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				<journal-title>Psicologia USP</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. USP</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0103-6564</issn>
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				<publisher-name>Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0103-6564e190106</article-id>
			<article-id pub-id-type="other">00212</article-id>
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					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>Quem é o “cidadão de bem”?</article-title>
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					<trans-title>¿Quién es el “ciudadano de bien”?</trans-title>
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					<trans-title>Qui est le “bon citoyen”?</trans-title>
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						<surname>Costa</surname>
						<given-names>José Fernando Andrade</given-names>
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				<institution content-type="original">Universidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Ciências Humanas e Filosofia, Feira de Santana, BA, Brasil</institution>
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					<label>*</label>Endereço para correspondência: <email>jfacosta@uefs.br</email>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A figura do chamado “cidadão de bem” constitui um tipo de estratégia discursiva ideológica e expressa uma patologia social da cidadania brasileira. O objetivo deste ensaio é submeter essa figura a uma análise crítica de seus pressupostos discursivos, históricos, morais e políticos. Para tanto, recorremos ao modelo de crítica imanente da ideologia proposto por Rahel Jaeggi. Identificamos contradições e problemas decorrentes do uso retórico da figura do “cidadão de bem” relacionadas: ao apelo punitivista e por armas de fogo para civis; às representações ideológicas de gênero, raça e classe; à função social da mídia; e ao neoconservadorismo político. A contradição fundamental do “cidadão de bem” não é em relação à figura do “bandido” ou “vagabundo”, mas ao próprio ideal de universalização da cidadania. Enquanto expressão da ideologia, o “cidadão de bem” se revela um verdadeiro anticidadão e, portanto, um risco para a democracia.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title><italic>Resumen</italic></title>
				<p>La figura del llamado “ciudadano de bien” constituye un tipo de estrategia discursiva ideológica y expresa una patología social de la ciudadanía en Brasil. El objetivo de este ensayo es analizar críticamente los presupuestos discursivos, históricos, morales y políticos de esta figura. Para ello, se utiliza el modelo de crítica inmanente de la ideología propuesto por Rahel Jaeggi. Se identificaron contradicciones y problemas derivados del uso retórico de la figura del “ciudadano de bien” relacionadas a: la demanda punitivista y por armas de fuego para civiles; las representaciones ideológicas de género, raza y clase; la función social de los medios de comunicación; y el neoconservadurismo político. La contradicción fundamental del “ciudadano de bien” no es en relación a la figura del “bandido” o del “vagabundo”, sino al propio ideal de universalización de la ciudadanía. Mientras una expresión de la ideología, el “ciudadano de bien” se revela un verdadero anticiudadano y, por lo tanto, un riesgo para la democracia.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title><italic>Résumé</italic></title>
				<p>L’expression « bon citoyen » constitue une stratégie discursive idéologique et traduit une pathologie sociale de la citoyenneté brésilienne. Cet essai vise à soumettre cette figure à une analyse critique de ses aspects discursifs, historiques, moraux et politiques. Pour ce faire, nous recourrons au modèle de critique immanente de l’idéologie proposée par Rahel Jaeggi. Nous avons identifié les contradictions et les problèmes découlant de l’utilisation rhétorique de la figure du « bon citoyen » en rapport avec : l’appel à la punition et aux armes à feu pour les civils ; les représentations idéologiques du genre, de la race et de la classe ; la fonction sociale des médias ; et le néoconservatisme politique. La contradiction fondamentale du « bon citoyen » n’est pas liée à la figure du « bandit » ou du « clochard », mais à l’idéal même de la citoyenneté universelle. En tant qu’expression d’une idéologie, le « bon citoyen » se révèle être un véritable anti-citoyen et, par conséquent, un risque pour la démocratie.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>cidadania</kwd>
				<kwd>ideologia</kwd>
				<kwd>direitos humanos</kwd>
				<kwd>psicologia social</kwd>
				<kwd>teoria crítica</kwd>
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				<title><italic>Palabras clave:</italic></title>
				<kwd>ciudadanía</kwd>
				<kwd>ideología</kwd>
				<kwd>derechos humanos</kwd>
				<kwd>psicología social</kwd>
				<kwd>teoría crítica</kwd>
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				<title><italic>Mots-clés:</italic></title>
				<kwd>citoyenneté</kwd>
				<kwd>idéologie</kwd>
				<kwd>droits de l’homme</kwd>
				<kwd>psychologie sociale</kwd>
				<kwd>théorie critique</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Quem é o “cidadão de bem”? Como explicar essa figura cada vez mais presente no debate público brasileiro? Quando e por que surge a necessidade de adjetivar moralmente o <italic>status</italic> de cidadania? Quais as implicações sociais e políticas desse discurso? Trata-se de um tipo de sujeito honesto, que zela pela defesa de sua família e dos valores e costumes tradicionais? Ou seria um tipo moralista, reacionário e demagógico? Afinal, o que está em jogo quando se evoca a figura do “cidadão de bem” na esfera pública brasileira?</p>
			<p>Para responder essas perguntas, devemos considerar a figura do “cidadão de bem” como um tipo de estratégia discursiva ideológica (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Montero, 2006</xref>) que expressa uma patologia social da cidadania brasileira. O objetivo deste ensaio consiste em submeter essa figura a uma análise crítica de seus pressupostos discursivos, históricos, morais e políticos. Visamos, com isso, criticar a condição de cidadania fraturada existente entre nós, bem como superar as críticas superficiais e imediatas que reduzem o “cidadão de bem” a um falso moralismo.</p>
			<p>Enquanto expressão da ideologia, consideramos a figura do “cidadão de bem” como parte de um sistema de convencimento que tem consequências práticas, ou seja, como resultado efetivo de uma práxis psicossocial historicamente determinada. Nesse sentido, para criticar o discurso da ideologia, não basta apresentar um contradiscurso formal, produzido desde o exterior, mas é necessário proceder à elaboração de um discurso negativo a partir de seu interior de modo a “ultrapassar uma atitude meramente dicotômica rumo a uma atitude teórica realmente dialética, encontrando uma via pela qual a contradição interna ao discurso ideológico o faça explodir” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Chauí, 1989</xref>, p. 22).</p>
			<p>Como veremos, há uma contradição fundamental entre a afirmação da cidadania e o uso retórico da figura do “cidadão de bem”. Enquanto a noção moderna de cidadania exige a generalização de determinado status político (“cidadão”), a complementação retórica (“de bem”) supõe uma hierarquia moral que, necessariamente, nega a normatividade primária da universalização dos direitos de cidadania. Assim, ao assumirmos aqui a perspectiva crítica da ideologia, visamos não apenas criticar determinado conjunto de ideias, tais como o “cidadão de bem” e suas características morais e políticas, mas procuramos também decifrar as circunstâncias que permitem que a dominação política se imponha e permaneça nas relações sociais cotidianas a partir de discursos ideológicos.</p>
			<p>Visamos contribuir para a consolidação de uma agenda de estudos sobre a atual crise social e política brasileira. Nesse cenário, nossa crítica incidirá sobre uma expressão de patologia social da cidadania que ameaça a efetivação da democracia enquanto forma de vida ética no Brasil.</p>
			<p>Para tanto, recorremos aqui ao modelo de <italic>crítica imanente</italic> proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B13">Rahel Jaeggi (2008</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B14">2017</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B15">2018</xref>) como fundamentação teórica para análise-crítica da figura do “cidadão de bem”. Nessa perspectiva, a tarefa da crítica não é descrever ou reabilitar potenciais contidos, mas não realizados em determinada formação social. Trata-se, sobretudo, de analisar e criticar, em um mesmo movimento, o “funcionamento disfuncional” do discurso ideológico. Em outras palavras, significa considerar que a peculiaridade do discurso ideológico reside em um tipo especial de relação entre normas e realidade, na qual ambas se apresentam como equívocas <italic>em si</italic>, ou seja, indicam um processo no qual as normas são eficazes, mas, como eficazes, elas se tornam realmente contraditórias ou deficitárias (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi, 2008</xref>).</p>
			<p>A crítica imanente tem vantagem sobre os modelos reconstrutivos de crítica social por não se limitar a redimir ou reabilitar potenciais normativos existentes, mas por buscar a <italic>transformação</italic> das condições existentes a partir da dinâmica das contradições do objeto criticado (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Repa, 2016</xref>). Desse modo, ao elegermos a figura do “cidadão de bem” como objeto de nossa crítica, buscamos contribuir tanto para questionar nossa autocompreensão sobre o ideal normativo da cidadania entre nós quanto para estimular o debate público sobre as possibilidades de realização prática da lógica dos direitos na sociedade brasileira.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>Crítica imanente</title>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B13">Rahel Jaeggi (2008</xref>), quatro aspectos caracterizam metodologicamente a crítica da ideologia: (1) trata-se de uma abordagem profunda e <italic>crítica da dominação</italic>; (2) toma como ponto de partida as <italic>contradições internas</italic> ou <italic>autocontradições</italic> de uma situação dada; (3) repousa sempre sobre uma espécie de <italic>hermenêutica da suspeita</italic>; (4) seu procedimento característico é a <italic>relação entre análise e crítica</italic>, ou seja, a análise é instrumento da crítica, e não algo separado. A essas características a autora acrescenta um quinto aspecto que consideramos essencial: mais do que um modelo de crítica reconstrutiva, a crítica da ideologia, enquanto <italic>crítica imanente,</italic> também deve ser <italic>transformadora</italic>. Isso significa que, para essa autora, a crítica imanente da ideologia difere de outros modelos de crítica social na medida em que não visa à “diluição” da realidade com base em critérios normativos externos, mas se desenvolve a partir da “superação reabilitadora” dos aspectos deficitários presentes tanto na realidade quanto nas normas. Assim, a crítica da ideologia não está ancorada em algum lugar “fora” da relação de obliteração da realidade criticada como ideológica, mas, pelo contrário, ela “é a instância que nos confronta com os problemas e as contradições dessa realidade social de um modo tal, que ela seja simultaneamente, também o fermento de sua transformação” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi, 2008</xref>, p. 163).</p>
