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				<journal-title>Plural - Revista de Ciências Sociais</journal-title>
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				<publisher-name>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>ENTREVISTA</subject>
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				<article-title>Outras casas, outras leis - entrevista com Nair Jane de Castro Lima<xref ref-type="fn" rid="fn36">*</xref>
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					<trans-title>Other houses, other laws - interview with Nair Jane de Castro Lima</trans-title>
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						<surname>Boson</surname>
						<given-names>Victor Hugo Criscuolo</given-names>
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					<label>a</label>
					<institution content-type="original">Professor adjunto do Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro/BA. Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E-mail: victorboson@gmail.com</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">Centro de Formação em Ciências Humanas e Sociais</institution>
					<institution content-type="orgname">Universidade Federal do Sul da Bahia</institution>
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						<city>Porto Seguro</city>
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					<email>victorboson@gmail.com</email>
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			<author-notes>
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					<label>*</label>
					<p>Agradecimento especial a Jade Castro, bacharelanda em Direito pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pelo apoio na transcrição da entrevista.</p>
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			</author-notes>
			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
				<day>23</day>
				<month>06</month>
				<year>2023</year>
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				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2023</year>
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			<volume>30</volume>
			<issue>1</issue>
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					<day>20</day>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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		<p>
			<fig id="f1">
				<label>Figura 1</label>
				<caption>
					<title>Nair Jane expõe sua Carteira de Trabalho.</title>
				</caption>
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				<attrib>Fonte: <xref ref-type="bibr" rid="B6">Jornal do Brasil, 1988</xref>.</attrib>
			</fig>
		</p>
		<p>Mulher negra, trabalhadora doméstica aposentada e atuante líder sindical, Nair Jane definiu a legislação das domésticas como uma “colcha de retalhos”, em que cada fragmento, cada ponto de costura e cada remendo não se fissuram da luta social.</p>
		<p>Na década de 1970, quando militante da Juventude Operária Católica, Nair presidiu a Associação Profissional dos Empregados Domésticos do Rio de Janeiro.</p>
		<p>Após, participou de sua transformação em sindicato, do qual se tornou a primeira presidenta, em 1988, e atuou ativamente na construção da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Também foi uma das fundadoras da Confederação Latino-Americana e do Caribe das Trabalhadoras Domésticas, formada, em 1988, por meio de uma rede de mulheres trabalhadoras domésticas que mobilizaram atuação mais larga, em termos internacionais, refletindo práticas e esforços daquilo que <xref ref-type="bibr" rid="B2">Angela Davis (2018</xref>) denominou e refletiu como “solidariedade transnacional”.</p>
		<p>Além disso, foi uma das fundadoras do sindicato da categoria na Baixada Fluminense, onde atualmente ocupa o cargo de vice-presidenta. Em 2003, Nair Jane recebeu o “Prêmio Bertha Lutz” do Senado Federal e, em 2019, foi homenageada com o “Diploma Mulher-Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro” na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.</p>
		<p>Como ocorre com milhões de mulheres negras, Nair Jane começou a trabalhar em “casas de família” quando ainda era criança, em troca de comida e de um quarto, denunciando, por meio de sua trajetória, o caráter servil idealizado nas relações entre famílias empregadoras e as empregadas. O percurso de Nair engendra de muitas maneiras os traços identificados por Lélia González quanto à situação da mulher negra e doméstica no país: ao trabalhar junto às famílias de classes média e alta do mundo social brasileiro, ela sofre um processo de “reforço quanto à internalização da diferença, da subordinação e da ‘inferioridade’ que lhe seriam peculiares” (<xref ref-type="bibr" rid="B4">González, 2018</xref>, p. 44-45).</p>
		<p>Tendo em conta que, em depoimento anterior, concedido ao CPDOC/Fundação Getúlio Vargas em agosto de 2017, aspectos da história de vida de Nair foram abordados como objeto central (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Lima, 2017</xref>), o enfoque conferido nesta entrevista que se segue aponta para a específica relação entre agência individual e coletiva e a tessitura de direitos trabalhistas. Nessa perspectiva, também novas abordagens despontam por questões cronológicas mais recentes, a exemplo das impressões da entrevistada acerca do quadro político neoliberal e autoritário que se afirma no Brasil governado pelo presidente Jair Bolsonaro e das consequências impostas ao mundo do trabalho pela crise sanitária de Covid-19<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>.</p>
		<p>A pauta da entrevista que se segue, com a líder sindical Nair Jane de Castro Lima, hoje com noventa anos, é paradigmática no sentido de alinhar trajetos de vida, experiências coletivas e conflitos pelo direito desde a segunda metade do século passado até os dias atuais. Hoje, vice-presidenta do sindicato da categoria na Baixada Fluminense, Nair Jane, como prefere ser chamada, nos concedeu essa entrevista no dia 14 de novembro de 2020 em sua casa.</p>
		<p>A fala de Nair Jane, em sua potência de vida, percorre por grande parte do processo de afirmação e expressão do movimento nacional de trabalhadoras domésticas, desde as associações até os atuais sindicatos, desde a ditadura até a democratização. Ao explorar sua própria agência, Nair nos convida a refletir sobre como as relações de trabalho se mantêm e se transformam, mas nunca sem resistências daqueles que fazem o mundo do trabalho.</p>
		<p>Ao longo da entrevista, fica evidente a insurgência da mulher sindicalista contra a exclusão jurídica das domésticas, por décadas validada pela CLT, e contra uma realidade absorvida pela precariedade no mundo da vida concreta. Essa mesma realidade forja um mundo do trabalho atravessado por marcadores de classe, raça, gênero e geração, por um campo de forças assimétricas de poder, apesar dos avanços na legislação nos últimos anos. No entrecruzar de casas, lugares de trabalho e de vida, a trajetória de Nair Jane se fez também na luta por outras leis, buscando outros sentidos de experiência à vida no trabalho, a dela e a de milhões de brasileiras e brasileiros.</p>
