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				<journal-title>Psicologia USP</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. USP</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0103-6564</issn>
			<issn pub-type="epub">1678-5177</issn>
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				<publisher-name>Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0103-656420160189</article-id>
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					<subject>Artigos originais</subject>
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				<article-title>A vontade em Vygotski: contribuições para a compreensão da “fissura” na dependência de drogas</article-title>
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					<trans-title><italic>Le volonté chez Vygotski : contributions à la compréhension d’avidité dans la dépendance des drogues</italic></trans-title>
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					<trans-title><italic>La voluntad en Vygotski: contribuciones a la comprensión del craving en la drogadicción</italic></trans-title>
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						<given-names>Júlia Loren dos</given-names>
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						<given-names>Marcelo Dalla</given-names>
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					<institution content-type="original">Universidade Federal de São João del-Rei, Departamento de Psicologia. São João del-Rei, MG, Brasil</institution>
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					<label>*</label> Endereço para correspondência: <email>julialoren12@hotmail.com</email>
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			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>May-Aug</season>
				<year>2018</year>
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			<volume>29</volume>
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			<fpage>200</fpage>
			<lpage>211</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>A fissura (<italic>craving</italic>) é questão central no cuidado a pessoas com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas, sendo considerada uma incapacidade de controlar o desejo pelo consumo. Contudo, não há definição unívoca desse fenômeno. Investigou-se o conceito de vontade em Lev S. Vygotski (1896-1934), considerando-se que sua abordagem poderia contribuir para a compreensão da fissura. Realizou-se uma revisão da literatura acerca do <italic>craving</italic> e uma análise focal do conceito de vontade em textos selecionados de Vygotski. Não obstante as controvérsias sobre a definição do fenômeno da fissura, a proposição de Vygotski acerca da vontade como função psicológica superior mediada por motivos auxiliares possibilita ampliar a compreensão do <italic>craving</italic>. O manejo da fissura, assim, depende não somente de uma iniciativa individual, mas também de questionamentos sobre a lógica social, política e histórica que preside os significados sobre o uso de drogas.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title>Resumé</title>
				<p>L’avidité (craving) est un point central pour le soin des personnes ayant problèmes issus de l’utilisation de l’alcool et d’autres drogues envisagée comme l’incapacité de contrôler le désir de consommation. Cependant, il n’y a pas de définition univoque sur ce phénomène. On a recherché le concept de volonté chez Lev S. Vygotski (1896-1934) en envisageant que son approche pourrait contribuer à la compréhension de l’avidité. On a effectué une révision de littérature autour du craving et une analyse focale du concept de volonté dans des textes sélectionnés de Vygotski. Malgré les controverses sur la définition du phénomène d’avidité, la proposition de Vygotski autour de la volonté comme fonction psychologique supérieure médiate par motifs auxiliaires permet d’enrichir la compréhension du craving. Le maniement de l’avidité ne dépend pas seulement d’une initiative individuelle, mais aussi des interrogations sur la logique sociale, politique et historique qui oriente les sens de l’utilisation des drogues.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>Resúmen</title>
				<p>La fisura (<italic>craving</italic>) es un tema central en la atención de personas con problemas derivados del uso de drogas, considerada una incapacidad para controlar el deseo de consumo. Sin embargo, no existe una definición única de este fenómeno. Se investigó el concepto de voluntad de Lev S. Vygotsky (1896-1934) teniendo en cuenta que podría contribuir a la comprensión de la fisura. Se realizó una revisión bibliográfica sobre el deseo, y un análisis focal del concepto de voluntad en textos seleccionados de Vygotski. A pesar de las controversias en la definición del fenómeno de la fisura, la proposición de Vygotsky sobre la voluntad como función psicológica superior mediada por motivos auxiliares hace posible ampliar la comprensión del <italic>craving</italic>. El tratamiento de la fisura no sólo depende de una iniciativa individual, sino también de preguntarnos acerca de la lógica social, política e histórica que preside los significados del consumo de drogas.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd><italic>craving</italic> (fissura)</kwd>
				<kwd>Vygotski</kwd>
				<kwd>vontade</kwd>
				<kwd>drogas</kwd>
			</kwd-group>
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				<title>Mots-clés:</title>
				<kwd><italic>craving</italic> (avidité)</kwd>
				<kwd>Vygotski</kwd>
				<kwd>volonté</kwd>
				<kwd>drogues</kwd>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd><italic>craving</italic> (fisura)</kwd>
				<kwd>Vygotski</kwd>
				<kwd>voluntad</kwd>
				<kwd>drogas</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>No âmbito das políticas públicas, as medidas relacionadas ao uso de álcool e outras drogas têm consistido em ações que se concentram, basicamente, nos setores de saúde e segurança. No contexto da segurança, o pronunciamento do presidente Richard Nixon, em 1972, declarando que as “drogas pesadas” eram o principal inimigo dos Estados Unidos, é considerado um marco da doutrina da “guerra às drogas” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Fiore, 2012</xref>). Atualmente, pondera-se que o proibicionismo não foi capaz de diminuir a produção e o acesso às drogas tornadas ilícitas, apesar dos vultosos investimentos na eliminação da circulação de substâncias psicoativas ilícitas. A necessidade então colocada de repressão e criminalização gerou um questionável endurecimento da legislação penal relacionada ao tráfico de drogas (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Karam, 2008</xref>).</p>
			<p>Visando legitimar as medidas repressivas, defendia-se que as drogas representavam um problema tanto individual quanto coletivo, sendo seu consumo algo de ordem moral e social (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Rodrigues, 2012</xref>). Entretanto, preocupações de ordem política e econômica são subjacentes aos supostos interesses de saúde e segurança: “a guerra às drogas se tornou ao mesmo tempo um exercício de controle social e uma estratégia para a ampliação da economia neoliberal a partir do exercício do poder e da violência” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Passos &amp; Souza, 2011</xref>, p. 155). O resultado dessa “guerra” foi um crescimento do mercado global de drogas, bem como a redução dos recursos para a implantação e desenvolvimento de políticas de redução de riscos e danos associados ao uso, em outras palavras, de medidas preventivas (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Comissão Global de Políticas sobre Drogas [CBPD], 2011</xref>).</p>
			<p>As estratégias de redução de danos (RD) visam a uma abordagem integral do ser humano, independentemente do seu padrão de uso, nível socioeconômico etc. Na RD busca-se um resgate dos “aspectos éticos e humanos da relação entre políticas de saúde e consumidores de drogas” (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Santos, Soares &amp; Campos, 2010</xref>, p. 996). A RD costuma ser contraposta a uma perspectiva que recorre à abstinência como princípio, meio e fim do tratamento para todo e qualquer usuário de álcool e outras drogas.</p>
			<p>Quando se pensa em drogas - principalmente quando se elide que substâncias psicoativas como o álcool, o tabaco, os solventes e os psicofármacos são drogas tornadas lícitas - há uma tendência em associá-las a variados signos do “mal”: criminalidade, ilegalidade, vício, descontrole, perversão etc. Contudo, é necessário distanciar-se de um discurso moralista e apreciar os determinantes histórico-sociais e socioculturais do consumo de substâncias psicoativas. Nesse sentido, a atividade consciente humana deve ser historicamente contextualizada mediante a particularidade das circunstâncias nas quais se realiza, compreendendo que ela não pode ser reduzida à mera expressão de um organismo biológica ou psicologicamente considerado (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Luria, 1991</xref>).</p>
			<p>Levando-se em consideração o quadro mais amplo no qual se insere a denominada “economia do tráfico”, as substâncias psicoativas ilícitas, tanto quanto as lícitas, são parte das mercadorias produzidas, distribuídas, vendidas e consumidas nos marcos do modo capitalista de produção. No caso das drogas lícitas, a propaganda, a arte e a mídia demarcam o seu lugar enquanto produto da indústria cultural e objetos fetichizados de consumo. Como afirmam <xref ref-type="bibr" rid="B30">Tiburi e Dias (2013</xref>), “sendo o mercado um referencial moral em uma sociedade calibrada pelo capital, consideramos bom aquilo que pode ser comprado e vendido, desde que se possa ou deseje comprá-lo” (p. 65).</p>
			<p>Dessa forma, o debate acerca das políticas sobre drogas transcende aspectos meramente tecnocráticos, havendo diversos elementos que atravessam e tangenciam a relação entre o consumo de drogas, a história, a sociedade e a cultura. No que se refere, especificamente, ao tratamento de pessoas com problemas devidos ao consumo de drogas, o <italic>craving</italic>, ou “fissura”, tem sido destacado como um fenômeno que cria desafios significativos às ações de cuidado. Mesmo que a discussão acerca do <italic>craving</italic> tenha surgido em estratégias de tratamento que priorizam a abstinência como método, o manejo da fissura também é importante em ações subsidiadas pela posição ético-política da RD. Assim, é preciso considerar que a produção de conhecimento acerca da “fissura” será permeada por fundamentos científico-filosóficos que precisam ser devidamente debatidos, exigindo uma postura analítica e interpretativa diante do fenômeno.</p>
			<p><italic>Craving</italic> ou “fissura” refere-se, na maioria das vezes, a um estado corporal e mental de desejo intenso pelo uso de determinada substância psicoativa, manifestado por certo indivíduo, e direcionado a uma droga previamente consumida. Essa descrição é a mais utilizada. Os próprios usuários habitualmente atribuem à fissura a incapacidade de controlar seu desejo pelo consumo, o que os levaria a cometer roubos, furtos ou estelionato. O <italic>craving</italic> é considerado um importante fator de manutenção do uso prejudicial de álcool e drogas, bem como de retorno ao consumo em períodos de abstinência ou não.</p>
			<p>Os estudos acerca do <italic>craving</italic> demonstram variadas compreensões do seu significado e manifestação, recorrendo-se a diferentes modelos teórico-metodológicos para a investigação e abordagem, reforçando a importância de debatê-los (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo, Oliveira, Nunes, Piccoloto, &amp; Melo, 2004a</xref>). Os estudos conceituais e metodológicos evidenciam a necessidade de ampliar e diversificar as investigações em torno desse fenômeno visando a elaboração de novas estratégias de avaliação e intervenção. Como afirmam <xref ref-type="bibr" rid="B4">Araújo, Oliveira, Pedroso, Miguel e Castro (2008</xref>),</p>
			<disp-quote>
				<p>não existe uma única forma de mensurar o <italic>craving</italic> que sirva para todas as situações, entretanto são necessárias novas pesquisas para que as medidas de avaliação do <italic>craving</italic> possam oferecer subsídios para a melhor definição deste construto, bem como dos fatores a este relacionados. (p. 61)</p>
			</disp-quote>
			<p>Dado esse panorama, que envolve aspectos históricos, econômicos, sociais, epistemológicos e técnicos relacionados ao consumo de drogas e o <italic>craving</italic>, surgem alguns questionamentos: é possível compreender a “fissura” de forma mais abrangente, sem recair em extremos ou reducionismos de tipo biológico ou ambiental? Em que medida essa discussão nos auxilia a compreender a origem e o desenvolvimento do <italic>craving</italic>?</p>
			<p>O conceito de vontade como uma função psicológica superior foi abordado pelo psicólogo bielo-russo Lev Semenovich Vygotski (1896-1934), reconhecido como o fundador da teoria histórico-cultural do desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Interessante notar que, no senso comum, o controle da vontade de consumir, ou, em outras palavras, a necessidade de ter “força de vontade” contra o impulso para o uso, são considerados elementos centrais para o engajamento (ou não) no tratamento de problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas.</p>
			<p>Vários estudos destacam a importância de investigar o <italic>craving,</italic> delineando seu conceito, implicações, origens etc., para que novos tratamentos e instrumentos de intervenção sejam elaborados, uma vez que a “fissura” é elemento importante no consumo problemático de álcool e drogas (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Araújo et al, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Vela, Abadías, Vidal, Munuera, &amp; Carvacho, 2004</xref>). Dado que há necessidade de se compreender eventos de caráter psicológico atinentes à relação entre o consumo de drogas e o <italic>craving</italic>, entende-se que uma sistematização do conceito de vontade em Vygotski pode se apresentar como via promissora para uma compreensão mais abrangente do fenômeno.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>Metodologia</title>
			<p>A pesquisa bibliográfica foi adotada como desenho metodológico geral neste estudo conceitual. Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Lima e Mioto (2007</xref>), esse método “implica em um conjunto ordenado de procedimentos de busca por soluções, atento ao objeto de estudo, e que, por isso, não pode ser aleatório” (p. 38). Assim, foram coletadas e analisadas criticamente as informações disponíveis acerca do tema em bases de dados bibliográficas. É de suma importância que seja preservado, no desenvolvimento da pesquisa, o rigor metodológico; no entanto, como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B24">Prestes (2012</xref>), “é preciso não ter medo de ousar e de inovar. O rigor metodológico em qualquer pesquisa é também uma criação” (p. 407).</p>
			<p>Foram colocadas, então, determinadas questões orientadoras: é possível que uma sistematização do conceito de vontade contribua com a compreensão do <italic>craving</italic> enquanto fenômeno do processo de tratamento? O estudo do conceito de vontade, com base na teoria histórico-cultural do desenvolvimento das funções psicológicas superiores de Vygotski, pode auxiliar no desenvolvimento dos métodos e técnicas de tratamento, em especial para profissionais e pessoas que buscam manejar a “fissura” ou <italic>craving</italic>?</p>
