à reprodução e cujo desvendamento é o objetivo da pesquisa que adota a abordagem <italic>construtivista</italic>. Essa lógica presidiria uma relação necessária entre organismo, intelecto, natureza e sociedade. Suas referências aqui mais exploradas são <xref ref-type="bibr" rid="B18">Piaget (1975</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bourdieu (1990</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B20">Wacquant (2002</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A PERSPECTIVA FENOMENOLÓGICO-PRAGMÁTICA</title>
			<p>De acordo com a perspectiva fenomenológico-pragmática, inicialmente representada aqui por <xref ref-type="bibr" rid="B11">Merleau-Ponty (1999)</xref>, as percepções corporais não são resultado da operação, em última instância, da faculdade do entendimento. O corpo se constituiria em uma fonte distinta de dados da experiência. Ele mesmo produziria sínteses perceptivas oriundas dos vários sentidos; sínteses, em parte, indiferentes, em parte, superpostas ou fundidas àquelas produzidas pelo intelecto. Os esquemas corporais e de entendimento se mesclam e se consolidam como esquemas de ação integrados, aplicados ao exercício de uma razão prática, em situação vivida com um sentido para o sujeito. Nessa perspectiva, esses esquemas se manifestariam na relação imediata com o ambiente circundante, diante de uma espacialidade incorporada e em situação, revestindo-se, como diria <xref ref-type="bibr" rid="B7">Heidegger (2005</xref>, p.95), de uma relação existencial do ser com o mundo, por meio de uma <italic>ocupação</italic>, a que o ser se lançou intencionalmente, marcando a experiência da presença com um sentido pessoal ou de autenticidade e de realização, ou de inautenticidade, de estranhamento, de distanciamento e de impessoalidade.</p>
			<p>Seria preciso ter em conta que são inerentes à existência humana modos de ser no mundo, em geral, ou em mundos específicos, em particular, que se expressariam no corpo e que tal relação não se explicaria satisfatoriamente apenas pela operação de “mecanismos psicofisiológico” “descobertos” pela “ciência”, cujos defensores, ao apontarem tais mecanismos como definitivos, supõem, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B11">Merleau-Ponty (1999)</xref>, um corpo humano destituído de consciência, um objeto empírico entre outros, sujeito às leis naturais como os demais corpos extensos. Desse corpo, desapareceriam, segue Merleau-Ponty, a subjetividade humana e a intersubjetividade constituintes, como em <xref ref-type="bibr" rid="B7">Heidegger (2005</xref>), da própria <italic>mundanidade</italic> do mundo (ou dos mundos) e do seu sentido de “determinação existencial da presença”. Assim, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Merleau-Ponty (1999</xref>, p. 87) afirmava ser imprescindível abrir-se às “tomadas de posição afetivas e práticas do sujeito vivo em face do mundo”. É nesse sentido que, para ele, importa não o corpo do ponto de vista “científico”, mas o <italic>corpo fenomenal</italic>, isto é, o corpo conforme ele é experimentado, como copartícipe da constituição do mundo vivido.</p>
			<p>De acordo com essa perspectiva, faz-se necessário, como tentamos realizar em nossa pesquisa, compreender especificamente o corpo esportivo enquanto um corpo vivido por um sujeito na prática do jogar, no contexto do mundo do jogo. Assim se colocam as questões: como o corpo torna-se parte da constituição intencional do mundo do jogo, do ponto de vista do ser jogador? Como o corpo é uma parte de si a ser dominada, preparada e potencializada para a própria inserção do ser nesse mundo da competição? Como esse corpo é parte de um processo constante de constituição e reconstituição de <italic>si mesmo</italic> nesse mundo e <italic>do</italic> próprio mundo? Como esse processo ocorre <italic>junto a</italic> outros nesse mundo do jogo esportivo?</p>
			<p>Para avançar ainda mais na direção dessa maneira de colocar a questão, há que se ter em mente que a relação do jogador com o mundo do esporte é uma relação agonística típica da atividade, o que significa dizer que tal relação é marcada pela busca pela excelência e pela competitividade. Esses fatores geram um compromisso pessoal com o desenvolvimento de competências e habilidades próprias à prática do esporte. Tal compromisso se converte numa disposição subjetiva à tomada de consciência da própria evolução ou involução. Entra em jogo o próprio valor enquanto jogador, isto é, a própria realização de uma dimensão de si que ganha destaque para o próprio sujeito. Cada evento significativo tende a ser interpretado enquanto avanço ou retrocesso no nível da prática e adquire uma importância especial, influenciando a relação que se estabelece consigo mesmo, com o jogo e com os demais.</p>
			<p>Portanto, essa sensibilidade às próprias potencialidades é sempre relativa a uma construção de si, ou seja, implica certa formação do próprio <italic>self</italic>. Outro importante autor, referência do pragmatismo, pode nos ajudar; trata-se de George Herbet Mead. Para <xref ref-type="bibr" rid="B10">Mead (1967</xref>), a formação do <italic>self</italic> é parte de um processo social e transcorre em interação, no nosso caso, com uma comunidade de jogadores, na qual então se definem “outros significativos”. Esse processo de construção (ou reconstrução) social do próprio <italic>self</italic> é marcada ainda pela referência de comportamento esportivo ou de sucesso (um “outro generalizado”). De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B10">Mead (1967)</xref>, esse processo envolve estímulos sociais, mas também uma esfera íntima, no âmbito das consciências dos membros dos grupos, em que ocorre um diálogo interior que mobiliza as partes constitutivas do <italic>self</italic>, quais sejam: o <italic>I</italic> e o <italic>me</italic>.</p>
			<p>O <italic>self</italic> é analiticamente descrito por Mead como sendo formado de uma parte resultante de um olhar retrospectivo e objetivador do <italic>self</italic> por e sobre si mesmo, chamada de <italic>me</italic>, que pressupõe a referência normativa das atitudes do “outro generalizado” e reforça a sua dimensão de prescrição moral. A outra parte do <italic>self</italic> é chamada <italic>I</italic>. Esta se apresenta na vivência da experiência real como afirmação do <italic>self</italic> sobre as respostas prescritas pelo “outro generalizado”. Diferente do <italic>me</italic>, o <italic>I</italic> está diretamente relacionado ao aspecto contingente da interação, trazendo consigo o singular, o novo, o inesperado. O <italic>I</italic> e o <italic>me</italic> estão ligados dialeticamente. O <italic>I</italic> é impossível de ser conhecido na sua totalidade antes da sua revelação em ato, a partir de quando, então, exteriorizando-se, objetiva-se no mundo e na consciência de si mesmo, tornando-se (ao menos potencialmente) parte do passado como experiência vivida e ressignificada, isto é, parte do <italic>me</italic>.</p>