		<p>Entre a realização da entrevista e hoje, meados de 2022, duas lideranças sindicais citadas no depoimento de Nair Jane vieram a falecer. Aída del Carmen Moreno Valenzuela, combativa sindicalista chilena, com projeção de atividades em toda a América Latina e Caribe<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>, e Lenira de Carvalho, líder sindical atuante em Pernambuco, indicada ao Prêmio Nobel da Paz de 2006<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. Aos seus legados, nosso reconhecimento.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Nair, sobre a sua história de vida, você poderia nos falar um pouco das suas origens?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Meu nome é Nair Jane de Castro Lima, eu sou originária do Maranhão, da cidade de Imperatriz. Estou no Rio de Janeiro há uns setenta e poucos anos, mas me considero maranhense. Nasci em 1932, tenho oitenta e oito anos. Sou negra e comecei a trabalhar exatamente com nove anos de idade. Antes desses nove anos, eu já brincava com as crianças, pois no orfanato onde eu estava tinha muita criança, a gente vivia ali. Eu não esqueço da minha “meninice”, eu era muito peralta. Depois, alguém me trouxe para o Rio de Janeiro - para a Tijuca, com nove anos, para cuidar de duas crianças, uma de seis e outra de cinco anos. Fiquei nesse trabalho durante onze anos e tudo o que eu aprendi na minha vida foi nessa casa<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>E como era o trabalho nessa casa?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Era uma casa onde eu não tinha salário. Como não tinha ninguém do meu tamanho, tinham que me levar para as lojas para escolher as roupas porque eu não podia vestir as dos meus patrões. Lá eles me matricularam em uma escola e eu estudei até o último ano do ginásio, tinha quatorze anos quando terminei. Foi uma correria, fiz uma admissão em menos de um ano e nunca repeti. Eu tinha sorte porque meus patrões nunca interferiram no meu trabalho, eles sempre diziam para as crianças: “Vocês têm alguém que cuida de vocês, só não pode bater, mas o resto... põe de castigo, eu não quero saber porquê”. Nesse tempo, eu fui aprendendo. Eu era criança e no sábado meu patrão parava para ver os cadernos dos filhos e via os meus também, com isso, fui me aperfeiçoando, aprendendo. Quando eu já estava lá há onze anos, as crianças já tinham crescido e meu trabalho era acompanhá-las nos clubes, minha patroa propôs que eu passasse a dirigir a casa. Só que ela tinha uma empregada, uma cozinheira, que foi para a casa dela quando ela se casou, na noite de núpcias. E eu falei: “A senhora está doida? Eu vou dirigir a sua casa com a Totonha? Com aquele facão que ela usa lá na cozinha, nessa casa só entra quem ela quer. Não, eu quero continuar amiga de todo mundo, inclusive dela”. Tinha um médico da família, que também cuidava de mim - Dr. Orlando, que se propôs a me ajudar a arrumar um outro emprego e arranjou através de uma agência. Antes, eu estava em uma casa de gente católica, me formei catequista, fiz primeiros socorros. Eu ainda tocava piano, do que eu gostava e continuo gostando, só que eu não tenho. Com o novo emprego, eu fui para uma casa de israelitas e todo mundo dizia pra mim: “Olha, os israelitas são ruins. Cuidado, você é negra. Olha lá, você vai cuidar de meninos brancos”. Eu respondia: “Mas eu cuidei de meninos brancos até agora, eu não cuidei de negros”. Eu me formei catequista e dava aula para toda a cor, branco, negro, pardo, não tinha esse problema não, e ainda era cantora da igreja. A casa era no Leblon e para cuidar de um menino. Às vezes não tinha tempo para entrar no banheiro. Como não conhecia a criança, perguntei: “Cadê o menino?”. Aí a patroa respondeu: “Está em Bariloche. Chega não sei quantos dias, daqui a pouco”. Na segunda-feira, quando eu fui trabalhar, a patroa havia viajado. Ela tinha uma cozinheira também antiga, que disse pra mim: “Ali está uma passagem para você ir buscar o seu trabalho”. Eu disse: “Como é que é?”. E ela: “A patroa viajou e deixou uma passagem para você ir buscar o menino lá em Bariloche”. Então, eu falei: “A sua patroa regula bem da cabeça? Eu estou entrando no trabalho hoje e ela não me conhece”. Mas a colega disse: “Você que pensa que ela não te conhece. Para você entrar aqui foi uma pesquisa muito grande”.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>E foi então para Bariloche?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Lá fui eu para Bariloche. Conheci o menino, conheci a família dele, os parentes deles, com quem o garoto estava. Eles tinham um casal de filhos diferentes, e eu fiquei vinte e dois dias em Bariloche com eles. Depois, voltamos para o Brasil. Chegamos aqui, o patrão não estava, fomos para Teresópolis, onde eles tinham um sítio. Fiquei lá e a cozinheira da casa disse para mim: “Você só pode cuidar do seu menino”. Aí eu disse “Ai, meu Deus, que coisa horrível, só cuidar do meu? Mas as outras crianças não têm babá. Vou fazer lanche para o Daniel e deixar os outros dois olhando? Não”. A cozinheira disse: “Ah, mas a madame vai brigar com você”. Eu disse a ela o seguinte: “Bom, quando ela vier brigar comigo, a gente conversa”. Então, fiquei. Nessa família, tinha também a avó que não gostava de barulho à tarde, pois gostava de dormir. Então, à tarde, eu ia brincar de chicotinho queimado com os três no quintal. Tinha um quintal imenso, a gente fazia tiro ao alvo, fazia tudo que era possível, tudo coisa de criança. Um dia a cozinheira falou para mim: “Olha, a senhora vai reclamar com você. Você não parece empregada não, você gosta de tudo!”. Eu disse a ela: “Quando ela me procurar, a gente conversa. E olha, é isso mesmo, eu sou empregada, eu não sou escrava. Sei que no Brasil teve escravidão, mas eu me sinto livre, então livre eu posso dialogar, eu posso conversar”. Então, um dia, a senhora perguntou para mim: “Posso brincar com vocês?” - essa senhora que a outra empregada disse que ia brigar comigo. Eu disse “Ah! Que bom, então vamos nós duas! Nós duas somos grandes e eles pequenos”, para não dizer que ela era velha. “Nós duas grandes e as crianças. Vamos ficar nós e eles”. Olha, foi uma amizade só, uma maravilha, até que Deus a levou, mas foi muito bom. Minha patroa regressou da viagem dela e ficou chocada com a história que eu tinha misturado seu filho com os primos. Mas eles são primos! Tem um episódio esquisito que as crianças só entravam no carro se eu entrasse. Ah, meu Deus, que horror. Eu ganhei uma semana de folga e tive que esperar todo mundo dormir para o motorista me levar para a casa da família que me adotou, onde moro hoje, para poder sair deles porque durante o dia eu não podia. Quando viam a minha mala, começava todo mundo a chorar. A mãe, essas israelitas bem ortodoxas, dizia assim: “Nunca vi meu filho chorar por causa de empregada”. Mas eu não respondia nada. Fiquei em casa quinze dias. Quando voltei fizeram uma festa. Quando eles viajavam, eles me levavam porque o menino era pequeno, então eu fui para Israel, Alemanha, Bélgica - porque minha patroa era alemã, meu patrão era belga. Olha, corri o mundo.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>A essa altura já havia a inserção na associação das trabalhadoras domésticas?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Nesse tempo eu não era nada nas organizações de empregadas domésticas, conhecia só as coisas da Igreja Católica, onde eu militava muito porque era catequista. E nesse meu trabalho, a única coisa que eu disse para a patroa: “Eu sou católica, tenho as missas ao domingo, o domingo que eu estiver em sua casa, quero ir à missa. E sou catequista, então se tiver uma oportunidade...”. Como a Igreja era pertinho, era uma maravilha. Eu ficava no paraíso, andava cinquenta metros, estava na Igreja, andava cinquenta metros, estava no apartamento. E nessa a gente já tinha ido Copacabana, Leblon, Visconde de Mauá - era onde ela tinha uma pousada, e era tudo um paraíso.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Quantos anos nesse emprego?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Sabe quantos aninhos eu fiquei nessa casa? Trinta e sete.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Foi então durante esse período que começou a atuar nas associações...