			<p>O critério normativo da crítica imanente se encontra no próprio processo de crise do objeto criticado, isto é, em seus problemas e contradições. Problemas e contradições, no sentido hegeliano, constituem a força propulsora da história e, portanto, referem-se a crises imanentes à realidade social. Para <xref ref-type="bibr" rid="B14">Jaeggi (2017</xref>), tais crises não são puramente funcionais, mas incluem tanto as expectativas normativas quanto o autoesclarecimento de uma formação social, de modo que as crises e contradições não são apenas possibilidade de erosão dessa formação social, mas também a força construtiva que dialeticamente a supera e a conserva (<italic>aufhebung</italic>). Não se trata, portanto, de criticar uma falsa representação da realidade com base em critérios normativos externos ou de denunciar a não realização das normas em determinadas práticas sociais (por exemplo: a cidadania não realizada no discurso do “cidadão de bem”). Trata-se de ir além da discrepância entre normas e práticas a partir da análise da interdependência entre ambas, ou seja, do fato de que, se a norma não é realizada em determinada prática, isso revela uma relação deficitária não apenas da prática, mas também das normas. É nesse sentido que a crítica imanente funciona, então, como “fermento” da transformação tanto das práticas quanto dos próprios anseios normativos<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>.</p>
			<p>Interessa-nos aqui, sobretudo, o aspecto que Jaeggi denomina de “funcional-ético” em seu modelo de crítica imanente, isto é, o fato de levar em consideração tanto as tendências de crise da realidade social quanto os sentidos da emancipação nela contidos. Desse modo, podemos submeter a figura do “cidadão de bem” a um procedimento simultaneamente analítico e crítico. Esse é o aspecto decisivo: não se trata apenas de mostrar que a figura do “cidadão de bem” é constituída pelo equívoco, mas também de apontar a crise imanente da cidadania brasileira que o conforma. Assim, não está em jogo uma mera “correção” sintática e semântica da figura do “cidadão de bem”, mas a possibilidade de mostrar que em seu enunciado já está contida a chance de <italic>regressão</italic> e esfacelamento real das promessas da cidadania, assim como, negativamente, pela via da crítica, podemos encontrar o potencial de <italic>progresso normativo</italic> contido nos anseios emancipatórios da implementação da lógica dos direitos como forma de vida democrática.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>“Cidadão de bem” como figura de linguagem</title>
			<p>Para evitar algumas confusões, é necessário definir o sentido do uso da expressão “cidadão de bem” neste artigo. Entendemos que estamos tratando de um problema que concerne à realidade social brasileira e que, por isso, não deve ser confundido com os estudos sobre o “bom cidadão” (<italic>the good citizen</italic>, <italic>el buen ciudadano</italic> ou <italic>il bon citoyen</italic>). A noção de “bom cidadão” tem sido bastante utilizada em diversos países, principalmente no campo da educação para a cidadania (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Abs, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Burtt, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">Pykett, Saward, &amp; Schaefer, 2010</xref>). A diferença, portanto, não é meramente semântica, mas decorre da própria natureza do objeto. Por exemplo, a formulação <italic>the good citizen</italic>, que intitulava um panfleto da Ku Klux Klan entre 1913 e 1933, diz respeito a um fenômeno bastante diferente em relação àquela empregada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no final do século XX. Os “bons cidadãos” da Klan eram fanáticos religiosos adeptos a práticas racistas e xenofóbicas de extrema violência (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Neal, 2009</xref>). Já para o paradigma da educação cívica da Unesco, “bons cidadãos” são aqueles formados para serem esclarecidos e conscientes das questões humanas e políticas em jogo em sua sociedade, desenvolvendo o respeito pelos outros e reconhecendo a equidade entre todos os seres humanos” (<xref ref-type="bibr" rid="B31">United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 1998</xref>). Nenhum dos dois casos corresponde à figura do “cidadão de bem” brasileiro, ainda que, como veremos, o sentido empregado pela Klan lhe seja mais próximo do que o empregado pela Unesco.</p>
			<p>As aspas (“cidadão de bem”) são utilizadas para enfatizar a contiguidade sintática dos termos dessa expressão, o que também poderia ser representado por cidadão-de-bem. No entanto esta última formulação pode induzir a uma substantivação da expressão. Evitamos também usar aspas apenas no qualificativo “de bem”, pois consideramos fundamental ressaltar o modo específico como a noção de cidadania é ideologicamente empregada, o que não acontece com outras expressões moralistas, tais como: homens “de bem”, mulheres “de bem”, pessoas “de bens” etc.</p>
			<p>Para fazer a crítica do “cidadão de bem”, é necessário tomá-lo como uma <italic>figura de linguagem</italic> em vez de conceito. Isso significa que não se trata de buscar a definição precisa de um sujeito concreto, mas de destacar o uso retórico dessa expressão enquanto estratégia discursiva ideológica que tem consequências práticas nas relações de interação comunicativas. Assim, a figura do “cidadão de bem” pode ser considerada um tipo de silepse, pois indica concordância irregular na medida em que introduz uma contradição lógica fundamental (entre a ideia generalizante de “cidadão” e o aspecto restritivo indicado pelo complemento moral “de bem”) e, ao mesmo tempo, se sustenta comunicativamente pela mobilização implícita de relações sociais concretas de cidadania e subcidadania.</p>
			<p>A figura do “cidadão de bem” se erige essencialmente sobre a dicotomia “cidadão de bem” <italic>versus</italic> “bandido” ou “cidadão de bem” <italic>versus</italic> “vagabundo”. Essas dicotomias refletem o poder da ideologia em relações concretas da sociedade brasileira, dificultando que essa separação seja cognitivamente articulada como um contrassenso, na medida em que restringiria a cidadania apenas a determinados tipos de sujeitos considerados, de forma extremamente vaga, os “de bem”. A força da ideologia se revela também quando constatamos que se, por um lado, não conseguiremos encontrar um único sujeito concreto que possa ser adequadamente definido como um “cidadão de bem”, por outro, enquanto fenômeno de massa, milhares de indivíduos podem se identificar com essa figura. Isso ocorre porque ela mobiliza diretamente a efetiva tensão existente entre a condição formal da cidadania legal e a hierarquia moral das relações sociais ordinárias, já verificada em diversos estudos sobre a configuração da cidadania no Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Silva, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B30">Souza, 2012</xref>).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>A gênese do “cidadão de bem”</title>
			<p>A figura do “cidadão de bem” tem sido cada vez mais comum tanto na linguagem cotidiana quanto nos estudos sobre a situação social e política do Brasil neste início de século XXI. Entretanto, convém questionar quando essa figura adquire o status de uma asserção logicamente aceita, isto é, como se torna válida em determinado regime de verdade.</p>
			<p>Quando buscamos conhecer a gênese da figura do “cidadão de bem” tomando como indicadores referências bibliográficas como artigos de jornal e artigos publicados em revistas científicas das humanidades, percebemos que o uso dessa expressão tem sido crescente na última década. De modo geral, a expressão aparece relacionada à redução da idade penal (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Azevedo, Alberto, &amp; Amorim, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Resende, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Silva &amp; Hüning, 2015</xref>), à posse de armas de fogo (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Espíndula, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos, 2012</xref>), à ação da Polícia Militar (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barbosa &amp; Sá, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Bueno, Lima, &amp; Teixeira, 2016</xref>) e à função social da mídia (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Pinto, 2017</xref>).</p>
			<p>Podemos perceber que o uso da figura do “cidadão de bem” na sociedade brasileira passa a ser difundido na última década do século XX e no início do século XXI, principalmente via mídias digitais. Nesse período, os anseios pela efetivação dos direitos de cidadania que foram prometidos pela “Constituição Cidadã” de 1988 favoreceram o surgimento da figura do sujeito de direitos, isto é, uma identificação crescente com a ideia de que cada pessoa é cidadã e pode reivindicar no espaço público o reconhecimento legítimo de seu status enquanto tal. Esse processo de aprendizado calcado no léxico dos direitos subjetivos foi acompanhado pela integração social via consumo e pelo interesse crescente nos chamados “direitos difusos”, especialmente os chamados “direitos de consumidor”. Contudo, em um contexto marcado por profunda desigualdade e no qual não há elaboração do passado, a realização do ideal normativo de cidadania nessas condições ocorre apenas de forma deficitária, pois a lógica generalizante dos direitos não chega nunca a constituir, de fato, uma forma de vida democrática e inclusiva. Sorrateiramente surge, então, a figura do “cidadão de bem” como expressão ideológica de uma cidadania prometida, mas que nunca se efetiva plenamente. Nesse sentido,</p>
			<disp-quote>
				<p>o cidadão de bem é aquele que merece a cidadania, a política pública, o tratamento educado do policial, o que tem o direito de participar. Aquele que não faz parte dessa categoria representa um elemento perigoso, que vem de espaços marginais, polui e contamina... O cidadão de bem seria a tradução, pós-crises econômicas da década de 1980, da categoria “trabalhador”... Se, nos anos 1980, vigorava o binômio “trabalhador” x “vagabundo”, agora temos o “cidadão de bem” x “vagabundo”, numa atualização dessas categorias frente às transformações socioeconômicas e demográficas vivenciadas pela população brasileira nas últimas décadas. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Bueno et al., 2016</xref>, p. 348)</p>
			</disp-quote>
			<p>Isso significa que, a partir da redemocratização e, principalmente, a partir de meados dos anos 2000, ocorre um processo de substituição da categoria “trabalhador honesto” para o “cidadão de bem”. Nesse processo, a nova categoria dilui a distância existente entre trabalhadores explorados, classe média privilegiada e patronato. Todos agora podem se identificar com essa categoria homogeneizante e enigmática que é o “cidadão de bem”. Todos, exceto aqueles que são classificados como “vagabundos” ou “bandidos”. Aqui, a figura do “cidadão de bem” opera no plano discursivo como delimitador moral de relações objetivas de segregação social e de violências policiais (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Azevedo et al., 2017</xref>). Isso também se reflete na aceitação pública da violência e humilhação praticadas contra aqueles corpos que são considerados “suspeitos”, isto é, geralmente os corpos dos jovens negros e pobres das periferias (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Azevedo et al., 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Barbosa &amp; Sá, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Silva &amp; Hüning, 2015</xref>).</p>
			<p>Tal violência opera a partir de um saber discriminador que pressupõe a classificação arbitrária entre quem é considerado “cidadão” e quem é considerado “inimigo”. Desse modo, em meio ao grande entusiasmo com a cidadania e esperança de efetiva redemocratização do Estado brasileiro, desde o final dos anos 1980, a violência institucional encontrou na figura do “cidadão de bem” um poderoso ponto de ancoramento e sobrevivência. Contraditoriamente, o ideal normativo da cidadania é discursivamente afirmado ao mesmo tempo em que permanece sendo negado no cotidiano em práticas de violência e segregação social ordinária (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Souza, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B28">Silva, 2010</xref>).</p>