			<p>Em uma primeira etapa do ciclo de pesquisa, foram aprofundas as definições de <italic>craving</italic>/“fissura”, buscando precisar as lacunas existentes na literatura científica. Para o levantamento das informações analisadas recorreram-se às seguintes bases de dados de indexação de periódicos científicos: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Periódicos Eletrônicos de Psicologia (PePSIC). As buscas foram feitas recorrendo-se aos termos: <italic>craving</italic>, “fissura”, “vontade”, e “dependência de álcool e outras drogas”.</p>
			<p>Na segunda etapa, a análise focal do conceito de vontade proposto por L. S. Vygotski ocorreu por meio da sondagem de determinados textos do autor disponíveis em suas <italic>Obras escogidas</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski, 1995a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B35">1995b</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B36">1995c</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B37">1999</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B38">2001a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B39">2001b</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B40">2003</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B41">2006a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B42">2006b</xref>). A seleção teve por base o estudo de <xref ref-type="bibr" rid="B29">Selau e Boéssio (2012</xref>) sobre o conceito de vontade nas obras de Vygotski. Quando possível, recorreu-se aos textos disponíveis em língua portuguesa, identificados em duas compilações editadas pela Martins Fontes: <italic>Construção do pensamento e da linguagem</italic> (2001) e <italic>O desenvolvimento psicológico na infância</italic> (2003).</p>
			<p>A seguir, na terceira etapa, como procedimento de categorização dos resultados, foram confeccionados fichamentos para: a) análise de informações relativas às definições existentes de <italic>craving</italic>; e b) revisão do desenvolvimento e aplicabilidade do conceito de vontade nas obras citadas de Vygotski, criando-se esquemas teóricos que facilitassem a sistematização dos conceitos. Finalmente, realizou-se a análise de dados, buscando-se verificar a hipótese de compreensão do <italic>craving</italic> tendo como base o conceito de vontade, identificando e descrevendo em que medida é possível concebê-lo como uma alteração dessa função psicológica superior com base na literatura abordada.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>O que é o <italic>craving</italic>?</bold></title>
			<p>Em face das controvérsias acerca do conceito de <italic>craving</italic> decorrentes das diferentes compreensões do fenômeno devido aos distintos modelos explicativos, em 1954 dois comitês de especialistas se reuniram visando delimitar o significado do termo no contexto científico: o Expert Committee on Alcohol e o Expert Committee on Mental Health of the World Health Organization. Naquele momento, o <italic>craving</italic> foi definido como uma ânsia urgente ou incontrolável (<italic>urge</italic>) pelo consumo de drogas, que poderia ser dividido em: a) desejo físico, como no caso dos sintomas de abstinência do álcool; e b) desejo simbólico, enquanto gatilho tanto para o início do uso excessivo quanto para a recaída (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski, &amp; Wilkinson, 1987</xref>).</p>
			<p>Uma das conceituações mais influentes nas formulações teóricas acerca do tema é a de Alan Marlatt. Esse autor propôs uma definição fenomenológica e, em seus primeiros estudos, conceituou o <italic>craving</italic> como um forte desejo para o alívio de sintomas desagradáveis que compõem um quadro de abstinência (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski, &amp; Wilkinson, 1987</xref>). Entretanto, ao passo que avançaram as investigações, Marlatt também identificou no <italic>craving</italic> um estado subjetivo mediado pela expectativa de resultados positivos associados ao uso de determinada droga (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Marlatt, 1987</xref>).</p>
			<p>A partir desses primeiros estudos constituiu-se a definição técnica do termo, visando abarcar a necessária contextualização para que o fenômeno pudesse ser melhor compreendido. <xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski e Wilkinson (1987</xref>) propuseram que perguntas claras e diretas fossem feitas aos usuários de drogas acerca da sua experiência com o <italic>craving</italic>, considerando a necessidade de articular na definição o desejo pelo uso e a decisão de usar.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo et al (2004a</xref>) retomam o que foi afirmado por Alan Marlatt a respeito da distinção entre <italic>craving</italic> e compulsão. O <italic>craving</italic> seria um desejo subjetivo em relação aos efeitos de determinada droga, enquanto a compulsão seria a intenção comportamental de consumir a substância (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Marlatt, 1987</xref>). Assim, o <italic>craving</italic>, estando associado ao desejo, abrange a dimensão do “eu quero”, enquanto a compulsão ocuparia a dimensão do “eu vou”, direcionando o comportamento para o ato do consumo.</p>
			<p>Nota-se que a distinção entre desejo e intenção de consumo possibilita discriminar duas manifestações distintas do <italic>craving</italic>. <xref ref-type="bibr" rid="B4">Araújo et al. (2008</xref>), em sua revisão, buscando uma abordagem mais abrangente e multidimensional, elencam quatro elementos no fenômeno do <italic>craving</italic>: 1) o desejo pela substância; 2) a antecipação de resultados positivos do consumo; 3) o alívio dos sintomas de privação; e 4) a intenção de realizar o uso.</p>
			<p>Atualmente, esse fenômeno é descrito pela maioria dos pesquisadores como um desejo intenso de usar determinada substância. Sua manifestação pode ocorrer em três momentos: durante o uso, ao longo da fase de desintoxicação e depois de prolongados períodos de interrupção do consumo da substância (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo et al., 2004a</xref>). Sabe-se também que a “sensação de <italic>craving</italic> possui componentes fisiológicos, cognitivos, afetivos e comportamentais” (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos, Rocha, &amp; Araújo, 2014</xref>, p. 122) e que, por isso, sua análise e as suas estratégias de manejo devem intervir em um amplo conjunto de fatores. Visto ser o <italic>craving</italic> uma experiência individual, é necessário desenvolver um planejamento personalizado para o tratamento de cada sujeito (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>Principais modelos explicativos do <italic>Craving</italic>
</bold></title>
			<p>Para o <italic>modelo neurobiológico</italic>, o <italic>craving</italic> pode ser provocado por gatilhos tais como imagens, sons, odores e contextos ambientais. Esses gatilhos seriam sugestões cognitivas internas ou externas que estão, de alguma forma, relacionadas ao uso de drogas. O estabelecimento dessa relação ocorre por meio do pareamento entre o uso repetido da droga e variáveis internas ou ambientais, armazenadas em conjunto na memória.</p>
			<p>Em decorrência do pareamento, os circuitos neurais de uma pessoa se tornam hipersensíveis aos estímulos relacionados à droga, desencadeando um forte desejo de consumo ao contato. Consequentemente, a principal estratégia para o manejo do <italic>craving</italic>, nesse modelo, consiste em reconhecer os gatilhos que desencadeiam esse forte desejo, para evitar situações em que estejam presentes (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Zeni &amp; Araujo, 2011</xref>).</p>
			<p>Para o <italic>modelo cognitivo</italic>, por sua vez, situações externas/ambientais e internas estão envolvidas no processo de recaída de uma pessoa que busca interromper o uso de determinada droga. As alterações de humor, por exemplo, ativarão crenças centrais que o indivíduo possui e crenças aditivas em relação ao uso da substância. Essas crenças desencadearão pensamentos automáticos que farão advir o <italic>craving</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>). Também está presente, nesse modelo, a compreensão de que as situações que estimulam o uso da droga envolvem a relação entre crenças aditivas e crenças de controle:</p>
			<disp-quote>
				<p>Os sintomas fisiológicos de <italic>craving</italic>, geralmente vivenciados como forte ansiedade, “acionam” então crenças aditivas permissivas (como “usarei apenas um pouco”) que podem levar ao uso da substância. Juntamente com essas crenças aditivas, que estão associadas à busca do prazer (ou alívio do desprazer) e sensações de bem-estar, o paciente pode apresentar também crenças de controle (como: “terei prejuízos com o uso”), que podem, assim, diminuir a necessidade de consumir a substância psicoativa (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>, p. 122).</p>
			</disp-quote>
			<p>As técnicas de manejo do <italic>craving</italic> propostas por esse modelo envolvem estratégias de enfrentamento que buscam fortalecer as crenças de controle. Dentre as principais técnicas, destaca-se a substituição por imagem positiva (SIP), que é a visualização dos benefícios advindos da interrupção do uso de determinada substância, buscando fortalecer a autoeficácia durante a abstinência (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al, 2014</xref>).</p>
			<p>O <italic>modelo comportamental</italic> preconiza a diferenciação entre o <italic>craving</italic> e a compulsão, sendo o primeiro o desejo motivacional e o segundo a intenção comportamental. Entretanto, no processo de condicionamento que compreende a manifestação do <italic>craving</italic>, esses dois fenômenos estão articulados. Desse modo, um estímulo externo (<italic>conditioned stimulus</italic> - CS) - por exemplo, a visão de um maço de cigarros - desencadeia uma resposta de <italic>craving</italic> (<italic>conditioned response</italic> - CR) que, em seguida, origina um comportamento compulsivo, que pode ou não ser seguido por uma resposta de uso da substância e seus consequentes estímulos reforçadores (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Marlatt, 1987</xref>). As estratégias de manejo adotadas segundo esse modelo consistem, então, em promover novos condicionamentos em relação ao uso da droga, principalmente o controle das variáveis ambientais, para que o condicionamento que desencadeia o <italic>craving</italic> entre em extinção.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>Estratégias, instrumentos e modalidades de avaliação do <italic>craving</italic>
</bold></title>
			<p>A avaliação do <italic>craving</italic>, nas pesquisas ou nas práticas profissionais, segue abordagens principalmente quantitativas. Contudo, a inexistência de um consenso sobre a conceituação do fenômeno gera diferentes compreensões entre o que está sendo avaliado e o que precisa de avaliação enquanto elementos da “fissura”. Além disso, em tese, determinados aspectos poderiam caracterizar melhor o <italic>craving</italic> do que outros, dificultando sua investigação, por existirem manifestações distintas de pessoa para pessoa (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Corrêa Filho &amp; Baltieri, 2012</xref>).</p>
			<p>Em relação às abordagens quantitativas, os principais instrumentos de medida utilizados para a avaliação do <italic>craving</italic> são: a) <italic>Escala para avaliação do craving</italic>, constituído por 11 questões que avaliam a manifestação do <italic>craving</italic> nos primeiros três dias de internação; b) Questionnaire of Smoking Urges e Questionnaire of Smoking Urges <italic>-</italic> Brief, sendo o primeiro composto por 32 questões e o segundo por 10, ambos avaliando o <italic>craving</italic> por tabaco; c) Escala Analógico-Visual para o Craving, consistindo em uma reta que varia de zero a 10 na qual o usuário escolhe uma nota que melhor defina o nível de fissura; d) Cocaine Craving Questionnaire - Brief e Cocaine Craving Questionnaire - Brief - Versão Brasileira Adaptada para o Crack, sendo que a primeira avalia o <italic>craving</italic> por cocaína e a segunda por <italic>crack</italic>, e ambas consistem em uma escala do tipo Likert que varia de um a sete, composta por dez questões; e) Obsessive Compulsive Drinking Scale (OCDS), escala do tipo Likert composta por 14 questões, variando as respostas de zero a quatro; e f) Marijuana Craving Questionnaire - MCQ-SF/Versão Brasil, contendo 12 itens com as respostas dadas a partir de uma escala do tipo Likert que varia de 1 a 7 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo et al., 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Araújo, Pedroso, &amp; Castro, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1">Araújo et al, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Balbinot et al., 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B8">Balbinot, Araujo, &amp; Santos, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">Corrêa Filho &amp; Baltieri, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">Pedroso, Castro, &amp; Araujo, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos, Rocha, &amp; Araújo, 2014</xref>).</p>
			<p>No que diz respeito às análises qualitativas, <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves, Sanchez, Ribeiro e Nappo (2011</xref>) apresentam um método de investigação do <italic>craving</italic> no qual, para avaliar a fissura, os pesquisadores realizaram uma entrevista com usuários de <italic>crack</italic> buscando investigar valores, crenças e representações associadas ao consumo. Os tópicos que constituíram o roteiro da entrevista procuravam averiguar o “perfil sociodemográfico, histórico do uso de <italic>crack</italic>, efeitos do <italic>crack</italic>, vivência da fissura e suas consequências, comportamento de risco associado à fissura, padrão compulsivo de consumo de <italic>crack</italic> (<italic>binge</italic>) e agressividade relacionada à fissura por <italic>crack</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al., 2011</xref>, p. 1.170). O estudo das principais crenças, valores e representações observadas por estes autores apontou que o <italic>craving</italic> é o principal fator para manutenção do uso, levando os usuários a se submeterem a situações que outrora não admitiriam para si, como a prostituição, a manipulação de pessoas, a criação de dívidas e o envolvimento em furtos e assaltos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title><bold>Outros achados relevantes de pesquisas acerca do <italic>craving</italic>
</bold></title>
