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				<journal-title>Psicologia USP</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. USP</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0103-656420150092</article-id>
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					<subject>ARTIGOS ORIGINAIS</subject>
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				<article-title>Sobre as práticas tradicionais de cura: subjetividade e objetivação nas propostas terapêuticas contemporâneas</article-title>
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					<trans-title>Sur les pratiques traditionnelles de cure: subjectivité et objectivation dans les propositions thérapeutiques contemporaines</trans-title>
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					<trans-title>Sobre las prácticas tradicionales de cura: subjetividad y objetivación en las propuestas terapéuticas contemporáneas</trans-title>
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				<institution content-type="original">Universidade Federal de Alagoas, Instituto de Psicologia. Maceió, AL, Brasil</institution>
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					<label>*</label>Endereço para correspondência: <email>poesiatododia@hotmail.com</email>
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			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2017</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>O presente trabalho constitui uma pesquisa de cunho teórico, na qual é traçado um breve percurso histórico das práticas de cura tradicionais e se faz também uma discussão sobre sua permanência e eficácia na contemporaneidade, apesar dos avanços na área da ciência médica. Tendo em vista a importância crescente da subjetividade na medicina contemporânea, nossa hipótese visa salientar que a objetivação do sujeito doente, operada pelas práticas médicas, condena a subjetividade a um segundo plano e representa uma lacuna importante nas propostas terapêuticas do modelo biomédico. Nosso objetivo é interrogar o lugar das práticas tradicionais de cura nessa lacuna deixada pela medicina e no que tais práticas podem contribuir para o modelo médico.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title>Résumé</title>
				<p>Ce travail est une recherche théorique où l’on esquisse un bref parcours historique sur les pratiques traditionnelles de cure et on fait aussi un débat sur leur permanence et efficacité dans le monde contemporain, malgré les avancées dans le domaine de la médecine scientifique. En rendant compte l’importance croissante de la subjectivité dans la médecine contemporaine, notre hypothèse souligne que l’objectivation du sujet malade opérée par les pratiques médicales condamne à l’oubli la subjectivité et produit une lacune importante dans les démarches thérapeutiques du modèle biomédical. Notre objectif en est celui d’interroger la place des pratiques traditionnelles de cure dans cette lacune laissée par la médecine et comment ces pratiques peuvent-elles contribuer avec le modèle médical actuel.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>Resumen</title>
				<p>Este trabajo esboza un camino histórico por las prácticas tradicionales de cura y, junto a esto, una discusión sobre la permanencia y la eficacia de estas prácticas en el mundo contemporáneo, a pesar de los progresos de la medicina científica. Considerando la importancia creciente de la subjetividad en la medicina contemporánea, nuestra hipótesis destaca que la objetivación del sujeto enfermo operada por las practicas medicales impone un olvido de la subjetividad y produce un vacío importante en las terapéuticas del modelo biomédico. Nuestra meta es investigar el lugar de las prácticas tradicionales de cura en este vacío de sentido de la medicina y se ellas pueden enseñar algo al modelo médico actual.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>práticas tradicionais de cura</kwd>
				<kwd>modelo biomédico</kwd>
				<kwd>subjetividade</kwd>
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				<title>Mots-clés:</title>
				<kwd>pratiques traditionnelles de cure</kwd>
				<kwd>modèle biomédical</kwd>
				<kwd>subjectivité</kwd>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>prácticas tradicionales de cura</kwd>
				<kwd>modelo biomédico</kwd>
				<kwd>subjetividad</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Em todas as épocas da humanidade - nos grupos humanos que possuem registros históricos - há algum tipo de menção sobre o sofrimento de pessoas que são acometidas por afecções corporais ou psíquicas, e sua concomitante prática curativa, seja ela espiritual, por meio de rituais que invoquem forças sobrenaturais, seja ela corporal, por meio de rituais de cura utilizando elementos da natureza e intermediados por representantes das divindades (sacerdotes; xamãs). Registros pré-históricos também sugerem que adoecimento e cura sempre estiveram associados a práticas ritualísticas fortemente carregadas de aspectos simbólicos. Sobre isso vale destacar:</p>
			<disp-quote>
				<p>A superstição, a magia e o ato de curar eram mesclados e a figura do médico e sacerdote encontrava-se neste amálgama, como atesta o homem (médico) com a máscara de cervo encontrada na caverna de <italic>Les Trois-Frères</italic>, datada de cerca de 16.000 anos, tida como a mais antiga representação do homem curador de enfermidades. (Calder citado por <xref ref-type="bibr" rid="B5">Castro, Andrade, &amp; Muller, 2006</xref>, p. 39)</p>
			</disp-quote>
			<p>A humanidade, em seus primórdios, vivia em maior integração com a natureza, e os processos de cura eram essencialmente empíricos, tendo como pano de fundo uma estrutura mítica, que até hoje se faz presente em algumas populações mais tradicionais e mesmo em meios considerados civilizados. Essas práticas permanecem, nos dias atuais, de um lado, em estreita relação com o aprendizado das diversas forças da natureza transmitidas através da oralidade, e de outro, com as crenças em forças sobrenaturais, advindas das tradições religiosas (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar, 2010</xref>).</p>
			<p>Pode-se dizer que o retrato das práticas tradicionais de cura que permanecem através das gerações, apesar do avanço da medicina científica, é um pequeno reflexo (adaptado à realidade atual) das práticas de outrora, pois compartilham princípios semelhantes: o empirismo na produção de remédios fabricados com matéria-prima natural; rituais específicos; e a intermediação de forças e/ou energias consideradas de diferentes maneiras, de acordo com o tipo de prática e o contexto histórico, para a realização das curas.</p>
			<p>(<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar, 2010</xref>) afirma que “a fragilidade do homem primitivo frente à natureza, às doenças e às demais dificuldades de sua existência tornava-o carente do sobrenatural, como forma de proteção em meio a um cenário tão adverso” (p. 8). Porém, o contexto atual da humanidade não apresenta esta mesma hostilidade de outrora, sendo, pois, por causas distintas da apontada pelo autor, que ainda se recorre a forças sobrenaturais.</p>
			<p>Aqueles que praticavam as curas, que possuíam conhecimento empírico sobre a fragilidade do ser humano, as virtudes das plantas e dos venenos dos animais eram considerados detentores de poderes, de faculdades fantásticas, sendo diferenciados dos demais homens. Suas práticas de cura, envolvidas em rituais extraordinários, tornavam-nos conhecidos como mediadores entre o homem e os deuses, ou entre o homem e a natureza, pois a capacidade de curar doenças transformava-os em detentores do poder sobre a vida e a morte.</p>
			<p>Desta forma, as práticas medicinais encontravam-se envolvidas por uma atmosfera que ia muito além da simples administração de medicamentos, sendo a cura o resultado de um processo não somente fisiológico, mas também simbólico (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Hoogasian &amp; Lijtmaer, 2010</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Origens do pensamento médico ocidental</title>
			<p>Patronos da filosofia e referência intelectual para vários povos, os gregos foram um dos pioneiros no lançamento das bases da racionalidade sobre o saber, baseando-se na razão para conceber suas ideias e realizando uma ruptura com as antigas formas de representação do mundo. Ao romper com as explicações mitológicas sobre as enfermidades, passaram a utilizar um método específico de estudo do corpo humano e da natureza em geral. A observação tornou-se a principal técnica para desvendar relações de causa e efeito nos fenômenos naturais e fisiológicos.</p>
			<p>A racionalidade do pensamento grego discretamente provocou um distanciamento das crenças religiosas e apoiou as bases do pensamento médico em explicações advindas da natureza e do próprio homem. A partir de então, as práticas de cura marcadas pela mescla de empirismo e magia, realizadas por sacerdotes e práticos, foram sendo suplantadas por outras práticas que prezassem pela melhor maneira de conviver consigo mesmo e com o meio, sem deixar de pôr em relevo a ideia de uma relação íntima entre homem e natureza. Assim sendo, as bases para uma perspectiva organicista da doença são lançadas.</p>
			<p>Neste sentido, os pensadores gregos foram os pioneiros na cultura ocidental a esquematizar seus conhecimentos a partir da observação empírica no formato de leis gerais, e a produzir conhecimentos sobre as concepções de saúde, doença e cura. Estas, que antes eram dominadas pelas crenças religiosas e mitológicas, passaram a ser influenciadas pelo pensamento filosófico e médico, tendo como alguns de seus representantes Pitágoras, seu discípulo Alcméon, Hipócrates e Galeno.</p>
			<p>De Pitágoras vem a concepção das paixões da alma, que precisavam ser controladas para se obter a harmonia interna e, por conseguinte, a saúde. Desta forma, a contribuição de Pitágoras deu o impulso inicial para o rompimento com concepções que necessitavam ser ultrapassadas na época - a exemplo das que associavam a causa da doença a algum tipo de castigo divino - sendo, posteriormente, consolidada por seu discípulo Alcméon (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>).</p>
			<p>Alcméon herda de Pitágoras a noção de harmonia relacionada à saúde, e desenvolve a importante concepção de saúde como <italic>uma bem equilibrada mistura das qualidades</italic>, deixando, no entanto, em aberto quantas seriam as qualidades em questão. Filolau de Crotona, por sua vez, dá um passo adiante ao definir o número quatro como princípio estrutural fundamental do equilíbrio do corpo e, por conseguinte, de um corpo saudável (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Huffman, 1993/2006</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Klibansky, Panofsky, &amp; Saxl, 1964/2002</xref>).</p>
			<p>Embora a medicina dos pitagóricos esteja intimamente ligada aos princípios filosóficos da Escola de Crotona, ela participa da gradativa consolidação da medicina empírica, que serviu de base para a teoria dos humores. Com efeito, a doutrina dos números, bem como a noção de que a saúde corresponde ao equilíbrio de diversas qualidades, permite afirmar que os pitagóricos forneceram as condições de possibilidade para o posterior surgimento dessa teoria, a qual predominou amplamente na medicina antiga, em modelos distintos, cuja forma mais conhecida foi aquela iniciada pela escola hipocrática (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Jouanna, 2005</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Klibansky, Panofsky, &amp; Saxl, 1964/2002</xref>).</p>
			<p>Hipócrates também adota este princípio de equilíbrio como critério de saúde, reafirma a concepção de origem interna da doença e desenvolve sua prática com base na teoria dos humores, para cuja implementação e difusão a escola hipocrática também contribuiu decisivamente. De acordo com (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>), a medicina hipocrática foi “chave central para a medicina ocidental por ter definido o saber médico ocidental e científico, passando a ser vista como uma <italic>tékhne</italic>” (p. 27).</p>
			<p>Galeno, por sua vez, conforme (<xref ref-type="bibr" rid="B5">Castro, Andrade e Muller, 2006</xref>), além de revisitar a teoria dos humores, “ressaltou a importância dos quatro temperamentos no estado de saúde. Também via a causa da doença como endógena, ou seja, estaria dentro do próprio homem, em sua constituição física ou em hábitos de vida que levassem ao desequilíbrio” (p. 40).</p>
			<p>As contribuições de nomes-referência da medicina grega corroboraram para a produção de grande quantidade de conhecimentos sobre as concepções de saúde, doença e os processos de cura, de modo que estes assumiram volume tal que começaram a ser fundadas escolas médicas. Começa, desta forma, o despontar dos primeiros raios de uma sutil cientificidade que será fortalecida, posteriormente, com a “fundação oficial” da medicina moderna.</p>
			<p>Sendo assim, pode-se afirmar que os alicerces para a constituição de uma medicina científica, racional, com técnicas e tratamentos de bases sólidas e confiáveis, são lançados antes mesmo da exigência de cientificidade preocupar os médicos do século XVIII, data que demarca o nascimento da medicina moderna segundo (Foucault, 1963/2013), em <italic>O nascimento da clínica</italic>:</p>
			<disp-quote>
				<p>A medicina moderna fixou sua própria data de nascimento em torno dos últimos anos do século XVIII. Quando reflete sobre si própria, identifica a origem de sua positividade com um retorno, além de toda teoria, à modéstia eficaz do percebido. (p. X)</p>
			</disp-quote>