			<p>Trazendo essas ideias para nossa análise, na medida em que as experiências de jogar se sucedem, o <italic>I</italic> impõe uma atualização da síntese perceptiva do <italic>me</italic>, num processo dialético contínuo diante da experiência de eventos significativos. Nesse sentido, é fundamental ao processo de construção do próprio <italic>ser jogador</italic> a sensação de potência esportiva, em que o corpo se destaca. A cada novo evento significativo, constitui-se a ideia, relacionada à prática esportiva, de um “eu posso fazer isso novamente” - a idealização do <italic>I can do it again</italic> apontada por <xref ref-type="bibr" rid="B19">Schutz (1967</xref>, p. 20) - ou o “eu posso fazer mais do que isso” e suas variantes (eu posso <italic>agora,</italic> ou <italic>ainda,</italic> ou <italic>mais</italic>, ou <italic>ainda não</italic>, ou <italic>não mais</italic>, ou <italic>menos</italic>). Assim, o <italic>self</italic> segue se construindo e reconstruindo em face do que se faz ou fez, diante do que se supõe que os demais pensam e de suas reações, com base nos mesmos referenciais práticos e morais. Em outras palavras, é diante dessas experiências vividas, de seu significado social, que se orienta o sentido do que se pode ou se deve fazer. É também diante de tudo isso, que vai se formando e atualizando, espontânea e conscientemente, um modo próprio de <italic>ser jogador</italic> desse ou daquele jogo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA</title>
			<p>Uma reconhecida referência do pensamento construtivista é Jean Piaget. Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Piaget (1975</xref>, p. 13), existe “certa continuidade entre a inteligência e os processos puramente biológicos de morfogênese e adaptação ao meio”, que são parte do desenvolvimento natural do organismo desde o nascimento. Para ele, os esquemas de ação resultam da adaptação ao ambiente e envolvem o corpo e o intelecto. Esses esquemas - aos quais dedicou especial atenção - seriam esboços de movimentos coordenados, guiados por raciocínios práticos organizados, ligando objetos e o espaço ao redor. Essa adaptação do organismo ao ambiente ocorreria por dois processos inter-relacionados: <italic>assimilação</italic> e <italic>acomodação</italic>.</p>
			<p>A <italic>assimilação</italic> consiste basicamente num processo de aplicação do esquema em funcionamento a uma nova situação que, por sua vez, ocasiona a necessidade circunstancial de coordenação do ciclo do próprio organismo ao ciclo do ambiente.</p>
			<p>As experiências eventuais de assimilação farão com que, por processos de <italic>acomodação</italic>, aqueles elementos novos, até então exteriores, sejam incluídos nos esquemas de ação até ali existentes, já que o organismo precisa se adaptar às novidades do ciclo ambiental. Novos traços sensório-motores serão incorporados, adaptando esses esquemas às complexidades do “novo” meio, possibilitando a própria construção do real para os seres humanos.</p>
			<p>Nesse sentido, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B18">Piaget (1975</xref>, p. 17), “a adaptação [do organismo ao ambiente] é um equilíbrio entre a assimilação e a acomodação”. No caso dos jogos esportivos, são processos conduzidos de modo mais ou menos controlado e racional pelo treinamento, que visa gradualmente modelar os esquemas de ação dos jogadores aos esquemas coletivos considerados mais adequados. Concebidos em termos conceituais, adequam-se à lógica do jogo conforme são socialmente pensados pela comunidade de treinadores e praticantes.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bourdieu (1990</xref>), referência construtivista na sociologia, compreende o corpo integrando natureza, cultura e sociedade. Bourdieu estabelece uma relação particular entre os esquemas corporais, subjetividade e sociedade, a realidade vivida e o corpo, por meio dos conceitos de <italic>doxa</italic>, de <italic>hexis</italic> e de <italic>habitus</italic>. Isto é, podemos dizer que ele articula em sua teoria a relação entre organismo, consciência e meio social.</p>
			<p>Para ele, a gênese das práticas sociais dos indivíduos e grupos em sociedade corresponde a um <italic>habitus</italic>, definido como um conjunto de disposições corporais duráveis, resultado da formação de esquemas de percepção, apreciação e ação constituídos ao longo de trajetórias biográficas, e determinado por condições sociais objetivas de existência, diferentes entre grupos sociais, correspondentes a suas posições numa estrutura social. O <italic>habitus</italic> manifesta-se na forma adaptativa de um <italic>senso prático</italic>, observável mesmo nas invenções e nas improvisações, ultrapassando, em suas determinações explicativas, a intenção consciente, subjetiva, situada em contextos interativos. O contexto prático que motiva subjetivamente ações para soluções de problemas cotidianos é também produto das mesmas condições sociais objetivas às quais o <italic>habitus</italic> se adaptou, permitindo estabelecer relação causal entre corpo, subjetividade e estrutura social, que nessa perspectiva assume uma face estruturada e outra estruturante do comportamento e da ação.</p>
			<p>Bourdieu chega a usar uma metáfora esportiva para explicar o senso prático como expressão de um <italic>habitus</italic>, representado como uma espécie de <italic>senso de jogo</italic>. Por um lado, o senso prático se exerce a partir de uma inserção prática do ser em uma realidade que naturaliza e reproduz posições sociais. Por outro, ele guarda relação com estrutura e temporalidade sociais que se apresentam em vários níveis de consciência do sujeito. A partir do <italic>senso de jogo</italic> ou <italic>senso prático</italic>, essa posição e temporalidade social vividas (seja do mundo da vida, seja do mundo do jogo, cuja imagem é aqui usada como metáfora) orientam um sentido prático mais ou menos pré-consciente ao ser e à sua experiência. Essa orientação é dada pela própria posição intuída pelo sujeito no mundo social, possibilitando a ele uma antecipação de um futuro inscrito em uma configuração mais ou menos familiar, implicando certa atitude ou disposição à ação, correspondendo justamente à sua posição na estrutura social - como entre os jogadores que, no campo de jogo, a partir de sua posição ou função na equipe, sempre parecem ter um senso de orientação e sabem mais ou menos como se mover diante do que se passa.</p>
			<p>A entrada na partida, assim como na vida social em geral, implicaria ainda, segundo Bourdieu, uma espécie de entrega total, uma adesão completa à <italic>inlusio</italic> dessa realidade, isto é, um comprometimento com pressuposições inquestionáveis, que assumem mesmo um caráter pré-reflexivo, que ele denomina <italic>doxa</italic>. Para <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bourdieu (1990</xref>, p. 69), <italic>doxa</italic></p>
			<disp-quote>
				<p>[...] não é um “estado da mente”, menos ainda um tipo de aderência arbitrária a um conjunto de dogmas instituídos e doutrinas, mas um estado do corpo. Doxa é a relação de aderência imediata que é estabelecida na prática entre o <italic>habitus</italic> e o campo no qual ela está ligada, o <italic>taken for granted</italic> pré-verbal do mundo que flui do senso prático.</p>
			</disp-quote>
			<p>Constituindo a <italic>inlusio</italic> do mundo social (ou esse “estar no jogo da vida social”) e como parte do <italic>habitus</italic>, temos a conformação de uma <italic>hexis</italic> corporal - aquelas disposições incorporadas, que expressam uma <italic>mitologia</italic> realizada nos corpos na forma dessa disposição durável. Ela se apresenta em um modo específico de andar, falar, sentir e pensar.</p>