			<p>Os efeitos perniciosos e permanentes dessa fratura social ou desse “funcionamento-disfuncional” da cidadania se tornam ainda mais explícitos no que diz respeito à forma peculiar de articulação pública da universalidade dos direitos humanos. Frases tais como “<italic>direitos humanos para humanos direitos</italic>”, “<italic>direitos dos manos</italic>”, “<italic>bandido bom é bandido morto</italic>”, “<italic>o cidadão de bem está preso em sua casa enquanto os bandidos estão soltos</italic>”, “<italic>CPF cancelado</italic>”, entre outras, são exemplos de como a violência perpassa o cotidiano e ganha eficácia simbólica a partir da dicotomia “cidadãos de bem” e “vagabundos”/“bandidos”. São expressões dessa violência o punitivismo, os linchamentos públicos, a conivência com as operações policiais homicidas e o forte apelo por armas de fogo para civis.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>“Cidadãos de bem” com armas</title>
			<p>A figura do “cidadão de bem” se tornou forte o suficiente para legitimar decisões institucionais, como os anseios pela liberação de posse e porte de armas de fogo para civis. Assim, mesmo o Brasil apresentando elevados índices de violência endêmica, o discurso armamentista baseado na figura do “cidadão de bem” ganhou eco em autoridades públicas (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Espíndula, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos, 2012</xref>). Como efeito disso, a facilitação ao acesso às armas foi a plataforma de campanha presidencial vitoriosa em 2018. Como prioridade administrativa do governo ultradireitista eleito, o discurso ideológico do “cidadão de bem” serviu não apenas para legitimar a facilitação no acesso às armas, mas também para advogar contra a suposta ineficiência dos governos precedentes. Como afirmou o então ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni:</p>
			<disp-quote>
				<p>A população, por ampla maioria, exigiu o direito à legítima defesa. Mas eles nunca aceitaram o resultado<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>... Foi o que fizeram todos os governos que se sucederam. Não apenas desrespeitaram a vontade da maioria da população manifestada nas urnas como tentaram sucessivamente restringir um direito legítimo. <italic>Ao mesmo tempo em que deixavam o cidadão de bem desprotegido, davam segurança à bandidagem</italic>, como se em cada porta de casa, de comércio, de uma propriedade rural, tivesse uma placa “pode entrar, estamos desarmados”... Aos poucos, vamos corrigir esse erro proposital. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lorenzoni, 2019</xref>, grifos nossos)</p>
			</disp-quote>
			<p>Nessa passagem fica evidente a força política da figura do “cidadão de bem” baseada na dicotomia entre “cidadão de bem” e “bandidagem”. O ministro procura justificar a facilitação da posse de armas de fogo com o argumento de que se trata de uma medida de segurança para a população. Ao mesmo tempo em que esse discurso busca legitimidade na “vontade da maioria” colocada fora de contexto, ele oculta as evidências científicas bastante difundidas de que o acréscimo de armas de fogo implica mais mortes e insegurança (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Cabette-Fábio, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Yablon, 2017</xref>). Não obstante, a figura do “cidadão de bem” é, nesse caso, utilizada como verniz retórico de uma medida que tende a favorecer, como veremos a seguir, apenas os segmentos já privilegiados da sociedade - homens brancos e de classe média-alta - e a provocar o aumento da violência contra os segmentos mais vulneráveis - mulheres, pessoas LGBT, pessoas negras e pobres.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>Representações de gênero, raça e classe</title>
			<p>O recente afã institucional pela liberação de armas de fogo para civis revela, como mostra <xref ref-type="bibr" rid="B26">Rita Santos (2012</xref>), que a construção da figura do “cidadão de bem” no debate público está ancorada em representações de gênero tradicionais, aquelas que ressoam no imaginário social em determinadas expectativas de conduta de homens e mulheres quanto à violência, ao porte de armas e à legítima defesa. Nesse sentido, a masculinidade do “cidadão de bem” parece depender da arma como um componente simbólico que viria a redimir qualquer sentimento de impotência diante do mundo social visto como ameaçador. Inversamente, a construção da feminilidade estaria associada à idealização das mulheres como seres dóceis e indefesos perante a violência impetrada por “bandidos” e, por isso, a segurança dessas frágeis mulheres idealizadas dependeria da posse de armas de fogo pelos “cidadãos de bem”.</p>
			<disp-quote>
				<p>Segundo estes discursos, os “cidadãos de bem” são “bons pais, chefes e maridos”, para os quais é importante proteger as suas famílias e propriedades e fazer face aos “bandidos”. Neste sentido, a vontade de estarem armados e de terem a possibilidade de se defenderem é apresentada como um sinal de coragem, heroicidade, moralidade e respeito pela lei e ordem, o que os distingue dos “bandidos”, que são associados à recusa das regras e ao prazer pela violência sem sentido. A masculinidade é, assim, central nas duas construções, uma vez que o “cidadão de bem” e o “bandido” são literalmente masculinos. (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos, 2012</xref>, p. 155)</p>
			</disp-quote>
			<p>Também os marcadores de raça e classe são reforçadores do discurso belicista em torno da figura do “cidadão de bem”. Isso ocorre porque a representação da violência (tida como unilateral) dos “bandidos” é sempre associada aos estratos soc`iais mais marginalizados, principalmente à juventude pobre, negra e periférica. Como argumenta <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos (2012</xref>), a despeito de a maioria das vítimas da violência armada no Brasil ser esses jovens negros das periferias, a narrativa da legítima defesa é produzida por homens brancos de classe média-alta que se imaginam como prováveis vítimas de “crimes violentos contra a propriedade e, em menor grau, crimes contra pessoas” (p. 157).</p>
			<p>Como se pode observar, a análise crítica da figura do “cidadão de bem” apresenta importantes elementos para o debate sobre a efetivação da democracia no Brasil. A força prática dessa figura parece advir precisamente do ocultamento de relações sociais concretas e conflituosas, enquanto a ideia de cidadania em si é ideologicamente preservada, conferindo a impressão de regularidade social e bom funcionamento das instituições e práticas sociais. A fratura social constitutiva das intensas desigualdades de gênero, raça e classe no Brasil não chega a ser cognitivamente articulada em um debate público amplo e racional pela via do déficit de cidadanização. Assim, a figura do “cidadão de bem”, enquanto estratégia discursiva ideológica, contribui decisivamente para a manutenção do <italic>status quo</italic> na medida em que sua afirmação ordinária oculta relações de dominação bastante concretas, históricas e estruturais.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>“Cidadão de bem” contra a cidadania</title>
			<p>Como e por que a figura do “cidadão de bem” se tornou mote de um discurso ideológico cada vez mais frequente? Para explicar essa questão, temos que confrontar a figura do “cidadão de bem” com a ideia que lhe confere um ar de plausibilidade e que se encontra em sua raiz: a ideia de <italic>cidadania</italic>.</p>
			<p>Em termos gerais, a noção moderna de cidadania diz respeito à condição ou status dos sujeitos (cidadãos e cidadãs) como membros efetivos de uma comunidade política. Isso supõe uma adscrição social que lhes confere determinados direitos e deveres, liberdades e restrições, poderes e responsabilidades. Não pode haver restrição particularista no discurso da cidadania enquanto tal, pois sua realização depende da generalização desse status primário. Nele não está incluído o conteúdo dos direitos, mas sua função enquanto princípio regulador da integração das sociedades modernas. É por isso que, para teóricos clássicos da cidadania como <xref ref-type="bibr" rid="B17">Thomas H. Marshall (1967</xref>), por exemplo, as desigualdades de classe social e outras diferenças seriam toleráveis desde que não houvesse desigualdade quanto ao status de cidadania. Assim, sob o império da preservação institucional dos direitos civis, políticos e sociais garantidos, determinada formação social teria assegurado para si um efetivo grau de democratização inclusiva, na qual as diferenças seriam processadas sob o domínio protetivo dos direitos.</p>
			<p>No entanto, a cidadania só pode se realizar como experiência social na medida em que a lógica da generalização e proteção dos direitos subjetivos se tornar uma medida normativa nas relações cotidianas. É necessário o reconhecimento ordinário da legitimidade da lógica dos direitos - e de sua correspondente generalização entre os membros da comunidade política - para que se possa falar em efetivação do status de cidadania enquanto norma reguladora das práticas sociais.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B11">Costa e Galeão-Silva (2018</xref>) descrevem três dimensões fundamentais da concepção moderna de cidadania: legal, política e identitária. Na dimensão legal (ou institucional) situam-se as instituições e o estatuto propriamente jurídico dos direitos civis, políticos e sociais; na dimensão política (ou ativa) da cidadania estão as práticas de mobilização e luta dos movimentos e coletivos sociais pela efetivação, criação e ampliação dos direitos; e na dimensão identitária (ou psicológica) da cidadania encontram-se o senso de pertencimento e o grau de reconhecimento social recebido por cidadãos e cidadãs em termos de equidade e respeito à diferença. Assim, os anseios pela efetivação prática da cidadania em uma sociedade indicam um horizonte normativo baseado no ideal moderno de generalização da dignidade humana e do respeito à autenticidade, na medida em que a lógica dos direitos opera como um <italic>medium</italic> entre as pretensões de reconhecimento do mundo da vida e os processos sistêmicos de juridificação. De fato, isso foi observado no texto da Constituição Federal de 1988, que estabelece em seu artigo primeiro a cidadania e a dignidade da pessoa humana como fundamentos do Estado democrático de direito no Brasil. Evidentemente, a história mostra que isso não significou necessariamente a concretização de práticas sociais de generalização da cidadania e do respeito à dignidade humana desde então.</p>
			<p>Em meio às dificuldades de explicar as características da “cidadania à brasileira”, a figura do “cidadão de bem” ganhou terreno precisamente na retórica da <italic>promessa da cidadania</italic>. Esse “cidadão” adjetivado retira sua eficácia simbólica de processos de dominação arraigados, mas em sua própria enunciação mantém um aspecto de possível realização da cidadania (para alguns) ocultando, assim, a efetiva não realização da cidadania (para todos e todas).</p>
			<p>No plano discursivo, as tentativas de argumentação formuladas a partir da figura do “cidadão de bem” incorrem sempre em falácias. Revelam, portanto, o erro de raciocínio (nem sempre evidente) contido na enunciação da figura do “cidadão de bem” em tentativas efetivas de argumentação, uma vez que um argumento é falacioso quando recorre a premissas insustentáveis. Isso ocorre sempre que a figura do “cidadão de bem” é utilizada como um argumento positivo em uma enunciação que visa justificar racionalmente uma desigualdade ou a violência e segregação social cotidiana. São exemplos desse procedimento frases como: “<italic>o cidadão de bem está preso em casa, enquanto os bandidos estão soltos</italic>”, “<italic>o pessoal dos direitos humanos não quer saber da família do cidadão de bem</italic>”, “<italic>o governo desarmou o cidadão de bem, mas protegeu a bandidagem</italic>”, “<italic>se fosse um cidadão de bem, não teria sido abordado pela polícia</italic>”. Em todas essas afirmações, o aspecto falacioso consiste em inventar e pressupor um cidadão superior, moralmente mais elevado, com mais direitos e, portanto, negar o próprio cerne da cidadania, que consiste na generalização de um status comum. Em vez de afirmar a cidadania, revela a existência do anticidadão.</p>