			<p>Portanto, como aponta o autor, o Iluminismo é o sistema de pensamento que dá as bases para a racionalidade científica da modernidade em detrimento da visão anterior de doença e cura (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Foucault, 1963/2013</xref>). Essa corrente de pensamento preconiza a soberania da razão, a validade inquestionável das ideias objetivas pautadas no olhar do observável, e rompe com as concepções fundamentadas em pensamentos fantásticos ou baseadas em crenças religiosas. Essa corrente filosófica teve, na época de sua ascensão, grande influência nos métodos e técnicas científicos, exercendo-a até os dias atuais.</p>
			<disp-quote>
				<p>As formas da racionalidade médica penetram na maravilhosa espessura da percepção, oferecendo como face primeira da verdade a tessitura das coisas, sua cor, suas manchas, sua dureza, sua aderência. O espaço da experiência parece identificar-se com o domínio do olhar atento, dessa vigilância empírica aberta apenas à evidência dos conteúdos visíveis. O olho torna-se o depositário e a fonte de clareza: tem o poder de trazer à luz uma verdade que ele só recebe à medida que lhe deu à luz; abrindo-se, abre a verdade de uma primeira abertura: flexão que marca, a partir do mundo da clareza clássica, a passagem do “Iluminismo” para o século XIX. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Foucault, 1963/2013</xref>, p. XII)</p>
			</disp-quote>
			<p>Desta forma, o legado Iluminista além de influir sobre o pensamento da época, lançou as bases sólidas para a fundação de um paradigma científico marcadamente empirista, corroborado por autores como René Descartes e Auguste Comte, e o advento do Positivismo. As ciências passaram, desta forma, a seguir um método rigoroso, que dispensa o subjetivismo e a especulação na consecução do conhecimento verdadeiro, só se tornando válido caso fosse enquadrado nestes padrões predeterminados.</p>
			<sec>
				<title>A sociedade brasileira</title>
				<p>Com a colonização e a posterior tentativa de aproximar as colônias de suas respectivas capitais, os traços da civilização europeia começaram a ganhar espaço no Brasil, sendo instauradas suas raízes, inicialmente, nas grandes aglomerações, a exemplo de São Paulo. A ciência médica, por sua vez, procura ganhar seu espaço e legitimidade diante dos saberes tradicionais relativos à doença e à cura vigentes na colônia. Esse processo, porém, não se deu sem conflitos, pois,</p>
				<disp-quote>
					<p>as bases socioculturais da medicina colonial foram forjadas pela convivência e combinação de três tradições culturais distintas - indígena, africana e europeia -, com inexpressiva participação dos profissionais de formação acadêmica. Na verdade, a medicina praticada no dia-a-dia da colônia esteve quase sempre a cargo de curandeiros, feiticeiros, raizeiros, benzedores, padres, barbeiros, parteiras, sangradores, boticários e cirurgiões. O reduzido contingente de médicos disponíveis trouxe como consequência a abolição da rígida hierarquia social da medicina, que, na Europa, impunha um lugar distinto para médicos, cirurgiões e boticários. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub, Marques, Sampaio, &amp; Sobrinho, 2003</xref>, p. 101-102)</p>
				</disp-quote>
				<p>O processo de legitimação da ciência médica defrontou-se inúmeras vezes com o prestígio social dos terapeutas populares, tanto por parte das classes mais simples, quanto pelas elites. A historiografia oficial sobre a institucionalização da medicina científica no Brasil sugere que a hegemonia desta tenha sido alcançada na ausência de conflitos sociais e resistências culturais. Essa interpretação não leva em conta precisamente a influência dos terapeutas e das formas terapêuticas tradicionais. O fato é que o escasso conhecimento acerca das características socioculturais da medicina no período colonial brasileiro deu margem ao engano de que as práticas oriundas de outras tradições não teriam influenciado o tardio processo de institucionalização da ciência médica que se deu ao longo do século XIX (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>).</p>
				<p>Dois aspectos foram, nesse sentido, de suma importância para o processo de institucionalização e popularização da medicina científica no Brasil: por um lado, o estabelecimento do ensino médico no Brasil. Essa medida, tomada em 1832 pelo governo imperial, e que tinha como objetivo a promoção da “aculturação” da medicina local conforme as novas tendências do saber médico europeu, contribuiu para a distinção entre medicina científica e popular. Por outro lado, os dicionários de medicina popular, ao tratarem dos temas abordados pela ciência médica numa linguagem simples (o que era parte da estratégia de vulgarização da ciência médica) conseguiram estabelecer uma relação de correspondência entre o cotidiano da colônia e o discurso cifrado da medicina acadêmica (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>).</p>
				<p>Diante disso, a sociedade brasileira foi forçada a repensar seu sistema de relações sociais em prol do progresso e da aproximação com o modelo das sociedades europeias. Com esta premissa de cientificidade, começou-se a empreender uma verdadeira batalha contra as práticas de cura advindas de curandeiros, rezadeiros, benzedores e outros representantes do saber não oficial, adjetivando-as de arcaicas, ultrapassadas e criminosas.</p>
				<p>Sendo assim, as justificativas para assumir o discurso científico como possibilidade única de verdade, ao menos desde meados do século XIX, estão profundamente alicerçadas no desenvolvimento da sociedade colonial, por influência europeia, bem como no empenho das elites do país em manter suas condições de controle e privilégio em um contexto no qual os pilares desse modelo social - trabalho escravo, inviolabilidade da vontade dos proprietários de terra e a reprodução de laços de dependência pessoal - estavam entrando em crise (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>).</p>
				<p>E é nesse quadro que as práticas de cura e benzeção tradicionais, que não faziam parte do rol da medicina científica da época, chegaram a ser relacionadas com o subdesenvolvimento econômico e foram classificadas como insuficientes, escassas e charlatãs pelos cientistas. Assim como aqueles que as praticavam foram qualificados como bárbaros e atrasados, e acusados de não estarem indo ao encontro do progresso civilizatório.</p>
				<p>Os artigos compilados na obra <italic>Artes e ofícios de curar no Brasil: capítulos de história social</italic>, de (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>), permitem-nos perceber que as atividades exercidas por parte dos artesãos da cura não científica eram de enorme variabilidade, não apenas em suas práticas, mas também em categorias para aqueles que as exerciam e seu público-alvo. Barbeiros e sangradores, benzedeiros, curandeiros, feiticeiros, boticários, homeopatas, parteiras, receitistas e afins ofertavam curas para os males do corpo e da alma, contando, não raro, com a confiança daqueles que se sentiam receosos com as prescrições da medicina científica, assim como nos mostra o seguinte trecho da obra citada:</p>
				<disp-quote>
					<p>Ligados a tradições culturais fortemente enraizadas em diferentes grupos sociais, esses oficiantes muitas vezes tinham a preferência dos doentes. Homens ou mulheres, negros ou brancos, ricos ou pobres, os pacientes tinham lá suas maneiras de lidar com a doença, o que na maioria das vezes os levava para longe dos ditames da medicina científica. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>, p. 13)</p>
				</disp-quote>
				<p>Conforme afirma Luiz Otávio Ferreira, citado por (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>), a partir da análise de periódicos médicos: “não podendo simplesmente denunciar o ‘charlatanismo’ ou a ‘ignorância popular’, os médicos viam-se obrigados a dialogar com a tradição médica popular, disputando, em condições desfavoráveis, a autoridade no campo da arte de curar” (p. 119).</p>
				<p>Isto reflete de forma patente o caso contado por Gabriela dos Reis Sampaio, citada por (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>), em que Juca Rosa, importante curandeiro negro e líder religioso no Rio de Janeiro do século XVIII, recebia em sua casa mulheres brancas da alta sociedade, ricos, comerciantes e políticos influentes, os quais iam em busca de seus conselhos e prodigiosas curas.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A predominância dos terapeutas tradicionais no Brasil colonial</title>
				<p>A predominância de curandeiros, rezadores, sangradores, barbeiros e todas as outras figuras proeminentes da medicina popular foram de suma importância no tratamento das enfermidades nos tempos do Brasil Colônia.</p>
				<p>Uma das razões para a predominância destes oficiantes da cura popular era a escassez de instituições comprometidas com o ensino e atendimento médico especializado, como clínicas, hospitais ou escolas para médicos; assim como o desinteresse dos médicos portugueses em se dirigirem para o Brasil, devido aos “baixos salários e as precárias condições de vida”, como explica (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Cunha, 2004</xref>).</p>
				<p>Neste sentido, o conhecimento prático e o uso de plantas medicinais já eram conhecidos e utilizados pelos jesuítas desde o período do Brasil Colônia. Esse conhecimento provinha principalmente das plantas descobertas e utilizadas pelos indígenas com as quais se obtinham excelentes resultados nos processos curativos. Como nos explica o autor citado no parágrafo anterior, os efeitos conseguidos com a manipulação destas plantas no início do século XVIII obtinham melhores resultados que os métodos utilizados pela medicina predominante na Europa que, por sua vez, tinha como base aspectos da medicina galênica juntamente com a teoria dos humores, conforme divulgada pelo <italic>Corpus Hipocraticus</italic>.</p>
				<p>Mesmo com a tentativa de profissionalizar seus agentes de cura, autorizando-os enquanto representantes da ciência, os oficiantes da medicina acadêmica encontraram muitas dificuldades na tentativa de se afirmar como profissionais. Havia certo receio e medo na população (e também nas autoridades religiosas, principalmente católicas) em relação à medicina oficial provinda da Europa.</p>
				<p>A concepção de cura assumida pelos curandeiros representou, e ainda representa, uma aceitação e escolha legítimas em articulação com as concepções de cura da população, na medida em que a atividade do curandeiro e sua ação são compostas de um poder simbólico, no qual o próprio pensamento do grupo está presente, investindo valor à representação do curandeiro, assim como ao seu poder de ação. Segundo (Foucault, 1964/2010), a eficácia terapêutica dos valores simbólicos foi:</p>
				<disp-quote>
					<p>obstáculo ao ajustamento das farmacopeias às novas formas da medicina e fisiologia. Alguns sistemas puramente simbólicos conservaram sua solidez até o final da era clássica, transmitindo, mais do que receitas, mais do que segredos técnicos, imagens e símbolos surdos que se ligavam a um onirismo imemorial. (p. 336)</p>
				</disp-quote>
				<p>Assim sendo, todo um corpo técnico composto por práticas de cura, representado pelas figuras dos rezadeiros, curandeiros e raizeiros, estava rodeado por uma tradição sobre a qual a medicina não tinha controle uma vez que suas técnicas e suas proposições de cura estavam esvaziadas do valor simbólico contido nas práticas tradicionais.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Da Fisicatura-mor ao Código Penal de 1890: o processo de legitimação da prática médica científica</title>
				<p>Denominada como charlatanismo, a atividade dos terapeutas tradicionais e sua permanência, anteriormente caracterizadas como mágicas e bárbaras, passaram a ser oficialmente legitimadas através de regimentos, como a Fisicatura-mor, que fornecia uma série de ofícios com atividades bem delimitadas autorizando-os a exercer a “arte de curar”, sobrevivendo até o ano de 1828, época em que a corte portuguesa já havia sido transferida para o Brasil.</p>
				<p>Entre os ofícios autorizados pela Fisicatura-mor estavam os de médico, cirurgião, boticário, sangrador, parteira e curandeiro, estes últimos autorizados somente a cuidar de doenças “leves” e/ou aplicar medicamentos feitos com plantas medicinais nativas (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>).</p>
				<p>Embora o regimento tivesse o intuito de delimitar quais ofícios de cura eram autorizados a cada classe, era comum que barbeiros, sangradores e cirurgiões conseguissem unir sem conflitos sua prática cirúrgica à benzeção.</p>
				<p>Os escravos recém-chegados no Brasil encontraram apoio nas atividades de sangradores, por exemplo, devido a um envolvimento com sua própria cosmologia e na visão de que as doenças, desequilíbrios e infortúnios eram causados pela interferência maléfica de espíritos. Eles, muitas vezes, eram mandados por seus senhores a um mestre régio dos sangradores para aprender o ofício.</p>
				<p>A distribuição de títulos aos agentes autorizados pela Fisicatura-mor para exercer suas atividades de forma legal contrastava com o número reduzido de licenças concedidas aos terapeutas tradicionais, que por sua vez gozavam de notória preferência por parte da população. (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>) nos explica que é possível observar, por meio de relatos de viajantes, em periódicos e correspondências entre autoridades, a disseminação de profissionais como sangradores, curandeiros e parteiras por todo o Brasil sem licenças concedidas pela Fisicatura-mor. A autora ainda nos diz que esses profissionais acabavam por oficializar suas atividades quando da proximidade de fiscalização, por alguma denúncia ou por almejarem se sobressair aos demais atuantes, passando ao status de oficializado, sobretudo quando suas atividades eram exercidas nos centros urbanos (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>).</p>
