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				<journal-title>Psicologia USP</journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0103-6564</issn>
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				<publisher-name>Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.1590/0103-6564e180009</article-id>
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					<subject>Artigo</subject>
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				<article-title>A importância do pensamento de Thomas Ogden para a psicanálise contemporânea</article-title>
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					<trans-title>The importance of Thomas Ogden’s thought for contemporary psychoanalysis</trans-title>
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					<trans-title>L’importance de la pensée de Thomas Ogden pour la psychanalyse contemporaine</trans-title>
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					<trans-title>La importancia del pensamiento de Thomas Ogden para el psicoanálisis contemporáneo</trans-title>
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					<institution content-type="original">Universidade de São Paulo, Psicologia Experimental, São Paulo, SP, Brasil</institution>
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					<label>*</label>Endereço para correspondência: <email>fabiobrinholli@hotmail.com</email>
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			<pub-date date-type="pub" publication-format="electronic">
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				<year>2020</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo apresenta a importância do pensamento de Thomas Ogden para a psicanálise contemporânea. Trata-se de um autor que tem como característica central um discurso e um modo de pensar que levam em conta as dimensões intrapsíquicas e intersubjetivas no campo psicanalítico. A experiência com a matriz clínica da esquizofrenia é o ponto de partida privilegiado para seus desenvolvimentos teóricos. Destacamos neste texto três grandes contribuições ao longo de sua obra: (a) o estado de não-experiência; (b) a posição autista-contígua; e (c) o terceiro-analítico.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>This article presents the importance of Thomas Ogden’s thought for contemporary psychoanalysis. Its main characteristic is a discourse and a way of thinking that take into account intrapsychic and intersubjective dimensions in the psychoanalysis field. The experience with the clinical matrix of schizophrenia is the preferred starting point for his theoretical framework. We highlight in this text three major contributions throughout his work: a) the state of non-experience, b) the autistic-contiguous position, and c) the analytic-third.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="fr">
				<title>Résumé</title>
				<p>Cet article présente l’importance de la pensée de Thomas Ogden pour la psychanalyse contemporaine. C’est un auteur dont la caractéristique centrale est un discours et une façon de penser qui prennent en compte les dimensions intrapsychique et intersubjective dans le champ psychanalytique. L’expérience avec la matrice clinique de la schizophrénie est le point de départ privilégié pour ses développements théoriques. Nous soulignons dans ce texte trois contributions majeures tout au long de son travail : a) l’état de non-expérience, b) la position autiste-contiguë, et c) le troisième-analytique.</p>
			</trans-abstract>
			<trans-abstract xml:lang="es">
				<title>Resumen</title>
				<p>Este artículo presenta la importancia del pensamiento de Thomas Ogden para el psicoanálisis contemporáneo. Se trata de un autor que tiene como característica central un discurso y un modo de pensar relacionados a las dimensiones intrapsíquicas e intersubjetivas en el campo psicoanalítico. La experiencia con la matriz clínica de la esquizofrenia es el punto de partida privilegiado para sus desarrollos teóricos. En este texto destacamos tres grandes contribuciones a lo largo de su obra: a) el estado de no experiencia, b) la posición autista-contigua, y c) el tercer-analítico.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Thomas Ogden</kwd>
				<kwd>história da psicanálise</kwd>
				<kwd>psicanálise contemporânea</kwd>
				<kwd>clínica psicanalítica</kwd>
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				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Thomas Ogden</kwd>
				<kwd>history of psychoanalysis</kwd>
				<kwd>contemporary psychoanalysis</kwd>
				<kwd>psychoanalytic clinic</kwd>
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				<title>Mots-clés:</title>
				<kwd>Thomas Ogden</kwd>
				<kwd>histoire de la psychanalyse</kwd>
				<kwd>psychanalyse contemporaine</kwd>
				<kwd>clinique psychanalytique</kwd>
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				<title>Palabras clave:</title>
				<kwd>Thomas Ogden</kwd>
				<kwd>historia del psicoanálisis</kwd>
				<kwd>psicoanálisis contemporáneo</kwd>
				<kwd>clínica psicoanalítica</kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Este artigo apresenta a importância do pensamento de Thomas Ogden para a psicanálise contemporânea. Desde sua primeira publicação em <xref ref-type="bibr" rid="B8">1979</xref>, a saber, “On projective identification”, até seu último livro, <italic>Reclaiming unlived life: experiences in psychoanalysis</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B20">2016</xref>), seu nome figura entre os dos autores que mais têm contribuído para o desenvolvimento da psicanálise nestes últimos anos. A escrita de Ogden é envolvente e permeada de relatos clínicos acompanhados de elaborações teóricas, construindo um estilo único, com grande clareza de exposição. Tem como característica central um discurso e um modo de pensar que levam em conta as dimensões intrapsíquicas e intersubjetivas no campo psicanalítico. Como <xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden (1982</xref>) mesmo afirmou, “a teoria psicanalítica sofre em função da pobreza de linguagem e de conceitos que possam descrever o interjogo entre o fenômeno na esfera intrapsíquica e o fenômeno nas esferas da realidade exterior e das relações interpessoais”. (p. 11). Está claro, já no início de seu percurso autoral, o papel que a tensão entre o mundo intrapsíquico e a dimensão intersubjetiva, marcada pela alteridade, terá em sua reflexão. Estamos diante de um autor com grande capacidade literária para a exposição da difícil trama que rege o cotidiano da clínica psicanalítica, sempre em uma busca constante das formas de comunicação mais evocativas e do pleno reconhecimento da alteridade, sem perder de vista o intrincado mundo das relações internas de objeto e das pulsões.</p>