			<p>As investigações relacionadas ao <italic>craving</italic> destacam, principalmente, os fatores associados ao fenômeno. Independentemente do modelo explicativo de base, evidencia-se a importância de identificar as situações internas (motivos) e externas (necessidades) que o desencadeiam. <xref ref-type="bibr" rid="B43">Zeni e Araújo (2011</xref>) identificaram que consumir álcool, sentir emoções intensas, ter dinheiro na mão, ver usuários de <italic>crack</italic> e sentir-se sozinho são gatilhos para a expressão do <italic>craving</italic> por <italic>crack</italic>. <xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo et al. (2007</xref>) identificaram correlações positivas, porém baixas, do <italic>craving</italic> por tabaco com sintomas de depressão, ansiedade e com a quantidade de cigarros fumados por dia, mas não foi localizada essa correlação em relação à idade, escolaridade, idade em que começou a fumar e motivação para parar de fumar. Os sonhos com álcool também demostraram uma associação positiva com o <italic>craving</italic> pela substância (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Araújo, Oliveira, Piccoloto, &amp; Szupszynski, 2004b</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B8">Balbinot et al, (2014</xref>), por sua vez, demonstraram associação entre alteração da frequência cardíaca e <italic>craving</italic>, o que autorizaria a análise do <italic>craving</italic> a partir de um parâmetro fisiológico.</p>
			<p>As estratégias de manejo ou controle do <italic>craving</italic> também são amplamente abordadas nas pesquisas. Podem ser desde estratégias terapêuticas, como a utilização da técnica cognitiva de substituição por imagem positiva, até técnicas desenvolvidas pelos próprios usuários, como comer, encontrar satisfação em atividades rotineiras e usar benzodiazepínicos (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al., 2011</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al. (2011</xref>) destacam que as técnicas de controle são singulares, mas que “quanto maior a satisfação do sujeito com a sua própria vida, menor a possibilidade de sucumbir à fissura” (p. 1.173).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B23">Pedroso et al. (2009</xref>) destacam que novas pesquisas precisam evidenciar as particularidades do uso de cada substância psicoativa e a manifestação do <italic>craving</italic>, uma vez que “o desejo só pode ser entendido em sua relação com o objeto desejado e com as consequências dessa realização” (p. 219). Além disso, destaca-se a necessidade de diferenciação dos fenômenos do <italic>craving</italic> e da compulsão, para que se compreendam as particularidades inerentes ao desejo pelo uso de drogas.</p>
			<p>No que tange ao tratamento medicamentoso, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Corrêa Filho e Baltieri (2012</xref>) pontuam que atualmente existem quatro medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration para o tratamento do alcoolismo, sendo que acamprosato e naltrexona oral e injetável demonstraram alguma capacidade de amenizar os sintomas de <italic>craving</italic>, contribuindo com o tempo de abstinência. Todavia, os autores afirmam que esses resultados não são conclusivos.</p>
			<p>Enquanto algumas pesquisas defendem o uso da internação como estratégia de controle do <italic>craving</italic>, outras sugerem que dela se prescinda. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo et al. (2004a</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B5">Araújo et al. (2004b</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B7">Balbinot et al. (2011</xref>) e <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al. (2011</xref>) compreendem que a internação deve ser considerada porque impediria o contato do usuário com o contexto e com as pessoas junto das quais o uso ocorre. A pesquisa de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo et al. (2007</xref>), nesse sentido, é digna de atenção. Os autores analisaram o <italic>craving</italic> por tabaco a partir do tempo de abstinência, com três intervalos de avaliação no modelo experimental: zero minuto, 30 minutos e 60 minutos. Os autores observaram que o aumento do <italic>craving</italic> por tabaco era diretamente proporcional ao tempo de abstinência. Não obstante, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski e Wilkinson (1987</xref>) destacaram a observação de Glassman, Jackson, Walsh, Roos e Rosenfeld (1984), para os quais o sintoma mais imediato, consistente e severo da suspensão do uso do tabaco, é o <italic>craving</italic>. Esses dados podem constituir um indicador de alerta para a retirada brusca da droga, como costuma ocorrer nas abordagens de abstinência que têm a internação como corolário.</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos, Rocha e Araújo (2014</xref>), em pesquisa realizada em um contexto de internação, notaram que durante exposição a materiais relacionados ao <italic>crack</italic>:</p>
			<disp-quote>
				<p>alguns pacientes relataram que sentiram o <italic>craving</italic> de maneira atenuada, pois se encontravam em ambiente protegido, continente e afastado do acesso. Em outros pacientes, pelo contrário, pode-se identificar intensa fissura, percebidos também por sintomas físicos como tremores, sudorese e inquietação (p. 125).</p>
			</disp-quote>
			<p>Dessa forma, nota-se que a promoção do bem-estar do usuário é a estratégia de manejo com melhores resultados, sendo que esse aspecto perpassa a compreensão do <italic>craving</italic> em diferentes modelos explicativos do fenômeno.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A compreensão da vontade na obra de L. S. Vygotski</title>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotski (1925/1999</xref>) afirma que qualquer movimento/gesto é realizado pela pessoa, inicialmente, de maneira inconsciente; a vontade gera um movimento, um ato, ações, palavras; depois, uma reação secundária, ou seja, o significado dado ao movimento produzido se converte na base de sua consciência. Nesse sentido, a experiência histórica e social antecede a consciência. É importante sinalizar que ao falar da realização inconsciente de um movimento/gesto a partir das bases históricas e sociais do ser humano, Vygotski não faz referência a uma possível “linguagem cifrada” dos processos psicológicos conforme propõe a psicanálise. A proposição de um movimento inconsciente se traduz em Vygotski como uma ação que ainda não foi significada no contexto histórico, cultural e relacional do indivíduo, mas que se realiza em correspondência à universalidade humana (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos &amp; Leão, 2014</xref>).</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski (1931/1995</xref>) também aponta em pesquisas experimentais conduzidas junto de seus colaboradores que o que caracteriza o domínio da conduta é a possibilidade de eleger algo entre várias opções. Demonstra que as escolhas são direcionadas por motivos auxiliares, que consistem no resultado das diferentes experiências vividas por uma determinada pessoa. É importante ressaltar que os motivos auxiliares não controlam as decisões, mas as influenciam. Ampliando a análise do conceito, Vygotski demonstra que a vontade é desenvolvida, sendo, portanto, um produto da cultura em que o ser humano está inserido (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Selau &amp; Boéssio, 2012</xref>).</p>
			<p>Após empreender ampla revisão das investigações psicológicas acerca do desenvolvimento humano até meados da década de 1920, Vygotski e seus colaboradores notam uma dificuldade a ser superada a respeito do método de investigação na psicologia. Para ele, a maioria das teorias psicológicas centra-se na investigação da relação entre estímulo e resposta, sem considerar os fatores históricos que constituem a relação entre esses dois fenômenos. Devido a isso, propõe a metodologia histórica como uma nova forma de investigação dos fenômenos psicológicos (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski, 1931/1995a</xref>).</p>
			<p>O estudo histórico dos processos de desenvolvimento humano deve examinar os fenômenos em movimento, considerando, assim, a constituição dialética dos elementos presentes, implicando em um processo de sucessiva incorporação por superação (<italic>aufhebung</italic>) no qual é preciso apreender fases e mudanças desde o advento à decadência. Para justificar a pertinência desse novo caminho de pesquisa, Vygotski propõe que, assim como há nos animais e nas plantas órgãos rudimentares, que atualmente estão inativos, mas que são fundamentais para o conhecimento do desenvolvimento desses seres, ocorre também dessa forma com as funções psicológicas do ser humano. Por isso, compreender o permanente movimento de criação, estabilidade e transformação do psiquismo consiste em perceber que a historicidade do ser humano reflete uma construção psicológica que se modifica, mas também conserva, ou seja, é realizada pela via do negativo que incorpora no novo elementos do contrário. Nesse sentido, seria pertinente definir, com base na psicologia histórico-cultural, os conceitos de funções psicológicas inferiores e superiores (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski, 1995a</xref>).</p>
			<p>As funções psicológicas inferiores (ou elementares) compreendem aquelas de caráter rudimentar, determinadas, sobretudo, pelas características biológicas da psique. Essas funções são, ao longo do tempo, superadas por meio do desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento conceitual, a atenção voluntária, a memória lógica e a vontade direcionada a um fim. As funções psicológicas superiores são produtos do desenvolvimento cultural e apresentam como traço peculiar o fato de que, diferentemente das funções inferiores, não são formadas pela simples relação entre um estímulo e uma resposta, pois nessa relação há estímulos intermediários (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vygotski, 1931/1995b</xref>). Assim, a superação presente nas funções psicológicas superiores tem como destaque a função mediadora dos estímulos-meios:</p>
			<disp-quote>
				<p>Lo nuevo consiste en que es el propio hombre quien crea los estímulos que determinan sus reacciones y utiliza esos estímulos como medios para dominar los procesos de su propia conducta. Es el propio hombre el que determina su comportamiento con ayuda de estímulos medios artificialmente creados (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski, 1931/1995a</xref>, p. 77).</p>
			</disp-quote>
			<p>As funções psicológicas superiores, assim, têm a especificidade de serem constituídas historicamente pelo próprio ser humano, que introduz estímulos artificiais na busca de conferir significação e controle ao seu comportamento. Esse propósito será realizado por meio dos signos, que atuam de fora do organismo. Dessa forma, todas as funções psicológicas têm como base processos de mediação (ou seja, não são respostas imediatas) que incorporam o “emprego de signos como meio fundamental de orientação e domínio nos processos psíquicos” (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Vygotski, 1932/2001a</xref>, p. 161). Os signos são, portanto, estímulos mediadores para que o homem possa influenciar a si mesmo, dominando a sua atividade psicológica, mas, também, influenciar ao outro, proporcionando uma nova orientação ou reestruturação das funções psicológicas (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski, 1931/1995a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B35">1931/1995b</xref>).</p>
			<p>O estudo do papel dos signos no desenvolvimento humano relaciona-se à própria estruturação da consciência, pois evidencia que o corpo pode se constituir como excitante do homem, por meio de seus próprios atos e em face dos atos de outrem: “é consciente o que se transmite a outros sistemas na qualidade de excitante e provoca neles uma resposta. A consciência é sempre um eco, um aparelho de respostas” (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotski, 1925/1999</xref>, p. 71-72). Essa compreensão de consciência abarca a primeira concepção de Vygotski sobre esse fenômeno. Para <xref ref-type="bibr" rid="B32">Toassa (2006</xref>), há outras duas acepções na obra do autor: a consciência como um atributo e enquanto sistema psicológico existente entre o homem e o meio, sendo que, nesta última acepção, que supera as demais por incorporação, o uso da palavra demarca o caráter distinto do signo dentre os demais estímulos. Por meio dessa análise, admite-se, considerando os avanços na obra de <xref ref-type="bibr" rid="B39">Vygotski (1932/2001b</xref>), que o “pensamento e a linguagem são a chave para a compreensão da natureza da consciência humana” (p. 485), de modo que “na consciência a palavra é precisamente aquilo que, segundo expressão de Feuerbach, é absolutamente impossível para um homem e possível para dois. Ela é a expressão mais direta da natureza histórica da consciência humana” (p. 486).</p>
			<p>Segundo Vygotski, a compreensão da vontade como uma função psicológica superior é fundamental para descrever a essência da consciência, por operar em inter-relação sistêmica com as demais funções psicológicas na sua constituição. Isso ocorre porque o ato volitivo é formado a partir de uma experiência história que possibilita uma experiência social, fornecendo ao homem a ilusão de que pensa em fazer algo e por isso o faz, caracterizando, assim, o aspecto consciente da expressão da vontade que produz uma ação (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotski, 1925/1999</xref>). Por ser uma função psicológica superior, a vontade também só poderá ser completamente desvelada pelo método científico histórico, pois sua expressão refletirá a superação de aspectos rudimentares do psiquismo humano. Sendo assim, para compreender a vontade, faz-se necessário compreender os determinantes socioculturais da expressão integral do comportamento humano, inclusive em relação às manifestações da consciência, e identificar as formas de atuação dos signos enquanto meios auxiliares da atividade humana (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotski, 1995a</xref>).</p>
			<p>O estudo da vontade é permeado por compreensões espiritualistas, admitindo, por exemplo, a ideia de que há forças não identificáveis que atuam fora do corpo e que levam o ser humano ora a dominar a sua natureza, como quando se resiste à dor voluntariamente, e ora a ceder aos seus instintos. Willian James, por exemplo, afirmava que a possibilidade de resistir à dor decorre da “presença do fluxo de uma certa energia espiritual que, ao se unir ao impulso mais fraco, é capaz de garantir a vitória sobre um fator mais forte” (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Vygotski, 1932/2003</xref>, p. 138). Todavia, o diferencial da proposição vygotskiana consiste em admitir a possibilidade de investigar os meios pelos quais é possível realizar o domínio do próprio comportamento (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vygotski, 1995b</xref>). Nesse sentido, compreende-se a vontade como um fenômeno concreto da existência humana e, portanto, sujeita à investigação científica.</p>
			<p>As funções superiores introduzem como categoria superada (<italic>aufhebung</italic>) as funções inferiores. Partindo desse pressuposto, Vygotski se propôs a estudar patologias que provocam alterações psicológicas, com a hipótese de que essas doenças gerariam alterações do desenvolvimento ontogenético que precisam ser aquilatadas. Para justificar essa hipótese e explicar o caráter de superação presente nas funções psicológicas superiores, Vygotski compara histeria, afasia e esquizofrenia, visando determinar o caráter essencialmente novo presente nas funções psicológicas superiores, considerando em especial a atenção, a memória, a percepção, o pensamento e a vontade. Para ele, nestas três condições as alterações no desenvolvimento do pensamento são centrais (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 1931/2006a</xref>).</p>