				<p>Com o fim da Fisicatura-mor em 1828, uma série de mudanças no regimento trouxe algumas modificações aos ofícios reconhecidos legalmente pelo governo. Boticários, parteiras ou sangradores só poderiam curar e exercer sua prática mediante uma carta de apresentação, e quem não as possuísse atuaria de forma ilegal.</p>
				<p>É importante ressaltar que estas mudanças feitas no regimento e a extinção da Fisicatura-mor foram mobilizadas pela Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, concebendo este antigo regimento como “um tribunal monstruoso, tão nocivo à ciência e aos interesses da humanidade” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>, p. 96). Os curandeiros não seriam sequer citados no novo regimento, complicando, posteriormente, em 1832, a vida de sangradores com a transformação das academias médico-cirúrgicas em faculdades de medicina, nas quais somente os títulos de doutor em medicina, farmacêutico e parteira seriam concedidos, o que não conseguiu extinguir, porém, a atuação daqueles não mais reconhecidos pela lei (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>).</p>
				<p>Com a promulgação do código penal de 1890, foi destinada à corporação médica científica a legitimidade inscrita na atuação do Estado. Juntos, corporação médica e Estado iniciaram uma perseguição política, jurídica e policial aos terapeutas tradicionais, com o argumento de que se estaria protegendo a população de crenças ilusórias que se espalhavam pela difusão dos saberes sobre a doença. As alterações na legislação estavam pautadas na concepção de que o exercício de médico deveria se dar pelos homens da ciência, que cumprem os objetivos da Sociedade de Medicina e da Academia Imperial no “controle da população e do exercício profissional” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Montero, 1985</xref>, p. 50).</p>
				<p>A respeito deste fato, (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Montero, 1985</xref>) nos explica que</p>
				<disp-quote>
					<p>a constituição da Medicina em prática hegemônica não resultou apenas, evidentemente, de medidas punitivas e controladoras. O desenvolvimento das vacinas contra pestes, lepra, tifo, varíola, febre amarela e outras, e o aperfeiçoamento das técnicas de controle sanitário e detecção de focos contagiosos tornou possível, para a Medicina, manter um combate eficaz sobre as doenças contagiosas. O alcance e a real superioridade da Medicina no campo dessas enfermidades tornou cada vez mais fácil sua aceitação, a expansão de seus cuidados para todas as camadas sociais e a posterior extensão de seu monopólio sobre todo ato terapêutico. O fato de as próprias massas trabalhadoras passarem a incluir na pauta de suas reivindicações, a partir dos anos 20, a oferta de cuidados gratuitos de saúde por parte do Estado nos dá, em certa medida, a dimensão da legitimidade que a Medicina passou a ter para as camadas sociais que até então se constituíam em “clientela natural” das terapias tradicionais. (p. 54)</p>
				</disp-quote>
				<p>Desde então a prática e o conhecimento de rezadores e curandeiros perderam seu espaço em meio ao movimento de urbanização e avanço da industrialização, no desenvolvimento do ensino escolar, dos avanços tecnológicos e da medicina científica. Este movimento atinge também o contexto rural, no qual as propostas terapêuticas tradicionais tinham maior adaptação. Também neste contexto, sentem-se as interferências da urbanização, por exemplo, com o deslocamento migratório que acaba dificultando a transmissão dos saberes dessa medicina tradicional.</p>
				<p>Apesar das tentativas de oficialização que serviram para a propagação da medicina científica, e apesar das dificuldades anteriormente salientadas, as práticas tradicionais de cura resistiram ao enclausuramento e às tentativas de exclusão e permanecem como uma prática ainda atual em determinados contextos, inclusive urbanos.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>O sujeito do paradigma médico atual</title>
			<p>O lugar do sujeito na medicina contemporânea é um tema atual e constante nas discussões em saúde. Neste sentido, a introdução do mesmo nesse trabalho se pautará na seguinte premissa: a de que a objetivação do sujeito, praticada pela medicina científica no tratamento das patologias, condena ao esquecimento a esfera subjetiva e permite-nos entrever uma lacuna na proposta terapêutica do modelo biomédico.</p>
			<p>Herdeiro da racionalidade científica moderna, o modelo biomédico se caracteriza por sua estreita vinculação com disciplinas provenientes das ciências biológicas. Nessa perspectiva, o referencial da clínica médica passa a ser a doença e a lesão, e o objetivo do médico se pautaria em identificar a doença e sua respectiva causa (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Guedes, Nogueira, &amp; Camargo Jr., 2006</xref>).</p>
			<p>Nesse sentido, (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Sousa, 2007</xref>), em sua dissertação de mestrado, aponta um fato que nos permite uma primeira aproximação com nossa premissa, isto é, a ausência da esfera subjetiva no tratamento das diversas patologias:</p>
			<disp-quote>
				<p>Há um axioma que continua a influenciar as práticas médicas: a crença de que o corpo é composto de matéria, a doença é causada por alguma forma de matéria (genes, bactérias, vírus), e a melhor opção de tratamento baseia-se na aplicação de matéria (medicamentos) ou remoção de matéria (tumores, órgãos), .... O corpo é compreendido em temos mecanicistas, como um sistema de órgãos e partes, alguns dos quais podem ser consertados, removidos ou suplantados.... Em suma, ataca-se matéria com matéria. Os efeitos secundários são muitas vezes ignorados. (p. 33)</p>
			</disp-quote>
			<p>Uma vez que a tradição do corpo prevalece e que as implicações desta se sobressaem no tratamento do sofrimento humano, (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>) nos mostra que “essa racionalidade está na base da medicina científica, cuja visão mecanicista e reducionista vincula cada emoção ou pensamento a um determinado mecanismo” (p. 16).</p>
			<p>As argumentações tanto de (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Souza, 2007</xref>) quanto de (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>) também nos direcionam a refletir conforme o pensamento expressado por (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>) em <italic>O normal e o patológico</italic>. Isto porque, se por um lado “a doença é aquilo que perturba os homens no exercício normal de sua vida e em suas ocupações e, sobretudo, aquilo que os faz sofrer” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>, p. 67), por outro, “a anomalia só é conhecida pela ciência se tiver sido, primeiro, sentida na consciência, sob a forma de um obstáculo ao exercício das funções, sob a forma de perturbação ou nocividade” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>, p. 104).</p>
			<p>O que fica implícito no parágrafo anterior é a impossibilidade de se conceber a doença somente através da figura do doente. É preciso recorrer ao discurso do sujeito que é acometido, levar em consideração a perspectiva que este detém acerca de seu próprio padecimento:</p>
			<disp-quote>
				<p>Isto significa que, em matéria de norma biológica, é sempre o indivíduo que devemos tomar como ponto de referência, porque, como diz Goldstein, determinado indivíduo pode se encontrar à altura dos deveres resultantes do meio que lhe é próprio, em condições orgânicas que, para outro indivíduo, seriam inadequadas para o cumprimento desses deveres. (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>, p. 144)</p>
			</disp-quote>
			<p>No que se refere às práticas médicas e à importância da representação do sujeito acerca de sua doença, pode-se perceber que ao desconsiderar fatores como subjetividade e/ou cultura, a relação entre profissional e enfermo instituiu-se, sobretudo, com base em aspectos técnicos. Neste contexto, ao objetificar o sujeito em detrimento do âmbito subjetivo que também o compõe, é possível entrever essa lacuna nas propostas terapêuticas, uma vez que, de acordo com Porto, citado por (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>), a valorização do diagnóstico se sobrepôs à forma terapêutica, implicando numa inversão do que realmente seria o objetivo da ação do médico.</p>
			<p>O que podemos perceber é que esse modelo biomédico, centrado na doença, deprecia o interesse pela experiência do paciente. Além disso, com a assimilação da tecnologia, a medicina suprimiu a relação pessoal entre médico e paciente, de modo que, “atualmente, existem recursos para lidar com cada fragmento do homem, mas falta ao médico a habilidade para dar conta do mesmo homem em sua totalidade” (Jaspers citado por <xref ref-type="bibr" rid="B4">Caprara &amp; Rodrigues 2004</xref>, p. 140).</p>
			<p>A racionalização médica, fundamentada na crença de poder mensurar objetiva e quantitativamente o ser humano, subestima não apenas as dimensões psicológica, social e cultural presentes na relação saúde-doença, mas também os significados que a doença pode vir a assumir para o paciente. Compartilhar com o doente a experiência do adoecer exige que o médico reveja sua compreensão sobre o processo de adoecimento e cura, que doravante não pode ser apreendido apenas na sua dimensão diagnóstica e prognóstica. Noutros termos, o processo saúde-doença passa a ser compreendido como uma dinâmica que envolve aspectos técnicos e também fatores subjetivos, tanto do médico quanto do paciente.</p>
			<p>Retomando (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>), ainda em <italic>O normal e o patológico</italic>, quando o autor discute as noções de saúde e doença, a partir da associação entre experiências de fisiologia nos laboratórios, tais noções são instituídas com base em médias obtidas em situações cientificamente controladas - fato este que também é alvo da crítica de Canguilhem -, o que nos permite perceber, de antemão, a distância para com a realidade dos sujeitos.</p>
			<p>Tanto saúde quanto doença têm sua existência condicionada aos substratos anatômicos e fisiológicos que contêm ou não algum tipo de patologia e, para além disso, que estão definidos não mais pelo sujeito que sofre, mas pelo médico que diagnostica. A experiência da doença tem sua esfera subjetiva negligenciada e o paciente já não pode relatar aquilo que sente sem que haja um fundamento cientificamente comprovado que defina sua sensação. Assim sendo, em vez de médico e paciente, nos defrontamos com um médico e um doente. Trabalha-se sobre o conhecimento da doença independentemente da compreensão do adoecimento.</p>
			<p>Conforme Luz, citado por (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>), diante desse contexto as pessoas têm procurado por outras práticas que proporcionem não apenas uma forma terapêutica, mas também o “ser cuidado”. Diante da ineficiência médica, especificamente em sua concepção de sujeito e método de intervenção, abre-se margem tanto para novas propostas terapêuticas, por vezes pouco fundamentadas, quanto para aquelas ditas tradicionais, que por motivos nem sempre bem estabelecidos foram relegadas à vigarice ou à crendice. Como relata (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Guedes, Nogueira e Camargo Jr., 2006</xref>)</p>
			<disp-quote>
				<p>verificamos no campo da saúde coletiva a emergência de novas abordagens para se pensar o adoecimento, tais como a clínica ampliada, a humanização do atendimento, as discussões sobre a integralidade das ações de saúde e a produção do cuidado com vistas à transformação do modelo tecnoassistencial. Concomitantemente a estas propostas tem-se observado nos últimos anos uma crescente aceitação das medicinas ditas alternativas em nossa sociedade. (p. 1095)</p>
			</disp-quote>
			<p>Além disso, Le Fanu, citado por (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Caprara &amp; Rodrigues, 2004</xref>), ao apresentar algumas das contradições da recente história da medicina, mostra-nos que a eficácia da prática médica moderna deveria ter como implicação o desvanecimento de “outras formas de medicina”, entretanto, percebe-se um aumento significativo do uso das medicinas não convencionais no ocidente.</p>
			<p>Retomando o estatuto que compete ao termo “doença”, e levando em consideração os desdobramentos que a prática médica sofreu durante a sua trajetória, temos que ele não traduz apenas uma série de sintomas que atendem as normas de uma determinada cultura. Temos a nossa frente, sobretudo, um sujeito enfermo que, mesmo diante de sua condição, está a expressar parte de sua história de vida e a ressignificar o mal que o acomete.</p>
			<p>O ponto central é o de pensar a doença não como uma entidade em si mesma, mas como algo que se concebe dentro de uma relação dialética, na qual a demanda que o paciente faz ao médico não se resume a receber um diagnóstico. Isto porque não seria apenas a necessidade de ser “curado” que está em pauta, mas também a busca pela significação do adoecimento, aspecto que frequentemente escapa ao raciocínio biomédico:</p>
			<disp-quote>
				<p>A consulta médica... não se resume nas informações colhidas e no exame objetivo dos sintomas e sinais da queixa principal, bem como aos aspectos a ela relacionados. Envolve a escuta atenciosa do médico em relação ao paciente, buscando a intimidade reveladora do seu jeito único de ser no mundo, através de seus projetos de vida, crenças, sentimentos, pensamentos e lembranças. Precisa ser ampla, promovendo inclusive uma catarse e, ao mesmo tempo, fazendo parte do processo terapêutico. O sintoma trazido pelo paciente, por conseguinte, não é algo a ser eliminado como um incômodo, mas a ser observado como expressão do indivíduo (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>, p. 17-18)</p>