			<p>O modo como se vivencia a realidade social manifesta, portanto, um modo de percebê-la, de senti-la, de intuí-la, e de a ela se adaptar, determinado por um senso prático, no qual a experiência do corpo desempenha sempre um papel fundamental, manifestando um fundo pré-consciente ou pré-reflexivo que flui do senso prático. Todos esses conceitos visam criar mediações teóricas entre o agente e sua subjetividade inseridas, com seu corpo, num mundo real e a estrutura social, que tende a reproduzir-se.</p>
			<p>Para lidar, de uma perspectiva bourdieusiana, com o desafio que se coloca ao atleta do ponto de vista de sua relação real e concreta com o corpo, vale nos voltarmos para um autor que se dedicou especificamente ao tema esportivo a partir dessa perspectiva: Löic Waccquant (2002). Em notável pesquisa etnográfica numa academia de boxe, localizada em uma comunidade afro-americana pobre de Chicago, a qual frequentou como aluno, tendo se dedicado apaixonadamente ao esporte, Wacquant destaca a presença de uma pedagogia coletiva implícita no treinamento conduzido por DeeDee, que mobilizava essa dimensão pré-reflexiva e intersubjetiva acerca do que se passava entre atletas e seus corpos. De um modo geral, o que Wacquant experimentou, nas suas palavras, foi um árduo</p>
			<disp-quote>
				<p>Trabalho de aperfeiçoamento do corpo e do espírito, que, produzido pela repetição ao infinito dos mesmos gestos, procede por uma série descontínua de deslocamentos ínfimos, dificilmente demarcados individualmente, mas cujo acúmulo, ao longo do tempo, produz progressos sensíveis, sem que se possa jamais separá-los, nem datá-los, nem medi-los com precisão. (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Wacquant, 2002</xref>, p. 89-90)</p>
			</disp-quote>
			<p>O treinamento lhe parecera “uma fonte de socialização bem mais poderosa do que a pedagogia [intelectualista] da instrução” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Wacquant, 2002</xref>, p. 122). Essa pedagogia consistia numa “combinação de reprimendas sempre repisadas, a atenção silenciosa, as indiferenças ostensivas e as exortações, com a finalidade de fazer entrar o esquema prático no esquema corporal do aprendiz de pugilismo” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Wacquant, 2002</xref>, p. 124-5). DeeDee, o treinador da academia, administrava com pulso firme esse processo. Na academia, lembra Wacquant, quando os atletas não compreendiam de imediato as “descrições sumárias do movimento a ser executado” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Wacquant, 2002</xref>, p. 123), DeeDee “limita-se a reiterá-las [...] juntando o gesto às palavras sem dissimular seu aborrecimento”. A tensão produzida no ambiente era, lembra Wacquant, temperada com bom humor na medida certa para manter o moral elevado. O treinador possuía um saber na constituição desse ambiente, capaz de gerar uma força de concentração na atividade e maior propensão à incorporação dos movimentos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>OBJETIVO DO TREINAMENTO E O CORPO NOS ESPORTES COLETIVOS</title>
			<p>Retornaremos à pedagogia de DeeDee e seus efeitos pré-conscientes sobre a gestão dos corpos na equipe de basquete juvenil do Fluminense. Antes gostaria de apontar o objetivo perseguido na preparação das equipes nos esportivos coletivos: a modelagem de um modo coletivo de jogar. Em outras palavras, o desafio fundamental à formação de uma equipe é a constituição de disposições para a realização situada de ações individuais minimamente coordenadas, com um sentido tático e estratégico de conjunto, o que demanda a educação dos corpos e dos movimentos dos seus membros, com base em experiências comuns direcionadas a esse propósito. Esse sentido maior só em parte e muito em geral é dado pelo saber jogar o jogo. É preciso saber jogar o jogo junto, de uma dada maneira, com ajustes mais finos, para ser de fato competitivo.</p>
			<p>A implementação desse modo coletivo de jogar de uma equipe é, de início, teoricamente concebido por um treinador, visando à preparação para uma temporada de disputas com equipes adversárias que integram uma comunidade de praticantes, em geral, mais ou menos conhecida. A construção desse modo coletivo de jogar envolve a gestão de um processo por parte de um treinador e de uma equipe técnica. Esse processo se caracteriza basicamente como uma dialética social entre teoria, prática, resultado e experimentação. Implica sínteses do entendimento e dos corpos em relação. Ao longo desse processo, corpos e sentidos se ajustam e se integram em treinamentos específicos. Põem em estreita relação não apenas corpos, mas consciências, afetos, energias, objetos e o espaço, sob uma mesma forma de atividade, que se refina, assumindo com mais clareza sentidos comuns, apoiados em uma memória coletiva, e que, em algum momento, se objetivam de maneira reveladora na síntese de uma coletividade, <italic>uma</italic> equipe, com suas singularidades, potencialidades e fragilidades. <xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>
			</p>
			<p>Assim, nesse processo dialético, nos quais jogadores e treinador se conhecem e uma equipe propriamente, concretamente, se forma nas consciências e nos corpos, vão se tecendo esquemas coletivos fundamentais. Se inicialmente são retirados dos <italic>playbooks</italic> ou são esboçados teoricamente pelo treinador, eles passam a ser experimentados, adaptados às condições reais de implementação e compartilhados pelos jogadores como referência para coordenarem suas ações em campo, tornando-se reais em suas memórias, em seus corpos, em seus esquemas de ação. Desse modo, acumulando-se sobre um fundo cada vez mais familiar e <italic>taken for granted</italic>, de automatismos significativos, de reações funcionais dos corpos cada vez menos problemáticas no campo de jogo, geram expectativas de ação reciprocamente orientadas, permitindo construir prospectivamente jogadas coletivas bem coordenadas.</p>
			<p>Esses esquemas coletivos, na medida em que se mostram efetivos, operam cada vez mais articulando, atravessando e potencialmente unificando as ações individuais dos membros da equipe em ações coletivas. Definem-se formas de ação específicas de domínio comum, formas que neles se assentaram, organizando a percepção do que se passa ao redor. Assim, são estabelecidos os termos de uma <italic>intercorporalidade,</italic> suscitando a continuidade das ações, na forma de expectativas de ação anteriormente construídas.<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> Esses esquemas vão, progressivamente, se formando, constituindo ou reconstituindo, convertendo e reconvertendo, de modo dirigido. Esquemas individuais prévios se adaptam a esquemas coletivos, formando uma estrutura (a todo tempo atualizável) de um modo de jogar.</p>
			<p>A ontologia desse modo próprio de jogar se caracteriza por sua propriedade de latência, de potencialidade, e de pronta aplicação ajustada às situações competitivas reais, quando então essas formas potenciais de ação, típicas do modo de jogar da equipe, mostram-se dotadas de estrutura interna, interligando as ações individuais e conferindo-lhes um caráter coletivo, tanto no que se refere à simultaneidade quanto à sucessão, determinando os temos de um sentido de totalidade, eficiência e solidariedade funcional entre essas ações, a serem executadas de maneira fluente e adaptável.</p>
