Cantos da vida contra governos da morte: os kanhgág tỹnh e o Acampamento Terra Livre
DOI:
https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2022.215211Palavras-chave:
cantos-dança, movimento indígena, festas funerárias, Acampamento Terra Livre, KaingangResumo
Este artigo aborda movimentos e ações políticas indígenas a partir da etnografia de práticas expressivas de um coletivo kaingang denominado Nẽn Ga. Essas práticas, descritas pelos Kaingang como rituais [tỹnh], incluem cantos, danças, pinturas corporais, ornamentações, e são imprescindíveis para a realização de festas, as quais são atreladas a movimentos de retomada e de luta indígena. Propõe-se que as mobilizações indígenas, assim como as festas/ rituais kanhgág – das quais se destaca a festa funerária do Kiki –, produzem movimentos de afastamento e aproximação, construção e desconstrução de vínculos, promovidos muito por conta da experiência do cantar-dançar junto e do mobilizar-se contra inimigos comuns. A realização anual do Acampamento Terra Livre e outros eventos de mobilização são fundamentais para a renovação de alianças entre coletivos e povos diversos, que se unem especialmente contra governos mortíferos. A existência da Apib, maior rede do movimento indígena nacional contemporâneo, é, portanto, indissociável desses encontros, das lutas presenciais, que são cantadas, movimentadas por corpos pintados e ritmados.
Downloads
Referências
ALARCÓN, D. O retorno da terra: as retomadas na aldeia Tupinambá da Serra do Padeiro, sul da Bahia. 2013. 272f. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados sobre a América) – Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2013.
ALMEIDA, Ledson Kurtz de. 2004. Análise Antropológica das Igrejas Cristãs entre os Kaingang baseada na etnografia, da cosmologia e no dualismo. Tese de Doutorado em Antropologia Social – UFSC, Florianópolis.
Amoroso, Marta Rosa. 2014. Terra de Índio: imagens em Aldeamentos do Império. São Paulo: Terceiro Nome.
BALDUS, Herbert. Ensaios de etnologia brasileira. São Paulo, Editora Nacional, 1937.
BENITES, Eliel; SERAGUZA, Lauriene. Levantar gente, Levantar terra: lutas pela terra e resistências como modos de vida entre os Guarani e Kaiowa em Mato Grosso do Sul. In: Anais do 3o. Congresso Internacional Povos Indígenas da América Latina, 2019.
BUTLER, Judith. 2017. Levante. In: Levantes. Didi- Huberman G. (org). São Paulo: Edições Sesc São Paulo, pp. 23-36.
CAPIBERIBE, Artionka. 2014. Não cutuque a cultura com vara curta: os Palikur e o projeto “Ponte entre os Povos”. In: Políticas culturais e povos indígenas. Carneiro da Cunha, M., Cesarino, P. (org.), 1a ed. São Paulo: Cultura Acadêmica.
CARNEIRO DA CUNHA, Manuela & VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. 1985. Vingança e Temporalidade: os Tupinambás. In: Anuário Antropológico 85, pp. 57-78.
CRÉPEAU, Robert R. Mito e ritual entre os índios Kaingang do Brasil Meridional. 1997. In: Horizontes Antropológicos, Porto Alegre : UFRGS, v. 3, n. 6, p. 173-86.
FERNANDES, Ricardo Cid. 2003. Política e Parentesco entre os Kaingang: uma análise etnológica. Tese de doutorado, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo.
FIDELES, Jaciele Nyg Kuitá; GIBRAM, Paola Andrade. Corpos-territórios kanhgág: políticas e violências de gênero a partir de uma perspectiva descolonizante. In: Anais da 31a. RBA, Brasília, 2018.
FIDELES, Jaciele Nyg Kuitá; GIBRAM, Paola Andrade. Nēn Ga, uma retomada kanhgág. Anais do 3o. Congresso Internacional dos Povos Indígenas (CIPIAL), Brasília, 2019.
GIBRAM, Paola Andrade. 2016. Penhkár: política, parentesco e outras histórias kaingang. Curitiba: Editora Appris/ Instituto Brasil Plural, 2016.
GIBRAM, Paola Andrade. Cantos sem fim: formas políticas Kaingang e seus movimentos. 2021. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
GOLDMAN, Marcio. 2006. Como funciona a democracia: uma teoria etnográfica da política. Rio de Janeiro: 7Letras
GUATARRI, Félix .1992. Caosmose. Rio de Janeiro: Ed. 34.