			<p>A marca distintiva da enunciação do “cidadão de bem” é o equívoco. Mas podemos perguntar: por que tal equívoco se mantém e inclusive tem se fortalecido recentemente? Para responder a essa pergunta, devemos prosseguir com a crítica imanente do caráter ideológico do “cidadão de bem”. Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B13">Rahel Jaeggi (2008</xref>), “quem está sob a influência de uma ideologia não está apenas à mercê de uma circunstância falsa, mas também ‘nas garras’ de uma falsa interpretação dessa circunstância” (p. 139). Isso significa que o caráter ideológico do “cidadão de bem” retira sua força precisamente das relações sociais concretas de dominação que se estabelecem na sociedade brasileira, mas que não são totalmente articuladas nem debatidas na esfera pública. Não se trata de mera “falsa consciência” da realidade, mas de uma consciência falsa socialmente induzida, de um equívoco resultante do espelhamento de uma <italic>realidade falsa</italic>. Trata-se, portanto, de um “entrelaçamento” do verdadeiro - ou de um momento do verdadeiro (por exemplo, a cidadania) - com o não-verdadeiro (por exemplo, o “cidadão de bem”). Como explica Jaeggi:</p>
			<disp-quote>
				<p>A crítica da ideologia não tematiza simplesmente ambas [consciência e realidade]; ela repousa sobre a afirmação, não de todo evidente, de uma relação sistemática entre a compreensão falsa e a falsidade da situação (a falsidade da constelação dos fatos e a falsidade epistêmica de sua interpretação). A realidade parece, ela própria, estar falsa de tal modo, que sugere a falsa compreensão, de modo que a circunstância de que nós a compreendamos mal seja uma espécie de indicador de que a situação é falsa. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi, 2008</xref>, p. 146)</p>
			</disp-quote>
			<p>Tomada enquanto crítica da ideologia, a crítica imanente do “cidadão de bem” vai mais além das “críticas acusatórias” que apenas o apontam como sujeito político reacionário e demagógico, sem levar adiante uma consideração profunda acerca de suas causas e consequências para o debate político. De fato, a enunciação da figura do “cidadão de bem” remete necessariamente à avaliação sobre a questão de como compreendemos a efetivação da cidadania enquanto ideal normativo de práticas democráticas cotidianas. Retomando as considerações de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi (2008</xref>) sobre a crítica imanente da ideologia, entendemos que é possível criticar o caráter ideológico da figura do “cidadão de bem” como expressão de uma realização deficitária da cidadania no Brasil. Por isso, para avançarmos com a tarefa da crítica imanente em direção à possibilidade de resolução transformadora das contradições postas por um suposto “cidadão” que se afirma negando a cidadania, é necessário analisar agora seu componente propriamente político.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="discussion">
			<title>A política do “cidadão de bem”</title>
			<p>Como temos visto até aqui, relações de poder aparecem inextrincavelmente ligadas a qualquer consideração sobre a figura do “cidadão de bem”. <xref ref-type="bibr" rid="B22">Céli Regina Pinto (2017</xref>) discute o componente político associado a essa figura a partir da análise da trajetória discursiva na mídia brasileira de três grandes manifestações de rua, ocorridas entre 2013 e 2015: as jornadas de junho de 2013; as mobilizações contra a Copa do Mundo de 2014; e as jornadas de março de 2015, em torno do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Em sua análise da cobertura dada pelas mídias no período, a autora mostra como ocorreu um deslocamento discursivo nesse conjunto de manifestações, da esquerda para a direita no espectro político, revelando uma forte ascensão conservadora no período. O ponto de inflexão parece ter sido as manifestações de 2014, quando ocorre um deslocamento do perfil de movimentos organizados com pautas e táticas bem definidas (como o Movimento Passe Livre e os <italic>black blocs</italic>) para um novo perfil disforme e fragmentado de manifestantes (grupos pró-impeachment). Nesse processo, a mídia tradicional teve um papel decisivo na medida em que apregoou pelo direito do suposto “cidadão de bem” de se manifestar, em flagrante oposição aos chamados “baderneiros”.</p>
			<disp-quote>
				<p>Não se pode deixar de pontuar a atuação da Rede Globo de televisão, tanto em sua versão de TV aberta como no seu canal pago de notícias, em campanha declarada a favor das manifestações, principalmente em 2013 e 2015. No primeiro ano, <italic>a emissora construiu um discurso que dividia os manifestantes entre vândalos, aqueles que eram violentos e portavam palavras de ordem contra os jornalistas da emissora, e os “cidadãos de bem”, que tinham o direito de se manifestar.</italic> Quanto mais as manifestações adquiriam uma postura antigoverno federal, mais a Rede Globo cobria os eventos, chegando a mudar sua grade de programação e o horário de sua mais importante atração, a chamada “novela das 9”. (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Pinto, 2017</xref>, p. 130, grifos nossos)</p>
			</disp-quote>
			<p>Podemos observar a identificação da figura do “cidadão de bem” à onda difusa de novos manifestantes de rua que incluíram não apenas os setores democráticos insatisfeitos com a gestão da então presidente petista, mas também grupos antidemocráticos declaradamente favoráveis ao retorno de forças autoritárias ao poder. A partir desse momento ganhou força o discurso ideológico do “cidadão de bem” como sujeito político defensor de certa moralidade pública, do combate à corrupção e de um suposto resgate do patriotismo. Isso ocorre com a associação de símbolos como o Hino Nacional e a bandeira do Brasil aos supostos “cidadãos de bem”. Nesse momento de efervescência das manifestações públicas, os movimentos sociais organizados que tradicionalmente ocupavam as ruas com suas próprias bandeiras e com pautas reivindicatórias bem definidas, passaram a ser considerados como o negativo desse “cidadão de bem” e, portanto, como inimigos da pátria.</p>
			<p>Por isso, dificilmente encontramos a figura do “cidadão de bem” no chamado campo progressista ou de esquerda. Isso parece ocorrer devido à permanência de conceitos clássicos como “militantes” e “trabalhadores” nessa ponta do espectro político. Por outro lado, nos campos de direita e extrema-direita ou nas posições conservadora e liberal, a figura do “cidadão de bem” é evocada com maior frequência. Ela condensa anseios distintos, desde a defesa liberal da propriedade privada até o extremo conservadorismo dos costumes, na medida em que produz e se estabelece sobre o expurgo de seus antagonistas: os “vagabundos”/“bandidos” e, agora, também os “comunistas”, “esquerdistas”, “feministas”, “gayzistas” etc. Assim, em situações de conflito, passa a ser próprio do uso retórico da figura do “cidadão de bem” defender publicamente o extermínio de seus inimigos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Brum, 2014</xref>).</p>
			<p>No contexto político atual de ascensão dos populismos de direita, essa característica beligerante se expressa na sociedade brasileira pelo fenômeno do bolsonarismo. Uma pesquisa coordenada por <xref ref-type="bibr" rid="B20">Ortellado e Ribeiro (2019</xref>) acerca da opinião de eleitores paulistanos mostrou que os bolsonaristas tendem a assumir como seus inimigos, de maneira difusa, o sistema político (especialmente os partidos de esquerda), os movimentos de direitos humanos e identitários (feministas, LGBT, negros etc.) e os meios de comunicação tradicionais (preferindo as novas mídias digitais). A pesquisa também revelou forte componente anti-intelectualista e traços xenofóbicos entre o grupo de eleitores bolsonaristas. Desse modo, a figura do “cidadão de bem” está associada a um tipo de patriotismo ufanista e conservador evidenciado pelo slogan da campanha bolsonarista: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Tal discurso, contudo, não significa necessariamente um genuíno “amor ao país”, mas uma expressão da figura do “cidadão de bem” ao nível das relações internacionais, uma vez que envolve tanto um ataque cego e insistente aos países considerados inimigos (tais como Venezuela e Cuba, por exemplo) como a idealização de países considerados amigos (como EUA e Israel). Essa característica não é novidade. Ela foi identificada como “pseudopatriotismo” no clássico estudo sobre a personalidade autoritária nos Estados Unidos (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, &amp; Sanford, 1950</xref>, p. 107). Sem dúvidas, além dessa, existem outras semelhanças entre a figura do “cidadão de bem” brasileiro e o tipo autoritário descrito por <xref ref-type="bibr" rid="B2">Adorno et al. (1950</xref>) que merecem ser empiricamente investigadas, de modo a explicar os processos psicossociais que resultam na adesão ao discurso ideológico e na obliteração da cidadania.</p>
			<p>Nas relações cotidianas, a esperança parece ter cedido lugar ao ódio como sentimento político predominante (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Pinheiro-Machado &amp; Scalco, 2018</xref>). Isso se reflete em diversas pesquisas que têm buscado explicar como foi possível, no início do século XXI, o casamento entre neoliberalismo econômico e tendências protofascistas, gerando o fenômeno de ascensão das chamadas “novas direitas” (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Solano, 2018</xref>). Aqui talvez se encontre o problema político mais importante relacionado à existência de uma figura retórica como o “cidadão de bem”: a impossibilidade de um vínculo real entre uma cidadania fraturada e uma forma de vida efetivamente democrática. A figura do “cidadão de bem” é expressão de um profundo e histórico sentimento antidemocrático existente em diversos setores da sociedade brasileira, que sustenta a necropolítica cotidiana e persegue obstinadamente os direitos humanos. Nesse processo, o pacto democrático se fragiliza e o Estado de direito fica ameaçado. Assim, o uso retórico do “cidadão de bem” carrega consigo não apenas a contradição da não efetivação da cidadania enquanto tal, mas, de fato, afirma uma posição política - um “status” privilegiado, restrito e destrutivo - que, no limite, significa uma ameaça real à democracia.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Afinal, <italic>quem é</italic> o “cidadão de bem”?</p>
			<p>Como vimos, não se trata de um sujeito concreto, mas de uma figura de linguagem, uma representação discursiva que visa conferir legitimidade a determinadas práticas sociais e, portanto, com a qual diferentes sujeitos podem se identificar. A força dessa representação deriva da capacidade de ocultar contradições e problemas que lhes são constitutivos ao mesmo tempo em que reforça preconceitos e hierarquias sociais historicamente constituídas. Dialeticamente, a contradição fundamental do “cidadão de bem” não é em relação à figura do “bandido” ou “vagabundo”, mas ao próprio ideal de universalização da cidadania.</p>
			<p>O uso retórico da figura do “cidadão de bem” - seja por autoridades públicas, por intelectuais ou no senso comum em geral - é revelador da distância entre a linguagem dos direitos e sua efetivação como forma de vida. Enquanto o discurso da cidadania não for crítico de suas próprias contradições, ele poderá servir para ocultar a divisão real entre privilégios e luta por dignidade. Desse modo, a crítica imanente da figura do “cidadão de bem” necessariamente nos conduz a uma crítica de uma sociedade fraturada e hierarquizada entre cidadãos de primeira e segunda categoria (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Souza, 2012</xref>).</p>