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Quando, em 1970, eu estava uma vez caminhando em Copacabana, andando com o menino, vi um papel caído na rua, escrito o seguinte: “minha patroa é a mais bonita”. Eu peguei aquele panfleto e li que tinha uma associação de empregadas domésticas no Rio de Janeiro que estava fazendo um concurso com Flávio Cavalcante, que era da TV Tupi, que elegia a patroa mais bonita. Quando eu cheguei no trabalho, passei por minha patroa: “Olha, eu vou botar o menino para dormir e vou lá na biblioteca de Copacabana que tem um negócio lá que eu quero conhecer”. Ela disse: “Que negócio?”. Eu só disse: “Ah, quando eu voltar, conto para a senhora”. Mentira que eu não ia contar. Botei o menino para dormir. Se ele não acorda, não tem problema, e como ele já tinha cinco anos, não acordava. Deixei ele no quarto e fui para o tal do concurso. Cheguei lá e foi aquele mundo de luz na minha cara. Todo mundo admirado: “Como você chegou até aqui?”. Respondi a eles que tinha achado um papel na rua e fui conhecer o espaço. Assisti à eleição e à apuração, me convidaram para conhecer a associação. A associação era um quartinho ali na [rua] Álvaro Ramos, em Botafogo. Eu fui, mal cabia meu pé porque era tão pequeno o espaço e tinha muita gente.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Então você chega por um anúncio dessa associação...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Eu cheguei na associação por um anúncio. Conheci a cúpula. Era uma cúpula mesmo. A gente chamava a direção de “as capas pretas”. Tinha a Teresinha Ramos<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>, tinha a Maria da Hora<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref>, que ainda está viva e a gente ainda se dá muito bem. E tinha as outras meninas que nunca mais tive contato depois que saíram da direção da associação. Nisso aí já estava chegando 1973. Em 1972, tinha uma assistente social e uma professora da Bélgica que vinha muito ao Brasil, e era muito amiga dessa assistente social, e ajudava muito a associação das domésticas. O pessoal falou: “Ah! Que bom, nós precisamos resolver um negócio”. A menina que tinha fundado a Associação tinha chegado muito chocada, no domingo à tarde, contando uma história que havia passado na porta da Igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana. Ela contou que, à meia-noite, viu uma senhora com uma mala, uma senhora bem velha, e ela chegou perto para perguntar por que aquela senhora estava na porta da Igreja. E a senhora respondeu: “Porque minha patroa me mandou embora depois de trinta e oito anos na casa”. Imagina uma velha, trinta e oito anos de trabalho, está na rua, de mala e cuia, porque a patroa se indispôs com ela de noite. Então, a fundadora disse: “A gente tem que resolver uma coisa”. O Médici era o presidente da República, em plena ditadura militar, o que a gente poderia fazer? Veio aí a nossa ideia. A gente estava conversando e decidimos fazer uma carta para ele, para ver se resolvia alguma coisa para a doméstica, como dar um honorário de trabalho, pois não se pode colocar na rua assim. Mandamos a carta em agosto. Passou agosto, setembro, outubro, novembro, ele não respondeu. Quando estava quase chegando perto do Natal, meu patrão diz assim: “Ô moça, você viu televisão ontem?”, “Não, eu não vi televisão porque eu estava servindo seu jantar”. Na casa que eu trabalh va tinha bastante funcionários, mas eu era a única que dormia. Como eles não tinham horário de jantar, quem servia o jantar era eu e eu disse “Não, senhor, eu estava servindo seu jantar, que por sinal nesta noite estava no horário da televisão”. Ele falou “Ah, pois é. É porque na televisão disse que vocês que trabalham” - não falou empregada, não - “Vocês que trabalham nas nossas casas vão ter direito a carteira assinada e vinte dias úteis de férias<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref>, mas você sabe que eu deixei vocês ficarem em casa todo ano trinta dias, né?”. Eu disse “Sim, e daí?”, “Daí que não”, “Por quê?”, “Olha, vinte dias úteis você pode contar aí que vai dar mais de trinta”. Ele contou. E eu disse: “Não vai entrar sábado, não vai entrar domingo, não vai entrar feriado. Tá bom? Então o senhor faça as contas aí que vai dar mais de trinta dias”. “Outro problema, as carteiras eu só vou assinar a sua”. Eu falei “Ah não, o senhor vai assinar as carteiras de todo mundo”, “Mas eu não vou pagar INPS<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref>”. “Então vai para lá fazer as inscrições”. Eu falei “Vou”. Ele assinou as carteiras, lá em Botafogo. Eu fiz a inscrição de todas nós, entreguei para ele, ele assinou. Estava tudo certo. Todo fim de mês ele me dava um dinheiro para ir ao banco pagar o INPS. Então, eu ia ao INPS todo mês pagar. Mas era uma coisa muito boa, ele nunca deixou de pagar. A minha carteira só tem a assinatura deles, eles assinaram no dia 8 de abril de 1973.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>E você já trabalhava há décadas...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Na casa, quatorze anos. Eu já estava na casa havia quatorze anos quando veio a primeira lei das domésticas, em 1973.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Sim. Nessa casa, quatorze, além das outras experiências anteriores...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Exatamente. E nessa época também eu já estava sendo candidata à presidência da associação das domésticas. Conversei com eles. Disseram: “Tudo bem, desde que você esteja aqui na hora que eu precisar de você, está tudo bem”. Porque o menino já estava grande, já estava morando sozinho lá na Austrália e eu aqui no Brasil. Porém, ainda tinha a avó, que dizia “agora você é minha, porque o menino foi embora, então agora você é minha, fica comigo”. Eu disse: “Pois é, eu sempre dirigi essa casa e esse apartamento; agora também vou cuidar da senhora”. Aceitei e aceitei o cargo lá na associação, caso eu fosse eleita.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>E qual foi a reação dos empregadores com seu envolvimento na associação?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Uma coisa muito interessante é que eu tive apoio total, sem discussão, só com essa frase: “quando eu precisar de você, você tem que estar aqui, não tem problema nenhum”. E na associação eu fui eleita presidenta. Nossa, tinha muito trabalho, muita coisa para ser organizada, congresso sendo organizado, congresso das domésticas no ano em que eu fui eleita. O congresso foi no [bairro] Santa Teresa, e eu me lembro que o Jornal do Brasil ficou em cima, porque todo mundo queria dar entrevista, menos eu. Na realidade, eu não conhecia direito a organização, como é que eu ia dar entrevista, em plena ditadura militar? Mas eu tinha umas irmãs de caridade, tinha aquela assistente social, tinha outra colega que morava no Recife e morreu no ano passado. Eu não sabia o que falar, mas falei e me saí bem.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>E as reuniões aconteciam normalmente durante a ditadura?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> A gente tinha muita amizade com o pessoal da Igreja Católica, e eu vou te dizer, acho que a sobrevivência da organização das domésticas foi mais por isso. Porque a gente fazia reunião nas igrejas, fazia reunião nos colégios, no Sacré-Coeur de Marie, em Copacabana, lá na Nossa Senhora da Paz, sem problemas. O Padre Agostinho Pretto<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref>, na época, era aqui da Baixada, acompanhava muito a gente porque ele era muito amigo da associação. Ele ajudava muito a gente. Então tivemos muitos advogados, pareciam que eles eram realmente só da categoria de domésticas. Foi muito bom, foi um período de aprendizado muito grande para a vida da gente, de trabalho e pessoal.