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				<journal-title>Psicologia USP</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Psicol. USP</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0103-6564e190031</article-id>
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					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>A Psicologia Social na universidade pública: uma prática psicanalítica de reparação da memória brasileira</article-title>
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					<trans-title>La psychologie sociale dans l’université publique: une pratique psychanalytique pour réparer la mémoire brésilienne</trans-title>
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					<trans-title>La psicología social en la universidad pública: una práctica psicoanalítica de reparación de la memoria brasileña</trans-title>
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						<surname>Mandelbaum</surname>
						<given-names>Belinda</given-names>
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				<institution content-type="original">Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia. São Paulo, SP, Brasil</institution>
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					<label>*</label>Endereço para correspondência: <email>belmande@usp.br</email>
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				<year>2019</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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				<title>Resumo</title>
				<p>Este texto foi apresentado para a prova de erudição do concurso para professor titular em Psicologia Social realizado na Universidade de São Paulo em novembro de 2018. Nele busco explicitar minha responsabilidade como professora dessa área numa universidade pública de excelência no Brasil dos dias de hoje. Trago também o meu entendimento da Psicologia Social como campo em que se realizam de forma indissociável o pensamento, a fala e a ação, a teoria e a prática. A Psicanálise é apresentada como instrumento hermenêutico a colaborar para a elucidação dos fenômenos psicossociais. Textos de Freud e Benjamin e poemas de Carlos Drummond de Andrade auxiliam a configurar a Psicologia Social como campo de trabalho com a memória, a ressignificação e a reparação.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title>Résumé</title>
				<p>Ce texte a eté présenté pour l´épreuve d´érudition du concours pour professeur titulaire de Psychologie Sociale qui a eu lieu en novembre 2018. Je cherche expliciter ma responsabilité comme professeur de Psychologie Sociale dans une université publique d´éxcellence, au Brésil de nos jours. Je montre aussi mon point de vue sur la Psychologie Sociale en tant que domaine ou se réalisent de façon indissociable la pensée, la parole et l´action, la théorie et la pratique. La Psychanalyse est présentée comme instrument herméneutique qui aide à l´élucidation des phénomès psychosociaux. Des textes de Freud e Benjamin, ainsi que des poèmes de Carlos Drummond de Andrade aident à configurer Psychologie Sociale comme une domaine de travail avec la mémoire, la re-signification et la réparation.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>Resumen</title>
				<p>Este texto se presentó como prueba de erudición del concurso para profesor titular en Psicología Social, que se llevó a cabo en la Universidad de São Paulo, en noviembre de 2018. En el texto, intento explicitar mi responsabilidad como profesora de Psicología Social en una universidad pública de excelencia, en el Brasil actual. Además, aporto mi comprensión de la Psicología Social como campo en que se procesan, de forma indisociable, el pensamiento, el habla y la acción, la teoría y la práctica. El Psicoanálisis se presenta como instrumento hermenéutico para colaborar con la elucidación de fenómenos psicosociales. Textos de Freud y Benjamin, así como poemas de Carlos Drummond de Andrade, ayudan a configurar la Psicología Social como campo que trabaja con la memoria, la resignificación y la reparación.</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>psicologia social</kwd>
				<kwd>psicanálise</kwd>
				<kwd>memória</kwd>
				<kwd>reparação</kwd>
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				<title>Mots-clés:</title>
				<kwd>psychologie social</kwd>
				<kwd>psychanalyse</kwd>
				<kwd>mémoire</kwd>
				<kwd>réparation</kwd>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>psicología social</kwd>
				<kwd>psicoanálisis</kwd>
				<kwd>memoria</kwd>
				<kwd>reparación</kwd>
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		<p>Já faz oito anos que me dispus a propor meu nome para fazer parte do conjunto de professores associados da Universidade de São Paulo, instituição de primeira importância na construção de nossa identidade brasileira. Nossa universidade é, antes de tudo, um bem material do país, da sociedade brasileira, do povo do Brasil. Dar uma aula num concurso para professor titular em Psicologia Social aqui onde estamos neste instante, nos dias que vivemos, não é propriamente uma honra, uma dinamização de valores morais pessoais, nem sequer apenas um desafio intelectual, uma ação que mostre a agilidade racional que eventualmente consegui acumular e pôr em funcionamento em minha vida. Nem é propriamente um mérito, ou seja, trazer para vocês o valor de minha moeda ética, que consegui acumular como fruto de meu intercâmbio com a realidade. Não que não seja uma honra ou um mérito ou um desafio intelectual, mas se tivesse que dar um nome que definisse aquilo que deve estar presente em minha aula de modo mais vivo para fazer minha postulação ao cargo, qual seria?</p>
		<p>O objeto da Psicologia Social é duplo, mas único. Ela lida com o ser humano e com a História. Se quisermos integrar, podemos dizer que lida com a vida humana. Mas a vida humana, diz Hannah Arendt, é apenas um meio, porque o que sempre se materializa, em suas palavras, é “a morada humana” (<xref ref-type="bibr" rid="B3">Arendt, 1958</xref>, p. 263). A vida humana é a construção dessa morada. Tudo o que fazemos na vida, desde o ato de respirar até o trabalho de nos formar e de formar outros, é construir. O problema é que, se aprendemos alguma coisa nos últimos 100 anos, é que a palavra “construção” rima sempre com a palavra “destruição”. A vida humana tem por função, por natureza e essência construir a morada humana, que nunca está pronta, completa e bem arrumada para o resto das vidas futuras. As leituras messiânicas nos acalentam e nos iludem. Porque se há algo que nós aprendemos com toda uma tradição que, para facilitar as coisas, chamarei de freudiana, mas que remonta aos primórdios da Humanidade, à origem das ideias religiosas, filosóficas e políticas, é que a construção da morada dos homens implica também em destruição.</p>
		<p>Em certos momentos, a vida humana se apresenta para cada um em toda a sua intensidade, aciona os nossos sinais de alerta. Nós estamos vivendo um momento assim, e o tema da Psicologia Social é entender estes momentos e favorecer a possibilidade de dar elementos para fortalecer a construção da morada dos homens. A obra de Hannah <xref ref-type="bibr" rid="B3">Arendt A condição humana (1958</xref>) versa sobre as relações entre a esfera pública e a esfera privada. Isto é Psicologia Social, e se o tema da Psicologia Social é a construção da morada humana, este é um tema que não dá para estudar sem fazer, ou fazer sem estudar. Está em seu núcleo esta imbricação de teoria e prática. E nós, que estudamos e fazemos neste campo, temos que levar em consideração esta estranha continuidade, sempre tão acidentada, que sempre dá lugar às descontinuidades e ao insólito, entre o pensamento, a fala e o fazer. Porque é no miolo destas manifestações do humano que se implanta toda a problemática sobre teorias e práticas.</p>
		<p>A Psicanálise é um campo de conhecimento que soube agilizar estas três dimensões do existir humano. É um saber que aproxima o pensar, o falar e o fazer de uma maneira profunda. Soube enraizá-las, ou melhor, mostrou a raiz única que circula entre estes modos de ser da condição humana. Hannah Arendt nos lembra que - eu a cito - “a História é uma série de eventos e não de forças ou ideias de curso previsível” (1958, p. 264). Isto é integrar a Psicologia e o Social, a circularidade das relações entre pensamento e ação. A Psicanálise permitiu observar o profundo conflito psíquico que mobiliza o esforço humano por construir-se, desde o nascimento. A vida humana é um evento traumático, isto é, sujeito a descontinuidades e rupturas, à alienação, e que demanda o trabalho interno de elaboração pessoal: cada um deve construir sua morada dentro de si, na vida pessoal, e fora de si, na vida social mais ampla, no mundo, entre e com outros seres humanos. A morada interna deve ter janelas e portas bem abertas para a morada externa, para que o trabalho de formação pessoal e de formação do coletivo sejam o mais integrado possível. A construção de cada ser humano singular passa por ter que lidar com conflitos psíquicos e conflitos socio-históricos. E como a vida humana é feita de eventos, o evento essencial de quem está enraizado na tradição freudiana é sua autoanálise, ou a crítica, tanto aquela promovida para si próprio, em direção às próprias raízes, quanto aquela que é a manifestação do trabalho concreto na vida pública, com outros seres humanos. Ter uma raiz freudiana é resgatar o “conhece-te a ti mesmo”. A formação de um analista demanda o trabalho de autoanálise, um trabalho prático consigo próprio. A reflexão tomada como prática. Faz parte da autoanálise o estudo, a crítica reflexiva, por isto, nesta tradição de pensamento, nós nunca interpretaremos o outro melhor do que a nós próprios. <italic>Nós</italic> somos o limite, não o mundo. A Psicologia Social tem na Psicanálise não uma resposta, mas um agilizador que demanda muito mais uma prática, uma atenção, uma atitude reflexiva que compromete a vida por inteiro, do que um legado de ideias que ajudem a explicar eventos humanos de forma abstrata. A autoanálise deve trabalhar na construção de nossa identidade como psicólogas e psicólogos sociais. Dizer que somos críticos é dizer que somos autocríticos, que nos formamos em nossa prática, sabendo da desconfiança que merece a fragilidade da condição humana. Daí que, para este evento tão importante em minha vida, o que quero trazer com mais destaque é minha responsabilidade com a morada humana. É para isto que estudei e é para isto que trabalho. A Universidade de São Paulo é uma instituição dedicada à formação, ao estudo, isto é, à transferência de saberes, que devem ser sempre acompanhados da possibilidade de autorreflexão crítica, ou seja, fortalecer os recursos para nos revermos, nos repararmos, promover o nosso desenvolvimento, o que só ocorre com o reconhecimento do que somos e do que vivemos. O estudo é a atividade que é a razão de ser desta instituição. Estudar é reparar, nos sentidos mais amplos desta palavra.</p>
		<p>Nunca é demais pôr em destaque o importante fato de que antecessores nossos souberam da importância de implantar no Brasil, dadas as suas condições histórico-socioeconômicas, uma universidade de excelência pública. Claro que, para muitos, nem precisa ser justificada a ideia do por que uma sociedade qualquer se fortalece se sabe dar acolhida em seu interior a uma situação de estudo superior de excelência, uma universidade de excelência. O que não é óbvio para todos é a necessidade do <italic>público</italic>, mais ainda em nosso país. Então tentemos explicar. Isto é o que uma psicóloga social tem que sempre tentar fazer.</p>
		<p>Nós fomos nos construindo ao longo da nossa história de modo segregacionista, o que suscitou em que enormes parcelas da sociedade fossem desapropriadas, alienadas, e se sintam vivendo cindidas do coletivo. Octavio Paz é um autor que tomo como bom modelo de pensador latino-americano, porque soube conjugar poesia, ensaio crítico-cultural, crítica política, história da Filosofia, autoanálise psicanalítica, enfim, as estruturas de pensamento e autores contemporâneos mais importantes, a serviço de sua preocupação com o que ele chama de <italic>identidade mexicana</italic> e seu devir, isto é, as vicissitudes do ser mexicano. Para ele, a identidade é um conceito problematizador, uma abertura mobilizada por circunstâncias histórico-materiais e culturais. Ele tem muito a nos ensinar sobre como lidar com a nossa identidade brasileira e nossas vicissitudes, para mim tema central da Psicologia Social brasileira. Mas não é esta a nossa questão agora. O que quero é lembrar que, para este autor, a crítica é um exercício difícil em território latino-americano, dada a violência, isto é, o acúmulo de desapropriação e de desapropriados que nosso processo histórico suscita. É difícil pensar e viver a nossa história até as suas raízes, porque o resultado das desapropriações assume uma proporção quase insuportável e o pensar nestas condições tende a ser mais defensivo do que crítico. A violência suporta todas as nossas estruturas de pensamento. No Brasil, historicamente fomos feitos promovendo cisões. A exclusão social, este mecanismo de eclipsamento de grandes parcelas da população da nação brasileira ao longo da História, configura um amplo objeto cindido quando visto através de uma lupa psicanalítica posicionada diante da realidade brasileira. O drama da nossa condição histórica é que estes violentos processos de cisão foram operados em ressonância com os diversos projetos de promoção de progresso em nosso país. E é esta conjunção de cisão e progresso que dificulta o trabalho crítico entre nós. É difícil a apreensão da totalidade brasileira e a necessária sublimação da poderosa violência que age tão imperativa quanto silenciosamente nos estratos mais profundos do processo histórico-social brasileiro, para efetivamente podermos realizar uma crítica, isto é, uma atitude reparatória intelectual. Um bom exemplo do que estamos dizendo, sobre a dificuldade de pensar e viver o Brasil de forma integrada, é a famosa frase do professor de nossa universidade, Fernando Henrique Cardoso, quando empossado presidente: “Esqueçam o que eu escrevi.” Isto não deveria ter ocorrido, nem como pensamento, nem como fala, nem como ação para que de fato pudesse ocorrer algum progresso social mais plenamente enraizado. O que limita a crítica é que a própria construção do Estado brasileiro e de suas instituições é, ao mesmo tempo, fruto e agente desses violentos mecanismos de cisão em operação. O resultado disto é um Estado, em todos os sentidos, bem menor do que a grandeza da nação.</p>