			<p>Podemos considerar que estamos diante de uma espécie de patologia social da cidadania, no sentido conferido por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Axel Honneth (2015</xref>). Não se trata, portanto, de proceder apenas à denúncia de uma forma de injustiça social. Trata-se, sobretudo, de fazer a crítica de um conjunto de práticas discursivas essenciais à reprodução social em que o acesso reflexivo e democrático aos sistemas de ação e de normas se encontra bloqueado à quase totalidade de sujeitos participantes. A terapêutica provavelmente passará por uma transformação radical da nossa frágil concepção de cidadania em direção a novas formas de vida democráticas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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			<title>Referências</title>
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			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>O ministro se refere ao plebiscito sobre comercialização de armas de fogo e munições no Brasil realizado em 2005. Sobre esse processo, no que concerne ao “cidadão de bem”, ver os trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho e Espíndula (2016</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos (2012</xref>).</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
	<sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="en">
		<front-stub>
			<article-categories>
				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Article</subject>
				</subj-group>
			</article-categories>
			<title-group>
				<article-title>Who is the “good citizen”?</article-title>
			</title-group>
			<contrib-group>
				<contrib contrib-type="author">
					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-5677-0093</contrib-id>
					<name>
						<surname>Costa</surname>
						<given-names>José Fernando Andrade</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"/>
					<xref ref-type="corresp" rid="c2">*</xref>
				</contrib>
			</contrib-group>
			<aff id="aff2">
				<institution content-type="original">State University of Feira de Santana, Department of Humanities and Philosophy, Feira de Santana, BA, Brazil</institution>
			</aff>
			<author-notes>
				<corresp id="c2">
					<label>*</label>Mailing address: <email>jfacosta@uefs.br</email>
				</corresp>
			</author-notes>
			<abstract>
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p>The figure of the so-called “good citizen” constitutes a type of ideological discursive strategy and expresses a social pathology of Brazilian citizenship. The aim of this essay is to subject this figure to a critical analysis of its discursive, historical, moral and political assumptions. For this, we resort to the model of immanent critique of ideology proposed by Rahel Jaeggi. We identified contradictions and problems arising from the rhetorical use of the figure of “good citizen” related to: the punitive and firearms appeal to civilians; the ideological representations of gender, race and class; the social function of the media; and political neoconservatism. The fundamental contradiction of the “good citizen” is not in relation to the figure of “bandit” or “bum,” but to the very ideal of universalization of citizenship. As an expression of ideology, the “good citizen” proved to be a real anti-citizen and, therefore, a risk for democracy.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd>citizenship</kwd>
				<kwd>ideology</kwd>
				<kwd>human rights</kwd>
				<kwd>social psychology</kwd>
				<kwd>critical theory</kwd>
			</kwd-group>
		</front-stub>
		<body>
			<sec sec-type="intro">
				<title>Introduction</title>
				<p>Who is the “good citizen”? How to explain this figure increasingly present in the Brazilian public debate? When and why does the need to morally adjectivize the status of citizenship arise? What are the social and political implications of this discourse? Is this an honest type of person, who cares for the defense of their family and traditional values and customs? Or would it be a moralistic, reactionary, demagogic type? After all, what is at stake when the figure of the “good citizen” is evoked in the Brazilian public sphere?</p>
				<p>To answer these questions, we must consider the figure of the “good citizen” as a type of ideological discursive strategy (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Montero, 2006</xref>) that expresses a social pathology of Brazilian citizenship. The aim of this essay is to submit this figure to a critical analysis of its discursive, historical, moral and political assumptions. We aim, with this, to criticize the condition of fractured citizenship existing among us, as well as to overcome the superficial and immediate criticisms that reduce the “good citizen” to a false moralism.</p>
				<p>As an expression of ideology, we consider the figure of the “good citizen” as part of a system of conviction that has practical consequences, that is, as an effective result of a historically determined psychosocial praxis. In this sense, in order to criticize the discourse of ideology, it is not enough to show a counter-speech formally produced from the outside, but it is necessary to make a negative speech from its interior so to “overcome an attitude purely dichotomous towards a really dialectic theoretical attitude, finding a way by which the internal contradiction to the ideological discourse makes it explode” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Chauí, 1989</xref>, p. 22).</p>
				<p>As we will see, there is a fundamental contradiction between the assertion of citizenship and the rhetorical use of the figure of the “good citizen.” While the modern notion of citizenship requires the generalization of a given political status (“citizen”), the rhetorical complementation (“good”) presupposes a moral hierarchy that necessarily negates the primary normativity of the universalization of citizenship rights. Thus, by assuming here the critical perspective of ideology, we aim not only to criticize a certain set of ideas, such as the “good citizen” and their moral and political characteristics, but also to decipher the circumstances that allow political domination to impose itself and remain in everyday social relations based on ideological discourses.</p>
				<p>We aim to contribute to the consolidation of an agenda of studies on the current Brazilian social and political crisis. In this scenario, our criticism will focus on an expression of social pathology of citizenship that threatens the effectiveness of democracy as an ethical way of life in Brazil.</p>
				<p>To this end, we resort here to the model of <italic>immanent critique</italic> proposed by <xref ref-type="bibr" rid="B13">Rahel Jaeggi (2008</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B14">2017</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B15">2018</xref>) as a theoretical basis for critical analysis of the figure of “good citizen.” In this perspective, the task of criticism is not to describe or rehabilitate potentials contained, but not realized in a particular social formation. Above all, it is a question of analyzing and criticizing, in the same movement, the “dysfunctional functioning” of ideological discourse. In other words, it means considering that the peculiarity of ideological discourse lies in a special type of relationship between norms and reality, in which both are shown as misconceptions <italic>in themselves</italic>, that is, they indicate a process in which norms are effective, but, as effective, they become really contradictory or deficient (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi, 2008</xref>).</p>
				<p>Immanent critique has an advantage over reconstructive models of social criticism by not limiting itself to redeeming or rehabilitating existing normative potentials, but by seeking the <italic>transformation</italic> of existing conditions from the dynamics of contradictions of the criticized object (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Repa, 2016</xref>). Thus, by choosing the figure of the “good citizen” as the object of our critique, we seek to contribute both to question self-understanding about the normative ideal of citizenship among us and to stimulate a public debate on the possibilities of practical realization of the logic of rights in Brazilian society.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>Immanent critique</title>
				<p>For <xref ref-type="bibr" rid="B13">Rahel Jaeggi (2008</xref>), four aspects methodologically characterize the critique of ideology: (1) it is a deep and critical approach of <italic>domination</italic>; (2) it takes as its starting point the <italic>internal contradictions</italic> or <italic>self-contradictions</italic> of a given situation; (3) it always rests on a kind of hermeneutic <italic>of suspicion</italic>; (4) its characteristic procedure is the <italic>relation between analysis and criticism</italic>, that is, analysis is an instrument of criticism, and not something separate from it. To these characteristics the author adds a fifth aspect that we consider essential: more than a model of reconstructive criticism, the critique of ideology, as <italic>immanent critique</italic>, must also be <italic>transformative</italic>. This means that, for this author, the immanent critique of ideology differs from other models of social criticism as does not aim at the “dilution” of reality based on external normative criteria but develops from the “rehabilitative overcoming” of the deficit aspects present both in reality and in norms. Thus, the critique of ideology is not anchored somewhere “outside” the relation of obliteration of reality criticized as ideological, but, on the contrary, it “is the instance that confronts us with the problems and contradictions of this reality in a way that it is at the same time a ferment of their transformation” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi, 2008</xref>, p.163).</p>
				<p>The normative criterion of immanent critique lies in the very crisis process of the criticized object, that is, in its problems and contradictions. Problems and contradictions, in the Hegelian sense, constitute the driving force of history and therefore refer to crises immanent to social reality. For <xref ref-type="bibr" rid="B14">Jaeggi (2017</xref>), such crises are not purely functional, but include both normative expectations and the self-clarification of a social formation, so that crises and contradictions are not only the possibility of erosion of this social formation, but also the constructive force that dialectically overcomes and preserves it (<italic>aufhebung</italic>). It is not, therefore, a question of criticizing a false representation of reality based on external normative criteria, or of denouncing the non-realization of norms in certain social practices (for example: citizenship not realized in the discourse of the “good citizen”). It is about going beyond the discrepancy between norms and practices from the analysis of the interdependence between both, that is, from the fact that if the norm is not carried out in a given practice, this reveals a deficient relation not only of the practice, but also of the norms. It is in this sense that the immanent critique functions, thus, as a “ferment” of the transformation of both the practices and the normative desires themselves<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>.</p>
				<p>We are especially interested here in the aspect that Jaeggi calls “functional-ethical” in her model of immanent critique, that is, the fact of considering both the crisis tendencies of social reality and the meanings of emancipation contained therein. In this way, we can subject the figure of the “good citizen” to a simultaneously analytical and critical procedure. This is the decisive aspect: it is not only to show that the figure of the “good citizen” is constituted by misconception, but also to point out the immanent crisis of Brazilian citizenship that conforms it. Thus, it is not a simple syntactic and semantic “correction” of the image of “good citizen,” but the chance to show that its statement already contains the chance of <italic>regression</italic> and real destruction of the promises of citizenship; also, negatively, through critique, we may find the potential of <italic>normative progress</italic> contained in the emancipatory concerns of the implementation of logic of rights as a form of democratic life.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>“Good citizen” as a figure of speech</title>