			</disp-quote>
			<p>Essa fala de (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>) expressa, sobretudo, uma aspiração no sentido da humanização da relação médico-paciente. Todavia, como vimos anteriormente, podemos concluir que a medicina moderna estabelece de fato uma relação objetiva e objetificante tanto com o sujeito quanto com a doença. Além disso, essa medicina que se identifica com o discurso científico tornou sua prática deveras tecnicista, promovendo um esvaziamento do valor subjetivo inerente ao processo de adoecimento e de cura.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A permanência das práticas tradicionais de cura: entrevendo lacunas</title>
			<p>Conforme os tópicos explicitados, buscaremos refletir, com base em nossa premissa (isto é, a de que a objetivação do sujeito, em detrimento da esfera subjetiva no tratamento das patologias, permite-nos entrever uma lacuna na proposta terapêutica do modelo biomédico), se as implicações do processo de objetivação poderiam justificar a permanência das práticas tradicionais de cura aqui abordadas.</p>
			<p>De acordo com (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>), o crescimento das “medicinas alternativas” se encontra tanto em países do Primeiro Mundo quanto nos do Terceiro Mundo a partir da segunda metade dos anos 1970, chegando ao ápice na década de 1980. A autora nos traz ainda um evento importante a ser enfatizado: a emergência de novos paradigmas para cura e saúde na segunda metade do século XX - especialmente com o movimento social chamado “contracultura”<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> - impulsionada pela importação de sistemas terapêuticos distintos e também opostos à nossa racionalidade médica vigente.</p>
			<p>Sobre as medicinas alternativas, a autora (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) nos aponta que é possível perceber três grandes grupos na América Latina, todos com demandas por parte da população, conforme a cultura de cada região: (1) a medicina tradicional indígena; (2) a medicina de origem afro-americana; e (3) as medicinas populares derivadas de sistemas médicos altamente complexos.</p>
			<p>Antiga e resistente, apesar dos embates culturais sofridos, a medicina tradicional indígena, xamânica ou não xamânica, é instituída como um sistema que prega a harmonia entre homem e natureza. Esta medicina entende que o adoecer tem sua origem na desproporção dos elementos fundamentais da vida, “e restaurar a saúde através da intervenção de xamãs, <italic>brujos</italic> ou outros agentes de cura é restabelecer a harmonia entre esses termos nos sujeitos, sempre vistos como um todo sócio-espiritual inserido na natureza” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>, p. 155).</p>
			<p>Também originalmente xamânica, porém nitidamente mais religiosa que a anterior, a medicina de origem afro-americana foi inserida nos países da América do Sul e América Central por meio da escravidão praticada no continente entre os séculos XVII e XIX. Ainda que preconize a natureza como elemento fundamental para a cura, (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) nos aponta que a medicina afro-americana é claramente mais espiritualista em seu tratamento dos fenômenos que competem ao adoecimento, tendo a figura do pai ou mãe de santo como agente de cura mais importante<italic>,</italic> atuando terapeuticamente de modo a intermediar entidades espirituais e divindades de diversas escalas.</p>
			<p>Por fim, existem as terapias designadas como “alternativas”, que se instituíram como paralelas ou complementares à nossa medicina. Em geral, elas descendem de sistemas médicos tradicionais atrelados às filosofias altamente complexas, tais como a medicina tradicional chinesa, a medicina ayurvédica e a homeopatia, encontrando no contexto atual uma crescente demanda.</p>
			<p>Os grupos descritos, de acordo com (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>), ocupam uma posição de interação, competição ou complementação no meio cultural contemporâneo, demonstrando ainda uma forte tendência ao “sincretismo terapêutico”. Neste sentido, os estudos de (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Noronha, 2004</xref>) salientam alguns fatores de suma importância para compreendermos porque parte da população segue recorrendo às medicinas alternativas:</p>
			<disp-quote>
				<p>Na sociedade contemporânea a utilização das medicinas paralelas se estabelece de diversas formas. Algumas pessoas complementam o tratamento alopático já instituído; outras são radicais, procurando se valer exclusivamente das medicinas paralelas, como uma reação (recusa) ao tratamento oficial ou como um ideal de vida, se valendo também de alimentação, habitação e costumes alternativos. (p. 2)</p>
			</disp-quote>
			<p>Essas práticas que se tornaram alternativas ainda resistem no movimento de urbanização, concorrendo com a medicina científica e demonstrando um aperfeiçoamento das mesmas nos centros urbanos, representadas através da atuação de centros espíritas, por exemplo, que atuam seguindo preceitos semelhantes às concepções de cura de curandeiros e rezadores tradicionais, como a aplicação de “cirurgias espirituais” e passes, demonstrando uma preocupação com o mundo espiritual.</p>
			<p>Num estudo realizado com curandeiros do município de Viçosa (AL) denominado “Medicina popular em Alagoas”, José Pimentel de (Amorim, 1963/2006) explicita alguns aspectos sobre a atuação desses terapeutas tradicionais na cidade, demonstrando a gama de ação dos curandeiros e nuances da atividade desses profissionais:</p>
			<disp-quote>
				<p>há curandeiros e curandeiras, elas comumente, que rezam e benzem para doenças, em vezes receitando; eles fazem mais, porque além de remédios de toda espécie, curam de cobra, fecham o corpo e tiram espírito, tarefa mais delicada que elas só excepcionalmente exercitam. Curtos no comum são os ensalmos que elas utilizam; eles conhecem e aplicam longas rezas, e que melhor impressionam (p. 11)</p>
			</disp-quote>
			<p>Além disso, mesmo no ambiente urbano, muitas práticas alternativas de cura foram se adaptando e sendo incorporadas no meio social. A resistência dessas práticas e a ampla procura por elas poderiam ser fatores que demonstrariam certa insatisfação com os dispositivos da relação médico-paciente da medicina científica?</p>
			<p>A fim de exemplificar a permanência dessas medicinas tradicionais, tomamos como exemplo a produção de (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>) ao apresentar o trabalho que (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Ribeiro, 1996</xref>) desenvolveu na comunidade de Três Barras, localidade rural próxima à cidade de Santa Maria (RS). Buscando compreender a razão pela qual a população da comunidade recorria aos benzedores a fim de solucionar os males que os acometiam - contemplando saúde física, psicológica e espiritual -, (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Ribeiro, 1996</xref>) pôde encontrar nos depoimentos daquela população elementos que justificavam a sobrevivência da prática.</p>
			<p>Percebeu-se, num primeiro momento, que a distância em que a comunidade se encontrava dos centros urbanos, a dificuldade de conseguir chegar a eles, e problemas com o mau atendimento e superlotação do serviço público eram fatores que justificavam a busca pelo atendimento das benzedoras (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>). Em seguida, (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>) nos revela que a benzeção é um elemento que pertence a um universo de tradições, uma prática que condiz com a cultura da comunidade, de modo que primeiro se procuraria este serviço, e, caso o problema não fosse resolvido, recorrer-se-ia à prática médica.</p>
			<p>Ampliando a discussão anterior, (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Quintana, 1999</xref>) nos mostra que</p>
			<disp-quote>
				<p>O indivíduo poderá aceitar o fato de sua doença se puder outorgar-lhe um sentido. A dor é sempre intolerável enquanto significar algo arbitrário. Mas quando ela adquire um sentido, torna-se suportável. É em busca dessa linguagem que as pessoas procuram uma benzedeira (p. 47)</p>
			</disp-quote>
			<p>Isso nos permite pensar numa busca por um paradigma de cura que detenha a forma terapêutica como ponto central e não a diagnose. Além disso, questionamos ainda se fatores como a generalidade e o distanciamento pertencentes ao ideal de neutralidade e objetividade da ciência médica não podem ter instituído entraves para determinados grupos sociais; uma vez que nomear a patologia aparenta não causar o mesmo efeito de saber que se está sendo “cuidado” em vez de “tratado”.</p>
			<p>Além disso, há aqui dois pontos importantes: (1) A prática da benzeção enquanto um resquício histórico e cultural que resistiu à implementação da medicina científica; e (2) o papel do benzedor enquanto aquele que, junto ao sujeito-enfermo, possibilitará não uma cura possível, mas um ambiente em que se possa dar um novo sentido para a norma<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> de vida que não se apresenta favorável.</p>
			<p>Se retomarmos a questão da relação médico-paciente, diante de tudo o que já foi explicitado, logo poderemos concluir o quanto ela está, historicamente, implicada numa grande significação simbólica. No entanto, o contexto médico atual prega outra perspectiva: o paciente é um objeto de estudo e, posteriormente, da intervenção tecnológica vigente, é um ser que, visto apenas enquanto matéria, está despido dos símbolos e significados, tanto individuais quantos sociais, que podem estar envolvidos em seu processo de adoecimento. O que nos propomos a reafirmar é que</p>
			<disp-quote>
				<p>O aspecto psicológico, além do simbólico, é aqui evidentemente importante, e coloca para a medicina convencional uma questão crucial em face da eficácia médica e da resolutividade de questões de saúde da clientela de serviços públicos: grande parte dessa eficácia e resolutividade resulta da satisfação que os pacientes encontram no seu tratamento. Tal satisfação deriva, por sua vez, de uma relação socialmente complexa (em que estão presentes elementos simbólicos e subjetivos) estabelecida entre os dois termos. A satisfação não deriva, portanto, apenas de uma racionalidade tecnocientífica, que tende, aliás, a ignorar a dimensão humana envolvida na relação terapeuta-paciente. O sucesso das medicinas alternativas nos últimos quinze anos deriva, em grande parte, da maneira como essas medicinas estabelecem a relação com seus pacientes. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>, p. 160-161)</p>
			</disp-quote>
			<p>Assim sendo, o objetivo primordial da intervenção médica não deveria se pautar apenas na determinação de um diagnóstico e na escolha de um tratamento, mas também no processo de recuperação e promoção de saúde. De acordo com (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>), existiriam problemas que estariam fora do alcance da medicina científica, e que somente os benzedores poderiam resolver, como se pôde identificar na fala de uma das entrevistadas da pesquisa realizada pelo autor: <italic>a benzedeira resolve coisas que o médico não resolve, médico não cura cobreiro</italic> (p. 578).</p>
			<p>Semelhante a esse fato, a entrevista realizada com o benzedor Paulo, habitante de um bairro de Santa Maria, nos revela muito sobre a diferença entre a atuação dos médicos e dos benzedores:</p>
			<disp-quote>
				<p>Existem coisas que são função do médico, se é para tirar um pedaço daquela matéria, ou colocar outro pedaço, pronto, é do médico; quando é espiritual, aí é outro caso. Tem pessoa que vai no médico, o médico faz tudo o que é exame, não acha nada, aí vem aqui e eu digo que só pode ser espiritual. Nós apelemos [sic] para a parte espiritual e a pessoa é curada. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>, p. 578)</p>
			</disp-quote>
			<p>Portanto, cientes de que “medir a eficácia de uma prática de cura não é uma tarefa simples, pois a saúde é algo complexo envolvendo aspectos diversos do ser humano, como sua integridade biológica, psicológica e sociocultural” (Noronha citado por <xref ref-type="bibr" rid="B19">Noronha, 2004</xref>, p. 6), o relato do benzedor residente em Santa Maria exemplifica uma das questões fundamentais desenvolvidas ao longo deste trabalho, isto é, a busca por um paradigma de cura que esteja para além do diagnóstico e que retome a forma terapêutica como elemento fundamental.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Neste trabalho procuramos demonstrar que, no decorrer da história, deparamo-nos com distintas formas de lidar com as modalidades de sofrimento humano, sejam elas psíquicas ou corporais. Por meio de rituais que evocam forças sobrenaturais ou fazendo uso de aparatos técnicos e marcadamente empíricos, o ser humano busca incansavelmente lidar com seu sofrimento, mas a humanidade continua a se defrontar com sentimentos de desamparo diante da experiência do adoecimento, das catástrofes naturais e humanas.</p>
			<p>No contexto contemporâneo, há uma tendência de o saber médico enfatizar o diagnóstico e tratamento em detrimento de uma visão mais ampla e sistêmica da forma terapêutica. A eficácia deste modelo, no entanto, tem-se resumido aos aspectos materiais deste processo e permitido entrever certo esvaziamento do valor subjetivo inerente à experiência do adoecimento e de sua respectiva “cura”. Desta forma, percebe-se que a unilateralidade da ação médica científica diante do processo saúde-doença, assim como o abandono de uma ótica dualista de sujeito, tem desconsiderado que este processo detém uma dupla natureza, isto é, comporta as esferas somáticas e psíquicas, ou até mesmo, se considerarmos certas linhas de pensamento, somáticas e espirituais.</p>