			<p>O treinador visa justamente obter a adesão total do jogador (sua entrega corporal, inclusive num nível afetivo e pré-consciente) com o propósito de administrar a constituição dos mecanismos intercorporais de ação, os automatismos fundamentais, de modo a reduzir a complexidade do ajuste mútuo e consciente dos jogadores a cada instante, preparando a equipe para a adequação das ações coletivas aos desafios que normalmente surgem. Ou seja, para que os ajustes minuciosos requeridos pelas situações reais possam ocorrer da maneira menos problemática e mais fluente e eficiente possível, de modo a possibilitar vitórias ao final das partidas. Nisso consiste fundamentalmente o desafio coletivo e o problema prático imediato na formação e preparação para o jogo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>GESTÃO MICROSSOCIAL DOS CORPOS NOS ESPORTES COLETIVOS</title>
			<p>Nos esportes coletivos, como dissemos acima, há um objetivo comum central, que gera um impulso à solidariedade, à coesão e à identificação dos indivíduos com o mesmo grupo. Com a convivência entre os atletas, a equipe vai ganhando contornos mais claros. Constitui-se todo um conjunto de motivações de natureza coletiva entre os integrantes da equipe. Conforma-se um sentido de pertencimento. Tudo é gerido pelos membros, destacando-se a autoridade do treinador. Mas essa coletividade, é claro, inclui contradições potenciais, fundadas em desejos e ambições pessoais, por conquista de posições de maior destaque dentro da equipe e na comunidade mais ampla de praticantes da qual fazem parte e onde são também vistos como indivíduos.</p>
			<p>De um modo geral, o esporte é uma prática agonística. Do ponto de vista do praticante, ela extrai seu sentido da competição (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Caillois, 1994</xref>). Aquelas contradições, mantidas sob a motivação maior do sucesso esportivo da equipe, podem permitir a realização desse ser coletivo num alto nível na medida em que geram desafio, excitam a entrega pessoal e estimulam, com o treinamento, a descoberta de potencialidades físicas e mentais, individuais e coletivas. Parte da intensidade dos treinos guarda relação com a excitação desse sentido de concorrência. Mas, por outro lado, essas contradições, caso não sejam bem administradas, podem crescer além de determinado ponto, tornando mais importantes os conflitos interpessoais do que a conquista comum, enfraquecendo aquele profundo sentido coletivo dessa reunião e dessa convivência.</p>
			<p>No nível em que estamos - de um esporte praticado na categoria juvenil, mas visando ao alto rendimento -, essas tensões eram geralmente geridas diretamente pelo treinador, que era quem estabelecia, na maior parte das vezes, os termos da convivência entre os atletas - acima dele, estava o diretor da modalidade. Era principalmente o treinador quem visava equilibrar essas forças no grupo, construindo uma relação apoiada num princípio de justiça, articulando dedicação, competência e merecimento, avaliados por ele, segundo critérios que priorizavam a formação e o sucesso esportivo da equipe.</p>
			<p>Como todos desejavam jogar - todos queriam contribuir e se provar -, as oportunidades de entrar nas partidas, concedidas ou negadas, e o tempo de permanência em quadra, significavam muito para cada jogador. O tempo de permanência em quadra numa partida denotava posições conquistadas ou perdidas em uma espécie de hierarquia vigente no interior da equipe, que ora se conservava estabilizada, ora era posta em movimento pelos próprios membros da equipe.</p>
			<p>Essa era uma espécie de competição de fundo, disputada leal e sutilmente entre os jogadores, e que modulava o engajamento pessoal e corporal na equipe. O treinador era o árbitro dessa disputa e ao mesmo tempo o principal jogador. Importante saber os limites desse jogo. Julgar em desacordo com princípios de justiça, ser desequilibrado nas punições ou nas recompensas, pode causar muitos problemas. A gestão desse jogo de fundo é importante como administração das motivações individuais a impulsionar ou a sustentar o engajamento imediato e total no objetivo pessoal e coletivo. Uma boa administração pode gerar uma adesão e uma disposição à consolidação de uma intercorporalidade própria da equipe, evitando o desengajamento.</p>
			<p>Da parte dos atletas, me parecia que, como esse aspecto da relação reproduzia o princípio de justiça agonístico típico da atividade esportiva que eles tanto apreciavam, essa competição interna era geralmente considerada justa e saudável entre eles. Ela era até desejada, porque era considerada legítima, além de ser percebida como boa para a equipe. Quando essa justiça faltou, ou seja, quando os elogios ou o valor dos salários, as cobranças ou os raios do treinador eram distribuídos de forma excessiva ou desproporcional - como em minha experiência no universo do futebol profissional -, houve conflito e desengajamento.</p>
			<p>Enfim, tudo isso em conjunto, no juvenil do Fluminense, era administrado pelo treinador Márcio Andrade, ou Márcio “Bronquinha” - uma espécie de DeeDee, como o próprio apelido sugere. Ele havia dirigido, fazia pouco tempo, uma equipe profissional de alto nível no país, o Universo/Goiânia. Era muito respeitado entre os atletas num contexto institucional de um clube vitorioso na modalidade. Articulando todas aquelas técnicas apontadas por Wacquant, Márcio cotidianamente alimentava a já mencionada força de concentração, estimulando os esforços, sempre redobrados e no limite, sob as exortações, nem sempre muito pacientes e, em muitas situações, muito bem-humoradas, obtendo de seus atletas, durante a temporada, o máximo de dedicação, motivação, entrega pessoal de seus corpos aos treinamentos e um engajamento no projeto coletivo da equipe e do clube.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O BASQUETEBOL JUVENIL DO FLUMINENSE EM 2009</title>
			<p>No ano de 2009, o clube de basquetebol do Fluminense reuniu, numa mesma equipe, sob a direção de um treinador reconhecido na cidade, muitos dos melhores jogadores da categoria juvenil do estado do Rio de Janeiro. A expectativa do diretor da modalidade, Tchelo, e dos demais treinadores era de fazer o basquete alçar voos mais ambiciosos. O clube contava com uma casa para atletas de vários estados do país e já havia estabelecido contato com agentes de penetração internacional. Já havia inclusive enviado jogadores para o exterior. O Fluminense havia se tornado o mais vitorioso da modalidade no estado nos últimos anos e, naquele momento, desejava se projetar ainda mais no cenário nacional.</p>
			<p>O objetivo era não apenas ser campeão estadual juvenil - o que de fato aconteceu ao final daquela temporada -, mas, logo em seguida, montar uma equipe profissional com base nesse mesmo grupo de jogadores. A eles se juntariam alguns talentosos atletas do sub-21, vitoriosos no ano anterior, e um ou outro jogador profissional mais experiente. Essa era uma expectativa muito viva, sempre reiterada pela direção e pelo treinador, que trazia para a trajetória de todos um excitante horizonte de possibilidades. Apesar de tudo ser muito incerto, especialmente em se tratando da modalidade na cidade, a possibilidade, sempre avivada, estimulava a todos a trabalhar intensamente. Gerava adesão e a predisposição a um estado de prontidão dos corpos. Era preciso estar preparado para as oportunidades. Esse se configurava como um momento decisivo para as carreiras desses atletas, muitos deles em seu último ano na categoria juvenil, geralmente a última em que podem se dedicar por mais tempo a tentar a carreira. <xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref> Incluía-se entre esses eles, claro, Maurinho, um jovem universitário, de classe média, que desfrutava de uma vida relativamente segura e confortável, e que havia vivido uma trajetória inserida nesse esporte. Como disse, seu pai foi treinador e ele jogava desde os 11 anos. Sua personalidade, suas ambições e seus sonhos foram forjados nesse meio.</p>