				<p>To avoid some confusion, it is necessary to define the meaning of the use of the expression “good citizen” in this paper. We understand that we are dealing with a problem that concerns the Brazilian social reality, therefore, it should not be confused with studies on the good, law-abiding citizen (<italic>el buen ciudadano</italic> or <italic>le bon citoyen</italic>). Some notions of “good citizen” have been widely used in several countries, especially in the field of citizenship education (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Abs, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Burtt, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">Pykett, Saward, &amp; Schaefer, 2010</xref>). The difference, therefore, is not merely semantic, but stems from the very nature of the object. For example, the formulation <italic>the good citizen</italic>, which titled a Ku Klux Klan pamphlet between 1913 and 1933, concerns a phenomenon quite different from that employed by the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) in the late 20th century. The “good citizens” of the Klan were religious fanatics adept to racist and xenophobic practices of extreme violence (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Neal, 2009</xref>). For UNESCO’s civic education paradigm, “good citizens” are those trained to be enlightened and aware of the human and political issues at stake in their society, developing respect for others and recognizing equity among all human beings (<xref ref-type="bibr" rid="B31">United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 1998</xref>). Neither of the two cases corresponds to the figure of the Brazilian “good citizen,” although, as we will see, the meaning employed by the Klan is closer than that employed by UNESCO.</p>
				<p>Quotation marks (“good citizen”) are used to emphasize the syntactic contiguity of the terms of this expression, which could also be represented by good-citizen. However, this last formulation may induce a substantivation of the expression. We also avoid using quotes only in the qualifier “good,” because we consider it essential to highlight the specific way in which the notion of citizenship is ideologically employed, which does not happen with other moralistic expressions, such as: “good” men, “good” women, “good” people etc.</p>
				<p>To critique the “good citizen,” it is necessary to take it as a <italic>figure of speech</italic> rather than a concept. This means that it is not a question of seeking the precise definition of a concrete subject, but of highlighting the rhetorical use of this expression as an ideological discursive strategy that has practical consequences in communicative interaction. Thus, the figure of “good citizen” can be considered a type of syllepsis, since it indicates irregular agreement to the extent that it introduces a fundamental logical contradiction (between the generalizing idea of “citizen” and the restrictive aspect indicated by the moral complement “good”) and, at the same time, is communicatively supported by the implicit mobilization of concrete social relations of citizenship and subcitizenship.</p>
				<p>The figure of “good citizen” essentially stands on the dichotomy “good citizen” <italic>versus</italic> “bandit” or “good citizen” <italic>versus</italic> “bum.” These dichotomies reflect the power of ideology in concrete relations of Brazilian society, making it difficult for this separation to be cognitively articulated as a countersense, since it would restrict citizenship only to certain types of subjects considered, in an extremely vague way, “the good ones.” The strength of ideology is also revealed when we see that if, on the one hand, we cannot find a single concrete subject that can be properly defined as a “good citizen,” on the other, as a mass phenomenon, thousands of individuals may identify with this figure. This is because it directly mobilizes the effective tension between the formal condition of legal citizenship and the moral hierarchy of ordinary social relations, already verified in several studies on the configuration of citizenship in Brazil (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Silva, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B30">Souza, 2012</xref>).</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>The genesis of the “good citizen”</title>
				<p>The figure of the “good citizen” has been increasingly common both in everyday language and in studies on the social and political situation of Brazil at the beginning of the 21st century. However, it is worth questioning when this figure acquires the status of a logically accepted assertion, that is, how it becomes valid in a given truth regime.</p>
				<p>When we seek to know the genesis of the figure of the “good citizen” taking as indicators bibliographic references such as newspaper articles and articles published in human sciences scientific journals, we realize that the use of this expression has been increasing in the last decade. In general, the term appears related to lowering the age of criminal responsibility (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Azevedo, Alberto, &amp; Amorim, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">Resende, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Silva &amp; Hüning, 2015</xref>), and to the possession of a firearm (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Espíndula, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos, 2012</xref>), the actions of the Military Police (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Barbosa &amp; Sá, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Bueno, Lima, &amp; Teixeira, 2016</xref>), and the role of social media (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Pinto, 2017</xref>).</p>
				<p>We can see that the use of the figure of the “good citizen” in Brazilian society began to be widespread in the last decade of the 20th century and at the beginning of the 21st century, mainly via digital media. In this period, the yearning for the realization of citizenship rights that were promised by the “Citizen Constitution” of 1988 favored the emergence of the figure of the subject of rights, that is, a growing identification with the idea that each person is a citizen and can claim in the public space the legitimate recognition of their status as such. This learning process based on the lexicon of subjective rights was accompanied by social integration via consumption and the growing interest in so-called “diffuse rights,” especially the so-called “consumer rights.” However, in a context marked by deep inequality and in which there is no elaboration of the past, the normative ideal of citizenship in these conditions occurs only in a deficient way, because the generalizing logic of rights never constitutes, in fact, a democratic and inclusive form of life. Sneakily, then, the figure of the “good citizen” appears as an ideological expression of a promised citizenship, but which is never fully effective. In this sense,</p>
				<disp-quote>
					<p>the good citizen is one who deserves citizenship, public policies, polite treatment by policemen, who has the right to participate. Those who do not belong to this category represent a dangerous element, which comes from marginal spaces, pollutes and contaminates... The good citizen would be the translation, post-economic crises of the 1980s, of the category “worker”... If, in the 1980s, the binomial “worker” x “bum” existed, now we have the “good citizen” x “bum,” in an update of these categories in the face of the socioeconomic and demographic transformations experienced by the Brazilian population in recent decades. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Bueno et al., 2016</xref>, p. 348)</p>
				</disp-quote>
				<p>This means that, from the redemocratization and especially from the mid-2000s, a process of replacing the category “honest worker” for “good citizen” takes place. In this process, the new category dilutes the existing distance between exploited workers, privileged middle class and employers. Everyone can now identify with this homogenizing and enigmatic category that is the “good citizen.” All except those who are classified as “bums” or “bandits.” Here, the figure of the “good citizen” operates on the discursive level as a moral delimiter of objective relations of social segregation and police violence (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Azevedo et al., 2017</xref>). This is also reflected in the public acceptance of the violence and humiliation practiced against those bodies that are considered “suspicious,” that is, usually the bodies of black and poor youth from the peripheries (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Azevedo et al., 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4">Barbosa &amp; Sá, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Silva &amp; Hüning, 2015</xref>).</p>
				<p>Such violence operates from a discriminatory knowledge that presupposes the arbitrary classification between who is considered “citizen” and who is considered “enemy.” Thus, amid the great enthusiasm for citizenship and hope of effective redemocratization of the Brazilian State, since the late 1980s, institutional violence has found in the figure of the “good citizen” a powerful anchor and survival point. Contradictorily, the normative ideal of citizenship is discursively affirmed at the same time that it remains denied in everyday life in practices of violence and ordinary social segregation (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Souza, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B28">Silva, 2010</xref>).</p>
				<p>The pernicious and permanent effects of this social fracture or this “dysfunctional functioning” of citizenship become even more explicit with regard to the peculiar form of public articulation of the universality of human rights. Phrases such as “<italic>human rights for right humans,</italic>” “<italic>rights of the bros,” a good bandit is a dead bandit,</italic>” “<italic>the good citizen is stuck in his house while the bandits are in the street,</italic>” “<italic>canceled CPFs</italic><xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref><italic>,</italic>” among others, are examples of how violence permeates everyday life and gains symbolic effectiveness from the dichotomy “good citizens” and “bums”/’bandits.” Expressions of this violence are punitivism, public lynchings, connivance with murderous police operations and a strong call for firearms for civilians.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>“Good citizens” with firearms</title>
				<p>The figure of the “good citizen” has become strong enough to legitimize institutional decisions, such as the yearning for possession and carrying of firearms for civilians. Thus, although Brazil shows high rates of endemic violence, the firearms discourse based on the figure of the “good citizen” has gained echo in public authorities (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Espíndula, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos, 2012</xref>). As a result, facilitating access to weapons was the winning presidential campaign platform in 2018. As an administrative priority of the elected ultra-right government, the ideological discourse of the “good citizen” served not only to legitimize facilitation in access to weapons, but also to advocate against the alleged inefficiency of previous governments. As stated by the then chief minister of the Civil House, Onyx Lorenzoni:</p>