		<p>Economistas pragmáticos ao longo da História continuamente afirmam que não podemos dar um passo maior do que as pernas, e que o Brasil deveria abrir mão de uma universidade de excelência pública. Mas fiz referência ao importante fato de que aqueles que nos antecederam honraram o atributo público desta universidade. E a minha responsabilidade trabalha em ressonância com eles. Não sei do viés ideológico de cada um deles - se eram alinhados com o que costumamos chamar de esquerda, ou marxistas. Acredito que não, não todos, pelo menos. Creio que a opção deles emergiu de uma leitura que supera posicionamentos ideológicos da matriz esquerda/direita, mais estatizante ou liberal. Por isto, esta não é uma questão que deve ser equacionada exclusivamente no campo econômico. Tenho para mim que o <italic>público</italic> era e é uma medida essencial para combater a violência da exclusão e sua profunda implicação no exercício crítico, uma vez que esta exclusão é traço tão marcante na consciência e na identidade brasileira. O adjetivo <italic>público</italic> só se legitima através de uma ação política concreta. <italic>Público</italic> não é um ideal, é uma realização. Para nossos antecessores, uma universidade pública de excelência era o modo de enraizar o estudo na totalidade do povo brasileiro - e quando digo povo, quero falar de um coletivo que sempre tende a nos escapar por razões históricas, e que conjuga, de maneira sempre conflitiva, violenta e, por estranho que pareça, às vezes cordial, índios com imigrantes, golpes com constituintes, doutores com mascates, negros com brancos, mulheres com homens, crianças com adultos, religiões as mais diversas, que sincretizam por vezes animismo e monoteísmo.</p>
		<p>O campo da Psicologia Social só pode ganhar um estatuto crítico pleno quando é profundamente orientado pela percepção da totalidade da nação e dos violentos mecanismos de cisão que tendem a eclipsar constantemente esta totalidade. É importante ressaltar que a violência destes mecanismos está em atividade, por assim dizer, desde dentro, e fora, de cada investigador. É isto que Octavio Paz ressalta. As dificuldades da crítica advêm das dificuldades de nos incluirmos na crítica. A realidade política que estamos vivendo, tão urgente que não pode ser deixada de lado neste próprio concurso, é um bom exemplo desta ausência de crítica e de suas graves consequências. Nenhum partido político, nenhuma figura política até o momento, conseguiu fazer uma crítica propriamente dita do processo que atravessamos. E não se justifica a precária noção de que nós devemos ganhar um distanciamento histórico para compreender mais plenamente o momento que vivemos. Ao contrário, o teste das Ciências Humanas, do que ela produz, é sempre no aqui-e-agora de suas realizações. É isto que Hannah Arendt nos lembra quando chama a vida humana de evento. Nós, intelectuais, ainda murmuramos alguns fragmentos de crítica, mas não conseguimos realizar propriamente uma narrativa crítica enquanto a avalanche de eventos está em processo. O que sabemos, sim, é que o atributo <italic>público</italic> da Universidade de São Paulo está ameaçado. E que esta ameaça tende a desgarrar ainda mais o intelectual daquilo que chamei de totalidade brasileira.</p>
		<p>A Psicologia Social pode se constituir, na atualidade, num território problematizador dos modelos e métodos das Ciências Humanas, desde que saibamos contextualizar, isto é, outorgar sempre uma coordenada espaço-temporal, referenciá-la historicamente. A Psicologia Social deve contribuir para a elaboração dos processos históricos. Não propomos que um ou outro método, um ou outro modelo, poderá mostrar-se, a partir desta problematização, mais eficaz na configuração desse campo. O que queremos salientar é que, na contemporaneidade, o encontro do psicológico e do social é um território fértil para constituir-se em algo como um laboratório para a produção em Ciências Humanas. Talvez não pequemos por exagero se dissermos que, no século XX, cada vez mais o social foi em direção ao psicológico. Isto traz uma série de problemas, uma vez que a dimensão histórica tende a ser mitigada. Daí concluo que, quanto mais a realidade é subjetivada, mais o pesquisador da Psicologia Social deve se empenhar em objetivá-la. Isto quer dizer que este campo deve ser sempre mobilizado através de um exercício que ao mesmo tempo promova e faça funcionar a imaginação histórica. Por isso, nesta minha aula, como em todas as aulas que dou, usarei autores que privilegiam a História como terreno para a construção de suas obras críticas, seja na forma do ensaio ou do poema. Trabalho aqui com Freud, Benjamin e Carlos Drummond de Andrade e quero compartilhar com vocês fragmentos de um texto meu que utilizo com meus alunos na disciplina de Psicologia Social. Acredito ser o que melhor apresenta o modo como entendo a formação e a pesquisa neste campo.</p>
		<p>Na Psicologia Social, nosso embate dá-se essencialmente no modo como entendemos o hífen pressuposto na integração entre o psicológico e o social, ao qual este campo de estudos parece sempre fazer referência. É a natureza deste hífen que parece a todo momento estar no horizonte dos estudos dessa área. Costumamos alocá-lo numa virtual linha horizontal que separa o indivíduo do coletivo e, em ressonância ideacional, o psicológico do social. Assim, o psicológico estaria em ressonância com o individual e o social em ressonância com o coletivo, e o hífen entre ambos. Claro que já aprendemos que o indivíduo é uma construção do coletivo e, portanto, que o psicológico é um produto do social. Mas também aprendemos que o indivíduo anseia pelo coletivo, o valoriza e se apega a ele com a mesma intensidade e da mesma raiz a partir da qual se desdobra em sujeito. Nesse sentido, o social seria um desdobramento da demanda psicológica humana. Ou seja, aprendemos que, entre o psicológico e o social, o hífen domina. Não apenas ele serve para indicar a existência de um conectivo entre o elemento psicológico e o elemento social, mas aqui ele serve para deixar surgir a própria essência relacional que é inerente a cada um dos elementos. O hífen é a natureza do psicológico e do social. Foi a história das realizações no campo das Ciências Humanas que levou a esse estado de coisas no qual o hífen se instaura para juntar campos aparentemente separados. Não é o caso agora de mostrar como os principais modelos de compreensão do ser humano e suas produções operaram no intuito de sinalizar o fortalecimento da essência relacional que define o psicológico e o social. Mas devemos pôr em destaque as contribuições de Freud, porque mesmo que não sejam propriamente suas construções teóricas que tiveram um impacto mais acentuado para salientar a importância do hífen - ainda que não possamos esquecer, por exemplo, a célebre frase com que em 1921 ele abre o texto “Psicologia de grupo e a análise do ego”, de que não há Psicologia que não seja Psicologia Social -, sem dúvida seu modelo mais geral de entender o ser humano teve um impacto enorme sobre toda a produção de conhecimento a partir do século XX. Freud, ao criar e mobilizar o que poderíamos denominar de metáfora psicanalítica, isto é, o modo extremamente poderoso e singular de ao mesmo tempo estudar e dinamizar os fenômenos psicológicos, soube suscitar uma abordagem com implicações profundas no campo das Ciências Humanas. Mas, o que queremos salientar aqui é a ação da linguagem psicanalítica no interior do campo da Psicologia Social. Freud soube dar ao psicológico um estatuto completamente original, permitindo a nomeação de relações e encadeamentos que ampliam nossa compreensão sobre o modo como os seres humanos se constroem. Um exemplo que pode nos servir para ilustrar o que estamos sugerindo pode ser extraído de seu ensaio de 1930, “O mal-estar na civilização”. Mesmo que as ideias centrais que ele elabora nesse texto possam nos parecer esboços teóricos não muito bem-sucedidos se levarmos em consideração os desenvolvimentos na Antropologia, na Etnografia, na História, na Psicologia e até na própria Psicanálise, sua abordagem mais geral e o modelo a partir do qual concebe o ser humano e seu entorno imbricam de forma potente e indissociável o psicológico e o social, o indivíduo e o coletivo, chegando até à imbricação da filogênese e da ontogênese. Assim, por exemplo, em sua investigação sobre as razões pelas quais “é tão difícil para o homem ser feliz” (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Freud, 1930/1976</xref>, p. 105). Freud indica três fontes “de que nosso sofrimento provém: o poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade” (p. 105). Podemos nem levar em consideração toda a argumentação que ele desenvolve a seguir. O importante é que ele entrelaça natureza, sujeito e cultura de forma indissociável para compreender um estado de coisas e do modo como ele opera, a velha distinção entre sujeito e objeto nos modelos causais ganha uma superação significativa, uma vez que, o que seria do campo da cultura e do social - os relacionamentos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade - são de algum modo configurações resultantes também da ação da natureza no corpo, dado que as produções sociopolíticoculturais têm também uma raiz funda através da qual flui uma vitalidade pulsional, uma das forças responsáveis pela conflituosa dinâmica inerente à produção da história. E isso sem mitigar a autonomia do campo social, que por sua vez demanda, no corpo, a mesma imperiosidade, isto é, estabelece os mesmos limites e possibilidades determinantes para o seu existir, atuando sobre ele com a mesma determinação com que a natureza atua, a ponto de talvez podermos nomear o cultural como uma segunda natureza do corpo, que por sua vez não é apenas objeto dessas duas forças imperiosas - natureza e cultura -, mas sim um agente determinante entre a natureza e a civilização, porque cabe ao ser humano, para se tornar sujeito, apropriar-se, mesmo que em seus estreitos limites, da condição de ser responsável diante da natureza e do social e, portanto, o agente principal de sua realização histórica.</p>
		<p>Claro que não se trata de reduzir a complexidade do campo da Psicologia Social a uma concepção psicanalítica. A aplicação da Psicanálise, enquanto um agregado de teorias construídas ao longo da história dessa disciplina, sobre um determinado contexto a ser estudado reduz em muito o alcance que ela teria para oferecer ao estudo do fenômeno. Com isso queremos dizer que, a nosso ver, a aplicação da Psicanálise, como um conjunto teórico preestabelecido, sobre qualquer campo de investigações é um exercício limitado e em nada próximo do próprio exercício psicanalítico. Para o modelo e método psicanalítico serem mais eficazes, a Psicanálise deve se desvestir de sua teoria a ponto de silenciar-se, porque só no silêncio dela o fenômeno que estamos apreendendo da Psicologia Social irá surgir, com sua especificidade. O próprio da construção de conhecimentos no campo psicanalítico é a constituição de um processo de observação e intervenção cujos desdobramentos são seriamente levados em consideração através de uma reflexão intensa desses fenômenos, num diálogo com o conjunto de teorias que suportam e referenciam a intervenção psicanalítica, mas que outorga ao fenômeno observado o lugar privilegiado, nunca podendo este último ser deslocado ou eclipsado por qualquer concepção teórica tomada <italic>a priori</italic>. As teorias costumam ser muito ruidosas. Uma Psicanálise mal aplicada, também. Essa propriedade da Psicanálise, tal como aqui a estamos apresentando - a de ver-se impossibilitada de agir com toda a sua potencialidade se reduzida a uma série de construtos teóricos a serem aplicados sobre um fenômeno -, a nosso ver é a mais rica contribuição que esse campo de investigações tem para oferecer para a criação de conhecimentos na universidade, porque a Psicanálise, tal como a compreendemos, demanda uma intervenção no real, uma prática obrigatória que possibilite uma estruturação do campo de investigação não dada <italic>a priori</italic>, suficientemente capaz de deixar emergir o conhecimento psicanalítico. As teorias, quando aplicadas no campo da Psicologia Social, costumam traduzir-se em ideologias com muita facilidade, e operar sobre o fenômeno no sentido de instrumentalizá-lo, seja através de sua definição ou de uma ação prática. Mas se no embate visível existe uma enorme sobredeterminação de aspectos do invisível que operam de maneira irracional, com a capacidade de produzir fenômenos tão perturbadores quanto os violentos totalitarismos que assolaram o século XX, a Psicanálise enquanto modelo e método pode nos auxiliar a indicar a presença deste invisível nos fenômenos sociais estudados, ampliando assim o conhecimento sobre eles. Podemos entender o próprio campo da história intelectual em analogia ao campo do funcionamento psíquico, isto é, lá como aqui, a razão sofre de transtornos. Também no campo da razão o irracional pode irromper, como Adorno bem salienta em seus trabalhos. Este modo de entender as produções sociais e a própria ideologia já é resultado da força do hífen psicossocial no pensamento contemporâneo. Toda a Escola de Frankfurt trabalhou assim.</p>