			<p>Para além disso, a forma como soube atravessar as diferentes fronteiras que caracterizaram o período pós-freudiano na história da psicanálise, o chamado período das grandes escolas (kleiniana, lacaniana e psicologia do ego), faz dele um verdadeiro autor pós-escolas, importante característica no pensamento psicanalítico a partir dos anos 1980. Deste modo, ele se alinha a autores como Green, Bollas, Pontalis, Ferro e Roussillon, para citar apenas alguns, que ajudaram a construir uma psicanálise mais aberta, independente e menos aferrada a dogmas e doutrinações. Destacamos neste texto três grandes contribuições ao longo de sua obra: (a) o estado de não-experiência; (b) a posição autista-contígua; e c) o terceiro-analítico.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>As raízes do pensamento de Ogden</title>
			<p>Para apresentarmos o pensamento analítico de Ogden, devemos antes conhecer as raízes desse pensamento. Uma das maneiras de conhecê-las é por meio do livro <italic>Contemporary psychoanalysis in America: leading analysts present their work</italic>, editado por Arnold M. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Cooper (2006</xref>). Embora possamos encontrar em seus artigos e livros os desenvolvimentos desse pensamento, na compilação de <xref ref-type="bibr" rid="B3">Cooper (2006</xref>) é o próprio Ogden quem, na condição de apresentador de seu trabalho, nos oferece esse retrato autobiográfico de suas referências. Assim ele começa a apresentação de seu pensamento:</p>
			<p>Os trabalhos que escrevi nos meus primeiros 10 anos de escrita analítica (1974-1984) foram trabalhos que tanto introduziram os psicanalistas americanos ao pensamento psicanalítico britânico - principalmente o trabalho de Klein, Winnicott, Fairbairn, e Bion - como também serviram como um veículo para o desenvolvimento de minhas próprias ideias. (p. 420).</p>
			<p>Para além de sua iniciativa sobre a introdução dos psicanalistas americanos a um campo de ideias, podemos encontrar, nesse quadro geral de referências, tanto a influência da psicanálise britânica no pensamento de Ogden como sua posição singular na apropriação das teorias desses autores. Isto é, na condição de veículos, eles contribuíram para que Ogden, um exímio leitor, dali começasse a criar suas próprias ideias. Uma ressalva é importante aqui: trata-se de incluir nessas referências iniciais os autores norte-americanos que o influenciaram também nesse início, sendo estes, principalmente, Sullivan, Searles, Langs, Boyer e Grotstein. Na continuidade de seu trabalho, veremos como aparecerá seu interesse por psicanalistas franceses, em particular por Lacan e Green.</p>
			<p>Assim temos que Thomas Ogden, em seus quase quarenta anos de produção intensa e instigante teorização, sempre valorizou explicitamente a importância do “veículo” da tradição kleiniana e dos autores das teorias das relações de objeto (Fairbairn, Balint, Milner, Winnicott, Bion, Rosenfeld e Segal<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>), além de ter se reportado constantemente às ideias de Freud. Tampouco escondeu a admiração pelos trabalhos de Green, Grotstein e Boyer e a influência que recebeu destes autores.</p>
			<p>Sabe-se que Ogden trabalhou na Tavistock Clinic e que, em seu retorno aos Estados Unidos, foi supervisionado por Erik Erikson (1902-1994), que, nos anos 1940/1950, deu aulas em Berkeley e trabalhou no Hospital Mount Zion, em São Francisco, como supervisor, local em que Ogden atendia pacientes graves naquele período. Fez também supervisão com Harold Searles, como ele mesmo relata (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Ogden, 2009</xref>).</p>
			<p>Mas, ao que parece, nem todos seus “veículos” puderam ser plenamente reconhecidos, o que de forma alguma desmerece o esforço ético de Ogden de fazer referência a suas principais influências, apenas o torna um sujeito abordável pelo pensamento psicanalítico, como todos nós. Menos evidente em sua obra, por exemplo, é a influência que parece ter recebido das formulações teórico-clínicas de Robert Langs (1928-2014), principalmente no que diz respeito à proposição de seu principal conceito, o “Terceiro Sujeito Analítico”, de que trataremos mais à frente. Tanto Langs quanto Searles consideravam os elementos da contratransferência como aspecto central no processo analítico. Ambos reconhecem a centralidade das ideias de Ferenczi em suas concepções e enfatizam a importância das percepções inconscientes dos analistas e dos pacientes. Esses autores são, em alguma medida, a fonte dessa ideia original de Ogden (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Coelho Junior, 2019</xref>). O interessante é que Ogden cita Langs em quase todos seus principais livros. Portanto não é que não reconheça a presença e a leitura dos muitos textos do autor, mas não chega a comentar, por exemplo, o efeito que a leitura da obra de Langs, <italic>The bipersonal Field</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B6">1976</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> teria tido em sua concepção da situação analítica como sendo um campo transferencial-contratransferencial, marcado pelo terceiro analítico.</p>
			<p>Por outro lado, em um texto de um período já mais maduro de sua obra, admite os pontos de contato e as sobreposições de suas ideias com as do casal Baranger:</p>
			<p>[trata-se] da intersubjetividade inconsciente de analista-analisando, que denominei de <italic>terceiro analítico</italic> (Ogden 1994a)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. Esta terceira subjetividade, o terceiro analítico intersubjetivo, é o produto de uma dialética única, gerada pelo/entre as separadas subjetividades de analista e analisando no interior do <italic>setting</italic> analítico. É uma subjetividade que parece ter uma vida própria no campo interpessoal, gerado entre analista e analisando. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ogden, 2004</xref>, p. 169).</p>
			<p>Com isso, queremos indicar que reconhecer e conseguir trabalhar criativamente com as fontes de influência está para além, muitas vezes, da vontade consciente e dos reconhecimentos passíveis de serem obtidos pelo pensamento.</p>
