Endividamento e reprodução social: uma etnografia das famílias do morro Garrincha (Vitória, Espírito Santo)

Autores

  • Timothée Narring

DOI:

https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.231220

Palavras-chave:

dívida, reprodução social, relações intergeracionais, gênero

Resumo

Esse artigo analisa o papel central do crédito na reprodução social das famílias do morro de um bairro popular de Vitória entre 2016 e 2021. Em um contexto de apertos exacerbados pela recessão, a etnografia sublinha a ampliação das dependências intergeracionais que se entrelaçam com as relações de gênero. No seio das famílias, as práticas financeiras giram em torno dos avós aposentados, especialmente das avós. Com seu acesso privilegiado ao crédito e a uma renda estável, elas desempenham um papel central, dando dinheiro e emprestando o nome para ajudar os descendentes. Essas movimentações financeiras fazem parte de uma circulação mais ampla de pessoas, de cuidados e de alimentos entre as casas. No cotidiano, gerir as dívidas exige descer e subir o morro para pagar e movimentar vários cartões de crédito entre as casas de parentes, fazer atividades e horas extras para conseguir pagar as mensalidades. Essas inúmeras atividades podem ser definidas como o “trabalho da dívida” (Guérin, 2023), ou seja, atividades que são tão necessárias para a reprodução social da família quanto para a acumulação financeira. Esse trabalho é moldado pela divisão de obrigações entre gerações e sexos, e redefinido, ao longo do tempo, de acordo com as trajetórias de trabalho, os arranjos familiares e os ciclos de vida. Partindo desse ponto,  este artigo contribui tanto para a antropologia da casa, ao colocar a dinâmica do endividamento no centro das “configurações de casa” (Marcelin, 1994), quanto para a antropologia da dívida, ao conceitualizar a família como um coletivo intergeracional endividado.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Referências

Badue, A.F., Bireiro, F.A., 2018. Economia do aperto : Bolsa família, dinheiro e dívida no dia-a-dia de mulheres paulistanas, in : Marques, A.C., Leal, N.S. (Eds.), Alquimias Do Parentesco. Casas, Gentes, Papéis e Territórios. Gramma/Terceiro Nome, Rio de Janeiro, pp. 101–132.

Banco Central do Brasil (BCB)., 2021a. Estatísticas Monetárias e de Crédito : Nota para Imprensa 1–. https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/hist_estatisticasmonetariascredito/202105_Texto_de_estatisticas_monetarias_e_de_credito.pdf

Braga, R., 2012. À Política do precariado : do populismo à hegemonia lulista. São Paulo : Boitempo.

Brandão, V., 2021. Crédito consignado: uma análise dos impactos dessa inovação financeira para o desenvolvimento econômico brasileiro. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política.

Candido, L.F., 2007., Crédito sob a ótica da terceira idade : significados da utilização do empréstimo pessoal para os idosos (End of course paper). Degree in Social Sciences at PUCR, Porto Alegre.

Cavalcanti, M., 2009. Do barraco à casa : tempo, espaço e valor(es) em uma favela consolidada. Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS) v. 24, 69–80. https://doi.org/10.1590/S0102-69092009000100005

Carsten, J., 1995. “The substance of kinship and the heat of the hearth: feeding, personhood and relatedness among Malays of Pulau Langkawi”. American Ethnologist, 22(2):223-41.

Carneiro, R (org.)., 2006. À supremacia dos mercados e a política econômica do governo Lula, São Paulo : UNESP.

Cortado, J.T., 2020. La maison des périphéries urbaines au Brésil: une institution du commun. Brésil(s). https://doi.org/10.4000/bresils.7726

Cottereau, A., Mokhtar Mohatar. M., 2012. Une famille andalouse : Ethnocomptabilité d’une économie invisible, coll. « Méditerranée ». Bouchene, Paris.

Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE), 2021. Nota técnica, Salario minimo necessario.

Fernandes V., 2019. Cuidando da Saude Financeira: Uma etnografia sobre Endívidamento (Tese de Doutorado). Universidade Federal de Rio de Janeiro-Museo Nacional, Rio de Janeiro.

Grin Debert, G., Araujo Guimarães, N. & Hirata, H. (2020). Vieillissement et inégalités sociales : le cas du Brésil. Retraite et société, 84, 97-120. https://doi.org/10.3917/rs1.084.0098

Hooks, B. Constituir um lar. Espaço de resistência. In: Anseios. Raça, gênero e Políticas culturais. São Paulo. Elefante. 2019.

Fine, M. 1998. Working the Hyphens: Reinventing Self and Other. In The Landscape of Qualitative Research: Theories and Issues. N. K. Denzin and Y. S. Lincoln eds. Pp. 130-155. Thousand Oaks: Sage

Feltran, G. (ed). 2022. Stolen Cars: a journey through São Paulo’s urban conflict.

Fraser, N., 2020. Crise du care ? Paradoxes socio-reproductifs du capitalisme contemporain dans : Bhattacharya, T. (Ed.). Avant 8 heures, Après 17 heures. Capitalisme et reproduction sociale. Blast, Toulouse, 41-65.

Galvao, A., et al., 2019. Reforma trabalhista : a precarização do trabalho e os desafios para o sindicalismo. Caderno CRH v. 32, 253–270.

Graeber, D., 2013. Dette : 5 000 ans d’histoire. Les Liens qui libèrent, Paris..

Guérin, I., 2023. The Indebted Woman. Standford University Press.