		<p>Claro que a produção humana ainda é essencialmente histórica, e compreender como entendemos a História é essencial. Por isso, os lances mais imperiosos nas Ciências Humanas ainda se dão na Filosofia da História, por ser o campo onde a significamos. Mas o modo como tem se dado o conflito e a produção ideológica em nossos dias pauta-se por uma utilização e tentativa de impactar prioritariamente muito mais os aspectos psicológicos do que propriamente despertar e mobilizar as consciências históricas dos sujeitos envolvidos. A própria fragilização da política compreendida como jogo ideológico pelo poder, ou seja, a despolitização da política, empurrou seu embate para o campo da Psicologia Social. Basta como exemplo para o que estamos querendo dizer o modo como se dão as campanhas eleitorais. Não é o discurso político que as rege, nem sequer as organiza, mas, sim, o aprimoramento de um discurso e de uma imagem que pretendem implicar cada eleitor, levando em consideração sua psicologia, para falar em termos mais gerais e para sinalizar o que estamos querendo ressaltar.</p>
		<p>Mas, se privilegiamos a Psicanálise como modelo e método, não o fazemos com o intuito de incrementar a “psicologização” do social. Ao contrário, se é certo que a Psicologia adentrou profundamente a Filosofia da História contemporânea, ou seja, os modos de se conceber a História, nossa proposta é utilizar o modelo e o método psicanalítico para auxiliar a localizar os fenômenos sociais estudados no interior da História, uma vez que é a consciência histórica que permite a plena elucidação do fenômeno social. E, se se trata de sujeitos, uma Psicologia Social adequada é aquela que lhes auxilia a se saberem parte da História e tomar para si a possibilidade de atuar nela. Por isso, a Psicanálise não é um fim, mas um instrumento hermenêutico para colaborar na elucidação dos diversos fenômenos abordados.</p>
		<p>Se tudo que nós vimos discorrendo sobre a condição do hífen nos dias de hoje, isto é, seu entendimento e o modo como é operacionalizado, é correto, isso nos leva a concluir que a História é também uma realização psicológica, da mesma maneira como o corpo é uma realização histórica, sem nunca deixar de ser também uma realização da natureza. Nessa área, sempre devemos trabalhar de forma a garantir a multidimensionalidade do fenômeno.</p>
		<p>Voltemos a Freud. Quando ele localiza o hífen no natural, no corpo e na história, e quando os entrelaça de forma a familiarizá-los indissociavelmente, isto nunca é feito reduzindo um ao outro ou todos a um campo exclusivo, senão não seriam natureza, corpo e História. Freud nunca é unidimensional. Seu próprio modelo do aparelho psíquico, que é também o modelo psicanalítico, foi montado por ele justamente para dar conta da multiplicidade de determinações existentes na produção humana. O inconsciente não é exclusivamente intrapsíquico, mas talvez a manifestação, de forma bruta, de todo o fazer humano ao longo da História. Freud, em <italic>O mal-estar na civilização</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B8">1930/1976</xref>), ergueu ao estatuto de lei uma estranha e surpreendente hipótese, mas de profundo significado para o que estamos querendo dizer: o que se viveu nunca desaparece. O esquecimento nunca significa a completa eliminação do traço mnêmico.</p>
		<p>O inconsciente é o lugar da memória, e é o próprio <xref ref-type="bibr" rid="B9">Freud (1930/1976</xref>) que, para ilustrar esse fenômeno da conservação em ação no âmbito psíquico, o aproxima a uma compreensão fantástica de uma Roma aqui apresentada literalmente na condição de cidade eterna. Eu o cito:</p>
		<disp-quote>
			<p>Permitam-nos agora, num voo de imaginação, supor que Roma não é uma habitação humana, mas uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e abundante, isto é, uma entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à última. Isso significaria que, em Roma, . . . no lugar ocupado pelo Palazzo Caffarelli, mais uma vez se ergueria, sem que o Palazzo tivesse de ser removido, o Templo de Júpiter Capitolino, não apenas em sua última forma, como os romanos do Império o viam, mas também na primitiva, quando apresentava formas etruscas e era ornamentado por antefixas de terracota. (p. 88)</p>
		</disp-quote>
		<p>A cidade eterna que Freud supõe condensa toda a história humana numa imagem arquitetônica em que nada é ruína, no sentido de perder sua vitalidade sígnica. Tudo o que foi ainda está vivo e demanda na cidade eterna construída por Freud. A cidade eterna é origem das variadas manifestações humanas, em todos os campos do seu fazer. E, por isso, todas as realizações humanas, o desenvolvimento de cada um, a produção científica, a técnica, as Ciências Humanas, a literatura, a poesia e as demais artes, são todas elaborações sobredeterminadas desta gigantesca e condensada memória viva, que no seu pulsar constitui a própria História, terreno no qual se enraízam todas as construções humanas. E se dizemos que se enraízam, é num sentido de via dupla: toda construção é mais uma implantação, é mais uma edificação na cidade eterna, e, por outro lado, toda edificação é uma construção erguida a partir dos elementos e da vitalidade colocada à disposição pelo estado de coisas na cidade eterna.</p>
		<p>
			<xref ref-type="bibr" rid="B4">Benjamin (1940/1971</xref>), nas suas <italic>Teses da Filosofia da História</italic>, também construiu uma imagem que de algum modo nos permite aprofundar nossa compreensão da História, trabalhando em ressonância com a imagem da cidade eterna montada por Freud. Diz assim a sua tese de número IX:</p>
		<disp-quote>
			<p>Existe um quadro de Klee que se intitula <italic>Angelus Novus</italic>. Vê-se nele um anjo, ao que parece, no momento de distanciar-se de algo sobre o qual fixa o seu olhar. Tem os olhos arregalados, a boca aberta e as asas estendidas. O anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está voltado para o passado. Naquilo que para nós se mostra como uma sucessão de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula sem cessar ruína sobre ruína, a depositar-se sob os seus pés. O anjo gostaria de deter-se, despertar os mortos e recompor o despedaçado. Mas uma tormenta desce do Paraíso e provoca um redemoinho em suas asas, e é tão forte que o anjo não pode firmá-las. Essa tempestade o arrasta irresistivelmente para o futuro, ao qual dá as costas, enquanto o acúmulo de ruínas sobe diante dele, em direção ao céu. Tal tempestade é o que chamamos progresso. (p. 82, tradução nossa)</p>
		</disp-quote>
		<p>Em Benjamin, resgatamos a dimensão dinâmica e processual que é inerente à História, o dinamismo que é inerente ao hífen que nos interessa. A História não é propriamente a cidade eterna, mas o que é possível apreender no aqui-e-agora, na ininterrupta tormenta do progresso que, desde o Paraíso, sopra em direção ao futuro. Freud constrói a sua cidade eterna preservando-a do fluir da História. Benjamin introduz o elemento dinâmico, e então, a imagem da ruína deve novamente ser levada em consideração. Porque tudo que em Freud é edificação, em Benjamin, que tem o olhar fixo no Paraíso -, isto é, no território das expectativas de aperfeiçoamento e até de redenção do ser humano, dos fenômenos humanos -, é visto como ruína, a demandar reparação. Cada construção, cada morto, demanda. A cidade eterna transforma-se no terreno não apenas de uma memória viva, mas de uma demanda intensa feita ao anjo da História, que a tempestade do progresso arrasta. A demanda é tão intensa que o anjo gostaria de se deter e, levando seriamente em consideração essa demanda de mortos e ruínas, edificar uma reparação. Mas a tempestade não dá tempo, e tudo o que o anjo pode construir em seu ato reparatório é talvez um fragmento mal-acabado que imediatamente a seguir, dada a força da tormenta que nada mais é do que o suceder do tempo, transforma-se em nova ruína depositada sob os seus pés, isto é, numa nova demanda a juntar-se ao grito desesperado das ruínas. Seria esse grito desesperado a realização da História.</p>
		<p>O que nós ganhamos ao integrar as imagens de Freud e Benjamin é que, em primeiro lugar, nos parece que fortalece o terreno da História como campo no qual trabalhamos o hífen psicossocial. Em segundo lugar, dada a tensão que se estabelece entre as duas imagens, entre edificações e ruínas, entre o elemento preservado e ativo destacado por Freud e o elemento frustrado e desapontador destacado por Benjamin, dessa tensão pode emergir uma produção no campo psicossocial que seja ao mesmo tempo um resgate da memória, uma ressignificação e um ato reparatório. Ou seja, uma construção no sentido mais pleno do termo, uma vez que envolve memória e reparação. A imagem de Benjamin é poderosa o suficiente para que também a entendamos não apenas como um constructo erguido para significar o trabalho da História enquanto práxis e estudo, mas, a nosso ver, essa imagem de algum modo também consegue acolher os processos de reconstrução pessoais que cada ser humano deve realizar, porque, nos processos de reconstrução pessoais, um anjo da História particular - se quisermos usar a imagem que Benjamin põe em cena olhando através do quadro de Klee - está em ação, com os mesmos olhos arregalados, a mesma boca aberta, a mesma tensão nas asas e, principalmente, a mesma implicação com o tempo: tudo o que ele dispõe é do passado, apresentado ao mesmo tempo, se integrarmos as imagens de Freud e de Benjamin, na forma de memória e ruína, a demandar o seu ato de construção pessoal, modo como o futuro se realiza. Carlos Drummond de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Andrade (1987</xref>) alude a esse anjo pessoal na primeira estrofe de seu “Poema de Sete Faces”: “Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser <italic>gauche</italic> na vida” (p. 13).</p>
		<p>A voz poética é demandada desde o seu nascimento, a partir de suas origens e da sombra, a construir uma determinada concepção de vida, visão de ser humano e de mundo. Ser <italic>gauche</italic> não é bem uma opção, tampouco uma visão de mundo já pronta e acabada que Carlos nada mais teria que fazer a não ser passar a utilizar. É mais algo assim como uma demanda, uma espécie de força gravitacional proveniente do estado de coisas em sua origem, capaz de organizar seu modo singular de ver a si e ao mundo. Ser <italic>gauche</italic> tampouco é um destino para Carlos. É mais uma imperiosidade suscitada desde as sombras de sua origem. Ser <italic>gauche</italic> não é fácil. Ser <italic>gauche</italic> significa, de algum modo, opor-se, mas como escutar uma demanda por opor-se, sem opor-se a ela? É quase um impossível. Se Carlos obedecer ao anjo, não será propriamente um <italic>gauche</italic>. <italic>Gauche</italic> que é <italic>gauche</italic> não escuta os anjos. Mas se não escutar o anjo, será um <italic>gauche</italic> e, neste caso, estará sob o imperativo da demanda desse anjo torto, dessa influência de origem. Este paradoxo invocado pelo poeta é importante como manifestação da força da origem que o impele a ser o que ele virá a ser, na sua meditação sobre si e o mundo. Carlos escuta ao mesmo tempo uma demanda de tradição e ruptura, de memória e construção. Diz ele em outro poema, que tem o título de “Perguntas” (Drummond, 1987, pp. 72-74): </p>
		<verse-group>
			<verse-line>Numa incerta hora fria</verse-line>
			<verse-line>perguntei ao fantasma</verse-line>
			<verse-line>que força nos prendia,</verse-line>
			<verse-line>ele a mim, que presumo</verse-line>
			<verse-line>estar livre de tudo,</verse-line>
			<verse-line>eu a ele, gasoso</verse-line>
			<verse-line>todavia palpável</verse-line>
			<verse-line>na sombra que projeta</verse-line>
			<verse-line>sobre meu ser inteiro:</verse-line>
			<verse-line>um ao outro, cativos</verse-line>
			<verse-line>desse mesmo princípio</verse-line>
			<verse-line>ou desse mesmo enigma</verse-line>
			<verse-line>que distrai ou concentra</verse-line>
			<verse-line>e renova e matiza,</verse-line>
			<verse-line>prolongando-a no espaço</verse-line>
			<verse-line>uma angústia do tempo.</verse-line>
		</verse-group>
		<p>O anjo torto aqui assume o retrato de um fantasma, tão demandante quanto o primeiro e, ao mesmo tempo, capaz de renovar e matizar como ele. Como o anjo, o fantasma é o enigma que desdobra e enraíza o poema. Neste mesmo poema, Drummond (1987) nos permite sair do anjo pessoal e voltarmos para o anjo da História, de Benjamin, porque a voz poética faz ao fantasma uma última pergunta:</p>
		<verse-group>
			<verse-line>Perguntei-lhe por fim</verse-line>
			<verse-line>a razão sem razão</verse-line>
			<verse-line>de me inclinar aflito</verse-line>
			<verse-line>sobre restos de restos,</verse-line>
			<verse-line>de onde nenhum alento</verse-line>
			<verse-line>vem refrescar a febre</verse-line>
			<verse-line>deste repensamento;</verse-line>
			<verse-line>sobre esse chão de ruínas</verse-line>
			<verse-line>imóveis, militares</verse-line>
			<verse-line>na sua rigidez</verse-line>
			<verse-line>que o orvalho matutino</verse-line>
			<verse-line>já não banha ou conforta.</verse-line>
			<verse-line> . . . </verse-line>
			<verse-line>No voo que desfere,</verse-line>
			<verse-line>silente e melancólico,</verse-line>
			<verse-line>rumo da eternidade,</verse-line>