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Você se recorda de alguma advogada ou de algum advogado em específico?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Eu me recordo de uma que, infelizmente, não está mais conosco. Não me recordo o nome, acho que era doutora Margarida Santos. Era excelente advogada e muito amiga da gente. Tinha também uma advogada que ficou na associação e no sindicato, doutora Cláudia. Ela foi embora para São Paulo, mas morava na Barra. Ela foi nossa advogada, uma defensora ferrenha. A doutora Paola, que ainda está lá no sindicato do Rio, foi para lá acho que em 1991 ou 1992, eu saí de lá e ela continuou. Até dois anos atrás eu sei que ela estava ainda advogando lá.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Conseguiria enfatizar, destacando, as pautas jurídicas mais sensíveis para a categoria no período do seu ingresso na associação?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Nesse período da associação, a gente ficou lutando, todo mundo ficou muito eufórico com a carteira assinada e com férias de vinte dias. Para quem não tinha férias, realmente foi muito bom, mas eram vinte dias úteis. Antes, tinha feriado e a gente estava no trabalho, sábado e domingo estávamos ali. Com a lei, a gente estava feliz. É interessante uma coisa: as carteiras assinadas tinham que estar com os salários. Quando Fernando Henrique Cardoso instituiu o fundo de garantia para a doméstica, no final do texto da lei ele colocou “facultativo”. Também assim era o salário da doméstica em 1973. Quando a carteira foi assinada, o patrão tinha que colocar, para pagar o INSS em cima desse valor. Mas não precisava pagar esse valor em dinheiro para a empregada<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref>. A gente, graças a Deus, ganhava um pouco mais, as meninas que trabalhavam junto comigo também ganhavam bem mais, então a gente não tinha problema. Mas eram seis. E essa multidão de domésticas no Brasil ganhando muito menos que o necessário? Hoje eu estou nessa situação, ganhando o mínimo do mínimo. Me aposentei com três salários mínimos e meio e hoje ganho menos de um por causa de uma cláusula boba que eu fiz e agora não consigo reverter. Nesse período, a gente teve o congresso em Belo Horizonte, em 1978. Um congresso muito grande, com muitas autoridades presentes, como o ministro do trabalho, aquela encenação toda. Em 1979, recebi meu primeiro convite para representar a associação das domésticas em Brasília. Foi a minha terceira ida a Brasília, porque fui na inauguração e depois fui de novo porque eu era amiga da babá da filha do Juscelino Kubitschek e, quando da inauguração da Capital, fui convidada com ela para lá.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Nair, como era circular em Brasília, um ambiente altamente conservador, sobretudo naquele momento?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Olha só, acho que sou muito audaciosa. Eu não sei não, porque entrava em tudo que era lugar, conversava com todo mundo, dava as minhas respostas. Não sei se na época agradavam ou não, mas eu recebia um sorriso amarelo, uma batidinha no ombro e seguia em frente. Não tive problema, ainda mais que eu estava na residência oficial. A primeira residência do Presidente da República, eu estava ali na ala sul, ala norte, sei lá como é que eles chamam, tantas alas. Eu estava ali, então era muito bajulada, não era assim como eles achavam “ah, coitadinha, então deixa aí”. Depois começaram os convites dos estados. Com isso, o problema no trabalho, aquela palavra “você pode fazer o que você quiser, mas tem que estar aqui quando eu precisar” começou a complicar. Porque era muito jornalista, era muita imprensa e, por incrível que pareça, quando a patroa atendia a telefonemas de imprensa, ela me chamava correndo, mas, quando atendia telefone de amigas, ela dizia “ah, ela tá muito ocupada agora, pode atender não”.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Como você lê essa diferenciação por parte dela?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> A discriminação. Mas todo mundo achava que ela era uma patroa muito boa porque a imprensa dizia “olha, mas a gente liga para lá e não tem problema, a gente vai lá fazer entrevista com a Nair e não tem problema”.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Nair, voltando a 1973, você consegue se lembrar dos nomes das envolvidas com a carta ao Médici?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> A gente começou a brigar por causa da carteira assinada com o salário que ganhava. Depois, em 1985, eu fui vice-presidente da moça que fez a carta. Todo mundo diz “a lei chegou”, mas ninguém diz o nome dela, eu digo “precisa dizer que foi uma empregada que trabalhou cinquenta anos em uma casa e foi quem resolveu que tinha que ter uma organização das domésticas e foi ela que deu início para que viesse uma lei - Odete Maria da Conceição<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref>”. Essa quem foi a fundadora da associação de empregadas domésticas do Rio de Janeiro e também a que teve a ideia de fazer a carta para o presidente Médici em 1973.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Depois disso que vem a Maria da Hora?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Não, a Maria da Hora saiu da associação. Fui secretária dela, secretária da associação, em 1973. Quando terminou o processo de transformar a associação em sindicato, eu era presidenta de novo. Então eu tinha ganho da Zica, Anazir Maria de Oliveira<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref>, que hoje é pedagoga e assistente social, mas era diarista na época. Muito importante isso para a gente.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Seria importante registrarmos a atuação dessas mulheres...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Sim. Ela [Zica] mora na zona oeste. Uma pessoa muito instruída - é mais nova que eu um ano -, depois que ela ficou velha, fez duas faculdades. Fez Pedagogia e Assistência Social pela PUC, terminou Assistência Social um ano atrás. Então hoje está muito bem. Ela não perde as origens não, está sempre conosco, sempre nos orientando em alguma coisa que ela acha que não está correto. É muito bom. Em 1985, começou a luta pela criação do Conselho [Estadual] dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro. Lá fui eu, empregada doméstica que já tinha terminado meu curso de auxiliar de enfermagem, mas continuava doméstica, e me juntei àquela turma de feministas, como a Jacqueline Pitanguy<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref>, a Leila Linhares<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref>, a Moema Toscano<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref>, a Branca Moreira Alves<xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref>, e a gente conseguiu fundar o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, do qual eu também fiz parte, durante uns doze ou quatorze anos. Eu não sou mais do Conselho estadual, sou vice-presidenta do Conselho municipal de Nova Iguaçu e também do meu sindicato de empregadas domésticas. E não quero mais presidência de nada, chega. Foi muito trabalho e agora, que eu caminho de bengala, é muito difícil. Às vezes você precisa correr, eu não consigo mais correr, mas vou. Quando a Jacqueline e a Leila me convocam para a CEPIA<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref>, estou chegando lá, porque também é outra parceria que parece família. Muito boa, pessoal muito amigo. Entrei para o Conselho, veio a Constituinte. Era Brasília e Rio de Janeiro. Eu cheguei para a minha patroa e disse “Olha, eu vou propor uma coisa para a senhora”, ela disse “O que é?”, “Eu tenho que viajar um pouco mais agora”, ela disse “Um pouco mais? Você já trabalha menos de quinze dias”, “Bom, aí a senhora vai decidir. Eu tenho que ir para Brasília, porque nós estamos lutando para a doméstica entrar na Constituinte, na Constituição”, “Tá bom, eu te dou o tempo que você precisa ir para lá”. E assim eu fui, pegava assim umas dez, doze companheiras empregadas domésticas e diaristas, íamos para Brasília. Tínhamos muito apoio da Jacqueline, quando ela era presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, lá em Brasília, da Benedita da Silva<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref> e da Ana Maria Rattes<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref>, que era da direita, mas estava também junto com a gente.