			<p>Esse era o contexto em que se situavam as dificuldades de adaptação de Maurinho à nova forma de jogar do novo time e que tornavam toda a questão ainda mais decisiva. Dificuldades essas que, de certo modo e em graus variados, ocorriam também com os outros jogadores da equipe vindos de outros clubes (Flamengo, Botafogo, Vasco, Municipal), nos quais também eram destaques. Sob circunstâncias semelhantes, esses jovens apresentavam algumas dificuldades de adaptação, alguma queda no seu rendimento, readequações de suas formas de jogar e de suas expectativas. Algo natural nesse processo. Afinal, como Maurinho, muitos haviam sido formados em outros clubes, onde brilhavam, e estavam agora numa nova equipe, cheia de outros “astros” da categoria. Todos agora passavam pelo processo de reacomodação de suas posições no novo grupo gerido por Márcio. Enfim, a adaptação, disputas por posição, a conquista e manutenção de mais minutos em quadra, a construção de uma carreira esportiva profissional, o autor-reconhecimento e a autoestima enquanto um bom jogador, o reconhecimento e a estima por parte da comunidade de jogadores da qual faziam parte desde muito jovens... Tudo isso, sob a pressão do favoritismo da equipe no campeonato estadual e sob a expectativa de que viessem a ter uma oportunidade de jogar um campeonato adulto - primeiro passo para uma carreira profissional -, fazia desse momento especial, mas também tenso e angustiante.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>MAURINHO, SEU CORPO E A NOVA EQUIPE</title>
			<p>No período em que o assunto surge em nossas conversas na volta dos treinamentos para casa, a dificuldade de adaptação ao novo time já gerava em Maurinho angústia e ansiedade. Para ele, naquele momento, se apresentava a sensação de que havia algo estranho, incomum, na experiência de jogar no novo time, algo que ele ainda não havia experimentado na sua formação como jogador. Diante da sucessão de eventos que frustravam suas expectativas de sucesso em quadra, diante dos sinais de que perderia espaço para a concorrência de colegas do time, a tendência ao monitoramento de si e da própria atividade esportiva se acentuaram, gerando um impulso interior de reflexão acerca das razões para o que ele (e o treinador) interpretava como uma “queda” no nível de sua performance.</p>
			<p>Essa interpretação se confirmava e se esboçava com cores cada vez mais vivas diante do retorno reflexivo à experiência originária de jogar. Essa reflexão adquiria um sentido prático e existencial de problematização da sua maneira de jogar. Seu processo de integração à equipe foi posto em questão. Pensando no que poderia explicar o que estaria acontecendo, espontaneamente, Maurinho voltava sua atenção ao que experimentava em quadra, construindo, num diálogo entre o <italic>I</italic> e o <italic>me</italic>, uma explicação congruente com a experiência vivida, a fim de dar conta da frustração de suas expectativas construídas com base em seu passado no clube anterior. Toda sua fala a respeito surgia envolta numa nuvem nostálgica dos tempos de sucesso com seus antigos companheiros, que cada vez mais se faziam presentes em seus relatos e nas imagens que evocava.</p>
			<p>Como Maurinho explicava suas dificuldades no novo time? Inicialmente, ele circunscrevia as situações problemáticas típicas vividas em quadra, depois seguia formulando um problema geral, de natureza <italic>intercorporal</italic> em quadra. Ele passava a entender que havia um forte e renitente impulso de ação, forjado no passado, e que emergia abruptamente na sua corrente de experiência diante de certas situações comuns de jogo. Esse impulso entrava em choque com os esquemas coletivos de ação que o novo treinador tentava implementar na atual equipe. Ele se queixava sistematicamente de si porque, mesmo conhecendo teoricamente<italic>,</italic> intelectualmente, o modo correto de agir, seguia frequentemente dentro dos esquemas utilizados nas equipes do Vasco da Gama. Ele se sentia involuntariamente guiado pelo seu corpo e por uma dimensão pré-consciente de ação. Isto é, por uma espécie de memória incorporada que, a contrapelo, o impelia à ação numa direção disfuncional. Esses impulsos lhe pareciam tão arraigados que perturbavam a construção de uma nova inserção própria, dificultando a constituição de esquemas de ação individuais adequados aos esquemas de ação da nova equipe.</p>
			<p>Maurinho ilustrava o problema contando que, diante de certas situações típicas de jogo, começava a agir como agia quando jogava com dois dos seus principais companheiros do Vasco da Gama - Cássio e Hambúrguer -, com quem ele jogara desde o início de sua carreira. Maurinho rememorava principalmente os contra-ataques mortais: quando ele retomava a bola na defesa, contava e imediatamente olhava para as duas laterais, por onde esses seus dois rápidos companheiros logo <italic>disparavam</italic> para o contra-ataque. Ele os buscava com o olhar naqueles pontos adiante da quadra - muito mais adiante do que o adequado à atual equipe -, contando com eles para dar sequência à sua ação, deslocando o foco perceptivo a uma etapa avançada da ação coletiva, para passar-lhes a bola em busca da tão visada <italic>cesta fácil</italic>. Esse impulso de ação não fazia sentido no time atual. No entanto, apesar disso, irrompia a presença virtual de Cássio e Hambúrguer em sua corrente de experiência, arrastando seu corpo num movimento de acordo com o que se fazia no passado, evidenciando a força e a durabilidade com que as linhas de ação desses jogadores se mantinham presentes nos esquemas de ação de Maurinho. Segundo ele, era algo quase inevitável e que impactava sua capacidade de coordenação no time atual.</p>
			<p>Ele sugeria, relembrando alguns dos grandes momentos vividos com esses companheiros, que seus próprios movimentos, os de Cássio e os de Hambúrguer haviam se tornado tão integrados; as disposições, forjadas em correspondência recíproca por tanto tempo, haviam potencializado ações tão sincronizadas; os termos dessa <italic>intercorporalidade</italic> estavam tão profundamente enraizados, ajustados e consolidados, que ele, Maurinho, se encontrava ainda muito predisposto a se sintonizar com a eles (com suas imagens virtuais) nessa dimensão intersubjetiva e intercorporal da ação coletiva, a ponto de quase automaticamente realizar certas ações individuais como se eles estivessem ali.</p>
			<p>Essas experiências vividas com os companheiros do Vasco reapareciam envoltas em uma aura de potência, de glória, de realização pessoal e coletiva. O que provavelmente ajudou a sedimentá-las enquanto potencialidade prática ao longo de sua história. Havia a referência a muita camaradagem e cumplicidade com aqueles companheiros de tantos anos. Todos haviam desenvolvido suas habilidades juntos, ao longo daqueles anos. Conseguiram formar uma equipe que representava um grande clube, eram respeitados na comunidade de praticantes, que também os representava enquanto pessoas, fazendo-os reconhecidos e estimados, inclusive para além dessa comunidade. Essa experiência e o modo como constituíam a memória de Maurinho reafirmavam, naquele momento, a melhor versão de si enquanto atleta, fruto de muito esforço e dedicação - uma versão vivida como autêntica, total e profunda, valorosa, que manifestava também uma relação <italic>própria</italic> com o mundo do jogo.</p>