			<verse-line>ele apenas responde</verse-line>
			<verse-line>(se acaso é responder</verse-line>
			<verse-line>a mistérios, somar-lhes</verse-line>
			<verse-line>um mistério mais alto):</verse-line>
			<verse-line><italic>Amar, depois de perder.</italic> (pp. 72-74, grifo do autor)</verse-line>
		</verse-group>
		<p>O fantasma de Carlos Drummond de Andrade atua como o anjo de Benjamin. Ambos são atormentados, ambos produzem e deixam uma paisagem tão análoga; e ambos demandam reparação - <italic>amar, depois de perder.</italic> Se o anjo de Benjamin, diante da catástrofe, quer recompor o despedaçado e acordar os mortos, o fantasma de Drummond opera nesse “repensamento”, que nada mais é do que a razão sem razão de se inclinar aflito sobre restos de restos. Em Benjamin, essa reconstrução será mais uma ruína a juntar-se às ruínas. Em Carlos Drummond de Andrade é uma febre, aqui exposta como poema. O que Benjamin e Drummond nos permitem problematizar também é esse campo de estudos tão promissor que atualmente se denomina de transmissão geracional, e que emerge dessa hipótese tão cara a Freud, sobre a existência de uma analogia familiar nos desenvolvimentos da ontogênese e da filogênese. Talvez o que levou Freud para este tema foi a própria vinculação profunda que ele viu ocorrer entre sua biografia pessoal e a psicanálise que criou. Drummondianamente, poderíamos dizer que a Psicanálise é o resultado da febre de Freud, ao inclinar-se aflito sobre restos de restos de sua história pessoal. Laços de família não apenas integram sua produção à sua biografia, mas são eles próprios que se renovam e se matizam em Psicanálise. Na correspondência de Freud a Fliess (1887-1902/1986), temos acesso a fragmentos da autoanálise de Freud, e o que vislumbramos é que não é apenas sua ambivalência afetiva em relação aos pais o pilar do conflito psíquico que ele atravessava nesse período, ou melhor, o conflito afetivo materializa-se numa complexa rede ideacional que embaraça todo o núcleo familiar, que também é via de passagem ou de acesso aos seus antepassados e seus emaranhados ideacionais, pois o estudo das características pessoais leva em consideração as interações com os familiares.</p>
		<p>Toda família é uma linguagem. Mas isso não quer dizer que ela seja apenas uma estrutura. Ela é também um novelo ideacional, uma cidade eterna. A criança aprende em família e através da família. <xref ref-type="bibr" rid="B1">Abraham e Torok (1994</xref>), no livro <italic>The shell and the kernel</italic> [A casca e o núcleo], salientam o fato de a criança estar apegada e perceber os gestos da mãe, seus atributos psíquicos e suas palavras. Mais do que perceber e estar apegada, mãe e criança constituem uma unidade dual da qual a criança tem que se separar, carregando em torno de si, de acordo com os autores, toda uma série de rastros, o fantasma que vincula, de alguma maneira, o estar aqui-e-agora com essa unidade dual original. A operação ideacional da criança se faz com elementos advindos do novelo ideacional familiar, permeada por ele. Esse novelo ideacional também se enraíza nas experiências de vida da família e, portanto, dele fazem parte pontos de vista, expectativas, impressões e o registro das histórias vividas pelos membros também nas distantes gerações desse núcleo familiar. A família é também um novelo de histórias a partir do qual cada um deve organizar-se e ganhar autonomia, como Carlos, cujo poema é uma elaboração sobre suas origens, os Andrade. A construção de nosso ser, essa operação ontogenética, é feita com o material familiar, em torno desse material, que é a filogênese de cada sujeito. Nós todos somos produtos psíquicos de uma regressão infinita de histórias familiares. Freud destaca na cidade eterna a presença de todas as edificações construídas ao longo da história. As edificações seriam essas histórias familiares. Benjamin destaca o caráter de ruína. As ruínas seriam também essas histórias. Toda história familiar carrega igualmente silêncios, pontos de suspensão, hífens e mutismo. Isso não quer dizer que algo se suprime; nada se suprime. Algo apenas se silencia, se isola e pode ganhar a qualidade de segredo. Na condição de silêncio, o conhecimento se desconhece. Na qualidade de segredo, o desconhecimento se conhece. Ambos operam na rede ideacional da criança. Ambos suscitam a febre a que Drummond se refere em seu poema. Ambos fazem parte da linguagem da família, atuando, portanto, como forças determinantes dos limites e possibilidades das operações ideacionais a que todos os membros da família estão submetidos, inclusive a criança. Se o silêncio e o segredo ganham uma forte amplificação no novelo ideacional da família, cada um dos membros vê reduzida a sua possibilidade de nomeação tanto sobre o que se passa em família quanto sobre si próprio e sobre o mundo que o rodeia. Os silêncios, os segredos, falam tanto quanto os novelos ideacionais no romance familiar que cada um ergue na construção de seus projetos identitários. Tanto no silêncio quanto no segredo está presente um elemento traumático. Se Freud soube imprimir à Psicanálise um caráter etiológico, isto é, uma vinculação com uma origem para a compreensão do fenômeno psíquico, na origem dessa ciência ele outorgou ao trauma o estatuto de origem do sintoma psíquico; ali, a Psicanálise surgiu. O trauma psíquico é uma comoção psíquica. <xref ref-type="bibr" rid="B6">Ferenczi (1933/1981</xref>) lembra que a palavra alemã <italic>erschütterung</italic>, comoção psíquica, vem de <italic>schutt</italic>: ruína, compreendendo a destruição, a perda da própria forma. Em <italic>Estudos sobre a histeria</italic>, o primeiro trabalho psicanalítico de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Freud (1895/1976</xref>), o trauma é entendido como um evento advindo do real, como um choque na experiência real capaz de estremecer as defesas do eu. Freud nunca silenciou propriamente a força do real. Isso nós podemos ver em todos os casos clínicos, em que os aspectos do real são seriamente levados em consideração por ele. Se, por um lado, ele avança no sentido de dar uma ênfase maior à realidade psíquica, por outro essa realidade é constituída em resposta ao real. Toda a ênfase que Freud dá à filogênese nada mais é do que salientar o fator determinante dos elementos extrapsíquicos que, de algum modo, também devem se constituir numa espécie de história psicológica para agir na psicologia de cada um. Assim é, por exemplo, em seus estudos em <italic>Totem e tabu</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">1913/1976</xref>), nos quais a angústia de castração e o próprio complexo edípico, que em princípio são para Freud invariáveis da constituição psicológica de cada um, são determinados pela história psicológica na qual ficam enredados os processos históricos, morais e religiosos dos homens, até uma mítica horda primitiva na qual teria se dado o parricídio originário, cena histórica e origem de uma história psicológica singular dos seres humanos. Isso quer dizer que o novelo ideacional é uma filogênese, ou uma história psicológica que atravessa gerações e constitui-se num patrimônio psíquico da elaboração de cada sujeito: os Andrade são o patrimônio filogenético para a construção ontogenética de Carlos, o que significa que os Andrade são tanto a reserva socioculturaleconômica de Carlos quanto o seu trauma. O trauma é inerente à elaboração, como o processo de construção pessoal é inerente ao ato de reparação.</p>
		<p>Benjamin, num texto dedicado à obra do escritor russo Nikolai Leskow, nos fala de um transtorno ocorrido nas primeiras décadas do século XX, um transtorno que envolve a modernidade, a vida urbana, a tecnicização e uma guerra. E o modo como ele lida com esse transtorno sugere que, na história dos homens, podem acontecer fatos que operam em analogia com aqueles que Freud detectou e que promovem a comoção psíquica no sujeito individual. Benjamin sugere que, na História, o trauma silencia a experiência, ou melhor, a elaboração de uma vivência, que é o modo como os fatos vividos podem se realizar em experiência, ou seja, em vida elaborada, num patrimônio pessoal, resultado das aventuras de cada um no campo da vida. De acordo com a lógica do texto de Benjamin, é possível viver e não ganhar experiência. Esse é um transtorno pessoal. Mas Benjamin, realizando uma arqueologia social, encontra um fator etiológico mais profundo, isto é, mais amplo, para essa incapacidade de elaborar a vida em experiência: os transtornos são pessoais, mas o fator etiológico é um estado de coisas no social, isto é, o desaparecimento do narrador e da narrativa promovido por um poder tecnocrata. Todo um grupo social pode ficar encerrado no silêncio, na incapacidade de transformar a vivência em experiência. Benjamin traz assim a noção de trauma, palavra originária do campo da Medicina e utilizada por Freud para dar conta das comoções psíquicas, para o campo da História. Nos dias de hoje, são diversos os autores que trabalham com a noção de trauma na História (ver, por exemplo, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Robben, A. &amp; Suarez-Orosco, M., 2000</xref>), e observam a reação de grupos sociais a eventos violentos, a partir deste referencial. Mas, ainda Benjamin, nesse texto, pode ser uma referência para este campo de estudos, porque na sua agudeza reflexiva, ele sabe nomear que a catástrofe de uma guerra ou de eventos sociais violentos pode ocasionar bem mais do que as gigantescas perdas materiais e humanas, que sempre estão envolvidas nesses acontecimentos, podem acarretar uma comoção psíquica do grupo, isto é, um transtorno no modo como se representam e representam o mundo ao redor, e até na própria possibilidade de representação de si e do mundo, com um impacto intenso na história desse grupo social, a ponto de delinear as determinações básicas do modo como esse grupo social irá comportar-se historicamente. O grupo social pode perder as instâncias narradoras capazes de dar sentido à experiência num para além do mero registro ideológico, que nunca dá plenamente conta da comoção grupal que o choque da História suscita. Os jornais e livros a que Benjamin se refere no mesmo texto apenas põem em circulação uma imagem da realidade que coage o grupo social, no sentido de ficarem encerrados, reféns dessa realidade, isto é, esses jornais e livros não são espaços de elaboração, podendo ser, do modo como Benjamin os entende, instrumentos da mesma batalha e, portanto, ferramentas, como ele diz, do “campo magnético de correntes e explosões destruidoras” (<xref ref-type="bibr" rid="B5">1969/1980</xref>, p. 57). Hoje, as narrativas migraram para a mídia digital com tal força que a própria eleição que acabamos de viver em nosso país, isto é, o ato político mais representativo de nosso funcionamento democrático, digitalizou-se.</p>
		<p>A Psicologia Social deve aprender a lidar criticamente não apenas com esta narrativa, mas principalmente com as personagens digitais que surgem: uma campanha digital, um presidente digital, eleitores digitais e opositores digitalizados. É como se a vida política tivesse sido inteiramente transferida para a vida virtual, e nós da universidade, os professores, os intelectuais, ficamos com a impressão de estarmos mais longe da possibilidade de narrar para o nosso coletivo a nossa versão crítica, de favorecermos todo o coletivo na construção da morada humana brasileira: dos Brasis plurais que nos compõem.</p>
		<p>Eu, quando escolho a responsabilidade como imperativo na construção desta minha aula para vocês, e quando relaciono a fonte primária deste imperativo à dimensão pública desta universidade, o faço motivada pelo empenho de ter aprendido em meus estudos e em minha prática a implantar sempre as teorias na construção da morada humana. A universidade pública é meu lugar de participação, por isto, como psicóloga social me envolvi sempre não exclusivamente na produção do conhecimento e nem tampouco exclusivamente na transmissão. Ou melhor, incluo tanto a produção como a transmissão do conhecimento na imperiosidade da tarefa de aperfeiçoar e fortalecer a universidade pública em nosso país. Esta é a minha febre. Por isto minha alegria em ter contribuído para fortalecer os laços, em nível internacional, da Universidade de São Paulo com o Birkbeck College da Universidade de Londres, bem como, em nível local, fortalecer os laços de minhas disciplinas com os profissionais que atuam nas políticas públicas; por isto o meu envolvimento em todas as instâncias administrativas, onde discutimos temas tão nucleares quanto a carreira de um professor universitário, os diversos projetos acadêmicos e a própria maneira de administrar cada vez mais escassas verbas. Considero tudo isto parte da Psicologia Social, porque é a própria identidade do intelectual brasileiro um tema deste campo do conhecimento. Amar, depois de perder, não é uma tarefa que sobra apenas para os Andrades, é um trabalho que sobra para todos nós. Freud chama o trabalho de elaborar e reparar, de lidar com todas essas construções e ruínas, de luto. Temos um grande luto pela frente.</p>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>Abraham, N., &amp; Torok, M. (1994). The shell and the kernel: renewals of psychoanalysis (Vol. 1). Chicago, IL: The University of Chicago Press.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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							<surname>Abraham</surname>
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							<surname>Torok</surname>
							<given-names>M.</given-names>
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					<year>1994</year>
					<source>The shell and the kernel: renewals of psychoanalysis</source>
					<volume>1</volume>