			<p>Neste sentido, a medicina tradicional, como se pôde ver através dos trabalhos de (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) e (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>), por exemplo, tem proposto uma forma terapêutica para o processo saúde-doença que trabalhe com a totalidade do sujeito doente, visto que “os curandeiros de modo geral e em diversos continentes, crêem na dupla natureza da doença, ou seja, consideram aspectos materiais e espirituais” (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Noronha citado por Noronha, 2004</xref>, p. 6). Assim sendo, ao retomar o aspecto simbólico pertencente a este processo, as práticas tradicionais de cura têm a possibilidade de fundamentar a sua permanência, demonstrando que o tratamento de um dos aspectos da doença não consegue abarcar a significação da totalidade do processo de adoecimento. Por isso é preciso distinguir o conhecimento da doença - que permite uma ação da clínica médica sobre esta -, da experiência do adoecimento - que diz respeito à maneira como cada indivíduo entende as causas, os desdobramentos e vivência do processo de convalescença ou morte. É nesse ponto que a medicina científica parece perder sua voz, e talvez esteja exatamente aí o aspecto valorizado pelas práticas tradicionais de cura e que garantem sua vitalidade mesmo num mundo dominado por técnicas refinadas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Aguiar, E. (2010). Medicina: uma viagem ao longo do tempo (Domínio público). Recuperado de <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-124108/medicina-uma-viagem-ao-longo-do-tempo">http://www.livrosgratis.com.br/ler-livro-online-124108/medicina-uma-viagem-ao-longo-do-tempo</ext-link>
				</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="webpage">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>Aguiar</surname>
							<given-names>E.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2010</year>
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				</element-citation>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Movimento surgido nos anos 1960 e que se prolongou até os anos 1970 nos Estados Unidos e na Europa.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Aqui o termo “norma” faz referência ao utilizado por <xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem (1978/2007</xref>) em <italic>O normal e o patológico.</italic></p>
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	<sub-article article-type="translation" id="s1" xml:lang="en">
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					<subject>ORIGINAL ARTICLES</subject>
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				<article-title>On traditional healing practices: subjectivity and objectivation in contemporary therapeutics</article-title>
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						<surname>Gewehr</surname>
						<given-names>Rodrigo Barros</given-names>
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					<xref ref-type="corresp" rid="c2">*</xref>
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				<institution content-type="original">Universidade Federal de Alagoas, Instituto de Psicologia. Maceió, AL, Brasil</institution>
			</aff>
			<author-notes>
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					<label>*</label>Corresponding address: <email>poesiatododia@hotmail.com</email>
				</corresp>
			</author-notes>
			<abstract>
				<title>Abstract</title>
				<p>This article is a theoretical study featuring a brief historical outline of traditional healing practices and also a discussion on their persistence and efficiency in the contemporary world, despite the advances of scientific medicine. Given the increasing relevance of subjectivity in contemporary medicine, our hypothesis aims to emphasize that the objectivation of patients by medical practices eclipses the role of subjectivity and reveals an important deficit in the therapeutics of the biomedical model. Our aim is to understand the role of traditional healing practices and how they may contribute to the medical model.</p>
			</abstract>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>traditional healing practices</kwd>
				<kwd>biomedical model</kwd>
				<kwd>subjectivity</kwd>
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		<body>
			<sec sec-type="intro">
				<title>Introduction</title>
				<p>In all ages of humanity - among human groups with historical records - there are accounts of the distress of people afflicted by bodily or psychic disorders and their related healing practices, be it spiritual, through rituals that invoke supernatural forces, or bodily, through healing rituals using elements of nature and mediated by representatives of the deities (priests, shamans). Prehistoric records also suggest that illness and healing have always been associated with highly symbolic ritual practices. On this subject, it is worth mentioning:</p>
				<disp-quote>
					<p>Superstition, magic and the act of healing were blended, and the figure of the physician and priest was part of this amalgamation, as attested by the man (physician) with the deer mask found in the cave of Trois-Frères, dated to about 16,000 years ago, considered the oldest depiction of an ailment healer. (Calder as cited in <xref ref-type="bibr" rid="B5">Castro, Andrade &amp; Muller, 2006</xref>, p. 39)</p>
				</disp-quote>
				<p>In its early days, humanity lived in greater integration with nature and healing processes were essentially empirical, based on a mythical structure that survives to this day in more traditional populations, and even in settings deemed as civilized. Such practices persist nowadays closely linked to the learning of the various forces of nature transmitted through orality, on the one hand, and beliefs in supernatural forces derived from religious traditions, on the other (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar, 2010</xref>).</p>
				<p>One could say that the traditional healing practices that persist over generations, despite the advance of scientific medicine, reflect to some extent (adapted to current reality) past practices, since they share similar principles: empiricism in the production of medicines, made from natural raw materials, specific rituals and the intermediation of different forms of power and/or energy, according to the type of practice and the historical context, for the accomplishment of cures.</p>
				<p>(<xref ref-type="bibr" rid="B1">Aguiar, 2010</xref>) states that “the fragility of primitive man in the face of nature, diseases and other difficulties related to his existence forced him to rely on the supernatural as a form of protection in such an adverse environment” (p.8). However, the current circumstances of humanity do not pose the same hostility of the past, and, therefore, it now resorts to supernatural forces for different causes than that pointed out by the author.</p>
				<p>Those who practiced healing, who had empirical knowledge of the fragility of human beings, the virtues of plants and the poisons of animals were considered to possess powers and fantastic abilities that set them apart from other men. Their healing practices, involving extraordinary rituals, made them notorious as mediators between man and gods, or between man and nature, for their ability to heal illnesses invested them with power over life and death.</p>
				<p>Thus, healing practices were surrounded by an atmosphere that went far beyond the simple administration of medicines, the cure resulting from a process that was not only physiological, but also symbolic (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Hoogasian &amp; Lijtmaer, 2010</xref>).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Origins of Western medical thought</title>
				<p>Patrons of philosophy and an intellectual reference point for various peoples, the Greeks were among the first to lay the foundations of rationality in knowledge, relying on reason to conceive their ideas and breaking with the ancient ways of representing the world. In this rupture with mythological explanations of disease, they started to employ a specific method to study the human body and nature in general. Observation became the main technique to unravel relationships of cause and effect in natural and physiological phenomena.</p>
				<p>The rationality of Greek thought caused a discreet estrangement from religious beliefs and supported the basis of medical thought in explanations deriving from nature and man himself. From then on, healing practices based on the blend of empiricism and magic, performed by priests and practitioners, gave way to other practices seeking the best way for man to live with himself and the environment, while emphasizing at the same time the idea of an intimate relationship between man and nature. Thus, the basis for an organicist perspective of disease is launched.</p>
				<p>In this sense, Greek thinkers were the first in Western culture to structure their knowledge from empirical observation in the form of general laws, and to produce knowledge on the notions of health, disease and cure. Formerly dominated by religious and mythological beliefs, these concepts were now influenced by philosophical and medical thought represented by names such as Pythagoras, his disciple Alcmaeon, Hippocrates and Galen.</p>
				<p>From Pythagoras comes the concept of the passions of the soul, which had to be controlled for one to achieve internal harmony and, consequently, health. In this way, Pythagoras’s contribution provided the initial momentum to break with concepts which needed to be surpassed at the time - like those associating the cause of the disease with some kind of divine punishment - and was later consolidated by his disciple Alcmaeon (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>).</p>
				<p>Alcmaeon inherits from Pythagoras the notion of health-related harmony and develops the important concept of health as a <italic>good balance of qualities</italic>, without specifying, however, how many these qualities might be. Philolaus of Croton, on the other hand, goes a step further and defines the number four as the fundamental structural principle of body balance and, therefore, of body health (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Huffman, 1993/2006</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Klibansky, Panofsky, &amp; Saxl, 1964/2002</xref>).</p>
				<p>Although the medicine of the Pythagoreans is closely linked to the philosophical principles of the school of Croton, it partakes in the gradual consolidation of empirical medicine, which was the basis for the theory of humors. Indeed, the doctrine of numbers, as well as the notion that health corresponds to the balance of various qualities, support the assertion that the Pythagoreans provided the conditions for the later emergence of the theory of humors, which prevailed widely in ancient medicine in different models, most noticeably in the form originated by the Hippocratic school (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Jouanna, 2005</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15">Klibansky, Panofsky, &amp; Saxl, 1964/2002</xref>).</p>
				<p>Hippocrates also adopts this principle of balance as a criterion of health, reaffirms the concept of internal origin of disease and develops his practice based on the theory of humors, which the Hippocratic school contributed decisively to introduce and spread. According to (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>), Hippocratic medicine was “vital for Western medicine because it defined Western and scientific medical knowledge, and was viewed as a <italic>tékhne</italic>” (p. 27).</p>
				<p>Galen, in turn, according to <xref ref-type="bibr" rid="B5">Castro et al. (2006</xref>), in addition to revisiting the theory of moods, “emphasized the importance of the four temperaments to health. He also considered the cause of disease to be endogenous, that is, within man himself, in his physical constitution or in life habits that led to imbalance” (p. 40).</p>
				<p>The principal names of Greek medicine contributed to the production of a great amount of knowledge on the concepts of health, disease and healing processes, to the point of such knowledge resulting in the founding of medical schools. Thus, the first rays of a subtle scientificity begin to emerge, later enhanced by the “official foundation” of modern medicine.</p>
				<p>Therefore, one can affirm that the foundations for the constitution of a rational and scientific medicine, with solid and reliable bases and techniques, are launched even before the requirements of scientificity become a concern of physicians in the 18th century, the period that marks the birth of modern medicine according to (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Foucault, 1963/2013</xref>) in <italic>The Birth of the Clinic</italic>:</p>
				<disp-quote>
					<p>Modern medicine has fixed its own date of birth as being in the last years of the 18th century. Reflecting on its own situation, it identifies the origin of its positivity with a return, over and above all theory, to the modest but effecting level of the perceived. (p. 10)</p>
				</disp-quote>
				<p>Therefore, as pointed out by the author (<disp-quote>
						<p>Foucault, 1963/2013</p>
					</disp-quote>), the Enlightenment is the system of thought that lays the foundation for the scientific rationality of modernity over the previous view of disease and cure. This school of thought advocates the sovereignty of reason, the unquestioned legitimacy of objective ideas based on what the eye can observe, and breaks with concepts founded on fantastic thoughts or religious beliefs. At the time of its emergence, this philosophical school greatly influenced scientific methods and techniques, an influence that persists to the present day.</p>