Guérin, I., 2018. Pour une socioéconomie de la dette, in : Farinet (Ed.), Pour Une Socioéconomie Engagée. Monnaie, Finance et Alternatives. Classiques Garnier, Paris, pp. 127–152.

Guérin, I., 2011. Le recours aux trajectoires de vie pour étudier les pratiques financières des ménages (document de travail).

Han, C., 2012. Life in Debt : Times of Care and Violence in Neoliberal Chile, 1st ed. University of California Press, Berkeley.

Kolling, M. 2021. Selling hope on credit: women’s livelihoods, debt and the production of urban informality in Brazil. Contemporary Social Science, 17(3), 262–275. https://doi.org/10.1080/21582041.2021.1919920

James, D., 2014. Money from Nothing : Indebtedness and Aspiration in South Africa, 1st ed. Stanford University Press, Stanford.

Lazzarato, M., 2011. La fabrique de l’homme endetté. Essai sur la condition néolibérale, 1st ed.AMSTERDAM. Paris

Lavinas, L., 2017. The takeover of social policy by financialization : the Brazilian paradox, 1st ed. Palgrave Macmillan, New York, N.Y.

Machado, R. F. As folhas vermelhas do mangue: uma etnografia sobre os mortos, a morte e a maré em Matarandiba (BA). 2019. Tese- Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. doi:10.11606/T.8.2019.tde-17092019-155646.

Marcelin, L.H., 1996. L’Invention de la famille afro-brésilienne : famille, parenté et domesticité parmi les noirs du Recôncavo da Bahia, Brésil (Thèse de Doctorat en anthropologie). Université fédérale de Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro.

Messu, M. 2019. La solidarité famíliale : Heurs et malheurs d’un syntagme « affectif ». Recherches famíliales, 16, 65-82. https://doi.org/10.3917/rf.016.0065

Motta, E., 2014. Houses and economy in the favela. Vibrant – Virtual Brazilian Anthropology v. 11, 118–158. https://doi.org/10.1590/S1809-43412014000100005

Motta, E., Neiburg, F., Rabossi, F., Müller, L., 2014. Foreword : Ethnographies of Economy/ics : Making and Reading. Vibrant : Virtual Brazilian Anthropology v. 11, 50–55. https://doi.org/10.1590/S1809-43412014000100002

Müller, L., 2014. Negotiating Debts and Gifts : Financialization Policies and the Economic Experiences of Low-Income Social Groups in Brazil. Vibrant : Virtual Brazilian Anthropology v. 11, 191–221. https://doi.org/10.1590/S1809-43412014000100007

Müller, L., 2012. Os grupos de baixa renda e o crédito no cenário brasileiro, in : Pinto, M.L.P., Pacheco, J.K. (Eds.), Juventude, Consumo e Educação 4 : Reflexões, Experiências e Diálogos Contemporâneos. Porto Alegre : ESPM, pp. 16–26.

Narring, T. 2022. Les fils partent, les dettes restent: Les économies morales de la dette dans une favela de Vitória (Espírito Santo, Brésil). Terrains & travaux, 41, 181-201. https://doi.org/10.3917/tt.041.0181

Narotzky, S., 2021. The Janus face of austerity politics: Autonomy and dependence

Neiburg F., 2010. Os sentidos sociais da economia. Horizonte das ciências sociais no Brasil–Antropologia. São Paulo : ANPOCS.

Neiburg F. & Guyer J. I., 2017. The real in the real economy. HAU: Journal of Ethnographic Theory 7 (3): 261-279.

Neiburg F., 2022. Buscando a vida na economia e na etnografia. Mana. 28 (2) :1-35.

Pina-Cabral, João de. 2007. “A pessoa e o dilemma brasileiro : uma perspectiva anticensurista. » Novos Estudos Cebrap, 18 :95-111.

Ossandón, J., 2017. « My Story Has No Strings Attached » : Credit Cards, Market Devices and a Stone Guest, in : McFall, L., Cochoy, F., Deville, J. (Eds.), Markets and the Arts of Attachment. Routledge, London, pp. 132–146.

Peebles, G., 2010. The Anthropology of Credit and Debt. Annual Review of Anthropology v. 39, 225–240. https://doi.org/10.1146/annurev-anthro-090109-133856

Pierobon, C., Fernandes, C. 2023. Cuidar do outro, cuidar da agua: gênero e raça na produção da cidade. Estudos Avançados, 37 (107); 25-44.

Pinheiro-Machado, R., Scalco, L. M., 2022. Le droit de briller : pauvreté, consommation et (dé)politisation dans le Brésil néolibéral. Journal of Consumer Culture.

Rivoal, I. and N. Salazar. 2013. Contemporary Ethnographic Practice and the Value of Serendipity. Social Anthropology 21(2): 178–185. DOI : 10.1111/1469-8676.12026

Roitman, J. L. 2003. “Unsanctioned Wealth; or, the Productivity of Debt in Northern Cameroon”. Public Culture 15(2): 211-37.

Saiag, H., 2016. Monnaies locales et économie populaire en Argentine. Karthala. Paris.

Tillmann, L. 2015. Friendship as Method. In Solidarity: Friendship, Family, and Activism Beyond Gay and Straight. L. Tillmann ed. Pp. 287-319.New York: Routledge.

Downloads

Publicado

2026-04-07

Edição

Seção

Artigos

Como Citar

Narring , T. . (2026). Endividamento e reprodução social: uma etnografia das famílias do morro Garrincha (Vitória, Espírito Santo). Revista De Antropologia, 69. https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.231220