			<p>Em contraste, voltando a tratar de como as coisas estavam acontecendo na nova equipe, Maurinho contava que, mesmo nos treinamentos, logo que se insinuava um contra-ataque, emergia o impulso familiar de agir como se fosse encontrar Cássio e Hambúrguer adiante no desenrolar da jogada. E, na medida em que esse ímpeto se repetia - e era isso que naquele momento da temporada se evidenciava -, emergia, contraditoriamente, a sensação de erro, de incapacidade. Com o tempo, após o problema se reapresentar, emergia um desconcerto, um atordoamento, que desorganizava toda a sequência da duração da ação. Maurinho dizia, contrariado, que ímpetos como esse, ao se repetirem, pareciam sinalizar, junto a outras experiências na nova equipe, uma dificuldade persistente, para ele um tanto perturbadora, de adaptação ao modo de jogar adotado pelo treinador no clube atual, que se refletiam na própria relação (existencial) de incômodo consigo mesmo diante das novas circunstâncias. Uma sensação de fracasso se associava à nova experiência, causando estranhamento e um sentido de alienação, de inautenticidade, de incômodo distanciamento em relação ao seu “verdadeiro” e perdido <italic>ser jogador</italic>, que inevitavelmente se constituíra da experiência anterior, impregnada de afetos, de alegria e de potência ao rememorá-la nesse contexto.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
			<p>Todo o relato de Maurinho nos leva à conclusão de que a prática sistematicamente ordenada, recorrente e orientada modela os esquemas individuais de ação dos jogadores e efetivamente os interliga, formando um esquema coletivo, que por sua vez ganha existência concreta <italic>nos</italic> jogadores, criando conexões intercorporais, expectativa e disposição recíprocas de ação. Esse é um fenômeno social, concreto, sensível; ele resiste à nossa vontade individual. Maurinho talvez seja um caso limite dos aspectos corporais desse processo por ter jogado no mesmo clube, que adotava o mesmo estilo, as mesmas jogadas, em todas as categorias, até a transferência para um novo clube. Seu caso, no entanto, retrata o que se passa de modo mais ou menos pronunciado na formação de cada atleta e na própria relação com o mundo do jogo esportivo.</p>
			<p>O caso de Maurinho ilumina, por um lado, os percalços da formação do jogador e, por outro, os da formação de uma equipe. As possibilidades tático-estratégicas de construção de um modo de jogar devem ser definidas e convertidas em um sentido comum, adequando-se aos limites de interiorização e incorporação por parte dos jogadores. Essa construção é cotidiana, compreende a formação do sentido de adaptação dos membros entre si e à formação da equipe enquanto entidade coletiva. Isso significa que, quando um treinador assume um grupo de jogadores, atuará sobre sujeitos com uma memória, com anseios de viver uma experiência autêntica, rica e vitoriosa, de si e do jogo, com esquemas corporais previamente existentes, mais ou menos flexíveis e adaptáveis, que deverão ser submetidos a um processo de modelagem, de adequação, no sentido da construção de esquemas coletivos de ação. Portanto, esse é um processo complexo, continuamente em curso, aberto à descoberta inesperada de combinações que mostram potencialidades não previstas, mas suscetível aos limites representados por expectativas baseadas em um passado e por esquemas corporais previamente existentes.</p>
			<p>No início desse texto, destacamos duas perspectivas teóricas e uma terceira da qual se diferenciariam. Elas nos auxiliariam a compreender o fenômeno em questão, cada uma iluminando aspectos distintos acerca da relação dos seres humanos entre si e com seus corpos. No decorrer da exposição, pudemos melhor compreender como apresentaram vantagens e desvantagens na análise de um caso concreto. Em razão da problemática que se levantou, assumimos a predominância da perspectiva fenomenológico-pragmática no estudo do caso de Maurinho, enfatizando a participação consciente de sujeitos ativos num processo de constituição de si e da coletividade, todos inseridos no mundo social em que vivem, onde desafios práticos e questões existenciais se colocam. Aproveitamo-nos, entretanto, de várias das categorias das demais abordagens.</p>
			<p>Ao tratarmos rapidamente da perspectiva kantiano-durkheimiana, aderimos à ideia sociológica fundamental da força social, de uma razão prática incorporada e à ideia de que esquemas organizadores dos dados perceptivos se impõem de maneira generalizada, do exterior e de modo arrebatador; mas negamos (como as outras duas perspectivas) a exclusividade das categorias de entendimento na constituição desse real, considerando o corpo e fatores conscientes ou mediações pré-reflexivas. Da perspectiva construtivista, absorvemos a ideia de que esses esquemas envolvem o corpo e o intelecto como parte da adaptação do mesmo organismo ao ambiente, entendido como ambiente natural e social, produzindo, tal articulação, por meio da educação, uma experiência estruturada da realidade, que resiste aos desejos e à ação da consciência, envolvendo corpo e subjetividade num nível pré-consciente, acentuando as forças de reprodução em detrimento da capacidade reflexiva e transformadora dos agentes.</p>
			<p>Chegamos à percepção de que o corpo esportivo, forjado em conjunção com o sentido consciente de um mundo prático, como é o do jogo, atuaria como parte de um modo de ser referido a esse mundo. O corpo seria um elemento que, a partir de uma construção social, possibilitaria uma espécie da interpenetração com esse mundo por meio da sua adequação à prática, implicando, essa integração e ajustamento, um desafio estimulante, que é parte importante da experiência dos esportes. Nesse sentido, o caso de Maurinho também deixa claro que esse corpo pode comprometer a experiência potencialmente íntegra do real, abrindo brechas problemáticas, desorganizadoras da textura de toda a realidade do jogo, comprometendo a fluência e o prazer de jogar.</p>
			<p>Persistentes dissonâncias entre corpo e consciência em face do que deve ser feito diante do desafio esportivo podem tornar o corpo fator demasiadamente problemático, implicando dificuldades de imersão no fluxo interativo, em sintonia com os demais. Refiro-me não apenas às questões levantadas por Maurinho, mas também a lesões, a defasagens importantes em termos de condicionamento físico ou técnicos, ou ainda a simples “falta de ritmo de jogo”. Essas são situações em que o corpo e a consciência parecem agir em desacordo entre si ou em relação ao que se passa na partida. Isto é, o ser se encontra fora das condições mínimas para acomodar o mundo dos jogos esportivos, impossibilitando a vivência, na prática, da totalidade fluente da experiência de jogar. O que ocasiona a sensação de estranhamento, inadequação e até inautenticidade, justamente o oposto do que se espera do esporte: viver o encontro com uma versão total, potente e competente de si mesmo, numa profunda conexão com os outros e com o mundo.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>BOURDIEU, Pierre (1990). The Logics of Practice. Stanford: Stanford University Press. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BOURDIEU</surname>
