A ameaça da Justiça: o papel da mediação e da judicialização na gestão do direito à saúde

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.229312

Palavras-chave:

Judicialização da saúde, Mediação, Direitos, Resolução de conflitos, Justiça

Resumo

A Câmara de Resolução de Litígios de Saúde (CRLS) foi criada para oferecer “soluções administrativas” para pedidos judiciais na área da saúde e controlar um alegado problema de “excesso de judicialização”. A partir de uma etnografia empreendida durante treze meses nesse órgão, discuto as relações entre mediação e judicialização instituídas pelas práticas de gestão das demandas por direito à saúde no cotidiano da instituição. Meu argumento central é o de que a ameaça da Justiça – isto é, a possibilidade de que um caso seja encaminhado para a Defensoria Pública para ser judicializado – funciona como uma espécie de instrumento de pressão e mecanismo de coerção. Ao abordar esses temas, pretendo demonstrar como a gestão de potenciais litígios em saúde configura um espaço no qual são disputados não somente direitos, mas também a atribuição de deveres e responsabilidades entre os diferentes agentes e agências estatais com as quais a CRLS dialoga.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Biografia do Autor

  • Lucas de Magalhães Freire, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

    Professor Adjunto do Departamento de Antropologia do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ICS/UERJ). Graduado em Ciências Sociais pela UERJ. Especialista em Gênero e Sexualidade pelo Instituto de Medicina Social (IMS/UERJ). Mestre e Doutor em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ). Tem interesse nas discussões sobre Estado, saúde, políticas públicas, direitos e judicialização.

Referências

ABRAMS, Phillip. 2006. “Notes on the Difficulty of Studying the State”. In: SHARMA, Aradhana; GUPTA, Akhil (ed.), The Anthropology of the State: a reader. Oxford, Blackwell Publishing, pp. 112-130.

AZEVEDO, Paulo; AITH, Fernando (coord.). 2019. Judicialização da Saúde no Brasil: perfil das demandas, causas e propostas de solução. Brasília, CNJ.

BIEHL, João. 2013. “The judicialization of biopolitics: claiming the right to pharmaceuticals in Brazilian courts”. American Ethnologist, 40(3): 419-436. https://doi.org/10.1111/amet.12030

BIEHL, João; PETRYNA, Adriana. 2013. “Legal Remedies: therapeutic markets and the judicialization of the right to health”. In: BIEHL, João; PETRYNA, Adriana (ed.). When People Come First: critical studies in global health. Princeton, Princeton University Press, pp. 325-346.

BOURDIEU, Pierre. 1989. O Poder Simbólico. Lisboa, Difel / Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

CASTILHO, Sérgio; SOUZA LIMA, Antonio Carlos; TEIXEIRA Carla Costa. 2014. “Introdução – Etnografando burocratas, elites e corporações: a pesquisa entre estratos sociais hierarquicamente superiores em sociedades contemporâneas”. In: CASTILHO, Sérgio; SOUZA LIMA, Antonio Carlos; TEIXEIRA Carla Costa (org.). Antropologia das Práticas de Poder: reflexões etnográficas entre burocratas, elites e corporações. Rio de Janeiro, Contra Capa/FAPERJ, pp. 7-32.

DAS, Veena; POOLE Deborah. 2004. “State and Its Margins: comparative ethnographies”. In: DAS, Veena; POOLE Deborah (ed.), Anthropology in the Margins of the State. Santa Fe, School of American Research Press, pp. 3-33.

FASSIN, Didier. 2016. “The value of life and the worth of lives”. In: DAS, Veena; HAN, Clara (ed.). Living and Dying in the Contemporary World: a compendium. Berkeley, University of California Press, pp. 770-783.

FASSIN, Didier; RECHTMAN, Richard. 2009. The Empire of Trauma: an inquiry into the condition of victimhood. Princeton, Princeton University Press.

FLORES, Lise Vogt. 2016. “Na minha mão não morre”: uma etnografia das ações judiciais de medicamentos. Curitiba, Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Paraná.

GLUCKMAN, Max. 1973. The judicial process among the Barotse of Northern Rhodesia (Zambia). Manchester, University of Manchester Press.

GUIMARÃES, Rita; PALHEIRO, Pedro. 2015. “Medidas adotadas para enfrentar a judicialização na Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro e a experiência da Câmara de Resolução de Litígios de Saúde”. In: SANTOS, Alethele (coord.). Direito à Saúde (coleção Para Entender a Gestão do SUS). Brasília, CONASS, pp. 3-9.

GUPTA, Akhil. 2012. Red Tape: bureaucracy, structural violence, and poverty in India. Durham/London, Duke University Press.

HERZFELD, Michael. 1993. The Social Production of Indifference: exploring the symbolic roots of Western bureaucracy. Chicago, University of Chicago Press.

MELLO, Kátia Sento Sé; BAPTISTA, Bárbara Gomes Lupetti. 2011. “Mediação e conciliação no Judiciário: dilemas e significados”. DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, 4(1): 97-122.

NADER, Laura. 1990. Harmony ideology: justice and control in a Zapotec Mountain Village. Palo Alto, Stanford University Press.

NADER, Laura. 1994. “Harmonia Coercitiva: a economia política dos modelos jurídicos”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 29: 18-29.

OLIVEIRA, Luis Roberto Cardoso de. 2011. Direito Legal e Insulto Moral: dilemas da cidadania no Brasil, Quebec e EUA. Rio de Janeiro, Garamond.

SIMMEL, Georg. 2013. “A tríade”. In: COELHO, Maria Claudia (org.). Estudos sobre interação: textos escolhidos. Rio de Janeiro, EdUERJ, pp. 45-74.

TROUILLOT, Michel-Rolph. 2001. “The anthropology of the state in the age of globalization: close encounters of the deceptive kind”. Current Anthropology, 42(1): 125-138. https://doi.org/10.1086/318437

VIANNA, Adriana. 2013. “Introdução: fazendo e desfazendo inquietudes no mundo dos direitos”. In: VIANNA, Adriana (org.). O Fazer e o Desfazer dos Direitos: experiências etnográficas sobre política, administração e moralidades. Rio de Janeiro, E-papers, pp. 15-35.

VIÉGAS, Rodrigo Nuñez. 2016. “O campo da resolução negociada de conflito: o apelo ao consenso e o risco do esvaziamento do debate político”. Revista Brasileira de Ciência Política, 21: 7-44. http://dx.doi.org/10.1590/0103-335220162101

Downloads

Publicado

2026-04-07

Edição

Seção

Artigos

Como Citar

Freire, L. de M. (2026). A ameaça da Justiça: o papel da mediação e da judicialização na gestão do direito à saúde. Revista De Antropologia, 69. https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.229312