					<publisher-loc>Chicago, IL</publisher-loc>
					<publisher-name>The University of Chicago Press</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>Andrade, C. D. (1987). Antologia poética. Rio de Janeiro, RJ: Record.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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						<name>
							<surname>Andrade</surname>
							<given-names>C. D.</given-names>
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					<year>1987</year>
					<source>Antologia poética</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro, RJ</publisher-loc>
					<publisher-name>Record</publisher-name>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>Arendt, H. (1958). A condição humana. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária.</mixed-citation>
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							<surname>Arendt</surname>
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					<source>A condição humana</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro, RJ</publisher-loc>
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			<ref id="B4">
				<mixed-citation>Benjamin, W. (1971). Tesis de la filosofia de la historia. In W. Benjamin, Angelus Novus (pp. 77-82). Barcelona: Edhasa. (Trabalho original publicado em 1940).</mixed-citation>
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							<surname>Benjamin</surname>
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					<publisher-loc>Barcelona</publisher-loc>
					<publisher-name>Edhasa</publisher-name>
					<comment>Trabalho original publicado em 1940</comment>
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				<mixed-citation>Benjamin, W. (1980). O narrador: observações acerca da obra de Nicolau Leskow. In Textos escolhidos: Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas (pp. 57-74, Coleção Os Pensadores). São Paulo, SP: Abril Cultural. (Trabalho original publicado em 1969).</mixed-citation>
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					<year>1980</year>
					<chapter-title>O narrador: observações acerca da obra de Nicolau Leskow</chapter-title>
					<source>Textos escolhidos: Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas</source>
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					<publisher-loc>São Paulo, SP</publisher-loc>
					<publisher-name>Abril Cultural</publisher-name>
					<comment>Trabalho original publicado em 1969</comment>
				</element-citation>
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			<ref id="B6">
				<mixed-citation>Ferenczi, S. (1981). Reflexiones sobre el traumatismo. In S. Ferenczi. Obras completas (Vol. 4). Madrid: Espasa Calpe. (Trabalho original publicado em 1933).</mixed-citation>
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							<surname>Ferenczi</surname>
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					<volume>4</volume>
					<publisher-loc>Madrid</publisher-loc>
					<publisher-name>Espasa Calpe</publisher-name>
					<comment>Trabalho original publicado em 1933</comment>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). A interpretação dos sonhos. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 5, pp. 543-661). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1900).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). Totem e tabu. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 13, pp. 17-194). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1913).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). Conferências introdutórias sobre psicanálise: conferência XXI: O desenvolvimento da libido e as organizações sexuais. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 16, pp. 375-396). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1916-1917).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). Luto e melancolia. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 14, pp. 275-293). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1917).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). Além do princípio de prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos: Psicologia de grupo e a análise do ego. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 18, pp. 17-85). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1920-1921).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). O futuro de uma ilusão, o mal-estar na civilização e outros trabalhos. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 21, pp. 87-105). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1930).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S. (1976). Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise e outros trabalhos: conferência XXXV: a questão de uma Weltanschauung. In S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de S. Freud (J. Salomão, trad., Vol. 22, pp. 193-220). Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1933).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Freud, S., &amp; Fliess, W. (1986). A correspondência completa de S. Freud para W. Fliess. Rio de Janeiro, RJ: Imago. (Trabalho original publicado em 1887-1902).</mixed-citation>
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				<mixed-citation>Robben, A., &amp; Suarez-Orosco, M. (Orgs.). (2000). Cultures under siege: collective violence and trauma. Cambridge: Cambridge University Press.</mixed-citation>
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				<article-title>Social Psychology at a public university: a psychoanalytical practice for repairing Brazilian memory</article-title>
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					<label>*</label>Corresponding address: <email>belmande@usp.br</email>
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			</author-notes>
			<abstract>
				<title>Abstract</title>
				<p>This text was presented as an erudition examination in a contest for full professor of Social Psychology held at the University of São Paulo in November 2018. In the text, I attempt to denote my responsibility as a professor of Social Psychology at a public university of excellence in contemporary Brazil. I also report my understanding of Social Psychology as a field in which thought, speech and action, theory and practice, are inextricably related. Psychoanalysis is presented as a hermeneutic tool that collaborates with the elucidation of psychosocial phenomena. Texts by Freud and Benjamin, and poems by Carlos Drummond de Andrade help set up Social Psychology as a field of work with memory, meaning and repair.</p>
			</abstract>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>social psychology</kwd>
				<kwd>psychoanalysis</kwd>
				<kwd>memory</kwd>
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		<body>
			<p>Eight years ago, I´ve proposed my name to be part of the group of associate professors at the University of São Paulo, institution of primary importance in building our Brazilian identity. Our university is, above all, a material good of the country, the Brazilian society, the people of Brazil. To teach a class in a competition for full professor in Social Psychology right now is not exactly an honor, a promotion of personal moral values, not even just an intellectual challenge, an action that shows the rational agility that I possibly managed to accumulate and operate in my life. It is not exactly a merit, that is, to bring you the value of my ethics currency, which I managed to accumulate as a result of my exchange with reality. Not that it is not an honor or merit or an intellectual challenge, but if I had to give a name to define what must be present in my class in a more lively way to apply to the position, which would it be?</p>
			<p>Social Psychology has a twofold yet unique purpose. It deals with human beings and History. If we want to integrate, we can even say that it deals with human life. But human life, says Hannah Arendt, is only a means, because what always materialize, in her words, is “human habitation” (Arendt, 1958, p. 263). Human life is the construction of this habitation. Everything we do in life, since the act of breathing until the work to form ourselves and to form others, is a construction. The problem is that if we have learned anything in the last 100 years, is that the word “construction” always rhymes with the word “destruction.” Human life has the function, by nature and essence to construct human habitation, which is never ready, complete and well-arranged for the rest of future lives. Messianic readings cherish and delude us. Because if there is something we learned from a tradition that, to make things easier, I’ll call Freudian, but dates back to the dawn of mankind, to the origin of religious, philosophical and political ideas, is that the construction of mankind’s habitation also implies destruction.</p>
			<p>At times, human life presents itself to each one in all its intensity, it triggers our warning signs. We are living a moment like this, and the role of Social Psychology is to understand these times and encourage the possibility of giving elements to strengthen the construction of the human habitation . The work of Hannah <xref ref-type="bibr" rid="B3">Arendt The Human Condition (1958</xref>) deals with the relationship between the public sphere and the private sphere. This is Social Psychology, and if the topic of Social Psychology is the construction of human habitation, this is a topic that one cannot study without doing, or do without studying. It is at its core this interconnection of theory and practice. And we, who study and act in this field, have to consider this strange continuity, always so rugged and that always gives rise to discontinuities and to the unusual, between thinking, talking and doing. Because it is in the core of these human manifestations that all the problems of theory and practice are rooted.</p>
			<p>Psychoanalysis is a field of knowledge that knew how to streamline these three dimensions of human existence. It is a knowledge that approaches the act of thinking, talking and doing in a profound way. Psychoanalysis rooted them, or rather, showed the only root that runs between these ways of being of the human condition. Hannah Arendt reminds us that - I quote - “History is a story of events and not of forces or ideas with predictable courses” (1958, p. 264). This is integrating the Psychology and the Social, the circularity of the relations between thought and action. Psychoanalysis has allowed us to observe the deep psychic conflict that mobilizes the human effort to construct, since birth. Human life is a traumatic event, that is, subject to discontinuities and ruptures, alienation, and it requires the inner work of personal development: each individual must build their habitation within themselves, in their personal life, and out of themselves, in broader social life, in the world, and with other human beings. The inner habitation must have wide open windows and doors to the outside habitation, so that the personal and the collective formation works are as integrated as possible. The construction of each unique human being deals with psychological and socio-historical conflicts. And as human life is made of events, the main event of whom is rooted in the Freudian tradition is the self-analysis, or critique, both the one promoted for him/herself, toward their own roots, and the one which is the manifestation of concrete work in the public life, with other human beings. Having a Freudian root is to recover the aphorism “know thyself.” The formation of an analyst demands self-analysis, a practical work with him/herself. Reflection taken as practice. Self-analysis includes studies, reflective critique, therefore, in this school of thought, we never interpret the other better than ourselves. <italic>We</italic> are the limit, not the world. Social Psychology has in Psychoanalysis not an answer but an accelerator that demands much more practice, attention, a reflective attitude that compromises a whole life, than a legacy of ideas that help explain human events abstractly. Self-analysis should work on building our identity as psychologists and social psychologists. To say that we are critical is to say that we are self-critical, that we are formed in our practice, knowing the suspicion that the fragility of the human condition deserves. Hence, for this important event in my life, what I want to highlight is my responsibility with the human habitation. This is why I study and the reason I work. The University of São Paulo is an institution dedicated to qualification, research, i.e. transfer of knowledge, which should always be accompanied by the possibility of critical self-reflection, i.e. the strengthening of resources for us to repair ourselves, promote our development, which only occurs with the recognition of what we are and what we live. The study is the activity that is the reason for this institution. To study is to repair, in the broadest sense of the word.</p>
			<p>It is never enough to highlight the important fact that our predecessors knew the importance of implementing it in Brazil, given its historical and socioeconomic conditions, a public university of excellence. Of course, for many, we do not need to justify the idea that any society is strengthened when it welcomes inside a situation of higher education of excellence, a university of excellence. What is not obvious to all is the need for the <italic>public</italic>, more so in our country. We will try to explain it. This is what a social psychologist has to always try to do.</p>