			<p>Em <xref ref-type="bibr" rid="B8">1979</xref>, Ogden publica o artigo “On projective identification”<italic>.</italic> Com este artigo e com os livros <italic>Projective identification and psychoterapeutic technique</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B10">1982</xref>) e <italic>The matrix of the mind: object relations and the psychoanalytic dialogue</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B11">1986</xref>), ele não estava “simplesmente ‘explicando’ as ideias de Klein, Fairbairn, Winnicott, e Bion para uma audiência que tinha quase nenhuma familiaridade com seus trabalhos” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420), mas, como ele mesmo diz: “Eu estava criando minha própria versão de ideias que eles introduziram” (p. 420). Ogden é um dos autores que defendem a possibilidade de ser criativo junto com o outro, sem necessariamente precisar discriminar de maneira purista a exclusividade de tal pensamento. Algo que ele discute como forma de uma nova experiência em seu artigo “What is true and whose ideia was it?” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Ogden, 2003</xref>). Com esses veículos, Ogden constrói um pensamento criativo que, neste quesito, está em consonância com as ideias winnicottianas, tanto com relação a possibilidade de criar com o outro quanto sobre a impossibilidade de ser criativo sem a tradição.</p>
			<p>Nas sendas dessa tradição, sobretudo, <xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden (2006</xref>) reconhece: “Minha ideia de identificação projetiva não era, e continua não sendo, o que um kleiniano britânico endossaria” (p. 420). Sua visão sobre este conceito é a de “um processo inconsciente intrapsíquico/interpessoal”, ao passo que, na diferença, os “kleinianos de Londres (apesar do trabalho de Bion e Rosenfeld) continuam vendo isso quase inteiramente como um processo intrapsíquico”(<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420).</p>
			<p>Ele continua: “Similarmente, eu tentei inventar novamente (<italic>to invent anew</italic>) muitas das ideias de Winnicott, Fairbairn e Bion” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420). “Inventar novamente” é uma expressão interessante que parece aventar a consonância de a psicanálise se refazer em cada análise. Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden (2006</xref>), inventar novamente não é apenas repetir. Sobre esse novelo, “um revisor de <italic>The Matrix of the Mind</italic> no <italic>Psychoanalytic Quarterly</italic> queixou-se de que ele não podia dizer onde as ideias de Klein, Winnicott e Fairbairn acabavam e onde as minhas começavam” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420). Diante da crítica, ele declara: “Eu tomei isso como o maior elogio que ele poderia ter me prestado” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420). O elogio não é sentido por Ogden pelo fato de ter sido incluído pelo crítico nas ideias desses grandes autores, mas sim por ter tido seu pensamento analítico colateralmente reconhecido no efeito do texto.</p>
			<p>Nos anos seguintes, o autor escreveu sobre um modo de geração de experiência, o qual denominou de posição autista-contígua. Algo tão importante - no entanto mais primitivo - quanto as posições depressiva e esquizo-paranóide. Essas “contribuições fizeram uso do trabalho de Tustin, Bick e Meltzer como pontos de partida para o desenvolvimento de minhas próprias ideias” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420).</p>
			<p>Entre os anos de 1989 e 2001, <xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden (2006</xref>) diz que “um importante foco do meu pensamento e escrita estava no lugar do processo analítico de rêverie e do terceiro analítico” (p. 420). Ao longo desses anos, o autor escreveu muitos trabalhos sobre</p>
			<p>como nos comunicamos na situação analítica (ou seja, a maneira como concebemos nossos pensamentos e sentimentos através dos efeitos que criamos em nosso uso da linguagem). Em outras palavras, estilo (voz, tom, uso de metáfora e daí em diante) de um lado, e conteúdo do outro, são inseparáveis. (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420)</p>
			<p>As poesias de Robert Frost, Seamus Heaney e Wallace Stevens, assim como as ficções de Jorge Luis Borges, foram as fontes de inspiração para essa exploração.</p>
			<p>Nesse sentido, o autor indica seu compósito: “Meus livros <italic>Subjects of analysis</italic>, <italic>Reverie and interpretation: sensing something human</italic> e <italic>Conversations at the frontier of dreaming</italic> apresentam esses aspectos do meu pensamento analítico” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 421).</p>
			<p>Uma contribuição de Ogden que se tornou recorrente em suas publicações subsequentes se encontra no livro <italic>This art of psychoanalysis: dreaming undreamt dreams and interrupted cries</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B17">2005</xref>)<italic>.</italic> Neste livro, ele diz: “eu ofereço uma revisão da concepção do lugar do sonhar (<italic>dreaming</italic>) na teoria analítica e seu papel na prática analítica” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 421). A referência de Ogden para este trabalho está calcada no que poderia ser pensado como metapsicologia do pensamento. Ele diz: “Seguindo Bion, eu vejo o sonhar (o qual continua tanto enquanto nós estamos acordados e adormecidos) como sinônimo do trabalho psicológico inconsciente. O objetivo da psicanálise, desta perspectiva, é ajudar o paciente em sonhar sua experiência vivida mais plenamente” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 421).</p>
			<p>Algo que seria central para a psicanálise, na concepção de Ogden, é a participação do analista em sonhar os sonhos “não-sonhados” e “interrompidos” do paciente. Qualidades de sonhos que ele define como sendo, a primeiro, sonhos interrompidos ou pesadelos metafóricos:</p>
			<p>são experiências emocionais com as quais o paciente é capaz de sonhar (fazer um trabalho psicológico inconsciente genuíno) até um ponto. Entretanto, a partir dali, o sonhar do paciente é interrompido - a capacidade é sobrecarregada pela natureza perturbadora do que está sendo sonhado. Naquele ponto o paciente ‘acorda’, isto é, deixa de ser capaz de fazer um trabalho psicológico inconsciente (por exemplo, como visto na interrupção do jogo da criança). O lugar onde o sonhar cessa é marcado pela criação de formas neuróticas e outras formas de sintomatologia não psicótica. (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 421)</p>
			<p>A segundo, sonhos não sonhados:</p>
			<p>são experiências emocionais com as quais o paciente é capaz de fazer pouco ou nenhum trabalho psicológico consciente ou inconsciente. Experiência insonhável (<italic>undreamable</italic>) é realizada em estados separados (<italic>Split-off states</italic>) tais como bolsas da psicose ou em desordens psicossomáticas e perversões severas. (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 421).</p>