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Sim, ela era do PMDB à época...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> É, pois é. Era mulher, então estava ali. A gente teve “essa coisa” de viajar para Brasília, meu Deus do céu, que luta! Que luta! Porque a gente ficava naquele Congresso, primeiro era uma luta para entrar, depois eles ficavam fazendo jogo. Aquele que já morreu [Ulysses Guimarães], ele era o presidente da sessão, na hora que ia entrar o debate sobre as domésticas, ele invertia, e a gente saía dali geralmente três, quatro horas da manhã, e nada resolvido. Até que uma manhã chegamos no Congresso e não tinha ninguém, levamos um susto, ficamos caminhando, caminhando, e alguém atrás de nós “Quê que vocês procuram?”, “Nós saímos 3:30h daqui”, ele respondeu “Vocês são o quê, empregadas domésticas? Eles cochilaram e votaram tudo o que vocês queriam”. Eu disse: “Tudo o que nós queríamos?”. Ele disse: “Sim”. Então fui batendo nas lideranças e estavam as salas todas fechadas, só tinha o escritório do PT que estava aberto e uma menina lá. Eu perguntei a ela o que havia acontecido, onde estava a Bené [Benedita da Silva]. Ela disse “A Bené viajou”. Eu disse, “Mas como? Tem doméstica hospedada na casa dela. Como ela viajou?”. E eu estava dormindo no Guará, em uma creche, em uns papelões, porque não tinha cama, mas estava bem.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>A Benedita da Silva chegou, então, a hospedar lideranças?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Muitas. Muita gente. O Carlos Santana também, quando estava lá em Brasília, recebia muita gente, ajudava muito, ele morava em uma pousada, então às vezes ficavam três quartos ocupados por empregadas, quando elas iam a Brasília. Nisso eu voltei para o Rio e continuei o meu trabalho. Depois veio a luta para ver o que tínhamos ganhado ou não. E não foi fácil. Porque foi aquela briga louca. A gente começou a receber aquele mundo de imprensa. Todos queriam saber se estava bom ou se não estava.</p>
		<p>
			<fig id="f2">
				<label>Figura 2</label>
				<caption>
					<title>Em Brasília, durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/88, Nair Jane (centro) e sindicalistas entregam relação de pautas e demandas ao deputado Ulysses Guimarães (esquerda da foto).</title>
				</caption>
				<graphic xlink:href="2176-8099-plural-30-01-213-gf2.jpg"/>
				<attrib>Fonte: Arquivo pessoal da entrevistada.</attrib>
			</fig>
		</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Nair, você chegou também a participar de mobilizações que se articulavam internacionalmente, certo?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Em 1988, recebi o primeiro convite internacional para ir para a Colômbia. Tinha uma casa de indigenistas que queriam fazer um congresso e fui eu do Rio de Janeiro, foi a Lenira de Carvalho, de Pernambuco, foi a Isabel Cleto, de São Paulo<xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref>, e a Eva Moraes, do Rio Grande do Sul<xref ref-type="fn" rid="fn21"><sup>21</sup></xref>. Éramos quatro representantes do Brasil, e a saída do Rio foi a que não aceitássemos cargos porque não saberíamos como fazer, principalmente por causa do idioma. Lá em Bogotá estava muito cheio, tinha uns quinze países presentes. Estando lá, a gente sabia que eles estavam criando uma organização latino-americana e caribenha, então as meninas me chamaram e disseram: “Nair, parece que vai ter votação, e se uma de nós for eleita, a gente vai aceitar sim. Quando chegar no Brasil, a gente resolve”. Nós fomos e fui eleita secretária de organização da Confederação Latino-Americana e do Caribe das Trabalhadoras Domésticas<xref ref-type="fn" rid="fn22"><sup>22</sup></xref>. Todos falavam, “olha, mas você não sabe espanhol...” Voltamos para o Brasil, quando cheguei aqui, os três primeiros anos foram de muita luta, ninguém aceitava muito essa história. Por que não aceitavam? Porque a gente tinha ido representar, mas não tinha ido com a autorização para pegar cargo. Essa senhora, a Odete Azevedo Soares<xref ref-type="fn" rid="fn23"><sup>23</sup></xref>, que era assistente social, tinha feito tantas recomendações, por isso brigou muito, mas nunca me deixou sentada. Quando, no início, eu não conseguia responder nada em <italic>portunhol</italic>, nem espanhol, nem nada, ela me dizia como fazer e eu respondia a todos os questionários e propostas que foram feitas e fui reeleita. Quer dizer, fiquei seis anos na confederação, então nós votamos uma re presentante do Brasil, a menina para quem passei o meu cargo [na reunião da] Guatemala, em 1994, e tinha uma outra que eu levava sempre, que você deve conhecer bem, que é a Creuza de Oliveira<xref ref-type="fn" rid="fn24"><sup>24</sup></xref>. A Creuza me acompanhou muito, mas quem ficou em meu lugar foi a Teresinha da Silva, lá de Campinas, que hoje também é advogada e era faxineira. Hoje é uma advogada muito atuante. Ela ficou três anos na Confederação, não quis ficar mais e daí é que entrou a Creuza. E a Creuza já tinha me acompanhado muito dois anos seguidos lá para o Chile, onde fazíamos as nossas reuniões. Ela se saiu muito bem e hoje você sabe como ela é: uma potência.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Como você enxerga a importância dessa participação em associações internacionais naquele período?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Não tenha dúvida de que foi muito rico. Era difícil? Era, mas foi muito gratificante. Também isso proporcionou a minha ida à IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em Beijing, na China, em 1995<xref ref-type="fn" rid="fn25"><sup>25</sup></xref>. Todo mundo ficou muito preocupado. “Como é que você vai? Você não sabe falar em inglês... você só fala em espanhol e português.”. Eu viajei uma parte do mundo sem falar inglês, só falando o <italic>portunhol</italic>, mas foi tudo bem. Lá fui eu, não representando o Brasil, mas representando a América Latina, porque eu tinha visitado Argentina, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Equador, tudo para saber como eram as associações das domésticas nesses países. Verifiquei que eram muito sacrificadas, iguais ou piores que no Brasil. Em Quito, então, no Equador, era uma coisa horrorosa de ver a situação da trabalhadora doméstica. O UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres) me bancava na época e eu fui para a China para representar as trabalhadoras domésticas da América Latina. E lá estavam Jacqueline Pitanguy, Benedita da Silva e Ruth Cardoso<xref ref-type="fn" rid="fn26"><sup>26</sup></xref>. Acho que saí mais fortalecida do que se eu tivesse dito “não, não vou, porque tenho problema com a língua”. No dia da América Latina apresentar os trabalhos, estavam a Mary Castro<xref ref-type="fn" rid="fn27"><sup>27</sup></xref>, a Aída Moreno [do Chile], a Virginia, do Paraguai, e eu. Todo mundo estava preocupado com quem iria traduzir a nossa fala. Não sei de onde saiu uma menina negra e disse assim: “Eu vou traduzir tudo”. E ela realmente traduziu. Eles tinham preparado uma sala de cinquenta lugares. Na hora tiveram que arrumar uma sala muito maior, porque a anterior não cabia as pessoas que queriam assistir à apresentação. Foi um marco. Foi um marco também a entrada da Ruth Cardoso na tenda da América Latina, onde o pessoal fez uma mesa linda cheia de violetas com pratos virados de boca para baixo. E o pessoal perguntava: “Qual era o significado daqueles pratos?”