				<disp-quote>
					<p>The forms of medical rationality penetrate the marvelous density of perception, offering as the first face of truth the grain of things, with their colors, their spots, their hardness, their adherence. The scope of experiment seems to be identified with the domain of the careful gaze, of this empirical vigilance accessible only to the evidence of visible contents. The eye becomes the depositary and source of clarity: it has the power to bring to light a truth that it receives only insofar as it has brought it to light; on opening, it first opens the truth: a flexion that marks the transition of the “Enlightenment” from the world of classical clarity to the 19th century. (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Foucault, 1963/2013</xref>, p. 12)</p>
				</disp-quote>
				<p>In this way, the legacy of the Enlightment, besides influencing the thought of the time, laid the solid foundations for the emergence of a markedly empiricist scientific paradigm, corroborated by authors like René Descartes and Auguste Comte and the advent of Positivism. The sciences thus started following a strict method that dispenses with subjectivism and speculation in the attainment of true knowledge, which could only be validated in compliance with those predetermined patterns.</p>
				<sec>
					<title>Brazilian society</title>
					<p>With the process of colonization and the subsequent attempt to bring the colonies closer to their respective capitals, the features of European civilization started making progress in Brazil, taking roots initially in large urban agglomerations like São Paulo. Medical science, in turn, seeks to gain ground and legitimacy in the face of the traditional knowledge on disease and healing prevalent in the colony. This process, however, was not free of conflict, for</p>
					<disp-quote>
						<p>The sociocultural bases of colonial medicine were forged by the coexistence and combination of three distinct cultural traditions - indigenous, African and European - with an inexpressive participation of professionals with academic background. In fact, medicine in the daily life of the colony was almost invariably practiced by spiritual healers, witch doctors, herb doctors, faith healers, priests, barbers, midwives, bleeders, apothecaries and surgeons. The limited number of physicians available led to the abolition of the rigid social hierarchy of medicine, which in Europe reserved a distinct place for physicians, surgeons and apothecaries. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub, Marques, Sampaio, &amp; Sobrinho, 2003</xref>, pp. 101-102)</p>
					</disp-quote>
					<p>The process of legitimizing medical science frequently came up against the social prestige of popular therapists among both the lower classes and the elite. The official historiography on the institutionalization of scientific medicine in Brazil suggests that its hegemony was achieved in the absence of social conflicts and cultural resistance. This interpretation fails precisely to take into account the influence of traditional therapists and therapeutics. The fact is that the scant knowledge on the sociocultural characteristics of medicine in the Brazilian colonial period gave rise to the misconception that practices stemming from other traditions did not influence the late process of institutionalization of medical science that occurred over the 19th century (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>).</p>
					<p>Two aspects were, in this sense, extremely important for the process of institutionalization and popularization of scientific medicine in Brazil. On the one hand, the introduction of medical education in Brazil, an initiative by the imperial government in 1832 aimed at promoting the “acculturation” of local medicine to the new trends of European medical knowledge, contributed to differentiate scientific from popular medicine. On the other hand, popular medical dictionaries, by addressing topics related to medical science in simple language (part of the strategy to popularize medical science), established a link between colonial daily life and the technical discourse of academic medicine (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>).</p>
					<p>Given this context, Brazilian society was forced to rethink its system of social relations in the name of progress and a greater likeness to the model of European societies. With this premise of scientificity in mind, a veritable crusade was launched against healing practices by spiritual and faith healers and other representatives of unofficial knowledge, labeling them as archaic, outdated and criminal.</p>
					<p>Thus, as of the mid-19th century, the reasons for assuming the scientific discourse as the only possible truth are deeply rooted in the development of colonial society under European influence, as well as in the commitment of the country’s elite to preserving their power and privileges in a context in which the pillars of this social model - slave labor, supremacy of landowners’ will and reproduction of personal dependence ties - were reaching a crisis point (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>).</p>
					<p>In this context, traditional healing practices outside the official scientific medicine of the time are associated with economic underdevelopment and branded as insufficient, scarce and fraudulent by scientists. Their practitioners are likewise labeled as barbarian and backward and accused of being against civilizing progress.</p>
					<p>The articles compiled in the work <italic>Artes e Ofícios de Curar no Brasil</italic> [Healing Arts and Crafts in Brazil] by (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>) reveal that the activities carried out by non-scientific healing artisans were enormously varied, not only in terms of their practices, but also of the categories of practitioners and target audiences. Barbers and bleeders, faith healers, shamans, witch doctors, apothecaries, homeopaths, midwives, prescribers and the like offered cures for the evils of body and soul, often enjoying the trust of those who were wary of the prescriptions of scientific medicine, as shown in the following excerpt from the work cited above:</p>
					<disp-quote>
						<p>Linked to cultural traditions strongly rooted in different social groups, these practitioners often enjoyed the preference of the sick. Men or women, black or white, rich or poor, patients had their ways of coping with disease, which most often drove them away from the dictates of scientific medicine. (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>, p. 13)</p>
					</disp-quote>
					<p>As stated by Luiz Otávio Ferreira as cited in (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>), based on the analysis of medical journals: “Unable to simply denounce ‘charlatanism’ or ‘popular ignorance,’ physicians were forced to dialogue with popular medical tradition, competing under unfavorable conditions for authority in the field of the art of healing” (p.119).</p>
					<p>This clearly reflects the case reported by Gabriela dos Reis Sampaio as cited in (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalhoub et al., 2003</xref>) in which Juca Rosa, an important black healer and religious leader in 18th century Rio de Janeiro, was visited at home by high society white women, wealthy citizens, businessmen and influential politicians, who went in search of his advice and prodigies cures.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>Predominance of traditional therapists in colonial Brazil</title>
					<p>The predominance of spiritual healers, faith healers, bleeders, barbers and all the other prominent figures of popular medicine was of paramount importance in treating diseases in Brazil in colonial times.</p>
					<p>One of the reasons for the predominance of these popular healing practitioners was the scarcity of institutions dedicated to specialized medical teaching and care, such as clinics, hospitals or medical schools, besides the lack of interest of Portuguese physicians in settling in Brazil due to “low wages and precarious life conditions,” as (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Cunha, 2004</xref>) explains.</p>
					<p>In this sense, the practical use of medicinal plants was already known to the Jesuits since colonial times in Brazil. Such knowledge came mainly from the plants discovered and used by the natives, which afforded them excellent results in healing processes. As explained by the author cited in the previous paragraph, the effects resulting from the manipulation of these plants in the early 18th century were superior to those obtained from the predominant methods used in European medicine, which in turn were based on aspects of Galenic medicine combined with the theory of humors, as revealed by the <italic>Corpus hipocraticus</italic>.</p>
					<p>Even with the attempt to professionalize their healing agents, sanctioning them as representatives of science, academic medical practitioners encountered many difficulties in trying to assert themselves as professionals. There were feelings of unease and fear among the population (and also among religious authorities, especially Catholic) regarding the official medicine from Europe.</p>
					<p>The concept of cure assumed by healers represented, and still represents, a legitimate acceptance and choice in line with the healing concepts of the population, inasmuch as the healer’s activity and practice have a symbolic power that actually encompasses popular thought, thus empowering the healer’s representativeness and action. According to (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Foucault, 1964/2010</xref>), the therapeutic efficacy of symbolic values was</p>
					<disp-quote>
						<p>an obstacle to the adjustment of pharmacopoeias to new forms of medicine and physiology. Some purely symbolic systems retained their solidity to the end of the classical age, transmitting, over and above prescriptions and technical secrets, deaf images and symbols attached to an immemorial oneirism. (p. 336)</p>
					</disp-quote>
					<p>Thus, an entire body of knowledge composed of healing practices represented by the figures of faith healers, spiritual healers and herb doctors was surrounded by a tradition over which medicine had no control, since its healing techniques and propositions lacked the symbolic value contained in traditional practices.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>From the Fisicatura-mor to the 1890 Criminal Code: the process of legitimizing scientific medical practice</title>
					<p>Branded as quackery, the activity of traditional therapists and its persistence, previously characterized as magical and barbaric, started being officially legitimized through regiments such as the <italic>Fisicatura-mor</italic>, which sanctioned a series of crafts with well-defined activities, authorizing them to exercise the “art of healing,” which survived until 1828, by which time the Portuguese court had already been transferred to Brazil.</p>
					<p>The crafts authorized by the <italic>Fisicatura-mor</italic> included physician, surgeon, apothecary, bleeder, midwife and healer. The latter were only allowed to cure “mild” diseases and/or administrate medicines made with native medicinal plants (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>).</p>
					<p>Although the regiment was intended to establish which healing crafts were authorized for each category, it was common for barbers, bleeders and surgeons to combine their surgical practice with faith healing without any conflict.</p>
					<p>Newly arrived slaves found support in bleeding activities, for example, due to an involvement with their own cosmology and the view that diseases, imbalances and misfortunes were caused by the evil interference of spirits. They were often sent by their owners to a bleeding master to learn the craft.</p>
					<p>The distribution of titles to agents authorized by the <italic>Fisicatura-mor</italic> to carry out their activities in a legal manner contrasted with the reduced number of licenses granted to traditional therapists, who in turn enjoyed a notable preference among the population. (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>) explains that it is possible to observe in travelers’ accounts, publications and correspondence between authorities the spread of professionals such as bleeders, healers and midwives throughout Brazil with no licenses granted by the <italic>Fisicatura-mor</italic>. The author further tells us that these professionals would eventually legalize their activities due to forthcoming inspection, occasional denunciation or to outstrip other practitioners by acquiring an official status, especially when their activities were carried out in urban centers (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>).</p>
					<p>With the end of the <italic>Fisicatura-mor</italic> in 1828, a series of changes in the regiment brought about modifications in government-recognized crafts. Apothecaries, midwives or bleeders could only heal and practice their craft with a letter of introduction, the lack of which cast them into illegality.</p>
					<p>It is important to stress that these changes to the regiment and the extinction of the <italic>Fisicatura-mor</italic> were encouraged by the medical community of Rio de Janeiro, who viewed the old regiment as “a monstrous tribunal, so harmful to science and the interests of humanity” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>, p. 96). Healers were not even mentioned in the new regiment, complicating the life of bleeders in 1832 when the medical-surgical academies became medical schools, offering degrees restricted to physicians, pharmacists and midwifes. However, that did not deter the practice of those who were no longer recognized by law (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Pimenta, 2003</xref>).</p>