			<p>Vygotski considera que, na histeria, a psique está muito propensa às descargas impulsivas afetivas. Isso significa que nesta condição a vontade direcionada a um fim transmuta a posição de controle com a hipobulia, uma espécie de função psicológica inferior da vontade que está mais sujeita aos mecanismos impulsivos das emoções. Por ser uma função psicológica superior, a vontade supera incorporando o estado anterior (inferior), classificado por Vygotski como hipobúlico. Nesse sentido, a doença se manifesta devido a algum evento que provocou a desintegração da vontade enquanto função psicológica superior, fazendo com que as instâncias inferiores, conservadas no processo de superação, assumam, novamente, sua máxima expressão de acordo com as leis primitivas que as governam (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 1931/2006a</xref>).</p>
			<p>Nessas circunstâncias, a vontade não é direcionada para um fim, e sua expressão em histéricos é regredida: “no es que los histéricos tengan poca fuerza de voluntad, lo que no tienen es um propósito firme. La debilidade del objetivo es, justamente, la esencia psíquica del estado que padece um gran numero de histéricos crónicos” (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 2006a</xref>, p.171). A ausência desse “propósito firme” enunciado por Vygotski corrobora algumas das peculiaridades por ele identificadas e atribuídas à vontade, como governar a si mesmo e ao próprio comportamento, estabelecer objetivos e orientar as suas ações a partir das consequências por ela produzidas (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 1931/2006a</xref>).</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B15">Fonseca-Janes e Lima (2013</xref>), na obra de Vygotski distinguem-se momentos do desenvolvimento da função psicológica do pensamento: a) pensamento sincrético, em que há uma manifestação agregada e desorganizada dos conteúdos cognocíveis; b) pensamento por complexo, caracterizado pelo agrupamento dos objetos partindo das representações que se tem sobre eles e não de suas características estáveis; e c) pensamento conceitual, no qual é expresso “un profundo y amplio reflejo del objeto de la realidad en toda su diversa complejidad, sus nexos y relaciones con el resto de la realidad” (<xref ref-type="bibr" rid="B42">Vygotski, 1931/2006b</xref>, p. 80). Nesse sentido, Vygotski afirma que o pensamento tem um papel central no desenvolvimento de todas as funções psicológicas superiores, ou seja, do processo integral da consciência, sendo que a partir do pensamento em conceitos se torna possível estruturar a vontade dirigida a um fim. Assim, nos casos de histeria há também uma perturbação da atividade intelectual que orienta o comportamento (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 1931/2006a</xref>).</p>
			<p>Considerando-se especificamente as contribuições de seus estudos sobre a histeria, pode-se perceber que o processo de desenvolvimento da vontade ocorreria, segundo Vygotski, com base nas seguintes etapas: 1) expressão máxima dos estados impulsivos e afetivos, 2) superação da hipobulia enquanto instância independente; e 3) aparecimento da vontade orientada para um fim. Compreendendo esse processo e identificando a regressão que ocorre nos casos de histeria, torna-se possível pensar como esse retorno a um estado inferior também é expresso em outras patologias (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 1931/2006a</xref>).</p>
			<p>Nos casos de afasia amnésica, em que ocorre dissociação da unidade de formação de conceitos, havendo prejuízo na utilização da linguagem enquanto meio para a comunicação, a vontade também retorna ao seu estado inferior, pois não há formação simbólica da ação, de modo que é alterada a possibilidade de estruturar intenções e tomar decisões a partir da vontade. Esse fato evidencia outra característica importante para compreender a vontade como uma função psicológica superior: associá-la à formulação simbólica do pensamento e perceber que a ação volitiva surge antes mesmo da sua execução (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotski, 1931/2006a</xref>).</p>
			<p>Os casos de afasia evidenciam ainda a importância de estruturas de mediação para a expressão da vontade. <xref ref-type="bibr" rid="B13">Goldstein (1950</xref>) retrata o caso de um paciente que não conseguia atender ao comando ‘feche os olhos’, mas quando se solicitava que simulasse como seus olhos ficavam quando dormia, ele, então, era capaz de fechá-los. Remetendo-se a este relato, <xref ref-type="bibr" rid="B40">Vygotski (1932/2003</xref>) infere que, quando o paciente simula estar dormindo, o <italic>fechar os olhos</italic> não decorre de uma ação de controle do próprio corpo, mas apenas realiza um ato reflexo. Esse exemplo ratifica a compreensão de que a vontade direcionada para um fim proposta por Vygotski não está regulada pela simples relação entre um estímulo e uma resposta, mas é, necessariamente, perpassada por estímulos auxiliares/meios que constituem os signos e são fundamentais para o domínio dos atos volitivos.</p>
			<p>A esquizofrenia, finalmente, é também analisada por Vygotski no que tange às alterações da vontade. Para ele, a manifestação dessa condição é acompanhada da desintegração da consciência de personalidade e, também, da atividade voluntária, de forma que a ruptura nas formas de pensamento abstrato e conceitual faz com que o indivíduo não seja capaz de orientar sua própria vontade:</p>
			<disp-quote>
				<p>En la esquizofrenia, todas las funciones superiores, todas las síntesis psicológicas superiores; incluidas la conciencia de la realidad y la autoconciencia de la personalidad, recorren el camino inverso al desarrollo y repiten en orden inverso todo el camino del desarrollo directo y la formación de esas síntesis en el período de la maduración sexual (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Vygotski, 1931/2006a</xref>, p. 197).</p>
			</disp-quote>
			<p>Considerando a importância das três condições citadas para o estudo da formação e expressão dos processos volitivos, torna-se possível pontuar alguns princípios gerais referentes à conceituação teórica vygotskiana acerca da vontade. Não obstante, uma vez que a realização do ato voluntário é filosoficamente articulada com a manifestação da liberdade humana, é imprescindível destacar seu entendimento sobre essa ideia.</p>
			<p>O autor pontua que a liberdade humana se expressa a partir da compreensão das leis naturais orientando-as para fins específicos (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Vygotski, 1931/2006a</xref>). A liberdade é, portanto, a possibilidade de apreender conscientemente situações que estão postas diante do ser humano (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotski, 1931/1995c</xref>). Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B31">Toassa (2004</xref>), encontra-se nas obras de Vygotski</p>
			<disp-quote>
				<p>a liberdade como “livre-necessidade”, “necessidade gnoseológica”: uma nova necessidade que consiste na atribuição de novos sentidos às informações sensoriais, na aprendizagem do uso de instrumentos e na criação de novos meios de domínio da realidade natural, necessidade cuja origem pode ser compreendida com base nas relações sociais mediadoras da relação homem-natureza. (p. 7)</p>
			</disp-quote>
			<p>Para o autor bielo-russo, a vontade não consiste em uma disposição meramente interna ao indivíduo, como faz supor a ideia de “livre arbítrio”, sendo, então, concebida como dependente de motivos externos: “la ilusión del libre albedrío se perde tan pronto como pretendemos analizar el determinismo de la voluntad, su dependencia de los motivos” (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotski, 1931/1995c</xref>, p. 287). Dessa forma, o ato volitivo é mediado por motivos que são externos ao momento de execução desse ato, e o domínio do próprio comportamento deverá ser analisado considerando fatores que não estarão, necessariamente, evidenciados no momento da ação, rompendo assim com o princípio estímulo-resposta.</p>
			<p>Para compreender a vontade, segundo Vygotski, é necessário ter em mente que a eleição por determinado comportamento ou ação se dá previamente a sua realização. Para o autor, esse mecanismo é estruturado pelo dinamismo que coordena a estruturação da vontade como uma função psicológica superior, que depende essencialmente da presença de motivos auxiliares, cujo papel é determinante na vontade direcionada a um fim. Por exemplo, um indivíduo que reluta em levantar da cama, mesmo sabendo que não pode mais continuar deitado, utiliza de um recurso que atua como um motivo auxiliar para se obrigar a levantar, por exemplo, contar de um até três. Ao fornecer esse exemplo, Vygotski esclarece que o motivo criado pelo sujeito, externo à sua ação, é fundamental para seu ato volitivo, pois funciona como uma ferramenta que mediatiza a escolha de levantar-se da cama e o impele a realizar essa ação (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotski, 1931/1995c</xref>).</p>
			<p>A relevância dos motivos auxiliares nesse processo também se evidencia, para Vygotski, quando se investigam situações nas quais, em tese, o indivíduo teria uma alta propensão em evitá-las, mas que a construção de um sentido ou propósito vinculado ao seu ato volitivo aumenta ou sustenta a manutenção da escolha. Por exemplo, pessoas persistem em uma greve de fome ou suportam intensa dor devido ao estabelecimento de um motivo auxiliar (por exemplo, um projeto ideológico ou uma promessa religiosa) que dá significado àquela decisão (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotski, 1931/1995c</xref>).</p>
			<p>A vontade também será considerada por Vygotski como um fenômeno paradoxal, pois gera concomitantemente atos volitivos e não-volitivos. O autor explica esse fenômeno destacando que há dois processos vinculados à ação voluntária: a decisão e a execução. A decisão diz respeito à criação de uma relação funcional entre o contexto em que o indivíduo atuará e a construção dos motivos auxiliares. Já a execução indica o momento de realização da decisão já tomada, a qual pode ser vista como um ato quase automático, predeterminado. Sustenta-se, assim, a hipótese de que os motivos auxiliares se apresentam como os fatores primordiais para o desenvolvimento e expressão da vontade, sendo distintos dos estímulos, pois geram um conflito permanente no processo volitivo, uma vez que preveem uma constituição histórica, orientada por um movimento de superação dialética (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotski, 1931/1995c</xref>).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Visando articular a manifestação do <italic>craving</italic> com o conceito de vontade como uma função psicológica superior, a compreensão da vontade por Vygotski surge como uma possibilidade de diferenciação do <italic>craving</italic> (eu quero) e da compulsão (eu vou). Isso é possível, em especial, quando o autor trata do paradoxo da vontade, expresso pelo fato de que a consecução dos objetivos da ação individual envolve tanto atos volitivos (decisão) quanto não-volitivos (execução). Nesse sentido, quando alguém afirma que usa determinada droga por ter visto um amigo usando, ou por frequentar um ambiente que traz a sua memória uma situação de uso, entende-se que a ação empreendida por ele naquele momento (usar certa droga) constitui um ato não-volitivo, que outrora fora estabelecido voluntariamente por meio da utilização de motivos auxiliares que estruturam a formação dos sentidos e significados sobre aquela substância psicoativa e o contexto de uso.</p>
			<p>Com efeito, quando o modelo neurobiológico discorre acerca dos “gatilhos” que levam ao uso de uma substância, ou quando o modelo cognitivo fala sobre crenças de controle que impedem o uso, é preciso considerar que o ato de ceder ao uso ou de evitá-lo não é estabelecido no momento em que se tem contato com o estímulo (droga), mas previamente. Nesse sentido, a vontade será apreendida em Vygotski como uma dimensão concreta da ação, levando à compreensão de que a experiência histórica e social mediatiza essencialmente a decisão sobre o uso de drogas. A perpetuação do discurso de que o uso prejudicial de determinada substância psicoativa decorre, em última instância, de uma escolha do sujeito, omite a correlação desse uso com o contexto de vida com os quais ele se defrontou e se defronta.</p>
			<p>Essas considerações também permitem problematizar a eficácia das práticas de internação às quais se recorre para o tratamento de pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas. Uma vez que se observa que a execução da ação (compulsão) não é estabelecida no momento em que há contato com a droga, e sim anteriormente, como um processo de decisão (<italic>craving</italic>) que se estrutura a partir de circunstâncias concretas da vida em sociedade, é controverso defender que o afastamento da droga promoveria a desintegração de um conjunto de relações que fomentam a persistência no uso.</p>
			<p>As pesquisas sobre o <italic>craving</italic> ora revisadas evidenciaram uma correlação positiva entre a qualidade de vida e a resistência à fissura, de modo que se torna importante conjecturar sobre as condições viabilizadas por instituições com características asilares no tratamento de usuários de álcool e outras drogas. É importante ressaltar que a atenção à qualidade de vida dos indivíduos requer que se promova o acesso a bens e serviços essenciais e condições de vida dignas, pois assim será possível constituir novos conjuntos de representações simbólicas, ou seja, novos motivos auxiliares, que direcionarão a vontade para fins que sejam menos danosos com relação àqueles advindos do uso problemático de drogas.</p>
			<p>No que tange à investigação sobre a hipótese do <italic>craving</italic> como alteração da vontade enquanto uma função psicológica superior, foi importante considerar os estudos desenvolvidos por Vygotski a respeito da histeria, da afasia e da esquizofrenia, nos quais o autor demonstrou que nessas condições ocorreria uma regressão a estados inferiores das funções psicológicas. Um ponto crítico destacado por Vygotski para o entendimento conceitual dessa regressão consistiu em observar alterações dos processos da consciência e do pensamento.</p>
			<p>Considerando que as manifestações do <italic>craving</italic> envolvem a constituição de sentidos acerca dos benefícios oferecidos pela droga (prazer), ou pela retirada de sensações que são negativas (desprazer), durante o uso, pode-se perceber que há uma lógica estruturante criada pelo próprio usuário na relação estabelecida com a droga. Tais sentidos correspondem ao princípio da mediação dos signos no desenvolvimento das funções psicológicas superiores proposto por Vygotski, no qual admite-se que é precisamente pela introdução de estímulos artificiais, ou seja, aqueles que o próprio indivíduo confere significado, que o homem atua como o que “forma desde fuera conexiones en el cerebro, lo dirige y a través de él, gobierna su propio cuerpo” (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vygotski, 1931/1995b</xref>, p. 85).</p>