			<p>É importante lembrar que a matriz clínica que orienta o pensamento de Ogden é a da psicose, mais especificamente a esquizofrenia. Estes estados psicológicos, nos quais o paciente apresenta dificuldades elaborativas no sentido de transformar as “experiências emocionais” em algo “sonhável”, são o ponto de partida para o pensamento clínico do autor. Nesse quesito, ele se inclui entre alguns psicanalistas contemporâneos, tais como André Green, Cristopher Bollas, César e Sara Botella, que se debruçaram sobre a teoria da psicanálise, principalmente sobre suas questões de enquadre, a partir dessas experiências com pacientes não-neuróticos - incluindo aqui outros quadros de sofrimentos psíquicos além da esquizofrenia, como os borderlines, por exemplo, se quisermos utilizar uma expressão de André Green.</p>
			<p>Em seu livro publicado em <xref ref-type="bibr" rid="B20">2016</xref>, <italic>Reclaiming unlived life: experiences in psychoanalysis</italic>, Ogden procura levar adiante as elaborações mencionadas, partindo dos pensamentos de Winnicott e Bion, procurando ilustrar como diferentes tipos de pensamento podem promover ou impedir o trabalho analítico de experiências não-vividas. O processo de sonhar acaba sempre desempenhando um papel fundamental enquanto paradigma do trabalho analítico. Ou seja, para <xref ref-type="bibr" rid="B16">Ogden (2004</xref>), há sempre a intenção de sonhar, <italic>com</italic> o paciente, aspectos de sua experiência que foram dolorosos demais para ele sonhar por si mesmo. Deste modo, trata-se, em uma análise, de promover esse tipo de transformação.</p>
			<p>Podemos reconhecer no pensamento de Ogden a presença de diversos autores de períodos freudianos, pós-freudianos e contemporâneos. Estes que, na condição de veículos, promovem certa originalidade de seu pensamento. Um pensamento analítico que deve ser compreendido como plural, assim como orientado pela liberdade saudável de alguém que se preocupa, na maior parte do tempo, em pensar o que está acontecendo numa sessão de análise. Esta é a sua posição:</p>
			<p>Para mim, o fio que corre através de tudo o que eu falei é que minha posição no mundo analítico não tem sido a de um advogado de uma escola de psicanálise (ou como um adversário de escolas de psicanálise “opostas”). Também não me vejo como uma “voz solitária”, porque isto sugere que eu me pense como um renegado. Eu preferiria muito mais me descrever como um pensador independente. (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p. 420)</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Algumas contribuições do pensamento de Ogden</title>
			<sec>
				<title>O estado de não-experiência</title>
				<p>Como dissemos, a matriz clínica que determina o pensamento de Ogden é a esquizofrenia. Essa informação é importante para compreender de onde o autor parte para elaborar o que seria sua primeira conceituação própria, a saber, o estado de não-experiência. Em seu artigo “On the nature of schizophrenic conflict” (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Ogden, 1980</xref>), podemos encontrar um primeiro esboço dessa conceituação e, como o próprio título do artigo mostra, a matriz em questão. Porém é em seu livro <italic>Project identification and psychotherapeutic technique</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B10">1982</xref>) que Ogden irá melhor desenvolvê-lo. Tendo a identificação projetiva como ponto de partida, ele irá estudar “o estado esquizofrênico de morte psíquica ou ‘não-experiência’” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 8). A partir da apresentação clínica do caso Phil, esquematizada por ele em estágios 1, 2, 3 e 4 - trata-se aqui de “quatro tipos diferentes de tentativa de resolução do conflito esquizofrênico” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, pp. 144-145) -, sendo o primeiro deles o momento clínico no qual não havia possibilidade de atribuir sentido à percepção e o paciente não tinha capacidade de experiência e pensamento, é que Ogden irá forjar esse conceito. Não-experiência seria então essa fase ou estágio psicológico. Não iremos delongar sobre o caso, mas traremos algumas passagens para oferecer um terreno epistemológico mais consistente para o leitor.</p>
				<p>Phil tinha 19 anos quando começou o tratamento psicanalítico. Aos 15, ele foi se tornando um menino silencioso, até que, aos 18 anos, ele se tornou praticamente mudo. Um ano antes de sua hospitalização, Phil foi encontrado dormindo na casa de um vizinho que ele nem conhecia. Ao ser acordado e levado para casa, ele pareceu nada perturbado pelo acontecimento. Certa vez, um grupo de garotas da escola que ele frequentava pediu para que tirasse a roupa enquanto estavam no meio da cafeteria. Algo que Phil fez e, subsequentemente, não compreendeu a comoção geral das pessoas ao redor. Ao ser hospitalizado, o paciente também não apresentou reação alguma. No entanto essa foi a primeira vez em sua vida que ele havia sido separado de seus pais (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>).</p>
				<p>Ao descrever os encontros nas sessões, Ogden transita entre as manifestações do paciente e os sentimentos do analista, como a necessidade do paciente em ter de ser sempre lembrado das sessões, de sentar, esticar as pernas e passar a mão em seu estômago, deitar e dormir no tapete, e, nas sessões após o almoço, emitir arrotos e flatulências. Já o analista não sentia nada opressivo durante as sessões, embora, às vezes, tédio, mas nada doloroso, apenas uma falta de evento, de acontecimentos.</p>
				<p>Essa descrição parece ser suficiente para demonstrar o que está em jogo aqui. O que é central é a maneira como toda a experiência é emocionalmente equivalente. “Uma coisa é tão boa ou tão ruim quanto qualquer outra coisa; todas as coisas, pessoas, lugares e comportamentos são intercambiáveis” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 147). Assim, os elementos eram “percebidos, registrados e fisicamente diferenciados” (p. 147). Porém, embora os elementos fossem intercambiáveis, “em termos de sua significância emocional, não fazia diferença para Phil se ele dormisse em sua própria casa ou em uma cama na casa de seu vizinho” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 147). Nesse sentido, para o paciente, tudo teria o mesmo “valor”. Ou seja, tudo poderia ser substituído por tudo. Phil “não demonstrava capacidade alguma para pensar sobre causas e eventos ou sobre o sentido de um comportamento e não mostrava evidência alguma de curiosidade que poderia sugerir algum interesse em aprender” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 147). Tratava-se de uma falta de capacidade para uma produção mental original, o que o paciente produzia “estava no nível da atividade reflexa fisiológica” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 147).</p>