				<disp-quote>
					<p>The population, by a large majority, demanded the right to self-defense. But they never accepted the result<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref>... That is what all successive governments have done. Not only did they disrespect the will of the majority of the population expressed at the polls, but they tried successively to restrict a legitimate right. <italic>At the same time that they left the good citizen unprotected, they gave security to banditry</italic>, as if every door of every house, commerce or rural property, had a sign “you can enter, we are unarmed”... Gradually, we will correct this purposeful error. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lorenzoni, 2019</xref>, emphasis added)</p>
				</disp-quote>
				<p>In this passage, the political force of the figure of the “good citizen” is evident based on the dichotomy between “good citizen” and “banditry.” The minister seeks to justify the facilitation of the possession of firearms on the grounds that it is a security measure for the population. At the same time that this discourse seeks legitimacy in the “will of the majority” put out of context, it conceals the widespread scientific evidence that the increase in firearms implies more deaths and insecurity (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Cabette-Fábio, 2019</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B32">Yablon, 2017</xref>). Nevertheless, the figure of the “good citizen” is, in this case, used as a rhetorical veneer of a measure that tends to favor, as we will see below, only the already privileged segments of society - white men from upper-middle class - and to provoke an increase in violence against the most vulnerable segments - women, LGBT people, black people and the poor.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>Representations of gender, race and class</title>
				<p>The recent institutional desire for the release of firearms for civilians reveals, as <xref ref-type="bibr" rid="B26">Rita Santos (2012</xref>) shows, that the construction of the figure of the “good citizen” in the public debate is anchored in traditional gender representations. Those representations resonate in the social imaginary in certain expectations of conduct of men and women regarding violence, carrying of weapons and self-defense. In this sense, the masculinity of the “good citizen” seems to depend on weapons as a symbolic component that would redeem any feeling of impotence before the social world seen as threatening. Conversely, the construction of femininity would be associated with the idealization of women as docile and defenseless beings in the face of violence unleashed by “bandits” and, therefore, the safety of these fragile idealized women would depend on the possession of firearms by “good citizens.”</p>
				<disp-quote>
					<p>According to these speeches, “good citizen” are “good fathers, bosses and husbands,” for whom it is important to protect their families and property and face the “bad guys.” In this sense, the will to be armed and to have the possibility to defend themselves is shown as a sign of courage, heroism, morality and respect for law and order, which distinguishes them from “bandits,” who are associated with the refusal of rules and pleasure from senseless violence. Masculinity is thus central to both constructions, since the “good citizen” and the “bandit” are literally masculine. (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos, 2012</xref>, p. 155)</p>
				</disp-quote>
				<p>Also, the markers of race and class reinforce the warmongering discourse around the figure of the “good citizen.” This is because the representation of violence (considered as unilateral) of “bandits” is always associated with the most marginalized social strata, especially the poor, black and peripheral youth. As <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos (2012</xref>) argues, despite the fact that most of the victims of armed violence in Brazil are these young black people from the peripheries, the narrative of self-defense is produced by upper-middle-class white men who imagine themselves as likely victims of “violent crimes against property and, to a lesser extent, crimes against people” (p. 157).</p>
				<p>As can be seen, the critical analysis of the figure of the “good citizen” shows important elements for the debate on the effectiveness of democracy in Brazil. The practical strength of this figure seems to come precisely from the concealment of concrete and conflicting social relations, while the idea of citizenship itself is ideologically preserved, giving the impression of social regularity and proper functioning of social institutions and practices. The constitutive social fracture of the intense inequalities of gender, race and class in Brazil cannot be cognitively articulated in a broad and rational public debate through the citizenship deficit. Thus, the figure of the “good citizen,” as an ideological discursive strategy, contributes decisively to the maintenance of the <italic>status quo</italic> insofar as its ordinary affirmation hides quite concrete, historical and structural relations of domination.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>“Good citizens” against citizenship</title>
				<p>How and why did the figure of the “good citizen” become the motto of an increasingly frequent ideological discourse? To explain this question, we have to confront the figure of the “good citizen” with the idea that gives it an air of plausibility and that is at its root: the idea of <italic>citizenship</italic>.</p>
				<p>In general terms, the modern notion of citizenship concerns the condition or status of subjects (citizens) as effective members of a political community. This presupposes a social secondment that gives them certain rights and duties, freedoms and restrictions, powers and responsibilities. There can be no particularistic restriction in the discourse of citizenship as such since its realization depends on the generalization of this primary status. It does not include the content of rights, but their function as a regulatory principle of integration of modern societies. That is why, for classical theorists of citizenship such as <xref ref-type="bibr" rid="B17">Thomas H. Marshall (1967</xref>), for example, social class inequalities and other differences would be tolerable as long as there was no inequality as to citizenship status. Thus, under the empire of institutional preservation of civil, political and social rights guaranteed, a certain social formation would have ensured for itself an effective degree of inclusive democratization, in which differences would be processed under the protective domain of rights.</p>
				<p>However, citizenship can be realized only as a social experiment in that the logic of generalization and protection of subjective rights becomes a normative measure in everyday relations. The ordinary recognition of the legitimacy of the logic of rights - and its corresponding generalization among members of the political community - is necessary so that we can talk about the realization of the status of citizenship as a regulatory norm of social practices.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B11">Costa and Galeão-Silva (2018</xref>) describe three fundamental dimensions of the modern conception of citizenship: legal, political and identity. In the legal (or institutional) dimension are the institutions and the proper legal status of civil, political and social rights; in the political (or active) dimension of citizenship are the practices of mobilization and struggle of social movements and collectives for the realization, creation and extension of rights; and in the identity (or psychological) dimension of citizenship are the sense of belonging and the degree of social recognition received by citizens in terms of equity and respect for difference. Thus, the desires for the practical realization of citizenship in a society indicate a normative horizon based on the modern ideal of generalization of human dignity and respect for authenticity, to the extent that the logic of rights operates as a medium between the claims of recognition of the world, of life and the systemic processes of juridification. In fact, this was observed in the text of the 1988 Federal Constitution, which establishes in its first article the citizenship and the dignity of the human person as foundations of the democratic State of rights in Brazil. Of course, history shows that this did not necessarily mean the realization of social practices of generalization of citizenship and respect for human dignity since then.</p>
				<p>Amid the difficulties of explaining the characteristics of “citizenship to the Brazilian,” the figure of the “good citizen” gained ground precisely in the rhetoric of the <italic>promise of citizenship</italic>. This adjective “citizen” gets its symbolic effectiveness from ingrained processes of domination, but in its own enunciation it maintains an aspect of possible realization of citizenship (for some), thus concealing the effective non-realization of citizenship (for all).</p>
				<p>At the discursive level, the attempts of argumentation formulated from the figure of the “good citizen” always incur in fallacies. They reveal, therefore, the error of reasoning (not always evident) contained in the enunciation of the figure of the “good citizen” in effective attempts at argumentation, since an argument is fallacious when it resorts to unsustainable premises. This occurs whenever the figure of the “good citizen” is used as a positive argument in an enunciation that aims to rationally justify inequality or everyday social violence and segregation. Examples of this procedure are phrases such as: “<italic>the good citizen is stuck at home, while the bandits are in the street,</italic>” “<italic>human rights people do not care about the good citizen’s family,</italic>” “<italic>the government disarmed the good citizen, but protected the bandit,</italic>” “<italic>if he were a good citizen, he would not have been approached by the police.</italic>” In all these statements, the fallacious aspect consists in inventing and assuming a superior, morally higher citizen with more rights, and therefore denying the very core of citizenship, which consists in the generalization of a common status. Instead of asserting citizenship, it reveals the existence of an anti-citizen.</p>
				<p>The distinctive mark of the enunciation of the “good citizen” is misconception. But we may ask: why does such a misconception remain and have even strengthened recently? To answer this question, we must proceed with the immanent critique of the ideological character of “good citizen.” As <xref ref-type="bibr" rid="B13">Rahel Jaeggi (2008</xref>)states, “a person under the influence of an ideology is not just subject to a wrong state of affairs but also ‘in the grip’ of a false interpretation of this state of affairs” (p. 139). This means that the ideological character of the “good citizen” draws its strength precisely from the concrete social relations of domination that are established in Brazilian society, but which are not fully articulated or debated in the public sphere. It is not a mere “false awareness” of reality, but a socially induced false awareness, a misconception resulting from the mirroring of a <italic>false reality</italic>. It is therefore an “intertwining” of the truth - or of a moment of the truth (e.g. citizenship) - with the non-truth (e.g. “good citizen”). As Jaeggi explains:</p>
				<disp-quote>
					<p>The critique of ideology does not simply discuss both [consciousness and reality]; it is based on the not undisputed claim that there is a systematic link between the false understanding and the wrongness of the situation (the normative wrongness of the facts and the epistemic wrongness of their interpretation). Reality itself seems to be wrong in a way that makes the wrong understanding all too likely and, consequently, the fact that we misunderstand it is in a way an indication of the wrongness of the situation. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi, 2008</xref>, p. 146)</p>