			<p>Assim, quando o <italic>craving</italic> leva a um ato de consumo, pode-se observar que se trata da manifestação de um ato não-volitivo que constitui um segundo momento da vontade direcionada para um fim (função psicológica superior). Todavia, não há nesse contexto uma regressão a um estado psicológico rudimentar, mas sim a expressão de uma ação que é decorrente da estruturação do pensamento e da consciência por meio dos motivos auxiliares. Vale salientar que apreender o <italic>craving</italic> como uma ação governada pelos processos psicológicos superiores decorre de uma análise histórica do fenômeno da vontade que demonstra a presença de múltiplos determinantes e condicionantes no complexo de relações que mediatizam a atividade humana. Sendo assim, a defesa da proposição de que não há uma regressão das funções psicológicas na manifestação do <italic>craving</italic> ultrapassa concepções dualistas, como as usadas nos modelos comportamentais, neurobiológicos e cognitivos, nos quais a relação estímulo-resposta é, em última instância, o “gatilho” para o uso das substâncias psicoativas.</p>
			<p>Além disso, considerando que a vontade permanece sendo expressa como uma função psicológica superior na manifestação do <italic>craving</italic>, observa-se que linhas de mínima resistência podem se tornar de máxima a fim de que se consiga ter acesso à droga. Esse fato é observado, por exemplo, quando <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al. (2011</xref>) afirmam que</p>
			<disp-quote>
				<p>O esforço despendido para a obtenção de <italic>crack</italic> não é proporcional ao seu retorno. L28FU8m [sujeito da pesquisa] relatou ter desmontado seu guarda-roupa e ter andado com ele nas costas até a <italic>boca</italic> (local onde se vende drogas) em troca de duas pedras de <italic>crack</italic> (p. 1172, grifos do autor).</p>
			</disp-quote>
			<p>Dessa forma, a manifestação do <italic>craving</italic> se trata de um fenômeno social, cultural, histórico e singular. Nesse sentido, as estratégias de manejo que podem ser depreendidas da discussão do conceito de vontade em Vygotski envolvem não apenas um engajamento do indivíduo quanto ao seu desejo de interromper o uso, mas inclui também toda a lógica social, política e histórica que preside a construção dos significados sobre o uso de drogas. Nesse sentido, levando-se em conta as proposições do autor bielo-russo, programas de tratamento que pretendam lidar apropriadamente com o <italic>craving</italic> não podem restringir-se meramente ao manejo mais imediato de suas manifestações, mas devem incorporar oportunidades que possibilitem ao indivíduo elaborar os motivos e as decisões envolvidas na origem e no desenvolvimento de um padrão problemático de uso de álcool e outras drogas.</p>
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				<mixed-citation>Vygotski, L. S. (2006a). Desarrollo de las funciones psíquicas superiores em la edad de transición. In L. S. Vygotski, Obras escogidas: psicología infantil (Vol. 4, 2a ed., pp. 117-203). Boadilla del Monte, Espanha: A. Machado Libros. Trabalho original publicado em 1931).</mixed-citation>
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							<surname>Vygotski</surname>
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					<year>2006</year>
					<chapter-title>Desarrollo de las funciones psíquicas superiores em la edad de transición</chapter-title>
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					<source>Obras escogidas: psicología infantil</source>
					<volume>4</volume>
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					<comment>Trabalho original publicado em 1931</comment>
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				<mixed-citation>Vygotski, L. S. (2006b). El desarrollo del pensamiento del adolescente y la formación de conceptos. In L. S. Vygotski, Obras escogidas: psicología infantil (Vol. 4, 2a ed., pp. 47-116). Boadilla del Monte, Espanha: A. Machado Libros . (Trabalho original publicado em 1931).</mixed-citation>
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					<chapter-title>El desarrollo del pensamiento del adolescente y la formación de conceptos</chapter-title>
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					<comment>Trabalho original publicado em 1931</comment>
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			<ref id="B43">
				<mixed-citation>Zeni, T. C., &amp; Araujo, R. B. (2011). Relação entre o craving por tabaco e o craving por crack em pacientes internados para desintoxicação. Jornal Brasileiro de Psiquiatria , 60(1), 28-33.</mixed-citation>
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					<article-title>Relação entre o craving por tabaco e o craving por crack em pacientes internados para desintoxicação</article-title>
					<source>Jornal Brasileiro de Psiquiatria</source>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>The will in Vygotsky: contributions to the understanding of the “craving” in drug addiction</article-title>
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					<institution content-type="original">Universidade Federal de São João del-Rei, Departamento de Psicologia. São João del-Rei, MG, Brasil</institution>
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			<author-notes>
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					<label>*</label> Corresponding address: <email>julialoren12@hotmail.com</email>
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			</author-notes>
			<abstract>
				<title>Abstract</title>
				<p>Craving is a central issue in the care of people with problems due to the use of alcohol and other drugs, and is considered an inability to control the desire for consumption. However, there is no clear definition of this phenomenon. We investigated the concept of will in the works of Lev S. Vygotsky (1896-1934), considering that his approach could contribute to understanding the craving. We reviewed the literature on craving and performed a focal analysis of the concept of will in selected texts by Vygotsky. Despite the controversies over the definition of the craving phenomenon, Vygotsky’s proposition that the will is a superior psychological function mediated by auxiliary motives makes it possible to deepen the understanding of the craving. Craving management thus depends not only on individual initiative, but also on questions about the social, political, and historical logic that presides over the meanings of drug use.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>craving</kwd>
				<kwd>Vygotsky</kwd>
				<kwd>will</kwd>
				<kwd>drugs</kwd>
			</kwd-group>
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		<body>
			<sec sec-type="intro">
				<title>Introduction</title>
				<p>Public policy actions related to the use of alcohol and other drugs have mainly focused on healthcare and law enforcement and public safety issues. In the context of law enforcement, President Richard Nixon’s 1972 pronouncement that “heavy drugs” were the United States’ main enemy is a landmark in the “war on drugs” doctrine (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Fiore, 2012</xref>). Currently, however, many people point out that the prohibitionism has not been able to reduce the production and access to illicit drugs, despite the huge investments to eliminate the circulation of illicit psychoactive substances. The repression and criminalization initiatives needed to enforce the prohibition of drugs have led to a questionable hardening of the criminal legislation related to drug trafficking (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Karam, 2008</xref>).</p>
				<p>In order to legitimize repressive measures, it was argued that drugs represented a problem both individually and collectively, and its consumption was a moral and social issue (<xref ref-type="bibr" rid="B25">Rodrigues, 2012</xref>). However, political and economic concerns underlie the supposed interest in health and public safety: “The war on drugs has become both an exercise in social control and a strategy for the expansion of the neoliberal economy through the exercise of power and violence” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Passos &amp; Souza, 2011</xref>, p. 155). The result of this “war” was the growth of the global drug market, as well as the reduction of resources for the implementation and development of policies to reduce risks and damages associated with drug use, in other words, of preventive measures (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Global Policy Commission on Drugs, 2011</xref>).</p>
				<p>Harm reduction strategies (HR) aim for a comprehensive approach to the human being, regardless of drug use pattern, socioeconomic level, and so on. HR initiatives intend to enhance the “ethical and human aspects of the relationship between health policies and drug users” (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Santos, Soares, &amp; Campos, 2010</xref>, p. 996). HR is usually opposed to a perspective that uses abstinence at the beginning, middle, and end of the treatment for all users of alcohol and other drugs.</p>
				<p>When thinking about illicit drugs - especially when it is not mentioned that psychoactive substances like alcohol, tobacco, solvents, and psychotropic medications are just legalized drugs - there is a tendency to associate them with various signs of “evil”: crime, illegality, addiction, uncontrolled behavior, perversion, etc. However, it is necessary to distance ourselves from a moralistic discourse and to appreciate the historical-social and socio-cultural determinants of the consumption of psychoactive substances. In this sense, the human conscious activity must be historically contextualized by the particularity of the circumstances in which it takes place, understanding that it cannot be reduced to the mere expression of a biologically or psychologically considered organism (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Luria, 1991</xref>).</p>
				<p>Taking into account the broader framework of the “economy of drug trafficking”, illicit psychoactive substances, as well as the licit ones, are part of the goods produced, distributed, sold, and consumed within the capitalist mode of production. In the case of licit drugs, the advertising, the arts, and the media have created a place for them as products of the cultural industry and as consumer items made a fetish. As <xref ref-type="bibr" rid="B30">Tiburi and Dias (2013</xref>) argue, “since the market is a moral standard in a society calibrated by capital, we consider good what can be bought and sold, if one can or wishes to buy it” (p. 65).</p>
				<p>In this way, the debate about drug policies transcends purely technocratic aspects, with several elements that cross and touch the relationship between drug use, history, society, and culture. With specific regard to the treatment of people with drug use problems, the “craving” has been highlighted as a phenomenon that creates significant challenges to health care services. Even though the discussion about cravings has first arisen in treatment strategies that prioritize abstinence as a method, craving management is also important in services adopting the HR ethical-political approach. Thus, it is necessary to consider that the production of knowledge about craving will be permeated by scientific-philosophical foundations that need to be duly discussed, demanding an analytical and interpretative attitude towards the phenomenon.</p>
				<p>Craving refers, in most cases, to a body and mental condition of intense desire to use a certain psychoactive substance, manifested by a certain individual, and directed to a drug previously consumed. This description is the most used. The users themselves often attribute to their cravings the inability to control their desire for drug use, which would lead them to rob, steal or defraud. Craving is considered an important factor in maintaining the harmful use of alcohol and drugs, as well as in relapsing in periods of abstinence or not.</p>
				<p>The studies about craving show a variety of understandings of its meaning and manifestation, using different theoretical-methodological frameworks for research and approach, reinforcing the importance of debating them (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo, Oliveira, Nunes, Piccoloto, &amp; Melo, 2004a</xref>). The conceptual and methodological studies highlight the need to broaden and diversify the investigations into this phenomenon, aiming at developing new strategies for assessment and intervention. As stated by <xref ref-type="bibr" rid="B4">Araújo, Oliveira, Pedroso, Miguel and Castro (2008</xref>),</p>
				<disp-quote>
					<p>there is no single way to measure the craving that serves all situations, but new research is necessary so that craving evaluation can help to better define this construct, as well as its related factors. (p. 61)</p>
				</disp-quote>
				<p>Given this panorama, which involves historical, economic, social, epistemological, and technical aspects related to drug consumption and craving, some questions arise: Is it possible to understand the craving more comprehensively, without reverting to extremes or to biological or environmental reductionism? To what extent does this discussion help us understand the origin and progression of cravings?</p>
				<p>The concept of will as a superior psychological function was addressed by the Belarusian psychologist Lev Semyonovich Vygotsky (1896-1934), recognized as the founder of the cultural-historical theory of the development of higher psychological functions. It is interesting to note that, based on common sense, the control of the will to use, or in other words, the need to have the “willpower” to go against the impulse to use, is considered a central element for the engagement (or not) in the treatment of problems arising from the use of alcohol and other drugs.</p>
				<p>Several studies emphasize the importance of investigating craving, outlining its concept, implications, origins, etc., so that new treatments and intervention techniques can be elaborated, since cravings are an important element in the problematic use of alcohol and drugs (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Araújo et al. , 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Vela, Abadías, Vidal, Munuera, &amp; Carvacho, 2004</xref>). Given that there is a need to understand psychological events related to the relationship between drug use and craving, a systematization of the concept of will in Vygotsky may be a promising route for a more comprehensive understanding of the phenomenon.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="methods">
				<title>Methods</title>
				<p>The bibliographic research was the general methodological approach adopted in this conceptual study. For <xref ref-type="bibr" rid="B18">Lima and Mioto (2007</xref>), this method “implies an ordered set of procedures for finding solutions, attentive to the object of study, and therefore cannot be random” (p.38). Thus, the available information analyzed about the topic was collected in bibliographic databases. Maintaining a methodological rigor is extremely important in conducting research studies; however, as <xref ref-type="bibr" rid="B24">Prestes (2012</xref>) states: “One must not be afraid to dare and to innovate. Methodological rigor in any research is also a creation” (p. 407).</p>
				<p>Some guiding questions were then posed: Is it possible that a systematization of the concept of will contributes to the understanding of craving as a phenomenon of the treatment process? Can the study of the concept of will - based on the cultural-historical theory of the development of higher psychological functions of Vygotsky - help to create methods and techniques of treatment, especially for practitioners and people seeking to handle drug-use cravings?</p>