					<p>With the enactment of the criminal code of 1890, the scientific medical community was granted sole legitimacy by the state. Medical community and state then launched a joint political, legal and police enforcement persecution of traditional therapists, claiming to be protecting the population from delusional beliefs spread by the different kinds of knowledge on disease. The changes in legislation were based on the notion that medical practice should be exercised by men of science, who meet the objectives of the medical society and the imperial academy related to “population control and professional practice” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Montero, 1985</xref>, p.50).</p>
					<p>On this topic, (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Montero, 1985</xref>) explains that:</p>
					<disp-quote>
						<p>the establishment of medicine as the hegemonic practice did not only result from punitive and controlling measures, obviously. The development of vaccines against plagues, leprosy, typhus, smallpox, yellow fever and other diseases, and the improvement of hygiene control techniques and detection of contagious foci enabled medicine to fight effectively against contagious diseases. The extent and genuine superiority of medicine in the field of these diseases increasingly facilitated its acceptance, the expansion of its practice to all social strata and the subsequent extension of its monopoly over all therapeutic initiatives. The fact that the actual working class started to demand, as of the 1920s, the provision of free state health care gives us, to a certain extent, the dimension of the legitimacy medicine had acquired in the eyes of the social classes that until then had been the “natural clientele” of traditional therapies. (p. 54)</p>
					</disp-quote>
					<p>From then on, the practice and knowledge of faith and spiritual healers lost ground amid advancing urbanization and industrialization, the development of school education, technological progress and scientific medicine. This trend also affects rural settings, where traditional therapies were better adapted. Here also the interference of urbanization is felt, for example, in the displacement of people that ends up hindering the transmission of knowledge of traditional medicine.</p>
					<p>Despite the attempts at officialization that served to spread scientific medicine, and despite the difficulties highlighted above, traditional healing practices resisted the isolation and attempted exclusion and survive to this day in certain settings, including urban contexts.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec>
				<title>The subject of the current medical paradigm</title>
				<p>The subject’s place in contemporary medicine is a current and constant theme in health discussions. In this sense, this topic will be herein addressed based on the following premise: that the objectivation of the subject, practiced by scientific medicine in treating pathologies, condemns the subjective sphere to oblivion and exposes a deficit in the therapeutic proposal of the biomedical model.</p>
				<p>Heir to modern scientific rationality, the biomedical model is characterized by its close connection with the areas of biological sciences. In this perspective, the reference points of clinical practice are disease and injury, and the physician’s objective is to identify the disease and its respective cause (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Guedes, Nogueira, Camargo Jr., 2006</xref>).</p>
				<p>In this sense, (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Sousa, 2007</xref>), in his master’s thesis, underscores a fact that enables us to establish a first link with our premise, i.e., the absence of the subjective sphere in the treatment of various pathologies:</p>
				<disp-quote>
					<p>There is an axiom that continues to influence medical practices: the belief that the body is made of matter, the disease is caused by some form of matter (genes, bacteria, viruses), and the best therapeutic option is the administration of matter (drugs) or the removal of matter (tumors, organs), .... The body is understood in mechanistic terms, as a system of organs and parts, some of which can be repaired, removed or replaced.... In short, matter is attacked with matter. Side effects are often ignored. (p. 33)</p>
				</disp-quote>
				<p>Since the tradition of the body prevails and its implications are prominent in the treatment of human distress, (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>) shows us that “this rationality is at the foundation of scientific medicine, whose mechanistic and reductionist view links each emotion or thought to a specific mechanism” (p.16).</p>
				<p>The arguments of both (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Souza, 2007</xref>) and (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>) also lead us to reflect according to the reasoning expressed by (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>) in <italic>The Normal and the Pathological</italic>. This is because if, on the one hand, “disease is that which discomforts men in the normal performance of their lives and their occupations, and, above all, what causes them to suffer” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>, p.67), on the other “anomaly is known to science only if it is first perceived in the consciousness, in the form of an obstacle to the performance of functions, or discomfort or harmfulness” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>, p. 104).</p>
				<p>What is implied in the previous paragraph is the impossibility of conceiving disease based solely on the figure of the patient. It is necessary to resort to the discourse of the subject that is afflicted, to take into account the perspective he has of his own suffering:</p>
				<disp-quote>
					<p>That is to say, in dealing with biological norms, one must always refer to the individual because this individual, as Goldstein says, can find himself equal to the tasks resulting from the environment suited to him, but in organic conditions which, in any other individual, would be inadequate for these tasks (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1978/2007</xref>, p. 144).</p>
				</disp-quote>
				<p>Regarding medical practices and the importance of the subject’s perception of his own illness, it is noted that when one disregards factors such as subjectivity and/or culture, the relationship between professional and patient is mainly established on technical terms. In this context, objectifying the subject to the detriment of his subjective dimension exposes this deficit in therapeutic proposals, since, according to Porto as cited in (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>), diagnosis has been appreciated over therapeutics, inverting what should be the true goal of medical action.</p>
				<p>One perceives that this biomedical model, centered on the disease, undermines interest in the patient’s experience. In addition, with the assimilation of technology, medicine has suppressed the personal relationship between doctor and patient, so that “currently there are resources to deal with each and every fragment of man, but physicians lack the ability to handle the same man in his totality” (Jaspers as cited in <xref ref-type="bibr" rid="B4">Caprara &amp; Rodrigues, 2004</xref>, p. 140).</p>
				<p>The rationalization of medicine, founded on the belief that human beings can be objectively and quantitatively measured, underestimates not only the psychological, social and cultural dimensions of the health-disease relationship, but also the meanings the disease may take on for the patient. Sharing with patients the experience of becoming ill requires physicians to review their understanding of the process of disease and healing, which henceforth cannot be apprehended solely in its diagnostic and prognostic dimension. In other words, the health-disease process must be now understood as a dynamic process involving not only technical but also subjective aspects of both physician and patient.</p>
				<p>Going back to (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem, 1987/2007</xref>) in <italic>The Normal and the Pathological</italic>, when the author discusses the notions of health and disease based on the association between physiological experiments in laboratories, such notions are founded on averages obtained in scientifically controlled situations - a fact also criticized by Canguilhem - which readily shows us how distant they are from the reality of patients.</p>
				<p>The existence of both health and disease is subject to anatomical and physiological substrates that may or may not contain some kind of pathology and which, in addition, are no longer defined by the afflicted patient, but by the diagnosing doctor. The subjective sphere of the disease experience is neglected and patients can no longer report what they feel unless their impressions have been scientifically proven and defined. So, instead of patients, what we have are sick persons. Knowledge of the disease is completely divorced from any kind of understanding of the process of becoming ill.</p>
				<p>According to Luz as cited in (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>), this situation has led people to seek other practices that provide not only some form of therapy, but also of “care.” Medical inefficiency, especially regarding its concept of the subject and methods of intervention, enables the emergence of both new therapies, sometimes unsubstantiated, and the so-called traditional practices, which for reasons not always well grounded were degraded to the condition of fraud or superstition. As reported by (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Guedes et al., 2006</xref>):</p>
				<disp-quote>
					<p>We have verified in the field of collective health the rise of new approaches to the process of becoming ill, such as expanded clinical practice, humanized care, discussions on the integrality of health actions and the production of care aimed at transforming the technical model of medicine. Alongside these proposals, in recent years there has been an increasing acceptance by society of the so-called alternative medicine (p. 1095).</p>
				</disp-quote>
				<p>In addition, Le Fanu as cited in (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Caprara &amp; Rodrigues, 2004</xref>), in presenting some of the contradictions of the recent history of medicine, shows us that the efficacy of modern medical practice should entail the decline of “other forms of medicine”; however, a significant increase is observed in the use of non-conventional medicine in the West.</p>
				<p>Reclaiming the status due to the term disease, and taking into consideration the developments that medical practice has undergone, we see that it cannot not restricted to a series of symptoms that meet the norms of a given culture. What we have before us, above all, is a sick person who, in the face of his condition, at the same time expresses part of his life history and gives a new meaning to the disease that afflicts him.</p>
				<p>The main point is to think of disease not as an entity in itself, but as something conceived within a dialectical relationship in which the patient’s demands go beyond a mere diagnosis from the physician. This is so because it involves not only the need to be “healed,” but also the search for the meaning of becoming ill, an aspect often overlooked by biomedical reasoning:</p>
				<disp-quote>
					<p>Consultation with a doctor... is not limited to the information gathered and the objective examination of the symptoms and signs of the main complaint, as well as the aspects related to it. It involves the doctor listening attentively to the patient in search of the revealing intimacy of his unique way of being in the world, via his life projects, beliefs, feelings, thoughts and memories. This listening must be comprehensive to the point of sparking a catharsis and, at the same time, be part of the therapeutic process. The symptom brought by the patient is not, therefore, a nuisance to be eliminated, but something to be observed as an expression of the individual. (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz, 2006</xref>, pp. 17-18)</p>
				</disp-quote>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B8">Diniz’s statement (2006</xref>) expresses, above all, an aspiration to humanize the relationship between physician and patient. However, as we have seen above, we may conclude that modern medicine does indeed establish an objective and objectifying relationship with both subject and disease. In addition, the practice of this medicine identified with the scientific discourse has become excessively technical, undervaluing the subjectivity inherent in the process of illness and cure.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Persistence of traditional healing practices: identifying deficits</title>
				<p>From the topics addressed we will seek to reflect, based on our premise (that is, that objectification of the subject to the detriment of subjectivity in the treatment of pathologies allows us to identity a deficit in the therapeutic proposal of the biomedical model), whether the implications of the objectification process could justify the persistence of the traditional healing practices herein discussed.</p>