							<given-names>Pierre</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1990</year>
					<source>The Logics of Practice</source>
					<publisher-loc>Stanford</publisher-loc>
					<publisher-name>Stanford University Press</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation> CAILLOIS, Roger (1994). Los juegos y los hombres, la máscara e el vértigo. Mexico: Fondo de Cultura Económica.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>CAILLOIS</surname>
							<given-names>Roger</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1994</year>
					<source>Los juegos y los hombres, la máscara e el vértigo</source>
					<publisher-loc>Mexico</publisher-loc>
					<publisher-name>Fondo de Cultura Económica</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>DURKHEIM, Émile (1996). As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>DURKHEIM</surname>
							<given-names>Émile</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1996</year>
					<source>As formas elementares da vida religiosa</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Martins Fontes</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>DURKHEIM, Émile (1999). As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>DURKHEIM</surname>
							<given-names>Émile</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1999</year>
					<source>As regras do método sociológico</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Martins Fontes</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B5">
				<mixed-citation> GARFINKEL, Harold (1963). A Conception of, and Experience with, “Trust” as a Condition of Stable Concerted Actions. In: HARVEY, O. J. (org.). Motivation and Social Interaction: Cognitive determinants. New York: The Ronald Press Company.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>GARFINKEL</surname>
							<given-names>Harold</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1963</year>
					<chapter-title>A Conception of, and Experience with, “Trust” as a Condition of Stable Concerted Actions</chapter-title>
					<person-group person-group-type="compiler">
						<name>
							<surname>HARVEY</surname>
							<given-names>O. J.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Motivation and Social Interaction: Cognitive determinants</source>
					<publisher-loc>New York</publisher-loc>
					<publisher-name>The Ronald Press Company</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B6">
				<mixed-citation>GARFINKEL, Harold (2002). Ethnomethology’s Program: Working Out Durkheim’s Aphorism. Boston: Rowman &amp; Littlefield Publishers.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>GARFINKEL</surname>
							<given-names>Harold</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2002</year>
					<source>Ethnomethology’s Program: Working Out Durkheim’s Aphorism</source>
					<publisher-loc>Boston</publisher-loc>
					<publisher-name>Rowman &amp; Littlefield Publishers</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B7">
				<mixed-citation>HEIDEGGER, Martin (2005). Ser e tempo. Parte 1. Petrópolis: Vozes. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>HEIDEGGER</surname>
							<given-names>Martin</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2005</year>
					<source>Ser e tempo. Parte 1</source>
					<publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
					<publisher-name>Vozes</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B8">
				<mixed-citation> HUIZINGA, Johan (2005). Homo ludens. São Paulo: Perspectiva.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>HUIZINGA</surname>
							<given-names>Johan</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2005</year>
					<source>Homo ludens</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Perspectiva</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B9">
				<mixed-citation>KANT, Immanuel (1996). Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>KANT</surname>
							<given-names>Immanuel</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1996</year>
					<source>Crítica da razão pura</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Nova Cultural</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B10">
				<mixed-citation>MEAD, George Herbert (1967). Mind, Self, and Society: from the stand point of a social behaviorist. Chicago: University of Chicago Press.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MEAD</surname>
							<given-names>George Herbert</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1967</year>
					<source>Mind, Self, and Society: from the stand point of a social behaviorist</source>
					<publisher-loc>Chicago</publisher-loc>
					<publisher-name>University of Chicago Press</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B11">
				<mixed-citation>MERLEAU-PONTY, Maurice (1999). Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes .</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MERLEAU-PONTY</surname>
							<given-names>Maurice</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1999</year>
					<source>Fenomenologia da percepção</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Martins Fontes</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B12">
				<mixed-citation>MAUSS, Marcel (1974). “As técnicas corporais”. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Edusp, p.209-33.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MAUSS</surname>
							<given-names>Marcel</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1974</year>
					<chapter-title>As técnicas corporais</chapter-title>
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MAUSS</surname>
							<given-names>Marcel</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Sociologia e Antropologia</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Edusp</publisher-name>
					<fpage>209</fpage>
					<lpage>233</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B13">
				<mixed-citation>MAUSS, Marcel; DURKHEIM, Émile (2001). “Algumas formas primitivas de classificação”. In: MAUSS, Marcel. Ensaios de Sociologia. São Paulo: Perspectiva , p.399-456.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MAUSS</surname>
							<given-names>Marcel</given-names>
						</name>
						<name>
							<surname>DURKHEIM</surname>
							<given-names>Émile</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2001</year>
					<chapter-title>Algumas formas primitivas de classificação</chapter-title>
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>MAUSS</surname>
							<given-names>Marcel</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Ensaios de Sociologia</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Perspectiva</publisher-name>
					<fpage>399</fpage>
					<lpage>456</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B14">
				<mixed-citation>NAZARETH, Eduardo F. (2015a). A ação e a experiência de jogar. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo. Vol. 30, no. 87, p.59-78. https://doi.org/10.17666/30875977/2015</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>NAZARETH</surname>
							<given-names>Eduardo F.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2015</year>