				<p>A hipótese de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden (1982</xref>) é a de que o estado de não-experiência se apresenta como a incapacidade de atribuir sentido à percepção; “A falta de sentido não foi experienciada porque nada foi experienciado” (p. 148). Algo que, segundo ele, poderia ser comparado com a catatonia. As ausências de atividade defensiva, comunicação e relação de objeto podem ajudar a deduzir que não há identificação projetiva. “Essa ausência é o que caracteriza o estágio 1” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 148). O valor desse conceito para a psicanálise contemporânea reside no resgate das possibilidades de comunicações inconscientes entre analista e paciente. Uma forma de comunicação pré-verbal ou protosimbólica que poderia, a partir de uma relação intersubjetiva, ocasionar o processo de simbolização primária no domínio intrapsíquico, de modo a poder se instaurar gradualmente a capacidade de atribuição de sentido. Desse modo, o conceito que Ogden sempre toma como base para articular esta possibilidade é o de identificação projetiva, que, para ele, vale ressaltar, é um processo que articula tanto a intersubjetividade quanto o intrapsíquico.</p>
				<p>Para a criação de condições de trabalho nestes casos, <xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden (1982</xref>) postula algumas situações que não deveriam acontecer:</p>
				<p>Atacar a estabilidade, segurança, e confiança do enquadre terapêutico chegando atrasado, mudando horários, cancelando sessões etc;</p>
				<p>Negar um aspecto da realidade do campo da não-experiência, por ex., ao interpretar sentido onde não há;</p>
				<p>Tentar escapar do estado de não-experiência do paciente através da ação, por ex., limitando a terapia a tentativas de fazer o paciente ‘agir apropriadamente’, o que tem o efeito de encorajar a ação como uma forma de liberar a tensão em vez de promover o desenvolvimento de pensamento;</p>
				<p>Permitir que sua própria hostilidade e medos inconscientes do estado sem-sentido do paciente sejam promulgadas por engajamentos em terapia ‘ativa’, em que hostilmente, embora apenas parcialmente precisas, interpretações são feitas (“Você está com medo de viver a vida e não faz nada a não ser se esconder disso”), ou por insistentemente demandar um tipo de pensamento do qual o paciente é incapaz (por ex., ao persistentemente perguntar para o paciente como ele se sente, ou por que ele está fazendo o que está fazendo, o que envolve demandas de pensamento causal e discernimento de experiência emocional). (pp. 149-150)</p>
				<p>Estes são riscos e perigos que o analista poderia correr e/ou promover ao tratar casos que apresentassem essa condição psicológica. Embora o estágio de não-experiência tenha a aparência de falta de dinâmica, falta de conflito, não é este o caso. Se o analista for capaz de impedir estes “ataques” à experiência e ao pensamento, e for aberto para receber as identificações projetivas do paciente, “se e quando elas ocorrem, o paciente talvez comece a fazer uma tentativa, altamente ambivalente de incursão dentro do campo de experiência” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden, 1982</xref>, p. 150). Nesse sentido, estas incursões constituem o que <xref ref-type="bibr" rid="B10">Ogden (1982</xref>) chamará de “as primeiras identificações projetivas” (p. 150).</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A posição autista-contígua</title>
				<p>Essa conceituação de Ogden se encontra no livro The primitive edge of experience (<xref ref-type="bibr" rid="B13">1989</xref>), que, como o próprio nome diz, procura alcançar esse “limite” ou “borda primitiva da experiência”. E, mais uma vez, Ogden procura dar conta desses estados psicológicos que beiram a capacidade de existir. Poeticamente, para a introdução desse limite, o autor utiliza uma passagem de T. S. Eliot: “além das fronteiras da consciência onde palavras falham, mas sentidos ainda existem” (citado por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden, 1989</xref>, p. 3).</p>
				<p>O desenvolvimento de seu conceito tem como contraponto Melanie Klein e suas elaborações das posições esquizo-paranóide e depressiva. São marcadores que <xref ref-type="bibr" rid="B13">Ogden (1989</xref>) utiliza para dizer que a posição autista-contígua é uma área da experiência humana que repousa além desses estados psicológicos kleinianos. Teoricamente, trata-se de uma posição anterior a estes estados<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref>. A partir de uma alusão, o autor descreve essa primeira posição como o “baixo ventre” da posição esquizóide (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden 1989</xref>, p. 5). As ideias de Fairbairn de um mundo interno inconsciente de relações objetais, as concepções de Bion sobre identificação projetiva como uma forma de relação de objeto e comunicação, assim como as de Winnicott sobre a unidade mãe-bebê também são mencionadas por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden (1989</xref>) como seus pontos de partida, ou seja, tal como vimos, seus veículos.</p>
				<p>A posição autista-contígua é uma maneira de conceber uma organização psicológica primitiva onde o “chão sensorial (<italic>sensory ‘floor’</italic>) da experiência do <italic>self</italic> é gerado” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Ogden, 1989</xref>, p. 4). Assim <xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden (1989</xref>) apresenta seu conceito: “A posição autista-contígua é entendida como uma área da experiência pré-simbólica, sensoriamente-dominada em que a forma mais primitiva de sentido é gerada com base na organização de impressões sensoriais, particularmente na superfície da pele”. (p. 4).</p>
				<p>Estamos novamente diante daquela área pré-simbólica tão cara aos esquizofrênicos. Para ilustrar melhor o que seria a organização que tem essa particularidade de estar associada ou determinada pela superfície da pele, o autor menciona algumas formas de terror. São aquelas envolvendo a sensação de que a delimitação da superfície sensorial do sujeito poderia estar sendo dissolvida, resultando em um sentimento de se estar caindo, se esvaindo, pingando adentro de um espaço sem fim e sem forma (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Ogden, 1989</xref>).</p>