				<p>The first stage of the study was to elaborate further the definition of craving, seeking to clarify the gaps in the scientific literature. In order to collect the information to be analyzed, the following academic databases were used: Scientific Electronic Library Online (SciELO), Latin American and Caribbean Literature in Health Sciences (LILACS), and Psychology Electronic Periodicals (PePSIC). The searches were made using the following terms: “craving”, “<italic>fissura</italic>” (portuguese for “craving”), “will”, and “dependence on alcohol and other drugs”.</p>
				<p>The second stage was to analyze the concept of will proposed by L.S. Vygotsky in certain texts of the author available in his <italic>Obras Escogidas</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky, 1995a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B35">1995b</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B36">1995c</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B37">1999</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B38">2001a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B39">2001b</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B40">2003</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B41">2006a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B42">2006b</xref>). The selection was based on the study of <xref ref-type="bibr" rid="B29">Selau and Boéssio (2012</xref>) on the concept of will in the works of Vygotsky. Whenever possible, we used the texts available in Portuguese in two compilations published by Martins Fontes: <italic>Construção do pensamento e da linguagem</italic> (development of speech and thinking, 2001) and <italic>O desenvolvimento psicológico na infância</italic> (psychological development in childhood, 2003).</p>
				<p>Next, in the third stage, as a procedure aimed at categorizing the results, the following files were prepared: a) an analysis of existing definitions of craving; and b) a revision of the development and applicability of the concept of will in the works of Vygotsky, creating theoretical schemes to facilitate the systematization of concepts. Finally, a data analysis was performed in order to verify the hypothesis that it is possible to understand the craving based on the concept of will, by identifying and describing to what extent it is possible to conceive of it as an alteration of this higher psychological function based on the literature addressed.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>What is drug craving?</title>
				<p>In 1954, in view of the controversies about the concept of craving arising from different understandings of the phenomenon due to the different explanatory models, two committees of experts met to define the meaning of the term in the scientific context: the Expert Committee on Alcohol and the Expert Committee on Mental Health of the World Health Organization. At that time, drug craving was defined as an urgent or uncontrollable urge for drug consumption, which could be divided into: a) physical craving, as in the case of withdrawal symptoms; and b) symbolic desire, as a trigger for both overuse and relapse (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski &amp; Wilkinson, 1987</xref>).</p>
				<p>One of the most influential conceptualizations on the subject is in the theoretical formulations of Alan Marlatt. This author proposed a phenomenological definition and, in his early studies, conceptualized the craving as a strong desire for the relief of unpleasant symptoms of withdrawal (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski &amp; Wilkinson, 1987</xref>). However, while the investigations advanced, Marlatt also identified in the craving a subjective state mediated by the expectation of positive results associated with the use of a given drug (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Marlatt, 1987</xref>).</p>
				<p>These first studies led to the technical definition of the term, aiming to encompass the necessary contextualization to understand better the phenomenon. <xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski and Wilkinson (1987</xref>) proposed asking clear and direct questions to drug users about their experience with cravings, considering the need to articulate both the desire to use and the decision to use in the definition.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo et al. (2004a</xref>) revisit what Alan Marlatt said about the distinction between cravings and compulsion. The craving would be a subjective desire for the effects of a given drug, while compulsion would be the behavioral intent of using the substance (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Marlatt, 1987</xref>). Thus, the craving, being associated with desire, encompasses the dimension of the “I want”, while the compulsion would occupy the dimension of the “I will”, directing the behavior to the act of consumption.</p>
				<p>We can observe that the distinction between desire and intention to use makes it possible to discriminate two distinct manifestations of the craving. <xref ref-type="bibr" rid="B4">Araújo et al. (2008</xref>), in their review, seeking a more comprehensive and multidimensional approach, list four elements in the phenomenon of the craving: 1) desire for the substance; 2) anticipation of the positive results of consumption; 3) relief of withdrawal symptoms; and 4) the intent to use.</p>
				<p>Currently, most researchers describe this phenomenon as an intense desire to use a particular substance. Its manifestation may occur at three times: during use, throughout the detoxification phase, and after prolonged periods of discontinuation of the substance use (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo et al., 2004a</xref>). It is also known that the “craving sensation has physiological, cognitive, affective, and behavioral components” (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos, Rocha, &amp; Araújo, 2014</xref>, 122) and that, therefore, its analysis and management strategies must take account of a large set of factors. Since craving is an individual experience, it is necessary to develop a personalized plan for treating each subject (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos et al., 2014</xref>).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Main explanatory models for craving</title>
				<p>In the <italic>neurobiological model</italic>, the craving may be triggered by things such as images, sounds, odors, and environmental contexts. These triggers can be internal or external cognitive cues that are in some way related to drug use. This relationship is established by pairing repeated drug use with internal or environmental variables, stored together in memory.</p>
				<p>Because of this pairing, a person’s neural circuits become hypersensitive to drug-related stimuli, triggering a strong desire to consume. Consequently, the main strategy for craving management in this framework is to recognize the triggers that induce this strong desire in order to avoid situations in which they are present (<xref ref-type="bibr" rid="B43">Zeni &amp; Araujo, 2011</xref>).</p>
				<p>In the cognitive framework, on the other hand, external/environmental and internal situations are involved in the process of relapse of someone seeking to stop using a particular drug. Mood swings, for example, will activate core beliefs of an individual and beliefs regarding the addictive use of a substance. These beliefs will trigger automatic thoughts that will lead to the craving (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>). Also present in this model is the understanding that situations that stimulate drug use involve the relationship between additive beliefs and control beliefs:</p>
				<disp-quote>
					<p>Physiological craving symptoms, often experienced as strong anxiety, “trigger” permissive additive beliefs (such as “I will use only a little”) that may lead to substance use. Along with these additive beliefs, which are associated with the pursuit of pleasure (or relief from displeasure) and feelings of well-being, the patient may also present control beliefs (such as “I will be harmed by using”), which may lessen the need to consume the psychoactive substance (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>, p. 122).</p>
				</disp-quote>
				<p>The craving management techniques proposed by this framework involve coping strategies that seek to strengthen control beliefs. Among the main techniques, it is worth mentioning the replacement by positive image (RPI), which is the visualization of the benefits arising from the interruption of the use of a substance, seeking to strengthen self-efficacy during withdrawal (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al, 2014</xref>).</p>
				<p>The behavioral framework advocates the differentiation between craving and compulsion, the former being the motivational desire and the latter the behavioral intention. In the process of conditioning that comprises the manifestation of craving, however, these two phenomena are articulated. Thus, an external stimulus (conditioned stimulus - CS) - for example, the sight of a pack of cigarettes - triggers a craving (conditioned response - CR), which then leads to a compulsive behavior, which may or may not be followed by a substance use response and its consequent reinforcing stimuli (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Marlatt, 1987</xref>). The management strategies adopted according to this framework, therefore, promote a new conditioning in relation to drug use, especially by controlling the environmental variables, so that the conditioning that triggers the craving becomes extinct.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Strategies, tools, and modalities of craving assessment</title>
				<p>The assessment of the craving, in research or professional practice, follows mainly quantitative approaches. However, the lack of consensus on the conceptualization of the phenomenon generates different evaluations of what needs assessment as elements of the craving. In addition, in theory, certain aspects could characterize better the craving than others could, making it difficult to investigate because its manifestations differ from person to person (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Corrêa Filho &amp; Baltieri, 2012</xref>).</p>
				<p>In relation to quantitative approaches, the main tools used to assess the craving are: a) Scale for craving evaluation, consisting of 11 questions that assess the manifestation of the craving in the first three days of hospitalization; b) Questionnaire of Smoking Urges and Questionnaire of Smoking Urges - Brief, the first consisting of 32 questions and the second of 10, both evaluating the craving for tobacco; c) Visual Analog Scale for Craving, consisting of a scale ranging from zero to 10 in which the user chooses the note that best defines the craving level; d) Cocaine Craving Questionnaire - Brief and Cocaine Craving Questionnaire - Brief - Brazilian Version Adapted for Crack Cocaine, the first one evaluating craving for cocaine and the second for crack, both of which consist of a Likert scale ranging from one to seven, composed of ten questions; e) Obsessive Compulsive Drinking Scale (OCDS), a Likert-type scale comprising 14 questions, ranging from zero to four; and f) Marijuana Craving Questionnaire - MCQ-SF / Brazil Version, containing 12 items measured in a Likert scale ranging from 1 to 7 (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo et al., 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6">Araújo, Pedroso, &amp; Castro, 2010</xref> , <xref ref-type="bibr" rid="B1">Araújo et al., 2011</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B7">Balbinot et al., 2011</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B8">Balbinot, Araujo, &amp; Santos, 2014</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Corrêa Filho &amp; Baltieri, 2012</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B23">Pedroso, Castro, &amp; Araujo, 2009</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B26">Santos et al., 2014</xref>).</p>
				<p>Regarding the qualitative analyses, <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves, Sanchez, Ribeiro, and Nappo (2011</xref>) present a craving investigation method in which, in order to evaluate the cracking, the researchers conducted an interview with users of crack cocaine seeking to investigate values, beliefs, and representations associated to the consumption. The interview topics sought to ascertain the socio-demographic profile, the history of crack use, the crack-use effects, the craving experience and its consequences, risk behaviors associated with the craving, the compulsive use of crack (binge), and the aggressiveness related to crack-use cravings “(<xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al., 2011</xref>, p. 1170). The study of the main beliefs, values, and representations observed by these authors showed that the craving is the main factor that prevents abstinence, causing users to submit themselves to situations that they would not accept otherwise, such as prostitution, manipulation of people, indebtedness, and the involvement in thefts and robberies.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Other relevant research findings on craving</title>
				<p>The investigations related to the craving emphasize mainly the factors associated with the phenomenon. Regardless of the basic explanatory model, it is evident the importance of identifying the internal (motives) and external (needs) situations that trigger it. <xref ref-type="bibr" rid="B43">Zeni and Araújo (2011</xref>) identified that consuming alcohol, feeling intense emotions, having cash, seeing crack users, and feeling alone are triggers for crack-use craving. <xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo et al. (2007</xref>) identified positive, but low, correlations between the craving for tobacco and symptoms of depression and anxiety and the number of cigarettes smoked per day, but no correlation was found in relation to age, schooling, age at which smoking began, or motivation to stop smoking. Dreaming of alcohol also showed a positive association with cravings for it (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Araújo, Oliveira, Piccoloto, &amp; Szupszynski, 2004b</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B8">Balbinot et al. (2014</xref>), on the other hand, demonstrated an association between heart-rate alterations and cravings, thus showing that a physiological parameter could be used to analyze cravings.</p>