. Era o significado da fome na América Latina. Ela entrou com um batalhão de repórteres e no dia seguinte não havia uma palavra da visita dela, por causa dessa resposta que nós demos. Foi muito importante. Retorno ao Brasil e a luta se intensificou. Agora eu pertencia a uma Organização Internacional. Além disso, tem, agora, a OIT, que fez a [Convenção n.] 189. E tem também a última, que ainda não tive conhecimento. Estou procurando. É a que trata sobre a COVID. Eu preciso ler. Tem patrões que concordam que a empregada fique em casa e pagam. Mas não é a maioria, é um número pequeno. E tem muita gente passando muita necessidade. Tem muita gente com muitos problemas. Porque tem criança no meio. A escola não está funcionando. E aí como é que fica essa criançada? Aqui no meu quintal tem, acho, onze crianças. O meu quintal é um terreno de família. Começa em uma rua e termina na outra. Tudo está aqui. A coisa caminha desse jeito e eu preciso me inteirar um pouco mais [sobre as normas da OIT], porque a pandemia da COVID está muito séria e a gente já perdeu algumas companheiras e muitos amigos.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>É uma situação muito difícil, de fato, a que atravessamos agora. E me parece que algumas categorias sentem esses problemas de forma mais intensificada.</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Infelizmente. Deveria ser um período de união, para todo mundo dar as mãos, todo mundo estar unido. Mas não é assim. Vamos ver amanhã com a eleição municipal. Vou assistir e esperar o resultado.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Sim. Você está aqui em Nova Iguaçu há muitos anos?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Eu moro em Nova Iguaçu há sessenta anos. Só que eu morava mais no meu emprego do que aqui. Aqui eu vinha só para fazer visita. Moro na casa que era da minha avó. A minha avó era nortista, da Paraíba. Desde 1995, estou direto aqui e sou vice-presidenta do Sindicato das Empregadas Domésticas de Nova Iguaçu. Você sempre tem que lembrar de quem você é, da sua origem. Às vezes as pessoas diziam pra mim: “Olha, mas você está há 37 anos nessa casa [de empregadores], você já faz parte da família”. Eu dizia “Não, eu tenho salário, eu tenho folgas, eu tenho férias. Da família é quem entra a hora que quer, sai a hora que quer, eu preciso pedir autorização para poder sair”. Não sou da família, é uma família que quero bem, porque eu não poderia ficar em uma casa tantos anos e depois dizer que não gosto da família. Mas eu quero dizer que não podemos nos esquecer de onde viemos e para onde vamos voltar. Porque a gente não vai ficar a vida toda naquelas casas luxuosas, querendo ter o que tem lá, porque não teremos.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Nair, eu gostaria de retomar um pouco os governos Lula e Dilma e as conquistas de direitos das domésticas promovidas nesse período mais recente da história. Você tem, inclusive, uma expressão que eu gosto muito, que é a da “colcha de retalhos”</italic><xref ref-type="fn" rid="fn28"><sup>28</sup></xref><italic>...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Eu sempre disse para as pessoas que a nossa legislação, a nossa lei, é uma verdadeira “colcha de retalhos”. Ela vem de 1972, com aqueles pedacinhos. Em 2006, quando Lula era presidente da República, a gente tinha muita luta com os advogados, porque a Constituição dizia que nós tínhamos trinta dias de férias e os advogados continuavam dizendo que tínhamos vinte<xref ref-type="fn" rid="fn29"><sup>29</sup></xref>. Nós brigamos muito por isso. O Lula veio e trouxe a Lei 11.324, de 2006, retroagiu a de 1993, férias de 30 dias corridos<xref ref-type="fn" rid="fn30"><sup>30</sup></xref>. Conta sábado, domingo e feriado, mas pelo menos definiu. Foi importantíssimo para nós essa afirmação do presidente Lula. Eu acho que foi uma época que eu só queria que tivesse, ele e a Dilma, validado o FGTS. O FGTS de 2001, ainda antes de o Lula assumir, foi criado pelo FHC para domésticas, mas era facultativo<xref ref-type="fn" rid="fn31"><sup>31</sup></xref>. Isso era uma coisa que eu reclamava sempre. Como tive muita intimidade com o Lula quando ele era um operário como eu, sempre reclamava isso com ele. Infelizmente não aconteceu<xref ref-type="fn" rid="fn32"><sup>32</sup></xref>, mas foi um período bom, a gente teve muita liberdade, a gente firmou mais os nossos objetivos e a nossa vontade de que tudo que conquistamos permaneça. Hoje eu digo para as pessoas que nós, na nossa época, íamos para Brasília, de Kombi, de ônibus, hoje vai todo mundo de avião. Eu fico muito feliz porque eu ainda estou aqui vendo tudo acontecer. A Cleide Pinto, presidente do Sindicato das Domésticas de Nova Iguaçu, está se tornando uma potência, ela já fez vídeo até para a Universidade de Santa Cruz lá na Califórnia. Mas quando eu falo da “colcha de retalhos” é porque vieram pedacinhos de legislações até essa de agora, a [Convenção] 189 de Genebra. Então por isso eu quero dizer: foi luta, muitas já não estão mais aqui. Mas quem está, eu, Lenira e Eva Morais, que acompanhamos isso desde a criação das associações até o ato sindical, nós entramos no Partido dos Trabalhadores. Foi um partido que a gente lutou para que acontecesse, além de uma Central Única de Trabalhadores, da qual também fui diretora um período.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Esse é um ponto que eu gostaria de explorar um pouco mais. Como se dava a relação das domésticas com a criação das centrais?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Nós fomos fundadores da CUT. O projeto era, como o próprio nome diz, de uma Central Única dos Trabalhadores. Só que, com o passar dos anos, foram surgindo outras centrais. E eu sempre me questionava sobre o nome da CUT. A gente achava que deveria ter um outro nome. Mas a CUT é que é a nossa central. Basicamente todos os sindicatos das empregadas domésticas são filiados à CUT. Hoje, inclusive, a diretora do meu sindicato é diretora da CUT do Rio de Janeiro, a Cleide. Só tem dois sindicatos no Brasil que não se filiaram à CUT. Um é filiado à CGT, e o outro eu não sei se é filiado a alguma central. Com a CUT nós sempre tivemos um relacionamento muito bom, a gente participa de todos os seminários e congressos. Eu participei no ano passado do 13º Congresso Nacional da CUT, que foi muito interessante. E assim é o Brasil inteiro. Minas Gerais é que eu não tenho contato, a gente tem muito contato com o sindicato de Juiz de Fora, que não se tornou nunca um sindicato, continua associação profissional, mas que tem muita presença. Eles estão sempre juntos.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Se pudermos voltar à questão da criação das centrais...