				<p>O nome duplo que Ogden dá a essa posição procura conjugar o dilema apresentado, a saber, tanto uma forma de organização psicológica quanto sua respectiva defesa. Ou seja, ao haver a possibilidade de contiguidade sensorial para constituição de uma pele, pode ocorrer o colapso desta organização e a implementação de defesas autísticas. Portanto o nome da posição “autista-contígua” segue o mesmo método de exposição da expressão esquizo-paranóide, a qual também reúne em seu bojo uma dinâmica entre a organização psicológica característica e sua defesa.</p>
				<p>O desenvolvimento desse conceito é uma integração, interpretação e extensão, como o próprio <xref ref-type="bibr" rid="B13">Ogden (1989</xref>) reconhece, dos trabalhos de <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bick (1968</xref>) sobre a superfície da pele, de <xref ref-type="bibr" rid="B7">Meltzer (1975</xref>) e seu trabalho com crianças autistas, e <xref ref-type="bibr" rid="B21">Tustin (1984</xref>) e suas elaborações sobre a sensação de ritmo. É importante mencionar que esses autores foram fortemente influenciados por Bion. E é partindo justamente da concepção de continente e contido de Bion que também Ogden irá conceituar sua posição. Embora se trate de um modo de geração de experiência presente desde o nascimento, salientamos que sua ocorrência se dá na relação com o outro, mais especificamente com a mãe enquanto ambiente - numa perspectiva winnicotiana - e a mãe como objeto.</p>
				<p>Assim, as experiências de ritmicidade e de contiguidade da superfície se tornarão fundamentais para as primeiras relações de objeto.<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> Como, por exemplo, “a experiência do cuidado e a experiência de ser segurado, balançado, falado e cantado nos braços de sua mãe” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">Ogden, 1989</xref>, p. 32).</p>
				<p>É importante mencionar que Ogden considera os três modos de geração de experiências como posições intercambiáveis, ou seja, há sempre um regime de simultaneidade operando entre as três posições: autista-contígua, esquizo-paranóide e depressiva. Ora o sujeito pode estar sendo governado por uma, ora por outra. Algo que ele denomina de “interjogo dialético”, ou seja, “cada modo cria, preserva, e nega o outro” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden, 1989</xref>, p. 4). Considerando também que, intersubjetivamente, há diferenças na relação com as três posições. Na posição autista-contígua, por haver a predominância do pré-simbólico e de formas sensoriais de relação, o analista pode experimentar na contratransferência fenômenos que envolvem o domínio de sensações corporais e de formas. Como sensações somáticas e dérmicas de dor no estômago, de calor ou frio na pele, ou também sentir a espaço entre o paciente e analista sendo preenchido por uma substância quente e calmante (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden, 1988</xref>). Enquanto, na posição esquizo-paranóide, por predominar a clivagem, a identificação projetiva e a evacuação da dor, a comunicação se torna direta e não mediada por sujeitos interpretantes. Trata-se de uma comunicação entre inconscientes enquanto o analista é tomado pelo paciente na transferência como “sendo” o objeto primário. Por fim, na posição depressiva, há as capacidades de alteridade mais reconhecível entre sujeito e objeto, empatia e historicidade. As experiências com os objetos originais são tomadas como parte do passado, ao passo que a transferência se torna um meio de recapturar qualquer coisa do objeto original numa relação atual com o analista. Assim, o analista é visto como “similar” ao objeto primário.</p>
				<p>Nesse sentido, o princípio de Ogden para conduzir uma análise é de que há sempre uma faceta da personalidade funcionando na posição depressiva, mesmo em casos muito graves e, por isso, é possível trabalhar a partir da busca por mais simbolização. Esse interjogo dialético das posições e seus modos de gerar experiência é uma característica central no pensamento clínico e teórico de Ogden.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>O terceiro-analítico</title>
				<p>O “terceiro-analítico” pode ser definido como um conceito psicanalítico que procura dar sustentação teórica para a prática clínica. Essa conceituação analítica se encontra, predominantemente, no livro <italic>Os sujeitos da psicanálise</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B14">1996</xref>). A partir de desenvolvimentos teóricos e relatos de caso, o terceiro-analítico tem sua emergência no que o autor nomeia como experiência em análise. Mais especificamente, ele dirá que “o processo analítico reflete a inter-relação de três subjetividades” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden, 1996</xref>, p. 90). Ou seja, a subjetividade do analista, a do analisando e a desse terceiro sujeito constituído e constituinte na relação entre os dois primeiros.</p>
				<p>Trata-se, de maneira geral, de uma forma de experiência e da demonstração da importância central da matriz na qual a transferência-contratransferência é gerada. Por esse viés, ele é ao mesmo tempo uma forma de subjetividade por meio da qual analista e analisando podem ter uma vivência transformativa.</p>
				<p>Essa forma de experiência é produzida no <italic>setting</italic> analítico, definida pela relação entre analista e analisando, e está teoricamente fundamentada na elaboração que Ogden faz do termo “sujeito”. Trata-se de uma construção assimétrica, na qual a experiência inconsciente do analisando é privilegiada e tomada como sujeito principal, porém não exclusivo. A experiência do analista <italic>no</italic> e <italic>do</italic> terceiro sujeito é também utilizada como veículo para compreensão das experiências conscientes e inconscientes do analisando. Este terceiro sujeito, por ter uma estrutura de interdependência entre sujeito e objeto e entre transferência e contratransferência, deve ser compreendido como portador de uma natureza dialética. Nesse quesito, as elaborações de Ogden estão em consonância com o pensamento dialético de <xref ref-type="bibr" rid="B4">Green (2005</xref>), tanto no domínio da complementaridade entre pulsão e objeto quanto no seu conceito metapsicológico de objeto analítico. Concomitantemente, a noção que Ogden declara estender é a de Winnicott, partindo de sua frase emblemática de que “um bebê não existe (separado dos cuidados maternos)”. (Winnicott 1960, p. 39, citado por <xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden, 1996</xref>). Ou seja, um analisando não existe quando separado da relação com o analista, assim como um analista não existe quando separado da relação com o analisando. A extensão é que, desta hipérbole sobre um bebê que “não existe”, o autor assumirá o paradoxo de um bebê e uma mãe como “coisas que obviamente existem e constituem entidades física e psicologicamente separadas”, ao passo que, a “unidade mãe-bebê <italic>coexiste</italic> em tensão dinâmica com a mãe e o bebê em sua qualidade de seres separados” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden, 1996</xref>, p. 59, grifos nossos).</p>