GUERREIRO, Antonio. 2018. Chefia e Política Na América Do Sul Indígena: Um Balanço Bibliográfico Para Além Do Modelo Clastreano. Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais - BIB 87: 41–70.
HERBETTA, Alexandre. Toré polissêmico: possibilidades de análise do toré no sertão nordestino. I Colóquio Arte e Sociabilidades: Pesquisa, Colaboração e Fronteiras. Florianópolis, UFSC, 2012.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Histoire de Lynx. Paris: Plon, 1991.
MENEZES BASTOS, Rafael José de. 2013. A festa da Jaguatirica: uma partitura crítico interpretativa. Florianópolis: Editora UFSC.
MENEZES BASTOS, Rafael José de. Tradução intersemiótica, Sequencialidade e Variação nos Rituais Musicais das Terras Baixas da América do Sul. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 60, p. 342-355, 2017.
NIMUENDAJU, Curt. 1993 [1913]. Etnografia e indigenismo: sobre os Kaingáng, os Ofaié- Xavante e os Índios do Pará. Editora da UNICAMP. Campinas.
PERRONE-MOISÉS, Beatriz. Festa e Guerra. 2015. Tese de livre docência. Departamento de Antropologia Social - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo.
PERRONE-MOISÉS, Beatriz; SZTUTMAN, Renato. 2009. Dualismo em perpétuo desequilíbrio feito política: desafios ameríndios. In: GT 26 – Novos modelos comparativos: antropologia simétrica e sociologia pós-social, 33ª Reunião da ANPOCS, Caxambu, MG, mimeo.
PERRONE-MOISÉS, Beatriz; SZTUTMAN, Renato. 2010. Notícias de uma certa confederação Tamoio. Mana 16 (2): 401-433.
ROSA, Douglas Jacinto da. 2020. Território, territorialidades, narrativas e retomada Kaingang na Bacia Hidrográfica do Alto Uruguai: um ensaio etnográfico em Goj Vêso. Dissertação de mestrado em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
ROSA, Rogério Reus Gonçalves da. 1998. A temporalidade Kaingang na espiritualidade do combate. Dissertação de mestrado e Antropologia Social, Porto Alegre, IFCH/UFRGS.
ROSA, Rogério Reus Gonçalves da. 2005. Os Kujà são Diferentes: Um estudo etnológico do complexo xamânico dos Kaingang da Terra Indígena Votouro. Tese de Doutorado – PPGAS, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, UFRGS, Porto Alegre.
SEEGER, Anthony. 2015. Por que cantam os Kĩsêdjê? Uma antropologia musical de um povo amazônico. São Paulo: Cosac Naify.
STENGERS, Isabelle. 2017. Reativando o animismo. Belo Horizonte: Chão de Feira.
STRATHERN, Marilyn. 1988. The gender of the gift: problems with women and problems with society in Melanesia. Berkeley: University of California Press.
STRATHERN, Marilyn. 2020. “Refletindo de Volta.” Maloca: Revista de Estudos Indígenas 3: 1–10.
SZTUTMAN, Renato. 2017. 'Retomar a terra ou como resistir no Antropoceno'. Buala, Lisboa.
SZTUTMAN, Renato. 2018. Reativar a feitiçaria e outras receitas de resistência ? pensando com Isabelle Stengers. Revista Ieb , v. 69, p. 338-360.
TOMMASINO, Kimiye. 1995. A História dos Kaingang da bacia do Tibagi. Uma sociedade Jê Meridional em movimento. Tese de Doutorado, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo.
TOMMASINO, Kimiye. TOMMASINO, Kimiye; RESENDE, Jorgisnei Ferreira de. 2000. Kikikoi: ritual dos Kaingang na área indígena Xapecó: registro áudio-fotográfico do ritual dos mortos. Londrina: Midiograf.
Veiga, Juracilda. 2000. Cosmologia e práticas rituais Kaingang. Tese de Doutorado, Universidade Estadual de Campinas.
Publicado
Edição
Seção
Licença
Direitos autorais (c) 2026 Revista de Antropologia

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Autores que publicam na Revista de Antropologia concordam com os seguintes termos:
a) Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
b) Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
c) Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) após o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).