</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Uma pessoa que eu admirei muito é a Izabel Picaluga<xref ref-type="fn" rid="fn33"><sup>33</sup></xref>. Época da ditadura, época da criação da Central Única dos Trabalhadores. E ela estava ali como uma professora, como uma mãe, do lado da gente nos orientando “isso pode e isso não pode; isso deve e isso não deve; por favor, não deslize para vocês escorregarem e depois não conseguirem se levantar”. A Izabel Fontenelle Picaluga, a Ângela Borba<xref ref-type="fn" rid="fn34"><sup>34</sup></xref> e a Heloneida Studart<xref ref-type="fn" rid="fn35"><sup>35</sup></xref> foram pessoas que estiveram sempre nos fundamentando o que podíamos e o que não podíamos na política. Para mim, a Central Única dos Trabalhadores, com isso, deu um suporte no nosso trabalho e na nossa luta. Porém, a doméstica nunca tinha tempo para estar nas mobilizações e nas greves, porque ela nunca sai da casa do patrão. Eu dizia que enquanto uma mulher, para se promover e para se empoderar, permitir que outra mulher fique na casa para cuidar dos outros, não se tem liberdade. As feministas ficavam loucas quando eu dizia isso, mas é uma realidade. O trabalhador tem seus horários, já a doméstica trabalha cada uma em um pedaço. Não tem como recusar. Belo Horizonte nos deu uma lição que não foi copiada. Tinha um prédio em Belo Horizonte de dezesseis ou vinte andares. Um dia o elevador das domésticas enguiçou e a síndica não permitia que nenhuma empregada doméstica entrasse no elevador social. Então, algumas corajosas sentaram na portaria e não deixaram nenhuma colega subir de escada. Então a síndica desceu e perguntou: “O que é isso aqui na portaria, esse <italic>auê</italic>?”. E elas responderam: “Vai ter <italic>auê</italic>, porque ninguém vai subir pra chegar lá em cima e ter que trabalhar. E a gente já chega cansada porque leva duas horas nas conduções”. Foi muito interessante porque ela permitiu que as empregadas subissem no elevador social, mas essa coisa não pegou no Brasil, foi só lá em Belo Horizonte.</p>
		<p><bold>Revista Plural</bold> 
 <italic>Nair, e como é olhar para 2020?</italic></p>
		<p><bold>Nair Jane de Castro Lima</bold> Nessa pandemia que nós estamos, eu espero que as pessoas se fortaleçam mais. Se unam mais. Se tornem mais amigas umas das outras. E na luta por direitos, ser firme nas decisões. Hoje a gente pode e deve discutir: posições, direitos, tudo o que você quiser, dentro dos limites. Com mais conhecimento e mais sentimento de justiça.</p>
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			<title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
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				<mixed-citation>CASTRO, Mary Garcia (2020). Trabalhadoras domésticas no Brasil. Revista Princípios, São Paulo, n. 159, jul. out., p. 126-50.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
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					<article-title>Trabalhadoras domésticas no Brasil</article-title>
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					<lpage>150</lpage>
				</element-citation>
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				<mixed-citation>DAVIS, Angela (2018). A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo.</mixed-citation>
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							<given-names>Angela</given-names>
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					<year>2018</year>
					<source>A liberdade é uma luta constante</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Boitempo</publisher-name>
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				<mixed-citation>DIÁRIO DE NOTÍCIAS. As dependências incompletas de empregada. Diário de notícias, Rio de janeiro, 12/06/1973, n. 15.530, p.13.</mixed-citation>
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					<article-title>As dependências incompletas de empregada</article-title>
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				<mixed-citation>GONZÁLEZ, Lelia (2018). Primavera para as rosas negras. São Paulo: Diáspora Africana.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>JORNAL DO BRASIL. Nair Jane Lima quer que as domésticas se conscientizem da importância da carteira de trabalho assinada. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 04/06/1988, n. 57, p. 4.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>MONTERO, Isabel. Empregadas ajudam-se umas às outras. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 03/12/1971, caderno B, p.5.</mixed-citation>
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			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Várias delas estão analisadas por <xref ref-type="bibr" rid="B1">Castro (2020</xref>), autora citada na entrevista como uma das interlocutoras de Nair Jane.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Aída Valenzuela (1939-2021) foi uma dirigente sindical atuante na luta contra a ditadura chilena e no Movimento de Mulheres de Chile. Em 1988, ocupa a primeira secretaria da nascente CONLACTRAHO.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Lenira de Carvalho (1933-2021) exerceu atividade como empregada doméstica, no Recife, a partir dos 12 anos. Na década de 1960, começou a participar da Juventude Operária Católica (JOC), criando um grupo formado por trabalhadoras domésticas. Em 1979, fundou a Associação das Empregadas Domésticas do Recife.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Nota do editor: Na Plural, privilegiamos a literalidade e o uso coloquial da língua, valorizando o modo de expressão dos entrevistados. Por esse motivo, mantivemos as falas da entrevistada tal como foram transcritas pelo entrevistador.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Trata-se da primeira vez que, em entrevista, Nair recupera o nome de Teresinha Ramos.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>São escassas as referências escritas disponíveis acerca da biografia de Maria da Hora Santos Silva. Fragmentos de seu percurso foram retratados em entrevistas e por jornais impressos dos anos 1960 e 1970 (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Diário de Notícias, 1973</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">Gropper, 1971</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">Ribeiro, 1976</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Montero, 1971</xref>). Natural do estado da Bahia, atuou fortemente junto à Associação dos Empregados Domésticos do Rio de Janeiro. Em meados do ano de 1972, quando o número de filiadas da Associação girava em torno de 350, Maria da Hora, que ocupava o cargo de tesoureira, era responsável pela ministração de aulas de corte e costura e estava matriculada em curso de datilografia “para ajudar a bater os documentos da entidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Jornal do Brasil, 1972</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p>Em seu texto original, a CLT excluiu trabalhadoras domésticas de seu campo de aplicação. Em 1972, com a Lei n. 5.859, foi-lhes atribuída a condição de seguradas obrigatórias da Previdência Social, além de registro na carteira de trabalho e férias anuais remuneradas de vinte dias úteis. O Decreto n. 71.885/1973 estendeu às domésticas a aplicação do capítulo da CLT concernente às férias.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Órgão criado em 1966 como resultado da fusão dos institutos de aposentadoria e pensões então existentes.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>Agostinho Pretto (1924-2011), padre da Igreja Católica, foi uma das principais lideranças da JOC, atuando, na década de 1960, como Assessor Nacional, e depois Latinoamericano, da JOC. Em 1970, foi preso pela ditadura militar, juntamente com outros militantes da JOC.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>Desde 1966, as empregadas domésticas foram legalmente consideradas seguradas facultativas do INPS. No entanto, estavam sujeitas ao desconto de 16% do salário a título de contribuição previdenciária, o dobro descontado dos trabalhadores urbanos. Em depoimento, Maria da Hora expressa a demanda das domésticas pelo amparo da previdência social em outras bases, seja reformulando o desconto de contribuição para 8%, de modo isonômico aos empregados urbanos, seja estabelecendo a vinculação obrigatória da categoria ao INPS, repartindo-se os ônus entre empregador e empregado, à base de 8% para cada - medida esta posteriormente prevista pela Lei n. 5.859, de dezembro de 1972 (<xref ref-type="bibr" rid="B7">JORNAL DO BRASIL, 1972</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>Participou da fundação da Associação dos Empregados Domésticos do Rio de Janeiro, registrada em 1963. Em 1989, atuou como fundadora do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do município do Rio de Janeiro, tendo sido uma de suas presidentas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>Presidiu a Associação Profissional dos Empregados Domésticos do Rio de Janeiro e foi uma das fundadoras do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do município do Rio de Janeiro. Nos anos 2000, graduou-se em Pedagogia e em Serviço Social.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>13</label>