				<p>Com esse termo, <xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden (1996</xref>), então, procura sustentar no campo psicanalítico um entrelaçamento inevitável, ou seja, que “sujeito e objeto não podem ser compreendidos isolados um do outro” (p. 12). Dessa maneira, o autor acredita “ser justo dizer que o pensamento psicanalítico contemporâneo está aproximando-se de um ponto em que não se pode mais falar simplesmente do analista e do analisando como sujeitos separados que tomam um ao outro como objetos” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden, 1996</xref>, p. 58).</p>
				<p>Em nota de rodapé (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden, 1996</xref>), o tradutor de seu livro acrescenta que o termo inglês <italic>subject</italic>, que Ogden utiliza para sujeito, tem a vantagem idiomática de duplicidade de sentido da palavra, pois ele pode designar “tanto o sujeito quanto um assunto, tema, tópico, (ou seja, o objeto)” (p. 13). Assim também é a descrição do autor: “escolhi utilizar o termo <italic>sujeito</italic> nessa discussão para me referir ao indivíduo na sua experiência sempre mutativa, dialeticamente negadora e negada, de ‘eu-dade’, ao invés dos termos <italic>self</italic> ou <italic>ego</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden, 1996</xref>, pp. 21-22).</p>
				<p>De maneira geral, para chegar a uma conceituação do terceiro sujeito, o autor precisou traçar uma breve história sobre o que ele pensa ser os sujeitos freudiano, kleiniano e winicottiano. Trata-se, evidentemente, de uma conceituação herdeira de uma tradição. Um percurso que inevitavelmente faz lembrar a conhecida passagem de <xref ref-type="bibr" rid="B22">Winnicott (1975</xref>), que diz que “em nenhum campo cultural é possível ser original exceto numa base de tradição” (p. 138). Nesse sentido, o terceiro-analítico acaba sendo uma construção dialética - não necessariamente uma síntese - sobre esses sujeitos psicanalíticos, tanto os autores quanto as elaborações que o antecederam. Preservando suas dimensões sincrônicas e diacrônicas na mutualidade de sua constituição, ele é o centro de um pensamento psicanalítico calcado na interdependência entre subjetividade e intersubjetividade.</p>
				<p>O intuito do autor com esse conceito é explorar suas implicações técnicas na situação analítica. Aqui, os pensamentos e sentimentos do analista, tais como suas “reveries” e ilusões somáticas, participarão ativamente no processo analítico. Como mencionamos anteriormente, influenciado pelas concepções bionianas sobre continente e contido e função alfa, <xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden (1996</xref>) sustentará sua concepção fundamentalmente ancorado na ideia de que, “quando a mãe é capaz de <italic>rêverie</italic>, ela nomeia (dá forma) às vivências do bebê por meio de sua interpretação dos estados internos deste” (p. 41).</p>
				<p>É como se nesse caminho conceitual <xref ref-type="bibr" rid="B14">Ogden (1996</xref>) estivesse também fazendo um tributo histórico: “o sujeito não pode criar a si mesmo” (p. 55). Num processo de apropriação, o analisando assimila e transforma a intersubjetividade do par analítico num diálogo interno. Assim, “o término de uma experiência psicanalítica não é o fim do sujeito da psicanálise” (p. 55). O sujeito da psicanálise, para Ogden, é, portanto, plural.</p>
				<p>Podemos observar que esse conceito possivelmente seja resultado de suas duas contribuições anteriores, pois a posição autista-contígua se refere a estes primeiros processos envolvendo o bebê e a mãe, assim como o estado de não-experiência almeja, com a participação do analista, alcançar as possibilidades de “dar forma” às vivências do analisando.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Estamos vivendo atualmente um momento na história da psicanálise denominado trans-escolas ou pós-escolas. Em suma, trata-se de um movimento psicanalítico que teve seu início a partir dos anos 1970. Um movimento de atravessamento das fronteiras rígidas do que ficou conhecido como período das grandes escolas, por exemplo, a kleiniana, a psicologia do Ego, a lacaniana etc., ou seja, o período pós-freudiano. Nesse sentido, podemos considerar o pensamento de Ogden calcado num modelo de psicanálise que parece ser mais permeado por este caráter híbrido. Acompanhando a sugestão de André <xref ref-type="bibr" rid="B5">Green (2008</xref>), poderíamos nomear esse modelo de psicanálise contemporânea. Seu pensamento parece não se restringir às escolas que o formaram. Como ele mesmo disse na apresentação de seu trabalho editado por Arnold M. Cooper: “minha posição no mundo analítico não tem sido a de um advogado de uma escola de psicanálise. . . . Eu preferiria muito mais me descrever como um pensador independente (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Ogden, 2006</xref>, p.421)</p>
			<p>Neste trabalho, recortamos três conceitos que consideramos importantes em sua trajetória - a saber, a posição autista-contígua, o estado de não-experiência e o terceiro-analítico. Conceitos que só foram possíveis mediante a influência de outros autores que, na condição de veículos, fizeram com que Ogden os formulasse com sua devida originalidade. Acreditamos que tais elaborações merecem nossa atenção, assim como podem, consequentemente, contribuir com o quadro teórico e clínico da psicanálise.</p>
			<p>Por fim, Ogden é alguém que aparentemente mantém certa reserva, pois nunca participa de grandes congressos internacionais, mas regularmente parece manter seu foco no consultório e nos seminários que oferece na cidade norte-americana de São Francisco. As maiores informações que temos de seu pensamento podem ser encontradas em poucas entrevistas e, predominantemente, em suas publicações. Nesse sentido, tal pensador parece desejar que mantenhamos o foco em seu trabalho, o qual merece ser tomado, seguindo também uma qualificação de <xref ref-type="bibr" rid="B5">Green (2008</xref>, p. 26), como o de um “autor de um pensamento original”.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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			<title>Referências</title>