				</disp-quote>
				<p>Taken as a critique of ideology, the immanent critique of the “good citizen” goes beyond the “accusatory critiques” that only point to them as a reactionary and demagogic political subject, without carrying forward a deep consideration about its causes and consequences for the political debate. In fact, the enunciation of the figure of the “good citizen” necessarily refers to the evaluation on the question of how we understand the effectiveness of citizenship as a normative ideal of everyday democratic practices. Resuming the considerations of <xref ref-type="bibr" rid="B13">Jaeggi (2008</xref>) on the immanent critique of ideology, we understand that it is possible to criticize the ideological character of the figure of the “good citizen” as an expression of a deficient realization of citizenship in Brazil. Therefore, in order to move forward with the task of immanent criticism towards the possibility of a transforming resolution of the contradictions posed by a supposed “citizen” who claims to be while denying citizenship, it is necessary now to analyze its proper political component.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="discussion">
				<title>The politics of the “good citizen”</title>
				<p>As we have seen so far, power relations appear inextricably linked to any consideration of the figure of the “good citizen.” <xref ref-type="bibr" rid="B22">Céli Regina Pinto (2017</xref>) discusses the political component associated with this figure from the analysis of the discursive trajectory in the Brazilian media of three major street demonstrations, which occurred between 2013 and 2015: the June 2013 journeys; the mobilizations against the 2014 World Cup; and the March 2015 journeys, regarding the impeachment of President Dilma Rousseff (PT). In her analysis of the coverage given by the media in the period, the author shows how a discursive shift occurred in this set of manifestations, from left to right in the political spectrum, revealing a strong conservative rise in the period. The turning point seems to have been the protests of 2014, when there is a shift from the profile of organized movements with well-defined agendas and tactics (such as the Passe Livre movement and the <italic>black blocs</italic>) to a new shapeless and fragmented profile of protesters (pro-impeachment groups). In this process, the traditional media played a decisive role in that it vouched for the right of the supposed “good citizen” to protest, in flagrant opposition to the so-called “troublemakers.”</p>
				<disp-quote>
					<p>One cannot fail to point out the performance of the Globo television network, both in its open TV version and in its paid news channel, in a declared campaign in favor of the protests, especially in 2013 and 2015. In the first year, <italic>the broadcaster built a discourse that divided the protesters between vandals, those who were violent and carried slogans against the broadcaster’s journalists, and the “good citizens,” who had the right to protest.</italic> The more the protests acquired a federal anti-government stance, the more the Globo network covered the events, going so far as to change its programming grid and the schedule of its most important attraction, the so-called “9 o’clock soap opera.” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Pinto, 2017</xref>, p. 130, emphasis added)</p>
				</disp-quote>
				<p>We can observe the identification of the figure of the “good citizen” to the diffuse wave of new street protesters that included not only the democratic sectors dissatisfied with the management of the then PT president, but also undemocratic groups declared in favor of the return of authoritarian forces to power. From that moment, the ideological discourse of the “good citizen” as a political subject defender of a certain public morality, the fight against corruption and a supposed rescue of patriotism gained strength. This occurs with the association of symbols such as the National Anthem and the Brazilian flag with the alleged “good citizens.” In this moment of effervescence of public protests, the organized social movements that traditionally occupied the streets with their own flags and with well-defined demand schedules, began to be considered as the negative of this “good citizen” and, therefore, as enemies of the motherland.</p>
				<p>Therefore, we hardly find the figure of the “good citizen” in the so-called progressive or left wing. This seems to occur due to the permanence of classic concepts such as “militants” and “workers” at this end of the political spectrum. On the other hand, in the right and far-right wings or in conservative and liberal positions, the figure of the “good citizen” is evoked more often. It condenses distinct yearnings, from the liberal defense of private property to the extreme conservatism of customs, to the extent that it produces and settles on the purge of its antagonists: The “bums”/”bandits” and, now, also the “communists,” “leftists,” “feminists,” “<italic>gayzistas</italic>” etc. Thus, in conflict situations, it becomes proper to the rhetorical use of the figure of the “good citizen” to publicly defend the extermination of their enemies (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Brum, 2014</xref>).</p>
				<p>In the current political context of the rise of right-wing populisms, this belligerent characteristic is expressed in Brazilian society by the phenomenon of Bolsonarism. A survey coordinated by <xref ref-type="bibr" rid="B20">Ortellado and Ribeiro (2019</xref>) about the opinion of São Paulo voters showed that Bolsonarists tend to assume as their enemies, in a diffuse way, the political system (especially left parties), the human rights and identity movements (feminists, LGBT, black people etc.) and traditional media (preferring new digital media). The survey also revealed a strong anti-intellectualist component and xenophobic traits among the Bolsonarist group of voters. Thus, the figure of the “good citizen” is associated with a type of ufanist and conservative patriotism evidenced by the slogan of the Bolsonarist campaign: “Brazil above everything, God above everyone.” Such discourse, however, does not necessarily mean a genuine “love of the country,” but an expression of the figure of the “good citizen” at the level of international relations, since it involves both a blind and insistent attack on countries considered enemies (Venezuela and Cuba, for example) and the idealization of countries considered friends (such as the USA and Israel). This characteristic is nothing new. It was identified as “pseudopatriotism” in the classic study of authoritarian personality in the United States (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, &amp; Sanford, 1950</xref>, p. 107). Undoubtedly, in addition to this, there are other similarities between the figure of the Brazilian “good citizen” and the authoritarian type described by <xref ref-type="bibr" rid="B2">Adorno et al. (1950</xref>) that deserve to be empirically investigated, in order to explain the psychosocial processes that result in adherence to ideological discourse and the obliteration of citizenship.</p>
				<p>In everyday relationships, hope seems to have given way to hatred as a predominant political sentiment (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Pinheiro-Machado &amp; Scalco, 2018</xref>). This is reflected in several studies that have sought to explain how, at the beginning of the 21st century, the marriage between economic neoliberalism and protofascist tendencies was possible, generating the phenomenon of rise of the so-called “new rights” (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Solano, 2018</xref>). Here we may find the most important political problem related to the existence of a rhetorical figure like the “good citizen”: the impossibility of a real link between a fractured citizenship and an effectively democratic form of life. The figure of the “good citizen” is an expression of a deep and historical anti-democratic feeling existing in various sectors of Brazilian society, which sustains daily necropolitics and stubbornly fights against human rights. In this process, the democratic pact is weakened and the rule of law is threatened. Thus, the rhetorical use of the “good citizen” carries with it not only the contradiction of the non-realization of citizenship as such, but, in fact, affirms a political position - a privileged, restricted and destructive status - which, to the limit, means a real threat to democracy.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>Final remarks</title>
				<p>After all, <italic>who is</italic> the “good citizen”?</p>
				<p>As we have seen, it is not a concrete subject, but a figure of speech, a discursive representation that aims to give legitimacy to certain social practices and, therefore, with which different subjects can identify. The strength of this representation derives from the ability to hide contradictions and problems that constitute them while reinforcing prejudices and historically constituted social hierarchies. Dialectically, the fundamental contradiction of the “good citizen” is not in relation to the figure of the “bandit” or “bum,” but to the very ideal of universalization of citizenship.</p>
				<p>The rhetorical use of the figure of the “good citizen” - whether by public authorities, by intellectuals or in common sense in general - reveals the distance between the language of rights and its effectiveness as a form of life. As long as the discourse of citizenship is not critical of its own contradictions, it can serve to hide the real division between privileges and the struggle for dignity. Thus, the immanent critique of the figure of the “good citizen” necessarily leads us to a critique of a fractured and hierarchical society between first and second category citizens (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Souza, 2012</xref>).</p>
				<p>We can consider that we are facing a kind of social pathology of citizenship, in the sense conferred by <xref ref-type="bibr" rid="B12">Axel Honneth (2015</xref>). It is not, therefore, just a matter of denouncing a form of social injustice. It is, above all, to critique a set of discursive practices essential to social reproduction in which the reflexive and democratic access to systems of action and norms is blocked to almost all participating subjects. Therapeutics is likely to undergo a radical transformation of our fragile conception of citizenship towards new democratic forms of life.</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn3">
					<label>3</label>
					<p>The model of immanent critique is shown in detail in the sixth chapter of <xref ref-type="bibr" rid="B15">Jaeggi (2018</xref>). For a critical evaluation of this proposal, check <xref ref-type="bibr" rid="B24">Repa (2016</xref>) and, for its connection with the tradition of Critical Theory, see <xref ref-type="bibr" rid="B14">Jaeggi (2017</xref>).</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn4">
					<label>4</label>
					<p>The expression means “National Identification Number extinguished,” a sentence used when policemen kill Brazilian citizens.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="other" id="fn5">
					<label>5</label>
					<p>The minister refers to the plebiscite on the marketing of firearms and ammunition in Brazil held in 2005. On this process, regarding the “good citizen,” see the works of <xref ref-type="bibr" rid="B9">Carvalho &amp; Espíndula (2016</xref>) and <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos (2012</xref>).</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
	</sub-article>
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