			<p>We constructed ourselves throughout our history in a segregationist way, which resulted in huge portions of society being expropriated, alienated, and feeling separated from society. Octavio Paz is an author that I take as a good model of Latin American thinker because he was able to combine poetry, critical and cultural essay, political criticism, Philosophy history, psychoanalytic self-analysis, in short, the structures of thought and important contemporary authors, at the service of his concern about what he calls the <italic>Mexican identity</italic> and its future, that is, the vicissitudes of being Mexican. For him, the identity is a problematizing concept, an opening mobilized by historical, material and cultural circumstances. He has much to teach us about how we deal with our Brazilian identity and our vicissitudes, which is the central theme of Brazilian Social Psychology for me. But this is not our concern now. What I want to remember is that, for this author, criticism is a difficult exercise in Latin American territory, given the violence, that is, the accumulation of expropriation and expropriated people our historical process raises. It is hard to think and live our history until its roots, because the result of the expropriation assumes an almost unbearable proportion, and thinking, in these conditions, tends to be more defensive than critical. Violence supports all our structures of thought. In Brazil, we were historically made by promoting divisions. Social exclusion, this eclipsing mechanism of large portions of the Brazilian nation throughout History, sets a broad split object when seen through a psychoanalytic magnifying glass positioned in front of the Brazilian reality. The drama of our historical condition is that these violent division processes were operated in resonance with the various projects promoting progress in our country. And it is this combination of division and progress that hinders our critical work. It is difficult to perceive all Brazilian population and the necessary sublimation of powerful violence that acts as imperative as quietly in the deepest strata of the Brazilian socio-historical process, to effectively be critical, that is, perform an intellectual reparatory action. A good example of what we are saying about the difficulty of thinking and living Brazil in an integrated way, is the famous phrase from the professor of our university, Fernando Henrique Cardoso, when installed as president: “Forget what I wrote.” This should not have occurred, not even as a thought, or as speech, or as an action, so an actual social progress could be more fully rooted. What limits the criticism is that the actual construction of the Brazilian state and its institutions is, at the same time, fruit and agent of these violent division mechanisms in operation. The result is a State, in every way, far smaller than the nation’s greatness.</p>
			<p>Pragmatic economists throughout History continually claim that we cannot bite off more than we can chew, and that Brazil should give up on a public university of excellence. But I referred to the important fact that those who came before us have honored the public attribute of this university. And my responsibility works in resonate with them. I do not know the ideological bias of each of them - if they were aligned with what we usually call leftists, or Marxists. I do not think so, not all of them. I believe their choice emerged from a reading that surpasses ideological positions of left/right, more statist or liberal matrix. Therefore, this is not an issue that should be equated exclusively in the economic field. I suppose the <italic>public</italic> was and is an essential measure for combating the violence of exclusion and its deep involvement in the critical exercise, since this exclusion is a remarkable trace in the Brazilian consciousness and identity. The adjective <italic>public</italic> only legitimates itself through a concrete political action. <italic>Public</italic> is not an ideal, it is an accomplishment. For our predecessors, a public university of excellence was the way to root the study in all Brazilian people - and when I say people, I mean a collective that always tends to elude us for historical reasons, and that confuses, always in a conflictive, violent and, oddly enough, sometimes friendly way, Indians with immigrants, coup with constituents, doctors with peddlers, black with white, women with men, children with adults, the most diverse religions, which sometimes reconcile animism with monotheism.</p>
			<p>The field of Social Psychology can only gain a full critical status when it is deeply guided by the perception of the entire nation and the violent division mechanisms that tend to constantly eclipse this totality. It is noteworthy that the violence of these mechanisms is operating, so to speak, from within and outside of each investigator. This is what Octavio Paz says. The difficulties of the critique stem from the difficulties of including ourselves in the critique. The political reality we are living, so urgent that it cannot be left aside in this contest itself, is a good example of this lack of self criticism and its serious consequences. No political party, no political figure so far, has been able to properly criticize the process we are going through. And it does not justify the precarious notion that we must gain a historical distance to more fully understand the time we live in. Rather, the test of the Human Sciences, of what they produce, is always in the here-and-now of their achievements. This is what Hannah Arendt reminds us when she calls the human life an event. We, intellectuals, still murmur some fragments of criticism, but we cannot perform a proper critical narrative while the avalanche of events is in process. What we do know is that the <italic>public</italic> attribute of the University of São Paulo is threatened. And this threat tends to further astray the intellectual from what I have called the Brazilian totality.</p>
			<p>Social Psychology can be established, at present, as a problematizing territory of models and methods of Human Sciences, as long as we contextualize it, that is, grant a space-time coordinate, refer it to History. Social Psychology should contribute to the development of historical processes. We do not propose that any method or model can prove more effective in the setting of this field. What we want to highlight is that, in contemporary times, the encounter between the psychological and the social is a fertile territory to be something such as a laboratory for production in Human Sciences. Maybe we are not exaggerating if we say that in the twentieth century, the social led more and more toward the psychological. This brings a number of problems, since the historical dimension tends to be mitigated. From this we conclude that the more the reality is subjectivized, the more the researcher of Social Psychology should strive to objectify it. This means that this field should always be mobilized through an exercise that promotes and operates the historical imagination. Thus, in this class, as in all the classes I teach, I will use authors that focus on history as territory for the construction of critical works, whether in the form of essay or poem. Here I work with Freud, Benjamin and Carlos Drummond de Andrade and I also want to share with you fragments of a text of mine that I use with my students in the discipline of Social Psychology. I believe it is what best shows how I understand the qualification and research in this field.</p>
			<p>In Social Psychology, our struggle takes place essentially in the way we understand the hyphen in the integration between the psychological and the social, which this field of study seems to always reference. It is the nature of this hyphen that appears to be at all times on the horizon of the studies in this area. We usually allocate it in a virtual horizontal line separating the individual from the collective and, in ideational resonance, the psychological from the social. Thus, the psychological would be in resonance with the individual and the social would be in resonance with the collective, and the hyphen between them both. Of course we have learned that the individual is a construction of the collective and, therefore, that the psychological is a product of the social. But we have also learned that individuals crave the collective, they value it and cling to it with the same intensity and the same root from which it unfolds into subjects. In this sense, the social would be a ramification of the human psychological demand. In other words, we learn that between the psychological and the social, the hyphen dominates. Not only it indicates the existence of a connective element between the psychological and the social elements, but here it lets emerge the relational essence that is inherent to each of the elements. The hyphen is the nature of the psychological and the social. It was the history of achievements in the field of Human Sciences that led to this state of affairs in which the hyphen is established to bring together seemingly separate fields. Now is not the case to show how the main models to understand human beings and their productions operated in order to signal the strengthening of the relational essence that defines the psychological and the social. But we must highlight the contributions of Freud, because even if not exactly his theoretical constructs that had a larger impact to stress the importance of the hyphen - although we cannot forget, for example, the famous phrase with which, in 1921, he begins the text “Group Psychology and the analysis of the ego,” that all Psychology is Social Psychology - undoubtedly his general model to understand the human being had a huge impact on the entire production of knowledge, from the twentieth century. Freud, by creating and mobilizing what we might call the psychoanalytic metaphor, that is, the extremely powerful and unique way to both study and streamline psychological phenomena, was able to inspire an approach with profound implications in the field of Human Sciences. But what we want to stress here is the action of psychoanalytic language within the field of Social Psychology. Freud was able to give a completely unique psychological status, allowing the appointment of relationships and linkages that enhance our understanding of how human beings are built. An example that can illustrate what we are suggesting can be extracted from his 1930 essay, “Civilization and its discontents.” Even if the central ideas he addresses in this text may seem not very successful theoretical outlines if we consider the developments in Anthropology, Ethnography, History, Psychology and even in Psychoanalysis itself, his more general approach and model from which he conceives human beings and their surroundings overlap in a powerful and inseparable way the psychological and the social, individual and collective, reaching to the overlapping of phylogeny and ontogeny. Thus, for example, in his investigation of the reasons why “it is so hard for man to be happy” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Freud, 1930/1976</xref>, p. 105). Freud indicates three sources “of our suffering comes from: the superior power of nature, the fragility of our own bodies and the inadequacy of rules that seek to adjust the mutual relationships of human beings in the family, the State and Society” (p 105). We may not consider all the arguments he develops below. The important thing is that he entwines nature, subject and culture inseparably to understand a state of affairs and, in the way he operates, the old distinction between subject and object in causal models is significantly overcome, since what would be part of the cultural and social field - relationships of human beings in the family, the State and Society - are somehow resulting configurations of the action of nature in the body, as the socio-political-cultural productions also have a deep root through which flows an instinctual vitality, one of the driving forces behind the conflicting dynamic inherent in the production of history. And this does not mitigate the autonomy of the social field, which in turn demands in the body the same imperiousness, that is, it sets the same limits and determining possibilities for its existence, acting on it with the same determination with which nature acts, to the point where maybe we can name the cultural element as a second nature of the body, which in turn is not only object of these two compelling forces - nature and culture -, but a key agent between nature and civilization, because it is up to individuals, to become subject, to appropriate, even if in their narrow limits, the condition of being responsible to the nature and the social and, therefore, the principal agent of their historic achievement.</p>