				<p>Socióloga e cientista política, foi presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (1986-1989). Nesta condição, atuou na composição e no movimento político reivindicatório expresso na “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes”, entregue à Assembleia Constituinte em março de 1987.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>14</label>
				<p>Advogada brasileira, atualmente coordenadora executiva da CEPIA.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>15</label>
				<p>Feminista e professora universitária, na década de 1970 engajou-se como militante do movimento de mulheres, sendo uma das fundadoras do Centro da Mulher Brasileira.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>16</label>
				<p>Atuou como promotora de justiça do estado do Rio de Janeiro. Posteriormente, presidiu o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro, em 1987, e, mais tarde, em 1992, assumiu a direção regional para o Brasil e Cone Sul do UNIFEM.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>17</label>
				<p>Com sede no Rio de Janeiro, Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (CEPIA) é uma organização, sem fins lucrativos, fundada em 1990 e voltada para a efetivação dos direitos humanos e para o fortalecimento da cidadania de segmentos historicamente excluídos, como as mulheres em sua diversidade.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>18</label>
				<p>À época, exercia mandato de deputada federal constituinte pelo Partido dos Trabalhadores (PT), eleita em 1986, tendo por agenda substancial a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para mulheres, a igualdade racial e as questões relativas às condições de trabalho das domésticas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>19</label>
				<p>Iniciou sua carreira política em novembro de 1986, elegendo-se deputada federal constituinte pelo estado do Rio de Janeiro.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>20</label>
				<p>Isabel Cleto de Souza foi presidenta da Associação Profissional dos Empregados Domésticos do Estado de São Paulo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn21">
				<label>21</label>
				<p>Atuou como liderança sindical no Rio Grande do Sul.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn22">
				<label>22</label>
				<p>Fundada em 1988, a Confederação agrupa diversas entidades de trabalhadoras domésticas da América Latina e do Caribe. Do secretariado a que faz menção Nair Jane, participaram, além dela, Jenny Hurtado, da Colômbia, Adelinda Díaz, do Peru, e Aída Moreno, do Chile.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn23">
				<label>23</label>
				<p>Odete Azevedo Soares foi assistente social e colaboradora do movimento sindical das trabalhadoras domésticas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn24">
				<label>24</label>
				<p>Foi uma das fundadoras da Associação Profissional das Domésticas da Bahia nos anos 1980 e, em maio de 1990, do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia, do qual foi a primeira presidenta.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn25">
				<label>25</label>
				<p>Encontro organizado pelas Nações Unidas em setembro de 1995.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn26">
				<label>26</label>
				<p>Ruth Cardoso (1930-2008) foi antropóloga e professora universitária. Casada com Fernando Henrique Cardoso, tentou ressignificar o papel tradicionalmente atribuído às esposas de presidentes da República durante os mandatos de FHC (1995-2003). Engajou-se no Programa Comunidade Solidária desde 1995.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn27">
				<label>27</label>
				<p>Socióloga brasileira, é professora aposentada da UFBA.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn28">
				<label>28</label>
				<p>A expressão foi utilizada por Nair Jane quando de sua entrevista ao CPDOC/FGV, em agosto de 2017. Para ela, “agora mesmo, eu digo que quando completou a <italic>colcha de retalho</italic>, porque eu digo que a lei das domésticas é uma <italic>colcha de retalho</italic>, que todo mundo passou a ter todos os direitos” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Lima, 2017</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn29">
				<label>29</label>
				<p>Embora a Constituição de 1988 tenha garantido a trabalhadores urbanos, rurais e domésticos férias anuais, sem fazer distinções, o Tribunal Superior do Trabalho não reconhecia a equiparação quanto ao número de dias. Apoiado na Lei n. 5.859/1972, o TST reconhecia às empregadas domésticas vinte dias úteis, e não os trinta dias corridos previstos na CLT. Apenas após o advento da Lei Complementar n. 150/2015 passou a jurisprudência nacional a deferir o direito a trinta dias de férias para as empregadas domésticas.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn30">
				<label>30</label>
				<p>Com a entrada em vigor da Lei, em julho de 2006, as empregadas domésticas passaram a ter direito a trinta dias de férias após cada período de doze meses de trabalho.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn31">
				<label>31</label>
				<p>A Lei n. 10.208/2001 passou a prever ser facultada a inclusão do empregado doméstico no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mediante requerimento do empregador. A obrigatoriedade, como deixa claro o depoimento de Nair Jane, foi uma pauta de luta do movimento sindical, bastante acentuada nos anos subsequentes ao da edição da Lei de 2001.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn32">
				<label>32</label>
				<p>Só aconteceria durante o governo Dilma Rousseff, quando, por meio da Lei Complementar n. 150/2015, tornou-se o recolhimento do FGTS das trabalhadoras domésticas obrigatório a partir de outubro de 2015.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn33">
				<label>33</label>
				<p>Izabel Fontenelle Picaluga (1932-1992), foi uma socióloga e dirigente da CUT do Rio de Janeiro.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn34">
				<label>34</label>
				<p>Ângela Borba (1953-1999) foi uma historiadora, política e ativista feminista brasileira. Em 1986, foi indicada membro do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Estado do Rio de Janeiro, na gestão de Branca Moreira Alves.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn35">
				<label>35</label>
				<p>Jornalista, política e feminista, Heloneida Studart (1925-2007) foi eleita presidente do Sindicato das Entidades Culturais (1966). Oposição ao regime militar, foi destituída do cargo e presa em março de 1969, ano em que publicou <italic>Mulher, objeto de cama e mesa</italic>. No período da Constituinte de 1987, participou do <italic>Lobby do batom</italic>.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
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