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					<article-title>The experience of the skin in early object relations</article-title>
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					<source>The Matrix of the mind: object relations and psychoanalytic dialogue</source>
					<publisher-loc>Maryland</publisher-loc>
					<publisher-name>Rowman &amp; Littlefield</publisher-name>
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							<surname>Ogden</surname>
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					<year>1988</year>
					<article-title>On the dialectical structure of experience</article-title>
					<source>Contemporary Psychoanalysis</source>
					<volume>24</volume>
					<issue>1</issue>
					<fpage>17</fpage>
					<lpage>45</lpage>
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							<surname>Ogden</surname>
							<given-names>T. H.</given-names>
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					<year>1989</year>
					<source>The primitive edge of experience</source>
					<publisher-loc>London</publisher-loc>
					<publisher-name>Jason Aronson</publisher-name>
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				<mixed-citation>Ogden, T. H. (1996). <italic>Os sujeitos da psicanálise</italic> (C. Berliner, trad.). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.</mixed-citation>
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					<year>1996</year>
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					<publisher-loc>São Paulo, SP</publisher-loc>
					<publisher-name>Casa do Psicólogo</publisher-name>
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					<article-title>What`s true and whose idea was it?</article-title>
					<source>The International Journal of Psychoanalysis</source>
					<volume>84</volume>
					<fpage>593</fpage>
					<lpage>606</lpage>
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					<article-title>The Analytic Third: Implications for Psychoanalytic Theory and Technique</article-title>
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					<source>This art of psychoanalysis: dreaming undreamt dreams and interrupted cries</source>
					<publisher-loc>London</publisher-loc>
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					<chapter-title>Thomas H. Ogden, MD</chapter-title>
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				<mixed-citation>Ogden, T. H. (2016). <italic>Reclaiming unlived life: experiences in psychoanalysis</italic>. London: Routledge .</mixed-citation>
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					<publisher-name>Routledge</publisher-name>
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				<mixed-citation>Tustin, F. (1984). Autistic shapes. <italic>International Review of Psycho-Analysis</italic>, <italic>11</italic>(3), 279-290.</mixed-citation>
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					<article-title>Autistic shapes</article-title>
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					<issue>3</issue>
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					<lpage>290</lpage>
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				<mixed-citation>Winnicott, D. W. (1975). A localização da experiência cultural. In D. W. Winnicott, <italic>O brincar e a realidade</italic> (pp. 133-142). Rio de Janeiro, RJ: Imago .</mixed-citation>
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					<chapter-title>A localização da experiência cultural</chapter-title>
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					<source>O brincar e a realidade</source>
					<fpage>133</fpage>
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					<publisher-name>Imago</publisher-name>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Como referido em <xref ref-type="bibr" rid="B20">Ogden (2016</xref>), p. 167.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>O título do livro de <xref ref-type="bibr" rid="B6">Langs (1976</xref>) é resultado de sua leitura do texto clássico do casal Baranger, de 1961, sobre o campo analítico como um campo intersubjetivo, como ele mesmo indica.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>“Está além do escopo deste artigo oferecer uma revisão ampla da literatura que abarca o ponto de vista intersubjetivo do processo analítico e da natureza do jogo inconsciente da transferência e da contratransferência. Para isso, remeto aos trabalhos de Bion (1962) e Green (1975) sobre o <italic>objeto analítico</italic> e ao trabalho dos Baranger (1993) sobre a noção de <italic>campo analítico,</italic> para referências sobre concepções de intersubjetividade analítica inconsciente que se sobrepõem ao que eu chamo de <italic>terceiro analítico</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">Ogden, 2004</xref>, p. 169, nota de rodapé.)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>É importante ressaltar que <xref ref-type="bibr" rid="B13">Ogden (1989</xref>) considera a experiência humana como “constituída por um interjogo dialético dos três diferentes modos de geração de experiência: o modo depressivo, o modo esquizo-paranoide, e o modo autista-contíguo” (p. 9). Portanto a posição autista-contígua deve ser concebida como uma <italic>primeira</italic> posição apenas no sentido cronológico.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Devemos informar o leitor que Ogden, ao discorrer sobre essas primeiras relações com o objeto, menciona o conceito de identificação adesiva proposto por <xref ref-type="bibr" rid="B7">Meltzer (1975</xref>). Trata-se de um termo para “descrever uma forma de identificação mais primitiva do que tanto a identificação introjetiva quanto a projetiva”. (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Ogden, 1988</xref>, p. 39). A saber, na posição autista-contígua, o sujeito procura criar ou reconstituir um senso rudimentar de coesão em sua própria pele. Para tanto, ele se utiliza da superfície/pele do outro para criação ou como substituto frente à deterioração de sua própria superfície/pele. Considerando, portanto, uma qualidade de relação e comunicação mais primária entre bebê e mãe do que a considerada nas identificações projetivas/introjetivas.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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