			<p>Of course this is not about reducing the complexity of the field of social psychology to a psychoanalytic conception. The application of Psychoanalysis as an aggregate of theories constructed over the history of this discipline, on a certain context to be studied, greatly reduces the scope that it would have to offer to the study of the phenomenon. By this we mean that the application of Psychoanalysis, as a pre-established theoretical set on any research field is a limited exercise and nothing close to the psychoanalytic exercise itself. For the psychoanalytic model and method to be more effective, Psychoanalysis should discard its theory in order to become silent, because only in silence the phenomenon we are seizing from Social Psychology will emerge with its specificity. In the case of the construction of knowledge in the psychoanalytic field, it is the establishment of a process of observation and intervention whose developments are seriously considered through an intense reflection of these phenomena, in a dialogue with all theories that support and reference psychoanalytic intervention, but which gives the phenomenon observed the privileged place, which can never be moved or eclipsed by any theoretical conception taken <italic>a priori</italic>. Theories tend to be very noisy. The misapplication of Psychoanalysis, too. This property of Psychoanalysis, as presented here - the one of seeing itself unable to act with all its capability if reduced to a number of theoretical constructs to be applied over a phenomenon -, in our view is the richest contribution this research field has to offer for the creation of knowledge in the university, because Psychoanalysis, as we understand, demands an intervention in reality, a mandatory practice for achieving the structuring of the research field not given <italic>a priori</italic>, capable enough to let the psychoanalytic knowledge emerge. The theories, when applied to the field of Social Psychology, often translate into ideologies very easily, and they operate on the phenomenon in order to instrumentalize it, either through its definition or practical action. But if in the visible clash there is a huge over-determination of the invisible aspects that operate irrationally, with the ability to produce phenomena as disturbing as the violent totalitarianism that ravaged the twentieth century, Psychoanalysis as a model and method can help us indicate the presence of the invisible in the social phenomena studied, expanding the knowledge about them. We can understand the field of intellectual history in analogy to the field of mental functioning, that is, in the former, as well as in the latter, reason suffers from disorders. Irrationality may erupt in the field of reason, as Adorno stresses in his work. This way of understanding the social production and the ideology itself is already the result of the psychosocial hyphen force in contemporary thinking. The whole Frankfurt School worked this way.</p>
			<p>Of course, the human production is still essentially historical, and to understand History is essential. Thus, the most compelling bids in Human Sciences occur in the History of Philosophy, which is the field where we signify them. But today the conflict and the ideological production are guided by the use and attempt to impact primarily the psychological aspects rather than to arouse and mobilize the historical consciousness of the subjects involved. The fragility of politics understood as an ideological game for power, i.e. the depoliticization of politics, pushed the clash to the field of Social Psychology. Election campaigns are an example of we are trying to say. It is not the political discourse that governs them, not even organizes them, but rather the improvement of a speech and an image that intend to imply each voter, considering their psychology, to speak more generally and to signal what we are trying to emphasize.</p>
			<p>If we focus on Psychoanalysis as a model and method, we do not do it in order to increase the “psychologizing” element of the social. On the contrary, if it is certain that Psychology deeply entered the Philosophy of contemporary History, i.e. the ways of conceiving History, our proposal is to use the psychoanalytic model and method to help locate the social phenomena studied within History, since it is the historical consciousness that allows the full elucidation of the social phenomenon. And if it comes to subjects, adequate Social Psychology is the one that helps them to know themselves as part of History and take the possibility of acting on it. Therefore, Psychoanalysis is not an end but a hermeneutical instrument to assist in the elucidation of the phenomena discussed.</p>
			<p>If all we have been discussing about the hyphen condition, that is, its understanding and how it is operated, is correct, this leads us to conclude that history is also a psychological achievement, just as the body is a historic achievement, without ever ceasing to be an embodiment of nature. In this area, we must always work to ensure the multidimensionality of the phenomenon.</p>
			<p>Let us return to Freud. When he locates the hyphen in the natural, in the body and in history, and when he interlaces them in order to familiarize them inextricably, this is never done by reducing each other or all to an exclusive field, because then they would not be nature, body and History. Freud is never one-dimensional. His own model of the psychic apparatus, which is also the psychoanalytic model, was set up by him to deal with the multiplicity of determinations in human production. The unconscious is not exclusively intrapsychic, but perhaps the manifestation of all human doings throughout History. Freud, in <italic>Civilization and its discontents</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B13">1930/1976</xref>), raised to the status of law a strange and surprising hypothesis, but of deep meaning to what we are saying: what was lived never disappears. Forgetting never means the complete elimination of the memory trace.</p>
			<p>The unconscious is the place of memory, and it is Freud himself (<xref ref-type="bibr" rid="B14">1930/1976</xref>) who, to illustrate this phenomenon of conservation acting on the psychic scope, approaches it to a fantastic understanding of Rome presented here literally in the condition of eternal city. I quote:</p>
			<disp-quote>
				<p>Now let us, by a flight of imagination, suppose that Rome is not a human habitation but a psychical entity with a similarly long and copious past - an entity, that is to say, in which nothing that has once come into existence will have passed away and all the earlier phases of development continue to exist alongside the latest one. This would mean that in Rome . . . in the place occupied by the Palazzo Caffarelli would once more stand - without the Palazzo having to be removed - the Temple of Jupiter Capitolinus; and this not only in its latest shape, as the Romans of the Empire saw it, but also in its earliest one, when it still showed Etruscan forms and was ornamented with terracotta antefixes. (p. 88)</p>
			</disp-quote>
			<p>The eternal city that Freud supposes condenses all human history in an architectural image in which nothing is ruin, in the sense of losing its symbolic vitality. All that is gone is still alive and demands from the eternal city built by Freud. The eternal city is the origin of various human manifestations, in all fields of its making. Thus, all human achievements, the development of each one, the scientific and technical production, the Human Sciences, literature, poetry and other arts are all overdetermined elaborations of this gigantic and condensed living memory, which constitutes History itself, the land on which are rooted all human constructions. And when we say rooted it has a double meaning: the whole construction is another deployment, another building in the eternal city and, on the other hand, the whole building is a construction built from the elements and vitality placed at provision by the state of things in the eternal city.</p>
			<p>Benjamin (1940/1971), in his <italic>Theses on the Philosophy of History</italic>, also built an image that somehow allows us to deepen our understanding of History, working in resonance with the image of the eternal city assembled by Freud. He says in his thesis number IX:</p>
			<disp-quote>
				<p>A Klee painting named <italic>Angelus Novus</italic> shows an angel looking as though he is about to move away from something he is fixedly contemplating. His eyes are staring, his mouth is open, his wings are spread. This is how one pictures the angel of history. His face is turned toward the past. Where we perceive a chain of events, he sees one single catastrophe which keeps piling wreckage and hurls it in front of his feet. The angel would like to stay, awaken the dead, and make whole what has been smashed. But a storm is blowing in from Paradise; it has got caught in his wings with such a violence that the angles can no longer close them. The storm irresistibly propels him into the future to which his back is turned, while the pile of debris before him grows skyward. This storm is what we call progress. (p. 82, our translation)</p>
			</disp-quote>
			<p>In Benjamin, we rescue the processual dimension that is inherent in History, the dynamism that is inherent in the hyphen that interests us. History is not exactly the eternal city, but what one can seize here-and-now, the uninterrupted storm of progress that, from Paradise, blows into the future. Freud built his eternal city preserving it from the flow of History. Benjamin introduces the dynamic element, and then the image of the ruin must be reconsidered. Because everything that is seen as building in Freud, in Benjamin, who has his gaze fixed on Paradise -, that is, in the territory of expectations of improvement and even redemption of the human being -, is seen as ruin, demanding repair. Each construction, each dead person, demands. The eternal city becomes the land not only of a living memory, but of a strong demand made to the angel of History, that the storm of progress drags. Demand is so intense that the angel would like to stop and, seriously considering the demand of dead and ruins, work on a repair. But the storm does not give time, and all that the angel can build on his reparative act is perhaps an ill-finished fragment that immediately after, given the strength of the storm which is nothing more than the succeeding time, becomes a new ruin deposited under his feet, that is a new demand to join the desperate cry of the ruins. This desperate cry would be the realization of History.</p>
			<p>What we gain by integrating the images of Freud and Benjamin is that, first, they seem to strengthen History as a field in which we work with the psychosocial hyphen. Second, given the tension established between the two images, between buildings and ruins, between the preserved and active element highlighted by Freud and the frustrated and disappointing element highlighted by Benjamin, this tension can cause a production in the psychosocial field that is a rescue of memory, a resignification and a reparatory act. That is, a construction in the fullest sense of the term, as it involves memory and repair. Benjamin’s image is powerful enough for us to understand it not only as a construct erected to signify the work of History as practice and study, but, in our view, this image somehow also manages to embrace the personal reconstruction processes every human being must perform, because in personal reconstruction processes, a particular angel of History - if we want to use the image that Benjamin depicts looking through Klee painting - is acting, with the same wide eyes, the same mouth open, the same tension on the wings, and, especially, the same implication in time: all he has is the past, presented at the same time, if we integrate the images of Freud and Benjamin, in the form of memory and ruin, demanding the act of personal construction, that is how the future takes place. Carlos Drummond de <xref ref-type="bibr" rid="B2">Andrade (1987</xref>) alludes to this personal angel in the first stanza of his “Seven-Sided Poem”: “When I was born, one of the crooked/ angels who live in shadow said: Carlos,go on! Be <italic>gauche</italic> in life” (p. 13).</p>
			<p>The poetic voice is demanded since his birth, from his origins and the shadow, to build a certain conception of life, a vision of the human being and the world. To be <italic>gauche</italic> is not really an option, nor a worldview already established and finished that Carlos would have nothing more to do but to start using it. It is more like a demand, a kind of gravitational force from the state of things in their origin, able to organize his unique way of seeing himself and the world. To be <italic>gauche</italic> is not a destination for Carlos. It is an imperiousness raised from the shadows of his origin. To be <italic>gauche</italic> is not easy. To be <italic>gauche</italic> means, somehow, to oppose, but how does one meet a demand for being opposition without opposing to it? It is almost impossible. If Carlos obeys the angel, he will not be exactly <italic>gauche</italic>. A true <italic>gauche</italic> does not listen to the angels. But if he does not listen to the angel, he will be <italic>gauche</italic> and, in this case, he will be under the imperative demand of that crooked angel, of this influence of origin. This paradox raised by the poet is important as a manifestation of the strength of the origin that drives him to be what he will become, in his meditation on himself and the world. Carlos listens to a demand for tradition and disruption, memory and construction. He says in another poem, which is entitled “Questions” (Drummond, 1987, pp. 72-74): </p>
			<verse-group>
				<verse-line>One cold, uncertain hour</verse-line>
				<verse-line>I asked the ghost</verse-line>
				<verse-line>what force binds us,</verse-line>
				<verse-line>him to me, whom I think of</verse-line>
				<verse-line>as not bound to anything,</verse-line>
				<verse-line>and me to him, gaseous</verse-line>
				<verse-line>yet vividly felt</verse-line>
				<verse-line>in the shadow he casts</verse-line>
				<verse-line>over all my being:</verse-line>
				<verse-line>reciprocal captives</verse-line>
				<verse-line>of the same principle</verse-line>
				<verse-line>or the same enigma</verse-line>
				<verse-line>that distracts or focuses</verse-line>
				<verse-line>and renews and refines</verse-line>
				<verse-line>an anxiety of time,</verse-line>