				<p>The strategies for craving management or control are also widely discussed in the research literature. They range from therapeutic strategies, such as the use of the cognitive technique of replacement by positive image, to techniques developed by the users themselves, such as eating, finding satisfaction in routine activities, and using benzodiazepines (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos et al., 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al., 2011</xref> ). <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al. (2011</xref>) emphasize that control techniques are unique to individuals, but that “the greater the satisfaction of the subject with his own life, the less chance of succumbing to cravings” (p.1173).</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B23">Pedroso et al. (2009</xref>) point out the need to further research the particularities of the use of each psychoactive substance and of craving manifestations, because “desire can only be understood in its relation to the desired object and to the consequences of its fulfillment” (p. 219). In addition, it is important to differentiate between the distinct phenomena of craving and compulsion, in order to understand the particularities inherent in the desire for drug use.</p>
				<p>With respect to pharmacological treatments, <xref ref-type="bibr" rid="B11">Corrêa Filho and Baltieri (2012</xref>) point out that there are currently four drugs approved by the Food and Drug Administration for the treatment of alcoholism, and oral and injectable acamprosate and naltrexone have demonstrated some efficacy in alleviating craving symptoms, contributing to abstinence. However, the authors state that these results are inconclusive.</p>
				<p>While some researches advocate hospitalization as a strategy to control the craving, others suggest that it is unnecessary. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Araújo et al. (2004a</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B5">Araújo et al. (2004b</xref>), <xref ref-type="bibr" rid="B7">Balbinot et al. (2011</xref>), and <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al. (2011</xref>) understand that hospitalization should be considered because it would keep the user away from the context and the people with whom the use occurs. The research of <xref ref-type="bibr" rid="B2">Araújo et al. (2007</xref>), in this sense, is worthy of attention. The authors analyzed the tobacco craving since the beginning of the abstinence period, with three evaluation intervals in the experimental model: zero minutes, 30 minutes and 60 minutes. The authors observed that the increase in the tobacco craving was directly proportional to the period of abstinence. Nevertheless, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Kozlowski and Wilkinson (1987</xref>) pointed out the observation of <xref ref-type="bibr" rid="B12">Glassman, Jackson, Walsh, Roos, and Rosenfeld (1984</xref>), for whom the most immediate, consistent and severe symptom of the suspension of tobacco use is the craving. These data may be a warning about the sudden withdrawal of a drug, as usually occurs in abstinence approaches that have hospitalization as a corollary.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos, Rocha and Araújo (2014</xref>), in a study carried out in an inpatient setting, noticed that during exposure to materials related to crack cocaine:</p>
				<disp-quote>
					<p>some patients reported that they felt the craving in an attenuated way, because they were in a protected, continent environment and away from the access [to crack cocaine]. In other patients, on the contrary, an intense craving becomes apparent, also perceived by physical symptoms such as tremors, sweating and restlessness (p. 125).</p>
				</disp-quote>
				<p>Thus, the promotion of the user’s well-being is the management strategy that has shown the best results, and this aspect pervades the understanding of the craving in the different models that explain the phenomenon.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Understanding the will in the work of L. S. Vygotsky</title>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotsky (1925/1999</xref>) states that any movement/gesture is performed, initially, unconsciously; the will generates a movement, an act, actions, words; then it causes a secondary reaction, that is, the meaning given to the movement performed becomes the basis of the consciousness. In this sense, the historical and social experience precedes the consciousness. It is important to note that in talking about the unconscious actualization of a movement/gesture based on the historical and social foundations of the human being, Vygotsky makes no reference to a possible “coded language” of psychological processes as proposed by psychoanalysis. The proposition of an unconscious movement in Vygotsky translates into an action that has not yet been signified in the historical, cultural and relational context of the individual, but which is actualized in correspondence with the human universality (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Santos &amp; Leão, 2014</xref>).</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky (1931/1995</xref>) also points out in experimental researches conducted with his collaborators that what characterizes the domain of the conduct is the possibility of choosing something among several options. He shows that the choices are directed by auxiliary motives, which consist of the result of the different experiences in the life of a certain person. It is important to note that the auxiliary motives do not control the decisions, but they do influence them. Expanding the analysis of the concept, Vygotsky demonstrates that the will is developed, being, therefore, a product of the culture of each human being (<xref ref-type="bibr" rid="B29">Selau &amp; Boéssio, 2012</xref>).</p>
				<p>After undertaking a comprehensive review of psychological investigations into the human development up to the mid-1920s, Vygotsky and his colleagues note a difficulty to be overcome regarding the method of inquiry in psychology. For him, most psychological theories focus on the investigation of the relationship between stimulus and response, without considering the historical factors that constitute the relationship between these two phenomena. Because of this, he proposes the historical methodology as a new form of investigating psychological phenomena (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky, 1931/1995a</xref>).</p>
				<p>The historical study of human development processes must examine the phenomena in movement, considering, therefore, the dialectical constitution of the elements in question, in a process of successive incorporation by overcoming (<italic>aufhebung</italic>) in which it is necessary to apprehend stages and changes from the arrival to the decadence. In order to justify the pertinence of this new research route, Vygotsky proposes that just as there are in animals and plants rudimentary organs, which are currently inactive, but which are fundamental for understanding the development of these beings, the same also occurs with the psychological functions of the human being. Therefore, understanding the permanent movement of creation, stability and transformation of the psyche consists in realizing that the historicity of the human being reflects a psychological construction that changes, but also conserves, that is, it is actualized as the negative internalize elements of its contrary in a new configuration. In this sense, it would be apt to define, based on the cultural-historical psychology, the concepts of lower and higher psychological functions (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky, 1995a</xref>).</p>
				<p>The lower (or elementary) psychological functions comprise those of a rudimentary character, determined, above all, by the biological characteristics of the psyche. These functions are, over time, overcome by the development of higher psychological functions, such as conceptual thinking, voluntary attention, logical memory, and the will directed to an end. The higher psychological functions are products of a cultural development and have as a peculiar feature the fact that, unlike lower functions, they are not formed by the simple relationship between a stimulus and a response, because there are intermediate stimuli in this relationship (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vygotsky, 1931/1995b</xref>). Thus, the overcoming present in the higher psychological functions highlight the mediating function of the intermediate stimuli:</p>
				<disp-quote>
					<p>What is new is that it is man himself who creates the stimuli that determine his reactions and uses these stimuli as means to master the processes of his own behavior. It is man himself who determines his behavior with the aid of artificially created intermediate stimuli (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky, 1931/1995a</xref>, p. 77).</p>
				</disp-quote>
				<p>The higher psychological functions thus have the specificity of being historically constituted by the human being himself, who introduces artificial stimuli in the quest to control and to give meaning to his behavior. This purpose will be achieved through signs, which act from outside the organism. Thus, all psychological functions are based on mediation processes (that is, they are not immediate responses) that incorporate the “use of signs as a fundamental means of orientation and mastery of psychic processes” (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Vygotsky, 1932/2001a</xref>, p. 161). Signs, therefore, are mediating stimuli that allow man to influence himself, dominating his psychological activity, and that also allow him to influence others, providing a new orientation or restructuring of psychological functions (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky, 1931/1995a</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B35">1931/1995b</xref>).</p>
				<p>The study of the role of signs in human development is related to the very structuring of the consciousness, as it shows that the body can constitute itself as an exciter of man, through his own actions and in the face of the actions of others: “It is conscious what is transmitted to other systems as an exciter and causes in them a response. Consciousness is always an echo, an apparatus of answers” (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotsky, 1925/1999</xref>, pp. 71-72). This understanding of consciousness encompasses Vygotsky’s first conception of this phenomenon. For <xref ref-type="bibr" rid="B32">Toassa (2006</xref>), there are two other definitions in the author’s work: consciousness as an attribute and as a psychological system existing between man and the environment, and regarding the latter, which surpasses the others by incorporation, the use of the word highlight the distinctive character of the sign among the other stimuli. This analysis, considering the advances in Vygotsky’s work (<xref ref-type="bibr" rid="B39">1932/2001b</xref>), admits that “thinking and language are the keys to understanding the nature of the human consciousness” (p. 485), so that “in the consciousness, the word is precisely what, according to Feuerbach’s expression, is absolutely impossible for one man and possible for two. It is the most direct expression of the historical nature of the human consciousness” (p. 486).</p>
				<p>According to Vygotsky, understanding the will as a higher psychological function is fundamental to describe the essence of consciousness, because it operates in a systemic interrelationship with the other psychological functions in its constitution. This occurs because the volitional act depends on a historical experience that enables a social experience, giving man the illusion that he thinks about doing something and that is the cause of doing so, thus characterizing the conscious aspect of the expression of the will that causes an action (<xref ref-type="bibr" rid="B37">Vygotsky, 1925/1999</xref>). Because it is a higher psychological function, the will can only be completely unveiled by the historical scientific method, since its expression will reflect the overcoming of rudimentary aspects of the human psyche. Thus, in order to understand the will, it is necessary to understand the socio-cultural determinants of the integral expression of the human behavior, including the manifestations of the consciousness, and to identify the ways in which signs work as auxiliary means of human activities (<xref ref-type="bibr" rid="B34">Vygotsky, 1995a</xref>).</p>
				<p>Spiritualistic approaches permeate the study of the will, accepting, for example, the idea that there are unidentifiable forces that act outside the body and that lead human beings to either dominate their nature, as when voluntarily resisting pain, or to yield to their instincts. William James, for example, asserted that the possibility of resisting pain stems from the “presence of the flow of a certain spiritual energy which, by joining the weaker impulse, is able to secure victory over a stronger factor” (<xref ref-type="bibr" rid="B40">Vygotsky, 1932/2003</xref>, page 138). However, the Vygotskian proposition differs from the others in admitting the possibility of investigating the means by which it is possible to dominate one’s own behavior (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vygotsky, 1995b</xref>). In this sense, the will is a concrete phenomenon of the human existence and, therefore, is subject to scientific inquiry.</p>
				<p>The higher functions overcome the lower functions (<italic>aufhebung</italic>). Based on this assumption, Vygotsky set out to study pathologies that cause psychological changes, hypothesizing that these diseases would alter the ontogenetic development in ways that require an assessment. To justify this hypothesis and explain the overcoming character of higher psychological functions, Vygotsky compares hysteria, aphasia, and schizophrenia, in order to determine what is essentially new in the higher psychological functions, especially regarding attention, memory, perception, thinking, and the will. For him, in these three conditions the changes in the thinking process are central (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>).</p>
				<p>Vygotsky considers that, in hysteria, the psyche is very prone to impulsive emotional discharges. This means that in this condition the will directed to an end transmutes into control the hypobulia, a kind of lower psychological function of the will that is more subject to the impulsive mechanisms of the emotions. Because it is a higher psychological function, the will prevails by incorporating the previous state (inferior), classified by Vygotsky as hypobulic. In this sense, the disease manifests itself due to some event that caused the disintegration of the will as a higher psychological function, allowing the lower instances, preserved in the process of overcoming, to assume their maximum expression again according to the primitive laws that govern them (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>).</p>
				<p>In these circumstances, the will is not directed to an end, and its expression in hysterics is regressed: “it is not that hysterics have little willpower, what they do not have is a firmness of purpose. The weakness of the objective is, precisely, the psychic essence of the state that afflicts a great number of chronic hysterics” (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 2006a</xref>, p.171). The absence of this “firmness of purpose” enunciated by Vygotsky corroborates some of the peculiarities he identifies and attributes to the will, such as governing one’s own self and behavior, setting goals and directing actions taking into account the consequences they produce (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>).</p>