				<p>According to (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>), the growth of “alternative medicine” occurs in both first and third world countries as of the mid-1970s, reaching its apex in the 1980s. In addition, the author stresses an important event: the emergence of new paradigms for healing and health in the second half of the 20th century - especially with the social movement called “counterculture”<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>1</sup></xref> - driven by the import of different therapeutic systems, opposed to the medical rationality prevailing in Brazil.</p>
				<p>Regarding alternative medicine, the author (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) describes the existence of three large groups in Latin America with different demands by the population according to the culture of each region: I. traditional indigenous medicine; II. medicine of Afro-American origin; and III. popular medicine derived from highly complex medical systems.</p>
				<p>Ancient and resilient despite facing cultural clashes, traditional indigenous medicine, shamanic or non-shamanic, is as a system that preaches harmony between man and nature. This medicine advocates that disease originates from the imbalance of the basic elements of life, “[and] restoring health through the intervention of shamans, or sorcerers, or other healing agents means re-establishing harmony between such elements in subjects, which are always viewed as a social and spiritual whole inserted in nature” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>, p.155).</p>
				<p>Equally shamanic in origin but distinctly more religious than the former, medicine of Afro-American origin was introduced in countries of South and Central America through the practice of slavery in the continent between the 17th and 19th centuries. (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) points out that although it considers nature as a fundamental element for healing, Afro-American medicine is clearly more spiritualistic in its treatment of disease-related phenomena, with male or female priests (the so-called “father or mother of saints”) as the most important healing agents, therapeutically mediating different levels of spiritual entities and divinities.</p>
				<p>Lastly are those therapies called “alternative” which take on a parallel or complementary role to our medicine. In general they descend from traditional medical systems linked to highly complex philosophies such as traditional Chinese medicine, Ayurvedic medicine and homeopathy, and are much in demand in the current context.</p>
				<p>The groups described by (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) occupy an interactive, competitive or complementary position in the contemporary cultural environment, with a strong trend towards “therapeutic syncretism.” In this sense, research by (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Noronha, 2004</xref>) highlights a few highly significant factors in understanding why part of the population continues resorting to alternative medicine:</p>
				<disp-quote>
					<p>In contemporary society the use of parallel medicine practices is established in several ways. Some people complement conventional allopathic therapy; others are radical, seeking to rely exclusively on parallel medicine practices as a reaction to (refusal of) official treatment or as a philosophy of life, also making use of alternative food, housing and customs. (p.2)</p>
				</disp-quote>
				<p>Such practices that have become alternative resist amid urbanization trends in competition with scientific medicine, demonstrating a level of refinement in urban centers, as in the work of spiritist centers, for example, whose healing principles are similar to the concepts of traditional spiritual and faith healers, performing “psychic surgery” and blessings, demonstrating a concern with the spiritual world.</p>
				<p>In a study carried out with spiritual healers from the town of Viçosa, Alagoas, titled “Medicina popular em Alagoas” [Popular Medicine in Alagoas], José Pimentel de (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Amorim, 1963/2006</xref>) explains some aspects of the performance of these local traditional therapists, showing the scope and nuances of the activity of such professionals:</p>
				<disp-quote>
					<p>There are male and female healers, they commonly pray and bless to cure diseases, sometimes reciting; they do more, since in addition to making medicines of all kinds, they cure snakes bites, shield the body and exorcise harmful spirits, a more delicate task which they only perform exceptionally. More common are the blessings they give; they know and recite long prayers, which are the most impressive. (p.11)</p>
				</disp-quote>
				<p>Moreover, even in urban environments, many alternative healing practices have been adapted and incorporated into social settings. Could the resilience of such practices and the widespread demand for them suggest any dissatisfaction with the resources of the doctor-patient relationship of scientific medicine?</p>
				<p>An example of the persistence of these traditional medicine practices is the study by (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>) featuring the work developed by (<xref ref-type="bibr" rid="B22">Ribeiro, 1996</xref>) with the rural community of Três Barras, near the city of Santa Maria (RS). Seeking to understand why the population of the community resorted to faith healers in order to solve the anomalies that afflicted them - addressing physical, psychological and spiritual health -Ribeiro was able to find in the statements of that population elements that justified the survival of the practice.</p>
				<p>It was first noticed that the distance from the community to urban centers, the difficulty in reaching them and problems with the poor and overcrowded health public care were factors that justified the search for the services of faith healers (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>). Next, (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>) reveals that blessing is an element that belongs to a universe of traditions, a practice that is consistent with the culture of the community, so that people would first resort to it and later, if the problem was not solved, seek medical practice.</p>
				<p>Expanding the previous discussion, (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Quintana, 1999</xref>) shows us that:</p>
				<disp-quote>
					<p>The individual may accept his illness if he is able to give it meaning. Pain is always intolerable as long as it means something arbitrary. But when it acquires a meaning, it becomes bearable. It is the quest for such meaning that makes people seek faith healers. (p. 47)</p>
				</disp-quote>
				<p>This allows us to consider a search for a healing paradigm whose focal point is therapy rather than diagnosis. In addition, we question whether factors such as the generality and detachment inherent to the ideal of neutrality and objectivity of medical science might not have posed obstacles for specific social groups, since naming the pathology seems not to have the same effect as knowing that one is being “cared for” rather than “treated.”</p>
				<p>In addition, there are two important points here: I. The practice of faith healing as a historical and cultural survivor of the introduction of scientific medicine; II. The role of the faith healer as someone who provides the subject-patient not only with a possible cure, but also with an environment in which a new meaning can be assigned to the unfavorable life norm.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>2</sup></xref>
				</p>
				<p>Resuming the issue of the doctor-patient relationship, the considerations above allow us to conclude that it is historically imbued with great symbolic significance. However, the current medical context preaches a different perspective: the patient is an object of study and, later, of current technological intervention; he is a being who, viewed solely as matter, is stripped of the symbols and meanings, both individual and social, that may be involved in his illness process. What we propose to reaffirm is that:</p>
				<disp-quote>
					<p>The psychological aspect, besides the symbolic, is clearly important here, and poses for conventional medicine a key issue regarding medical efficacy and the resolvability of health issues in public services: much of that efficacy and resolvability results from the satisfaction of patients with their treatment. Such satisfaction derives, in turn, from a socially complex relationship (involving both symbolic and subjective elements) established between the two terms. Satisfaction, therefore, does not derive merely from technical-scientific rationality, which in fact tends to ignore the human dimension involved in the therapist-patient relationship. The success of alternative medicine practices in the last fifteen years stems largely from the way those practices establish the relationship with their patients (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>, pp. 160-161).</p>
				</disp-quote>
				<p>Thus, the main objective of medical intervention should not be restricted to determining a diagnosis and choosing a treatment, but also include the process of health recovery and promotion. According to (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>), some problems would be beyond the reach of scientific medicine, capable of being solved only by faith healing, as suggested by the statement of one of the interviewees in the author’s survey: <italic>The faith healer solves problems the doctor can’t solve, the doctor can’t cure shingles</italic> (p. 578).</p>
				<p>Similarly, the faith healer Paulo, a Santa Maria resident, states the following about the difference between doctors and faith healers:</p>
				<disp-quote>
					<p>Certain things are the doctor’s job, if it’s to take out one piece of matter, or put another one in, no question, that’s with the doctor; when it’s spiritual, that’s a different case. Some people visit the doctor, the doctor runs all kinds of tests, can’t find anything wrong, so they come here and I tell them it can only be spiritual. We address the spiritual side and the person is healed (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>, p. 578).</p>
				</disp-quote>
				<p>Therefore, bearing in mind that “measuring the effectiveness of a healing practice is not a simple task, since health is a complex thing that involves various aspects of human beings, such as their biological, psychological and socio-cultural integrity” (Noronha as cited in <xref ref-type="bibr" rid="B19">Noronha, 2004</xref>, p. 6), the statement of the Santa Maria faith healer illustrates one of the fundamental issues herein developed, to wit, the search for a healing paradigm that goes beyond diagnosis and reclaims therapeutics as a fundamental element.</p>
			</sec>
			<sec sec-type="conclusions">
				<title>Final considerations</title>
				<p>In this work we have tried to show that history reveals different ways of dealing with the modes of human distress, whether psychic or physical. By means of rituals that evoke supernatural forces, or the use of technical and markedly empirical resources, humans tirelessly attempt to deal with their suffering, but humanity is continuously challenged by feelings of helplessness when experiencing illness and natural or human disasters.</p>
				<p>In the contemporary setting, medical knowledge tends to emphasize diagnosis and treatment rather than a broader and more systemic view of therapy. The effectiveness of this model, however, has been limited to the material aspects of this process, evidencing a depreciation of the subjective value inherent in the experience of disease and its respective “cure.” In this way, it is observed that the unilateral nature of scientific medical action regarding the health-disease process, as well as the abandonment of a dualistic view of the subject, has overlooked the dual nature of this process, i.e., that it includes the somatic and psychic dimensions, or somatic and spiritual dimensions, if we consider certain lines of thought.</p>
				<p>In this sense, traditional medicine, as seen in the work of (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Luz, 2005</xref>) and (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Lins, 2013</xref>), for example, has proposed for the health-disease process a therapeutics that addresses the patient as a whole, since “... healers in general and in different continents believe in the double nature of disease, that is, they consider material and spiritual aspects...” (Noronha as cited in <xref ref-type="bibr" rid="B19">Noronha, 2004</xref>, p.6). Thus, by retrieving the symbolic aspect of this process, traditional healing practices are able to justify their permanence, demonstrating that treating one aspect of the disease is not enough to address the significance of the entire disease process. It is therefore necessary to consider the knowledge of the disease - which enables medical action against it -, and the experience of illness - that relates to the way each person understands the causes, development and experience of the process of convalescence or death. That aspect, ignored by scientific medicine, might be precisely what guarantees the vitality of traditional healing practices in a world dominated by refined techniques.</p>
			</sec>
		</body>
		<back>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn3">
					<label>1</label>
					<p>A movement that emerged in the 1960s and lasted to the 1970s in the US and Europe.</p>
				</fn>
			</fn-group>
			<fn-group>
				<fn fn-type="other" id="fn4">
					<label>2</label>
					<p>The term “norm” here is used in the sense employed by <xref ref-type="bibr" rid="B3">Canguilhem (1978/2007</xref>) in <italic>The Normal and the Pathological</italic>.</p>
				</fn>
			</fn-group>
		</back>
	</sub-article>
</article>