				<verse-line>prolonging it in space.</verse-line>
			</verse-group>
			<p>The crooked angel here is depicted as a ghost, as demanding as the first one and, at the same time, able to renew and refine like him. As the angel, the ghost is the enigma that unfolds and roots the poem. In the same poem, Drummond (1987) allows us to get out of the personal angel and go back to Benjamin´s angel of History, because the poetic voice asks the ghost one last question:</p>
			<verse-group>
				<verse-line>Finally I asked him</verse-line>
				<verse-line>the unreasonable reason</verse-line>
				<verse-line>for leaning me, in anguish,</verse-line>
				<verse-line>over remains of remains,</verse-line>
				<verse-line>from where no breath wafts</verse-line>
				<verse-line>to cool the fever</verse-line>
				<verse-line>of my reconsiderations;</verse-line>
				<verse-line>over that field of static</verse-line>
				<verse-line>ruins, whose military</verse-line>
				<verse-line>rigidity the morning</verse-line>
				<verse-line>dew no longer</verse-line>
				<verse-line>bathes or comforts.</verse-line>
				<verse-line> . . . </verse-line>
				<verse-line>While rising in flight,</verse-line>
				<verse-line>taciturn and melancholy,</verse-line>
				<verse-line>bound for eternity,</verse-line>
				<verse-line>he gave only this answer</verse-line>
				<verse-line>(if mysteries can indeed</verse-line>
				<verse-line>be answered by another,</verse-line>
				<verse-line>still higher mystery):</verse-line>
				<verse-line><italic>To love, after losing.</italic> (pp. 72-74, emphasis added)</verse-line>
			</verse-group>
			<p>Carlos Drummond de Andrade’s ghost acts as Benjamin’s angel. Both are plagued, both produce and leave a very analogous landscape; and both require repair - <italic>to love, after losing</italic>. If Benjamin’s angel, in the face of disaster, wants to restore the shattered and wake the dead, Drummond’s ghost operates in this “rethinking,” which is nothing more than reason without reason to lean grieved over debris remains. In Benjamin, this reconstruction will be one more ruin to join the ruins. In Carlos Drummond de Andrade it is a fever, here exposed as a poem. What Benjamin and Drummond allow us to discuss is this field of study which is so promising and that is currently called generational transmission. It emerges from the hypothesis so dear to Freud, about the existence of a familiar analogy in the developments of ontogeny and phylogeny. Perhaps what led Freud to this theme was the deep linking he saw occur between his personal biography and the psychoanalysis he created. Alluding to Drummond, we could say that psychoanalysis is the result of Freud fever, while leaning grieved over debris remains of his personal history. Family ties not only integrate the production of his biography, but they also renew and refine themselves in Psychoanalysis. In the correspondence of Freud to Fliess (<xref ref-type="bibr" rid="B15">1887-1902/1986</xref>), we have access to fragments of Freud´s self-analysis, and we envision that it is not only his emotional ambivalence toward his parents the pillar of the psychic conflict he was going through that period, or rather, the emotional conflict materializes itself in a complex ideational network that entangles the whole family unit, which is also the passageway or access to his ancestors and his ideational tangles, because the study of personal characteristics considers interactions with all family member.</p>
			<p>Every family is a language. But that does not mean that it is only a structure. It is also an ideational ball, an eternal city. Children learn among family and through the family. <xref ref-type="bibr" rid="B1">Abraham and Torok (1994</xref>), in the book <italic>The shell and the kernel</italic>, underline the fact that the child is attached and aware of the mother’s gestures, her psychic attributes and her words. More than realizing and being attached, mother and child are a dual unit from which the child has to be separated, carrying around him/her, according to the authors, a whole series of tracks, the ghost that binds, somehow, being here-and-now with this unique dual unit. The ideational operation of the child is done with familiar elements, permeated by them. This ideational thread is rooted in family life experiences and, therefore, it includes views, expectations, impressions and the recording of histories lived by the members in generations distant from this family unit. Family is also a thread of histories from which each one must organize and gain autonomy, as Carlos, whose poem is an elaboration of his origins, the Andrade. The construction of our being, this ontogenetic operation, is done with the familiar material, around this material, which is the phylogeny of each subject. We are all psychic products of an infinite regress of family histories. Freud highlights in the eternal city the presence of all buildings constructed throughout history. The buildings would be these familiar histories. Benjamin highlights the destructive character. The ruins would also be these histories. Every family history carries silence, suspension, hyphens, and mutism. This does not mean that something is suppressed; nothing is suppressed. Something just goes silent, gets isolated and can become a secret. When silent, knowledge is unknown. As a secret, the unknown is known. Both operate in the child’s ideational network. Both raise the fever to which Drummond refers in his poem. Both are part of the family language, acting, therefore, as driving forces of the limits and possibilities of ideational operations that all family members are subject to, including the child. If silence and secrecy make a strong amplification in the familiar ideational thread, each member is reduced in his/her possibility of naming as much about what goes on in the family as about themselves and the world around them. The silences and secrets talk as much as ideational threads in the family romance that everyone rises in the construction of their identity projects. Both in silence and in secret there is a traumatic element. If Freud knew how to give Psychoanalysis an etiological character, that is, a link to an origin for the understanding of psychic phenomena, in the origin of this science he granted to the trauma the status of origin of the psychological symptom; there, psychoanalysis emerged. The psychic trauma is a psychic commotion. Ferenczi (1933/1981) points out that the German word <italic>erschütterung</italic>, psychic commotion, comes from <italic>schutt</italic>: ruin, including the destruction, the loss of the form itself. In <italic>Studies on hysteria</italic>, the first psychoanalytic work of Freud (1895/1976), the trauma is understood as a real event arising from reality, a shock in the real experience capable of shaking the defenses of oneself. Freud never silenced the forces of the real. This we can see in all his clinical cases, where the reality is seriously considered by him. If, on the one hand, he moves towards greater emphasis on psychic reality, on the other, this reality consists of a response to the real. All the emphasis that Freud gives to phylogeny is nothing more than pointing out the determining factor of extrapsychic elements that, in some way, compose a kind of psychological history to act on the psychology of each individual. Thus, for example, his studies in <italic>Totem and Taboo</italic> (1913/1976), in which the anxiety of castration and the Oedipus complex itself, which in principle to him are invariables of the psychological constitution, are determined by the psychological history in which the historical, moral and religious processes of men take place, until a mythical primitive horde in which the parricide would have occurred - a historical scene and origin of a singular psychological history of human beings. This means that the ideational thread is a phylogeny, or psychological history that spans generations and constitutes a psychic heritage of each subject´s working through: the Andrade are the phylogenetic heritage for the ontogenetic construction of Carlos, which means that the Andrade are both Carlos’s socio-cultural-economical reserve and his trauma. The trauma is inherent to the working through, such as the personal construction process is inherent to the reparatoy act.</p>
			<p>Benjamin, in a text dedicated to the work of the Russian writer Nikolai Leskow, tells us of a disorder occurred in the first decades of the twentieth century, a disorder that involves modernity, urban life, technization, and war. And the way in which he deals with this disorder suggests that, in the history of men, there are events that operate in analogy with those which Freud detected and which promote psychic commotion in the individual subject. Benjamin suggests that, in History, trauma silences the experience, or rather the elaboration of an experience, which is the way lived facts can be realized in experience, that is, in elaborate life, in a personal patrimony, a result of the adventures of each person in the field of life. According to the logic of Benjamin’s text, it is possible to live and not gain experience. This is a personal disorder. But Benjamin, performing a social archeology, finds a deeper, that is, broader etiological factor for this inability to elaborate life in experience: the disorders are personal, but the etiological factor is a state of affairs in the social, that is, the disappearance of the narrator and the narrative promoted by a technocratic power. An entire social group can be locked in silence, unable to turn moments lived into experience. Benjamin thus brings the notion of trauma, a word originally from the field of Medicine and used by Freud to refer to psychic commotion, to the field of History. Today, there are several authors working on the notion of trauma in History (see, for example, <xref ref-type="bibr" rid="B17">Robben, A. &amp; Suarez-Orosco, M., 2000</xref>), and they observe the reaction of social groups to violent events, from this referential. But Benjamin, in this text, may be a reference for this field of study, because in his reflective sharpness, he knows the catastrophe of war or violent social events can cause far more than the massive material and human losses which are always involved in these events - it can cause a psychic commotion of the group, that is, a disturbance in the way they represent themselves and the world around them, and even in the possibility of representation of themselves and the world, with an intense impact on the history of this social group, to the point of outlining the basic determinations of how this social group will behave historically. The social group may lose the narrative instances capable of giving meaning to experience beyond the mere ideological register, which never fully accounts for the group commotion that the shock of History arouses. The newspapers and books to which Benjamin refers in the same text only circulate an image of the reality that coerces the social group, in the sense of being locked up, hostage of that reality, that is, these newspapers and books are not spaces of elaboration, being, as Benjamin understands them, instruments of the same battle and thus tools, as he says, of the “magnetic field of destructive currents and explosions” (1969/1980, p. 57). Today, narratives have migrated to digital media with such force that the election we have just lived in our country, the most representative political act of our democratic functioning, has digitalized itself.</p>
			<p>Social Psychology must learn to deal critically with not only this narrative, but especially with the emerging digital characters: a digital campaign, a digital president, digital voters, and digitized opponents. It is as if political life had been entirely transferred to virtual life, and we at the university, the professors, the intellectuals, seem to be further from the possibility of narrating our critical version to our collective, of favoring the whole collective in the construction of the Brazilian human habitation: of the plural Brazils that compose us.</p>
			<p>When I choose responsibility as an imperative in constructing this class, and when I relate the primary source of this imperative to the public dimension of this university, I do it motivated by the effort I have learned in my studies and practice to always deploy theories in the construction of the human habitation. The public university is my place of participation, so as a social psychologist I was not always involved exclusively in the production of knowledge, nor exclusively in its transmission. Or rather, I include both the production and the transmission of knowledge in the task of improving and strengthening the public university in our country. This is my fever. For this reason, I am delighted to have strengthened the international ties between the University of São Paulo and Birkbeck College, University of London, and, at the local level, to strengthen the ties of my disciplines with public policy practitioners; that is why I am involved in all the administrative instances, where we discuss core issues such as the career of a university professor, the various academic projects, and the ways of managing scarce funds. I consider all this part of Social Psychology, because the identity of the Brazilian intellectual is a theme of this field of knowledge. Love, after losing, is not a task only for the Andrade, it is a task for all of us. Freud calls the work of elaborating and repairing, of dealing with all these constructions and ruins, mourning. We have a great period of mourning ahead.</p>
		</body>
	</sub-article>
</article>