					<article-title>A ação e a experiência de jogar</article-title>
					<source>Revista Brasileira de Ciências Sociais</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<volume>30</volume>
					<issue>87</issue>
					<fpage>59</fpage>
					<lpage>78</lpage>
					<pub-id pub-id-type="doi">https://doi.org/10.17666/30875977/2015</pub-id>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B15">
				<mixed-citation>NAZARETH, Eduardo F. (2015b). Esporte como experiência: uma análise fenomenológicopragmática do jogo coletivo. Rio de Janeiro: Azougue.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>NAZARETH</surname>
							<given-names>Eduardo F.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2015</year>
					<source>Esporte como experiência: uma análise fenomenológicopragmática do jogo coletivo</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Azougue</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B16">
				<mixed-citation>NAZARETH, Eduardo F. (2015c). A energia e a experiência esportiva. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo. Vol. 19 no.4, p. 601-20. https://doi.org/10.1590/1807-55092015000400601</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>NAZARETH</surname>
							<given-names>Eduardo F.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2015</year>
					<article-title>A energia e a experiência esportiva</article-title>
					<source>Revista Brasileira de Educação Física e Esporte</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<volume>19</volume>
					<issue>4</issue>
					<fpage>601</fpage>
					<lpage>620</lpage>
					<pub-id pub-id-type="doi">https://doi.org/10.1590/1807-55092015000400601</pub-id>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B17">
				<mixed-citation>NAZARETH, Eduardo F. (2018). Algumas diferenças microssociológicas entre futebol americano e futebol de campo: descentramento de perspectivas na ação coletiva. Blog do Labemus. Disponível em: <comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://blogdolabemus.com/2018/02/06/algumas-diferencas-microssociologicas-entre-o-futebol-americano-e-o-futebol-decampo-descentramento-de-perspectivas-na-acao-coletiva-por-eduardo-nazareth/">https://blogdolabemus.com/2018/02/06/algumas-diferencas-microssociologicas-entre-o-futebol-americano-e-o-futebol-decampo-descentramento-de-perspectivas-na-acao-coletiva-por-eduardo-nazareth/</ext-link>
					</comment> (acesso em 15/11/2022)</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>NAZARETH</surname>
							<given-names>Eduardo F.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2018</year>
					<source>Algumas diferenças microssociológicas entre futebol americano e futebol de campo: descentramento de perspectivas na ação coletiva</source>
					<publisher-name>Blog do Labemus</publisher-name>
					<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://blogdolabemus.com/2018/02/06/algumas-diferencas-microssociologicas-entre-o-futebol-americano-e-o-futebol-decampo-descentramento-de-perspectivas-na-acao-coletiva-por-eduardo-nazareth/">https://blogdolabemus.com/2018/02/06/algumas-diferencas-microssociologicas-entre-o-futebol-americano-e-o-futebol-decampo-descentramento-de-perspectivas-na-acao-coletiva-por-eduardo-nazareth/</ext-link>
					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2022-11-15">acesso em 15/11/2022</date-in-citation>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B18">
				<mixed-citation>PIAGET, Jean (1975). O Nascimento da Inteligência na Criança. Rio de Janeiro: Zahar; Brasília, INL.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>PIAGET</surname>
							<given-names>Jean</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1975</year>
					<source>O Nascimento da Inteligência na Criança</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Zahar</publisher-name>
					<comment>Brasília, INL</comment>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B19">
				<mixed-citation>SCHUTZ, Alfred (1967). Collected Papers I: The problem of social reality. Edited by Maurice Alexander Natanson. The Hague: Martinus Nijhoff.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>SCHUTZ</surname>
							<given-names>Alfred</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>1967</year>
					<source>Collected Papers I: The problem of social reality</source>
					<person-group person-group-type="editor">
						<name>
							<surname>Natanson</surname>
							<given-names>Maurice Alexander</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<publisher-loc>The Hague</publisher-loc>
					<publisher-name>Martinus Nijhoff</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B20">
				<mixed-citation>WACQUANT, Loïc (2002). Corpo e Alma: notas etnográficas de um aprendiz de Box. Rio de Janeiro: Relume Dumará.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>WACQUANT</surname>
							<given-names>Loïc</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2002</year>
					<source>Corpo e Alma: notas etnográficas de um aprendiz de Box</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>Relume Dumará</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p> Para conhecer a relação aqui explorada entre competência, regra, jogo, confiança, intersubjetividade e condição de <italic>membro</italic> de uma comunidade de praticantes, ver <xref ref-type="bibr" rid="B5">Garfinkel (1963)</xref>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Para maiores detalhes sobre a importância pessoal do basquetebol para este autor, ver <xref ref-type="bibr" rid="B15">Nazareth (2015b</xref>, p.7-11).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Para uma discussão mais detalhada acerca das questões teóricas, metodológicas e epistemológicas da pesquisa, especialmente as implicadas no fato de ter sido praticante, nativo, e na possibilidade de se chegar ao que <xref ref-type="bibr" rid="B6">Garfinkel (2002</xref>, p. 175-6) chamou de <italic>unique adequacy</italic>, ver <xref ref-type="bibr" rid="B15">Nazareth (2015b</xref>, p.46-61).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Sobre as formas práticas interativas que basicamente caracterizam os esportes coletivos em questão e sobre como eles se diferenciam em termos das formas que as ações coletivas adquirem, distinguindo as experiências de jogar cada um desses jogos, ver <xref ref-type="bibr" rid="B17">Nazareth (2018)</xref>. É em relação a essas formas que se definem formas mais específicas de jogar de uma equipe.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Para melhor compreender a que me refiro ao tratar de conexões intercorporais, indico a descrição de uma situação típica provocada por uma jogada combinada pela equipe do Fluminense em <xref ref-type="bibr" rid="B16">Nazareth (2015c</xref>, p.610-2). Destaco no trecho um circuito de energia, mas o que está igualmente em operação são as conexões intercorporais - por meio das quais aquele circuito acontece - em sua organização e evolução concretas, como elas costumeiramente se apresentavam na experiência dos jogadores.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Seis atletas se encontravam nessa condição na categoria: Vitinho, Tisi, Pietro, Mãozão, João Pedro e Juan. A equipe era integrada ainda por três jogadores mais jovens, no 1º ano dessa categoria, Rodrigo, Iverson e Hugo, e outros três da categoria infanto-juvenil, Chupeta, Diego e Joãozinho.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
</article>