				<p>According to <xref ref-type="bibr" rid="B15">Fonseca-Janes and Lima (2013</xref>), it is possible to discern distinct steps in the development of the psychological function of thought in Vygotsky’s work: a) syncretic thinking, in which there is an aggregated and disorganized manifestation of cognitive contents; b) complex thinking, characterized by the grouping of objects based on the representations one has about them and not on their stable characteristics; and c) conceptual thinking, which expresses “a deep and broad reflection of the reality of an object in all its diverse complexity, and of the nexus and relationships between it and the rest of reality” (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006</xref>, 80). In this sense, Vygotsky affirms that thinking plays a central role in the development of all higher psychological functions, that is, of the integral process of consciousness, and that thinking in concepts makes it possible to structure the will directed to an end. Thus, hysteria is also a disturbance of the intellectual activity that guides behavior (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>).</p>
				<p>Considering specifically the contributions of his studies on hysteria, one can see that the process of development of the will, according to Vygotsky, is based on the following stages: 1) maximum expression of impulsive and emotional states; 2) overcoming hypobulia as an independent instance; and (3) emergence of an end-oriented will. By understanding this process and identifying the regression that occurs in cases of hysteria, it becomes possible to think about how this regression to a lower state is also expressed in other pathologies (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>).</p>
				<p>In cases of amnesic aphasia, in which there is a dissociation from the capacity for concept formation, impairing the use of language as a means of communication, the will also regress to its lower state, because there is no symbolic formation of the action, affecting the possibility of structuring intentions and making decisions based on the will. This fact shows another important characteristic of the will as a higher psychological function: it is possible to associate it with the symbolic formation of thinking and to perceive that the volitional action begins even before its execution (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>).</p>
				<p>The cases of aphasia also highlight the importance of mediation structures for the expression of the will. <xref ref-type="bibr" rid="B13">Goldstein (1950</xref>) describes the case of a patient who could not obey a command to ‘close his eyes’, but when asked to simulate how his eyes stayed when he slept was then able to close them. Referring to this report, <xref ref-type="bibr" rid="B40">Vygotsky (1932/2003</xref>) infers that when the patient pretends to be asleep, the closing of the eyes does not result from an action of control of his own body, but is only a reflex action. This example corroborates Vygotsky’s idea that the will directed to an end is not regulated by a simple relationship between a stimulus and a response, but is necessarily permeated by auxiliary stimuli/means that form the signs and are fundamental to controlling volitional acts.</p>
				<p>Vygotsky also analyzed Schizophrenia regarding changes in the will. For him, the manifestation of this condition is accompanied by the disintegration of both the personality awareness and voluntary activities, so that the rupture in abstract and conceptual thinking prevents the individual from directing his own will:</p>
				<disp-quote>
					<p>In schizophrenia, all the higher functions, all the higher psychological syntheses, including the awareness of reality and the self-awareness of the personality, go against the development and repeat in reverse order the whole path of direct development and of the formation of these syntheses in the period of sexual maturation (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>, p. 197).</p>
				</disp-quote>
				<p>Considering the importance of these three conditions for the study of the formation and expression of volitional processes, it is possible to point out some general principles regarding Vygotsky’s theoretical conceptualization of the will. Nevertheless, since the actualization of the voluntary act is philosophically articulated with the manifestation of the human freedom, it is essential to emphasize he understands this idea.</p>
				<p>The author points out that the expression of human freedom occurs by understanding the natural laws and directing them towards specific ends (<xref ref-type="bibr" rid="B41">Vygotsky, 1931/2006a</xref>). Freedom is, therefore, the possibility of consciously apprehending situations that are set before the human being (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 1931/1995c</xref>). As <xref ref-type="bibr" rid="B31">Toassa (2004</xref>) argues, we find in the works of Vygotsky</p>
				<disp-quote>
					<p>the freedom as “free necessity,” “gnosiological necessity”: a new necessity that consists in the attribution of new meanings to the sensory information, in learning to use instruments and in creating new means of mastery of the reality of nature; a necessity that can be understood via the social relations mediating the relationship between man and nature. (p. 7)</p>
				</disp-quote>
				<p>The Belarusian author argues that the will does not consist in a disposition purely internal to the individual, as implies the idea of “free will”, and is, therefore, conceived as dependent on external motives: “the illusion of free will is lost so soon as we try to analyze the determinism of the will, its dependence on the motives” (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 1931/1995c</xref>, p. 287). The volitional act is thus mediated by motives that are external to the moment of the action, and the behavior itself must be analyzed considering factors that will not necessarily be evident when the action occurs, thus invalidating a simple stimulus-response mechanism.</p>
				<p>To comprehend the will, according to Vygotsky, it is necessary to keep in mind that one chooses a determined behavior or action before actualizing it. For the author, this mechanism depends on the dynamism that structures the will as a higher psychological function, which depends essentially on the presence of auxiliary motives, whose role is determinant in directing the will to an end. For example, an individual who is reluctant to get out of bed, even knowing that he can no longer lie down, uses an auxiliary motive as a resource to get up, for example, counting from one to three. In providing this example, Vygotsky clarifies that this resource used by the subject, external to his action, is fundamental to his volitional act, because it functions as a tool that mediates the choice to get out of bed and urges him to act (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 1931/1995c</xref>).</p>
				<p>The relevance of the auxiliary motifs in this process is also evident for Vygotsky when investigating situations that the individual would usually avoid, but in which the construction of a meaning or purpose linked to his volitional act increases or supports his choice. For example, people persist in a hunger strike or endure intense pain due to the establishment of an auxiliary motive (e.g. an ideological project or a religious promise) that gives meaning to that decision (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 1931/1995c</xref>).</p>
				<p>Vygotsky also considers the will a paradoxical phenomenon, because it concomitantly generates volitional and non-volitional acts. The author explains this phenomenon by pointing out that there are two processes linked to a voluntary action: decision and execution. The decision concerns a functional relationship established between the context in which the individual will act and the construction of the auxiliary motives. The execution is the actualization of a previously made decision, which is an almost automatic, predetermined act. This corroborates the hypothesis that the auxiliary motives are the primary factors for the development and expression of the will, distinguishing themselves from the stimuli because they generate a permanent conflict in the volitional process, supposing a historical, oriented origin in a movement of dialectical overcoming (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Vygotsky, 1931/1995c</xref>).</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>Final considerations</title>
				<p>In order to articulate the manifestation of the craving with the concept of the will as a higher psychological function, Vygotsky’s approach to the will emerges as a possibility to differentiate between the craving (I want) and the compulsion (I will). This is possible especially when the author deals with the paradox of the will, manifested in the fact that the attainment of the objectives of an individual action involves both volitional (decision) and non-volitional acts (execution). In this sense, when someone says that she or he uses a drug because of having seen a friend using it, or because she or he is in an environment associated with drug use, it is understood that the action at that moment (using a certain drug) is a non-volitional act, but which was once voluntarily established via auxiliary motifs that have structured the meanings and significations attached to that psychoactive substance and its context of use.</p>
				<p>In fact, when the neurobiological model discusses the “triggers” to the use of a substance, or when the cognitive model talks about control beliefs that prevent the use, it is necessary to consider that the choice of using or not is not established at the moment when the stimulus (the presence of the drug) occurs, but previously. In this sense, the will, in Vygotsky’s works, is a concrete dimension of the action; the historical and social experience essentially mediates the decision of using drugs. The perpetuation of the idea that the harmful use of a particular psychoactive substance stems ultimately from a conscious choice omits the correlation of that use with the broader contexts of an individual’s life experiences.</p>
				<p>These considerations also allow us to problematize the effectiveness of the inpatient practices used to treat people who harmfully use alcohol and other drugs. Since it is observed that the execution of an action (compulsion) is not established when in presence of the drug, but rather as a process of decision (craving) that is structured based on the concrete circumstances of life in society, it is controversial to argue that the abstinence from the drug would promote the disintegration of the relationships that foster the use.</p>
				<p>The researches on the craving reviewed here showed a positive correlation between quality of life and resistance to the craving, thus it is important to conjecture about how the conditions of institutions with asylum characteristics affect the treatment of users of alcohol and other drugs. It is important to emphasize that the attention to the quality of life of individuals requires the promotion of the access to essential goods and services and to decent living conditions. In this way, it will be possible to create new sets of symbolic representations, that is, new auxiliary motives, which will direct the will to purposes that are less damaging than those arising from harmful drug use.</p>
				<p>The studies developed by Vygotsky on hysteria, aphasia and schizophrenia, in which the author demonstrated that these conditions lead to a regression to lower states of the psychological functions, showed their importance in the investigation of the hypothesis that the craving is an alteration of the will as a higher psychological function. A critical point highlighted by Vygotsky to conceptualize this regression was to observe changes in the processes of consciousness and thinking.</p>
				<p>Considering that the manifestations of the craving involve the production of meanings about the benefits offered by the drug (pleasure), or about the cessation of sensations that are negative (displeasure) while using it, we can perceive that there is a structuring logic created by the user himself in his relationship with the drug. These meanings are related to the principle of the mediation role of signs in the development of the higher psychological functions proposed by Vygotsky. It is precisely by introducing artificial stimuli, that is, those that the individual himself confers meaning to, that man “forms from the outside connections in the brain, directs it and by it governs its own body” (<xref ref-type="bibr" rid="B35">Vygotsky, 1931/1995b</xref>, p.85).</p>
				<p>Thus, when the craving leads to drug use, it is the manifestation of a non-volitional action that next constitutes the will directed towards an end (higher psychological function). However, there is no regression in this context to a rudimentary psychological state, but rather an action resulting from the structuring of thinking and consciousness by means of auxiliary motives. It is worth noting that apprehending the craving as an action governed by higher psychological processes stems from a historical analysis of the phenomenon of the will, which demonstrates the presence of multiple determinants and conditioning factors in the complex of relations that mediate human activities. Thus the proposition that there is no regression of psychological functions in the manifestation of the craving goes beyond dualistic conceptions such as those used in the behavioral, neurobiological, and cognitive models in which the stimulus-response relationship is ultimately what triggers the use of psychoactive substances.</p>
				<p>Moreover, considering that the will remains a superior psychological function in the manifestation of the craving, the lines of minimum resistance can become maximal in order to gain access to the drug. This fact is observed, for example, when <xref ref-type="bibr" rid="B9">Chaves et al. (2011</xref>) state that</p>
				<disp-quote>
					<p>the effort expended to obtain crack cocaine is not proportional to its return. L28FU8m [research subject] reported having dismantled his wardrobe and walked with it on his back to the “<italic>boca”</italic> (the place where drugs are sold) in exchange for two crack stones (p. 1172, emphasis added).</p>
				</disp-quote>
				<p>Therefore, the manifestation of the craving is a social, cultural, historical, and singular phenomenon. In this sense, the management strategies that can be deduced from the discussion of the concept of will in Vygotsky involve not only an engagement of the individual as to his desire to interrupt the use, but also includes all the social, political and historical logic that governs the construction of meanings about drug use. Thus, taking into account the ideas of the Belarusian author, the treatment programs that intend to deal properly with cravings need to go beyond the more immediate handling of their manifestations, they must allow the individual to elaborate the reasons and decisions involved in the origin and development of a problematic use pattern of alcohol and other drugs.</p>
			</sec>
		</body>
	</sub-article>
</article>